GRUPO RELAÇÕES VETERANAS:
BACURAU
A resistência sociocultural presente em Bacurau por meio de uma linguagem e estética plural, radical e representativa
GRUPO RELAÇÕES VETERANAS:
Integrantes: Angelo Cordeiro - RA 820144246 Isabela Menedim - RA 820141576 Lucas Casanova - RA 821157937 Rayane Figueiredo - RA 820143223 Yasmin Galdino - RA 820149466 UC Linguagens e Relações Estéticas Ensaio Crítico em E-book Produto: Filme Bacurau
Professoras: Maira Mariano e Ivanilce Santos
SUMÁRIO
Introdução O que é Estética da Violência Identificação A Simbologia de Bacurau Resistência Conclusão
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INTRODUÇÃO: A produção audiovisual do Brasil é vasta e plural. É a partir dela que viajamos aos quatro cantos do país tendo a possibilidade de visitar o mais longínquo local do sertão, geralmente retratado em nosso cinema sob aspecto de muita pobreza, sofrimento da população e outras mazelas. Nossa escolha para este ensaio crítico é o filme "Bacurau" por este representar um cenário utópico sem se intimidar em colocar os pés na realidade, assim, possibilitando que estereótipos e conceitos enraizados sejam questionados e relacionados aos dias atuais. Mesmo sendo produto de uma indústria cultural, o filme é capaz de fazer refletir. Em "Bacurau" está representada a resistência de uma região historicamente esquecida, sufocada e dizimada em seu próprio habitat, e é por meio de uma pluralidade de personagens que o filme evoca a força de diversas minorias. Nosso objetivo neste e-book é analisar como estes símbolos, vozes e forças funcionam nesta linguagem audiovisual que se alia a uma estética transgressora, a fim de representar uma luta de classes que nos faz questionar nossos próprios valores.
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O QUE É:
" Bacurau " é um filme brasileiro de ficção científica, lançado em 2019, dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles , ambos pernambucanos. A história retrata o povoado de uma pequena cidade do sertão brasileiro - a Bacurau - enfrentando duas ameaças: a política e a estrangeira. Vivendo uma crise de água, a população de Bacurau recebe a visita do prefeito Tony Júnior em busca de votos para as próximas eleições. Recepcionado de forma agressiva pelos moradores, Tony Júnior promete resolver o problema da água, logicamente, de olho em votos. Em paralelo aos assuntos triviais de Bacurau, um grupo de norteamericanos vai à cidade com apenas uma intenção: caçar a população que é notadamente nordestina, sendo, em sua maioria, uma representação de minorias: mulheres, prostitutas, negros, idosos, homossexuais e agêneros. 5
ESTÉTICA DA VIOLÊNCIA Aos poucos, " Bacurau" vai se tornando um filme violento, mas não apenas por escolha dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles , essa estética da violência é recorrente no cinema brasileiro desde "Pixote - A Lei do Mais Fraco", de 1981, um dos filmes brasileiros que mais fizeram sucesso internacional Exemplos recentes, como "Cidade de Deus", de 2002, e "Tropa de Elite", de 2007 também têm a violência como algo recorrente, e muitos dos cineastas fazem uso dela pois já é algo enraizado em nossa sociedade. E ao fazer uso dessa estética para propagá-la internacionalmente, Bacurau se torna um produto de uma indústria cultural, termo concebido pelos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer (foto) que falavam sobre como a padronização das obras culturais faziam com que elas perdessem seu caráter reflexivo. No entanto, Bacurau se apropria inteligentemente da violência estética, se tornando também um produto de uma indústria cultural, para revelar sua principal faceta: a de símbolo de resistência.
