Você RH - Ed. Out/Nov - O ''elefante'' na sala do mercado de trabalho
Geração Z: O “elefante” na sala do mercado de trabalho
O peso do futuro
O primeiro passo para entender qual rumo o planeta está tomando é olhar para Geração Z
Mas o que significa esse tal de burnout?
Conheça um pouco mais os sinais, impactos e como as empresas estão enfrentando a epidemia do esgotamento profissional
O peso do futuro
Imagine se tivesse a oportunidade única de viajar no tempo e visitar o futuro Como você o imaginaria? Carros voadores, robôs por todo o lado e uma medicina tão eficaz que todas as doenças teriam a cura E o trabalho? Consegue
imaginar como seria o futuro do mercado corporativo? Com tanta tecnologia, ainda teríamos que nos dedicar oito horas por dia, de cinco a seis vezes por semana? Seria necessário ter escritório, ou todos poderiam exercer suas funções de qualquer lugar?
Agora pegue essa máquina e volte ao passado Houve mudança? Será que há cem, cinquenta ou até mesmo dez anos atrás seríamos capazes de imaginar o mundo atual?
Aqueles que viveram o pós-guerra e ainda estão aqui, será que algum dia idealizaram a vida moderna como é hoje? Pois bem. As coisas mudaram, algumas para melhor, outras nem tanto. Mas toda evolução parte de uma nova ideia, uma diferente percepção ou de um questionamento que rompe com o status quo. E é nesse momento que as novas gerações entram. O primeiro passo para entender qual rumo o planeta está tomando é olhar para Geração Z. Como uma bússola que aponta para o norte, mas nesse caso, para o futuro. Parte desse grupo nasceu em um berço cheio de promessas e possibilidades, mas logo foram expostos a crises e impedimentos que os submeteram a repensar as bases Por isso, entender as motivações e aspirações deles é encontrar as pistas de uma nova realidade
Pela primeira vez na história da humanidade há cinco gerações vivendo e trabalhando juntas Isso muda a regra do jogo São muitos pontos de vista e, se não houver escuta e diálogo, não existe avanço E que atire a primeira pedra aquele que nunca foi jovem e discordou dos adultos Ter empatia é o segundo passo
O jornalismo profissional de VOCÊ RH tem o apoio de
Nesta edição focamos em analisar e entender esses jovens, afinal, em um piscar de olhos eles estarão por todo o lado. Dentro e fora das empresas. O que nos leva ao terceiro passo que é lembrar que o novo sempre vem, mas sem esquecer que a experiência é tão válida quanto o frescor. Para construir um lugar melhor é preciso unir forças
Mas a pergunta que não quer calar é: para onde vamos? Impossível saber já que a máquina do tempo ainda não existe Quem sabe a Geração Alpha tem as respostas para as perguntas que nem começamos a fazer Mas hoje, o recado que fica é para que as pessoas (físicas e jurídicas) comecem a tirar o elefante da sala
EDITORA CHEFE
SUMÁRIO
ILUSTRAÇÃODACAPA: CANVA
SEÇÕES
4 CARTA AO LEITOR
O primeiro passo para entender qual rumo o planeta está tomando é olhar para Geração Z.
9
IMEDIATISTAS OU MALCOMPREENDIDOS?
No período de 9 a 30 de outubro deste ano, a Você RH realizou uma pesquisa com o objetivo de coletar opiniões e relatos sobre os desafios das gerações no mercado de trabalho
14 GERAÇÃO Z EM BUSCA DO EQUILÍBRIO
Em um mundo em que tudo muda na velocidade da luz (ou de um like) é inevitável falar sobre a saúde mental
A geração Z nem fincou os pés no mercado de trabalho e já se tornou um tópico alarmante dentro dele Nesse cabo de guerra entre gerações, será que as empresas estão dispostas a tirar o ‘’elefante’’ da sala?
