Sinopse Um show musical, um resto de banda, um resto de circo, um pedaço de lona e uma sobra de vodka em meio a murmúrios russos e rugidos felinos. Uma autopsia atemporal de quatro leões bufos que nos convocam ao testemunho de sua própria morte, de sua miséria e dos dias de fome na jaula de um circo
Release “A Cia de 2 traz em seu repertório uma das linguagens mais antigas da história do Teatro: o universo da bufonaria, oriundo do teatro popular da Idade Média, ``Leões, Vodka e um sapato 23`` é o quarto trabalho do grupo Cia de 2 com estreia em 2019 no festival Internacional SESC CIRCOS, retrata uma tragédia em um período específico do Circo Brasileiro. Fato este que desencadeou mudanças bruscas nos parâmetros do fazer circense e na vida de muitos artistas. Revisitar a história do circo Vostok nos dias de hoje, pela ótica improvável dos leões, é abrir a jaula para se aprofundar no próprio existencialismo humano, de uma maneira satírica, o espetáculo conduz o público a recordar, rir e refletir sobre: a miserabilidade humana, as várias jaulas que nos aprisionam, a condição do artista/leão e sua luta pela sobrevivência, sobre a condição análoga à escravidão do trabalhador e sobre o estado de liberdade.
Histórico do espetáculo 2022 Sesc Taubaté 2021 Sesc Campinas Projeto Garagem, Itapira, Leões, vodka e um sapato 23 - online 15° Mostra de Arte Cenicas. Presidente Prudente, Leões, vodka e um sapato 23 – online Temporada de teatro CET, São José dos Campos, Leões, vodka e um sapato 23 – online Dose Dupla Cia de 2 (Proac LAB), Temporada Pé na Curva e Leões, vodka e um sapato 23 - online 2020 Circulação FCCR, São Jose dos Campos, Leões, vodka e um sapato 23 – online 2019 SESC AV PAULISTA
Mostra Aqui tem CIRCO, São José dos Campos FESTIVALE, São José dos Campos Circulação por 4 cidades (Jacarei, Mogi, Paraibuna, Ribeirão Preto) FESTIVAL INTERNACIONAL SESC CIRCOS Estreia
Ficha Técnica Elenco: Adriano Laureano, Jean de Oliveira, Jonas di Paula e Guilherme Padilha Direção: Daniela Biancardi Direção Musical: Mateus Guimarães Figurinos: Chris Galvan Iluminação: Renato Junior Orientação Dramatúrgica: Suzana Aragão Cenografia: Núcleo de Pesquisa e Montagem do espetáculo Confecção de Cenário: Willian Alves e Orlando Sales Edição de Som: DJ Evelyn Cristina Adereços: Marcio Douglas e Orlando Sales Fotos: Miguel Ramos Arte Gráfica: Marcio Douglas Produção: Jean Oliveira
Breve currículo dos principais integrantes do projeto Cia de 2 A Cia de 2 marca seu início em 2006, é um grupo de atores que realiza uma pesquisa voltado ao universo cômico. Assim, desenvolve seu trabalho a partir de três pilares: o existencialismo, verdade cênica e o estado visceral do ator. Com 16 anos de estrada, a companhia percorreu por vários Festivais pelo Brasil, e ganhou diversos prêmios. Durante sua trajetória sempre convidou diferentes diretores para as montagens, conta com três espetáculos Pé na Curva, direção de Jonas di Paula, O Arquiteto e o Imperador da Assiria, direção de Leo Antunes e A nau dos desterrados, direção de Marcio Douglas. Em 2019 estreia seu mais novo trabalho: Leões, vodka e um sapato 23, em parceria com os atores da La Cascata Cia Comica e direção de Daniela Biancardi.
