MUNDOS
Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fundação Itaú | Itaú Cultural
OLIVEIRA, Rayssa. Ruth Rocha : brincar palavras, misturar mundos / Rayssa Oliveira. – São Paulo: Itaú Cultural, 2026. (Cadernos do professor) 28 p. : il. color. ; PDF.
Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7979-248-9
1. Rocha, Ruth. 2. Literatura infantil. 3. Prática artística. 4. Artes visuais. 5. Educação infantil. 6. Letramento. 7. Sequência didática. 8. Plano de aula. I. Fundação Itaú. II. Itaú Cultural. III. Enciclopédia Itaú Cultural. IV. Título. CDD 372.21
Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536
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observar, ver (imagens)
observar, ver (obra de arte)
oficina, prática artística e experimentação
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título
Ruth Rocha: brincar palavras, misturar mundos
apresentação
Esta sequência didática tem como eixo a obra de Ruth Rocha, reconhecendo na escrita dessa autora uma potente abertura para o trabalho com a linguagem na Educação Infantil. Nesse sentido, Ruth Rocha não é apenas tema, mas também uma estrutura de pensamento: é por meio de deslocamentos que ela nos possibilita novos caminhos, linguagens e materialidades. A partir dos livros Palavras, muitas palavras…, Marcelo, marmelo, martelo e A fantástica máquina dos bichos, propõe-se um percurso que articula palavra, imagem e matéria, possibilitando às crianças explorar, nomear, combinar e inventar. Ao longo dos encontros, a linguagem é abordada em sua dimensão criativa e investigativa, em diálogo com artistas como Chico da Silva e Maria Lira Marques. Mais do que trabalhar conteúdos isolados, esta proposta busca construir um campo de experiências em que os estudantes possam experimentar diferentes linguagens como modos de pensar e reinventar o mundo.
objetivos
• Conhecer parte da vasta obra de Ruth Rocha;
• Explorar letras, palavras e imagens como elementos de criação, experimentando suas formas e possibilidades de combinação;
• Brincar com a invenção de nomes, seres e objetos, ampliando a relação com a linguagem de modo não convencional;
• Experimentar diferentes materialidades (carimbo, desenho, colagem, pintura e argila), investigando suas possibilidades expressivas;
• Criar composições visuais a partir da combinação, transformação e recomposição de elementos conhecidos;
• Participar da construção de produções coletivas, compartilhando ideias, narrativas e modos de fazer.
áreas do conhecimento
Artes visuais, literatura, língua portuguesa.
segmento e habilidades da BNCC
Educação Infantil: EI03EO03, EI03EO04, EI03TS02, EI02TS02, EI01TS02, EI02EF03, EI02EF08, EI02EF09, EI03EF09, EI03EF01, EI01ET01, EI01ET05, EI02ET05.
duração
8 aulas.
São Paulo, 2026
recursos necessários
• Papéis variados (sulfite, kraft, coloridos, reciclados);
• Riscadores coloridos (lápis de cor, giz de cera, giz pastel, canetinhas);
• Tesoura sem ponta;
• Cola bastão;
• Rolhas, esponjas, borrachas ou EVA para confecção de carimbos;
• Tinta de carimbo;
• Argila;
• Superfície para abrir a tinta de argila líquida (acrílico, madeira, isopor);
• Palitos de madeira (como os de churrasco sem ponta ou os de sorvete);
• Utensílios variados de cozinha (colheres, peneiras, garfos, espátulas);
• Miudezas, ferragens e pequenos objetos sem uso (escova de dente velha, botão, rolha).
1º
MOMENTO desenvolvimento
Brincar letras
Ovo é uma bela palavra, que se escreve com dois Ós. Pondo um P na frente é POVO, que é nome de todos nós.
Ruth Rocha (1931), Palavras, muitas palavras, p. 22.
Os momentos iniciais desta sequência partem da exploração das letras a partir de suas formas, sons, traços e possibilidades de invenção. Trata-se de uma experiência lúdica e expressiva com a linguagem, na qual as letras deixam de ser apenas parte de um sistema de códigos e passam a ser compreendidas como matéria plástica e sonora, passível de combinação, repetição, transformação e criação de sentidos.
O letramento na Educação Infantil, longe de exigir percursos de alfabetização formal, convida à imersão na cultura escrita, com foco na escuta, na oralidade, nas brincadeiras e no reconhecimento das letras, de seus traços e sons, sempre em diálogo com os Campos de Experiência. As propostas a seguir investem na construção de uma relação de proximidade e curiosidade com a linguagem.
Trata-se de uma oportunidade para que os estudantes experimentem as letras como território de jogo e invenção. Antes de tudo, a letra como forma de brincar com o mundo, e as crianças, como produtoras de linguagem.
É importante considerar que atividades relacionadas à leitura e à escrita também podem identificar desafios de aprendizagem. Dificuldades persistentes no reconhecimento de palavras ou na compreensão de textos, trocas ou inversões de letras, esquivamento da leitura, bem como frustração ou desmotivação com o aprendizado, podem indicar a necessidade de acompanhamento mais atento.