Precisei aprender sobre contornar as situações e saber o meu papel como uma pessoa que está iniciando a carreira
Isabele Roque, integrante da Geração Z e estagiária na AkzoNobel
Arquivo pessoal
O
‘’elefante’’ nasalado mercadodetrabalho
“Não querem trabalhar”, “São preguiçosos” “Falta Soft Skills” A geração Z nem fincou os pés no mercado de trabalho e já se tornou um tópico alarmante dentro dele Nesse cabo de guerra entre gerações, será que as empresas estão dispostas a tirar o ‘’elefante’’ da sala?
Era uma tarde de quinta-feira,
quando Priscila Pereira, psicóloga e coordenadora de RH do escritório de advogados CMMM São Paulo, foi surpreendida com uma solicitação de encerramento de contrato de uma estagiária. No correio eletrônico, a recém-admitida explicava de modo claro os motivos pelo qual estava se desligando: havia sido aprovada no processo seletivo de outra empresa que acreditava estar mais alinhada com seus propósitos. Segundo ela, a nova vaga além da relevância para o seu desenvolvimento e habilidades profissionais, a empresa também possuía valores com os quais ela se identificava
“Ela trabalhou normalmente por um mês, aceitou outra proposta e mandou um e-mail avisando que não ia mais [trabalhar] ” , Priscila, coordenadora de RH
Não é a primeira vez em que a coordenadora se depara com esse tipo de comportamento vindo das gerações mais novas. Ela conta que existe um desapego sobre as formalidades corporativas, desde apresentações até comportamentos cotidianos. “Essa geração não é muito empática. Falta, desaparece e não sente que existe toda uma equipe e pessoas que estão ali e que precisam dela” e acrescenta sobre o caso citado acima “era só [a estagiária] ir ao escritório, conversar com a gestora e ir embora”.
Texto AMANDA MIRES E ISABELLA MARTINEZ
Banco de Imagem Canva
CARREIRA
Em relatório realizado pela consultoria Subversiva em 2024, os formatos de trabalho ainda estão muito ligados aos regimes das fábricas Mesmo após séculos desde a Revolução Industrial, ainda se trabalha com horário fixo, supervisão hierárquica e a divisão de trabalho em tarefas especializadas. Esse conflito da nova geração, conforme a pesquisa, começa a ser um problema pois as gerações anteriores acreditam que há uma recompensa por todo esse trabalho, enquanto fica muito claro para os mais novos que não existe pote de ouro no fim do arco-íris.
“As dores da geração Z são as dores do mercado de trabalho e me parece que para acolher esse grupo vamos ter que revisitar nossos padrões de trabalho e nossos referenciais de liderança’’, diz Maíra Blasi, especialista em Futuro do Trabalho e fundadora da consultoria Subversiva
conhecendo o elefante
Mas afinal, o que caracteriza essa geração que carrega a última letra do alfabeto?
Conhecidos como “nativos digitais”, esse grupo, que nasceu entre os anos 1996 até 2012, foi a primeira geração que obteve a identidade formada pela era digital, ansiedade, alterações climáticas, mudanças no cenário financeiro e, mais recente, sofreu com os impactos da pandemia da Covid-19
Apesar do assunto Geração Z no mercado de trabalho ser um dos mais comentados em todas as redes sociais atualmente, especialistas já viam que mudanças no mundo corporativo estavam por vir Entre eles, o professor, palestrante e escritor Dado Schneider já estudava sobre esse grupo na década passada, ainda quando eles eram adolescentes
A consultoria McKinsey & Co definiu as características mais marcantes dessa geração que, de acordo com os últimos dados do Censo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), representa 47 milhões de pessoas aqui no Brasil Os jovens da Geração Z são definidos pela consultoria como tecnológicos, realistas, questionadores, comunicativos, preocupados com questões ambientais e ligados às questões sociais
‘’A Geração Z é mais imediatista Por exemplo, um jovem profissional muito promissor, com apenas um ano de empresa, aceitou uma nova proposta de trabalho alegando que estava trabalhando há muito tempo sem uma promoção Logicamente, os profissionais da minha geração [millennial] o aconselharam a ter um pouco mais de paciência, já que ele demonstrava muita competência no que fazia. Mesmo assim, ele preferiu os novos desafios’’, relata um dos participantes, que atua no mercado financeiro, da pesquisa realizada pela reportagem por meio do Google Forms.
