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Chiado às Escuras

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Chiado às Escuras

Ensaio de reportagem—Escrever Escrever “Escrita de Viagem”

Texto e fotos: José Bragança Pinheiro Escrever Escrever

Chiado às Escuras


O Ruído da Visão Quando foi a última vez que cheirou a sua cidade?

Proponho-lhe uma viagem diferente pelo Chiado. O desafio, deambulando pelas ruas de calçada gasta, é simples: liberte-se da visão e entregue-se aos sentidos menores. Deixe-os crescer nesta viagem de aromas e sons. Não vai precisar de um mapa. O seu guia não está à frente do nariz, mas é ele próprio. Perdido? Peça ajuda aos ouvidos e dê profundidade às sensações. Arrisque o toque, o parente pudico e mais intimista. Surpreenda-se. Liberte-se do ruído da visão e entre na prova de vinhos que pode ser um passeio em Lisboa. Arrisque o nível seguinte.

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Aqueço as mãos numa meia-de-leite e a mente no aroma da canela

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Sentado no Largo Camões, deixo o Sol bronzear-me as pálpebras. Na boca, desfaz-se uma empada quente. Envolve-me em sons o carro eléctrico. Primeiro pára para se atestar de turistas e, num baque seco, arranca para voltar a desaparecer ao fundo. No claro-escuro de cada esquina, um quente-e-frio. A escadaria na fachada fria da Chiesa della Madonna di Loreto oferece-nos um calcário, torturado pela cidade. Nas nervuras da pedra, como nas mãos de um idoso, não se disfarça a idade. Lá dentro, na nave principal o bafo quente das velas e o ranger das tábuas espera-nos. Sentado num banco de silêncio sepulcral levo algum a tempo a redescobrir os sons da rua, onde um 28 range e raspa como um cachorro deixado à porta. A outra face está agora banhada pelos raios quentes do Sol. A tinta ainda fresca nos jornais denuncia a banca próxima. Já se entrevê o tinir das colheres e dos pires das bicas na Brasileira, sobre o rolar dos trolleys dos turistas que chegam e que partem.

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Cheire!

AROMAS MARCANTES DO CHIADO

As frésias da Liluana Rua Garrett, 61

Sai uma bica!

O café chegou à Brasileira sem ser desejado. Era no início oferecido e nem assim lhe pareciam querer pegar. Acredita-se que a sonoridade: “Sai uma bica!” terá tido origem aqui. Parece certo que, ao entrar no Largo do Chiado, o primeiro aroma deste fruto tostado, viajante do Mundo, se deve à Brasileira. No início do século passado, ouviríamos discussões e tertúlias entre dramaturgos, poetas, pintores ou arqueólogos. Hoje são idiomas de toda a parte: italiano, alemão, francês e muito, mas muito, português.

Os livros da Bertrand Rua Garrett, 73 O sabão da Vida Portuguesa Rua da Anchieta, 11 A melange da Casa Pereira O aroma do café e chocolate indistintos Rua Garrett, 38

E isso diz muito do Chiado, capaz de manter apaixonadas as gentes que por cá vivem.

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O som amarelo Fecho os olhos e adivinho o corpo relinchante. No tinir da campainha cumprimenta o São Luís e desperta o São Carlos. Guincha agora na curva. Resfolega ao chegar ao semáforo melhor colocado de Lisboa; parece armar uma pose. E, se não ouvir entretanto uma máquina fotográfica, atrasa o arranque à luz verde.

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O amarelo chiado nos carris curvos do São Carlos Como uma criança aventureira sigo-lhe os trilhos à procura do covil. Distraído, desvio-me com as aves canoras no Largo do São Carlos, em desafio à Ópera. Na Casa Pereira, os aromas do café e do chocolate misturam-se e enfeitam a loja. Alguns metros abaixo, na loja da Nespresso o estímulo é visual e o negócio vive da imagem forte. O hermetismo moderno desilude, vazio de aromas aspirados em eficientes climatizações. Contudo, na primeira ouve-se o silêncio, vazia, enquanto na última imaginam-se filas longas no passar dos números.

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Num pingo de chuva

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A primeira gota de chuva é uma amante caprichosa

A primeira gota de chuva é uma amante caprichosa. Com ela viaja a ameaça eminente da chuva e o contornar das paredes da cidade, procurando a protecção das fachadas. Mas esta pequena gota enamora-se do canteiro de terra da árvore no passeio. O fruto desta paixão nasce e um aroma inconfundível arrebata-nos: o cheiro da primeira chuva. E não há como o primeiro. Mesmo envoltos na floresta urbana, transporta-nos para a sua irmã campestre. E viajamos, sem sair do mesmo sítio.

Tacteie!

TOQUES QUE FICAM

Nesse sentido, o Chiado é especial. Numa cidade perdida para os carros, aqui percorremo-la a pé, mesmo sob a nuvem negra, ameaçadora. E hoje, se tiver sorte, choverá.

O Sol na cara Largo Camões

Volvida a primeira gota, levanto os olhos fechados e deixo as seguintes tactearem-me as feições. No fogo de artifício molhado, cada gota é uma descarga eléctrica. Viaja desde a maçã do rosto até à pequena célula cinzenta.

A primeira gota de chuva Na rua percorrida a pé

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O corrimão da Chiesa Italiana Rua do Alecrim

Hoje, se tiver sorte, choverá.