Inicie com a leitura compartilhada de trechos do livro Palavras, muitas palavras, privilegiando a escuta de ritmos, repetições e sonoridades presentes nos poemas. Em seguida, apresente um conjunto de carimbos com letras, organizados como um “baú de letrinhas”.
Como fazer esses carimbos? Uma solução simples consiste em recortar as letras em EVA ou borracha e colá-las sobre rolhas, que funcionam como pegadores adequados ao tamanho das mãos das crianças. Uma boa estratégia é iniciar a atividade utilizando apenas uma cor de tinta, para que a atenção esteja concentrada na forma das letras. Em momentos posteriores, é possível ampliar a proposta, incorporando diferentes cores e combinações.
Exemplo de carimbos com rolhas e EVA, 2026 Foto de Rayssa Oliveira





Convide os estudantes a explorar livremente esses carimbos, investigando possibilidades de repetição, sobreposição e variação de direção. Ao longo do processo, as letras começam a se transformar em imagens.
Algumas sugestões a partir de trechos específicos:
Um Inseto Impertinente
Incomoda toda a gente. Inseto muito Irritante, Atrevido, Insinuante! Inseto Inconveniente, Que Inseto mais Insistente!
Que insetos malucos podemos criar com a letra I?
Com B se escreve:
Banana e Bala,
Bigode e Belo,
Barulho e Bile,
Balão e Briga,
Bolacha e Bolo,
Boliche e Bola,
Burro e Barriga.
Que bichos podemos criar com a letra B?
Um Sapinho tão Sabido
Só canta em Si Sustenido…
Um Sagui tão Saliente
Que só vive Sorridente…
Um Sabiá assanhado
Assobia no telhado…
Que seres são feitos de S?
2º MOMENTO
Ampliando o mundo dos carimbos
Dando continuidade à exploração, apresente aos estudantes imagens do ilustrador Fernando Vilela, convidando a turma a identificar procedimentos como repetição, acúmulo e organização visual. Essa observação costuma ampliar significativamente as possibilidades de investigação com os carimbos.
Organize o grupo em estações simultâneas. Em cada mesa, disponibilize conjuntos de letras-carimbos que possam se transformar em diferentes criações de:
• seres, bichos e monstros;
• cidades, construções e paisagens;
• rostos e pessoas.
As crianças circulam entre os espaços, ampliando suas investigações. O foco está na construção de imagens e na tomada de decisões, e não na obtenção de resultados finais.
Cada estação pode apresentar agrupamentos distintos de letras. Por exemplo, em uma delas podem estar disponíveis as letras O, I, V e P; na outra, H, M, N e A.
Também é possível abrir trilhas paralelas a partir da linguagem dos carimbos. Uma referência interessante é a artista Carmela Gross (1946), cuja obra explora a transformação de gestos com o pincel em procedimentos semelhantes aos do carimbo, como se observa na exposição Carmela Gross: carimbos, com curadoria de Ricardo Resende (1962)
Ao final, levar as produções para a parede é sempre um bom modo de dar visibilidade ao processo e permitir que o grupo note as inúmeras possibilidades de criação que nasceram do exercício coletivo.
Exemplo de atividade com carimbos, 2026
Foto de Rayssa Oliveira

