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Título Romper silêncios: Género em Mia Couto Edição CooLabora, CRL - Q.ª Rosas, lote 6, r/c esq . 6200-551 Covilhã PT www.coolabora.pt Coordenação Francisco Paiva / Teresa Correia Design gráfico Linda Redondo / Edgar Fernandes Produção Gracinda Pereira Impressão Gráfica do Tortosendo Tiragem 250 exemplares Depósito Legal: ISBN: 978-989-97709-4-2 Covilhã, 2012

Edição financiada pela CIG - Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, através do Programa Operacional do Potencial Humano - POPH. Eixo 7 - Igualdade de Género. Tipologia 7.3. - Apoio Técnico e Financeiro às Organizações Não Governamentais


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ENQUADRAMENTO Rasgar Silêncios - Graça Rojão APRESENTAÇÃO Ilustrar o que conta - Francisco Paiva Da Literatura para a Vida - Teresa Correia

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II CONTOS,MIA COUTO 1.O BARALHO ERÓTICO | Mia Couto ILUSTRAÇÕES Alina Oliveira; Anabela Carvalho Helena Coelho; João Rodrigues João Artur Linda Redondo Luis Antunes Luis Rodrigues; Nuno Coutinho Pedro Freire Rafael Dias; Rodrigo Antunes; Roksana Stasiak Sara Vitória Simão Mota Vasco Silva; Victor Monteiro

19 21 25 26 27 28 29 30 33 34 36 37 38 39


2. AFINAL CARLOTA GENTINA, NÃO CHEGOU A VOAR? | Mia Couto ILUSTRAÇÕES Albertina Pinto; João Rosa Marta Correia; Sara Barreira

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3. JOÃOTÓNIO,NO ENQUANTO | Mia Couto ILUSTRAÇÕES Ana Fernandes; Bárbara Seara Danilo Silva Eduarda Silva; Inês Ramos Mélodie Deschans Paulina Fonseca

51 55 56 57 58 59 61

4. MARIA PEDRA NO CRUZAR DOS CAMINHOS | Mia Couto ILUSTRAÇÕES André Melo; Catarina Nobre Cristiana Farias; Diogo Charro Edgar Fernandes Joel Mariano; Juliana Neves Manuel Abelho; Sofia Oliveira

63 66 67 68 69 70 71

5. ROSALINDA, A NENHUMA | Mia Couto ILUSTRAÇÕES Florian Oliveira; Joel Gonçalves Elói Silva Leonor Branco Pedro Alves Sérgio Vieira; Sofia Biserinska

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BIBLIOGRAFIA

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GRAÇA ROJÃO

A violência contra as mulheres ensombra persistentemente a nossa vida colectiva. Nas conversas quotidianas, acidentalmente escutadas em qualquer esquina, nos relatos soltos, fugazmente trazidos pela comunicação social, afloram indícios que denunciam um fenómeno submerso, mas de dimensão colossal. Estima-se que uma em cada três mulheres sofre violência, a maior causa de morte e invalidez nas mulheres com idades entre os 16 e 44 anos, ultrapassando mesmo o cancro, os acidentes de viação e as mortes em contexto de guerra.

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Se buscarmos as raízes deste fenómeno o caminho leva-nos à desigualdade estrutural entre homens e mulheres. O desequilíbrio nas relações de poder entre uns e outras e as representações sociais que remetem as mulheres para papéis de subalternidade nutrem este plano indigno de humanidade, pautado por violência física, psicológica e verbal; pelo assédio sexual e pela violação, entre outras tenebrosas realidades. A igualdade de género é premissa basilar da democracia e de uma sociedade onde homens e mulheres se possam realizar integralmente, sem as balizas de convenções sociais castradoras e sem atropelos à dignidade. A arte é por excelência um território de inquietação fecunda. A sua linguagem universal facilita a disseminação e a mudança individual e colectiva e pode apontar novos campos de acção que facilitem a desconstrução de mitos e crenças, que perpetuam relações de poder assimétricas. Este catálogo é fruto de um encontro de vontades e de saberes: a CooLabora que assume como vertente fundamental do seu trabalho a promoção da igualdade de género e a prevenção da violência contra as mulheres; duas pessoas que de forma generosa têm tido um grande empenho cívico nesta causa: Teresa Correia, especialista em questões de género que selecionou os contos de Mia Couto e Francisco Paiva, director do curso de Design Multimédia da Universidade da Beira Interior que coordenou durante um semestre lectivo os trabalhos de ilustração. Destacamos ainda o envolvimento activo de todos os alunos e alunas do curso de Design Multimédia, que criaram os trabalhos que aqui se apresentam, sobretudo Linda Redondo e Edgar Fernandes que assumiram também o design gráfico. A inclusão neste catálogo dos textos ilustrados foi possível por gentileza da Editorial Caminho, do editor Zeferino Coelho e por autorização do autor, a quem agradecemos. Mia Couto rasga silêncios. Questiona-nos sobre a invisibilidade, a repressão, o silenciamento, a menorização ou o controlo e fala-nos das mulheres, essas entidades marginais, sem voz, sem outra história senão a que os homens lhe emprestam. Com este trabalho pretendemos contribuir para ampliar a reflexão e a consciência crítica, fundamentais no reforço da capacidade transformadora individual e colectiva para uma vida sem violência.

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Francisco Paiva

Este catálogo de trabalhos de alunos do 1º ano do curso de Design Multimédia da Universidade da Beira Interior dá vivo testemunho da relação possível entre as diversas artes, em especial a Literatura e o Desenho. Prova igualmente o possível contributo das artes para a alteração de mentalidades e a inovação social, na medida em que os autores dos vídeos aqui documentados pertencem a uma geração que não tendo vivido muitas daquelas realidades certamente aumentará o sentido crítico perante fenómenos análogos. Os resultados patentes são, pois, um panorama residual da riqueza do processo de interpretação e imaginação provocado pela leitura dos contos de Mia Couto seleccionados. Se, num primeiro momento, estes contos provocaram uma certa estranheza – pelo vocabulário e pela sintaxe da nossa língua ultramarina, mas também pelo universo das narrativas, das suas personagens e concomitante

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enquadramento das relações humanas –, rapidamente os alunos perceberam o potencial criativo do onírico e até desconcertante universo literário do notável escritor moçambicano. Embora tenhamos recebido com alguma reserva o desafio lançado pela Teresa Correia e pela Coolabora, a reacção dos alunos na primeira sessão de discussão dos textos dissipou as dúvidas que houvesse sobre as possibilidades que este desafio abria para o curso, ao colocar os alunos em contacto com outros âmbitos e agentes sociais, em particular com esta cooperativa de intervenção social, cujo trabalho publicamente reconhecido em prol dos direitos humanos fundamentais vai de par com a permanente atenção à produção e divulgação cultural na região. Será por propiciar um campo de resistência, de emancipação e de estímulo às necessárias mudanças sociais, inclusive no âmbito educativo, que a produção artística se vem distanciando da via comemorativa institucional e assume progressivamente o primado da intervenção cívica. Esse será, pois, um campo privilegiado para a actuação dos nossos alunos de Design que justifica a presença institucional da UBI em parcerias deste tipo. É consabido que a presença de mulheres no panorama das artes visuais não é minimamente comparável ao da expressão literária, domínio em que se verifica maior equidade com os homens. Não obstante a evidência de que a massiva entrada de mulheres na arte contemporânea tem marcado um novo encontro com o sensível, com as esferas da intimidade, do desejo e do corpo, perduram muitos preconceitos que a arte ajuda a ultrapassar. As mais celebradas obras da arte ocidental reservam um papel central à imagem da mulher, estando esta presente maioritariamente na qualidade de objecto passivo. Salvo raras excepções, quem permanecia do lado de trás do cavalete era um homem, sendo o ideal de beleza masculino a condicionar a escolha dos modelos e dos temas dignos de representação. Não obstante essa predominância, Mia Couto proporciona-nos uma abordagem de rara sensibilidade para aspectos que pouco se encontram na arte, sejam os problemas identitários e da violência ou as estratégias de poder e submissão na vida quotidiana, onde o feminino e o masculino se afastam dos estereótipos para encarnar narrativas particularmente inquietantes para o sistema de valores tradicionais. Os textos de Mia Couto proporcionaram um aprofundamento da consciência sobre estes temas, e seguramente alteraram a nossa visão do mundo, em particular dos alunos, certamente mais ávidos

