Pe R SOn a S U P L E M E N T O
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“JORNALISMO É A ARTE DE SE SUJAR OS SAPATOS” E X P E D I E N T E Reportagem: Izabella Figueiredo Direção de arte e design: Anne Pattrice Fotografia: Estevão Andrade, Lara Dias, Patrícia Penna
Persona é um suplemento fictício apresentado como produto de conclusão de curso à Universidade FUMEC como requisito para a obtenção do diploma de Bacharel em Comunicação – Jornalismo.
E D I T O R I A L
CASA ARRUMADA, É HORA DO ARREMATE. Para que fosse possível confeccionar esse suplemento, a primeira barreira foi a de convencer os entrevistados de que seria interessante ceder seu tempo e energia para fazer parte de um trabalho de conclusão de curso e que, sobretudo, usava um modelo de jornalismo mais demorado. A ideia era deixar a superficialidade de lado e não aceitar entrevistas por telefone ou e-mail. Obter a narração mais profunda típica dos perfis não é fácil, mas a paixão por pessoas e suas trajetórias me motivou a tentar. A primeira coisa que aprendi entrevistando Sabrina, Guilherme, Ivana e Eduardo foi que jornalismo aprende-se não somente em salas de aula, mas também em redações, mesas de bar, casas de amigos e viagens de metrô. Para praticar esse jornalismo, entretanto, é indispensável a formação de um estilo de escrita, uma base de fontes, muita leitura e um conhecimento prévio gentilmente cedido por tutores que sabem do assunto e estão dispostos a compartilhá-lo com quem, até então, só sabia de seu fascínio pela escrita e pelas notícias. Um respaldo acadêmico necessário é sempre bem-vindo. Falo dos quatro anos cercados de conhecimentos e mestres, dos quais nenhum entrevistado deixou de lembrar. Assim como os jornalistas entrevistados, também tive oportunidade de imergir em um ambiente rico de conhecimento na universidade. Descobrir e lapidar aptidões e orgulhosamente me formar
naquilo que amo e concluir meu curso escrevendo justamente sobre o que sempre soube ser minha paixão: pessoas e suas histórias. Com esse trabalho, reafirmei que cada pessoa possui seu universo particular a ser desvendado e – por que não – contado para o mundo. E perfilar é isso: informar preservando a essência jornalística, porém adjetivar à vontade e aprofundar na vida daquele personagem que você já flerta há tempos. Persona foi isso e usou colegas de profissão para tomar forma. Entrevistar esses quatro profissionais foi uma tentativa de trazer ao leitor não somente o conteúdo básico de seus currículos, mas também uma carga generosa de elementos emocionais de cada jornalista com a expectativa de gerar admiração a cada um deles que pratica tão bem a profissão jornalista e sempre prioriza a busca da informação correta para transmitir ao leitor. Como consequência, moldar empatia com suas histórias e pessoas. Gente como a gente, que vive a loucura do furacão midiático e faz a vida seguir como pode. Porque é assim que tem que funcionar.
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MÚSICAS QUE FORAM TRILHA SONORA ENQUANTO OS PERFIS DESSA EDIÇÃO FORAM ESCRITOS P L A Y L I S T
Acesse o QR Code, ouça a playlist on line e boa leitura. 7 - Daryl Hall ft. Cee Lo Green - I can't go for that 1 - Milky Chance - Stolen dance 8 - Blink 182 - After Midnight 2- Sam Smith - I'm not the only one 9 - Guns N' Roses - Estranged 3 - Capital Citites - Kangaroo Court 10 - Haim - The Wire 4 - Bruce Hornsby - The Way It Is 11 - Jake Bugg - Two Fingers 5 - Niki & The Dove - Mother Protect 12 - Rox - My baby left me 6 - Tove Lo - Habits (Stay High)
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patrĂcia penna
De sorriso largo, fala doce e pulso firme, ela é a mulher forte por trás da Veja BH
Na infância, em Belo Horizonte, os colegas de classe a chamavam de Cid Moreira, ora pelo sobrenome análogo ao do âncora do Jornal Nacional, ora por suas redações que sempre se destacavam na classe. Aos 17, decidiu que seguiria a mesma carreira do âncora global, mas teve que enfrentar a oposição dos pais que estavam inseguros porque não entendiam bem como o curso poderia dar futuro à filha. “Só ganhei credibilidade porque, naquele ano, comunicação foi o segundo curso mais concorrido na UFMG, perdendo só para medicina”, relembra. Aprovada na turma de comu-
nicação em 1990, foi na faculdade que ela percebeu que queria mais do que a teoria das grades curriculares e estágios ofereciam. “Era tudo muito limitado. Não se aprendia nada de prática e eu queria ir para a rua, redigir matérias”. Por indicação de um professor, acabou tentando o Curso Estadão de Jornalismo, passou e se mudou para São Paulo em 1994.
