Jerko Ledic e sua Empresa de Aguardente – Tropi-Cana Indústria e Comércio Ltda Meu pai Jerko era um ex-combatente Jugoslavo da Segunda Guerra Mundial, nascido em 21 de fevereiro de 1919, em Sarajevo, Bósnia. Ele imigrou para o Brasil em 1948, tendo se naturalizado brasileiro em 20/09/1949. Em 1953, em nossa casa na Rua Padre Severino 94, em Belo Horizonte, Minas Gerais, observando a coleção de miniaturas de garrafas de diversas bebidas (trazidas da Europa pelo amigo comentarista esportivo Gerson Sabino - irmão do escritor Fernando Sabino) começou a se indagar porque a nossa mais legítima bebida alcóolica, a pinga, não era explorada internacionalmente. A partir deste momento, se tornou uma obsessão pessoal tentar colocar no mercado internacional nossa aguardente de cana. Coletou algumas amostras comercializadas em Minas Gerais e foi para os Estados Unidos em 1954. Na época era uma aventura – o avião utilizado era o Douglas DC3, bimotor à hélice, fazendo escala em Caracas e no Novo México antes de chegar aos USA. O laudo do laboratório expedido pela ‘Food and Drug Administration’, que analisou seus componentes, afirmava que esta bebida jamais poderia ser comercializada em território americano. Os níveis de cobre eram muito elevados e prejudiciais à saúde pública. Ao retornar, desenvolveu alambiques de aço inox, no lugar dos de cobre. Passou então a produzir sua própria aguardente e retornou aos Estados Unidos para novas avaliações. Novo problema surgiu, os níveis de aldeídos eram muito variáveis conforme a amostra coletada. Precisava padronizar este item e então produziu, talvez, a primeira cachaça bi-destilada. Nesse momento abriu sua empresa, a Sociedade Brasileira de Aguardente Ltda, com escritório na Av. Olegário Maciel 745. O primeiro registro de marca “TROPI-CANA” aguardente de sumo de cana foi feito em 1957, incluída na classe 42 já com seu primeiro rótulo. Em 1958, registrou também a marca “DA–BOA”.
Nessa mesma época, quando foi fazer este registro de marca nos Estados Unidos, havia uma Indústria de Suco de Frutas com o nome Tropicana, ainda existente e famosa nos USA, a qual detinha o registro desse nome. Apesar de incluída em classe diferente (46), para evitar confusões, resolveu fazer outros registros de nomes, como “COPACABA”, “CACIQUE” e “SAMBA” em 11/10/1957, e, finalmente “YERKO’S BRAZILIAN CACHAÇA”, na classe 49, em 27/04/1959, no escritório Zoltan H. Polachek, em Nova York.
Todavia manteve o nome Tropi-Cana como da Empresa. Os rótulos eram um primor, com fundo preto, atravessado por uma tarja verde-amarela, tendo ao fundo um coqueiro e representação da Baia de Guanabara.
Desenvolveu uma garrafa muito sofisticada e diferenciada, com base quadrada afunilando até a boca, que continha conta-gotas, embalada em caixa de papelão aos moldes dos melhores whiskys ingleses.
Tenho diversos recortes de jornais, um deles com Juscelino Kubitschek, Presidente do Brasil e Bias Fortes, Governador de Minas Gerais, os quais foram em recepção no Automóvel Clube onde foi oferecida uma feijoada e como aperitivo a Tropi-Cana. Os outros artigos falavam dessa grande empreitada de exportação da aguardente Tropi-Cana:
Meu pai procurando ajuda para concretizar seu intento de exportar a aguardente brasileira para os USA foi buscar ajuda com algumas autoridades. Entre muitas cartas, uma de apresentação ao Governador de Minas Gerais, JosÊ Francisco Bias Fortes:
O Governador, verificando a importância de abertura de divisas, passou a fazer algumas apresentações. Essas cartas diziam da importância dessa transação comercial, onde foram vencidas as dificuldades técnicas mais sérias, faltando quebrar algumas barreiras alfandegárias para viabilizar a colocação da popular bebida nacional em território americano:
O Renato Azeredo, na época Ministro da Fazenda do Governo de Minas Gerais (com quem meu pai mantinha relações através de seu irmão João Antônio, nosso vizinho na Rua Padre Severino), da mesma forma colaborou no processo:
Em 1960, devido divergências ocorridas com seu sócio, mudamos para a Capital do Brasil, o Rio de Janeiro, para um apartamento em Copacabana, na Rua Santa Clara 59. Nossa estada na Capital foi curta, de apenas um ano. Apesar de viagens incessantes aos Estados Unidos, seu negócio não prosperava e então resolveu mudar para São Paulo, em 1961, onde a cidade já mostrava grande desenvolvimento industrial. Fomos para o Bairro Aclimação, Rua Castro Alves 654, no Conjunto Kovarick, onde comprou o apto 31 no edifício Diamante e depois no edifício Topázio, apto 81. Montou o escritório da Tropi-Cana no Conjunto Comercial Nacional, na Av. Paulista 2073, sala 1824.
Em 1963 participou, em Toronto, Canadá, da chamada ‘World Market Operation’. Estava eufórico com o que viu e das potencialidades brasileiras para o mercado internacional. Voltando dessa viagem propôs promover, junto com o Itamaraty e Ruben Berta (proprietário da Varig), convite a grupos de potenciais clientes importadores do estrangeiro para conhecerem nosso parque industrial, dividindo os visitantes em grupos, conforme seus interesses em bens de consumo, matéria prima ou produtos semi acabados, assim como às fábricas de material de construção, tecidos, máquinas agrícolas e produtos alimentícios.