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de perceber os nexos entre a vida íntima e a esfera pública, mesmo política, mas também mais inquietos sobre os veículos gráficos e visuais que melhor se ajustam a essa comunicação. O processo criativo partiu dos textos seleccionados e apresentados pela Teresa Correia, que foi participando nas diversas fases do processo, desde a decupagem e divisão das orações, das cenas à caracterização das personagens e ambientes. Entre o story-board e a animação final houve momentos de intenso debate e partilha, procurado-se evidenciar as particularidades de linguagem gráfica e clarificar os conceitos e adequar os ritmos e a linguagem plástica ao fluxo de interpretação da narrativa. Estes trabalhos resultam dessa conjuntura e embora possam considerar-se num ou noutro aspecto incompletos, experimentam um sem número de possibilidades que transcendem o mero contexto do exercício escolar através do prisma estético. Os vídeos aqui documentados não são objectos acabados, são antes embriões de objectos artísticos que procuram responder aos problemas de que explicita ou implicitamente os contos se ocupam, explorando linguagens e possibilidades de representação que cada aluno intuiu, quis ou foi capaz de fixar. De certo modo à margem do género pictórico e da efabulação paternalista, procurouse desenvolver abordagens singulares, que tanto serviu as histórias e as suas personagens como foi útil aos autores. Tal diversidade está bem patente na diferença estilística, técnica e material dos trabalhos feitos sobre o mesmo conto, cuja riqueza semântica abriu direcções criativas insuspeitas para cada aluno, que com a sua criatividade aumentou o mundo. Resta-nos agradecer ao escritor, pela talentosa obra que connosco partilha e sem a qual esta dinâmica não teria existido. Também ao seu editor que de pronto acolheu o nosso pedido e generosamente cedeu autorização de publicação dos contos ora ilustrados neste catálogo. Bem-hajam!

Francisco Paiva Director do Curso de 1º Ciclo em Design Multimédia da UBI

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TERESA CORREIA

Um livro tem de gerar inquietação. O universo literário de Mia Couto, escritor moçambicano, segue este lema e, como tal, as suas estórias albergam personagens e enredos aos quais raramente ficamos indiferentes. São malhas tecidas em intrigas que recusam um mundo estereotipado, cultivando a transgressão para assim alcançar uma verdade secreta que só o leitor atento e despojado de ideias feitas alcançará. A mundivivência feminina é absolutamente dominante nas narrativas deste autor, construindo-se através de percursos diversos que, no entanto, têm um traço em comum: a extraordinária força de que estão investidas as personagens femininas e a responsabilidade maior que lhes cabe na esfera do privado, mesmo porque estão impedidas de ter voz no domínio público. Com efeito, impossibilitadas de participar na construção de uma sociedade nova, procuram nos seus tradicionais papéis de filhas, esposas e mães construir a sua própria identidade, em atitudes de resiliência e de revolta que, não raras vezes, se revelam de extrema violência. São os frutos da

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opressão e da negação da liberdade a que todo o ser humano tem direito. Assim, a tradicional matriarca moçambicana, espelhada nas estórias de Mia Couto, possui uma força mística capaz de transformar as difíceis conjunturas das comunidades em que se insere. Se nuns momentos é submissa noutros será insurreta, se é vulnerável também é resistente, capaz de ultrapassar a solidão inerente à sua condição feminina. Não obstante a sua posição de subalternidade, ela ousa desobedecer e tomar para si uma voz própria, capaz de garantir a segurança no domínio familiar. Nos contos apresentados (“Maria Pedra no cruzar dos caminhos”1, “Afinal Carlota Gentina não chegou de voar?”2, “O Baralho Erótico”3, “Rosalinda, a nenhuma”4 e “Joãotónio, no enquanto”5 ), as temáticas são abordadas de modos diversificados, no entanto em todas estas estórias compreendemos que o mundo é muito mais heterogéneo do que nos querem fazer entender e que o ser humano pode tomar o futuro nas sua mãos e mudar o rumo dos acontecimentos, se assim o decidir. Na verdade, as questões de género são particularmente relevantes nestes contos e não é difícil concluirmos que se a oposição homem/mulher se justifica a partir de um fator biológico, já a diferença masculino/feminino assenta em questões culturais e ideológicas, ou seja, construções sociais suscetíveis de mudança. No primeiro conto, é a questão do alcoolismo associada ao desencanto que conduzem a um desfecho enigmático, numa clara cumplicidade entre mãe e filha; no segundo, a tremenda violência que advém das superstições e da ignorância, capaz de conduzir à morte física e/ou psicológica das personagens; no terceiro, o alcoolismo gera violência e desrespeito que apenas são ultrapassáveis por via da fantasia; no quarto, a anulação da personagem feminina é aceite, mas a sua “revivescência” enquanto pessoa e mulher são entendidas como demência; no último, os estereótipos associados às questões de género baralham-se e resultam em situações peculiares, suscetíveis de quebrar tabus e de revelar outras realidades escondidas. Por vezes, o olhar singular do autor sobre o quotidiano concreto das “mulheres” inquieta-nos, pois nele encontramos uma lógica de pensamento que, apesar de tão distante, nos coloca perante realidades muito próximas da nossa. Afinal, apesar da entrada das mulheres nos setores do mundo do trabalho e de todas as lutas 1 in MIA COUTO, O Fio de Missangas 2 in MIA COUTO, Vozes Anoitecidas 3 in MIA COUTO, Contos do Nascer da Terra 4 in MIA COUTO, Cada Homem é uma Raça 5 in MIA COUTO, Estórias Abensonhadas

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travadas, especialmente desde o início do século XX, verificamos que o acesso a posições de liderança ainda é bastante limitado e mantém padrões de desigualdade relativamente aos homens. Com efeito, continuam a existir para as mulheres as chamadas “barreiras de vidro” que dificultam o seu acesso a posições tradicionalmente ocupadas pelos homens. Na verdade, a condição feminina resulta de uma História que lhe não foi favorável, como facilmente concluímos quando remontamos a tempos mais antigos e analisamos os papéis impostos à mulher. Como se tal não fosse já um forte obstáculo no caminho da igualdade, a violência doméstica assume, nos nossos dias, proporções chocantes. A violência não é só contra as mulheres, mas é sobretudo contra as mulheres. A superioridade física ou psicológica, os paradigmas educacionais ou culturais e as tradições contribuem para este estado de coisas. Na literatura como na vida. Foi a partir da convicção de que a mudança é possível que se estabeleceu a ligação entre os textos do escritor moçambicano e as ilustrações concebidas pelos alunos do primeiro ano do curso de Design e Multimédia da Universidade da Beira Interior, numa parceria fomentada pela Coolabora. A leitura crítica dos textos proporcionou uma outra visão do mundo e o nascimento de opções artísticas capazes de chegar a um público mais diversificado. E assim se cumpriu mais um propósito da criação literária – proporcionar o diálogo entre diferentes linguagens. Simultaneamente, promoveu-se a descoberta ou o conhecimento um pouco mais aprofundado de um escritor maior da língua portuguesa. O trabalho realizado a partir da obra de Mia Couto, cuja diversidade é bem visível nas várias matrizes escolhidas e na storyboard criada por cada um dos alunos, desperta o leitor para uma realidade ficcionada e conduz a uma leitura crítica e universalista dos temas, conseguindo, desta forma, alcançar, por um lado, o prazer estético e, por outro, a intervenção social que também compete a podas as formas artísticas. Assim se conclui que a busca de uma nova ordem social onde as diferenças possam ser respeitadas e a aceitação do Outro seja inquestionável impõem-se como condições para a construção de um mundo mais justo e mais equilibrado. Essa é uma tarefa pluridimensional. Nesse sentido, a literatura assume, agora tal como aconteceu no passado, um papel único e contribui para fazer de nós agentes de mudança e, como tal, esbater os impedimentos da verdadeira evolução humana.

