Sinopse e programa do espetáculo. Um show musical, um resto de banda, um resto de circo, um pedaço de lona e uma sobra de vodka em meio a murmúrios russos e rugidos felinos. Uma autopsia atemporal de quatro leões bufos que nos convocam ao testemunho de sua própria morte, de sua miséria e dos dias de fome na jaula de um circo
Concepção do espetáculo “O número desmedido de injustiças em nosso tempo é, para muitos, simplesmente parte da paisagem de normalidade...” (BAUMAN, Zygmunt) Um projeto que propõe um espetáculo sobre a tragédia do Circo Vostok ocorrida em 9 de abril de 2000. Este fato se tornou a premissa de base temática que moveu os quatro atores acrobatas e a direção a revisitar o acontecimento ampliando-o e refletindo-o para nossa própria condição de miserabilidade humana. Perguntamo-nos se refletir sobre este fatídico momento da história do circo que envolve o Circo Vostok por meio da óptica improvável de quatro leões mortos por tiros não seria romper as jaulas dos nossos próprios não-ditos e fracassos? Perguntamo-nos se por meio de um certo realismo fantástico gerar um julgamento onde leões acusados de assassinato e nos dispormos a uma perspectiva crítica mais ampla do fato não quebraríamos um olhar normalizado e cristalizado enquanto uma sociedade sufocada por suas próprias contradições e atrocidades, com fortes tendências a não se criticar? À partir da orientação e aprofundamento do estudo da bufonaria amplia-se o repertório de gesto e possibilidades cênicas mais físicas e narrativas dos atuadores. A direção portanto, procurou mudar a óptica do espectador e oferecer-lhes uma lente de contraste acerca da rotina desses bichos bufos, já domesticados, sucateados e retaliados de suas origens numa certa savana africana. Há de se improvisar, jogar e testar por vários filtros e situações o fato de que estes leões não comiam há dias. Em resumo, os ensaios se dão à partir de intenso treinamento físico, musical e jogos de improviso com base nos temas que refletem e rodeiam o caso do circo Vostok.
O procedimento de orientação dos atores se dá com base na comédia física dos bufos grotescos a partir da metodologia de Jacques Lecoq e outras referências estéticas e físicas da direção. Os bufos, por sua vez, quando tratados como não-humanos e como seres fantásticos, grotescos e até míticos nos abrem para diferentes possibilidades estéticas, musicais e de lógica de jogo fortalecendo uma estrutura dramatúrgica e narrativa não linear. A linguagem dos bufos, satíricos, perversos e por vezes proféticos, agindo sempre em bando, bobos, acrobáticos e mimodinâmicos proporciona à obra uma encenação potencialmente tragicômica e musical. É como se estas criaturas não-humanas surgissem de modo “cartoonesco” formados em um mini côro ao picadeiro, justamente no dia seguinte da morte dos leões e nos provocassem a compreender cada tiro dado em seu corpo. Um bando que trará suas memórias esfaceladas e descompassadas desde suas rotinas no picadeiro e nas savanas quando filhotes selvagens nos conduzindo a uma sucessão de erros humanos quando condicionamos o outro a privação de sua liberdade com fome e em plena miséria. E ainda que narrando o crime num julgamento improvável, quando questionam a própria bala do revólver policial, estes quatro leões bufos nos fornecem dados coerentes para o ocorrido, diferente do que ficou em registro policial.
Aqui não somente refletimos os atos ilícitos, controversos e excusos deste fato do dia de abril, mas nos provocamos a um compêndio de veracidades e contradições pelo de vista dos que tem fome, ainda que leões mortos.
09 ponto
Sobre o processo de criação Todo processo de criação dramatúrgica, preparação dos atores, concepção da iluminotécnica, figurino e visagismo se deu de forma conjunta em processo colaborativo de cada função convergendo-se às reais necessidades da obra, trabalhando jamais de forma isolada ou em gabinete.Tudo se deu pela comunicação em rede e tomada de decisões em equipe.
