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Fados Íntimos

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Fados íntimos

Fados íntimos O chiaro-scuro do fado cantado entre imagens roubadas em bastidores. Dos corredores amplos e esguios da Braço de Prata nascem divisões. Nestas o convite é para comer, dançar, escutar ou simplesmente estar. A fábrica é agora de cultura. Os trabalhadores disputam o turno da noite entre o horror e pasmo dos sindicalistas extintos. Ninguém quer os dias. É nas horas da escuridão que o silêncio vem, quando se calam as vozes do dia, do trabalho, da escola, de tudo o mais. E apenas vem para melhor apreciarmos os sons que degustamos na vida. São estas as paredes onde se afixavam editais, cartões de ponto, horários de trabalho. Agora são telas. De imagens, desenhos e convites; de lembretes que a vida está a acontecer. Incitam a dar terreno às possibilidades, a atirar ao ar as roupagens do dia e correr em danças.

–1– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


Fados íntimos

Numa sequência de espaços e corredores, chegamos à sala de soalho torcido em largas tábuas. Oferece duas paredes à rua em amplas janelas de vidraças pequenas. Contra uma delas, um piano de cauda negro em fundo de paredes brancas. Duas cadeiras de espaldas viradas para nós deixam adivinhar o que se segue. Percorremos as paredes para encontrar suspensas dos tectos altos as luzes da ribalta. Na sala ao lado imaginamos dois vultos, na escuridão e em surdina, ensaiando acordes dedilhados. Em cima da cadeira, Jorge eleva-se às vozes familiares e ao tilintar de copos de branco e de tinto. Está anunciada a sessão que irá colorir de música as suas fotos a branco e preto, roubadas em bastidores a fadistas. A figura jovem de Cuca Roseta ergue-se longilínea entre dois guitarristas. O justo vestido negro prolonga-lhe a côr dos cabelos, escorridos sobre o peito. No derramar das colcheias e semi-fusas trinadas a voz é espremida no ondular do corpo e no contorcer das expressões. O virtuosismo do guitarra portuguesa não se disfarça que, modesto, reconhece a voz protagonista. A emoção cresce e mesmo do lado de cá, nas filas de cadeiras, arrepiamo-nos em olhos fechados e ouvidos abertos. Em cada voz reconhecemos as pálpebras cerradas, trémulas; as mãos contorcem-se nas estrofes emprestadas dos fados, entre letras marotas ou em saudosismos de uma Mouraria que já não há. As vozes amadoras sucumbem ao apelo da intimidade do momento e entregam-se à vez aos focos da ribalta. Pela porta lateral dos artistas irrompe o contrabaixo, pesado e inconspícuo. Em cada passo, pesado, profundo, o gigante troa agora ao lado das irmãs pequenas. No estremecer de cada nota dedilhada vibra-nos a alma e chegamos a achar que é demais, que não vamos aguentar.

–2– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


Fados íntimos

Ricardo descansa o contrabaixo e massaja agora as negras e alvas do piano despido das roupagens de bibelot decorativo. Substitui as cordas das guitarras acompanhando Cátia cujas expressões faciais se derretem nas lânguidas notas espremidas. Enquanto saímos, cruzamo-nos com uma rapariga que mal fala português. À falta das palavras certas, baila o seu caminho pelos corredores. Tenta encontrar a sala prometida; aquela onde em sons celtas de violinos se dança. Onde se dança porque se pode. E isso basta.

Reportagem da sessão especial de fado com Hélder Moutinho e convidados, no lançamento da exposição de fotografia de Jorge Simão "Fados Íntimos" na Sala Eduardo Prado Coelho, da Fábrica Braço de Prata, de 3 a 27 de Junho 2010.

–3– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


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