Imediatistas ou mal-compreendidos?
No período de 9 a 30 de outubro deste ano, a Você RH realizou uma pesquisa com o objetivo de coletar opiniões e relatos sobre os desafios das gerações no mercado de trabalho
Entre os entrevistados:
Tivemos perguntas objetivas, discursivas e um espaço aberto para colher depoimentos anonimamente. Essas questões buscaram entender quais são os valores individuais dos trabalhadores, como cada geração se percebe e se posiciona no ambiente corporativo e se acreditam que a diversidade geracional é positiva para as empresas Ao final, disponibilizamos um espaço para que o entrevistado contasse sobre alguma experiência vivida ou deixasse uma observação que pensasse ser importante sobre o tema desta reportagem
Feminino
Masculino Nãobinário
Feminino 634%
Masculino 358%
Nãobinário 08%
Para aqueles que atuam no meio empresarial há mais tempo...
a geração Z é, sem dúvida, caracterizada pelo imediatismo. Esse grupo é reconhecido por uma maior resistência em lidar com etapas e pelo desejo de avançar sem ter experiência suficiente em uma função. Uma millennial, que atua na área de comunicação, relatou pelo Google Forms que um jovem aprendiz de sua equipe demonstrou relutância em realizar tarefas operacionais, como separar caixas e organizar arquivos, levando-o a crer que essas atividades não eram “trabalho”. “Sinto que muitos jovens dessa geração desejam crescer profissionalmente, mas evitam o processo de aprendizagem”, acrescenta.
De acordo com um estudo da deloitte...
empresa global de auditoria e consultoria, para atrair os jovens ao mercado de trabalho, as organizações precisarão adotar uma mudança de mentalidade. Esse grupo representa 48% da população brasileira (segundo o IBGE) e está cada vez mais presente no mercado de trabalho. Os empregadores, portanto, devem se preparar para adotar uma velocidade de evolução que acompanha as transformações do ambiente externo. Como destaca a consultoria, isso envolve o desenvolvimento de programas robustos de formação e liderança, além da criação de iniciativas internas de aprendizagem
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“É apenas uma questão de tempo para essa geração estar dentro do mundo corporativo, então precisamos de um esforço de ambos os lados
“
afirma Mara Tuolla, líder de diversidade e inclusão da Lee Hecht Harrison, consultoria de RH
Comportamento, coerência e ética
Em artigo publicado em 2018 por Tracy Francis e Fernanda Hoefel, participantes do grupo de estudos na América Latina da McKinsey, a geração Z é destacada por quatro comportamentos que compõem suas características: fluidez ao definir sua identidade; altamente inclusivos e procur comunidades que valorizam a diversida enxergam a importância do diálogo e possu um comportamento mais realístico pera decisões Essa conduta é a base para mol as motivações e aspirações da geração vem ressignificando padrões de consum construindo um novo mercado
Por serem mais pragmáticos, antes realizarem uma compra, pesquisam sobr marca e esperam que a empresa es alinhada com os seus valores (ou caus Esses consumidores, segundo o artigo, conseguem separar a instituição da ética. essa razão, acreditam que as empresas dev corresponder às suas ideias. Um exem citado é das marcas anunciarem diversid mas manterem cargos de lideran exclusivamente masculinos, não possuír iniciativas internas para o combate preconceito racial e/ou não oferecer suporte ao grupo LGBTQIAP+
