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13/02/2006


13/02/2006 - 16h29

Empresas adotam código de ética para evitar escândalos JOÃO SANDRINI da Folha Online O código de ética ou de conduta já se consolida no meio corporativo como mecanismo para divulgar os valores de uma empresa entre seus funcionários, tornar mais justas e harmoniosas as relações no ambiente de trabalho ou até mesmo evitar escândalos ou ações judiciais. Entre os casos que tiveram grande repercussão em 2005 e que levaram empresas a pensar formas de regular as atitudes de seus empregados, há petista que ganhou Land Rover de presente, ministro que supostamente aceitou viagem paga para Alemanha com direito a visita bordel, montadora que demitiu empregados por enviar e-mail com fotos pornográficas e relacionamento amoroso que derrubou um dos maiores executivos da indústria de aviação. Os códigos de ética têm normas que variam de acordo com a empresa e, em geral, estabelecem punições para comportamentos indesejados. As empresas costumam enviar cópias do código para os empregados, que declaram conhecer suas regras. No caso da Diagnósticos da América, proprietária dos laboratórios Delboni e Lavoisier, por exemplo, há, entre outras coisas, forte preocupação em coibir comportamento inadequado que envolva governos ou o processo eleitoral. A empresa proíbe seus funcionários de oferecer qualquer tipo de presente a autoridades governamentais ou de estatais. Apesar de admitir doações a candidatos políticos "em conformidade com a legislação vigente", a empresa proíbe propaganda política dentro de suas dependências e avisa aos funcionários para que não se manifestem politicamente em nome da Diagnósticos da América. "Não queremos influenciar a tomada de decisões de políticos ou funcionários públicos por meio de políticas que possam ser interpretadas como propina", afirmou Maria Funck, diretora de Gestão de Pessoas. Já na Roche umas das principais preocupações é regular a relação entre médicos e funcionários do laboratório. Congressos médicos não podem ser realizados em locais excessivamente luxuosos. Nenhuma forma de entretenimento artístico é permitida, o que inclui espetáculos famosos, bandas ao vivo, danças animadas e visitas com médicos a bares com consumo de bebidas alcoólicas. "Queremos aumentar nossas vendas com a fabricação dos melhores medicamentos, e não dando dinheiro aos médicos para receitá-los", afirma Marco Cruz, gerente jurídico da Roche. "Achamos que nossa política acaba por estimular o funcionário a ser mais criativo para


vender e promove a justiça dentro da empresa, já que ninguém acaba se destacando dos outros com um procedimento irregular", diz. Para o professor do Ibmec-SP Jean Bartoli, que faz palestras sobre ética para empresários, as companhias já perceberam que a busca do lucro a qualquer preço não é sustentável e tentam passar isso para os funcionários com a adoção do código de ética. Ele, no entanto, alerta para dois tipos de situações em que o código de ética acaba se tornando um "tiro no pé": 1) Quando limita demais a liberdade individual de cada funcionário; 2) Quando a empresa age com cinismo, não adota procedimentos éticos em seus negócios e mesmo assim cobra dos funcionários tais procedimentos. O professor acredita, por outro lado, que o grande ponto positivo desse tipo de regulamento é ajudar seus funcionários a discernir entre o certo e o errado. "Isso é muito importante, pelo menos até que a própria sociedade desenvolva formas de combater e punir relações injustas e desiguais no trabalho", afirma.


Folha On Line 02-2006