Projeto cenográfico O corpo dos bufos tem forma e impacto de imagem muito fortes. Significativo gerar plano cenográfico simples, com a devida funcionalidade à lógica do bando de bufos e gerando ambiência de decadência por sua condição enquanto leões mortos a contrastar com um imaginário “naif” acerca do mundo do circo. Trazer um pouco do “backstage” das maquinarias da lona e sugerir um espaço dedicado a banda do circo. Assumir os elementos sonoros em recursos de Live P.A. e de um power trio de Rock. Possibilitar ao público a sensação de um circo decadente em detrimento ao circo dos sonhos de uma criança. Sustentar ainda a imagem de um canto de porão puído em pleno clima das antigas bandas de garagem, todavia repletas de vivacidade quando os jovens de suas banda anarco punks traziam seus protestos e gritos em forma de música. Afinal tratamos aqui de um bando de bobos , de leões em estado de rebeldia e após sua própria morte. A caixa de madeira com pedaços de cartaz de circo e selos de viagem se torna o elemento fundamental de jogo de cena . A caixa de múltipla função tem efeito de iluminação, tem a função de objeto cenográfico diverso para várias cenas e serve ainda como tapadeira para os números de slap stick, ilusionismo e acrobacia.
Figurino e construção dos corpos O conceito de base para construção dos figurinos foi de que os atores seriam os próprios leões , porém já mortos. Seguiu-se a forma dos corpos a partir do que estudaram fisicamente com a direção. Quando dramaturgia e encenação se firmam mais, os elementos bufonescos, animalescos e circenses tornam-se as tônicas para a criação da identidade visual, revelando individualidades mas que complementem o bando característico do jogo do bufão. Buscou-se um aspecto mais grotesco, com cicatrizes, marcas de bala, leões com poucos e surrados pelos como forma de realçar e complementar a narrativa. Seguimos ainda uma premissa de conceito de “sangue nos corpos dos bufões não haveria jamais!”. O impacto vem pela imagem formada nos nossos imaginários sobre o fato do dia 09 de abril, onde resquícios da crueldade e da vida dura sob este leões de circo deveriam ser reveladas e não os mesmos vistos como assassinos. Procurou-se empregar humor e grifos cartoonescos na estrutura de corpo dos bufos e seus adereços, como exagero na proporção dos objetos, contraste nas cores e envelhecimento nos pelos e tecidos, seguindo o que foi feito nos instrumentos musicais e outros adereços circenses.
Ficha Técnica Elenco: Adriano Laureano, Jean de Oliveira, Jonas di Paula e Guilherme Padilha Direção: Daniela Biancardi Direção Musical: Mateus Guimarães Figurinos: Chris Galvan Iluminação: Renato Junior Orientação Dramatúrgica: Suzana Aragão Cenografia: Núcleo de Pesquisa e Montagem do espetáculo Confecção de Cenário: Willian Alves e Orlando Sales Edição de Som: DJ Evelyn Cristina Adereços: Marcio Douglas e Orlando Sales Fotos: Miguel Ramos Arte Gráfica: Marcio Douglas Produção: Jean Oliveira
Breve currículo dos principais integrantes do projeto Cia de 2 A Cia de 2 marca seu início em 2006, é um grupo de atores que realiza uma pesquisa voltado ao universo cômico. Assim, desenvolve seu trabalho a partir de três pilares: o existencialismo, verdade cênica e o estado visceral do ator. Com 13 anos de estrada, a companhia percorreu por vários Festivais pelo Brasil, e ganhou diversos prêmios. Durante sua trajetória sempre convidou diferentes diretores para as montagens, conta com três espetáculos Pé na Curva, direção de Jonas di Paula, O Arquiteto e o Imperador da Assiria, direção de Leo Antunes e A nau dos desterrados, direção de Marcio Douglas. Em 2019 estreia seu mais novo trabalho: Leões, vodka e um sapato 23, em parceria com os atores da La Cascata Cia Comica e direção de Daniela Biancardi.