NÃO EXISTE AMOR FRATERNAL EM SP No ano seguinte, a “foquinha” (no07
ivana moreira
me que se dá ao jornalista recémformado) que havia ido a São Paulo para fazer um curso, acabou descolando uma vaga para cobrir férias de uma repórter no Estadão e por lá ficou. Passeou pelas editorias de cidades e política e cobriu casos como a primeira queda do TAM Fokker 100, em 1996, e a ressocialização de João Acácio Pereira da Costa, o bandido da luz vermelha em 1997. Em 1998, com saudade da família, chegou a pedir demissão sem ter nenhum emprego à vista.
“Em vez de de me dar demissão, minha chefe me deu férias para pensar melhor. Segundo ela, voltar para Be-
Nunca tinha trabalhado
em rádio “
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na vida, mas topei o desafio.
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agá era o mesmo que jogar minha carreira no lixo”. O mau agouro da sujeita conseguiu manter Ivana no Estadão por mais dois anos. Em 2000 ela estava de volta à capital mineira, porém, como correspondente do estreante Valor Econômico. Em 2004 nasceu o primogênito Pedro. Por estar exatamente onde queria, Ivana atribui o nascimento dos filhos à sua volta à cidade natal. “Talvez tenha voltado para cá para constituir uma família em vez de pensar só na carreira”, reflete. Apesar da maternidade, para ela, o ano profissional havia deixado a desejar. Voltando de suas primeiras férias depois do nascimento de Pedro, decidiu escrever uma carta de desculpas para a editora do Valor Econômico por “não ter dado o melhor de si naquele ano”. A resposta veio expressa. “Sim, você não deu o seu melhor, mas temos outro ano para consertar isso”. Quando lembra do caso, Ivana ri. “Eu esperava que ela fosse dar uma amaciada, poxa”.
3 EM 1 E VEJINHA Em 2009, de volta como correspondente do Estadão em Belo Horizonte e já com Gabriel, o segundo filho no currículo, recebeu um contato inesperado por meio da Band News: queriam que ela ajudasse a restruturar a rádio que andava mal das pernas. “Nunca tinha trabalhado em rádio na vida, mas topei o desafio”. Em poucos meses, lá estava ela não somente com a rádio restruturada “e encostando na CBN em audiência”, como se gaba em dizer, mas também atuando como editora-executiva do jornal Metro e chefe de redação da TV Band Minas. Uma hora o corpo pediu trégua “Tive que pedir uma pausa de duas das atividades, porque trabalhar com os três estava me enlouquecendo”, relembra. Acabou ficando só no jornal. E foi outra ligação inesperada acompanhada de 09
um sotaque paulistano carregado que fez Ivana tremer nas bases novamente. Era Alessandro Duarte, na época editor do Veja Cidades que trazia uma novidade e uma pergunta: o projeto de trazer uma sucursal da Veja para Belo Horizonte e se ela estava interessada em saber mais sobre isso. “Sim, estava. Só não sabia como eles tinham chegado até mim. Nunca havia trabalhado em revista. Mesmo achando que eles nunca iam aprovar meu texto, resolvi ir”. Nos moldes das outras Vejinhas (Rio, SP), a Editora Abril havia de fato resolvido investir, pela segunda vez, em uma Veja exclusiva para Belo Horizonte. “Eles estavam de olho nos mercados que estavam em pleno crescimento na cidade e acharam que valia a pena tentar novamente.” Isso porque já havia existido uma Veja Minas, porém, o escritório da revista ficava ivana moreira
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COMO ESTAVA VINDO DE SÃO PAULO, PRECISAVA DE UM profissional pra ser meu braço direito em Beagá.