Os comportamentos da geração Z estão cada vez mais ganhando destaque Afinal, esse público de consumidores está se tornando parte da força de trabalho Para Adriana Custódio, fundadora da empresa Folha Cultura Engajamento e Impacto e gestora de projetos da Ago Social, não há dúvidas que os jovens da atualidade estão mais ligados às questões sociais
Adriana Custódio, fundadora da empresa Folha Cultura Engajamento e Impacto e gestora de projetos da Ago Social
Arquivo Pessoal
Disrupção e limites
aem muitas notícias e estudos sobre como os empregadores estão insatisfeitos com a Geração Z, mas finalmente chegamos em uma geração que prioriza o lema “trabalhar para viver, e não viver para trabalhar’’, observa uma das entrevistadas pela pesquisa da Você RH, que é jornalista no setor econômico e que faz parte da geração Z
Para aqueles nascidos na transição entre os últimos anos da geração Y e o início da geração Z (os Zillennials), há um conflito entre tentar se adequar ao modelo de trabalho tradicional e buscar descentralizar o trabalho de suas vidas A entrevistada ainda destaca que questionar e desafiar os padrões impostos pelas empresas é uma postura defendida pela geração Z Além disso, ela acredita que a cultura da ‘’falsa meritocracia’’ está profundamente enraizada. “Isso reduz as expectativas em relação ao futuro do trabalho, uma vez que ainda prevalece a ideia de que o trabalho enriquece e molda o caráter do indivíduo” , acrescenta.
A história de Mônica Souza, 43, gerente de banco, reflete a realidade de uma geração que cresceu acreditando que dedicação extrema ao trabalho seria sinônimo de sucesso 'Minha meta era ser promovida e, para isso, precisei trabalhar até tarde e, muitas vezes, passar a madrugada na empresa', relata. Sua experiência é emblemática, mostrando um pensamento profundamente enraizado entre muitos millennials a crença de que dedicação sem limites leva ao sucesso No entanto, o cenário atual contradiz essa ideia Segundo um estudo da Forbes, 50% dos millennials relatam sentir-se esgotados devido à carga excessiva de trabalho, à falta de reconhecimento e às expectativas não atendidas Esse é apenas um exemplo do que a Você RH aponta como a 'epidemia de burnout' entre a geração Y, causada pela pressão de crescer em um contexto onde uma carreira sólida, estabilidade financeira e a casa própria eram vistas como o caminho ideal.
No mesmo artigo, discute-se que a frustração dos millennials está diretamente ligada ao agravamento das crises financeiras globais, às mudanças tecnológicas e, mais recentemente, à pandemia Aquilo que antes parecia sólido se desfez, intensificando a insatisfação dos profissionais que estão há mais tempo no mercado de trabalho.
Segundo a consultoria
%
Deloitte, dos millennials dependem exclusivamente do salário mensal e expressam preocupação em não conseguir cobrir todas as suas despesas.
Por outro lado...
Ana*, 21, estudante de Rádio e TV e estagiária em uma rádio de São Paulo, contou para a Você RH que valoriza o equilíbrio entre sua vida pessoal e profissional. Ela conta que mesmo trabalhando de segunda a segunda e com folgas alternadas aos finais de semana, sabe da importância de estabelecer limites em seu local de trabalho Um exemplo que ela compartilha é que ao se programar para uma viagem, solicitou antecipadamente à sua líder uma folga que lhe foi concedida Contudo, antes do fim do expediente de Ana, sua líder comunicou que precisaria dela para uma ação no domingo e, embora estivesse ciente da viagem da funcionária, presumiu que ela poderia voltar a São Paulo para trabalhar.