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Oh Sanna nas alturas

Escute!

SONS QUE FICAM NO OUVIDO

O 28 a emergir na Brasileira Largo do Chiado Aves canoras em frente à Ópera Largo do São Carlos Balões cantantes Artista de rua na R. do Carmo Fado sobre as boom boxes Rua do Carmo O som abafado da rua Sentado num banco da Chiesa italiana della Madonna di Loreto

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Sanna, aparenta 25 anos, loira e de olhos azuis nas suas inegáveis raízes escandinavas. Aceita o desafio e fecha os olhos. Esforça-se por esquecer todos os fortes aromas da sua loja de cosméticos naturais. Com um abrir de olhos repentino e um grande sorriso parece ter encontrado algo especial. Recorda o aroma da Kaffee Haüs na esquina da sua Anchieta com a Capelo. Lembra-se mesmo de lhe apetecer encerrar a porta, fugir num pé e voltar no outro com um pedaço de tarte de maçã ainda no canto da boca. E se fechar novamente os olhos, consegue recitar de nome os artistas de rua que tocam em frente à Basílica dos Mártires. Mas sobressalta-se sempre que toca o sino, de tão alto e próximo.

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sobressalta-se sempre que toca o sino

Ao chegar à rua Anchieta pela Serpa Pinto, as lavagens matinais do passeio trazem-nos o cheiro das águas com detergente. Mas a imagem de limpeza mais marcante é a da Vida Portuguesa, sua vizinha. O sabonete antigo, simples e sem floreados, transporta-nos para a casa de uma tia-avó na nossa infância. Reconheço o cheiro a papel velho e mofento que havia encontrado no Antiquário e na pequena loja de outlet da Bertrand. Anda agora solto pela rua, e paira sobre as bancas improvisadas do mercado semanal alfarrabista.

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Percorro as salas e antecâmaras de tectos baixos na Bertrand com o mesmo silêncio reverencial da Basílica dos Mártires. Ambos isolam o burburinho das ruas. Com as paredes altas forradas a livros e o chão a alcatifa, a livraria excede-se. O aroma dos livros combina com o silêncio que lembramos de bibliotecas.

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uma abelha no Chiado

Liluana, florista, é uma abelha no Chiado. Tem dificuldade em escolher um cheiro especial, mas é o das frésias que leva consigo à noite no fechar da loja. Quando fica à porta, gosta da sugestão de fado ao fundo da Rua do Carmo. Hoje, desde o Fleur de Lis verde antigo, é a voz de Ana Moura que flutua por cima das batidas mais modernas das lojas de roupa. Ao subir a Calçada do Sacramento, ouço o bandolim na loja de instrumentos. Antes o cheiro do pão fresco da padaria, de balcões de mármore entrevistos pelas vidraças e nestas o reflexo do silêncio da Igreja do Santíssimo Sacramento.

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Sabores misteriosos

Coloque uma venda e lance-se à descoberta

Na casa de fantasia que é o Chiado, a estreita e comprida Rua do Crucifixo é a porta ao fundo de um corredor. Mal a entreabrimos, solta-se uma diversidade de pequenas lojas, plenas de cheiros e vida. Procuro o café que me completará o bouquet de boca: salmão fresco flamejado, com um toque de wasabi, onde no cimo, à entrada da gruta de sabores ricos, abre o sésamo. Entro na chocolateria e puxo um banco alto. - “Vou lançar-lhe um desafio.”, digo a Sérgio. Este veste uma camisa branca, impecável sob o avental castanho chocolate. Veste também um sorriso que completa uma cara jovem de óculos pesados. Explico que procuro sentir o outro Chiado, o das sensações e cheiros. “Escolha um sabor, algo que vá na perfeição com o café”, completo. “Mas não me diga qual é!”

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Vou lançar-lhe um desafio.

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Saboreie! Por trás de mim, imagino Sérgio e Carla empenhados em escolher aquela trufa de chocolate negro. “Não nos conseguimos decidir”, lamenta-se Sérgio enquanto coloca junto ao meu expresso um pequeno prato. Nele, duas surpresas chocolate pousadas num guardanapo branco. O que se seguiu foi a minha outra viagem, dentro das quatro paredes de uma pequena loja. “Já sei: morango… Não, não é bem”. Cada pequena dentada encerra uma etapa. “Será uma especiaria?” No final da viagem, reconheço quatro pimentas e uma framboesa envoltas em trufa negra de chocolate. Mas o melhor havia sido a viagem e não o destino.

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SABORES DO CHIADO

As trufas da Xocoa Rua do Crucifixo, 112-114 Salmão flamejado em noori Rua do Crucifixo, 87 Empada quente do Quiosque Largo Camões

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Sentir a rua Na terra dos aromas, não há duas viagens iguais.

Cada turista, cada estudante ou vendedora de flores tem uma. Atreva-se a descobrir o seu cântico de sensações e deixe-se ir com elas, no vento, por entre as ruas de um Chiado.

Parta! VIAGENS NO CHIADO

Ao almoço no Noobai Largo de Santa Catarina No chá da tarde Largo do Carmo

Numa manhã a diversidade de experiências é enorme. Numa tarde o cheiro quente do scone, com uma noz derretida de manteiga. Numa noite, os sons dos bares, os aromas do álcool, as fragrâncias dos restaurantes.

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No mesmo sítio, inúmeras viagens. Parta.

Às escuras na noite Bairro Alto

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