ME INDICARAM VÁRIAS PESSOAS, INCLUSIVE A IVANA pelos bons trabalhos que ela tinha feito.
Nunca tive dúvida que seria ela
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alessandro duarte
diretor de redação da VEJA BH
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concentrado em São Paulo, e mineiro que é mineiro sabe que esse tipo de direção à distância não funciona. Era a primeira vez que Belo Horizonte tinha uma redação completa da Veja instalada definitivamente em um andar na Savassi. Eram dez repórteres, um webmaster, dois estagiários, um chefe de redação, um editor de arte, e uma editora-chefe: a Ivana. Sim, o texto dela havia sido aprovado. Em 9 de maio de 2012 a revista foi lançada com o slogan: “A Veja só nossa”.
UMA MÃE MULTIFACETADA Dos que trabalharam com ela ao longo de sua carreira, um adjetivo é comum ouvir: “mãe”. Daquelas que movimentam setores para dar condições aos estagiários para se aprimorarem em cursos na ABRAJI(*), de acalmar repórteres chorões nas salas de reunião, intermediar o relacionamento entre profissionais que não se dão tão bem. Dizem também que Ivana nunca levanta a voz e cobra sempre com delicadeza dos seus funcionários. Há quem diga que na hora de editar tem re-
pórter que fica insatisfeito pelas alterações de texto, mas quem convive em redações sabe que mexer em texto de jornalista é praticamente o mesmo que dizer que o filho do tal é feio. E Ivana tem o padrão Veja a ser seguido e não pode ter dó de falar que filho de ninguém é feio. Sobre os eventos e regalias exclusivas dedicadas à imprensa, Ivana quase nunca é vista, talvez para evitar o ritual social do beija-mão e dos emplaca pauta a qualquer custo. “Dizem que é contra a política da Veja aceitar convites, mas acho ambíguo. Do mesmo jeito que pode ser bom adotar uma postura mais isenta, pode ser uma arma a menos para se conseguir um bom furo de reportagem”, opina um assessor de imprensa que alega entender nunca ter tido a presença de Ivana em um evento seu. Seu comportamento, entretanto, tem dado bons frutos. Dentre os que aprovam Ivana está Alessandro, aquele do sotaque paulistano, que falou da Vejinha pra ela pela primeira vez e que hoje é seu chefe. “Como estava vindo de São Paulo, precisava de um profissional pra ser meu braço direito em Bea-
gá. Me indicaram várias pessoas, inclusive a Ivana pelos bons trabalhos que ela tinha feito. Nunca tive dúvida que seria ela”, derrete-se com ares de que a parceria ali formada é boa mesmo. Rádio, televisão, jornal... ela afirma agora estar super feliz editando uma revista que tem como compromisso mudar de cara toda semana e informar o belo horizontino sobre tudo que acontece na cidade. E se orgulha por já ter feito bonito em quase todas as áreas da comunicação a que se propôs. “Cada uma dessas funções exigiu de mim um tipo de habilidade e isso em termos de crescimento profissional foi incrível. Acho que, com a Veja, já fiz de tudo na vida”, pondera. “A não ser que um dia alguém me ligue e me ofereça para coordenar um portal. Isso eu nunca fiz”, diverte-se.
(*) A ABRAJI é a Associa-
ção Brasileira de Jornalismo Investigativo da qual Ivana coordena a produção do Mapa de Acesso que avalia
o estado do acesso a informações públicas no Brasil.
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estĂŞvĂŁo andrade
Ir a um restaurante deixou de ser a mesma coisa depois que ele entrou no jornalismo gastronômico
Quem pensa que Eduardo Girão se encaixa no estereótipo dos críticos gastronômicos franceses de filmes, engana-se. Anton Ego da animação Ratatouille, por exemplo, chega no estabelecimento com ar de superioridade, sorumbático, trajando roupas suntuosas e parece, antes de qualquer outra coisa, estar disposto a meter medo. Girão não é assim por dois motivos: o primeiro é que as chances de vê-lo usando uma roupa que não seja tênis, jeans e camiseta são poucas e segundo é que ele não é um crítico gastronômico. “Não faço críticas, faço reportagens.
