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DIÁRIO DE ESCRITA - HERÓI DAS ESTRELAS

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DIÁRIO DE ESCRITA JOÃO SANTOS


Realizado por meio do Edital nº14/2020 - SELEÇÃO DE BOLSISTAS PARA AS ÁREAS ARTÍSTICAS, TÉCNICAS E DE PRODUÇÃO CULTURAL, com recursos da Lei Aldir Blanc.


Neste texto registra-se parte do processo de escrita dramatúrgica de “Herói das Estrelas – Outros Viram”. A seguir serão apresentados alguns relatos e trechos da produção, evidenciando-se os diferentes caminhos percorridos até o resultado apresentado.

JUNHO/2021 Em junho planejava desenvolver uma estrutura dramatúrgica mais aristotélica, definindo tempo/espaço, com personagens bem caracterizados e uma narrativa linear. Nesse intuito desenvolvi um exercício bastante comum em roteiros audiovisuais, nos quais parte-se de sinopses curtas que vão se detalhando e extendendo:

SINOPSE CURTA Durante o carnaval o menino Henrique é transportado para uma outra dimensão onde os salões do Hotel Glória (Caxambu), antes tomados pela folia, se encontram tristes e abandonados. Com a ajuda de novos amigos Henrique precisará resgatar o sentido da alegria para encontrar o caminho de volta para casa.

SINOPSE Henrique é um menino que ama tudo o que o Brasil tem de mais diverso: seus sons, cores e amores. Nada reflete isso melhor do que o Carnaval. Enquanto a folia é celebrada nos salões do Hotel Glória, em Caxambu, Henrique sem querer acaba atravessando um portal mágico aberto durante uma tempestade e é transportado para outra dimensão. Nesta realidade paralela o lugar, antes tomado pela música, pelo confete e serpentina, se encontra no mais sombrio e triste abandono. Aos poucos Henrique perceberá que este mundo, mesmo muito diferente, lembra o seu, assim como as figuras que o menino vai encontrando no lugar, cada uma mais estranha que a outra, lembram seus primos, sua irmã e seus amigos. Mas o que aconteceu com elas? Para onde foi parar o batuque e a festa? Tentando restaurar a alegria, Henrique vai descobrir o caminho de volta pra casa.

Ainda neste planejamento, busquei referências de outros textos que adotavam uma narrativa com uma estrutura semelhante àquela que buscava, então, desenvolver.


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SITUAÇÃO UM: Personagem em um contexto naturalista, cotidiano. Enfrenta um conflito.

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SITUAÇÃO DOIS: Um evento extraordinário transporta o protagonista pata outro universo, mágico, onde criaturas oníricas apresentam paralelos com os eventos cotidianos apresentados anteriormente na vida comum do protagonista.

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SITUAÇÃO TRÊS: Neste universo mágico o personagem terá que enfrentar uma jornada e desafios extremos até voltar para casa, criando novas amizades no percursos e adquirindo novos e importantes aprendizados.

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FINAL: Protagonista volta pra casa transformado, mais apto a enfrentar os conflitos de casa.

Dois textos que analisei, identificando esta estrutura, foram “O Mágico de Oz” (L. Frank Baum) e “Peter Pan”( J. M. Barrie) :

ESTRUTURAS REFERENCIAIS

MÁGICO DE OZ Dorothy é uma menina de 11 anos que mora com seus tios em uma fazenda do Kansas. Após uma vizinha implicar com seu cachorrinho Totó ela foge de casa, querendo protege-lo. No caminho ela encontra um vidente que a convence a voltar para casa, pois viu em sua bola de cristal que sua tia não estaria bem. Quando Dorothy chega ao lar, porém, um gigantesco tornado arrasta a casa da menina, com ela dentro, para o mundo de Oz. A casa cai sobre a temida Bruxa má do Leste, e Dorothy é recebida pelos Muchkins, o povo de Oz, como uma heroína, herdando inclusive os sapatinhos rubi da feiticeira. Ameaçada pela Bruxa má do Oeste, de quem matou a irmã, Dorothy é aconselhada por Glinda, a Bruxa boa do Sul, a procurar o Mágico de Oz se quisesse voltar para casa. Para encontrá-lo ela deveria seguir pela estrada de tijolos amarelos. Em seu caminho, sempre acompanhada por seu cachorrinho Totó, Dorothy faz três grandes amigos. Um Espantalho sem cérebro, um Leão sem coragem e um Homem de Lata sem coração. Todos se unem à menina, acreditando que o Mágico de Oz poderia solucionar suas incompletudes.


Ao conseguir falar com o Mágico de Oz, porém, ele diz à menina que só poderia ajuda-la em troca da vassoura da Bruxa Má do Oeste. Dito isso, Dorothy e seus amigos partem para a casa da Bruxa. Os amigos enfrentam perigos para chegar até a Bruxa, que captura Totó e coloca fogo num dos braços do Espantalho. É isso que faz com que Dorothy jogue água sobre o amigo, atingindo também a Bruxa, sem saber que água era justamente seu ponto fraco. Ela derrete. Ao voltar para a Cidade das Esmeraldas com a vassoura, o mágico demonstra que o espantalho tinha sim cérebro, por ter planejado a invasão da casa da Bruxa, o Leão era sim corajoso por ter defendido Dorothy e o Homem de Lata também tinha sentimentos, por se preocupar com a amiga. Glinda ressurge e revela a Dorothy que ela sempre teve o poder de voltar para o lar, bastaria bater os calcanhares. Dorothy acorda em seu quarto, cercada dos tios, Totó e os amigos da fazenda, em quem ela percebe semelhanças com os amigos de Oz.

PETER PAN Wendy não quer mudar do quarto de seus irmãos e se tornar adulta. Ela, João e Miguel são visitados por Peter Pan e Sininho, e viajam com eles para a Terra do Nunca, onde as crianças não crescem. Wendy se torna de certa uma mãe para as crianças. Na Terra do Nunca as crianças começam a perder as memórias de seus pais e seu mundo. Lá eles vivem aventuras ao lado de Peter, cruzando com fadas, sereias e indígenas (!). Mas são os piratas, chefiados pelo Capitão Gancho, os grandes inimigos de Peter. Um dia, contando histórias para as crianças, Wendy se lembra dos seus pais e deseja voltar para casa. Mas ela e seus irmãos são capturados pelos piratas. Mas são resgatados por Peter, que lança capitão Gancho para o crocodilo, assume o navio e o guia de volta a Londres. Os pais de Wendy adotam as Crianças Perdidas e Wendy tem permissão para passar uma semana por ano na Terra do Nunca, mas acaba crescendo.