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m sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem. Era o caso de Fula Fulano mais sua respectiva Dona Nadinha. O homem era um vidabundo, formado nas malandragens. A mulher era muda durante o dia. Mesmo que pretendesse não lhe saía palavra. Só de noite ela falava. No resto, se arredava, imóvel de fazer inveja às plantas. Se sentava a desfolhar fotos e postais. Nadinha vivia por fotografia, sonhava por interposição de imagens recortadas em revistas. Coleccionava retratos, cromos, postais. Ficava horas contemplando as figurinhas. Assim, ela se desconhecia, desaparecendo de si mesma, invisibilizando a vida. De noite é que ela pegava o trabalho, desfiava horas de canseira. Em cada intervalo, mínimo que fosse, ela sacava da colecção das fotografias e se sentava. Se enamorava das mulheres das capas, que lindas, nem transpiram, nem enrugam com os tempos. - “Não existe uma foto em que saia o mundo? “Existe, existe”, anuía o marido em sono. “Coitada, a mulher. Devia ser que apanhou

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de mais, tenho que abrandar a socar a. Eu lhe bato não é desamor, é só porque você é uma criança, entende Nadinha? Está ouvir, Nadinha?” Ela não entendia, parvinha que era, olho pregado nas fotos. Ou será que esperava a noite para emitir resposta? Mas ele, de noite, não estava. Saía, remeloso, pelas barracas, se atestando de tontonto até se apoisar em mesa de jogo e bater cartas. Certa madrugada regressou afadigado das jogatanas, acumulado de azares e divida. Raio das cartas, raio da vida! Ficou remexendo as cartas, como se repreendesse os dedos de não terem sabido extrair vitórias e ganhos. Desgostosa, Nadinha espreitou o baralho: as cartas exibiam fotografias de mulheres nuas. A mulher acenou em reprovação: - “Que vergonha, parece nem tem esposa, você! - “Que vergonha o quê! Tomara-se você ultrapassar os calcanhares de qualquer destas. - “Sabe o quê? Sinto pena mas não de mim. - “Acabou-se, mulher. Esta noite não quero barulheiras!” Mas ela, entre panelas e panos, se estridentou, numa quinquilhação de rasgar orelha. Fula Fulano nem avisou: assentou logo uns tantos e quantos sopapos na mulher. Como que ela caiu,ficou. Toda em silêncio, lhe escapavam lágrimas e sangues. Os líquidos eram rios que caminhavam junto. Logo o marido percebeu: ela só deixaria de sangrar se parasse de chorar. Em acesso de pena, ele lhe pediu: - “Se deixar de chorar eu prometo... prometo que nem nunca mais vou sair para jogar!” Ela lhe olhou, sem crédito. Seu olhar era irreal, faz conta seus olhos figurassem no mortiço papel de revista. - “Eu juro, Nadinha. Pare de chorar que vou ficar aqui todas as noites, a lhe fazer um bocadito de acompanhia”. Na seguinte noite, ele ficou. Mandou recado aos companheiros das jogatanas a dizer que não ia, estava indisposto. Mesmo sendo noite, Nadinha rodopiou sem falar. Posto perante o silêncio dela, o homem ficou num canto a desfolhar as revistas que ela tanto estimava. De quando em enquanto, soltava risadas, se esmilhofrava da mulher. Era aquilo que tanto

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derretia o coração dela? Ainda fosse mulheronas dessas de arrebentar botões. Falou só, até que se fartou. - “Não quer falar-me, mulher?” Ela respondeu, em vago tom, estranhas palavras. Que sim, mas ela queria era conversar com a mulher que estava dentro dele. Assim que falou, apanhou logo uma chapada. - “E nem pense em chorar! Pois que, da última vez, com essa porcaria de sangue e ranhos você quase me estragava o baralho das gajas descascadas!” E foi um relampejamento. Rápido, o homem deitou a promessa para as traseiras. O prometido não é de vidro? E, logo-logo, se fez à rua para recuperar o quanto da noite já perdera. Ainda por cima, ele tanto reclamara vingança sobre o que perdera. Essa noite, os cabrões haviam de ver. Azar no amor, sorte aonde? Chega à barraca, se senta em firme silêncio. Os jogadeiros estranham seus modos bruscos. Fula Fulano baralha as cartas disposto, como ele proclama, a enrabar valetes e descuecar damas. Com os nervos, lhe tomba uma carta. Um que apanha a carta e se espanta. Nem querendo acreditar, passa a carta aos restantes. Cochicham. Os amigos passam a fotografia de mão para mão, gozando e rindo. Até que um deles guarda a carta e todos se arrumam sérios e graves. Fula Fulano, estranhando os modos, pergunta. - “Não é nada, Fula. É só uma dessas gajas que aparece nas costas das cartas. - “Mostra! - “Deixa lá esta merda. Continua a baralhar, Fula. - “Eu quero ver essa carta”. O outro, com voz de funeral, diz: - “É melhor não, você”. Saltando sobre o tampo, Fulano arranca a carta. Seu juízo deu o salto mortal, todo despenhado naquela visão. Quem era a gaja?

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Nadinha! Sim, Nadinha, sua esposa, toda cascadinha, como o mundo lhe recebeu. Fula Fulano desejou o buraco final. Saiu, de espuma e raiva. Foi direito a casa, mãos nos bolsos com tais fúrias que estrilhaçava o baralho. Chegou a casa, demorou-se um momento na porta. Sacou da carta onde a Nadinha se descamava em carnes. Lhe subiu uma fervura, sangue adentro, irrompeu pela casa e se dirigiu, certeiro, para o leito onde a mulher dormia. E desatou a beijála com paixão que nunca tanto dele emergira.