3º MOMENTO
A letra como ponto de partida para o desenho
Retorne a Palavras, muitas palavras e chame a atenção para as ilustrações desse livro. Na edição da Salamandra, ilustrada por Raul Fernandes, o corpo do Galo assume a forma da letra G; o Rei, a da letra R; e o V aparece pendurado no Varal. Outro livro também brinca com isso: L de livro: alfabeto desenhado, produzido pelo Estúdio Logos e publicado em 2017 pela Companhia das Letrinhas. Pode ser interessante selecionar algumas dessas imagens para apreciação coletiva, ampliando o repertório visual do grupo
Em seguida, apresente letras impressas em grande escala e convide as crianças para desenhar a partir dessas formas, expandindo seus contornos e transformando-as em objetos, personagens e paisagens. Desse modo, a letra passa a


Após essa preparação com desenhos, proponha que cada estudante escolha uma de suas criações para transpô-la para a forma tridimensional, utilizando a argila. Aqui surge um momento especial da proposta: as letras que antes apareciam como carimbos repetidos ganham dimensão, volume e presença pelas mãos das crianças, que modelam curvas, ensaiam proporções, investigam o equilíbrio e enfrentam novos desafios criativos.
Exemplo de atividade com letras e desenhos, 2026 Foto de Rayssa Oliveira

Exemplo de atividade na qual I virou flor, e M, escorregador, 2026 Foto de Vitor Janei
Essa proposta pode se estender por bastante tempo. É possível retornar da argila ao desenho, fazer novas escolhas, promover transformações e voltar novamente à argila, instaurando um processo cíclico de criação. Os estudantes também podem desejar modelar as letras de seus próprios nomes, compondo, gradualmente, palavras tridimensionais completas.
Exemplo de composições com letras recortadas, 2026
Foto de Rayssa Oliveira
4º
MOMENTO
Das letras nascem coisas | Das coisas nascem letras
Proponha duas estações simultâneas e complementares. Com o grupo já familiarizado com o brincar das letras e com suas possibilidades de transformação, abrem-se duas possibilidades de investigação.
Na primeira estação, as letras se transformam em coisas. Essa proposta segue o caminho explorado anteriormente, mas, desta vez, com letras menores e em maior quantidade. O objetivo passa a ser criar a partir do conjunto de letras, e não apenas com uma única forma.
Nesse momento, retome os carimbos utilizados nas atividades iniciais, pois os estudantes já dispõem de repertório suficiente para elaborar composições mais complexas.

Vale destacar que o exercício com letras recortadas não precisa resultar em colagem. Uma superfície (como uma folha de papel, uma mesa ou uma prancha de madeira) delimita a área de trabalho para proporcionar uma experiência de criações efêmeras, que se desfazem para dar origem a novas composições. Fotografar ou desenhar as composições antes de desmontá-las pode ser um modo interessante de registrar o processo
Na segunda estação, do outro lado da sala, a proposta ocorre em sentido inverso: enquanto na primeira estação várias letras compõem um objeto, aqui vários pequenos objetos compõem uma letra.
Espalhe vários objetos miúdos em potes, caixas e cestos e disponibilize uma superfície ampla (como uma mesa ou um tablado) para os estudantes criarem. Podem ser utilizados tampinhas, botões, clipes, presilhas, pequenas escovas velhas, colherinhas, rolhas e sucatas miúdas. Esses materiais podem ser ampliados ou adaptados de acordo com o contexto da escola.
Essa proposta valoriza especialmente o uso de materiais diversos e não estruturados, capazes de ampliar as possibilidades de experimentação e invenção. A própria coleta desses elementos pode integrar o percurso investigativo. Restos de papéis coloridos rasgados, por exemplo, também podem funcionar como disparadores criativos.