Seguindo a lógica dos exercícios extensivos tentei desenvolver, depois da sinopse curta e da sinopse longa, uma versão em prosa do texto. Antes disso, porém, tentei esquematizar em tópicos, a partir da estrutura perseguida, minha narrativa:

ESQUEMA - Menino tímido sem amigos - viaja com a família para Caxambu em Fevereiro - Recreadora Ialorixá - Hotel Glória sob nova gerência: nova proposta de carnaval valorizando a “cultura conservadora mineira”


- Primos planejam alguma travessura contra a nova administração, Henrique se recusa a cooperar - Avô convence Henrique a explorar a ala abandonada do hotel, conta que a diversidade e alegria sempre foram parte da nossa cultura. Explica a Amálgama. - Descobrem um comitê fascista para acabar com o carnaval - Avô é entregue como bêbado demente à família - Henrique foge de noite e persegue entidades sagradas pelos corredores - Encontra frutas de cera, pedaços de chita, camisas listradas, um charuto...encontra um recorte de jornal - No concurso de canções tradicionais se inscreve de última hora, lê a notícia: ali Getúlio pede a Carmen Miranda que só aceite viajar para os EUA levando os músicos do Bando da Lua - Canta um samba

HERÓI DAS ESTRELAS – VERSÃO EM PROSA

Henrique era um menino que amava a mistura, amava a música e amava a bagunça. Se alguém criticava, Henrique elogiava. Se outro alguém dizia que nada nesse país dava certo, Henrique protestava que sim, dava! Se penteavam seu cabelo, Henrique despenteava. Se queriam ele sério dentro de um uniforme, Henrique vestia uma capa de estrelas, um cinto de cometas, e brincava! Henrique gostava dos bichos, dos livros e das matas. Gostava de ouvir batuque e louvor cristão. Gostava de salada, de arroz, farofa e feijão. Gostava do outono, da primavera, do inverno e do verão. O que é que Henrique não gostava? Henrique não gostava de arrumar o quarto depois que a brincadeira acabava. Se a mamãe falava: Livros na estante! Roupas na gaveta! Brinquedos no armário! Henrique protestava: Não, não, não quero ouvir mais você falar!

Henrique sempre queria mais cor, mais música, mais diversão!


“Eu sou o profeta do caos!”, Henrique gritava. O que Henrique ainda não havia descoberto é que Kaos com K não é igual Caos com C.

“Esse menino devia ser uma peste!”, talvez você aí esteja pensando. Mas Ele era só um garoto que pelo mundo tinha fascínio. Poesia, música, cinema, tudo ele amava. E mesmo adorando contar histórias, o menino também sabia a hora de se calar e prestar atenção. HENRIQUE: - Qual é a sua festa favorita? A minha acho que é a Páscoa. Não, não! É o 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Ou será o Natal? O são João!

Logo Henrique se lembrava da maior festa de todas, a mais brasileira celebração. Na lista de festas favoritas, aquela que não tinha rival, o maior espetáculo da terra.

HENRIQUE: - Minha festa favorita? Minha festa favorita? O Carnaval!!! Vocês conhecem Caxambu? Henrique tinha um tio que adorava passear em Caxambu. É uma cidade que fica no estado de Minas Gerais. Lá tem um parque com lagoa, patinhos, teleférico e pedalinhos. Tem também fontes de águas que brotam do fundo da terra. Águas com propriedades curativas! Mas o que o tio de Henrique gostava mesmo em Caxambu era do Hotel Glória. CAMAREIRO: O Hotel Glória é uma construção datada de 1933. O edifício em estilo Art-Decó oferece amplas instalações para os hóspedes, um belíssimo foyer, quadra poliesportiva, duas piscinas climatizadas, sala de jogos, auditório e um amplo salão de jantar com buffet nacional e internacional que inclui também as mais deliciosas iguarias da gastronomia mineira.

TIO: - Tô louco é pela sobremesa! Tem doce de leite?

Henrique conhecia Caxambu e o Hotel Glória porque seu tio ia todo ano, todo ano a Caxambu. Mas de vez em quando a mamãe e o papai também animavam. Aí todo mundo juntava a trouxa e a Parati da mamãe caía na estrada: o tio, a tia, vovô e vovó, seus primos, mamãe no volante, papai na carona, Henrique e sua irmã Suzana no porta-malas.


SUZANA: - No porta-malas?

HENRIQUE: - Naquela época a gente não sabia o quanto isso era perigoso. Lugar de criança no carro é na cadeirinha. E todo mundo de cinto, hein garotada?

Naquele ano foi desse jeitinho. A família toda em fevereiro, no Hotel Glória, curtindo o feriado.

HENRIQUE: - Peraí! Feriado em fevereiro? Só pode significar uma coisa! “Fevereiro...tem Carnaval”!!

Se o menino já ficava doido com o Parque, o teleférico, a piscina aquecida, os patinhos, a sinuca, o doce de leite, os pedalinhos e até a água mineral.

CAMAREIRO: - Dizem que essa aqui cura a ressaca

HENRIQUE: - Eu quero, eu quero, eu queeeerooo!!

Vocês não imaginam o deslumbre, o fascínio, o deslumbramento do menino com o Carnaval!

HENRIQUE: -AAaaahhHHHhhh!!!

SUZANA: - Henrique, qual é o seu cantor favorito?


HENRIQUE: - O Gilberto Gil. Calma! O Jorge Benjor...”fevereiro, fevereiro!”. Ou o Caetano? É o Little Richard! O Ney! O Ney Matogrosso. O Moraes Moreira. O Zé Ramalho. Jorge Ben! Roberto! Erasmo! É o Caetano! Caetano Veloso. O Gil, o Gil! É o Gilberto Gil!

SUZANA: - Isso porque ele nem contou com as cantoras...

HENRIQUE: - Aracy de Almeida, Janis Joplin, Gal, Bethânia, Rita, Nara, Elis, Céu, Karina, Tulipa, Anelis, Maysa...Meu mundo caiu!

É, esse menina gostava de música. De festa. De carnaval!

HENRIQUE: - Caos!!!

E era o dia inteiro na folia. Olha lá que até o vovô caiu no samba! Todo mundo na rua cantando e dançando! Mas a mamãe além de curtir ficava ligada: MAMÃE: - Henrique, não desgruda!

E ele por acaso queria desgrudar? Queria mesmo todo mundo pertinho brincando, curtindo!

HENRIQUE: - Como pode achar que nada dá certo no país? Olha isso aqui!

Todo mundo misturado celebrando. Uma coisa doida! Uma explosão! Uma só pulsação. Um mesmo ritmo na batida de cada coração. Uma...uma...amálgama!

HENRIQUE:


- Essa eu sei! Amálgama é quando você junta várias coisas em uma! Amalgamar é mais ou menos isso: misturar! E essa coisa que é a mistura de muitas outras fica mais forte. Que nem azul e amarelo dá verde esmeralda. Tipo...tipo uma liga metálica ultra-resistente de mercúrio, bronze, titânio, adamantium e prata! Amálgama é chiclete com banana, é heavy metal com samba, é mamãe, papai, Henrique e Suzana!

MAMÃE: - Henrique, não desgruda!