In Contos do Nascer da Terra

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Autor: Alina Oliveira Técnica: Colagens Duração: 00:01:53

Autor: Anabela Carvalho Técnica: Aguarela Duração: 00:02:07

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Autor: Helena Coelho Técnica: Aguarela Duração: 00:00:35

Autor: João Rodrigues Técnica: Lápis Duração: 00:01:32

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Autor: João Artur Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:04

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Autor: Linda Redondo Técnica: Acrílico Duração: 00:02:49

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Autor: Luis Antunes Técnica: Técnica Mista Duração: 00:02:04

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Autor: Nuno Coutinho Técnica: Lápis Duração: 00:00:33

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Autor: Luís Rodrigues Técnica: Colagens Duração: 00:01:52

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Autor: Pedro Freire Técnica: Aguarela Duração: 00:04:00

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Autor: Rafael Dias Técnica: Caneta Duração: 00:01:15

Autor: Rodrigo Antunes Técnica: Lápis Duração: 00:01:04

Autor: Roksana Stasiak Técnica: Guache Duração: 00:01:33

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Autor: Sara Vitória Técnica: Aguarela Duração: 00:03:11

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Autor: Vasco Silva Técnica: Técnica Mista Duração: 00:00:56

Autor: Victor Monteiro Técnica: Lápis Duração: 00:01:02

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Autor: Simão Mota Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:21

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SENHOR DOUTOR, LHE COMEÇO Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências. A minha mulher matei, dizem. Na vida real, matei uma que não existia. Era um pássaro. Soltei-lhe quando vi que ela não tinha voz, morria sem queixar. Que bicho saiu dela, mudo, através do intervalo do corpo? O senhor, doutor das leis, me pediu de escrever a minha história. Aos poucos, um pedaço cada dia. Isto que eu vou contar o senhor vai usar no tribunal para me defender. Enquanto nem me conhece. O meu sofrimento lhe interessa, doutor? Não me importa a mim, nem tão pouco. Estou aqui a falar, isto-isto, mas já não quero nada, não quero sair nem ficar. Seis anos que estou aqui preso chegaram para desaprender a minha vida. Agora, doutor, quero só ser moribundo. Morrer é muito de mais, viver é pouco.

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Fico nas metades. Moribundo. Está-me a rir de mim? Explico: os moribundos tudo são permitidos. Ninguém goza-lhes. O respeito dos mortos eles antecipam, pré-falecidos. O moribundo insultanos? Perdoamos, com certeza. Cagam nos lençóis, cospem no prato? Limpamos, sem mais nada. Arranja lá uma maneira, senhor doutor. Desarasca lá uma maneira de eu ficar moribundo, submorto. Afinal, estou aqui na prisão porque me destinei prisioneiro. Nada, não foi ninguém que queixou. Farto de mim, me denunciei. Entreguei-me eu mesmo. Devido, talvez, o cansaço do tempo que não vinha. Posso esperar, nunca consigo nada. O futuro quando chega não me encontra. Onde estou, afinal eu? O lugar da minha vida não é esse tempo? Deixo os pensamentos, vou directo na história. Começo no meu cunhado Bartolomeu. Aquela noite que ele me veio procurar, foi onde iniciaram desgraças. A SAS NO CHÃO, BRASAS NO CÉU A luz emagrecia. Restava só um copo de cu. Em casa do meu cunhado Bartolomeu preparava-se o fim do dia. Ele espreitou a palhota: a mulher, mexedora, agitava as últimas sombras do xipefo. A mulher deitava mas Bartolomeu estava inquieto. O adormecimento demorou de vir. Lá fora um mocho piava desgraças. A mulher não ouviu o pássaro que avisa a morte, já dormia entregue ao corpo. Bartolomeu falou-se: - Vou fazer o chá: talvez bom para eu garrar maneira de dormir. O lume estava ainda a arder. Tirou um pau de lenha e soprou nele. Sacudiu dos olhos as migalhas do fogo. Na atrapalhação deixou a lenha acesa cair nas costas da mulher. O grito que ela deu, nunca ninguém ouviu. Não era som de gente, era grito de animal. Voz de hiena, com certeza. Bartolomeu saltou no susto: estou casado com quem, afinal? Uma nóii1? Essas mulheres que noite transformam em animais e circulam no serviço da feitiçaria? A mulher, na frente da aflição dele, rastejava a sua dor queimada. Como um animal. Raio da minha vida, pensou Bartolomeu. E fugiu 1Feiticeira

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de casa. Atravessou a aldeia, rápido, para me contar. Chegou a minha casa, os cães agitaram. Entrou sem bater, sem licenças. Contou-me o sucedido assim como agora estou a escrever. Desconfiei, no início. Bêbado, talvez o Bartolomeu trocou as lembranças. Cheirei o hálito da sua queixa. Não arejava bebida. Era verdade, então. Bartolomeu repetia a história duas, três, quatro vezes. Eu ouvia aquilo e pensava: e se a minha mulher também é uma igual? Se é uma nóii, também? Depois de Bartolomeu sair, a ideia me prendia os pensamentos. E se eu, sem saber, vivia com uma mulher-animal? Se lhe amei, então troquei a minha boca com um focinho. Como aceitar desculpas da troca? Lugar de animal é na esteira, algum dia? Bichos vivem e revivem nos currais, para lá dos arames. Se essa mulher, fidaputa, me enganou, fui eu que animalei. Só havia uma maneira de provar se Carlota Gentina, minha mulher, era ou não uma nóii. Era surpreender-lhe com um sofrimento, uma dor funda. Olhei em volta e vi a panela com água a ferver. Levantei e reguei o corpo dela com fervuras. Esperei o grito mas não veio. Não veio, mesmo. Ficou assim, muda, chorando sem soltar barulho. Era um silêncio enroscado, ali na esteira. Todo o dia seguinte, não mexeu. Carlota, a coitada, era só um nome deitado. Nome sem pessoa: só um sono demorado no corpo. Sacudi-lhe nos ombros: - Carlota, porquê não mexes? Se sofres, porquê não gritas? Mas a morte uma guerra de enganos. As vitórias são só derrotas adiadas. A vida enquanto tem vontade vai construindo a pessoa. Era isso que Carlota precisava: a mentira de uma vontade. Brinquei de criança para fazer-lhe rir. Saltei como gafanhoto em volta da esteira. Choquei com as latas, entornei o barulho sobre mim. Nada. Os olhos dela estavam amarrados na distância, olhando o lado cego do escuro. Só eu me ria, embrulhado nas panelas. Me levantei, sufocado no riso e saí para estourar gargalhadas loucas lá fora. Gargalhei até cansar. Depois, aos poucos, fiquei vencido por tristezas, remorsos antigos. Voltei para dentro e pensei que ela havia de gostar ver o dia, elasticar as pernas. Trouxe-lhe para fora. Era

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tão leve que o sangue dela devia ser só poeira vermelha. Sentei Carlota virada para o poente. Deixei o fresco tapar o seu corpo. Ali, sentada no quintal, morreu Carlota Gentina, minha mulher. Não notei logo aquela sua morte. Só vi pela lágrima dela que parara nos olhos. Essa lágrima era já água da morte. Fiquei a olhar a mulher estendida no corpo dela. Olhei os pés, rasgados como o chão da terra. Tanto andaram nos carreiros que ficaram irmãos da areia. Os pés dos mortos são grandes, crescem depois do falecimento. Enquanto media a morte de Carlota eu me duvidava: que doença era aquela sem inchaço nem gemidos Água quente pode parar assim a idade de uma pessoa? Conclusão que tirei dos pensamentos: Carlota Gentina era um pássaro, desses que perdem voz nos contravento. SONHOS DA ALMA ACORDARAM-ME DO CORPO Sonhei-lhe. Ela estava no quintal, trabalhando no pilão. Pilava sabe o quê? Água. Pilava água. Não, não era milho, nem mapira, nem o quê. Água, grãos do céu. Aproximei. Ela cantava uma canção triste, parecia que estava a adormecer a si própria. Perguntei a razão daquele trabalho. - Estou a pilar. - Esses são grãos? - São tuas lágrimas, marido. Foi então: vi que ali, naquele pilão, estava a origem do meu sofrimento. Pedi que parasse mas a minha voz deixou de se ouvir. Ficou cega a minha garganta. Só aquele tunc-tunc-tunc do pilão sempre batendo, batendo, batendo. Aos poucos, fui vendo que o barulho me vinha do peito, era o coração me castigando. Invento? Inventar, qualquer pode. Mas eu daqui da cela só vejo as paredes da vida. Posso sentir um sonho, perfume passante. Agarrar não posso. Agora, já troquei minha vida por sonhos. Não foi só esta noite que sonhei com ela. A noite antepassada, doutor, até chorei. Foi porque assisti minha morte. Olhei no corredor e vi sangue, um rio dele. Era sangue órfão. Sem o pai que era o meu braço cortado. Sangue detido como o dono. Condenado. Não lembro como cortei. Tenho memória escura, por causa