Agendo entrevistas, marco fotos e nem sempre experimento os pratos da casa. Não vou a um estabelecimento para falar bem ou mal e sim para fazer perguntas”, esclarece.
“A GASTRONOMIA FOI UM ACIDENTE EM MINHA VIDA” No Jornal Estado de Minas há mais de onze anos, Eduardo Girão começou como estagiário no sétimo período de jornalismo fazendo rondas policiais por telefone, até 13
eduardo girão
que a freelancer de gastronomia começou a dar problemas e seu nome foi cogitado para substituir a mocinha. “A gastronomia foi um acidente em minha vida”, conta. “Para falar a verdade eu pouco sabia que o jornalismo gastronômico existia. Na faculdade eles nem falavam a respeito, mas resolvi encarar a tarefa”, relembra E foi meio de para-quedas, sem fazer um curso de especialização e sem nenhuma orientação especializada sequer que ele começou a dar seus pitacos sobre restaurantes nas páginas do maior jornal da cidade. As primeiras matérias,
SE O CARA “ FALAR QUE O RESTAURANTE DELE É O PRIMEIRO A PRODUZIR
pão
área qualquer.
NOME FORTE Hoje, também escreve sobre música no caderno Divirta-se, no Jornal Estado de Minas, mas ele mesmo admi14
DENTRO DO PRÓPRIO ESTABELECIMENTO, EU VOU AVERIGUAR
“
ele admite, não foram boas, mas com o tempo Girão foi aprimorando seus conhecimentos sobre avaliações, ingredientes e harmonizações, inclusive para tentar mudar o panorama sobre o que era o jornalismo gastronômico. “Quando comecei ainda tinha um resquício de tempos muitos antigos do jornalismo. Assessores de imprensa tinham colunas nos jornais e colocavam apenas os restaurantes que eram seus clientes. Você só era bem tratado se falasse bem de tal restaurante. Coisas condenáveis”, critica. Aos poucos o jornalismo gastronômico começou a ser encarado como uma
te que o grande público o reconhece pela gastronomia. Há quem diga que uma matéria de Girão tenha mais influência do que a de qualquer outro veículo belo horizontino. “Alguns jornais e revistas já vieram aqui,
eduardo girão
mas nada repercutiu tanto depois que a matéria do Girão foi publicada. Ele tem um jeito muito sincero de dialogar com o leitor, todo mundo acredita nele”, conta o proprietário de uma hamburgueria gourmet recém-inaugurada no bairro de Lourdes. “Ele é super profissional e um dos poucos que realmente entende de gastrô. Quando sai a matéria sobre o estabelecimento, a casa lota. Ainda não existe veículo que se compare em relação a divulgação”, completa um assessor de imprensa. Para isso, o jornalista tem uma explicação. “É que escrevo pensando com a cabeça do consumidor. Avalio o motivo de ele estar entrando naquela matéria, penso em preços. Checo sempre se as informações que os proprietários passam são verdadeiras. Se o cara falar que o restaurante dele é o primeiro a produzir pão dentro do próprio estabelecimento, eu vou averiguar.”, exemplifica o profissional que faz sempre questão de ir ao lugar pessoalmente, se apresentar, entrar na cozinha e conhecer proprietários e chef antes de redigir a matéria. “As informações contidas nos releases padrão são interessantes, mas às vezes em um bate papo informal com a equipe do restaurante consigo muito mais. É que sempre querem te vender uma imagem perfeita do local, mas meu papel é filtrar e equilibrar as informações”. É claro que às vezes um ou outro dono de restaurante acaba não gostando da informação que Girão solta na matéria, mas quanto a isso ele é direto. “Aí o problema já é com ele. O cara sabe que não adianta tentar me enfiar uma informação torta porque vou checar”, responde na lata.