Naturalmente, neste exercício de escrita em prosa, começaram a surgir diálogos que já apontavam possibilidades dramatúrgicas. Este primeiro caminho do texto, esta fábula, chegou a ganhar até uma primeira versão acabada. Posteriormente, porém, um novo caminho completamente diferente foi desenvolvido. Deixo, porém, esta primeira versão do texto, desenvolvida entre janeiro e junho de 2021, para fins de pesquisa e registro, a quem interessar possa. Cheguei mesmo a alterar o nome da peça para “Está proibido o Carnaval”:

ESTÁ PROIBIDO O CARNAVAL

Ele era um menino muito quietinho. Quieto até demais. Sua primeira amiguinha na escola foi uma aluna estrangeira que só falava chinês. Ele não falava chinês, então era uma amizade sem muita conversa. Quando sua amiga teve que voltar pra China, ele ficou sem amigo nenhum. PROFESSORA: - Eu ando muitíssimo, mas muitíssimo preocupada com o Henrique. MAMÃE: - Aconteceu alguma coisa com ele, professora? Ele é tão bonzinho em casa! PROFESSORA: - Bonzinho até demais! Aí justamente que está o problema! Acho que o filho da senhora, permita-me ser bem franca, tem algum distúrbio social. O ritmo do desenvolvimento das relações dele com os coleguinhas da turma não é, definitivamente não é, normal. Distúrbio social? A professora achava que o menino, por ser muito quietinho e não conversar com os colegas, tinha algum tipo de problema. Será que ele tinha mesmo? Em casa a mãe nunca tinha se preocupado, porque assim que


terminava a lição ele ia brincar com o Tatá, filho da vizinha que tinha a mesma idade que ele. E mesmo sendo um pouco mais novo, ele também sempre se deu muito bem com os primos e a irmã Suzana. Aos finais de semana, na casa da avó, era o dia inteiro brincando com a cachorrada vira-lata do sítio. PAPAI: - Será que procuramos um psicólogo? MAMÃE: - Eu só não quero que ele sofra...será que se sente desencaixado na escola?

Vocês conhecem Caxambu? Henrique tinha um tio que adorava passear em Caxambu. É uma cidade que fica no estado de Minas Gerais, o mesmo estado em que o Henrique morava. Lá tem um Parque muito bonito com lagoa, patinhos, teleférico e pedalinhos. Tem também fontes de águas que brotam do fundo da terra. Águas com propriedades curativas! Mas o que o tio de Henrique gostava mesmo em Caxambu era de ficar hospedado no Hotel Glória.

CAMAREIRO: O Hotel Glória é uma construção datada de 1933. O edifício em estilo Art-Decó oferece amplas instalações para os hóspedes, um belíssimo foyer, quadra poliesportiva, duas piscinas climatizadas, sala de jogos, auditório e um amplo salão de jantar com buffet nacional e internacional que inclui também as mais deliciosas iguarias da gastronomia mineira. TIO: - Eu tô de olho é na sobremesa! Tem doce de leite?

O tio do Henrique ia todo ano, todo ano a Caxambu. Mas de vez em quando a mamãe e o papai também animavam. Aí todo mundo fazia a mala e a Parati da mamãe caía na estrada: o tio, a tia, vovô e vovó, seus primos, mamãe no volante, papai na carona, Henrique e sua irmã Suzana no porta-malas.

SUZANA: - No porta-malas?


Naquela época não se sabia o quanto isso era perigoso. Lugar de criança no carro é na cadeirinha. E todo mundo de cinto, hein garotada? Naquele ano foi desse jeitinho. A mamãe e o papai conversaram e acharam que seria bom fazer um passeio assim, em família. E em fevereiro foram todos pra Caxambu, pra ficar no Hotel Glória e curtir o feriado.

SUZANA: - Mamãe eu quero fantasiar de cientista. MAMÃE: - Mas minha filha você ia ficar tão linda de bailarina. SUZANA: - Não mamãe eu quero ser astrofísica. Ou arqueóloga. Ou engenheira hídrica! MAMÃE: - Mas como fantasia disso minha filha?

Fevereiro, quem aí sabe o que é que tem? Fevereiro...tem carnaval!

VOVÓ: - Suzana, você não quer ir de colombina? Ou princesa? VOVÔ VADINHO - Quer ir de cientista, vai de cientista, uai! É o que, minha neta? Astróloga? SUZANA: - Astrofísica! VOVÔ VADINHO: - Vai ser a astrofísica mais linda de Caxambu! SUZANA: - E a mais inteligente!

Henrique quietinho no canto só ouvia falar desse carnaval. Uma festa em que todo mundo brincava junto: crianças e adultos, cantando e dançando noite e dia, cada um usando uma fantasia. Henrique adorava se fantasiar. Se às vezes se sentia desencaixado, de uniforme, era só vestir uma capa de estrelas, um


cinto de cometas, colocar nos dedos os fulgurantes sete anéis de saturno e, fantasiado, se sentia mais parte do mundo. Seu primo Aguiar queria ir vestido de Homem-Aranha, o irmão dele, o Nelson, de Vampiro. AGUIAR: - Vovô, você vai de soldado?

O avô do Henrique era uma figura! Vovô Vadinho animava qualquer ambiente, era o famoso entrosa fácil. Que facilidade ele tinha de puxar assunto com desconhecidos e, de repente, fazer um novo amigo! E quem poderia imaginar que aquele senhorzinho de bem com a vida tinha sido um veterano de guerra? É! Muito, mas muito tempo atrás, muito antes do Henrique ou de qualquer um de vocês terem nascido, vovô Vadinho tinha sido um pracinha da FEB e foi para Monte Castello lutar contra o fascismo.

NELSON: - Num entendi nada. SUZANA: - Vovô é um herói, seu bobo! AGUIAR: -Mas como assim pracinha? Vovô deu nome pra praça? SUZANA: - Ainda não, mas deveria! VADINHO: - Pracinhas é como se chamavam os soldados da Força Expedicionária Brasileira. Nós, que partimos desse nosso país maravilhoso para lutar a Segunda Guerra Mundial na fria Europa. Naquela época o mundo estava ameaçado por líderes muito mais que tenebrosos. Fala aí um vilão dos seus filmes de super-herói, Aguiar! AGUIAR - Hmm...o Lóki! Não, o Thanos! Não não, o Ultron! VADINHO - Nenhum deles chega perto de Adolfo Hitler e Benito Mussolini. Os fascistas queriam uma Europa branca, pura, queriam eliminar a diversidade. Acabar com os judeus, os ciganos, os deficientes, os marxistas, os homossexuais, os negros...os artistas!


SUZANA: - Queriam acabar com todo mundo então! VADINHO: - Praticamente! Se não com todo mundo, com toda a graça e beleza do mundo. Mas foram derrotados. É preciso, porém, ficar sempre atento à ameaça de renascimento do fascismo! Porque ainda restam imbecis que pensam como eles, sempre prontos a atacar. São muito piores que qualquer um desses vilões de cinema, e são reais! MAMÃE: - Papai, não assuste as crianças! VADINHO: - Mas respondendo a sua pergunta, a minha farda está muito bem guardada. E se a Suzana vai de cientista, acho que sobrou pra mim a fantasia de bailarina!