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IDENTIFICAÇÃO Após a retomada do cinema brasileiro, no início dos anos 90, o Brasil passou a investir em histórias de figuras históricas como “Carlota Joaquina”, em eventos históricos, como “O Que é Isso, Companheiro?” que fala sobre a ditadura, e em histórias humanas que se passam no coração de nosso país, como “Central do Brasil”, desta forma, o que era exportado era “nosso”, tinha a identidade do povo brasileiro e de sua história. Quem era brasileiro e assistia, se identificava. Quem era de fora e assistia, enxergava o brasileiro. Veja o caso do personagem Jeca Tatu (foto), criado para a literatura por Monteiro Lobato e levado aos cinemas sendo interpretado por Amácio Mazzaropi. Ele é um arquétipo caipira: é cômico, ingênuo e preguiçoso. Por muito tempo, esse estereótipo serviu como a representação do interiorano brasileiro, e as histórias do Jeca Tatu também simbolizavam o abandono da sociedade brasileira pelos políticos. Desta forma, acontecia o reconhecimento e a identificação, mesmo que levada com humor - intrínseco ao nosso cinema. Foi a partir dos anos 2000 que a indústria brasileira percebeu que poderia galgar prêmios. Internacionalmente, o cinema do início dos anos 2000 herdava a violência, a crueza, e a crueldade do final dos anos 90. Desta forma, nasceram filmes como “Bicho de Sete Cabeças”, “Cidade de Deus” e “Carandiru”. Esses principais filmes pavimentaram um caminho que nosso cinema, até hoje, teima em seguir. 7
Obviamente, existem histórias melancólicas e filmes que sequer querem abraçar tais temas, no entanto, o principal produto da indústria cultural sempre irá ressoar por tais bandas, afinal, o grande público - aquele que vai aos cinemas para consumir um filme sem se preocupar em refletir sobre ele depois - pede por tais filmes e a própria indústria precisa destes filmes para que o mercado siga faturando, é um ciclo vicioso.
A SIMBOLOGIA DE BACURAU EM SEUS PERSONAGENS Embora “ Bacurau ” renegue a essência de produto mercadológico, ao ser lançado, fazer sucesso, ser consumido, faturar prêmios e levar multidões ao cinema ele assume o posto de produto de uma indústria cultural. É como se o sistema vencesse. Kleber e Juliano decidiram que o melhor cenário para um filme que trata sobre resistência numa batalha entre matar ou morrer, com uma bagagem histórica carregada de violência, seria o sertão nordestino. O filme se passa num futuro distópico, em que vemos o Brasil separado entre Norte e Sul. Esta narrativa conversa muito com a atual polarização política de nosso país. Não há meio termo. Rico em simbologia, " Bacurau " é uma mistura de ficção científica com velho oeste e um pouco de terror que atribui ao público e aos seus próprios personagens um senso de imprevisibilidade e, pouco a pouco, pequenos elementos começam a se revelar. Kleber e Juliano transformam seus personagens em símbolos para que a linguagem e o significado deles fiquem ainda mais evidentes ao espectador. Dentre os personagens, o que mais se destaca é Lunga . Ele é um antiherói que faz uso da violência para combater também a violência dos gringos. Ao vê-lo, é possível identificar algo que remete aos cangaceiros, como Lampião - por estar foragido, portar um facão e andar com seu pequeno bando. Ao final, Lunga se torna um símbolo de resistência e de força do povo de Bacurau. 8
Do outro lado, estão os motoqueiros (foto) que chegam a Bacurau e que são a representação da classe média alta sulista que vomita seus preconceitos. Suas vestes chamativas são uma forma de expressar que eles são alheios àquele local. Além disso, eles são manipulados pelos supremacistas brancos, que vão a Bacurau com o intuito de exterminar o povo de lá, e os usam como impostores para coletar informações dos locais. Acima de tudo, "Bacurau" é sobre a resistência de um povo, é a tentativa de manter viva não só as pessoas, mas também uma cidade e sua história. Só o fato de haver um museu em uma cidade tão pequena já revela o valor que os habitantes dão ao seu passado. Uma cena que ilustra esse sentimento é quando, após a matança que deixou marcas na parede, é exigido que apenas o chão seja limpo, pois mesmo que seja uma lembrança forte de um momento trágico, manter o sangue ali é uma maneira de registrar os fatos, as cicatrizes da luta do povo. Semioticamente, é possível analisar tais marcas como as pinturas nas paredes das cavernas dos povos mais antigos. Em “Bacurau”, mesmo que relativamente com poucos habitantes, vemos de tudo, uma prostituta, um assassino de aluguel, idosos, crianças, todos vivendo em um estado de harmonia e igualdade, não testemunhamos julgamentos direcionados às atividades supostamente imorais dos vizinhos, o que observamos principalmente através da participação da cidade inteira no tributo a Carmelita é o forte senso de comunidade e apreço à história do lugar. 9