Daniela Biancardi Atriz, comediante e diretora teatral dedica-se à pesquisa do teatro cômico e gestual há 20 anos. Formada pelo Teatro-Escola Célia Helena, École Internacionale de Theâtre Jacques Lecoq (Paris) e Kiklos Teatro Scuola Internazionale (Itália). Em 2000 estudou também na École du Cirque Les Noctambules (Paris). Neste mesmo período participou da Macnas Company, Cia. Irlandesa de Teatro. Como produtora em 2001, integrou a equipe de produção do Fringe Festival em Edimburgo-Escócia pelo Komedia Theatre. Estudou ainda com alguns dos melhores atores integrantes do grupo Thèâtre du Soleil e a atriz Denise Stoklos. Como orientadora e gestora de projetos artísticos destacam-se importantes parcerias como Banco do Brasil, NoKia, Absolut , Editora Abril, Chevrolet Meriva, Itau Cultural, Ação Educativa, APAA, Instituto Vivo e toda rede SESC. Foi a primeira brasileira convidada para a expedição da África do Sul e Lesotho pelo Projeto Palhaços Sem Fronteiras (EUA), como orientadora teatral e palhaça. Vencedora do Prêmio Claudia da Editora Abril pelo conjunto de ações artísticas e culturais. Como preparadora de elenco orientou grupos teatrais como Folias, Estável , Vertigem, Tablado de Arruar , Cia Matilde e também espetáculos destacando Mulheres Alteradas , Mulheres Superadas (de Maitena) e Aprendiz de Feiticeiro (de Goethe) , direção de Edu Figueiredo. Foi assistente de direção do espetáculo “Vendo Gritos e Palavras”, solo da atriz Denise Stoklos. Faz parte do elenco de um dos espetáculos da Cia São Jorge de Variedades viajando por mais de trinta cidades dentro e fora do Estado. É atriz e diretora da Absurda Confraria. Atualmente circula com seu solo tragicômico [mímica e improviso] Virgínias e com o espetáculo “Leões, vodka e um sapato 23 como diretora. Em áudio visual agrega mais de 10 trabalhos em áudio publicitário , vídeos publicitários, dezenas de curtas e vídeo-arte, bem como dois longas. É uma das Formadoras do curso de Humor da SP Escola de Teatro desde 2010. É orientadora teatral do curso profissionalizante do Centro de Artes Célia Helena.
Uma Crítica ao Lado Avesso do Circo 19 de julho de 2019 Por Rodrigo Morais Leite
No dia 09 de abril de 2000, quando o Circo Vostok visitava a cidade do Recife, sucedeu-se um acontecimento desastroso: pouco antes de os leões ocuparem o picadeiro para o número que lhes cabia no espetáculo, um dos animais conseguiu projetar a pata fora da jaula e arrastar um menino de cinco anos para dentro dela. A criança acabou devorada pelos leões (quatro ao todo), que em seguida foram alvejados e mortos pela polícia local.
Tal episódio, prestes a completar vinte anos, é o disparador para a construção do espetáculo Leões, Vodka e um Sapato 23, coprodução dos grupos La Cascata Cia. Cômica e a Cia de 2, ambos de São José dos Campos. Embora o tema desenvolvido pela obra tenha sido escolhido de antemão, pautando o projeto desde o início, a forma mais adequada para estetizá-lo só apareceu no desenrolar do processo criativo, quando, em conjunto, optou-se pela linguagem do bufão, com toda a carga de extravagância a ela associada.
Levando-se em consideração que uma das características primordiais da bufonaria se liga ao seu aspecto desmistificador, iconoclástico, materializado na figura do bufão, esse ser talhado para denunciar os absurdos existentes em nossas relações sociais, não se vislumbra uma escolha mais adequada. Isso porque, conforme se pode deduzir pelo episódio que serviu de ensejo ao espetáculo, o alvo da crítica configurada em Leões, Vodka e um Sapato 23 é o circo, ou mais especificamente aquele que seria o lado sombrio dessa instituição cultural, que muitas vezes deve boa parte de seus dividendos à exploração cruel de animais selvagens como tigres, leões e elefantes.