Vovô de vez em quando vinha com uns assuntos sérios, puxava a orelha dos filhos e dos netos, mas era muito mais comum ele arrancar gargalhadas!

HENRIQUE: - Tá chegando? MAMÃE - Já passamos de Três Corações SUZANA: - E agora? MAMÃE: - Baependi HENRIQUE: - Falta muito? MAMÃE: - São Lourenço. VADINHO: -Tá chegando, tá chegando, tá chegando? MAMÃE: - Finalmente: Caxambu!!


Enquanto mamãe e papai davam entrada na recepção, as crianças mal continham a empolgação! Queriam correr para o quarto e separar as fantasias, além do confete e serpentina. O baile seria no dia seguinte. Mas o titio, que ia todo ano, reparou que algumas coisas estavam diferentes. Àquela altura o salão já deveria estar decorado! CAMAREIRO: - O...o Hotel Glória está sob nova administração. As fes....festividades de fevereiro te-re-re-rão novos formatos. A gerência em breve deverá anunciar pelos auto-fa-fa-fa-lantes.

O velho Luizinho era o chefe dos camareiros. Ele conhecia aquele hotel como a palma da sua mão, parecia que sempre estivera ali. Conhecia bem o titio e também seus filhos, os primos de Henrique, Nelson e Aguiar.

CAMAREIRO: - Crianças! Crianças! Atenção! O Hotel está sob no-no-nova direção! Eu tô de olho, nada de correria nos corredores, nada de bagunça nem confusão. Senão, socorro, sou eu que vou ter que me ver com a fúria do patrão!

E assim que o Camareiro Luizinho terminou de falar todos tomaram um susto com o som estridente e agudo saindo caixas de som. “Aviso da gerência aos hóspedes! Atenção, atenção! É com enorme satisfação que a gerência anuncia o novo formato das festas de fevereiro. Visando corresponder aos bons costumes dos nossos hóspedes, cidadãos de bem, combater a vulgaridade e a indisciplina, o carnaval será substituído por um sarau parnasiano e um baile de valsas!”

Um enorme silêncio cortou o hotel. As crianças ficaram paralisadas com a notícia.

“É preciso propagar para a juventude outros costumes diferentes destes que a mídia divulga a tantos anos. Costumes conservadores, tradicionais, comportados. Recomenda-se para o evento o traje passeio completo, formal. Grato por sua atenção, a administração.”


Foi como se o mundo tivesse desabado para Suzana, Nelson, Aguiar e Henrique. Os adultos, porém, estavam cansados da viagem e só pensavam em relaxar.

TITIO: - Vou logo colocar meu calção e ir direto pra piscina aquecida. PAPAI: - Vamo nessa!

Só uma pessoa poderia resgatar as crianças da tristeza que se abateu sobre elas: Lúcia! Era a dona daquele sorriso iluminado. Uma jovem funcionária do Hotel que trabalhava na recreação.

LÚCIA - Crianças! Que bom que vocês vieram! AGUIAR E NELSON - Lúúúciaaa!! LÚCIA: - Que saudades! E vocês devem ser os primos...Suzana e Henrique, certo? Muito prazer! SUZANA: - O prazer é todo meu. Você é muito linda! LÚCIA: - Você que é! E só de ver esses olhinho curiosos já sei que além de bonita é inteligente! SUZANA: - Já quero ser sua amiga! LÚCIA: - E você deve ser o famoso Henrique, o caçulinha da família?

Henrique, vocês sabem, não tinha muita facilidade em fazer amigos. Mas ao ver Lúcia ele não sentiu nem sinal daquele medo que sentia ao falar com os outros. Ela tinha um ar de calma e serenidade, um brilho nos olhos e aquele sorriso...que luz era aquela? Ela se aproximou do menino e lhe deu as mãos e falou com as crianças.


LÚCIA: - Agora não vamos mais pensar em tristeza. Se os adultos não querem brincar o carnaval, nós vamos brincar o feriado inteiro, o que acham?

E foi dito e feito! Brincaram tanto naquele dia! Foram ao Parque das Águas, subiram no teleférico e experimentaram todas as águas minerais. Lúcia ia contando às crianças sobre as plantas, sobre as fontes e sobre a história da cidade. Andaram nos pedalinhos, deram comida aos patos e depois voltaram ao hotel. Nadaram na piscina aquecida, desenharam e depois foram para a sala de jogos, onde jogaram totó e ping-pong. As crianças então foram para o quarto se arrumar para o jantar, abraçaram Lúcia e combinaram de se ver no outro dia para brincar mais. Foi no quarto dos primos que o assunto do Carnaval voltou.

NELSON - Às vezes eles tem razão, Carnaval não é coisa de carioca? AGUIAR: - Nelson, eu sou o mais velho aqui e desde que me entendo por gente tem carnaval em Minas Gerais. Como é que pode agora não ter?

Quem esteve por perto durante o dia inteiro foi o vovô Vadinho. Ele também estava ali no quarto, fingindo que ouvia o jogo do Atlético Mineiro no rádio, mas na verdade atento à conversa das crianças.

SUZANA: - A gente precisava sabotar esse tal baile de valsa. Vão querer até que eu prenda meu cabelo e use vestido, eu odeio vestido! NELSON: - A gente tinha mesmo que aprontar alguma. Que tal espalhar bolinhas de gude no salão? SUZANA: - Alguma senhorinha inocente ia acabar caindo e quebrando o pescoço. NELSON:


- E se enchêssemos balões de confete e espalhássemos pelo hotel inteiro? SUZANA: - Essa ideia já achei melhor. E poderíamos baixar marchinhas de carnaval no seu celular, Aguiar, e na hora do baile conectarmos ele, escondidos, nas caixas de som! NELSON: - Isso! Estourarmos os balões e aí... SUZANA E NELSON: - “Alalaô, ô Ô Ô, ô Ô Ô! Mas que calor, ô Ô Ô, ô Ô Ô!” AGUIAR: - Muito boa a ideia em teoria, gente, vocês só esqueceram de um detalhe. NELSON: - Qual? AGUIAR: - A gente é carta marcada, Nelson! Não lembra do que o Luizinho falou com a gente na hora que chegamos? Já nos conhece, já tá de olho na gente. E a Suzana não ia conseguir fazer isso tudo sozinha. SUZANA: - É, realmente sozinha eu não ia dar conta. Mas alguém neutro, acima de qualquer suspeita, bem que poderia me ajudar...

Ao falar isso Suzana se virou pro irmão, Henrique, que estava caladinho apenas observando a conversa. Seus primos Aguiar e Nelson rapidinho entenderam a sugestão.