Participou de vários debates na televisão falando do assunto, inclusive lembro da entrevista com o repórter Silveira Sampaio, um dos melhores programas da TV Record daquele período. Estava realmente à frente de seu tempo, pois só encontrou empecilhos e hesitação por todos os lados e não houve envolvimento para concretizar a ideia. Voltou então a dedicar todos os esforços para sua cachaça. Estruturou um escritório em New York na 17 Battery Place, Room 243.
Manteve entendimentos com a Cooperativa dos Produtores de Álcool e Açúcar do Estado de São Paulo, com o Diretor Walter de Andrade, para fabricação de aguardente com álcool puro e neutro, livre de aldeídos, eliminando assim os ingredientes secundários de sais de cobre, óleo fusel e resíduos orgânicos, para assegurar uniformidade do produto. Várias viagens e contatos com distribuidores norte americanos foram efetuados, obtendo colaboração do SEPRO de Nova York e suporte da CACEX. Em outubro de 1963 efetuou um contrato de US$600.000,00 com a ‘Standard Beryllium Corporation‘ para exportação de 50 mil caixas com 12 garrafas cada, FOB porto de Santos. Parte do pagamento (30%) seria feita com permuta de tratores e implementos para o Brasil. Nesse contrato se comprometiam a fazer quatro anúncios de página inteira no ‘New York Times’, um anúncio de página inteira na Revista ‘Life’ e na Revista ‘Time’; além de um concurso nacional com prêmios de US$100.000,00 para estimular o consumo dessa aguardente brasileira.
As dificuldades na época eram grandes, pois nunca havia sido efetuada uma exportaçãoimportação dessa magnitude. Varias pessoas se envolveram para permitir essa transação, inclusive o SEPRO de Nova York. O Sepro expediu uma carta ao Ministro da Fazenda do Brasil, nessa mesma data, falando sobre essa transação inédita para o Brasil e sobre a Empresa ‘Standard Beryllium Corporation‘ que firmou o contrato, a qual tinha um capital de US$9 milhões:
Sua intenção, para atender esse contrato com a “Standard Beryllium Corporation”, era exportar inicialmente, por conta própria, uma remessa de 50.000 garrafas (5.000 caixas com 10 garrafas). Assim no início de 1964, devido algumas dificuldades para manter o negócio da exportação, por conta de pagamentos de taxas e impostos a efetuar nos USA, solicita ao Banco do Brasil permissão para transferência bancária de US$75.000,00 para retirada dessas garrafas a serem desembarcas nos USA. Nesse ofício inclusive aborda incremento que haveria na produção de alguns produtos correlatos que seriam desenvolvidos, como na indústria de embalagens, garrafas e outros:
No final desse ano de 1964 fez um contrato definitivo com a ‘Mediterranean Import Co.’ Empresa que ficaria responsável pela importação e distribuição da aguardente Tropi-Cana no território americano, evitando assim burocracia de transferências bancárias e outros fatores mais:
Cabe destacar aqui um registro. Dizia ter conhecido um jovem em USA muito capacitado e acreditava viria a ter destaque no Brasil. Esta pessoa era o Álvaro Valle, Chefe do SEPRO em Nova York, vindo a ser fundador do Partido Liberal e dos mais respeitados Senadores da República. Tenho uma carta deste, solicitando ao Diretor da Carteira de Comércio Exterior, Dr. Aldo B. Branco, falando do contrato da exportação com a ‘Mediterranean Import Co.’, como a maior transação comercial realizada entre o Brasil e Estados Unidos com um produto genuinamente nosso:
Procurando uma Empresa Aérea para efetuar a exportação, para evitar transporte por navio, estava em conversação com a Pan American para que essa companhia fizesse o transporte das primeiras 50 mil garrafas a serem enviadas aos USA:
Com a proposta aceita, passou a ser membro do Clipper Club da PanAm, o qual permitia algumas regalias na compra de passagens e como cliente ‘Vip’ nos aeroportos:
Sonho realizado e tudo caminhando para que definitivamente a Tropi-Cana seguisse rumo normal de produção e exportação. Para isso, começou a fazer negociações internas para atender a demanda. Iniciou uma sociedade com o Sr Egisto Ragazzo Junior, de Limeira, SP, o qual produzia 40.000 toneladas de cana de açúcar, podendo industrializar 5 milhões de litros de cachaça, além de também montarem uma fábrica para processamento de laranja ‘in natura’, a ser exportada para o território americano, visando escoar produção de 200.000 caixas.
As coisas estavam todas encaminhadas, até que no dia 08 de outubro de 1965, com apenas 46 anos, Jerko teve um enfarte fulminante, deixando a todos estarrecidos e perplexos, inclusive o Sr. Ragazzo ainda tentou manter as negociações, conforme carta abaixo:
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Uma última carta, do ‘Brazilian Government Trade Bureau’, com sede em Nova York, assinada por José Bettencourt Machado, em 23/10/1965, dizendo sobre este rude golpe, e contando:
Infelizmente, não houve possibilidades para manutenção da Empresa e da exportação da Tropi-Cana, pois meu pai era o único a deter os conhecimentos, mecanismos e contatos para continuidade de tão ambicioso e volumoso projeto, talvez fora de seu tempo real. Até os dias atuais, nenhuma Indústria de produção de aguardente faz exportação para os USA.