‘’Ela disse que iria precisar dos três estagiários para a ação Pensei e notei que teria que desenvolver toda uma logística em que envolveria outras pessoas. Quando compartilhei isso com a minha chefe, ela disse que entendia, mas logo depois virou a cara. Em experiências anteriores eu já priorizei o trabalho antes da minha vida, mas dessa vez não me desgastei a esse ponto’’, conta a estudante
Repensar limites não é a única mudança que a geração Z tem imposto Além de posts e textos nas redes sociais, se mostram cada vez mais engajados na defesa dos direitos trabalhistas. Um exemplo disso é o apoio ao movimento pelo fim da escala 6x1. ‘'A Geração Z não quer discursos prontos ou distantes Eles buscam políticas que façam sentido no seu cotidiano, que se alinhem com suas experiências e expectativas Estão atrás de mudanças reais, especialmente em questões que afetam diretamente sua saúde mental e condições de trabalho " , afirma Rick Azevedo, vereador eleito pelo PSOL no Rio de Janeiro e fundador do movimento VAT (Vida Além do Trabalho), em entrevista a Isto É.
O QUE VOCÊ MAIS VALORIZA NO AMBIENTE DE TRABALHO?
Geração Z em busca do equilíbrio
Em um mundo em que tudo muda na velocidade da luz (ou de um like) é inevitável falar sobre a saúde mental Esse tópico que já é uma realidade no mundo corporativo tornase ainda mais desafiador para geração Z, que sofre com os impactos dos ambientes de trabalho Isabele Roque, estudante de psicologia e estagiária de Recrutamento e Seleção, observa que ‘’a situação de saúde mental da Geração Z está de mal a pior. Promoções rápidas, inseguranças, medo de perder o emprego podem resultar em um cenário de burnout, ansiedade e depressão’’.
Mas o que significa esse tal de burnout?
O burnout é uma síndrome decorrente do estresse crônico no ambiente de trabalho reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) De acordo com a pesquisa da consultoria de recursos humanos Lee Hecht Harrison, que possui atuação em setenta países, 38% dos profissionais globais entrevistados relataram ter sofrido de burnout em 2021 E no Brasil, essa realidade é ainda mais grave, o país ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos, perdendo apenas o Japão, de acordo com a International Stress Management Association (ISMA).
Para muitos jovens profissionais, a exaustão se agrava pela pressão por resultados imediatos, excesso de conectividade e a cultura de produtividade ininterrupta. "Eles [geração Z] cresceram em um ambiente onde a velocidade da informação é a norma. Quando o sucesso não ocorre na velocidade esperada, isso gera frustração, levando ao burnout’’, explica o médico do trabalho e diretor do Cenbrap (Centro Brasileiro de PósGraduações) Marcos Mendanha
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COM OS REsQUÍCIOS DA PANDEMIA DA COVID-19
Giovanna Rodrigues, 20, estudante de Relações Internacionais, conta que sofreu um burnout em 2022, ano em que estava se formando no ensino médio em uma escola pública localizada no centro de São Paulo ‘’Eu ficava muito pilhada com o vestibular, então quando eu chegava em casa estudava mais e mais e sentia que não estava rendendo e aquilo me irritava. E foi assim que comecei a participar de várias atividades extracurriculares na escola’’, relata. Com relação aos sentimentos ao enfrentar a síndrome, a jovem define que ‘’é um sentimento de insuficiência para tudo, é horrível e eu não quero passar por isso nunca mais’’, finaliza.
A pesquisa realizada pela Vittude, plataforma de terapia on-line, reforça que quando se trata de saúde mental, de fato, a geração Z é a mais afetada Eles são mais ansiosos, estressados e deprimidos em comparação às gerações anteriores. Cerca de 27,17% desses jovens afirmam sofrer de ansiedade, enquanto 36,48% relatam altos níveis de estresse e 27,49% mencionam depressão
A geração Z possui a maior prevalência de doenças mentais comparado a qualquer geração, segundo pesquisas da McKinsey & CO Isso ocorre devido ao cenário que esse grupo vem vivendo ao longo de sua formação Desde as crescentes crises financeiras, a ansiedade climática, guerras e interrupções devido à pandemia da Covid-19. Esses jovens também percebem uma diminuição nas oportunidades econômicas e não esperam que o Estado os garanta uma rede de segurança social e financeira.