HENRIQUE: - Eu? Me meter numa confusão dessas? Sai fora! AGUIAR: - Qual é pirralho, você também tava doido pra curtir o baile de carnaval. HENRIQUE: - Tava sim, mas não quero levar bronca nem ficar de castigo. NELSON:


- Ihhh gente, ele é medroso. HENRIQUE: - Não sou medroso, só não gosta de bagunça! SUZANA: - Irmão, eu sei que você ia adorar o carnaval. Você vai mesmo deixar que esse gerente maluco acabe com o baile? HENRIQUE: - Não gente, não não não! Não vou participar dessa de jeito nenhum. AGUIAR: - Podem desistir que esse aí já deve até estar ensaiando uma valsa. Nunca vai entender o carnaval. NELSON: - Poxa, pirralho. Esperava mais de você. AGUIAR: - Ei, já tomei meu banho, que tal a gente jogar mais uma partida de totó enquanto não dá a hora do jantar? SUZANA: - Vamos lá, eu contra vocês dois, encaram?

Henrique se levantou acompanhando a irmã e os primos, mas foi surpreendido por Aguiar.

AGUIAR: - Você não pirralho. A partida vai ser só pra não faz mais xixi na cama!

Aguiar pegou pesado! Henrique realmente já tinha tido alguns problemas de noite, quando chovia ou quando bebia muita água antes de deitar. Mas já fazia tanto tempo! Mesmo assim sentiu que sua companhia não era querida, e ficou triste e sozinho no quarto. Epa! Sozinho? Sozinho não! E o vovô Vadinho? Percebendo que o neto caçula tinha ficado triste, abandonado pela irmã e os primos, o vovô foi mudando a sintonia do rádio até encontrar um samba. Começa a cantar e é acompanhado por Henrique:


“Tens um olhar que me consome Por caridade meu bem me diga teu nome Em perguntar penso que não faço mal Tens um olhar que nunca vi outro igual” (Me diga Teu Nome – Ismael Silva) VADINHO: - Não fica assim, Henrique. Seus primos estão chateados porque queriam muito o carnaval. Mas não é você o culpado pelas decisões desse gerente maluco. HENRIQUE: - Você também acha que o Carnaval tem que ser cancelado, vovô? VADINHO: - De jeito nenhum! E aquele bobo do seu primo falou uma bobagem: ele não era o mais velho aqui porque esse sou eu! Mas assim como ele, eu também, desde que me entendo por gente, curto a folia! Escuta, Henrique, eu tive uma ideia. Você sabia que o Hotel Glória tem uma ala abandonada? O que você acha de irmos lá procurar alguma pista de outros carnavais? HENRIQUE: - Será que assim a gente convence o gerente a fazer o carnaval? VADINHO: - Olha, eu conheço bem o jeitinho desse gerente, viu? Mas quem sabe? Vamos lá?

Henrique e o vô Vadinho saíram pelos corredores do Hotel Glória, assoviando sambas imortais. O avô ficou surpreso com quantas músicas o neto conhecia! E aproveitou para ensinar algumas novas. Passaram pelos pais do menino na piscina, deram um tchauzinho pra Suzana e os primos na Sala de Jogos e cumprimentaram tranquilamente o camareiro.

VADINHO: - Boa tarde! HENRIQUE: - Oi! LUIZINHO


- Ó-ó-ótima tarde!

De repente o vovô parou ao lado de uma portinha. Olhou em volta, assoviando para disfarçar, esperou duas hóspedes que estavam passando se afastarem, e rapidamente abriu a portinha para os dois entrarem correndo! A ala abandonada do Hotel Glória! Vocês, se estivessem lá, talvez ficassem com medo. Tinha muita coisa ali que parecia ter ficado congelada no tempo. Tinha muita poeira em tudo. Passando pelos corredores, algumas portas abertas revelavam camas ainda arrumadas. Vocês já viram algum filme de terror que passa em um lugar assim, um hotel clássico, antigo? Mas Henrique não estava assustado porque estava com o vovô, afinal, um herói de guerra! Se nem Adolfo Hitler pode com ele, quem poderia ameaça-los? Mas o menino levou um susto quando seu avô parou de repente e pediu silêncio.

VADINHO: - Shhhiii! Henrique, você está ouvindo isso? Tem mais alguém aqui!

O menino afiou os ouvidos e também ouviu. Era música! Um batuque ritmado. De onde vinha? Ele e seu avô foram devagar perseguindo aquele som que aos poucos foi se revelando maravilhoso. Alguém estava ensaiando um instrumento. Henrique achava ser um tambor. Chegaram perto de uma porta entreaberta que dava para um jardim. Se aproximaram e olharam pela fresta.

HENRIQUE: - Lúcia!!

Sim, era a funcionária do hotel com quem as crianças brincaram o dia inteiro. Estava ali ensaiando o toque de um atabaque e levou um susto enorme ao perceber que estava sendo observada.

LÚCIA: - Henrique? Seu Osvaldo? O que é que vocês estão fazendo aqui??? VADINHO: - Ué, dando uma voltinha. LÚCIA:


- Seu Osvaldo, essa ala do hotel está abandonada e o acesso é proibido. VADINHO: - Mas e o que é que você também está fazendo aqui, então? LÚCIA: - Eu sou uma funcionária, eu tenho acesso às áreas restritas. VADINHO: - E por acaso você está desempenhando uma atividade relacionada ao seu trabalho aqui no Hotel? LÚCIA: - Não, mas... VADINHO: - E por acaso você está em seu horário de trabalho? LÚCIA: - Não, mas... VADINHO: - Eu acho então que você não tem mais razão em estar aqui do que eu, Lúcia. LÚCIA: - Não queira nem comparar, seu Osvaldo! O senhor está aqui submetendo sua integridade física e a de uma criança a risco. VADINHO: - Risco? Que risco a gente poderia ter aqui? LÚCIA: - De algum desabamento. VADINHO: - Essas paredes são sólidas como rocha! (bate em uma parede) LÚCIA: - Risco de...de...ataque de algum animal selvagem! VADINHO: - Só se for ataque de algum patinho do Parque das Águas que tiver invadido o Hotel Glória!


Lúcia e o Vô Vadinho nem perceberam Henrique se aproximar, quase hipnotizado, do atabaque. O instrumento exercia um magnetismo mágico no menino. Diante dele, Henrique fechou os olhos e respirou profundamente. Devagar, levantou as mãos ao céu. De repente, como se movido por uma força estranha vinda de algum outro lugar, de algum outro tempo, começou a batucar. Ele nunca tinha tocado antes, e é claro que não sabia tocar direito. Mas tentava imitar o batuque que ouvira das mãos de Lúcia quando chegou ali. E aquele som cheio de energia não só interrompeu a discussão dos dois adultos como causou neles uma grande surpresa. Não é que aquele menino quietinho tinha ginga. Não conseguiram se controlar e começaram a dançar! Vovô Vadinho começou a cantar!

VADINHO: - Joujoux, joujoux? - Que é meu balagandã? - Aqui estou eu - Aí estás tu - Minha joujoux - Meu balagandã

Lúcia começou a acompanhar!

