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Antologia Trans: 30 poetas trans, travestis e não-binários

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Trans

A N T O L O G I A

30 poetas trans, travestis e nĂŁo-binĂĄrios


Como sonhar e, ao mesmo tempo, intervir? A poesia representou, para nós, a interface entre estas duas possibilidades de ação política. Ela é o discurso que emerge das doloridas vivências T em uma sociedade cisgênera, mas que se ergue em resistência, em potência. Consolida o domínio sobre a palavra e sobre si. O poder não é algo que se atinge ao final de um caminho, nem é algo que está fora de nosso alcance. Ele está aqui, emanando de nossas articulações, nossos espaços e nossas palavras. POETAS Alex Tecruzi Alexxa Araújo Amanda Paschoal Amara Moira Apollo Franco Augusto Silva Bernardo Enoch Mota Bruno Hats Calla Carmim Christian Lorenzzo Karavla Dannyele Cavalcante Dodi Leal Enzo Beneducci Giovani Diaz

Realização

Ika Eloah Kyem Araújo Lua Lucas Luan Bressanini Lucy Lazuli Luq Souto Ferreira MC Dellacroix Naná DeLuca Patricia Borges da Silva Peter Milanez Rená Zoé Samantha Andrade Teodoro Albuquerque Thais Azevedo Wictor Ferreira

ILUSTRAÇÕES Augusto Silva Lune Carvalho PREFÁCIO Amara Moira ORELHA Linn da quebrada

Editora


Trans

A N T O L O G I A

30 poetas trans, travestis e não‑binários

1ª REIMPRESSÃO


AUTORES Poetas Alex Tecruzi Alexxa Araújo Amanda Paschoal Amara Moira Apollo Franco Augusto Silva Bernardo Enoch Mota Bruno Hats Calla Carmim Christian Lorenzzo Karavla Dannyele Cavalcante Dodi Leal Enzo Beneducci Giovani Diaz Ika Eloah Kyem Araújo Lua Lucas Lucy Lazuli Luan Bressanini Luq Souto Ferreira MC Dellacroix Naná DeLuca Patricia Borges da Silva Peter Milanez Rená Zoé Samantha Andrade Teodoro Albuquerque Thais Azevedo Wictor Ferreira Ilustradores Augusto Silva Lune Carvalho Prefácio Amara Moira Orelha Linn da quebrada


ISBN

EDIÇÃO Realização Cursinho Popular Transformação TRANSarau Edição de Texto e Produção Editorial Carmen Garcia Carolina Munis Élida Lima João Pedro Innecco Raísa Martins Coordenação da Edição de Texto Élida Lima

OFICINAS DE POESIA

Ilustrações de Capa e Orelha Augusto Silva

Oficineiras e oficineiros do Cursinho Popular Transformação Carmen Garcia Élida Lima João Pedro Innecco

Ilustrações Augusto Silva (páginas 16, 23, 26, 46, 63, 72, 76, 79, 84, 92 e 99) Lune Carvalho (páginas 29, 55 e 68)

Oficineiras e oficineiros convidados Amara Moira David Jaffe Cartum Terra Grammont

Revisão Naná DeLuca

Coordenação de Oficinas Raísa Martins

Produção Gráfica Daniel Lima

Apoio Ação Educativa CRD - Centro de Referência da Diversidade Prefeitura de São Paulo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais - VAI

Capa e Diagramação Gabi César

Editora Invisíveis Produções Apoio Prefeitura de São Paulo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais - VAI

1ª edição: março, 2017 1ª reimpressão: outubro, 2017


Apresentação Aquilo que nutrimos O corpo desta Antologia Trans começou a ser nutrido junto ao propósito inicial do Cursinho Popular Transformação: ser um espaço de educação popular voltado para pessoas trans, travestis e não-binárias. Sabíamos que a educação formal, como tantas outras instituições hegemônicas, havia falhado com estas pessoas, sendo parte da cadeia que ataca suas subjetividades, reforça a discriminação e alimenta a subsequente exclusão de espaços de trabalho formal, saúde e sociabilidade. Ao mesmo tempo, entendíamos o ingresso na Universidade pela população T como uma maneira de erodir as estruturas de poder. Queremos ser autoras e autores de um espaço em que a aprendizagem derive dos discursos das educandas e dos educandos e dos sentidos que elas e eles atribuem ao mundo. Buscamos, ainda, uma educação que estivesse de fato a serviço de seus direitos, sua cidadania e suas ambições. Por isso, as aulas se voltam para o ENEM, mantendo, paralelamente, uma linha de atuação focada na produção cultural, formação crítica e nas ferramentas de afirmação de identidade. Como sonhar e, ao mesmo tempo, intervir? A poesia representou, para nós, a interface entre estas duas possibilidades de ação


política. Ela é o discurso que emerge das doloridas vivências T em uma sociedade cisgênera, mas que se ergue em resistência, em potência. Consolida o domínio sobre a palavra e sobre si. O poder não é algo que se atinge ao final de um caminho, nem é algo que está fora de nosso alcance. Ele está aqui, emanando de nossas articulações, nossos espaços e nossas palavras. Quando o Cursinho iniciou suas aulas, em agosto de 2015, no bairro da República, em São Paulo, a grade já continha aulas de Poesia. Mais tarde, ao sermos contemplados pelo Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, pudemos realizar também Oficinas de Poesia. Foram 44 textos poéticos produzidos nesses encontros, que geraram Aquilo que veio de nós. Em dezembro de 2015 realizamos a primeira edição do TRANSarau, evento cultural que, com o apoio do VAI, cresceu e se afirma como um dos mais legítimos de visibilidade e resistência da população T e periférica da cidade. Agora, a Antologia Trans segue celebrando a franca realização de nosso propósito. Com o objetivo de ampliar o protagonismo das pessoas T e seu acesso ao mercado literário e editorial, abrimos o espaço Aquilo que a nós veio, composto por 18 textos que recebemos e estão aqui publicados. A abertura alcançou ilustradoras e ilustradores que enviaram imagens para a capa e o interior do livro. As palavras brincam ora de amor, ora de revolução. Nutrir, organizar, publicar, ler e mergulhar em um livro feito por 30 poetas e 2 ilustradores T significa fortalecer as vias duradouras da educação e da cultura pelas quais se realiza uma sociedade justa para todas as vozes.