Se as crianças desejarem criar outras imagens – e não apenas letras – com essas miudezas, acolha essa possibilidade. Afinal, o objetivo é a experimentação de composições visuais, a percepção das relações entre parte e todo, a observação de perto e de longe, bem como a criação individual e coletiva.

Exemplo de composições com objetos formando letras, 2026
Foto de Rayssa Oliveira
Exemplo de composição de objetos formando imagem, 2026
Foto de Rayssa Oliveira
Exemplos de desenhos realizados por estudantes, 2026 Fotos de Rayssa Oliveira
5º MOMENTO
Inventar é misturar: misturichos
Inicie com mais um livro de Ruth Rocha: A fantástica máquina dos bichos . Chame a atenção para os nomes dos seres inventados e seus significados: Gatofante, Cabrelho, Tartaspinho… Que bichos estão misturados em cada um desses nomes?
Após a leitura do livro, proponha uma brincadeira coletiva de combinação de nomes de animais, explorando sonoridades e criando novas palavras Essa etapa funciona como ponte entre a linguagem oral e a criação visual.
Depois de ampliarem seus repertórios por meio da conversa, relembrarem animais conhecidos e ensaiarem diferentes combinações, convide os estudantes a desenharem essas criaturas inventadas. Aqui vale oferecer riscadores variados e coloridos para ampliar as possibilidades expressivas d as produ ções



Com o grupo já envolvido no universo dos misturichos (mistura de bichos), apresente algumas obras do artista Chico da Silva (1910-1985)
A sugestão é convidar os estudantes a identificar partes de diferentes animais presentes nos seres fantásticos criados pelo artista: bico de tucano, rabo de peixe, barriga de tartaruga, dentes de piranha, garras de onça e tantas outras combinações possíveis . Vale também observar a riqueza cromática, os detalhes e os padrões presentes nos trabalhos de Chico.
Em seguida, sugira que criem, em duplas ou trios, seus misturichos Diferentemente da atividade anterior, a mistura não precisa envolver apenas dois animais. O desafio agora é combinar diversas características em um único ser fantástico. Uma tromba de elefante, duas asas de urubu, pernas de lobo-guará, pescoço de tuiuiú: quanto mais variados forem os elementos, mais surpreendentes poderão ser os resultados. E quanto maior for o repertório visual disponível na sala – especialmente relacionado à fauna brasileira –, mais ricas tendem a ser as criações
Exemplos de desenhos realizados por estudantes, 2026 Foto de Rayssa Oliveira