LÚCIA: - Nós dois - Depois O sol do amor que manhãs

VADINHO: - De braços dados - Dois namorados

LÚCIA: - Já sei Joujoux


VADINHO: - Balagandãs

VADINHO E LÚCIA: Seja em Paris Ou nos Brasis Mesmo distantes Somos constantes Tudo nos une Que coisa rara No amor nada nos separa

Uma porta bateu logo que eles terminam de cantar a marchinha. Assustados, Lúcia, Henrique e o Vovô Vadinho ouviram passos se aproximando. Se olharam e correram para procurar um esconderijo. Um estrangeiro com forte sotaque americano conversava com o gerente do hotel.

O BUSINESSMAN: - Wonderful, Mr. Salgado! Maravilhoso! Mas como fica a questão do tombamento do edifício? O GERENTE: - Olha, no tocante a isso será necessário um pequeno investimento extra-oficial, se é que o senhor me entende. O BUSINESSMAN: - Oh...a little tip, right? Propina, uma gorjeta, é isso? O GERENTE: - Molhar a mão dos vereadores, wet the hand. Aí a gente acaba de uma vez com esse tombamento...e tomba logo esse lugar macabro. O BUSINESSMAN: - Well, se o senhor assumir a inteira responsabilidade da negociação, por mim não ter problema. Você sabe que para nossa enterprise é bastante interessante instalar a fábrica de refrigerantes so close, so near...ah...tão...tão perto das fontes de água mineral. Wonderful! O GERENTE:


- E para a cidade vai ser um privilégio contar com uma empresa, uma enterprise de tanto renome instalada aqui. Esse lugar está abandonado a décadas, uma ótima oportunidade para por isso tudo abaixo. Quem sabe em breve vocês não expandem a fábrica e ocupam a área inteira desse hotel decadente. O BUSINESSMAN: - Mas eu pensar que o senhor tinha outros planos para o hotel. Don’t you belive, você não acredita no futuro do estabelecimento? O GERENTE: - A propriedade tem até um certo valor arquitetônico, é bem estruturada, mas é difícil investir nesse país. Você sabe, o brasileiro é preguiçoso, não tem ambição e nem entre os funcionários eu consegui superar certas questões que me incomodam bastante (passa o dedo sobre a pele do braço, referindo-se à cor). O BUSINESSMAN: - Não sei se concordar com o senhor, mas o negócio será ótimo para minha enterprise, então deixemos de lado nossas discordâsncias raciais. O GERENTE: - Apenas cá entre nós, longe de mim querer lidar com o mi mi mi desse povinho chato. O BUSINESSMAN: - E eu achar que iria conhecer o famous carnival brasileiro, não é em fevereiro? O GERENTE: - Sim...mas estamos no esforço de combater a cultura vulgar que tem prevalecido no Brasil. O senhor sabe que temos também uma formação conservadora, tradicional. Amanhã, ao invés de festejos obscenos, pagãos, vamos promover um baile de valsas e um recital de poesia parnasiana. O BUSINESSMAN - Oh, que pena. Mas por mim ok.

Ah situação era muito pior do que parecia! O Sr. Salgado, novo gerente do Hotel, não era apenas um inimigo do carnaval, ele era um inimigo do próprio hotel, dos seus funcionários e da cidade!

VADINHO (SUSSURRANDO):


- Racista desgraçado! Conheço bem o tipo! E negociando a instalação de uma fábrica de refrigerantes para sugar as fontes sagradas do Parque das Águas!

O vovô ficou tão nervoso com aquela situação e se esticou tanto para ouvir o que os homens estavam conversando que, em um descuido, pisou em falso e caiu. Na queda tentou se segurar em uma toalha de mesa, mas acabou derrubando copos, pratos e talheres, fazendo um barulhão. O BUSINESSMAN - What? O que ser isso? Spies? O GERENTE - Quem está aí? Ao mesmo tempo que Lúcia ajudava, com Henrique, o vovô a se levantar, ela tentava se explicar.

LÚCIA: - Boa tarde Sr. Salgado. Mil...mil desculpas. Tá tudo bem com o senhor, seu Vadinho? O GERENTE: - O que você está fazendo aqui, Lúcia? LÚCIA: - Eu...eu estava apenas matando a curiosidade dos hóspedes. Este aqui é o Henrique, hospedado no 203, e seu avô, senhor Osvaldo. O BUSINESSMAN: - Que mulher leinda! Está tudo bem com você, old man? Qual ser seu nome, miss...? LÚCIA: - Lúcia, prazer. O BUSINESSMAN - Nice to meet you! O GERENTE: - Lúcia, que ideia absurda é essa! Você sabe perfeitamente que o acesso a essa ala é proibido aos hóspedes. E você tampouco tem autorização para estar aqui. LÚCIA:


- Perdão, Sr. Salgado! Viemos apenas rapidinho porque o Seu Osvaldo tem memórias antigas daqui. O GERENTE: - Supõe-se que essa múmia tenha mesmo memórias beeem antigas O BUSINESSMAN: - Que deselegante! VADINHO: - Múmia é a senhora sua mãe! E velhas são suas ideias, seu fascista. FASCISTA! O GERENTE: - Vocês estavam nos espionando? LÚCIA: - Não, não, acabamos de chegar. VADINHO: - Ouvimos tudo seu racista desgraçado! Não é por acaso que você quer cancelar o carnaval. Mas eu sei como lidar com esse seu tipo! Sentapua!!!

Ainda cambaleante pela queda que acabara de sofrer, Vadinho arregaça as mangas e, com os punhos cerrados, avança sobre o gerente do hotel, sendo detido por Lúcia e o Businessman. Acovardado, o Gerente foge e grita por socorro.

O GERENTE: - Segurem esse animal! Este senhor senil, demente, tentou me agredir!

Rapidamente ele volta acompanhado. Entram na ala abandonada do Hotel funcionários e hóspedes, entre eles a família de Henrique.

TIO: - O que é isso Seu Osvaldo? Tomou umas pingas a mais? MAMÃE: - Papai! Que vergonha! O GERENTE:


- Chamem o exército! Chamem a polícia! Interditem esse animal! Tirem ele daqui! VADINHO: - Fascista! MAMÃE: - Papai! Me desculpe, senhor Salgado, por favor! Que vergonha! O GERENTE: - Tire esse homem daqui! Alias, sumam todos daqui! Você não, sorry, menos você mister Businessman. E você, Lúcia, nossa conversa ainda não acabou. Velho demente! E você ficou de olho na macaquinha, né Mr Business hehe. O BUSINESSMAN: - Excuse me??

O vovô não queria, mas a mamãe insistiu para que ele tomasse um calmante que lhe dava muito sono. Ele acabou dormindo. O pequeno Henrique apenas observou, triste e calado, toda aquela confusão. Para completar, quando estava sentado com seus pais na mesa esperando o jantar, viu Lúcia saindo aos prantos pela porta do Hotel Glória. Será que o gerente havia mandado ela embora? O menino perdeu até o apetite...

TIO: - Mas nem doce de leite você vai querer?