Sumário Aquilo que veio de nós: textos criados em oficinas AUTORIA COLETIVA Dança perdida................................................................................................................. 17 O futuro é primitivo...................................................................................................... 18 Meu coração..................................................................................................................... 19 O pássaro...........................................................................................................................20 Inferno cotidiano........................................................................................................... 21 Não quero te ver por aí................................................................................................ 22 Monogamia e chifres....................................................................................................24 Voluptuosa dor extraterrestre.................................................................................. 25 Vida sem título................................................................................................................ 27 AMANDA PASCHOAL O amor me fere............................................................................................................... 28 AMARA MOIRA Açaí......................................................................................................................................30 AUGUSTO SILVA Andávamos eu e ela...................................................................................................... 31 CALLA Uma exclamação............................................................................................................. 32


CARMIM Genital................................................................................................................................ 33 As peles suam soltas......................................................................................................34 MC DELLACROIX Retorno............................................................................................................................... 35 CHRISTIAN LORENZZO KARAVLA Esperança.......................................................................................................................... 36 Endocrinochurch........................................................................................................... 37 DANNYELE CAVALCANTE Duas mãos......................................................................................................................... 38 Troveja................................................................................................................................ 39 Azar desata.......................................................................................................................40 Mãe...................................................................................................................................... 41 ENZO BENEDUCCI A sua ausência.................................................................................................................42 Um homem.......................................................................................................................43 O amor................................................................................................................................44 Eu nunca quis namorar...............................................................................................45 IKA ELOAH Surta....................................................................................................................................47 Ins.........................................................................................................................................48 Literatura do corpo........................................................................................................49 Pactos..................................................................................................................................50 Tapa...................................................................................................................................... 51 KYEM ARAÚJO Se somo............................................................................................................................... 52 Dizem.................................................................................................................................. 53


LUCY LAZULI Meu nome.........................................................................................................................54 Solta..................................................................................................................................... 56 PATRICIA BORGES DA SILVA Do cu.................................................................................................................................... 57 O que você chama de amor........................................................................................ 58 Quem é ela........................................................................................................................ 59 Vaso.....................................................................................................................................60 PETER MILANEZ O amor me fere............................................................................................................... 61 SAMANTHA ANDRADE Incertezas!......................................................................................................................... 62 Como....................................................................................................................................64 THAIS AZEVEDO O amor me fere............................................................................................................... 65 WICTOR FERREIRA Ela ria.................................................................................................................................. 66

Aquilo que a nós veio: textos recebidos ALEX TECRUZI Sobre brigas...................................................................................................................... 69 ALEXXA ARAÚJO BRILHA..............................................................................................................................70


APOLLO FRANCO Agulha................................................................................................................................ 73 BERNARDO ENOCH MOTA Eu não.................................................................................................................................74 BRUNO HATS corpo-poesia.....................................................................................................................77 DODI LEAL Nordestinidade trans....................................................................................................80 GIOVANI DIAZ Te esqueço ou te espero?............................................................................................. 82 LUA LUCAS Gabriela.............................................................................................................................. 85 LUAN BRESSANINI Eu existo............................................................................................................................. 87 LUQ SOUTO FERREIRA Olhem para mim............................................................................................................. 89 LUCY LAZULI Descoloniza...................................................................................................................... 93 NANÁ DELUCA Desculpe o transtorno, falo de disforia.................................................................. 96 RENÁ ZOÉ Unhas roxas................................................................................................................... 100 TEODORO ALBUQUERQUE Sem vacilar......................................................................................................................101 Sem dó...............................................................................................................................103 Fugiu..................................................................................................................................105 Xuxu matinal.................................................................................................................107 Construção......................................................................................................................109


Prefácio A Língua Pelos Nossos Corpos Amara Moira Corpo que se trans, pelo, cabelo, língua que apenas nós, secreções, intersecções, classes, cores. O só direito (dever?) de existir à sombra, nós, olhares que não nos deixam, que se queixam, que nos encaixam em narrativas que não nos fazem jus. Cus? Cus tem também, mas melhor o edi, a neca e o picumã dos versos de Ika Eloah, pajubá, língua com sabor de rua e som de mistério, forjada no iorubá das religiões de matriz africana, umbanda, candomblé, únicas a, por décadas e décadas, aceitarem gente feito nós, feita à revelia das regras. E o amor, perigos e delícias do amor, desse que à pessoa trans é permitido viver, “sou desejada, mas só quando ninguém mais vê” (Lucy Lazuli). O tom meio que de “cuidado com ele que diz que te ama” (Alexxa Araújo), não só quem cis, mas quem xis, trans também; já que essa palavra amor, o que ela vem aprendendo a significar – controle e poder, no mais das vezes – afeta também a forma como nós amamos, crias dessa mesmíssima sociedade que não sabe amar. Do que fala essa antologia então, essa heterogênea compilação de textos ora poéticos, ora prosaicos, literários sempre? Fala do nosso direito à voz, do nosso direito de pensar palavras que dirão


quem somos, quem não somos, nossas versões dos fatos. As palavras não-nossas em que temos podido existir, desconfortáveis, inconsistentes, vamos finalmente criando condições para dizer que elas não nos refletem, não nos contemplam. “Sou toda unhas roxas” (Rená Zoé) e “penso com minhas unhas em lhes arrancar os globos” Os olhos que nos veem, pelos quais por tanto tempo nos vimos, não mais nos servem. O mundo, hoje, o sentimos nosso, também nosso, e já não nos contenta somente armário ou beco nem a sujeição aos padrões cis que nos têm sido impostos. Padrões de corpo, inclusive. Daí Bernardo Enoch Mota precisar dizer não odeio meu corpo / não nasci no corpo errado, questionando os discursos que insistem em nos conceber como erro e em estabelecer como legítimo apenas o corpo das pessoas cis – vide Endocrinochurch, de Christian Lorenzzo Karavla. Discursos como esse acabam por nos ensinar, desde muito cedo, que o corpo e sobretudo o genital são o senhor problema, tudo o que impede a sociedade de nos entender como nós mesmas e mesmos nos entendemos. Por isso a importância desses versos, assim como os de Teodoro Albuquerque: eu quero ser o homem / que sou / de vagina / no pau, nas mãos, / no corpo / de Raquel / Virgínia e, em outro poema, ainda ousar dizer que não é, nem quer ser, um homem de verdade: tudo o que vem sendo feito em nome desse tal homem de verdade; tantas atrocidades, abusos, violências. Não, ele não quer se ver nesse lugar, não quer se ver atrelado àquilo que essa expressão diz. Nossas versões dos fatos, feminilidades e masculinidades trans, pautadas pelo possível e desejável dos nossos próprios corpos, para muito além do binário homem / mulher cis. Exemplo disso é a boca pintada de preto, barriga à mostra negras nascidas com pau dos versos de Augusto Silva, também a genital latina buceta ilegal / general genes do jornal prazer imaginada por Carmim ("carmim", vermelho vivo, quase que a palavra "cármen", "poema" em latim) ou mesmo o corpo-poesia de Bruno Hats quando nega o murmúrio / da notícia, / e escancara / na negação / do espanto / seu ser.