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dessas tantas noites que bebi. E sabe, nesse tal sonho, quem salvou o meu sangue espalhado? Foi ela. Apanhou o sangue com as suas mãos antigas. Limpou aquele sangue, tirou a poeira, carinhosa. Juntou os pedaços e ensinou-lhes o caminho para regressar ao meu corpo. Depois ela me chamou com esse nome que eu tenho e que já esqueci, porque ninguém me chama. Sou um número, em mim uso algarismos não letras. O senhor me pediu para confessar verdades. Está certo, matei-lhe. Foi crime? Talvez, se dizem. Mas eu adoeço nessa suspeita. Sou um vivo, não desses que enterra as lembranças. Esses têm socorro do esquecimento. A morte não afastame essa Carlota. Agora, já sei: os mortos nascem todos no mesmo dia. Só os vivos têm datas separadas. Carlota voou? Daquela vez que lhe entornei água foi na mulher ou no pássaro? Quem pode saber? O senhor pode? Uma coisa eu tenho máxima certeza: ela ficou, restante, por fora do caixão. Os que choravam no enterro estavam cegos. Eu ria. É verdade, ria. Porque dentro do caixão que choravam não havia nada. Ela fugira, salva nas asas. Me viram rir assim, não zangaram. Perdoaram-me. Pensaram que eram essas gargalhadas que não são contrárias da tristeza. Talvez eram soluços enganados, suor do sofrimento. E rezavam. Eu não, não podia. Afinal, não era uma morta falecida que estava ali. Muito-muito era um silêncio na forma de bicho. VOU APRENDER A SER ÁRVORE De escrever me cansei das letras. Vou ultimar aqui. Já não preciso defesa, doutor. Não quero. Afinal das contas, sou culpado. Quero ser punido, não tenho outra vontade. Não por crimemas por meu engano. Explicarei no final qual esse engano. Há seis anos me entreguei, prendi-me sozinho. Agora, próprio eu me condeno. De tudo estou agradecido, senhor doutor. Levei seu tempo, só de graça. O senhor me há-de chamar de burro. Já sei, aceito. Mas, peço desculpa, se faz favor: o senhor, sabe o quê da minha pessoa? Não sou como outros: penso o que aguento, não o que preciso. O que desconsigo não é de mim. Falha de Deus, não minha. Porquê Deus não nos criou já

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feitos? Completos, como foi nascido um bicho a quem só falta o crescimento. Se Deus nos fez vivos porque não deixou sermos donos da nossa vida? Assim, mesmo brancos somos pretos. Digo-lhe, com respeito. Preto o senhor também. Defeito da raça dos homens, esta nossa de todos. Nossa voz, cega e rota, já não manda. Ordens só damos nos fracos: mulheres e crianças. Mesmo esses começam a demorar nas obediências. O poder de um pequeno fazer os outros mais pequenos, pisar os outros como ele próprio é pisado pelos maiores. Rastejar é o serviço das almas. Costumadas ao chão como que podem acreditar no céu? Descompletos somos, enterrados terminamos. Vale a pena ser planta, senhor doutor. Mesmo vou aprender a ser árvore. Ou talvez pequena erva porque árvore aqui dentro não dá. Porquos baloii2 não tentam de ser plantas, verde-sossegadas? Assim, eu não precisava matar Carlota. Só lhe desplantava, sem crime, sem culpa. Só tenho medo de uma coisa: de frio. Toda a vida sofri do frio. Tenho paludismo não é no corpo, é na alma. O calor pode apertar: sempre tenho tremuras. O Bartolomeu, meu cunhado, costumava dizer: “fora de casa sempre faz frio.” Está certo. Mas eu, doutor, que casa eu tive? Nenhuma. Terra nua, sem aqui nem onde. Num lugar assim, sem chegada nem viagem, preciso aprender espertezas. Não dessas que avançam na escola. Esperteza redonda, esperteza sem trabalho certo nem contrato com ninguém. Nesta carta última o senhor me vê assim, desistido. Porquê estou assim? Porque o Bartolomeu me visitou hoje e me contou tudo como se passou. No enfim, compreendi o meu engano. Bartolomeu me concluiu: afinal a sua mulher, minha cunhada, não era uma nóii. Isso ele confirmou umas tantas noites. Espreitava de vigia para saber se a mulher dele tinha ou não outra ocupação nocturna. Nada, não tinha. Nem gatinhava, nem passarinhava. Assim, Bartolomeu provou o estado de pessoa da sua esposa. Então, pensei. Se a irmã da minha mulher não era nóii, a minha mulher também não era. O

feitiço mal de irmãs, doença das nascenças. Mas eu como podia adivinhar sozinho? Não podia, doutor. Sou filho do meu mundo. Quero ser julgado por outras leis, devidas da minha tradição. O meu erro não foi matar Carlota. Foi entregar a minha vida a este seu mundo que não encosta com o meu. Lá, no meu lugar, me conhecem. Lá podem decidir das minhas bondades. Aqui, ninguém. Como posso ser defendido se não arranjo entendimento dos outros? Desculpa, senhor doutor: justiça só pode ser feita onde eu pertenço. Só eles sabem que, afinal, eu não conhecia que Carlota Gentina não tinha asas para voar. Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto. Não escolho, tropeço a mão no fecho. Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. Vou entrando nos grãos do chão, devagarinho. Quando me quiserem enterrar já eu serei terra. Já que não tive vantagem na vida, esse ser o privilégio da minha morte. in Vozes Anoitecidas

2 Feiticeiros, deitadores de sorte.

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Autor: Albertina Pinto Técnica: Aguarela Duração: 00:00:25

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Autor: João Rosa Técnica: Aguarela Duração: 00:01:40

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Autor: Marta Correia Técnica: Pastel Duração: 00:01:07

Autor: Sara Barreira Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:29

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or enquanto, sou Joãotónio. Lhe digo e desdigo, mano: com mulheres me ponho em modos de ser tropa. Pois todo o encontro com elas se me aparenta uma batalha. Assim, quando olho uma eu já adianto adivinhação: como será sua voz? Não me intriga a voz visível mas a outra,silenciosa, subcorpórea, capaz de tantas linguagens como a água. Outro dizendo: eu quero adivinhar é os gemidos delas, esse resvalar de asas na frente do abismo, o arrepio da alma perdendo morada. Você sabe, mano: a voz da pessoa esconde o doce sabor do sussurro. A voz encobre o suspiro. E agora já ouço a sua pergunta: porquê esta mania de adivinhar suspiros? É a mesma vontade do general, mano. É o gosto de antecipar a rendição do adversário. É o desejo de antescutar como elas se podem requebrar, vencidas e abandonadas. Às vezes penso, no fundo, eu tenho medo de mulher. E você não tem? Tem, bem que eu sei. As ideias delas nascem num lugar que está fora do pensamento. Daí vem nosso medo, nós não deciframos o entendimento das mulheres. Suas superioridades nos