Daniela Biancardi Atriz, comediante e diretora teatral dedica-se à pesquisa do teatro cômico e gestual há 20 anos. Formada pelo Teatro-Escola Célia Helena, École Internacionale de Theâtre Jacques Lecoq (Paris) e Kiklos Teatro Scuola Internazionale (Itália). Em 2000 estudou também na École du Cirque Les Noctambules (Paris). Neste mesmo período participou da Macnas Company, Cia. Irlandesa de Teatro. Como produtora em 2001, integrou a equipe de produção do Fringe Festival em Edimburgo-Escócia pelo Komedia Theatre. Estudou ainda com alguns dos melhores atores integrantes do grupo Thèâtre du Soleil e a atriz Denise Stoklos. Como orientadora e gestora de projetos artísticos destacam-se importantes parcerias como Banco do Brasil, NoKia, Absolut , Editora Abril, Chevrolet Meriva, Itau Cultural, Ação Educativa, APAA, Instituto Vivo e toda rede SESC. Foi a primeira brasileira convidada para a expedição da África do Sul e Lesotho pelo Projeto Palhaços
Sem Fronteiras (EUA), como orientadora teatral e palhaça. Vencedora do Prêmio Claudia da Editora Abril pelo conjunto de ações artísticas e culturais. Como preparadora de elenco orientou grupos teatrais como Folias, Estável , Vertigem, Tablado de Arruar , Cia Matilde e também espetáculos destacando Mulheres Alteradas , Mulheres Superadas (de Maitena) e Aprendiz de Feiticeiro (de Goethe) , direção de Edu Figueiredo. Foi assistente de direção do espetáculo “Vendo Gritos e Palavras”, solo da atriz Denise Stoklos. Faz parte do elenco de um dos espetáculos da Cia São Jorge de Variedades viajando por mais de trinta cidades dentro e fora do Estado. É atriz e diretora da Absurda Confraria. Atualmente circula com seu solo tragicômico [mímica e improviso] Virgínias e com o espetáculo “Leões, vodka e um sapato 23 como diretora. Em áudio visual agrega mais de 10 trabalhos em áudio publicitário , vídeos publicitários, dezenas de curtas e vídeo-arte, bem como dois longas. É uma das Formadoras do curso de Humor da SP Escola de Teatro desde 2010. É orientadora teatral do curso profissionalizante do Centro de Artes Célia Helena.
Uma Crítica ao Lado Avesso do Circo 19 de julho de 2019 Por Rodrigo Morais Leite
No dia 09 de abril de 2000, quando o Circo Vostok visitava a cidade do Recife, sucedeu-se um acontecimento desastroso: pouco antes de os leões ocuparem o picadeiro para o número que lhes cabia no espetáculo, um dos animais conseguiu projetar a pata fora da jaula e arrastar um menino de cinco anos para dentro dela. A criança acabou devorada pelos leões (quatro ao todo), que em seguida foram alvejados e mortos pela polícia local.
Tal episódio, prestes a completar vinte anos, é o disparador para a construção do espetáculo Leões, Vodka e um Sapato 23, coprodução dos grupos La Cascata Cia. Cômica e a Cia de 2, ambos de São José dos Campos. Embora o tema desenvolvido pela obra tenha sido escolhido de antemão, pautando o projeto desde o início, a forma mais adequada para estetizá-lo só apareceu no desenrolar do processo criativo, quando, em conjunto, optou-se pela linguagem do bufão, com toda a carga de extravagância a ela associada.
Levando-se em consideração que uma das características primordiais da bufonaria se liga ao seu aspecto desmistificador, iconoclástico, materializado na figura do bufão, esse ser talhado para denunciar os absurdos existentes em nossas relações sociais, não se vislumbra uma escolha mais adequada. Isso porque, conforme se pode deduzir pelo episódio que serviu de ensejo ao espetáculo, o alvo da crítica configurada em Leões, Vodka e um Sapato 23 é o circo, ou mais especificamente aquele que seria o lado sombrio dessa instituição cultural, que muitas vezes deve boa parte de seus dividendos à exploração cruel de animais selvagens como tigres, leões e elefantes.