Com essas obras pioneiras estamos fazendo história, escrevendo-nos na história e, de alguma forma, também ensinando à literatura seu melhor propósito: não o de perpetuar estruturas de poder nem de reproduzir narrativas que engessam, aprisionam grupos inteiros à margem da sociedade, justificando opressões, mas sim o de questionar essa sociedade mesma e a lógica desumanizante imposta a todo e qualquer alguém que não seja homem cis branco heterossexual cristão das classes dominantes. Aqui tem metalinguagem, experimentos com o coloquial, laboratório de ritmos, rimas, palavras num tubo de ensaio, manipuladas com luva atrás da melhor reação. Mas tem também denúncia, relato em minúcia daquilo que, enquanto nós, pode-se chamar de vida: os pés firmes no chão, mostrando o mundo que existe para os corpos trans, sem nunca abrir mão da experimentação com a linguagem e do compromisso com a palavra em sua inteireza. O mundo não foi pensado para nós, suas burocracias, regras, seu apego às máscaras, gavetas trancafiadas, armários; talvez por isso o medo ante essas figuras, nós, que ousamos nos descobrir para além das máscaras que nos pregaram no rosto. Você é o que você é ou o que te criaram para ser? Quanto mais conseguimos falar, ocupar, resistir, mais vai se fazendo difícil defender que gênero é mera decorrência do genital, mais vai se fazendo risível querer negar nossa existência tão óbvia, tão necessária. As verdades que trazemos aqui, escancaradas em prosa e verso. Ai de quem se permitir conhecê-las... Fica o convite, fica o desafio.


Aquilo que veio de nรณs


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Dança perdida Na dança voluptuosa do passo da bailarina, a dor do compasso de todas as rimas. O segredo está na liberdade do movimento. ATENÇÃO Eu não acredito em liberdade, muito menos em movimento, muito menos em deus, nem mesmo em você, ou nele, ou nela. Às vezes nem em mim mesmo. Às vezes sou fomento. Às vezes, esquecimento. Às vezes volto a ser movimento. V T O U P U L O

E MONSTRA S A

incrédula Eu não acredito em mim. Autoria coletiva


18

O futuro é primitivo É um tempo já antigo. Ontem vi meu filho que não tenho. Morreu de velho, de joelhos. Nas estatísticas que a sociedade mesquinha lhe jogou. Na sarjeta. Ouça, saiba, você não é o que é. E sim o que não é. Você é um, nenhum: cem mil! Sem nenhum. Só mais um. Um a menos quando nasce. Um a mais quando morre.

Autoria coletiva


19

Meu coração Meu coração é um tremendo armário: um armário extraterrestre, um armário que aquece cada peça dentro dele que às vezes mofa às vezes coça TRA TRA TRA TOC TOC TOC Quero sair de dentro de mim mesmo e gritar ao mundo toda opressão sofrida. Na vivência viva do medo de viver, sobrevivo. Minha vida é um armário: sufoco com agravantes todas as minhas amantes.

Autoria coletiva


20

O pássaro O pássaro nasceu livre da tua saliva na casa que me habita e tu tão aflita, serena como um touro, sentada num caralho. Foi um erro delícia? – perguntei ao pássaro – e desmoronei.

Autoria coletiva


21

Inferno cotidiano Estou vivendo um inferno cotidiano. DESEMBARQUE PELA ESQUERDA. No deserto sereno espanto-me com os avessos como avalanches de inverno (um bom lugar pra ler um livro) cair pesado em palavras tortas GOLPE GOLPE GOL

Autoria coletiva


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Não quero te ver por aí Ilha, planeta, chifre do capeta! Na dimensão de não querer saber que tua boca faz movimentos de dança em outras bocas. E essa mesma boca vem a mim com discursos falaciosos mesmo sem saber empiricamente o significado de boca. BOCA Não quero mais pensar em nada disto, já me assemelho a uma louca eu já arranquei até a roupa (já me meti em várias rotas) Meu bem, te arranca! Não quero tua boca, teu bolso tua nuca. Não quero, não quero Não quero nunca. ILHA, PLANETA Chifre do capeta! Autoria coletiva


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Monogamia e chifres Um se coloca no outro. Cobranças infundadas. Inverdades verbalizadas. Até quando vou viver assim: CHIFRONOGÂMICO? Dória Doriânicos. Fotografia de margarina. Vontade de manteiga direto da teta. No leite azedo da vida, coalhada minha dor das vivências contidas. Medo do novo. Sofrimento somático. Adoecimento.

Autoria coletiva


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Voluptuosa dor extraterrestre Voluptuosa dor extraterrestre do movimento do vai e vem sem querer. Saber o segredo da saliva da tua boca, explorar múltiplos sabores e morrer sozinha de fome. Laricada, escancarada, de aura aberta. Quero me afogar num mar de sensações. Saudade de Plutão! Ah, saudade! De ser planeta. De ser sideral, extra. De ser terrestre, besta. Estrada no céu da sua boca.

Autoria coletiva


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Vida sem título O mundo é puro segredo. Tudo é proibido. É preciso, mesmo, estar atento e forte, porque de morte a gente já tá cheio. Na boca, gosto de medo. Difícil mesmo temperar o silêncio. No grito de dor, no prazer temporal do sexo anal. Preenchimento, satisfação. Solitude. O nascimento é o fim de tudo. Ponto final.

Autoria coletiva


28

O amor me fere O amor me fere debaixo do braço. À medida que me entrego, por mais desilusões eu passo. Quando o amor me encontra, preenche todo meu espaço. E, mesmo que me machuque, novas tentativas eu faço.

Amanda Paschoal


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Açaí Que diabos açaí, queria pensar em sexo, o sexo que me faz ser o que sou, tudo o que disseram a vida toda que sou, não açaí. Ai, sexo, genital, máscara. Uma vida ouvindo de todos os lados “homem”. Até que, sabe-se lá como, um dia me vejo no espelho sem pelos, o batom roubado de minha mãe, unhas com a tinta ainda fresca de esmalte e, pela primeira vez, me disseram outra coisa, me mostraram possível. O espelho, meu companheiro desde então. Engraçado isso. Aquela figura que me habituei a observar no espelho, escovando os dentes, passando fio dental, ali, aquele dia, era ainda ela, mas de uma forma tão outra. Ver o meu corpo daquele jeito, o tato, o roçar dos dedos na pele, não era só visão também, era mais. Era como se, tirando os pelos, viesse todo um frescor, uma leveza, liberdade.

