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A Local Shop in the Alpes

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A Local Shop

Já sentiram aquela sensação onde no fechar de uma porta por trás de nós, se revela algo que não esperávamos? Já sentiram aquela sensação quando, de repente, parece estarmos num sketch do Local Shop*? Onde no fechar de uma porta por trás de nós, se revela algo que não esperávamos? Been there! Recomendamos parar para um chá (tudo menos cappuccino) no Cantine Aoste no Col du Grand-St.Bernard onde uma senhora de outros tempos vos acolherá numa casa de igual período. Sabei contudo que é mais fácil lá chegar, do que de lá sair. As viagens são potenciadas pelas aventuras e pessoas com que nos cruzamos e esta partilhamos convosco.

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Episódio da série britânica de humor League of Gentlemen, da BBC


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Alpes 2009

O Desejo por um cappuccino Deixando Grand St.Bernard, logo após as primeiras curvas surge um edifício de dois pisos, macilento e de linhas austeras, o qual tomaríamos pelo Hospizio do Grand St. Bernard não fora termos passado por ele há um par de kms. Aqui fica a Cantine Aoste, com uma fachada principal dominada pela porta principal, onde à sua direita uma silhueta de um cavalo erguido nos seus membros posteriores se ergue, impelido por Napoleão, presumido cavaleiro. A porta aberta oferece uma escada íngreme, com uma passadeira coçada e ladeada por vasos de plantas e flores interiores. No topo uma segunda porta maciça fechada não deixa adivinhar o que esconde. Um letreiro junto à porta anuncia em francês o serviço de café, e convida a soar a sineta e aguardar. Desejosos duma bebida quente, puxamos duas vezes a comprida corda que cai à altura dos olhos, aguardando junto à rua a resposta. São precisos alguns minutos para entreabrir-se a segunda porta, onde emerge a cabeça de um personagem magro nos seus 40 anos com óculos de aros metálicos e lentes fundas. Solta algumas palavras em francês, confirmando-nos tratar-se de um café, convidando-nos a entrar, subindo. Já no interior da casa, com tectos altos e soalho irregular de tábuas de madeira antigas, reiteramos a nossa intenção não certos de estarmos no local certo. O rapaz confirma-nos e aponta-nos uma sala pequena ao fundo do corredor onde deveríamos aguardar. No caminho à nossa direita, uma pequena divisão que aparenta servir como escritório, disposto em volta de uma secretária antiga. A parede por detrás da cadeira de costas altas e almofadada suporta algumas ilustrações sobre um motivo napoleónico. A parede oposta, iluminada pela primeira janela, é forrada de livros de encadernação cuidada mas antiga. Em 3 passadas entramos na 2ª divisão, onde termina o estreito corredor. Nesta salinha de chá juntamo-nos a duas senhoras francesas à volta da mesa baixa de tampo de mármore sobre a qual repousa o conjunto de chá com 2 chávenas vaporosas em porcelana fina. De costas para quem entra a proprietária da Cantine, personagem central da conversa, envolvida pela poltrona acolchoada, apressan-

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do-se a desculpar-se por não se levantar, revelando a sua condição doente e de mobilidade reduzida. Somos recebidos calorosamente apesar de não conseguirmos disfarçar o pasmo e a surpresa perante o cenário, inseguros sobre como reagir ao mesmo. Procuramos o mais simpaticamente possível recusar o convite para que nos juntemos à conversa em torno da mesa, preferindo a esplanada nas traseiras que avistámos da estrada. Em tão inesperada companhia e equipados a rigor não disfarçamos como viajamos e a conversa cresce, enquanto satisfazemos alguma curiosidade: onde íamos, de onde partimos ou porquê de mota. «Não é comum vermos portugueses por estas lados», diz uma das convidadas, deixando-nos algo orgulhosos reforçando o nosso sentido aventureiro e pioneiro, certos de que não seríamos os primeiros lusos a aventurar-se por aqui. Convidam-nos a estar à vontade e usufruir do resto da casa enquanto aguardamos os dois cappuccinos. «Aceitem um chocolate, por favor», oferece a nossa anfitriã. «Obrigado, mas acabamos de regressar da Suíça» , respondo. O Col de Grand Saint Bernard separa a Suíça da Itália e, do lado italiano, «o chocolate é muito melhor», é-nos dito, apesar de controverso. O acesso à cozinha faz-se por uma 3ª divisão que mais se aproxima de uma sala de refeições, iluminada pelas janelas mais amplas das traseiras. Uma comprida mesa rodeada de 8 cadeiras colabora na recepção aos hóspedes da Cantine por altura do pequeno-almoço. Os quadros e pinturas mantêm o tema, variando apenas no estilo e arrojo. O objecto retratado frequente levanos a ponderar se a montada de Napoleão terá alguma vez pousado as patas dianteiras no chão. Guiados pelo rapaz, encontramos o caminho até à porta traseira descendo um piso por uma escada de pedra estreita com paredes caiadas. As divisões deste piso baixo são bastante diferentes do piso nobre, despidas de quadros e com um mobiliário algo anacrónico entre uma mesa de matraquilhos e alguns espaços para jogos infantis. Uma grade pesada de ferro pintado de negro resiste a abrir-se, rodando sobre os gonzos preguiçosos e pouco oleados. Ultrapassada a porta, o pequeno patamar exterior revela a -3-


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paisagem de todo o vale, ao longo do qual ondula a estrada. Conduz-nos a uma outra escada que desemboca num terreiro onde nos serviriam numa mesa leve e algumas cadeiras de plástico. O rapaz regressa para abrir a porta aos demais incautos aventureiros, um casal francês empurrando um carrinho de bebé e mais dois filhos. Acedem directamente por uma escadaria lateral, por entre os estendais de roupa lavada onde lençóis brancos adejam ao vento, num esforço muito familiar para aproveitar os dois raios de Sol desse dia. Infelizmente as bebidas revelam-se o pior da experiência a ponto do casal se esgueirar sem dar mais nenhuma satisfação, tal o desapontamento pelos cappuccinos de pacote, mal preparados. Incapazes de terminar as nossas bebidas, retomamos a companhia simpática e acolhedora para agradecer e pagar, despedindonos da conversa que teimava em estar longe de acabar. Curiosa esta opção em abrir a casa a quem passa, ávida de momentos de conversa que trazem até si o mesmo Mundo que a sua condição física lhe negou de testemunhar pessoalmente. Mais do que as bebidas oferecidas, alimentamo-nos da esperança de termos sido bem sucedidos em pintar um quadro realista e apetecível de um pequeno País distante chamado Portugal e desta nossa forma de viajar numa moto pelos Alpes.

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