Quando Tony Junior, o prefeito de Serra Verde, está chegando a Bacurau, percebemos que os moradores são avisados sobre sua vinda com antecedência por pessoas em posição de vigia. A função dessas pessoas é comunicar aos locais a presença de possíveis forasteiros e visitantes nos arredores. Esta é mais uma passagem que reforça a precaução da população para com a cidade, sendo uma população abandonada, todo cuidado é necessário, pois os moradores de Bacurau precisavam cuidar uns dos outros, além de prezar pela preservação da história do local. Com a chegada de Tony Junior fica claro que o sujeito não era bemvindo ali. Deixar Tony Junior falando sozinho é uma forma de expressar que possuem consciência da injustiça que sofrem, que não se satisfazem com migalhas e por mais que sejam vistos como indigentes eles são capazes de voar tão alto quanto qualquer pássaro, por isso, os moradores fazem questão de deixar claro que a autoridade está na mão deles, do povo. Lunga (foto) é claramente um personagem destoante na história, é visível que ele não faça parte daquela comunidade devido às suas vestimentas e seu corte de cabelo, curiosamente seu lado violento e aparentemente instável não preocupa seus conterrâneos, ainda que não seja uma comparação imediata, o personagem remete a uma figura folclórica por divergir do comum ao mesmo tempo que faz parte daquela cultura. 10
A princípio ele pode ser visto como um personagem que perpetua o estereótipo do brasileiro como um sujeito selvagem, violento e subversivo, mas não é, ele é um lembrete de que devemos nos orgulhar de onde viemos e defender nossas origens ao invés de temer ou vangloriar o que vem de fora, como faz o casal sulista de motoqueiros que tenta se equiparar aos estrangeiros. Mesmo sendo relativamente semelhantes aos brasileiros, os americanos fazem questão de deixar claro que aqueles brasileiros não eram brancos porque essa é uma designação somente apropriada para os superiores, para aqueles que colonizam, e assim como o gringo roubando um artefato do museu de Bacurau, eles roubam as riquezas de um povo e tentam apagar sua história, contudo, para o azar dos invasores aquelas pessoas não eram ignorantes tampouco eram indefesas. A interferência do externo é uma constante no filme, o primeiro exemplo é percebido com a presença dos motoqueiros, pois, até mesmo visual colorido deles é um invasor naquele cenário de tons caramelos, aliás vale ressaltar que enquanto para eles aquelas vestimentas espalhafatosas eram apropriadas, para os moradores locais elas eram motivo de piada por fazê-los parecerem palhaços. Existe ainda um drone usado pelos forasteiros em forma de disco voador, o visual peculiar do objeto tem uma função bem definida: mostrar que para o povo de Bacurau aqueles indivíduos eram completamente como extraterrestres, em contrapartida, sob a perspectiva dos norte-americanos, os brasileiros são extremamente ignorantes ao ponto de não conseguirem identificar tecnologia, com isso, eles possivelmente imaginavam que, ao notar o objeto voador não identificado, o senhor ficaria assustado. Talvez, se não tivessem subestimado o brasileiro e visitado o museu local, estariam cientes do perigo que estavam correndo, a própria placa de aparentemente boas vindas de Bacurau parece amigável porém os dizeres “SE FOR, VÁ NA PAZ” não são um símbolo da hospitalidade do local, mas um aviso em tom de ameaça.
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No final do filme, o professor Plínio (foto) diz a Tony Junior que eles estão sob efeito de um poderoso psicotrópico e que ele iria morrer, no entanto, esta não é apenas uma referência a semente que eles consumiam com certa frequência, mas é a comprovação de que toda a cidade agia na mesma sintonia, indicando a união da comunidade, a garra do povo e o amor aquela terra. Cabe ressaltar que a semente era ingerida em momentos de dificuldade ou perigo, como por exemplo, quando Teresa chegou à cidade para o enterro de Carmelita e no fim quando todos precisavam de coragem para conseguir enfrentar a ameaça. É provável que Michael tenha se espetado na planta que deriva a semente, o que ajudaria a explicar ele ter matado os próprios companheiros e ter visto Carmelita.