Amara Moira


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Andávamos eu e ela Boca pintada de preto, barriga à mostra, vínhamos cansadas, cansadas de balançar a taba. Já era uma hora da madrugada. As pessoas nos olhavam. Negras, nascidas com um pau e abdicando de toda masculinidade opressora, que nos dava mil privilégios. Eu e ela falávamos justamente do medo de andar nesse horário, sozinhas. Estávamos indo para nossa amiga, já que nossa expressão não poderia entrar nas nossas próprias casas. Perturbador. Enfim, caminhávamos entre a escuridão das ruas, perigo das calçadas. Falávamos muito, era tão bom que até esquecemos o perigo de andar. Há quase 10 minutos de chegar em nosso destino, estávamos próximas de ser mais duas estiradas no chão, degoladas, esfaqueadas, torturadas. Não era um acidente que estava para acontecer. Eram seres masculinos que nos olhavam com tanto ódio, chacota, inferioridade: demônias, a abdicar de tantos privilégios. Esses seres querem nos matar. Eu e ela há 10 minutos de chegar, olhamos juntas para atravessar a rua, quando esses seres, dentro de um carro, param: - Vai ser essas duas bixas mesmo. Corremos. E entramos na mata. A sorte é que temos um amigo que mora dentro dessa mata. Poderíamos não ter essa sorte. Isso nos salvou. Mas será que, da próxima vez, não vamos sair no jornal como “os dois mortos”? Tortura aconteceu, mas não física. O medo é: quando vamos ser mortas?

Augusto Silva


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Uma exclamação As fotos me contam histórias sobre o passado. A cegueira me impede de ver o presente. O tempo dilacera, machuca, apodrece. Quem deve dizer o que se merece? Os olhares me assanham, às vezes zombam. No meio do caos encontro a pintura. As cores dançam e a pele treme. O mundo para em um momento de ternura. O que resta dizer de mim? Que se perde, confunde, machuca? Que palavras conseguem cantar o que sai do coração? Desse vazio surge apenas uma exclamação: Meu Deus! Eu sou humana!

Calla


33

Genital genital latina buceta ilegal general genes do jornal prazer pau venal geral descoberta Cabral erĂłtico gĂŞnio em corpo aterrado.

Carmim


34

As peles suam soltas Preparei mais uma febre. Os pelos do cobertor. O hálito nas mãos. Peles muitas. Café frio na térmica. O que contém calor. Fervura? Os ossos jurados. Prometidos. Na esquina.

Carmim


35

Retorno Retorno da capacidade mental que me diz na normatividade imperial: Não me importa o que se faz na vida. Ou a volta do amor que é a chave, a resposta Para alguém com alegria. Da normalidade, passando pela liberdade, a normatividade dos seres remonta o que me diz. Da fobia que se aplica feliz, de forma fácil, mas sim, sim, de qualquer forma o mundo espiritual me diz, me diz que a maldade não se manifesta. A volta, a resposta do entornar, ser para crer. Para odiar, criar, saber e diversificar. Mas o que me diz? Tem o trabalho ou o fardo que a família carrega? Ou a esperança de um amor, de um afeto. Para o que lutar? Tornar-se? O que será? Me diz. MC Dellacroix


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Esperança Esperança é a fé que a humanidade melhore. Acreditar que a perseverança de uma criança seja também a nossa. Não é sorte, é destino. Está traçado como uma lança em nossas histórias. Encontrar saídas é a ânsia da humanidade. Querer a mudança através de alianças em nossa sociedade. A chegada pode ser dura, o processo exige temperança, constância e eloquência. Quando vemos em nós o espelho do outro, sabemos que nossa luta não foi em vão. Esperar do outro nos causa dor, mas a espera de si mesmo é a mais dolorosa de todas, envolve cobrança pessoal, obrigação a desejos.

Christian Lorenzzo Karavla


37

Endocrinochurch Chegou o dia que marquei minha consulta com endocrinologista. Decidi me hormonizar recentemente e ainda não sei até que ponto vou chegar. Sou trans não-binário e quero manter minha expressão de gênero andrógina. 
 Bem, cheguei até o consultório e fiquei viajando, lendo um livro sem olhar ao redor. Quando tirei os olhos do livro e vi a pintura pendurada na parede, meu coração gelou: era uma pintura enorme de Jesus Cristo na parede principal da sala de espera. 
Internamente soube que aquela médica seria um desperdício de tempo. Não deu outra: fui chamado ao consultório pelo meu nome civil. Ao entrar, a mulher ostentava no pescoço um pingente anormalmente grande de Nossa Senhora Aparecida. Ok. Expliquei a ela sobre minha transgeneridade, entreguei o laudo fornecido pela minha psicóloga e ouço: não acredito nesse tipo de tratamento. “Você é uma MOÇA tão bonitA, para que acabar com a sua saúde por estética?”. 
Por dentro, gritei um sonoro: VAI TOMAR NO MEIO DO OLHO DO SEU CU. Por fora, disse à ela que eu estava decidido e sabia das consequências da terapia hormonal, que eu havia ido até lá para conseguir os exames e a receita, não a opinião pessoal dela. 
De má vontade ela imprimiu os exames. Eu nunca mais voltei.

Christian Lorenzzo Karavla


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Duas mãos Tenho apenas duas mãos, mãos essas que seguram a aflição do medo de tentar. São as mesmas que te oferecem minha alma perdida nas vias duplas da vida. Vida essa que te dei e você não quis.

Dannyele Cavalcante


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Troveja Troveja em mim uma tempestade de sensações temperadas no dissabor do medo, cheias de rancor. Me faz um favor? Me tira daqui. E me leva por aí, nos teus braços dormir e sonhar um amor com vários sabores de querer sempre mais. Dormir, dormir pelo menos um instante. E sair por aí, pois, por favor: Me tira daqui!

Dannyele Cavalcante


40

Azar desata O azar desata o alegre, nas alegrias das fantasias que criamos, nos sonhos encantados, que o medo nos mostra, o segredo de viver sem receios nos seios da mais perfeita ilusĂŁo.