Mesmo sem tecer uma fábula propriamente dita, no sentido tradicional do termo, a dramaturgia de Leões não deixa de apresentar uma certa narratividade. Dividindo-a em três partes, observa-se que, enquanto a primeira se mostra mais descritiva, expondo o problema sobre o qual o espetáculo pretende se deter, as duas últimas são mais narrativas, na medida em que procuram ilustrar o percurso dos quatro leões do aprisionamento nas savanas africanas até o fatídico dia em que foram executados.
Na fatura do espetáculo, esses animais surgem em cena “representados” por quatro atores-bufões (Adriano Laureano, Jean de Oliveira, Jonas de Paula e Márcio Douglas), todos trajando uma indumentária a evocar, de maneira hiperestilizada, a imagem do “rei das selvas”. Destaque para dois elementos significativos: em primeiro lugar a região do figurino que corresponderia ao ventre dos animais, cuja confecção remete ao sacrifício dos mesmos; em segundo a maquiagem que compõe as máscaras dos atores, rica em termos cromáticos e que, na conjunção com a luz, obtém efeitos grotescamente surpreendentes, perfeitos na conformação da estética desejada.
Em se tratando de uma obra sustentada muito mais no jogo dos atores do que em um texto pré ou pós-figurado, a performatividade que nela se observa é devida em grande parte a um elemento cenográfico fundamental: a caixa de madeira posicionada no centro do espaço cênico. Por meio da manipulação dessa caixa, toda equipada de objetos que, aos poucos, vão sendo acionados, advém algumas das cenas mais incisivas oferecidas pelo espetáculo, quase sempre na forma de cáusticas gags visuais.
Para reforçar a atmosfera bufa que se caracteriza como a marca de Leões, Vodka e um Sapato 23, também contribui em boa medida a música incluída na obra, executada ao vivo pelos próprios bufões, cada qual se responsabilizando por um instrumento musical diferente (uma bateria, uma guitarra, um trompete e um trombone de vara). Com essa formação, canções como O Leãozinho, de Caetano Veloso, e When the Saints Go Marchin In, eternizada na interpretação de Louis Armstrong, ganham versões (propositalmente) toscas, contribuindo para o clima geral de galhofa.
Por fim, ressalte-se a sofisticada partitura corporal executada pelos atores, criada a partir de processos laboratoriais coordenados pela diretora Dani Biancardi. Em um trabalho de pedagogia teatral inspirado nas ideias e nas práticas de Jacques Lecoq (1921-1999), ator e teórico francês, os atores desenvolveram para si, mais do que uma corporeidade sobressaltada (própria do estilo burlesco e que os unifica enquanto elenco), uma caracterização peculiar a cada um de seus bufões, que vai do mais sombrio ao mais infantil.
Em sua atitude de “dar voz” aos leões do Circo Vostok, assumindo francamente o ponto de vista deles em relação à desdita, Leões, Vodka e um Sapato 23 apresenta-se como um espetáculo radicalmente imerso no tempo presente, marcado pelo que se poderia designar como o início de uma era anti-humanista (ou pós-humanista, enfim…). É o mesmo “chão histórico” no qual despontam valores responsáveis por fenômenos como, por exemplo, o veganismo, provavelmente o mais sintomático de todos no sentido acima exposto.
De qualquer forma, o veto à utilização de animais selvagens em atrações circenses é, hoje, uma tendência mundial. No Brasil, onze estados da União, incluindo São Paulo, já criaram, em âmbito regional, leis proibitivas nesse sentido. Sinal de que o assunto se encontra, de fato, na ordem do dia. Sendo assim, apraz saber que um coletivo teatral aqui da cidade, valendo-se de muita sagacidade, soube conferir a ele um tratamento artístico à altura de sua relevância.
[1] É doutor e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. Atuando como crítico ou como curador, participou de diversos festivais de teatro.
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