Foi só quando foi dar o beijo de boa noite em Suzana e Henrique que a mamãe percebeu a lágrima escorrendo do rosto do seu filho mais novo. MAMÃE: - Não fica assim, meu filho. Você sabe que o vovô às vezes se exalta mesmo. Ele é que devia aprender com você a se comportar. Chega de choro. Amanhã é um novo dia, vai ter sarau e baile de valsa. SUZANA: - E eu não vou usar vestido! MAMÃE: - Se não usar vestido não vai poder ir! Tem que ir de gala! SUZANA:


- Prefiro não ir então! MAMÃE: - Suzana, chega! Amanhã a gente conversa. Durmam bem, crianças, e Henrique, tenta esquecer essa história toda.

Quando a mamãe apagou as luzes, Henrique só sabia de uma coisa: ele não iria se esquecer. Ficou pensando em tudo o que havia vivido naquele dia. Na decepção com o cancelamento do Carnaval, nas brincadeiras com Lúcia, sua irmã e seus primos, nas aventuras com o vovô na ala abandonada do Hotel...e no som do Atabaque! Ah, que sensação era aquela que o som do instrumento causava em Henrique? Mas de repente, as palavras vis daquele gerente. O que o vovô queria dizer quando falou que conhecia bem aquele tipo? Fascista...fascista...como Hitler e Mussolini? Henrique estava triste e só. Tinha medo e apenas a lembrança daquele batuque confortava seu coração. Lá fora começou a chover e o menino ouvia as gotas caindo como toques de tambores. Percebeu que sua irmã havia dormido. Se levantou. Estava mesmo ouvindo música? Parecia que uma voz cantava como se estivesse chamando por ele. Sabia que não deveria andar por aí sozinho de noite, mas abriu a porta do quarto e, sem medo, foi atravessando a escuridão dos corredores do Hotel Glória perseguindo aquela música que só ele ouvia. Henrique sentiu um arrepio em seu corpo. Não de medo, mas como se estivesse envolvido por uma eletricidade mágica. Não sabia nem para onde nem porque, sabia apenas que precisava seguir em frente. Seguiu. De noite o hotel era muito diferente, sem as pessoas caminhando pelo corredores, sem o titio nadando na piscina, sem Suzana ganhando dos meninos no Ping-Pong. Achou ter visto alguém pelo reflexo na janela. Lúcia? Criou coragem e atravessou a portinha escondida que dava para a ala antiga do Hotel. Era mesmo Lúcia que ele estava vendo? O menino não sabia mais se aquilo era um sonho ou se estava enlouquecendo. Mas seguia sua amiga que apareceu para ele vestida como uma rainha. Os batuques se tornavam mais rápidos e mais altos. Será que eram coisa de sua cabeça? No meio do salão antigo, sobre o mesmo atabaque que Henrique tocara mais cedo, uma pequena caixinha de madeira. O que Henrique encontrou lá dentro daria ao menino o poder de mudar o dia seguinte. Mudar o amanhã!

MAMÃE: - Vamos crianças, já vai começar o sarau! Suzana, o que é isso!?

A irmã de Henrique vestia terno e gravata.


SUZANA: - Não tem que ir de gala? Pronto! VADINHO: - Hahahaha!! Genial!! MAMÃE: - Papai, não dá corda! VADINHO: - Eu quero ir de vestido! MAMÃE: - Pelo amor de deus, gente! Papai, você me prometeu um dia mais tranquilo! VADINHO: - Me desculpe, me desculpe, mas você há de concordar que a menina é genial. MAMÃE: - Tá vem, Suzana, vamos ver se cola. Henrique, está pronto? Vamos?

Com a camisa abotoada até o pescoço e os cabelos penteados, Henrique sorriu e piscou para o avô, deixando-o intrigado. O clima no salão estava um tédio com aquela música chatíssima tocando. O único que parecia feliz era o gerente, Sr. Salgado que, para Henrique, era mais pra amargo.

O GERENTE: - Então, se não temos mais inscritos, vamos começar nosso sarau parnasiano! O que foi, moleque? HENRIQUE: - Eu também quero me inscrever!

O gerente até se assustou ao ouvir a voz do menino, normalmente tão calado. Mais surpreso ainda ficou ao saber que ele queria falar um poema ali, na frente de todo mundo.

O GERENTE:


- Tudo bem, mas vai ficar por último!

Será que alguém ainda ia ficar acordado para ouvir o poema de Henrique? Aquilo mais parecia um velório do que um baile. Mas o menino sabia que o que ele revelaria ia surpreender muita gente!

CRIANÇA X: - Jovem filho das montanhas Eu ia bem satisfeito As camisa aberto o peito Pés descalços braços nus Correndo por volta das cachoeiras Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis.

Olavo Bilac!

O GERENTE - Olavo Bilac! Sabiam que foi ele o autor da lei que instaurou a obrigatoriedade do serviço militar? Palmas, palmas! Acabou? Ah! Ainda tem você né...então vem logo, qual é o seu nome e de quem é o poema que você vai declamar? HENRIQUE - Meu nome é Henrique e vou ler um poema que eu mesmo escrevi, inspirado em fatos reais. O GERENTE: - Calma lá, calma lá! O sarau é apenas para sonetos com rima e métrica! HENRIQUE: - Quatro estrofes com versos decassílabos, dois quartetos e dois tercetos.

Desconfiado, o Gerente abaixou o pedestal do microfone até a altura do pequeno Henrique. Antes de deixa-lo sozinho para sua leitura, ainda tentou bisbilhotar o papel que ele tinha em mãos, o que Henrique impediu que acontecesse. HENRIQUE


- Boa noite senhoras, senhores, e também boa noite a todos que não são nem senhoras nem senhores. Eu sei que vocês estão tendo uma tarde muito chata e preferiam estar brincando o carnaval. Mas sinceramente espero contribuir com o meu poema para este que é o tema do nosso Sarau: Crença, Ordem e Tradição. Me contaram que tradicional é aquilo que se repete a muito tempo. Vocês sabiam que esse lugar que nós estamos se chama Caxambu desde muito antes de se falar Português no Brasil? O povos cataguás que moravam aqui já tinham reparado que as águas desse lugar borbulhavam...no idioma Tupi é isso que significa catã-mbu. Mas vocês acreditam que antes dos europeus, antes dos africanos, os povos originários brasileiros já faziam samba? Ou pelo menos mandacaru! Em Tupi é isso que significa kaxabu! E há quem diga ainda que o nome da cidade na verdade não é tupi, mas veio de Angola! Porque cacha pode significar tambor, e mumbu, música! Caxambu então é batuque! Era pra fazer um soneto, então eu fiz, mas o ritmo do meu é assim!

O menino puxou a toalha de uma mesinha ao lado do microfone que, na verdade, era o atabaque! E antes que o Gerente o impedisse, começou ao mesmo tempo a batucar e recitar:

Quando Carmen Miranda foi se mudar Ganhou dos gringos uma passagem só Mas quem tocaria seu Sol Lá Si Dó E com ela faria o mundo sambar?