Dannyele Cavalcante


41

Mãe Mãe, a vida não tem mais sua cor. Os dias perderam o sabor, as flores não sei, meu amor, mas sempre me lembro da cor dos teus olhos sorrindo pra mim, mostrando o caminho a seguir da felicidade sem fim. Não sei se consigo viver sem teus beijos, que não vou receber nas noites antes de dormir, pois sempre irei me lembrar que antes de ir, sempre falava para mim: Vai e seja feliz.

Dannyele Cavalcante


42

A sua ausĂŞncia A sua ausĂŞncia em certos momentos serenamente me faz pensar que em nossos doces sentimentos atĂŠ a saudade tem seu lugar.

Enzo Beneducci


43

Um homem Um homem com uma dor dificilmente chora, guarda mágoas para si como uma imensidão. Fechado em seu coração, sangrando de amor por ti, pensando de tanto sofrer, sofrendo de tanto pensar. Congelei-me. “Mas todos somos tão fortes”. Hoje apertei o botão do Foda -se!

Enzo Beneducci


44

O amor O amor é uma dor incomparável. Surge de um calor que se transforma em desejo, força, afeto. Sente-se no poder de um malfeitor, podendo se engrandecer de tal maneira que a salvação dessa liberdade transborda muito humor.

Enzo Beneducci


45

Eu nunca quis namorar Eu nunca quis namorar, meu pai é evangélico, enfim. Eu sempre brincava com os meninos, porque me sentia como eles! Certa vez um rapaz veio pedir para namorar comigo, mas eu não queria, não gostava. Também não queria beijar um menino. Estava confuso para mim, pois eu já havia beijado meninas e gostei. Meu pai disse: — Para você namorar, precisa primeiro namorar comigo que sou seu pai! A partir daí, eu acordava com ele esfregando o pênis em mim. Quando eu me mexia, ele disfarçava. Naquele momento, eu queria ter um pênis para saber se ele faria isso ou para ele nem chegar a fazer. A partir desse dia, saí de casa e disse que enfrentaria o que viesse pela frente.

Enzo Beneducci


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47

Surta Do que se move com luz movimenta-se escuridĂŁo entre frestas quadriculadas: o sol. Bem puta e cigarro. O sol. Pelas frestas particulares passeia no tecido epitelial. Bem curta e cigarro. O movimento no escuro. E surta um cigarro.

Ika Eloah


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Ins Ins Pirada Ex Trovertida Vol Uptuosa No mรกximo

Ika Eloah


49

Literatura do corpo Picumã, cílios de garota, prótese, eu quero prótese, neca, Pirelli, edi, e unha de boneca. Corpo de pajubá, travestilidade comunica, travestidade comunista.

Ika Eloah


50

Pactos Fazer pactos com o nada ou aprender a lidar com tudo? Autoconhecimento não funciona para fazer do vazio do nada a suficiência do tudo. Tudo ou nada? Só dois caminhos não bastam. Não cabe hormônio no corpo que não se conhece mais.

Ika Eloah


51

Tapa Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Porra! Levei um tapa bem dado. Sem escutar experiĂŞncias! Sem nenhuma vivĂŞncia! Esporrei.

Ika Eloah


52

Se somo Se somo minha solidão à tua, os dois são vazios. Ambos morremos.

Kyem Araújo


53

Dizem Dizem que finjo ou minto Dizem aos berros e caprichos Ressonância Resisto Racismo Grito Me apaguei Morri 2 meses Retomei Reagi Taxado Subjugado Passivo -Agressivo Expulso Desabrigado Quebrado Aliviado Sobrevivi

Kyem AraĂşjo


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Meu nome Meu nome é um rio. Ela flui muda ela trans forma forma maleável ela adaptável rio de água potável jogue-se espere talvez não seja viável

Lucy Lazuli


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Solta solta num mar e perdida em lรกgrimas salgadas

Lucy Lazuli


57

Do cu Do cu sai cigarro. O afeto maior do mundo dentro da buceta desprovida de coração. Do cu sai amor sai paixão sai fogo tempestade sai ódio sai bosta sai carinho sai ilusão sai opinião.

Patricia Borges da Silva


58

O que você chama de amor O que você chama de amor é isso? Cu que brilha? Cu apertado? Cu arrombado? Ou um cu igual a todos?

Patricia Borges da Silva


59

Quem é ela Olha quem é ela, homem ou mulher, todos vêem, mas não sabem identificar por causa do corpo e a meio a meio mistura que há nela: homem e mulher, o que ela quiser, foda-se quem não acredita.

Patricia Borges da Silva


60

Vaso A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Espatifou-se em milhões de pedaços muito difíceis de juntar. Cada um desses pedaços continha algo de especial. O mais importante dos pedaços era meu coração. Ferido, machucado, triste, com dor. Mas na vida podemos colar e restituir pedaço por pedaço. Fazer um vaso novo e recomeçar tudo outra vez.

Patricia Borges da Silva


61

O amor me fere O amor me fere. Debaixo do braço os mapas plácidos de nossa carta natal. Meu Rahu Scorpio, astrologia sideral, maconha, cerveja, ópio, um emprego na estação central. Anuidades de uma dívida eterna, nasceu amor em meio a guerra, faz meu peito abrigo, me acolho no espiritual. Prossigo andando na rua, o gosto de sua carne crua. O amor me fere, a palavra difere, composição torta e nua, palavra que não cabe no final. Voltemos a buscar sentido: Astrologia Tropical.

Peter Milanez


62

Incertezas! Tudo bom com você? Depende! Meu interno está um caos. As circunstâncias, favoráveis. Me arrasto pelo caminho, não posso parar. Um movimento em falso, o poço está a me esperar.

Samantha Andrade


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Como Se me perguntares como eu ficarei calada ou talvez diga simplesmente nada: o dizer não se dá somente com palavras. Meu silêncio diz muito, mas você percebe nada, você quer que eu diga e não me dá espaço. Você me sufoca e eu ajo. Subindo as escadas até o topo dos edifícios e lá do alto o meu último riso.

Samantha Andrade


65

O amor me fere O amor me fere debaixo do braço. O amor me apazigua e me livra de dores e inchaço. O amor me alimenta. Oh! Alma ambígua! Como livrar-se de todo embaraço?

Thais Azevedo


66

Ela ria Ela ria, eu me cortava. Em cada corte, uma risada. NĂŁo sei o que doĂ­a mais: meus cortes ou minha alma.