CONTA + 10% Voltando novamente ao glamour dos filmes, ainda deve ter gente que acha que Eduardo almoça e janta em restaurantes luxuosos todos os dias. Na verdade,
isso acontece uma vez por semana, quando ele vai a campo para fazer uma matéria. Ocasionalmente ele comparece a eventos, mas admite que escolhe a dedo a quais vai dar as caras. “É bom circular
porque são nessas ocasiões que te passam um furo de um novo cardápio ou uma casa nova que vai abrir, mas não estou tendo tempo de estender meu horário de trabalho ultimamente”. E essa falta de tempo inclui
atualizações cada vez mais escassas no ótimo Blog do Girão, no qual dá dicas que vão de sorveterias, vinhos com bom preço e programações culturais. Embora os internéticos sintam falta, a ausência de novos posts é justificável: o motivo é a pequena Tereza, fruto de seis meses de seu casamento com Paula Gabriela. Nos fins de semana, quando não está a trabalho, Girão, como qualquer rele mortal, também gosta de ir a restaurantes para almoçar ou jantar com família ou amigos. O aborrecimento só acontece quando o proprietário do lugar escolhido, na tentativa de agrado, manda de cortesia entradas ou vinhos. Alguns chegam a tentar isentar Girão da conta, algo que ele considera inadmissível. “É vital bater o pé e não permitir que isso aconteça. Quando tentam não me cobrar algo, fecho a cara e digo para me convidarem em outra ocasião. Geralmente nunca convidam”, diverte-se. Pela timidez, há quem classifique Eduardo com ares de arrogante, mas ele jura que não é vaidoso e que para ele tanto faz se uma matéria de sua autoria aumenta consideravelmente o fluxo de um restaurante. Ele afirma ter completa consciência de que as pessoas lêem o que ele escreve porque trabalha em um espaço de grande alcance, “mas caso sair de lá, metade daquelas pessoas vão esquecê-lo”, afirma. Apesar de toda a cautela, ele se alegra por ter feitos bons amigos que são donos de restaurante, sem mudar a relação profissional. “Todos continuam me cobrando conta”, ri.
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patrĂcia penna
Responsável por garimpar semanalmente notas exclusivas sobre personalidades mineiras, não há quem não peleje por um canto de página em sua coluna
Prestes a se graduar em jornalismo pelo UNI-BH, Guilherme Torres, com certa vergonha, manifestou para uma professora sua vontade de fazer seu trabalho de conclusão de curso baseado em colunas sociais.“O Guilherme sempre se destacou por ter uma visão perspicaz sobre o jornalismo de notas, coisa rara entre os alunos que consideravam esse gênero jornalístico menos importante. Percebendo esse interesse o incentivei a pesquisar sobre isso no TCC”, afirma Fernanda Agostinho, professora de jornalismo opinativo a qual Gui-
lherme consultou na hora de decidir seu objeto de estudo. Com o resultado da pesquisa realizada para o trabalho, veio a decepção. Guilherme descobrira que os colunistas dos jornais belo horizontinos apenas replicavam as notas prontas que as assessorias de imprensa enviavam.
“Eles não falavam diretamente das pessoas e quando fala-vam coisas polêmicas nunca nomeavam os envolvidos por medo. Falavam sobre um show e dez linhas eram os nomes dos membros
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da banda. Isso tinha graça pra quem? E o leitor, como ficava?”.
DE ASSESSOR À GENTE FINA Recém-formado, Guilherme foi trabalhar em uma assessoria de imprensa. Foi aí que conheceu gente de mercado como a jorna-
lista Valéria Flores, do Hoje em Dia, que deu a ele um pequeno espaço para falar de cultura sustentável. “Não era muito o que eu queria, mas só de ter meu pró-
prio espaço, com minha foto, ficava feliz”, relembra vaidoso. Depois disso, Gui foi convidado a colaborar com o Ragga Drops (extinto suplemento para adolescentes do jornal Estado de Minas), função que não lhe rendia um centavo, mas lhe dava passe livre para entrar em vários eventos exclusivos com todo o rigor. E disso ele fez bom proveito. Em um desses eventos, Guilherme acabou se amigando a Blima Bracher, então editora da Revista Encontro. “Ficamos conversando a noite toda, bebemos um pouco e quando vi, lá estava eu pedindo uma chance na revista”, diverte-se. E foi assim que Gui entrou para a Encontro como colaborador. Ora por vez, Guilherme 18
com um entrevistado propondo falar sobre um assunto, mas no meio da conversa ele acaba soltando algo que daria uma nota muito mais interessante. é claro que vou publicar aquilo que é mais atraente para o meu leitor.