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medonham, mano. Por isso, as concebemos em tratos de batalha, versadas adversárias. Mas volto aos começos, veja você, já eu rangia como uma curva,derraspado em filosofices. Agora recomece também sua audição. Ainda e por enquanto: sou Joãotónio. Lhe conto,agora, a ficção da minha tristeza. Não é para espalhar por aí. Confio-lhe mano. Porque não é um qualquer que publica assim as suas dores. O que vou escrever é motivo das vergonhas. Começo com Maria Zeitona, causadora de todos motivos. Escrevo o nome dessa mulher e ainda me sucede ouvir sua voz, suavezinha que nem asa. Já disse: voz de mulher vale tanto como a carne dela. Pelo menos, a mim me abre os apetites mais que as visões e as tentações. Como não ia dizendo: Maria Zeitona me apareceu intacta e intacteável. Dela se soltava a suspeita da brasa sob a cinza. Seu corpo falava pelos olhos. E que olhos cristalindos! Casámos, instantâneos. Eu queria sofrer a promessa daquele fogo. Esposava para consumar aquelas ardências que tanto enxamearam meus sonhos. Contudo, meu mano: Maria Zeitona era fria, calafrígida! Eu fazia amores era como se fosse com uma defunta. O que eu com ela praticava eram relações assexuais. E assim ela se foi mantendo mais virgem que Maria. Tentei, retentei, usei as técnicas da minha total experiência. Contudo, mano: não valeu a pena. Zeitona era lenha molhada: o fogo lhe desvalia. Girei as tácticas,lhe ofereci valiosas surpresas. Experimentei os namoros muito prévios. Até lhe beijei desde a terminal dos pés. Não arrebitou resultado. Beijo não se dá nem se recebe. A vida é que beija, recíproca. Repito, mano: a vida é que nos beija, dois seres se resumindo num único infinito. Conversa afilhada? Está certo, mano, regresso ao cujo assunto de Maria Zeitona. No final das campanhas, lhe dei um penúltimato: ou ela se açucarava ou eu tomaria as medidas inconvenientes. E foi o que não se sucedeu. Então, mano, me decidi: entregaria Zeitona a uma prostituta. Sim, Zeitoninha faria um estágio com uma dessas profissionais de roça e destroca. Assim ela aprenderia a enrodilhar lençóis. Enfim, ela cometeria o pecado imortal. Não demorei a escolher a adequada mestra: seria Maria Mercante, a mais famosa

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bacanaleira, mulher bastante inata nas artes de se deitar. Escura, retintadinha, dona de deliciosos recheios. Neste mundo há dois seres que se apoiam no rabo para subir na vida: o javali e Maria Mercante. Falei bem com a rabuda: - Por favor, lhe ensine as viragens de núpcias! - Se descanse, senhor. Corpo de mulher não le basta ter qualidades: é preciso ter qualificações. E a qualificada prostituta pros- segiu. Falou conversas deslocadas, quem sabe se para aumentar o preço das lições. Zeitona deixaria as virgindades mais arrependida que aquela, única que concebeu sem pecado. Pois ela conhecia era a versão do exacto: Virgem Maria tinha, afinal, recusado a visita do Espirito Santo. Respondera naqueles termos: ter filho sem fazer amor? Qual o gozo? Deitar fora o prato e ficar com o arroto? É essa a lição que vou dar a Zeitona: nada de platonismos: sexo à primeira vista. Lhe interrompi, desviando a conversa dos anjos para minhas materiais aflições. Consoante pagamentos antecipados, Maria Mercante aceitou o serviço. Eu que ficasse repousado minha esposa sairia do curso mais acesa que o pino do meio-dia. Que eu me haveria tanto de despentear com ela que até o colchão reclamaria urgentes remendos. E Zeitona lá foi para um lugar desses, de baixa seriedade. Vamos lá: um pronto-a-despir. Passaram semanas, o curso terminado, minha esposa regressou a casa. Vinha, de facto, mudada. Seus modos eram demasiado estranhos mas não da maneira que eu esperava. Caramba, mano, até ponho vergonha nesta confissão: Zeitoninha vinha com jeitos de homem! Ela que era tão metida nos ombros dela agora parecia uma manda-bátegas. Isto é, isto foi: minha Zeitona se inchara de masculina. E não era só no momento dos namoros. Era sempre e em tudo. Na voz, inclusive... Tudo nela se emendara, mano, a pontos de eu ter que coçar as minhas machas partes para me confirmar. Digo mesmo: ela é que me empurrava a deitar, acredite, ela é que me desapertava,me ia roubando os ares. Eu ficava para ali sem nenhuma iniciativa, executado e mandado como se fosse rapariga iniciada. E a coisa continua até ao presente actual. O problema, mano, é o seguinte:

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eu até gosto! Me custa admitir, tanto que hesito em escrever. Mas a verdade é que me agrada esta nova condição, sendo-me dada a passiva idade, o lugar de baixo, a vergonha e o receio. E é isto, mano. Me explique, caso lhe chegue o entendimento. Eu não sei qual pensamento hei-de escolher. Primeiro, ainda me justifiquei: afinal, a verdade tem versões que até são verdadeiras. Como, por um exemplo: nos amores sexuais não há macho nem fêmea. Os dois amantes se fundem num único e bipartido ser. Não haveria, portanto, razões para meu rebaixamento. Está-me a seguir, meu irmão? Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicação. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que eu sou Joãotónio e Joanatónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome. in Estórias Abensonhadas

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Autor: Ana Fernandes Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:40

Autor: Bárbara Seara Técnica: Aguarela Duração: 00:01:34

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Autor: Danilo Silva Técnica: Técnica Mista Duração: 00:00:44

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Autor: Eduarda Silva Técnica: Tinta da China Duração: 00:00:46

Autor: Inês Ramos Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:53

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Autor: Mélodie Deschans Técnica: Acrílico Duração: 00:01:11 60

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Autor: Paulina Fonseca Técnica: Aguarela Duração: 00:02:00

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uando deu conta do tempo, Maria Pedra foi a correr para o cruzar dos caminhos, na encosta da Chão Oco, e ali se deitou, saia levantada à espera que algum macho a encontrasse. Era de Dezembro, ela tinha anos e era virgem. E assim ficou cinco dias e cinco noites, destapada e oferecida até que um vizinho a trouxe inanimada. Depositou o corpo à porta de casa, ali onde a praça se enche de luz, avistosa de todos, redonda como a vozearia da aldeia. O que acontecera? Tinham passado tantos, e tantos dela fizeram uso que ela ficara ofendida, mal-procedida para a vida inteira. Isso dizem uns. Outros juram que ninguém ousou tocar-lhe. Que ela assim, estendida e de olhos cerrados, parecia já possuída por forças do outro mundo. E lhe escapava até, viscosa e amarelenta, uma baba dos queixos. Nem o mais carente e maiúsculo dos másculos desejaria mulher naqueles escagalhos. Ou ainda, segundo outros escondidos rumores, o vizinho se tinha despenteado com ela, anoitrevido? Esse vizinho sempre saíra um moscaviva, homem com desculpas no cartório. Mas a