58% da Geração Z em uma pesquisa recente da McKinsey relataram não ter uma necessidade social básica atendida a maior porcentagem de todas as gerações
Conscientes desse cenário, as empresas têm investido em programas que deem suporte para os seus colaboradores, como por exemplo, o Programa Viva Bem, que de acordo com a estagiária de atração e seleção Isabele Roque da AkzoNobel, é uma iniciativa que oferece auxílio psicológico, financeiro, social e jurídico e com terapias cem por cento custeadas pela empresa
Mas essas iniciativas ainda enfrentam desafios, e, para Tatiana Pimenta, CEO da Vittude, as empresas precisam entender que o cuidado emocional não pode ser tratado apenas como um benefício adicional. "A sobrecarga das plataformas digitais e a exposição constante a informações e demandas contribuem para o aumento de casos de burnout, ansiedade e depressão", diz em entrevista para o blog da Vittude. Para ela, é fundamental que o cuidado com a saúde mental seja integrado de forma consistente nas políticas corporativas, impactando diretamente o bem-estar, a motivação e a produtividade das equipes
SER OU NÃO SER CLT?
“Eu não queria trabalhar em CLT porque não quero deixar alguém rico. Sempre ficava pensando que se eu trabalhar CLT e for muito boa no que eu faço, vou deixar o meu chefe mais rico, mas não vou ficar rica’’ , pontua Manuella, criadora e diretora da agência Pops.
Manuella Toledo que, com 20 anos, fundou uma agência de marketing e mídias sociais, a Pops. Nascida em berço de
família de empresários, desde cedo sabia que seguiria os passos da familiares e, no ano da pandemia do Covid-19, criou sua agência enquanto estava no ensino médio Com o seu espírito curioso, no mesmo ano, se aprofundou no marketing e nas redes sociais, inscrevendo-se em diversos cursos online Com tanto conhecimento acumulado, sentiu a necessidade de colocar em prática tudo o que havia aprendido
Ano vai, ano vem, e foram-se dois anos de experiência entre uma agência e outra, até Manuella perceber que suas habilidades estavam a nível de mercado e que tinha capacidade de tocar a sua marca sem depender de um outro emprego ‘“Eu me sentia muito presa nas outras agências Havia muitas coisas que não iam de acordo com os meus valores e sempre pensei que o cliente quer o meu trabalho, não a empresa Essa foi a virada para eu entender que entre trabalhar para alguém e fazer o trabalho por conta, a única diferença é que não vou estar na agência’’, explica.
Assim como Manuella, o Victor Souza, 24, também faz parte da geração Z mas é assessor de imprensa CLT em uma agência de terceiro setor na Avenida Faria Lima em modelo híbrido, sendo duas vezes por semana presencial e o restante home office. O assessor até tem vontade de abrir o próprio negócio, mas Victor enxerga que a liberdade de trabalhar por conta própria está distante da sua realidade e, por isso, prefere manter-se celetista (termo que se refere aos profissionais que têm carteira assinada) pois o modelo traz mais segurança financeira
é isso: depender de você e da demanda “ “
Recentemente, a Agência Mural de Jornalismo publicou uma reportagem especial apontando que os estigmas da geração Z devem ser analisados a partir da desigualdade que existe no Brasil. A idealização de que qualquer jovem que ingressa no mercado de trabalho age com desinteresse só exclui o grupo de pessoas que estão tentando buscar uma oportunidade de trabalho.