Em Caxambu Getúlio veio encontrar O presidente fez um pedido só “Do bolso dos gingos não tenha dó Com você brasileiros devem tocar”

O Bando da Lua então ela chamou Ouviu Getúlio e não abriu mão Nossos instrumentistas Carmen levou

Antes de inventar outra tradição Saiba: daqui pro mundo se irradiou


O batuque representando a nação

Escondido embaixo da cadeira do Gerente, Aguiar estava pronto para, quando Sr. Salgado levantou, abaixar-lhe as calças. Mas o que era pra ser apenas uma travessura acabou por se tornar o golpe derradeiro no Gerente, pois revelou a todos os hóspedes do Hotel Glória que, por baixo da roupa, Salgado usava uma cueca estampada de suásticas! No segundo andar do Hotel, Nelson corria estourando balões, espalhando pelo salão confete ao mesmo tempo que atirava ao ar serpentinas multi-coloridas! O mestre de cerimônias nem percebeu quando Suzana conectou o cabo das caixas de som em seu celular e, antes que os adultos se recuperassem de tantas surpresas, já atacou com um samba! O desfecho foi farra e folia. Vadinho recuperou seu respeito e o Gerente fugiu de cuecas do Hotel, antes que a polícia chegasse e descobrisse todas as armações do nazista. Ele ainda deve estar por aí, espalhando suas ideias velhas emboloradas. Cuidado!

FIM

Esta primeira versão da obra nunca me satisfez plenamente. Não me sinto muito íntimo dessa estrutura dramática mais tradicional, ainda que tivesse eu mesmo proposto perseguila. Não acreditei que ela tivesse abarcado a diversidade da obra do Mautner, os inúmeros temas que eu gostaria de abordar. Com a prorrogação do prado da Aldir Blanc, fiz uma pausa no processo de escrita. Uma outra pesquisa é que abriu uma outra possibilidade para o “Herói das Estrelas”. Comecei a estudar sobre o chamado Teatro de Revista, especialmente sobre as estruturas que ele foi tomando no Brasil. Nunca é demais citar a grande Neyde Veneziado, cuja pesquisa sobre a Revista faz um resgate importantíssimo desse gênero por tanto tempo marginalizado e tão importante na história do Teatro brasileiro. Ao retomar a escrita de “Herói das Estrelas” resolvi recomeçar. E recomeçar perseguindo, agora, uma estrutura que se assemelhasse àquela Em outubro desse ano fiz esse novo esquema:

Uma revistinha mautneriana

TRÊS ATORES UM PRÓLOGO E DOIS ATOS, CADA UM COM UMA APOTEÓSE


NÚMEROS DE COMÉDIA, CORTINA E FANTASIA

A “comadre” narra aspectos biográficos Os outros atores encenam os números

TEMAS BIOGRÁFICOS:

- Filho do holocausto - Babá Ialorixá - Mudança pra São Paulo - Velho profeta aos 15 anos - Partido do Kaos - Relação com Caetano e Gil - Abertura: Velho comissário do povo do comitê central - Nelson Jacobina

TEMAS RECORRENTES:

- Nazismo - Candomblé - Amálgama - Aracy de Almeida - Orixá Samurai - Cálculo da incerteza - Mutirão - Originalidade do Brasil: missão Tupi de desvendar o mistério + Templários (Escola de Sagres) + ??? - Meltin’Pot - Obama - Simultaneidade


Percebe-se que esta estrutura, sim, assemelha-se muito mais a que acabou tomando forma no texto apresentado como conclusão deste projeto. Antes de encerrar esse relato, gostaria de citar, também, uma outra estratégia que foi importantíssima no desenvolvimento dos números que compuseram a versão final da nossa revistinha mautneriana. Tratam-se das Estratégias Obliquas do compositor e produtor Brian Eno, que foram utilizadas por diversos parceiros dele, como David Bowie, o Talking Heads e o Arcade Fire. Sobre as Estratégias Obliquas de Eno, explica a Wikipédia:

Estratégias oblíquas (Oblique strategies, em inglês) é um conjunto de cartas criadas por Brian Eno e publicadas em 1975. Cada carta contém uma frase ou observação enigmática utilizada para sair de um beco sem saída ou de um dilema. Alguns exemplos: •

Coloque o problema em palavras tão claras quanto puder.

•

Apenas um elemento para cada tipo.

•

O que seu melhor amigo faria?

•

O que aumentar? O que reduzir?

•

Tente imitar!

•

Honre um erro como uma intenção escondida.

Alguns trechos da introdução da edição de 2001: "Estas cartas evoluíram de diversas observações de princípios subjacentes ao que estávamos fazendo. Às vezes elas eram reconhecidas em retrospecto (intelecto pegando a intuição), às vezes eram identificadas enquanto aconteciam, às vezes eram formuladas.! "Elas podem ser usadas como um pacote, ou retirando uma única carta do monte quando um dilema ocorre em uma situação de trabalho. Neste caso se confia na carta mesmo que não fique claro se ela é apropriada..." Existem diversas referências as estratégias oblíquas na cultura popular, principalmente no filme Slacker, em que um personagem oferece aos transeuntes cartas de um baralho. Estratégias mencionadas no filme incluem: "Honra teu erro como uma intenção escondida", "Olhe atentamente o embaraçoso com mais detalhes e tente ampliar", "Não é construindo um muro; é fazendo um tijolo, "Repetição é uma forma de mudança", e um que veio a ser visto como um resumo do filme (embora não faça parte do conjunto oficial de Oblique Strategies), "Retirar-se por desgosto não é a mesma coisa que a apatia". Esta linha foi citado na canção de 1994 What's the Frequency,


Kenneth? do R.E.M., que também mencionou as Oblique Strategies em sua canção de 1998 "Diminished" do álbum Up. Outros músicos supostamente inspirados pelas estratégias oblíquas incluem a banda britânica Coldplay, que disse ter usado os cartões durante a gravação em 2008 quando Brian Eno produziu o álbum Viva la Vida or Death and All His Friends, e banda francesa Phoenix , que alegou ter usado os cartões ao gravar o seu álbum de 2009, Wolfgang Amadeus Phoenix. O músico e compositor alemão, Blixa Bargeld, tem um sistema semelhante, chamado Dave. Todas as cinco edições estão disponíveis nos E.U.A em forma de softwares no App Store da Apple Inc. desde 2009, com versões para iPhone e iPod Touch.

O oráculo pode ser encontrado, atualmente, como aplicativo, em diversas versões gratuitas. Foi o caso da que utilizei, com excelentes resultados, no desenvolvimento este texto.

Espero que o compartilhamento deste processo possa ser últil para algum colega.

Para ler a versão final do texto, CLIQUE AQUI. Para assistir a leitura do mesmo por Pedro Goifman, Raquel Pedras e Teuda Bara, CLIQUE AQUI.

Muito obrigado!


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DIÁRIO DE ESCRITA - HERÓI DAS ESTRELAS by João Santos - Issuu