dava dicas de personagens para Carol Godoi que na época assinava Gente Fina, coluna de gente da publicação. As dicas ficaram tão frequentes que Guilherme acabou sendo convidado por André Lamounier, diretor-geral da revista, para assumir de vez a coluna no lugar de Carol. Foram quatro anos circulando em eventos, conhecendo empresários e socialites e escrevendo notas guilherme torres
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“ÀS VEZES MARCO UM CAFÉ
mensais para Gente Fina. De repente surgiu o convite para substituir a antiga repórter da semanal Inconfidências Mineiras, coluna de VEJA BH. Guilherme já havia participado do primeiro processo seletivo quando a revista havia estreado em 2012, mas acabou perdendo a vaga. “Era a segunda vez que me chamavam e não pensei duas vezes antes de aceitar”.
AS DORES E AS DELÍCIAS DE SER UM INCONFIDENTE Inconfidências Mineiras é claramente moldada em suas irmãs mais velhas Beira Mar e Terraço Paulistano, das Vejas RJ e SP. A ideia é correr atrás do que os famosos e polêmicos dessas cidades andam fazendo, e com um pouco de acidez, contar isso ao público. “Em Belo Horizonte existem pouquíssimas pessoas nacionalmente famosas, então temos que apelar para socialites, empresários e blogueiras. Paula Fernandes já apareceu incontáveis vezes. A tarefa não é fácil”, comenta Guilherme. Não que ele não goste de fazer isso. “Guilherme sempre foi a cara do colunismo de gente”, como disse a professsora Fernanda. A ambiguidade da coluna, entretanto, vem do teor das notas que nem sempre contam o que o entrevistado gostaria que se tornasse público. “Às vezes marco um café com um entrevistado propondo falar sobre um assunto, mas no meio da conversa ele acaba soltando algo que daria uma nota muito mais interessante. É claro que vou publicar aquilo que é mais atraente para o meu leitor.”, defende-se. “Essa é a linha editorial do Rio e de São Paulo e não é porque estamos em uma cidade mais conservadora que isso vai mudar”, reforça. Nessa de “colocar o que o público quer ler”, Guilherme já passou por maus bocados com entrevistados insatisfeitos que o procuram para tirar satisfação sobre a nota publicada. “Sempre busco explicar o
meu lado, mas nem sempre funciona. Já aconteceu de gente importante romper com a revista, inclusive. Comentei com minha editora que vai chegar o dia no qual ninguém vai querer sair na coluna” diverte-se. Um exemplo foi o de um empresário de alto calão que ao saber da pré-publicação de uma nota, procurou a revista tentando impedir que ela saísse. “Ele fez de tudo, mas a revista não baixou a guarda”, relata orgulhoso. Ponto para Gui e para a revista que conseguiram enorme repercussão com a história. Fazer a coluna exige bem mais de Guilherme do que garimpar fofocas e barracos entre famosos, empresários e high societies, afinal é exigido do repórter comparecer a no mínimo cinco eventos por semana. E realmente carregando junto a si o crachá de colunista, Guilherme está nos rega-bofes mais badalados da cidade: são casamentos, aniversários em mansões, coquetéis. O ápice foi quando Guilherme entrevistou a socialite Érica Drumond para a capa de VEJA BH e permaneceu quatro dias hospedado em um de seus hotéis, o Ouro Minas. Passada a entrevista, Érica convidou Guilherme para um petit-comité ultra exclusivo em seu apartamento em comemoração ao seu aniversário. Apesar do cotidiano fascinante, Guilherme jura que sabe separar muito bem a pompa que envolve a profissão e a sua realidade de jornalista classe média, que tem um duro deadline a cumprir e uma jornada de trabalho que pode chegar a doze horas diárias em dias de fechamento da revista. “Estudei em escola pública, fiz faculdade particular com dificuldade e meus pais são simples”, discursa. Quem conversa com Gui por quinze minutos que sejam, entretanto, acha que ele foi criado junto aos aristocratas que aparecem em sua coluna semanalmente. “É que a minha profissão inclui saber se portar, gastar tempo com as pessoas e até dar conselhos. Isso pouca gente sabe fazer. É assim que se cativa um contato”, gaba-se.
