VIAGEM
MÉXICO
EM FAMÍLIA NO PARAÍSO O escritor José Luís Peixoto partilha com a CRISTINA o roteiro e as memórias dos dias de evasão vividos por terras mexicanas. texto JOSÉ LUÍS PEIXOTO fotografia PATRÍCIA SANTOS PINTO
Há 65 milhões de anos, o nosso planeta foi atingido por um asteroide. Desse impacto nasceu a península de Yucatán e, segundo muitos cientistas, a partir daí deram-se também as alterações que levaram à extinção dos dinossauros. O nome da península deriva da palavra maia “Yoctlan”, que significa “lugar de riquezas”. Esta é a região com maior presença maia, com algumas das ruínas mais preservadas dessa civilização e, a partir do século XVI, aqui chegaram os espanhóis com as suas ambições de conquista e colonização. Mas, já no século XIX, aqui tiveram também lugar passos determinantes para a independência do México. Muito mais recentemente, ainda durante esta pandemia de 2021, aterrámos em Cancún para umas memoráveis férias de família. No futuro, quando recordarmos estas duas semanas, os cubrebocas, o álcool gel e a temperatura medida à entrada de cada edifício serão excêntricas curiosidades de um tempo que passou. Tudo isto será história. – 120 –
O México é uma república federal e, por isso, está organizado em estados. Antes, toda esta região pertencia a um só estado, com o mesmo nome da península. Nos anos 30, considerou-se que era um território demasiado grande e dividiu-se, nascendo assim o estado de Quintana Roo. Hoje, o estado de Yucatán tem grande preponderância do interior, com selva tropical e fascinantes cidades coloniais, enquanto Quintana Roo se caracteriza sobretudo pela sua costa no Mar das Caraíbas, com algumas das estâncias turísticas mais conhecidas deste lado do mundo, como é o caso de Cancún e Riviera Maya. Na primeira parte da nossa viagem, rumámos ao interior do estado de Yucatán. Avançámos durante horas em estradas com selva densa de um e de outro lado. A fertilidade desta terra apresenta-se numa enorme exuberância. Há pontos em que a vegetação é um emaranhado intransponível. Atravessando muitas localidades de vida pacata, onde o tempo passa devagar sobre um calor húmido e inclemente, seguindo durante quilómetros, chegámos ao extremo norte do estado de Yucatán. É aí que fica a Reserva da Biosfera de Río Lagartos. A partir da pequena vila piscatória que tem o mesmo nome, fizemos um inesquecível passeio de lancha na lagoa. Encontrámos crocodilos livres no seu habitat natural, pelicanos, inúmeras espécies de aves e, claro, os habitantes mais famosos da região, multidões de flamingos cor-de-rosa. Por sugestão do piloto do barco, parámos numa margem e cobrimos toda a pele com argila branca. Há fotografias, mas vou deixar-vos imaginar essa cena. Depois, fizemos uma pequena distância até ao mar aberto, já Golfo do México, onde recuperámos os nossos rostos e cor habituais, numa paisagem extraordinária.
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Estar no México é sempre uma experiência colorida, extravagante e multissensorial. Essas qualidades são claras na praça principal de Valladolid, a segunda cidade do estado de Yucatán, depois de Mérida, a capital. Ao fim da tarde, as copas das árvores ficam repletas de pássaros, cada um com o seu piar, um ruído difícil de descrever em toda a complexidade do seu alvoroço. Ainda assim, cá em baixo, pessoas de todas as idades descansam sentadas em bancos de jardim ou caminham placidamente à volta do pequeno lago, com o seu repuxo pitoresco. Todos desfrutam do ar fresco: crianças brincam, namorados sentam-se em curiosas cadeiras de cimento que os colocam frente a frente, famílias fazem fila diante de bancas a vender tamales, elotes ou marquesitas. Também os sabores mexicanos são invulgares para o nosso paladar europeu. Nas comidas que se encontram frequentemente à venda na rua, o doce mistura-se com o picante, o avinagrado e o salgado são nuances surpreendentes. Uma das experiências mais sublimes do México é comer. Há o mole, que é um molho preparado com chocolate e picante, servido com carnes; há o pozole, que é uma sopa de milho branco e carne; há sopa de lima e muitíssimas outras, quesadillas, flautas e tacos de todos os tipos. Entre a imensidão de pratos originários de Yucatán, o mais famoso é cochinita pibil, carne de porco cozinhada debaixo da terra. Na cidade de Izamal, comemos tacos de cochinita pibil a 10 pesos cada um, cerca de 50 cêntimos, no mercado do centro histórico, traça colonial, exclusivamente pintado de amarelo, a pouca distância do fabuloso Convento de Santo António de Pádua.
