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HIGH GLITZ POR SUSAN ANDERSON PUBLICADO PELA POWERHOUSE BOOKS

COMPORTAMENTO

Allison, de 10 anos, Nashville, Tennessee 2008

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Mini BARBIE Quantos tubos de glitter são necessários para construir uma pequena miss?

por Izabella Figueiredo Quem assistiu ao filme Pequena Miss Sunshine sabe como é. Elas entram para as coxias correndo, cabelos levemente desgrenhados e roupinhas casuais. Nos bastidores, são seguidas de perto por dois acompanhantes: as respectivas mães e um closet móvel abarrotado de roupas, cosméticos e acessórios. De lá, saem conforme o esperado: maquiadas, penteadas e embutidas em vestidos de lycra e pedrarias. Os concursos de beleza infantil surgiram nos Estados Unidos (alguém está surpreso?), nos anos 1920. Inicialmente, a proposta era alavancar o turismo de alguns estados promovendo a competição entre crianças a partir de 13 anos. O negócio funcionou tão bem que, em 1960, a idade mínima para se inscrever em um desses concursos foi diminuída consideravelmente. A partir de seis meses de idade, já era possível sacolejar, sapatear e se exibir em um palco iluminado seduzida pela promessa de faturar até 10 mil dólares. Latas de bronzeador artificial, “butt glue” (espécie de cola que garante o máximo de aderência entre corpo e lycra; muito usada em campanhas de lingerie), vestido “bolo de noiva” com no mínimo três camadas de tule; bijuterias; pares de cílios falsos; unhas postiças (mais de um pacote, já que elas se descolam facilmente e unhas curtas não são admitidas); tufos de cabelo de nylon (para incrementar o visual já que devido à pouca idade, as competidoras ainda não têm cabelo suficiente para fazer um penteado “impactante”); baby liss

(para cachear os poucos fios autênticos); moldeira dental para branquear os dentes e camuflar a falha deixada por um possível dentinho de leite que acabou de cair (meninas banguelas não têm chance); chapinha; laquê; rolinhos térmicos de cabelo (sim, isso existe); capas de sapato (impedem que o couro desgaste antes de a competição começar) e glitter facial. O kit de sobrevivência básico das pequenas Miss Sunshine é de dar inveja em qualquer chacrete. É nos salões de convenções de hotéis de cidades do interior dos EUA que são realizadas as competições que elegem a criança mais bela. Classificadas por faixa etária, as competidoras enfrentam meses de preparação para encarar a bateria de concursos (a maioria delas participa de um concurso por fim de semana em diferentes localidades, coisa profissional). Nas coxias, um ambiente que em nada fica devendo para os circuitos internacionais de moda: provas de roupa, ensaios de coreografias, barulho ensurdecedor de secador e muitos “ais” resultantes das queimaduras de chapinha na orelha. Essas meninas de 5 anos não sabem ficar quietas mesmo. Para levar a melhor, as concorrentes devem se sobressair em algumas provas, como desfile em traje esportivo, de banho e de passeio, além de terem sua naturalidade, confiança e intimidade com a passarela avaliadas por uma comissão julgadora. “Há quem fale dos concursos como se fossem um tipo de crime cometido contra a criança. Não é nada disso”, defende Cassidy Roulstone, de 42 anos, mãe da pequena competidora Melinda, de 6. Para a moradora do estado de Wyoming, os concursos devem ser encarados de forma natural: “Usamos spray, em vez de câmaras de bronzeamento e perucas e moldeiras são usadas temporariamente, por exemplo. Minha filha sabe perfeitamente que a Melinda dos concursos não é a Melinda real e, mesmo assim, ela adora fazer parte deles. Além disso, não importa que seja um palco, um estádio ou uma arena,

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FOTOS: HIGH GLITZ POR SUSAN ANDERSON PUBLICADO PELA POWERHOUSE BOOKS

PARA LEVAR A MELHOR, AS CONCORRENTES DEVEM SE SOBRESSAIR EM ALGUMAS PROVAS, COMO DESFILE EM TRAJE ESPORTIVO, DE BANHO E DE PASSEIO

Jacklyn, de 7, Las Vegas, Nevada 2006 Ashley, de 8, Nashville, Tennessee 2008

Katy, de 5, Las Vegas, Nevada 2006


a competição é sempre cruel, seja você um nadador, uma cheerleader ou uma candidata a miss”, completa. Erica Renihan, de 38, de Iowa, não concorda. Mãe de Cecile, de 9 e Tyniel, de 7 ela explica porque jamais permitira que uma de suas filhas participasse de um concurso de beleza: “Sinto repulsa pelos pais que incentivam essa prática. O que há de errado com eles? Gastando milhares de dólares em vestidos e lambuzando seus filhos com spray artificial. Me enoja saber que estão ensinando a seus filhos que beleza artificial é algo importante. Não sou uma pessoa extremamente apegada a valores morais, mas fico surpreendida com esse tipo de concurso. Nem que meus filhos pedissem eu os permitiria participar”, afirma. As fotos que você vê nesta matéria são da americana Susan Anderson, que teve a ideia de registrar os bastidores dos concursos e, a partir delas, criou o livro High glitz: The extravagant world of beauty pageants (Muito glitter: o extravagante mundo dos concursos de beleza, sem tradução para o português). Sobre o que vivenciou para produzir sua obra, a fotógrafa diz que preferiu exercer seu trabalho de forma neutra, sem criar juízo de valor algum. “Espero que as pessoas vejam o livro e tirem suas próprias conclusões.” O mesmo nós fizemos.

Sara, de 5, Las Vegas, Nevada 2006


Pequenas misses - Revista Ragga