Diga 33, Sr.28
Ensaio de reportagem—Escrever Escrever “Escrita de Viagem”
Texto e fotos: José Bragança Pinheiro Escrever Escrever
Diga 33, Sr. 28
Diga 33, Sr. 28 História de um eléctrico angustiado
Passam 30 minutos das 5 da manhã, nos Prazeres. Nessa noite tinha dormido mal. Acordou em sobressalto, entre silvos junto ao São Carlos. Sonhara que já não era ele que por ali passava. Que se tornara velho. Que o apito de ontem havia sido o último.
Olha para o corpo metálico. Descansa por ainda se ver amarelo. Ao peito, traz dois anéis entrelaçados. Como se orgulha de os mostrar. Ainda lembra o primeiro dia quando em 73 chegou. Fora então o primeiro de todos a chegar à Graça. Aprendera com os outros como ir até ao Rossio, mas daí em diante, seria ele o pioneiro.
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Sente-se doente
Mas isso fora então. Hoje, doem-lhe as ripas dos bancos de madeira. Sente pesadas as pestanas, nas janelas em guilhotina. Mas não consegue deixar de se rir sempre que imagina o episódio do Afonso Costa em 1915. Com o salto da breca imaginou um disparo de pistola; saltava num voo pela janela do eléctrico para salvar a vida e partir um braço na queda. Eram tempos difíceis para se fazer parte da Primeira República. Em dez minutos, farão a chamada ao serviço, na qual o seu número não consta. Faltam-lhe as forças para arrancar os seus dois motores e nenhum dos seus 90 cavalos sairá do estábulo hoje. Sente-se doente. Enquanto o seu médico lhe examina as entranhas, a mente deambula e já nem ouve a brincadeira do mecânico: “Diga 33, Senhor 28.”
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Negação
No dia anterior, ao regressar à paragem terminal, entreouvira conversas. Que ia deixar de ser um dos amarelos. Que esse período da sua vida ia acabar.
“NÃO QUERIA ACREDITAR: FORA AMARELO A VIDA TODA.”
Não queria acreditar. Sempre fora assim. Todos os dias, mirava-se no reflexo das montras da Calçada do Combro. E em todos eles o amarelo canário alegrava-lhe a vista. E aquele vermelho, encarnado dos infernos, assombralhe o pensamento. Imagina a vergonha, a destoar no São Carlos. Encontra refúgio no pensamento que, por ele, recortaram casas a caminho da Sé. Que enfrenta carros, camionetas e camiões em qualquer rua e de nenhum tem medo. Dispara apitos de intimidação e é vê-los a fugir de arrecuas. “Quem manda ali, é ele”. Ainda na semana passada, vieram entrevistá-lo. Tiraram fotos, lançaram perguntas. Levou-os todos a passear; queria mostrar-lhes tudo, mas não pode. Saíram junto à Bertrand, com um livro colorido debaixo do braço. Na capa, reconheceu-se: era ele, a espreitar no Sol à Graça, com um fundo de roupa estendida nas fachadas gastas.
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O amarelo canário alegrava-lhe a vida
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Fúria
“A CULPA É DAQUELE 18!”
Ah! mas ele sabe quem é o culpado. “É aquele 18”, diz entre os dentes. “Como se atreve?” Um carro eléctrico Americano vindo da Alemanha? Como permitiram tamanha afronta? Um puto mimado; falta-lhe classe, convence-se. “Tem tudo, mas dá-lhe algum valor? Nada!” Despedaça-lhe o coração, a inveja. Queria rebolar pela Bica abaixo ou sentir o cheiro do Tejo pelo Alecrim. Acorrentado aos carris, sente-se prisioneiro entre os Prazeres e a Graça. Pelo canto do olho em Santa Catarina espreita o rio, lá bem em baixo. Até o céu lhe parece mais vivo. E imagina-se, amarelo, sobre o A inveja fundo de azul.
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despedaça-lhe o coração
Dizem que o 18 é o futuro. “E o que sou eu, então?” solta, cabisbaixo, num sussurro inaudível.
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Ouviu dizer que o da Bica está velho. Que tem reumático de tanta subida. “Eu consigo fazer o que ele faz.”, promete em desespero. “Subirei todos os dias, até que os ossos cansados me faltem.”. Nos olhos lemos-lhe a vergonha pelas palavras ditas. Pois o da Bica é seu compadre de muitos anos. Encontram-se no cimo da colina, trocando apitos e campainhas em histórias contadas. Como aquela do turista que, ao entrar. pergunta “Is this the car to Alcatraz?”. Ri-se, ao imaginar a óbvia confusão com Alcântara, entre duas cidades de eléctricos.
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Negociação
“OUVI DIZER QUE O DA BICA ESTÁ VELHO”
Is this the car to Alcatraz?
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Depressão
Em cada casa e rua que trilha todos os dias Lisboa, como ele, tornara-se velha. Descuidara-se, garante. Como se um cão gigante percorresse as noites da cidade e a marcasse em jactos negros. Nas paredes, garatujos negros profanam as fachadas, a face da cidade. As mesmas que todos vêem, porque não é possível as não ver. Estão ali, quase que as tocamos nas rasantes desenhadas em carris. Enjoam-no, confessa. “Já não é a cidade pela qual me enamorei.”
“LISBOA TORNARA-SE VELHA”
Talvez imagine que seja o fim, que já nem acredita nela. Se conseguisse ler os cartazes pendurados nas casas de sempre, adivinhar-lhes-ia o destino. Saberia que estão para cair e que não mais se levantarão.
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Enojam-no, confessa
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Mas, quando sobe para a Voz do Operário nas curvas apertadas do Castelo, vêm-lhe à lembrança as cordas de roupa penduradas em janelas vivas de malvas floridas. Sente em pleno o cheiro da sardinha assada e do manjerico nos Santos Populares. E até pensou numa quadra para si: “O canário já não canta. Não canta o canário já. Aquilo que em ti me encanta Talvez não me encantará.”
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Está disposto a aceitar o futuro. Levou uma vida plena. Como antes aprendera a aceitar a garotada derrengada em si, também agora se conforma. Lembra-se dos seus parentes longínquos na linha do Norte Alentejano que estão no desemprego. E agradece ainda rolar. Que venha a trincha vermelha. “Estou pronto!”
Aceitação
“NÃO HÁ DE SER NADA”
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Está disposto a aceitar o futuro
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Ao seu lado no chão estão agora bandeirolas coloridas, sobre uma placa vermelha. Se soubesse ler, teria percebido o que as letras “Sightseeing” significam. Se tivesse prestado mais atenção aos turistas que a vida toda carregou consigo, saberia o que quer dizer.
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Que não está doente, nem acabado.
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Assim, só saberá amanhã: que não está doente, nem acabado. Até porque será o dia da sua Promoção.
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