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lara dias
Jornalista independente e escritora, é difícil imaginar alguém tão dinâmico quanto ela
Se alguém for procurar as informações pessoais de Sabrina Abreu em sua conta no Instagram vai se deparar com o bordão do filme Madagascar, “Eu me remexo muito”. Não existe expressão melhor que defina a garota que, se pudesse, seria um milhão. Uma para realizar cada projeto que maquina em sua cabeça ao mesmo tempo. Sim, porque com ela, fazer uma coisa de cada vez talvez signifique estar meio parada e isso é coisa que ela não consegue. Apaixonada por literatura desde criança, o sonho de Sabrina sempre foi ser escritora e sabia que tinha talento para a coisa. “Quando
eu tinha sete ou oito anos publicaram uma coletânea com os melhores textos produzidos pelos alunos do colégio e o meu estava lá. Acho que isso foi uma prova de que eu escrevia bem”, relembra. E a paixão pela escrita foi tanta que ela acabou prestando vestibular para jornalismo porque sabia que era o que estava mais próximo para concluir sua paixão maior de escrever.
O ISRAEL DELA Das paixões de Sabrina, uma que se equipara a escrever é Israel. As raízes dela com o país são longínquas, já que, oficialmente, sua maior li21
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gação é que seu pai Izaac tem uma ascendência judaica do povo de Almada, em Portugal. Ela confessa, entretanto, que nem ligava tanto para essa ascendência. “Era mais uma característica antiga”, conta. A paixão de Sabrina pelo país só foi desperta quando, já na faculdade, em 2000, aconteceu a Segunda Intifada (segunda revolta civil dos palestinos contra israelenses). “As
pessoas ficavam dando opiniões mas não sabiam sequer diferenciar um judeu, de um israelense e um árabe de um muçulmano. E eu vi que sabia esses conceitos básicos”, conta. A partir desse
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Perguntei se ela já tinha uma assesora de imprensa e ela nem sabia do que se tratava.
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Expliquei o que era e me ofereci como tal
episódio, Sabrina foi ficando cada vez mais envolvida no assunto e apaixonada por Israel. “Muita gente me pergunta se sou judia. Minha resposta é que sou sionista”, explica. O gosto pelo país e tudo que o envolvesse acabou rendendo a Sabrina dois trabalhos acadêmicos: Ficção e realidade em Munique (filme de Steven Spielberg que conta a história do ataque terrorista no qual, sem precedentes, matou dois atletas israelenses) e Israel e Palestina nas páginas do Estado de Minas, monografia para se graduar em jornalismo e pós graduação, respectivamente.
DA HEMEROTECA AO KIBUTZ Sabendo do interesse de Sabrina, Marx Golgher, então presidente da Fundação Israelita de Minas Gerais a convidou para fazer uma pesquisa que consistia em pesquisar em todo o arquivo do jornal Estado de Minas, notícias que haviam sido publicadas entre os anos de 1947 e 1948 sobre a partilha entre Israel e Palestina. “Na época eu trabalhava em uma agência de comunicação e usava meu horário de almoço para fazer essa pesquisa. O pessoal sempre me via chegando com as matérias xerocadas, até que me ofereceram para escrever um publi-editorial para um escritório de Israel que ia abrir em São Paulo”. Obviamente não havia ninguém mais indicado para o trabalho. Por meio desse publi-editorial, a menina que nunca parou quieta acabou conhecendo uma poderosa empresária paulista que, no momento, organizava um evento para lançar um livro de Cid Moreira em Israel. “Perguntei se ela já tinha uma assesora de imprensa e ela nem sabia do que se tratava. Expliquei o que era e me ofereci como tal”. Sabrina não somente conquistou o trabalho como criou um roteiro exclusivo para Cid Moreira lançar o livro no país. De quebra realizou
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seu maior sonho: conhecer Israel. Sabrina foi a Israel pela primeira vez a trabalho, mas acabou estendendo sua estadia por 11 meses morando em um Kibutz (agrupamentos israelenses nos quais as pessoas vivem sob os mesmos princípios de cultura, educação e vida social). Durante sua permanência, de 2007 a 2008, ela não parou de escrever. Colaborou para revistas como Pequenas Empresas Grandes Negócios, Trip, Capricho e a mineira Ragga – antiga publicação do jornal Estado de Minas voltada para o público jovem.