Victor, morador da cidade de Carapicuíba (SP), concorda que existe a estereotipização da geração Z, frequentemente chamada de preguiçosa, descompromissada e irresponsável, especialmente entre os jovens profissionais de sua área e condição socioeconômica ‘'As pessoas da periferia que estão lá são merecedoras e correm atrás das coisas mesmo Eu já vi um estagiário que trabalha oito horas por dia porque quer se desenvolver cada vez mais’', relata Além disso, ele destaca que quando se trata de pessoas da periferia, esses estereótipos se tornam mais impactantes A exclusão muitas vezes vem da crença de que não possuem uma educação suficiente para lidar com demandas mais complexas, o que descredibiliza o funcionário e dificulta seu desenvolvimento
Eu tenho investimentos e dívidas, contas que se meu trabalho não for certo, não tenho condições de pagá-las. Ser autônomo
9 a cada 10 jovens de periferias veem desigualdades históricas barrarem um futuro melhorreport da consultoria Subversiva
o mercado e o futuro
Entre o café e o trânsito
A pauta mobilidade urbana se vê cada vez mais necessária perante as adversidades no uso do transporte público e a intensificação de trânsito nas grandes cidades do Brasil Em 2022, a World Resources Institute Brasil divulgou dados em que as viagens diárias do brasileiro são trajetos para trabalho e/ou para estudo Em perspectiva anual, é como se as pessoas ficassem até 15 dias presas no congestionamento
E hoje, o paulistano não tem como fugir do transporte público tampouco do trânsito da cidade, o metrô e os ônibus são opções essenciais para pessoas que não possuem carro e precisam se deslocar para o trabalho. Recentemente, a Rede Nossa São Paulo, organização da sociedade civil, em parceria com o Ipec (Instituto de Pesquisa de Opinião Pública e Estudos de Mercado) publicou em setembro de 2024, a pesquisa “Viver em SP 2024: Mobilidade Urbana’’, que ilustra o tempo perdido nas marginais da cidade. Em média, os moradores demoram 2h25min para se deslocarem
Juntando-se a isto:
38% da população paulistana utiliza os ônibus municipais
23% utiliza o carro
12% o metrô
Diante dessa realidade, é possível visualizar como os problemas externos impactam no trabalho e que é necessário repensar métodos que ajudem o colaborador a ter mais horas de qualidade dentro e fora do ambiente corporativo para que o seu desempenho não seja afetado. Essa linha de pensamento é pontuada e defendida pela Bynd, empresa de mobilidade corporativa.
Foto: Amanda Mires
Além da má qualidade em transportes públicos, a falta de flexibilidade das lideranças tornam-se obstáculos para
retenção dos funcionários de uma empresa
“Minha equipe entende que eu moro longe e que atrasos podem acontecer, mas me esforço para que não aconteça de extrapolar dez ou quinze minutos Quando trabalhei em telemarketing, há alguns anos, atrasei 20 minutos para entrar e aí eu fiquei suspenso por dois dias.
“
Victor Souza
novos caminhos
Além de compartilhar suas experiências, o assessor também comenta sobre o caso recente do Spotify Brasil, plataforma de streaming de música, podcasts e vídeos, que decidiu seguir uma linha oposta à de muitas grandes marcas e manteve o trabalho 100% remoto '’A declaração deles foi muito forte ao pontuar que não precisam tratar seus funcionários como crianças E acredito que isso seja um ponto importante, pois aqueles que se beneficiam do home office acabam sendo prejudicados pelas atitudes de pessoas que não aproveitam bem a oportunidade e acabam forçando o retorno ao trabalho presencial', diz.