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Um dos segredos da fertilidade desta natureza é a água. A península é atravessada por múltiplos rios subterrâneos. O mais extenso do mundo chama-se Sac Actun e alonga-se por cerca de 155 quilómetros. Entre as maravilhas naturais que não se pode deixar de visitar estão os cenotes, cavidades que expõem parte dessa água subterrânea. Estes espaços, por serem acessíveis desde a superfície, são principalmente usados como incríveis piscinas naturais. Na península de Yucatán, há cerca de 7 mil cenotes. A água é limpa. Muitas vezes, pode ser consumida diretamente do cenote. No tempo dos maias, estas reservas de água eram
essenciais à sobrevivência e consideradas sagradas. Na sua mitologia, representavam o submundo. Visitámos várias ruínas maias: Kinich Kak Moo e Chal Tún Ha, em Izamal; Ek Balam, na zona de Valladolid. Mas não podíamos sair de Yucatán sem visitar Chichén Itzá, normalmente apresentada como a maior mostra arqueológica desta civilização e uma das atuais sete maravilhas do mundo. Foi ainda com os olhos marcados por esse deslumbramento que chegámos a Quintana Roo. Após um par de dias de descanso sem história, com sal e sol, rumámos ao porto de embarque de ferries, tínhamos bilhete para a ilha de Cozumel.
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O ponto mais alto da ilha de Cozumel tem cerca de 100 metros de altura. A única estrada da ilha forma uma figura que pode ser comparada a um círculo. Avançando para um ou outro lado, chegaremos sempre ao nosso destino. A maior localidade da ilha chama-se San Miguel e, no outro extremo, na Punta Sur, fica a Reserva Ecológica do Farol Celarain. Subimos a esse farol e, lá do alto, apreciámos as diferentes paisagens de branco, verde e azul: as dunas e as praias de areia branca; a selva e os mangais verdes; a lagoa, o Mar das Caraíbas e o céu com espantosos tons de azul. Foi também nessa reserva que tivemos uma experiência inolvidável: durante a noite, acompanhámos um biólogo do Centro de Conservação e Educação Ambiental na visita aos ninhos de tartaruga marinha e, com a sua orientação, ajudámos esses pequenos seres, acabados de sair do ovo, a chegar ao mar, livres de predadores. Vimo-los serem levados pelas ondas e iniciarem a longa viagem da sua vida. Ao ritmo caribenho de Cozumel, esperámos todos os dias pelo pôr do sol no horizonte, sentados num dos muitos bares e restaurantes de peixe e marisco do Malecón ou, uma vez, a remar numa canoa maia, no mar calmo e cristalino, entre a ilha e o continente, lá ao fundo. “Cielo” é o nome que dão a um dos lugares onde habitualmente se pratica snorkel. O nome vem do fundo do mar, coberto por estrelas marinhas, como um céu azul-turquesa. Com enorme visibilidade, entre raias e outros peixes, nadámos como se voássemos. – 124 –
Já em solo continental, terminámos a nossa viagem na Riviera Maya. Depois de tudo o que tínhamos vivido, queríamos um lugar onde pudéssemos descansar. Ficámos nas imediações de Playa del Carmen, o coração da festa na região, também não muito longe de Cancún, a grande cidade, centro comercial e financeiro, e a pouca distância de Tulum, lugar de praias magníficas, menos exploradas. Acabámos, no entanto, por não resistir às várias atrações que tínhamos à volta. Ainda bem que o fizemos. No Rio Secreto, por exemplo, cumprimos o percurso de cerca de um quilómetro no interior de grutas cobertas de água. Ora nadávamos, ora caminhávamos com água pela cintura, passando por formações geológicas como nunca tinha visto antes, comunidades de morcegos e restante fauna daquele ambiente. No Native Park Tulum, fizemos uma descida em rapel, deslizámos em zipline ao longo de quatro percursos sobre a selva, aterrando por fim na água de um cenote, onde fizemos mergulho e, uma vez mais, acumulámos imagens que ainda nos acompanham. Num desses últimos dias celebrámos também o meu aniversário. Não podia ter sido mais especial. Nesse momento de balanço, tive a certeza de que estávamos a aproveitar cada instante deste milagre que é a vida, deste privilégio de estarmos juntos, em família, num lugar que em tudo se parece com o paraíso. – 125 –