Esse universo de imagens, aliado à oralidade da “receita” para criar um ser fantástico, transforma a atividade em uma divertida experiência de invenção, como se todos estivessem preparando uma poção mágica para dar vida a um novo misturicho
Composição e colagem
Com Ruth Rocha, os estudantes aprendem que o mundo não está dado: ele pode ser recriado por meio de palavras, imagens e gestos.
A fantástica máquina dos bichos nos ajuda a pensar procedimentos criativos, como combinar partes, experimentar encaixes, realizar colagens inesperadas, e aproximar elementos que, à primeira vista, não parecem pertencer ao mesmo universo. Trata-se de testar, relacionar e recriar.
A diversidade de linguagens exploradas ao longo do percurso permite que cada estudante encontre modos próprios de expressão, aprofundando-se naquilo que mais lhe interessa ou se aventurando por caminhos que lhe causem estranheza. O diálogo com diferentes artistas visuais amplia esse campo, apresentando vários modos de criação que nascem do gesto e da brincadeira.
Walmor Corrêa (1960)
Nesse momento, apresente a obra do artista brasileiro Sua pesquisa articula arte, ciência e imaginário popular na criação de seres híbridos e fictícios, apresentados por meio de desenhos, pinturas, esculturas e instalações que simulam procedimentos de investigação científica, como a anatomia, a taxidermia e a catalogação de espécies. Ao combinar referências da zoologia e da botânica com elementos do folclore brasileiro, Corrêa tensiona a distinção entre ficção e conhecimento científico, produzindo uma reflexão sobre os modos de construção e legitimação do saber.
A partir desta reflexão, inicie uma atividade de recorte e colagem. Ofereça papéis coloridos e convide os estudantes a recortá-los livremente, com linhas curvas, retas, pontiagudas ou sinuosas. O objetivo inicial é criar familiaridade com a tesoura e as formas produzidas
Em seguida, observe com a turma cada fragmento recortado e convide os estudantes a imaginar o que cada recorte pode representar. Com o lápis, os estudantes podem acrescentar detalhes que reforcem as características imaginadas: “Parece um rabo de baleia, vou fazer os traços”; “Parece uma cabeça de passarinho, vou fazer o olho”; “Parece uma pata de tigre, vou fazer as garras”. À medida que essas características são acrescentadas, as partes se tornam mais definidas e podem ser reunidas em novas colagens, dando origem a criaturas bastante inusitadas.
Mais uma vez, a exibição na parede é uma boa opção, pois possibilita a organização criativa das criaturas e favorece novas relações entre os trabalhos, estimulando comentários, narrativas e novas ideias: “Ah, agora vou fazer outro para ficar do lado desse!”; “Vou fazer o filho dele!”; “Vamos fazer um que mistura o meu com o seu?”.
Pintura



Exemplo de mural com resultados da atividade, 2026 Foto de Rayssa Oliveira

Bichos imaginários, o gesto e a terra
Ao longo dos momentos anteriores, investigamos diferentes maneiras de inventar bichos: pela mistura de nomes, pela combinação de partes, pelo desenho e pela colagem. Neste momento, a proposta se desloca para uma outra dimensão: a relação entre o gesto, a matéria e o ser inventado.
Para isso, apresente o trabalho de Maria Lira Marques (19 4 5) , artista que cria seus bichos a partir de uma relação profunda com o sertão, a terra e os materiais de seu entorno. Suas figuras parecem nascer do próprio chão: carregam texturas, cores e marcas que remetem ao barro, à paisagem e às formas de vida presentes nesse território.

A partir dessa artista, que traz o barro como tinta para sua pintura, o material ganha centralidade. A argila aparece não apenas como chão onde vivem seres reais e inventados, mas também como a própria matéria da pintura. Depois de explorarem a argila em seu estado maleável, os estudantes podem experimentar versões da argila mais líquidas e diluídas, capazes de produzir gestos mais fluidos
Após a observação atenta da obra de Maria Lira Marques, organize a turma em duas estações de investigação.
Na primeira estação, disponibilize uma pequena concha de argila líquida no centro de uma superfície impermeável (como acetato, acrílico ou fórmica).
Com um palito de madeira, os estudantes são convidados a “puxar” a argila para fora de seu centro, fazendo surgir patas, chifres, caudas, antenas, línguas ou quaisquer outras características imaginadas.
Exemplos de realização da atividade proposta, 2026
Foto de Rayssa Oliveira


Na segunda estação, disponibilize bandejas ou superfícies cobertas por terra seca ou areia. Com palitos, os estudantes criam imagens retirando matéria, abrindo caminhos e vazios para compor o ser imaginado. Se a primeira estação trabalha pela adição e expansão, esta investiga o gesto contrário: desenhar pela retirada.
Proponha que realizem gestos lentos. Para conseguir esse ritmo mais calmo, considere colocar uma música tranquila. Com o tempo, os estudantes podem substituir os palitos pelos próprios dedos. Essa exploração tátil costuma ser especialmente significativa e prazerosa.
Exemplos de realização da atividade proposta, 2026
Foto de Rayssa Oliveira