Wictor Ferreira


Aquilo que a nós veio


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Sobre brigas O que? O que foi isso? Eles brigaram pela primeira vez. Primeira de muitas. Começaram discordando e acabaram um ignorando a situação e o outro chorando no canto. Podes te espantar, mas foi mais de uma pessoa que participou da briga e só tinha ele no quarto. Sim! O garoto brigou com ele mesmo! Se desfez em dois pedaços e começou uma guerra. Ele só precisava de si para se destruir. Por mais que as pessoas o perguntassem: “Que burro faz isso consigo mesmo?”, ele sabia: se não fosse ele, seriam outros. E, afinal, quem conseguiria arruinar uma pessoa que já está nas ruínas de si mesmo?

Alex Tecruzi


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BRILHA ei preta branca trans cis artista cuidado com ele que fala que te ama que comenta ♥ e te exalta online vais saber que na verdade ele te difama pras pessoas mais certas que ele poderia fazê-lo ei cuidado com aquele que limita a tua arte que diz que isso que diz que aquilo não faz parte que acha que o teu brilho vai constranger que acha que tua aura vai dissolver a integridade de quem possa te ver ei, cuidado cuidado com o transfóbico cara de pau mas que não está cercado de privilégios igual e que não reconhece que em ti uma amiga poderia ter


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cuidado com as energias ruins e as coisas pequenas desse mundo te cerca de pessoas que te querem bem e que se importam em fazer-te ver que as boas ações são melhores que os elogios falsos que os falsos flashes que os sorrisos falsos que os falsos flertes que as conversas falsas que as jogadas pretensiosas só te digo mais uma coisa, artista só mais uma coisa BRILHA.

Alexxa Araújo


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Agulha Tudo é muito estranho aqui, de nenhum modo eu consigo me encontrar, minha alma luta aflita para se libertar. Mas o esforço é todo em vão, me sinto trancado numa grande cela, como um preso injustiçado que está no lugar errado. Sem saber qual a razão, meus pensamentos estão a mil, minha alma é minha identidade e meu corpo é uma fraude. Me perco nessa contradição, a imagem não condiz com a personalidade, não consigo me enxergar. Parece que estou desesperado à procura de uma agulha no palheiro.

Apollo Franco


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Eu não Eu não odeio meu corpo. Eu não nasci no corpo errado. Não me venha falar que ele é inadequado. Se eu mudo é para melhorar o que sinto que possa ser melhorado. Se eu mudo é porque mudança faz parte da vida e eu não quero me sentir parado. Cada forma. Cada traço. São todos pedaços de quem eu sou. Comecei só como um rabisco. Agora estou transcendendo o padrão fabricado. E ninguém tem nada com isso. E não tem nada de errado. Eu sou eterno rascunho da vida. Nunca vou ser terminado. Apaga. Refaz. Tira. Acrescenta. Só não deixa igual, porque aí ninguém aguenta. Eu não odeio meu corpo. Eu não nasci no corpo errado. Sou eterno rascunho da vida, estou aqui para ser melhorado.


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Na eterna busca do buscar por toda eternidade. Rabisco Rascunho Desenho Obra prima Transbordando Transcendendo Transgredindo Apenas sendo mais eu Mais meu a cada dia.

Bernardo Enoch Mota


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corpo-poesia das tuas linhas, corpo em traços, que traçam de si, transformação. corpo, que transfigura por fora o que por dentro revela da alma. poesia, que dos versos alinham de mil potências, teu corpo ato. corpo poesia que dos pelos revelam no belo, teu sôfrego ensejo em ser aquilo que se é.


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ao resistir é corpo que por dentro grita. nega o murmúrio da notícia, e escancara na negação do espanto, seu ser.

Bruno Hats


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Nordestinidade trans Imagens que devoram nossos corpos, pegam rastro Em cada senso dos mandacarus desavergonhados. Encontro resenha para bodes fixarem em seu pasto Devorar as bixas é covardia, nem tente o cuzinhado. Vítima de abuso, sangue de mulher é a água do sertão. Retirantes não escapam de dizer que o feminino existe. Putas e do mundo, as dadas carecem de toda confissão. Os homens que ficam as comparam com malucas, chiste. Missionárias mulheres piauienses que da seca correm E comercializam possibilidades regionais em produtos. Primeiro criam a revolução e logo depois elas morrem. Atropeladas pelo urbano, antes houvesse um viaduto. História local: houve por aqui índia trans nordestina. Embora solidária, vida de açude acampa desavisos. Não sobrou índia, não sobrou trans, tem nordestina. Mulher cisgênera branca ainda pode dar seus risos? Um estupro só pode dar vida a toda uma linhagem. Quando perto dos cajás uma mulher padece, pronto! Ainda criança, é com a infância toda a sacanagem. Qual razão de um corpo cajado em um desconforto. Qualquer cachaça que acompanhe uma contação Não pode ter o melaço, este é bom pras rapaduras. As trans são salgadas, as rapafinas da exclamação! Em terra de engenho não há tempo para as agruras.


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para uma mulher trans nascer no Piauí basta ser puta. Porém, nos quadros de gestão de qualquer empresa, Não se vê ainda vagas para pessoas trans em disputa. Não era só a isto que deveria se dedicar a imprensa? para uma mulher trans morrer no Piauí era mais fácil, Basta ter sido índia. Nem adianta abrir tuas colocações Sem que o escopo seja trans-protagonizado, é tácito! Cotas queremos para entrar. Chega de estupefações. Se toda restrição às pessoas trans é à participação, Dizemos não com veemência, queremos conceber. Ser conduzida por cis? Não. Ocuparemos a gestão! Então, aqui no nordeste as trans só tão para crescer. Nossa pauta tão longa não tá aqui para tirar a irmandade. As manas cis tem como se aliar, mesmo as paulistanas. No entanto são as trans que vão dar o tom da coletividade, Mesmo que isso mexa com os privilégios das puritanas. Povo sertanejo não sabe dar nome às trans mulé. Elas são um saber para se conhecer na meninidade. Ter direito, ainda longe. Mas nosso grito vem do pé. Retirantes do gênero, tombadas de profundidades.

Dodi Leal


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Te esqueço ou te espero? 11 de maio de 2016, 136 dias 3.261 horas e 195.650 minutos longe de você. Tu me escolhestes porque eu era azul. Me apaixonei porque tu eras vermelho. Nos mesclamos em tons de roxo intenso. Eu era fogo. Tu eras gelo. A cada beijo, uma colisão. E então, desabrochamos. As pétalas caídas eu carreguei. Segurei-as perto do peito e encharquei.