Após a pandemia da Covid-19, o mercado de trabalho passou por uma readaptação devido ao isolamento social. Muitas ideias que antes ficavam só no papel rapidamente foram colocadas em prática como o home office. Em 2020, a revista norte-americana The Economist questionou em sua edição de abril se a “morte do escritório” havia chegado. Mas ano após ano, as empresas vêm minguando vagas 100% remotas e optando pelo modelo híbrido ou tradicional
Foto: Amanda Mires
Um levantamento da plataforma Infojobs no ano de 2023 aponta que no Brasil, 94,8% das vagas são totalmente presenciais; 2,7% totalmente remotas e 2,58% são híbridas
E esse movimento de regressão ocorre por diversos motivos, mas o que vale destacar aqui é a justificativa de que os líderes alegam que os funcionários são mais produtivos no regime presencial do que no remoto Entretanto, um estudo recente de Harvard apontou que em uma ONG de Bangladesh a performance dos trabalhadores em modelo híbrido de três dias por semana era melhor do que das pessoas de quatro dias por semana
E quando pensamos na geração Z, esse assunto passa a ter uma relevância ainda maior, já que muitos iniciaram no mercado de trabalho no modelo remoto ou passaram maior parte da sua experiência nesse formato Ao imaginar um futuro para esse grupo, é preciso entender suas motivações e as opções que lhe são apresentadas “Seria o mundo dos sonhos se fosse desenvolvido um processo dentro das empresas para que essa nova geração pudesse trabalhar da forma como se sente mais confortável. ” diz Victor.
Estruturas corporativas e novas formas de liderança
Quando se fala sobre as ambições profissionais da Geração Z, um ponto que se destaca é a falta de interesse em assumir cargos de liderança Quem está há mais tempo no mercado percebe a complexidade desse grupo que quer subir de cargos rapidamente, mas predispõe de uma intolerância a dedicarse à empresa como as outras gerações Restando a dúvida: trata-se de uma aversão a responsabilidades ou uma mudança nos parâmetros sobre sucesso?
Historicamente, cargos de liderança foram associados a prestígio, status e salários mais altos, porém carregam grandes responsabilidades e podem exigir sacrifícios.
Ocontraponto é que essa geração quer sim chegar aos cargos de liderança, mas para isso, é preciso que haja uma preparação para esses futuros líderes “Eles entram aqui e já querem falar sobre plano de carreira e cargos de liderança Mas estamos falando de pessoas que muitas vezes não estão preparadas e que precisam desenvolver habilidades como comunicação e gestão de conflitos’’, diz a estagiária Isabele De acordo com o presidente da Korn Ferry Brasil, Rodrigo Araújo, essa situação acontece como reflexo das práticas corporativas, já que as empresas não desenvolvem seus talentos para estarem aptos a uma promoção
Diante dessa discussão, é notável que existe um balanço entre as estruturas corporativas e as expectativas de novas formas de liderança Para a geração Z, ressignificar o papel do líder é permitir a flexibilidade e alinhamento com valores pessoais “A Gen Z valoriza experiências significativas e bem-estar Muitas vezes, assumir cargos de liderança é associado a uma carga de trabalho intensa e compromissos extensos, o que pode parecer incompatível com essa busca por qualidade de vida”, afirma Luciana Carvalho, CEO da Chiefs Group, plataforma de talentos
Por meio do quiet quitting (demissão silenciosa)*, reforça-se o ponto de que é necessário que haja um equilíbrio na rotina entre a vida pessoal e profissional para todas as gerações Janine Goulart, sócia da KPMG e vicepresidente da ABRH-SP (Associação Brasileira de Recursos Humanos), pontua que a geração Z está provocando os líderes a saírem da zona de conforto para repensarem os modelos de trabalho, pressionando-os para que o trabalho e a liderança sejam adaptados à nova realidade. Nota-se que os jovens estão construindo um novo caminho onde a liderança é sinônimo de propósito. Para que as empresas consigam reter e atrair talentos, precisam compreender que não se trata de falta de ambição ou aversão ao trabalho duro, mas de uma busca por um novo tipo de sucesso. E nesse novo cenário, as organizações que conseguirem alinhar suas expectativas às demandas da geração Z estarão melhor posicionadas para formar os líderes do futuro
Demissão Silenciosa
O termo descreve colaboradores que escolhem realizarapenasoessencial emsuasfunções, cumprindo exclusivamente suas responsabilidades básicas Embora estejam fisicamente presentes, mostram um distanciamento emocionalem relação à empresa.
Banco de Imagem Canva
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