O filme conta com um elenco diverso que interpreta uma imensidão de personagens, cada um com fraquezas, forças e representações diferentes. Os habitantes de Bacurau trazem a imagem de um Brasil pouco explorado pelos estrangeiros, mas muito conhecido pelos brasileiros, com uma realidade voltada aos nordestinos. Já os norteamericanos são retratados de maneira superficial e estereotipada, pouco se sabe sobre eles e a origem da motivação para a matança. Nos filmes de Hollywood, os estrangeiros não têm sua história aprofundada, enquanto os estadunidenses têm seu passado detalhado, " Bacurau " teve a mesma jogada com um ponto de vista diferente, dessa vez as minorias tiveram suas histórias contadas.
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RESISTÊNCIA A linguagem do filme é voltada ao Brasil, que consiste em inserir informações, tendências e realidades do povo brasileiro em uma obra nacional. Na linguagem do filme, existe uma imagem sutil e criativa contextualizada. O varal manchado de sangue remete à violência nas favelas, mães com filhos assassinados lembram mães negras da perda de seus filhos. A água representa a escassez em algumas regiões do país. O museu e a falta de conhecimento dos turistas simboliza a história do Brasil e como os próprios brasileiros não a conhecem e muito menos se interessam em conhecer. O gringo neonazista enterrado vivo significa a ideologia nazista que pode retornar a qualquer momento, pois está enterrada e não morta. A proposta da linguagem de " Bacurau " é definir a cultura nacional como algo diverso, cuja a identidade não é marcada mas, ainda sim, rica.
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A estética de " Bacurau ” é uma construção antropofágica de resistência à cultura americana e a favor da brasileira, repleta de referências e críticas inseridas de forma incisiva num enredo que tenta fugir do clichê e assim, abordar pautas pouco exploradas no mundo cinematográfico, por meio de cenas complexas, violentas e até sarcásticas, com sentidos que causam reflexão e intriga no espectador, sentimentos estes que tornam a obra abstrata e ao mesmo tempo uma crítica social aos dias atuais de uma sociedade marcada pela desigualdade e sofrimento, principalmente dos mais pobres, que no caso do filme, são retratados até como esquecidos/ignorados e “inexistentes no mapa”, com autoridades que fecham os olhos para esta população. A violência, por mais que explícita, não é pauta principal, tampouco natureza dos cidadãos da vila, que apesar de estarem passando por certas necessidades alimentícias e hídricas, não costumam apresentar quaisquer manifestações agressivas, apenas revoltas contra seus governantes, que com toda crise, ainda assim tentam se reeleger manipulando o todo com doações insuficientes e não planejadas; ela apenas torna-se evidente como forma de proteção, vindas de uma união com grupos perigosos que são idolatrados por protegerem o patrimônio da cidade, contra estrangeiros, que têm uma visão genérica e rotulada de pessoas que não compartilham de sua cultura e por esporte tentam aniquilá-las.
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CONCLUSÃO A película retrata diversos problemas históricos da nação que ainda se encaixam em dias modernos, que são o preconceito e discriminação contra grupos de acordo com região, etnia, religião e classe social; a negligência e descaso com questões básicas como saúde e educação, higiene e água vindas da desonestidade política, a prostituição, uso de entorpecentes e até a ideia de que a reação de um grupo oprimido não pode se comparar a violência de um opressor. Ao final, conclui-se que " Bacurau " é um filme que usa dos meios, caminhos e influência da indústria cultural para se tornar um produto de disseminação de uma linguagem de resistência, tendo suas representações, símbolos e signos perpetuados pelo público e pela sociedade, seja em memes, como na imagem da esquerda com os deputados João Campos e Tabata Amaral, ou em protestos contra lideranças políticas, como na imagem da direita.
FOTOS: DIVULGAÇÃO/VITRINE FILMES GRUPO RELAÇÕES VETERANAS 2021