8º MOMENTO
Desinventar as coisas
Retorne à obra de Ruth Rocha, relembrando os diferentes nomes inventados em A fantástica máquina dos bichos e recuperando o percurso realizado até aqui. Em seguida, apresente Marcelo, outro personagem criado pela autora, no livro Marcelo, marmelo, martelo (1976).
Marcelo vê o mundo de um jeito diferente e questiona, principalmente, o nome das coisas. Ao estranhar o modo como o mundo é nomeado, passa a inventar novas palavras para aquilo que o cerca. Assim, casinha do cachorro torna-se “moradeira do latildo”, o cumprimento “bom dia” se transforma em “bom solário”, e leite passa a ser chamado de “suco de vaca”. Percebemos que os nomes que ele inventa nascem da observação das funções e das características das coisas.
Nesse momento, brinque de dar outros nomes aos objetos presentes no ambiente. Qual seria outro nome para árvore? Como poderia se chamar uma cadeira? E uma folha de papel?
Apresente como referência um trecho do poema de Nele, o poeta nos diz que é preciso:
Manoel de Barros (1916-2014)
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
Manoel de Barros, “Uma didática da invenção”, O livro das ignorãças
Reúna objetos variados e sucatas para ampliar essa brincadeira: pentes, lápis, almofadas, livros, rolos de papelão e outros materiais. A cada objeto apresentado, o desafio é encontrar um novo nome para ele, diferente do usual.
Em seguida, disponha esses materiais no chão ou sobre uma mesa e proponha a invenção de traquitanas. Além de construí-las, os estudantes devem criar nomes para elas.
Esses nomes podem surgir da função do objeto (como faz o personagem de Marcelo, marmelo, martelo) ou da mistura dos elementos que o compõem (como acontece em A fantástica máquina dos bichos).
Realização criada durante a atividade: ”Máquina comilona” ou “Faprafo”, mistura de faca, prato e garfo, 2026
Foto: Rayssa Oliveira