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Tu, que voarás para longe, levou-se distante de mim. Levou embora, não só a ti, mas um pedaço de mim. Quanto a mim, destroçado, colei as pétalas e as coloquei em um quadro, pintei-o de roxo intenso, pendurei em meu quarto. Vesti-me de preto ajoelhada para uma oração: “Que sejas feliz, seu pedaço de mim”.

Giovani Diaz


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Gabriela caminhando no paraíso do outro esbarro com ela duas lentes escuras e uma década nos separam, mesmo assim nosso olhar cruzou como duas antigas amigas irmãs um sorriso neutro e uma conversa rápida:

– você faz pista? tinha outras aqui ontem! parecia querer mais agenciar, dar dicas ou fofocar algo mesmo. – olha só, várias gatas na praia do sono! – ela gritava a uns caras. – não faço, tento resistir na arte – disse confiante. – que bom! – que bom que tem trans ocupando por aqui, muito importante. nós duas rimos de felicidade. – às vezes resistir na arte é até mais difícil – completei. ela abaixou a cabeça, mexendo numa chave e depois de alguns instantes me olhou muito dentro, como quem conta uma história de horas com uma simples fitada.


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beijou-me, e foi embora. como a Gabriela de Jorge Amado, descalça, leve, descabelada. e fez o paraíso um pouquinho meu.

Lua Lucas


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Eu existo Eu existo. Ossos, tronco. Tecidos, pele. Artérias, batimentos. Alma, vida. Sentimentos que jorram, lavando esse corpo. Água vermelha, ponto, cicatriz. Enfim se liberta. Calmaria, conforto. Um corpo que se encontra em si enfim. Pelos de gramas vindos do vento numa tarde de outono, renovando as folhas. Artérias que se regulam depois da ressaca. Quanto tempo você esperou? Enfim a alma respira, a vida se renova e se fortalece. Um passo no olho do furacão, em que a esperança é um índice de 35 anos. Eu sou resistência. Transcender a alma, elevar a força, dar resistência ao corpo, um espírito que não se deixa levar no mar morto chamado sociedade.


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Eu luto! Eu sobrevivo! Eu resisto! Eu existo! Sou parte de um mundo nĂŁo mais escondido.

Luan Bressanini


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Olhem para mim Olhem para mim e vejam que no meu masculino meu feminino é lindo Ornamental, para a sociedade tão sacal, a minha alma tão natural. Experimento, já que no fluido que sou tudo está em movimento. És lindo. Mas eu tenho que ser findo? Para quem me resumi a um menino? Para rodar a saia tenho que ter uma vagina? Deixar que me determinem a um ponto na esquina? Para ser viril tenho que negar a flor do meu gentil? Em ideologias brigar? E rezar pra um dia estar onde eu sempre pude transitar?


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Por que tenho que ser Marina? Ou me conformar em ser Roberto? Mas se tudo no ser é incerto, eu só não posso ser liberto? Sou, fui. Serei, seremos. Será que o mundo todo está em dois extremos? Em duas caixas? Só por fugir disso tenho uma moral baixa? Mas, e se minha alma não se encaixa? Querido, querida, queride. E se eu lhe contar que ainda há quem duvide? Da identidade de pessoas que só querem ser felizes, reconhecides e ouvides. Bom, mas e se eu for quem dizem quem eu sou Tudo bem, me deixe que eu vou aos poucos descobrir. Só me deixe fluir para nessa ideologização de homem e mulher eu não sucumbir.


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Não precisamos ser eternamente o que nos determinaram quando nascemos. Nós somos transformação, tudo isso é construção. É que para o capital para onde eu vou é contra-mão! Tudo isso é nascer. Tudo isso é viver. Tudo isso é ser. Na boa, quem tá recitando isso aqui não é Lucas, é Luq, muito prazer! “Eu quero nascer Quero viver Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar”.

Luq Souto Ferreira


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Descoloniza Quem disse que ser trans me torna passiva? Que roteiro diz que a feminilidade me torna submissa? Hierarquia sexo social, que capitaliza até meu jeito de foder. Indústria do pornô que diz que meu sexo é pra vender. A única forma permitida de desviar é se for pra gerar lucro, e me comercializar? Essa indústria também é responsável por endeusarem macho e iconizar. Aaaaaah, se manca. Seu sistema é frágil e não vai me dominar. Nem pense em impor desejo para o seu comércio. As bixa não vai deixar passar. A sua ideia de ser homem não é suficiente para todos os corpos com os quais eu vou transar. E como vou transar? Pega seu sexo baunilha, de papai e mamãe e afasta pra lá. A minha foda não é para reprodução. É para emancipação. Adeus colonização. Conhecer os corpos, experimentar, compartilhar. E viado, nem venha demonizar nossa vagina. Ele pode ser homem de xoxota e consegue, sim, me realizar.


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Afasta de mim esse falo. Não me diga o que é ser macho. Invisibilizar transhomem, só revela o quanto seu desejo é manipulado. Para o corpo como objeto do simulacro, desejo de consumo do patriarcado. Na base do teu sexo social, o corpo do viado feminino, se torna invisível e solitário. O macho branco forte rico e musculoso tá no topo. E quando ela é bixa, trans, preta, gorda e pobre: “joga pra margem, pro esgoto”. Estamos na base dessa cadeia, mas não é por isso que eu abaixo a cabeça. E nem me peça pra foder. Sou desejada, mas só quando ninguém vê. Hahaha sei que não somos opção, só nos escolhe quando somos resto. Pensa que vou foder só pra te satisfazer? O meu prazer não importa quando a sua pica goza no escuro do banheiro já quer me esconder, só pra defender que bixa é depósito de porra, que não é de merecer andar ao teu lado, nem de reconhecer.


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Somos transbixa e temos poder. E você, gay, não é obrigado a “enviadescer”. Até porque, ninguém quer perder O PRIVILÉGIO de parecer e nem quer ser atacado por outros machos que não aceitam um corpo de pau feminino. Agora me diga, macho: – Quando você foi proibido de ser homem? – Quando te condenaram por ser homem cis? – Quantas vezes te forçaram a ser homem? – Quantas vezes ouviu que não pode? É. Bem diferente de ser transviado.