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mãe assegurou: ela tinha chegado virgem. Ela mesma confirmara, espreitando-lhe as partes, abaixo dos pêlos públicos. As marcas de dentes que trouxe no peito eram mordidelas de bicho, desses tão nocturnos que nunca ninguém esteve desperto para os testemunhar. Naquelas cinco noites ninguém em casa se mexeu, com medo que fosse cumprimento de promessa, um preventivo de feitiço. Pelo sim pelo enquanto, a família ficou de olho no ventre de Maria Pedra, alertada para o mais leve arredondar. Passaram-se meses e a moça mantinha-se magra, rectilinda. Um suspiro percorreu todos. Se houvesse gravidez, a desconfiança rondaria entre todos. O culpado poderia ser qualquer um e até irmãos e tios caberiam entre os suspeitos. Nove meses escoaram e, todo esse tempo, a moça não falou uma palavra que fosse. No resto, cumpria os afazeres: casa para parente para aguar, bosque para lenhar. E, de novo, em cada noite, o sonhado fogo regressava à cinza: o infinito ciclo do seu inexistir. Cumpriase o último dia de Setembro quando a moça arrumou uns panos, avolumou com eles uma trouxa e atou esse volume à cintura. Quem a visse caminhar, no lusco-fulgir da madrugada, diria que Maria Pedra despertara subitamente grávida. Para onde se descaminhou? Pois se dirigiu, de novo, ao cruzar dos caminhos e ali se deitou, enroscada, pteridófíta. Foram avisar a a mãe. Que a moça sofrera de novo acesso. - Vou lá - disse a mãe, passando um gesto rápido frente ao espelho. Alisava o ventre que engordara, fruto das preocupações que a filha lhe trouxera. O que ela sofrera, naqueles nove meses de angústia! E como se ganhasse mais decisão, repetiu: - Vou lá, antes que seja tarde. - Para ela há muito que já é tarde. Era o pai, em murmúrio, num canto da sala. Inválido, o homem vivia entre o vazar de garrafa e o desarolhar de outra garrafa. O vizinho, solícito, sossegou-a: - Vá, à vontade. Eu tomo conta aqui do nosso homem. E empurrou o assento e o assentado. O marido bateu com ambas mãos nos braços da cadeira de rodas. Agredia o seu próprio destino: - Você devia era arranjar-me uma garrafa de

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rodas! E voltou a apagar-se, escuro no recanto escuro. O vizinho fez um sinal para que a dona de casa se afastasse, rumo aos seus afazeres. A mãe cruzou a aldeia. Primeiro, apressada. Queria adiantar-se aos rumores, enxotar as vergonhas. Mas à medida que ia descendo a encosta, o seu passo foi esmorecendo. Vagarosa como sombra se chegou à filha que se conservava enroscada sobre a rocha do entroncamento. - Venha, minha filha. Volte a casa. - Agora não posso - respondeu Maria Pedra. Uma tremura na voz? A miúda chorava. Seria dessas inventadas mágoas, dessas que ela criava apenas para se sentir existente? - Venha, traga essas roupas, antes que a aldeia acorde. A mãe puxou pelos panos que nela se enrodilhavam. A moça resistiu, as duas mulheres se disputaram com violência, até que se envolveram corpo contra corpo. Houve rasgo e unha: já sangue escorria pelas pernas da mãe. Foi quando se descortinou, por entre o emaranhado das roupas, o corpo de um menino, recém-nado. E o choro inaugural de um novo habitante. A mãe ficou anichando o recém-recente no ofegante ventre. As duas deitadas, lado a lado, alongaram um silêncio. - Esse filho é seu, Maria Pedra! - Sossegue, mãe. Eu digo que é meu. in O Fio das Missangas

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Autor: André Melo Técnica: Pastel Duração: 00:00:48

Autor: Catarina Nobre Técnica: Lapis de Cor Duração: 00:00:33

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Autor: Cristisna Farias Técnica: Lapis Duração: 00:01:05

Autor: Diogo Charro Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:01

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Autor: Edgar Fernandes Técnica: Lápis de cor Duração: 00:01:14

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Autor: Joel Mariano Técnica: Aguarela Duração: 00:01:20

Autor: Juliana Neves Técnica: Aguarela Duração: 00:01:04

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Autor: Manuel Abelho Técnica: Técnica Mista Duração: 00:01:15

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Autor: Sofia Oliveira Técnica: Aguarela Duração: 00:02:10

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preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno. Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se no território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei. A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total. A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre

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os seres. Rosalinda era mulher retaguarda, fornecida de assento. Senhora de muita polpa, carnes aquém e além roupa. Sofria de tanto volume que se sentava no próprio peso, superlativa. Já fora esbelta, dessas mulheres que explicam o amor. Magreza sucedida em seus tempos. Pois que, desde que enviuvou, ela se desentreteu, esquecida de ser. Rosalinda, agora, se cansava de tanta hora: mascava mulala1, enrolando a saliva-laranja. As mulheres gordas não zangam com a vida: fazem lembrar os bois que nunca esperam tragédias. No desfolhar das tardes, ela se aprovava em triste rotina. Visitava o cemitério. E isso fazia muito diariamente. A campa do falecido marido, o Jacinto, ficava bem no fundo do cemitério. Condizia com o lugar que ele sempre tivera, nas traseiras da vida. De passo miúdo, Rosalinda rumava entre as moradias subtérreas, vacilando como se magoasse em sua própria sombra. Já no lugar, ela em si se joelhava, vencendo as pernas. E ali se deixava, na companhia sozinha do defunto. Assim se foram prostrando as datas, anos suados, anos somados. Rosalinda se antepassava, tantos eram os parentes já enroscados no grande sono. Só ela restava, em seus retroactivos pensamentos. Junto à campa, ela se memoriava: - Jacinto, grande sacana. Com gesto terno, ela alisava a areia, afagando lembranças. Deus lhe punisse, Deus adoecesse. Mas quem explicava aquela saudade do sofrimento, o doce sabor de amargas lembranças? - Tu me amarraste a vida, me forneceste de porrada. Ela estava de razão: o Jacinto só jurara fidelidade às garrafas. Se é que partira, sua alma devia ter viajado em forma de garrafa. Para mais, ele nos amores se multiplicara, retribuindo-se às tantas mulheres. Quando chegava a casa, noite imprópria, já seus lábios estavam cegos. A esta hora, dizia ele, só sei ler nos copos. Falava assim só para lhe magoar. Porque ele se matriculara na escola nocturna, cumprindo promessa de mudar de vida. Frequentou as aulas mas só por poucas noites. Rosalindinha: estou-te a explicar-me. A vida não vale as penas. Não sou um homem de 1 Mulala - raiz de planta usada para limpeza dos dentes e que tinge de laranja os lábios e gengivas dos que dela se servem habitualmente.

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escola, as letras me cansam de mais. Eu sou um fruto, Rosalinda. Um fruto, mesma coisa o caju. Alguém ensina um fruto a ficar maduro? Responde, Rosalinda. Alguém explica alguma coisa ao caju? Ninguém. Ele só recebe lições da terra. Então, um homem só tem que ficar bem em cima do chão, beneficiar das completas raízes. Não é como esses que deixam a terra, vão para o estrangeiro, acabam por nem sentir o chão que pisam. Esses são lenha seca: um pedacito de fogo e ardem logo. Rosalinda já sabia. Aquela era conversa prévia dos murros, prefácio de porrada. Mal que surgisse o fundo da garrafa, as palavras davam lugar à pontapesaria. Depois, ele saía, farto de ser marido, cansado de ser gente. Jacinto, enfim, só dava despesa no coração da doce Rosalinda. Mesmo no leito da morte, os olhos dele, recémfalecidos, teimavam em espreitar o mundo. Já nada viam. O silêncio governava a sala, nem palavra ousava mover-se. Mas quando alguém se aprontou a descer as pálpebras do defunto uma voz se ordenou: - Não lhe fechem os olhos! Um espanto arrepiou-os todos. Rosalinda desceu o rosto, evitando o sujo da vergonha. - Esse homem ainda está à espera de alguém. E foi assim que Jacinto se abismou, de vista aberta, atento aos encontros do porvir. Mesmo sabendo da eterna infidelidade, Rosalinda lhe destinou a mais perfumosa roupa. De igual como fizera em vida, ajeitando-lhe as aparências, antes dele sair: - Você vai ter com as mulheres, assim escangalhado? Deixa que eu lhe arrumo bonito. A boca é o esconderijo do coração? No caso, até nem. Ela encarecia o marido com sincera vontade. As outras não pensassem que ela não cumpria cuidados de esposa. Que no gozo de Jacinto elas respeitassem a mão de sua vaidosa obra. Agora, na interruptura da vida dele, Rosalinda tudo lembrava com benevalentia. Com a trespassagem, ela tudo lhe perdoou: mulheres, copos, compridas ausências. A bondade lhe surgira logo na primeira reza, na berma do túmulo. Enquanto orava, sua alma amolecia. Depois dos amens, ela se descobriu apaixonada, por estreia na esteira da vida.