Nomear não é apenas identificar, mas interpretar o mundo. Ao deslocar os nomes, deslocam-se também os sentidos e ampliam-se as possibilidades de existência das coisas.
Assim como na poesia, interessa menos encontrar o nome correto das coisas no mundo e mais produzir novos sentidos para elas. Brincar com aquilo que não está completamente definido, que escapa às categorias fixas e que permanece aberto à invenção.
Véio (1947)
Como ampliação da discussão, apresente a obra do artista brasileiro , que transforma galhos e raízes em figuras humanas, animais e seres imaginários. A partir da observação atenta das curvas, bifurcações e marcas presentes na madeira, o artista identifica formas que parecem já habitar o material e as evidencia por meio do uso de cores vibrantes e formas simples.
9º MOMENTO
Novos mundos
Como atividade final, proponha à turma a construção de uma grande instalação coletiva. Esse território imaginário pode reunir bichos inventados, palavras criadas, traquitanas, desenhos, esculturas, colagens e outras criações realizadas ao longo dos encontros.
Finalizar essa sequência didática com um território coletivo busca tornar visível o processo vivido pelo grupo e, sobretudo, propor a apreciação do encontro de tantos indivíduos diferentes. Trata-se de celebrar a diversidade que se revela não só no cerne da proposta, mas também na reunião de vários modos de fazer.
Outra possibilidade consiste em criar narrativas e brincadeiras com os seres inventados. Ruth Rocha é uma autora ligada à construção de histórias, e a narrativa ocupa lugar central na experiência infantil. Sendo assim, pode ser interessante organizar um “teatro dos misturichos” ou outra atividade semelhante, na qual os personagens criados ganhem voz, movimento e novas histórias.
reflexão final
Como recurso pedagógico, a obra de Ruth Rocha convida os professores a perceberem novas possibilidades para suas práticas pedagógicas. As atividades apresentadas nesta sequência não devem ser entendidas como um percurso rígido, mas como possibilidades abertas de investigação. Além disso, considerando a importância da repetição na Educação Infantil, muitos desses momentos podem ser retomados diversas vezes antes de seguir para novas atividades.
Cada experiência possui seu próprio tempo de amadurecimento. O papel do educador consiste em sustentar esses processos, escutando, acompanhando e nomeando aquilo que emerge, sem antecipar resultados nem corrigir prematuramente os caminhos percorridos pelos estudantes.
A linguagem e a relação com as materialidades encontram-se em constante reinvenção. E é justamente nesse movimento que reside a potência da proposta.
sugestões complementares
Para aprofundar o trabalho com a obra de Ruth Rocha, os livros A primavera da lagarta (1976) e Bom dia, todas as cores (década de 1980) podem ampliar o percurso aqui apresentado e introduzir novas camadas de investigação. Enquanto o primeiro aborda processos de transformação, o segundo convida à reflexão sobre identidade, mudança e liberdade de escolha. Ambos dialogam com temas já apresentados nesta sequência, ancoram-se em temáticas sobre o mundo animal e contribuem para a construção da identidade como processo dinâmico, plural e em constante renovação.
Para conhecer outras atividades direcionadas às infâncias, sugerem-se os vídeos Carimbo com plantas, frutas e gelatina, Os traços nas coisas e Esculturas de massinha do Programa IC Para Crianças.
A Escola Fundação Itaú oferece diversos cursos voltados para arte e literatura no contexto escolar, como Formação como Curadoria: Literatura para Crianças, Percurso nas Artes para Professores: Literatura na Sala de Aula e Arte na Educação Infantil
referências
BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017.
CARMELA GROSS: Série Carimbos. Curadoria Ricardo Resende. São Paulo: Instituto de Arte Contemporânea, 2023. Exposição realizada no período de 6 fev. a 6 maio 2023. Disponível em: https://www.iacbrasil-online.com/carimbos-carmela-gross. Acesso em: 20 fev. 2026.
ESTÚDIO LOGOS. L de livro. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2017.
MARIA LIMA MARQUES. Obras da artista. São Paulo, AM Galeria. Disponível em: https://amgaleria.com.br/artista/maria-lira-marques/. Acesso em: 20 fev. 2026.
MARIA LIRA MARQUES – Roda dos bichos. Captação e edição de Ricardo Miyada. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kBJyptf2w5Y. Acesso em: 20 fev. 2026.
PALLOTTA, Marcelo. Chico da Silva. São Paulo: Editora Afluenteart, 2025.
ROCHA, Ruth. Palavras, muitas palavras. São Paulo: Salamandra, 2013.
ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo. São Paulo: Salamandra, 2012.
ROCHA, Ruth. A fantástica máquina dos bichos. São Paulo: Salamandra, 2009.
ROCHA, Ruth. A primavera da lagarta. São Paulo: Salamandra, 2011.
ROCHA, Ruth. Bom dia, todas as cores! São Paulo: Salamandra, 2013.
VÉIO (Cícero Alves dos Santos). Obras do artista. Sergipe, 2024. Disponível em: https://artistaveio.art.br/obras. Acesso em: 20 fev. 2026.
VILELA, Fernando. Contêiner. São Paulo: Pequena Zahar, 2016.
VILELA, Fernando. Dino e Saura. Brinque-Book, 2017.
verbetes utilizados
• Carmela Gross
• Carmela Gross: carimbos
• Chico da Silva
• Colagem
• Desenho
• Fernando Vilela
• Instalação
• Manoel de Barros
• Maria Lira Marques
• Ricardo Resende
• Ruth Rocha
• Salamandra
• Véio
• Walmor Corrêa


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