RAGGA, VEJA E ALEMÃO De volta a Belo Horizonte, com vontade de se reposicionar no mercado, foi nas portas da jovem Ragga que Sabrina foi bater. Muito bem acolhida pelos sócios Lucas Fondas, Bruno Dib e José Antônio Toledo, ela começou a editar a revista em maio de 2008. Por lá,
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Comemoro a volta da minha vida social porque posso trabalhar de casa, de um café, de um quarto de hotel E ASSIM VOU ENCAIXANDO MEUS HORÁRIOS. POSSO AGRADECER QUE ATÉ AGORA TEM DADO CERTO
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E SE REMEXE MAIS alçou a revista a patamares nunca alcançados com entrevistas com Millôr Fernandes, Lucas Mendes, Selton Mello, Serginho Groissman e Renê Silva (o garoto que tuitou em tempo livre a invasão do Morro do Alemão e mais tarde entraria para a vida de Sabrina definitivamente). Engana-se entretanto que, com seu trabalho na Ragga, Sabrina havia abandonado o eterno sonho de lançar livros. Em 2009 lançou Meu Israel e logo depois Estados Unidos e Viagens e Lu Alone: Até aqui. “Me perguntam como eu conseguia fazer tanta coisa ao mesmo tempo, mas estando na Ragga era possível. A revista era mensal, as pautas eram frias e podia conciliar. Ficava atarefada, mas conseguia”, relembra. Em abril de 2012, Sabrina assinou dois contratos simultaneamente: um para se tornar colunista da estreante VEJA BH e outro para começar a produzir A Voz do Alemão, livro que, em parceria com Renê Silva, mostra o cotidiano de quem vivia no Morro do Alemão. “Tinha a consciência de ter trocado uma revista mensal por uma coluna semanal, cinco notas e entrevistas presenciais que eu sempre fiz questão de fazer. Sabia que o desafio seria grande”, conta.
NÃO DEU PARA FAZER TUDO O TEMPO TODO Durante um ano a jornalista se dividiu entre Belo Horizonte nos dias de semana onde se dedicava à VEJA e Rio de Janeiro nos sábados e domingos onde fazia seus trabalhos de pesquisa para a produção do livro. “Chegava ao Rio de Janeiro super cansada e ainda enfrentava um bate perna com Renê e seus amigos morro afora. Mesmo exausta eu amava aquilo tudo, até mais do que o conforto que a VEJA me proporcionava com eventos, lugares bonitos e emprego fixo”, derrete-se. A estafa causada na profissional durante o tempo em que se dividia entre VEJA BH e A Voz do Alemão acabou, a duras penas, convencendo Sabrina de que talvez ela não fosse tão onipotente quanto pensava. “Não tinha mais vida social e para continuar com meus projetos autorais tive que optar por deixar a revista. Foi difícil, principalmente porque é nas redações que tomamos conhecimento de pautas que podemos nos apaixonar e isso pode levar para um trabalho pessoal. Mas optei por sair da revista”, conta.
Hoje Sabrina é uma jornalista independente que trabalha em casa fazendo freelas. “Comemoro a volta da minha vida social porque posso trabalhar de casa, de um café, de um quarto de hotel e assim vou encaixando meus horários. Posso agradecer que até agora tem dado certo”, diz. Um de seus últimos trabalhos é um documentário sobre Michal Beer, sobrevivente do holocausto que conheceu enquanto escrevia Meu Israel. “Ela viveu uma história de amor tão bonita com outro prisioneiro que prometi a mim mesma contar essa história para o mundo”. A previsão de estreia do filme é para o fim de 2015, quando comemora-se 70 anos do fim da guerra. E enquanto Sabrina maquina mais ideias mirabolantes em sua cabeça, ficamos aqui pensando como podem existir pessoas com tanta sede de trabalho e apaixonada pela profissão. Ivana Moreira, sua ex-editora na VEJA BH talvez tenha a resposta. “Sabrina adora conhecer pessoas de áreas diferentes. Ela tem um entusiasmo muito bonito pela vida do outro, sempre quer tirar o melhor de cada entrevistado. Ela é um exemplo de que ainda dá pra fazer jornalismo do bem”, conclui.
“Ou escreves algo que valha a pena ler, ou fazes algo acerca do qual valha a pena escrever.