Mesmo sem tecer uma fábula propriamente dita, no sentido tradicional do termo, a dramaturgia de Leões não deixa de apresentar uma certa narratividade. Dividindo-a em três partes, observa-se que, enquanto a primeira se mostra mais descritiva, expondo o problema sobre o qual o espetáculo pretende se deter, as duas últimas são mais narrativas, na medida em que procuram ilustrar o percurso dos quatro leões do aprisionamento nas savanas africanas até o fatídico dia em que foram executados.
Na fatura do espetáculo, esses animais surgem em cena “representados” por quatro atores-bufões (Adriano Laureano, Jean de Oliveira, Jonas de Paula e Márcio Douglas), todos trajando uma indumentária a evocar, de maneira hiperestilizada, a imagem do “rei das selvas”. Destaque para dois elementos significativos: em primeiro lugar a região do figurino que corresponderia ao ventre dos animais, cuja confecção remete ao sacrifício dos mesmos; em segundo a maquiagem que compõe as máscaras dos atores, rica em termos cromáticos e que, na conjunção com a luz, obtém efeitos grotescamente surpreendentes, perfeitos na conformação da estética desejada.
Em se tratando de uma obra sustentada muito mais no jogo dos atores do que em um texto pré ou pós-figurado, a performatividade que nela se observa é devida em grande parte a um elemento cenográfico fundamental: a caixa de madeira posicionada no centro do espaço cênico. Por meio da manipulação dessa caixa, toda equipada
de objetos que, aos poucos, vão sendo acionados, advém algumas das cenas mais incisivas oferecidas pelo espetáculo, quase sempre na forma de cáusticas gags visuais.
Para reforçar a atmosfera bufa que se caracteriza como a marca de Leões, Vodka e um Sapato 23, também contribui em boa medida a música incluída na obra, executada ao vivo pelos próprios bufões, cada qual se responsabilizando por um instrumento musical diferente (uma bateria, uma guitarra, um trompete e um trombone de vara). Com essa formação, canções como O Leãozinho, de Caetano Veloso, e When the Saints Go Marchin In, eternizada na interpretação de Louis Armstrong, ganham versões (propositalmente) toscas, contribuindo para o clima geral de galhofa.
Por fim, ressalte-se a sofisticada partitura corporal executada pelos atores, criada a partir de processos laboratoriais coordenados pela diretora Dani Biancardi. Em um trabalho de pedagogia teatral inspirado nas ideias e nas práticas de Jacques Lecoq (1921-1999), ator e teórico francês, os atores desenvolveram para si, mais do que uma corporeidade sobressaltada (própria do estilo burlesco e que os unifica enquanto elenco), uma caracterização peculiar a cada um de seus bufões, que vai do mais sombrio ao mais infantil.
Em sua atitude de “dar voz” aos leões do Circo Vostok, assumindo francamente o ponto de vista deles em relação à desdita, Leões, Vodka e um Sapato 23 apresenta-se como um espetáculo radicalmente imerso no tempo presente, marcado pelo que se poderia designar como o início de uma era anti-humanista (ou pós-humanista, enfim…). É o mesmo “chão histórico” no qual despontam valores responsáveis por fenômenos como, por exemplo, o veganismo, provavelmente o mais sintomático de todos no sentido acima exposto.
De qualquer forma, o veto à utilização de animais selvagens em atrações circenses é, hoje, uma tendência mundial. No Brasil, onze estados da União, incluindo São Paulo, já criaram, em âmbito regional, leis proibitivas nesse sentido. Sinal de que o assunto se encontra, de fato, na ordem do dia. Sendo assim, apraz saber que um coletivo teatral aqui da cidade, valendo-se de muita sagacidade, soube conferir a ele um tratamento artístico à altura de sua relevância.
[1] É doutor e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e na Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos. Atuando como crítico ou como curador, participou de diversos festivais de teatro.
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