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Afinal, o Jacinto, meu Jacinto. - Amor certo é mais que único. Morto sem cura, amor sem remédio. Afinal, quanto a viuvez tem de orfandade? Quanto se despe a existência, deixando a pessoa de umbigo na mão? Os outros admiravam-se da gorda Rosalinda. Então só depois do homem falecer é que ela lhe coroara em trono do seu coração? Sim. Também só agora ela dispunha totalmente de Jacinto, só agora ele lhe pertencia inteiro, exclusivo. Afinal, aqueles olhos que ele levara escancarados estavam destinados só para ela. Só para mim, se indemnizava Rosalinda. Ele nunca mais se repartiria por colo alheio. Jacinto estava garantido em imaginoso juramento. Só um retrato podia ser assim tão fiel. O triste consolo nela se confirmava: a morte de Jacinto não era mais que o matrimónio que sempre cismara. As outras, rivais, se esvoaram, gajas e momentâneas. De repente, elas não eram mais que um sopro de lábios esquecidos. Mulher perversa não se preserva Rosalinda, agora, concebia: a vida que juntos despenderam foi um simples noivado, coisa de inacabado juízo. E aceitava, sem mágoa, a lembrança de suas velhas injúrias: - Teu nome, Rosalinda, são duas mentiras. Afinal, nem rosa, nem linda. Ela, em sorriso, comemorava. Suspirava em maré de alma, vaziando-se. No tardio presente, ela toda se dedicava a Jacinto, em subterrâneo namoro. A gorda se derramava como sumo de fruto tombado. Já não joelhava. Isso é gesto viúvo. Que ela agora se bonitava, lustrando seu recente matrimónio. Mas foi um dia. Rosalinda comprava flores quando viu chegar uma moça bela e ligeirenta. A estranha se abeirou da campa de Jacinto e ali se prostrou, em mostrada tristeza. Rosalinda estranhou-se. Seus olhos se moeram, a menos ver que adivinhar. Aquela era uma jovem muito concreta, suprametida. Via-se que nunca usara capulana2, sempre dispensara mulalas.3 - Essa deve ser Dorinha, a outra última dele. A viúva chegou-se mais perto mas sem se fazer ver. Não pisava fora das pegadas. Parou em 2 É o nome que se dá, em Moçambique, a um pano que, tradicionalmente, é usado pelas mulheres para cingir o corpo,fazendo as vezes de saia, podendo ainda cobrir o tronco e a cabeça. 3 Arbusto cuja raiz é usada para limpar os dentes e avermelhar os lábios.

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campa vizinha, ficou espreitando, emboscada em seus próprios olhos. A outra exibia um punhado de lágrimas, pouco peso de saudade. Rosalinda amaldiçoou a lacrimaruja. - E você, Jacinto, aí em baixo do chão, aposto que está a rir. Bem gozaste em vida, fidamãe: agora, acabou-se as brincadeiras. Rosalinda se decidiu, pronta e toda. Dirigiu-se ao serviço funerário e solicitou que mudassem o lugar do caixão, trocassem o "aqui jaz". - A senhora pretende transladar os restos mortais? E, logo, o funcionário lhe mostrou os longos papéis que a superavam. A viúva insistiu: era só uma mudançazita, uns metritos. O empregado explicou, havia as competências, os deferimentos. A viúva desistiu. Mas apenas se fingiu vencida. Pois ela se enchera de um novo pensamento. Voltou à noitinha, trazendo Salomão, o sobrinho. Às vistas da intenção, o miúdo se assustou: - Mas, tia, é para fazer o quê? Desenterrar o titio Jacinto? Não, sossegou ela. Era só para trocarem as inscrições dos vizinhos túmulos. Mesmo assim, Salomão tremia mais que a luzinha do xipefo4. A viúva tomou dianteira, covando ela própria: - Eu sempre disse: lume pedido nunca acende. Jacinto, translapidado, devia de se admirar daquelas andanças. Agora, só eu sei qual é sua verdadeira tabuleta, malandro. Rosalinda sacudiu as mortais poeiras, se administrou o devido perdão. Que esse gesto de aldrabar a intrusa lhe fosse minimizado por Deus. A outra paraviúva, que dedicasse seus ranhos ao vizinho, o de morte anexa. Porque aqueles olhos de Jacinto, aqueles olhos que a terra se abstinha de comer, só a ela, Rosa e Linda, estavam destinados. Aconteceu como ela previra. No dia seguinte, a intrusa compareceu e entregou seu sentimento à campa errada. Rosalinda nutria-se de risos, enquanto espiava o equívoco. Ela se benzia, mais para si que para Deus: - Em vida me enganaram. Agora, é o meu troco. Rosalinda, a esposa póstuma, se vingava. E foi por tempos, o ajuste. Então, um dia, ela pensou: antes, eu sempre desconsegui. Sempre fui nada. Mas agora eu sinto meus poderes. 4 Lamparina.

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Rosalinda se enchia de crença, ela mexia para além da morte, lá onde já não havia destino nenhum. E, assim, ela acreditava entender um juízo sem dimensão. Pelas ruinhas do cemitério, Rosalinda saltava sonoras risadas. - Vamos Jacinto, vamos beber xicadjú5. Entornava aguardente num invisível copo, servia-se de ocultas carícias. Às tantas, brigava: - Deixa os livros, marido. Agora é que quer estudar? E empurrava ninguém. Seus risos, inacreditados, ainda uns tempos estremeceram os mudos cantos do cemitério. Mas depois, os outros, cumpridores de seriedades, temeram suas desordens. A viúva desconhecia os métodos da tristeza, suas gargalhadas incomodavam o sagrado repouso das almas. E levaram a gorda mulher, aquela que foi viúva antes de ter sido esposa. Levaram-lhe para um lugar sombrio onde ela se converteu em ausência. Rosalinda, por fim, se promoveu a nenhuma. In Cada Homem é uma Raça

5 Aguardente de caju.

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Autor: Florian Oliveira Técnica: Tinta da China Duração: 00:01:11

Autor: Joel Gonçalves Técnica: Lápis de Cor Duração: 00:02:15

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Autor: Elói Silva Técnica: Aguarela Duração: 00:02:00

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Autor: Sérgio Vieira Técnica: Lápis Tempo: 00:00:44

Autor: Sofia Biserinska Técnica: Lápis de cor Tempo: 00:02:00

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Autor: Pedro Alves Técnica: Lápis de cor Duração: 00:11:10

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Autor: Leonor Branco Técnica: Técnica Mista Tempo: 00:01:43

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MIA COUTO, "Joãotónio, no enquanto", in Estórias Abensonhadas, Caminho (Outras Margens), Lisboa, 2011, pp. 135-141, conto de 1994 MIA COUTO, "Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?", in Vozes Anoitecidas, Caminho (Uma terra sem amos). Lisboa, 2002, pp. 83-95, conto de 1987 MIA COUTO, "O baralho erótico", in Contos do Nascer da Terra, Caminho (Outras margens), Lisboa, 2006, pp. 125-130, conto de 1997 MIA COUTO, "Rosalinda, a nenhuma", in Cada Homem é uma Raça, Caminho (Outras margens, Lisboa, 2002, pp. 47-57, conto de 1990 MIA COUTO, "Maria Pedra no cruzar dos caminhos", in O Fio das Missangas, Caminho (Outras margens),Lisboa, 2004, pp. 87-90, conto de 2004

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