Lucy Lazuli


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Desculpe o transtorno, falo de disforia Minha mãe me perseguiu pelo apartamento. Em punho, a máquina de depilar. Parece uma floresta, parece uma floresta, ela dizia sobre as minhas pernas. Não é depilar, explicava, é só raspar. Não quero, eu respondi. Fugi. No carro, ela viu muito rápido uma tirinha de meu tornozelo pela calça curta demais. Quis me depilar. Tinha argumentos para isso. Pelo apartamento me perseguia com a máquina. Aquela que faz um barulho estridente contínuo insuportável enquanto risca a pele arrancando pelos pela raiz. Eu me encolho, como sempre me encolhi, diante da máquina de raspar. Então teve o dia que uma amiga mostrou a foto de um moço andrógino. Lindo. Colocou a foto em tamanho gigante na televisão gigante para dividir comigo o tamanho daquele seu tesão. E o moço era tão lindo. Muito mesmo, entendi porque a amiga e as redes sociais gostam dele. E eu quis arrancar minhas bochechas com a faca de cortar pão. Elas não têm barba. E são como maçãs, me dizem. Eu emagreço, as frutas não. Estão sempre lá. Contravivendo-me. Você não é o moço andrógino lindo. Mãos no colo. Um belisco aqui e ali para na pele criar um eufemismo. Encare o famoso andrógino lindo na televisão gigante. Sorria. Concorde. Lindo, ele é lindo. Não pense. Nada. Em uma madrugada qualquer, perguntei para uma pessoa enrolada em meu corpo se ela gostava de usar vibradores dildos


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cinta-caralha. Não. Para isso, assegurou, não precisava de mim, transaria com um homem de verdade. Então, sentou na minha cara. Não pense. Nada. Antes de dormir um dia, eu pensei, se fizesse uma cirurgia, quando despertasse da anestesia, se ouvisse Natalia?, o nome nada diria e minha resposta seria algo como natalia eu não conheço não. Lembrei logo que se morresse na operação, morreria natalia e minha mãe provavelmente depilaria meu corpo. Não dormi. Morrer natalia se tornou pavor real em balé insone. O dia que meu pai foi me buscar na festinha. E eu estava de calças largas e meu tênis azul berrante de skatista santista cosmonauta. Usava a camiseta que roubei dele (que prazer me dá até hoje, roubar as roupas dos homens cis, como um RobinTransHood). Uma prancha estampada. Disse adeus às saias e vestidos e saltos e maquiagens e blusas de alça que sempre pareciam tão maravilhosas nos corpos das amigas, das meninas, mas em mim adquiriam o tom triste do descompasso. A vida inteira, todo mundo tão mais bonito, tão mais bem arrumado do que eu, tão mais estiloso do que eu. Fui na festinha com meu jeans largo. A camiseta de meu pai. O tênis azul berrante, que tênis. O que é? Agora você tem saco?! ele bradou enfático. Apertou com as mãos enormes as sobras da calça no meio das pernas. Sem saco, só fundo. Não pense. Não pense em nada. Passa nos olhos o delineador. Passa batom para tirar a foto! Passa o batom vermelho! Até os meninos vão passar o batom vermelho. Eu não quero. Eu não quero o batom vermelho. Desculpe. Eu não quero. Eu sei, é uma brincadeira. É para homenagear a youtuber muito legal. Eu não quero o batom vermelho. A questão não é se os cismeninos vão passar batom também. Vai lá. Eu tiro a foto. Eu tiro a foto. Eu tiro a foto: me deixa em paz. Sua chupada foi uma delícia, mas não quero com a cinta-caralha. Tudo bem, sem problemas. Sorriso. É porque plástico pra mim é sempre falso. Falso. Falso. Falso. Meu prazer, falso. Meu sexo, falso. Meus pelos, falsos. Meu corpo: falso.


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Aqui é seguro. Aqui é refúgio. É uma festa, tem até trans no nome. Aqui não é armário. Como pode pessoa tão linda estar me olhando? Como pode, dançando comigo? Como pode estar esfregando o corpo no meu corpo, querendo meu corpo? Aproveita. Se joga, lacra, etc. Sabe eu não gosto de menino trans. Não, por favor, não. Minha ex namorada veio com essas de que era menino trans, terminei com ela. Não, por favor, não. Não pense. Não pense em nada.

Naná DeLuca


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Unhas roxas sou todo unhas roxas; nisso me converto: meu corpo deixa de ter braços, de ter olhos ou cabelos; sou unhas; me dou conta súbito de que estas unhas destoam de tudo o mais — do ferro amarelo do ônibus que agarro; dos bigodes dos homens e seus relógios; todos estes homens cujos olhares atravessam minha superfície opaca: odeio-os; não sou meramente indiferente a eles, sim, os odeio; cintilante ódio, purpúreo furta-cor; penso com minhas unhas em lhes arrancar os globos; o ônibus para, eu desço; na noite sozinha escondo minhas mãos; volto a ter corpo, e assim volto a ser corpo em risco.

Rená Zoé


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Sem vacilar “Sem vacilar, vou fazendo o meu na luta, escutando um som e, se pá me ligando onde pisar”. Colei na Dom José pra bater aquele pf monstro de 8,50, bem medido no apetite de trabalhador cansado. É a boa pedida pra segurar o jejum de sei lá quantos corres até voltar pra casa. Aquele omeletão sem presunto pro vegetariano de xepa, tia, faz favor. Mó sede, aquela coquinha descia delícia agora, hein? Resolvi ostentar, pedi com gelo e limão a droguinha. A tia mandou com presunto o omelete, fiquei com vergonha de pedir pra trocar, subi uma rezinha pra não me embaçar e mandei com porco e tudo pra dentro. Acendi o digestivo, subi a 24 pra pegar a Ipiranga ainda ouvindo Yzalú: “foi eu que cresci e ouvi que preto não tem vez, que preto não tem vez”. Já manjei dois coxinha na esquina, na frente da lojinha de capa de celular. Olhei pro lado, pau! Tava bem ali a Tássia Reis. Caralho, mano, a Tássia Reis. Máximo respeito, máximo! Eu a vi sorrindo pra duas minas que tavam pedindo foto, falando empolgadas. Aquele sorrisão, eta mulherão da porra. Que dá hora ela ser abordada na rua, respeitada, procurada. Tinha até parado a caminhada pra filmar essa cena e lembrei dos verme na frente da lojinha. Tavam olhando pra Tássia também, aquela típica cara de merda que verme tem, exalando fedor assassino de jovem preto. Que ódio hein, coxinha? Que fita. Ceis pisa e nóis aqui na correria, vai veno. Pensei na Yzalú cantando ontem mesmo ali na Secretaria de Estado da Educação, exibindo as trança, a prótese, a gana. Lembrei dos intérprete de libras mandando a música ali ao mesmo tempo. Um era preto, o outro trans. Que fita, maluco, que fita! Anos, gerações, sistemas e esquemas inteiros para fuzilar a gente.


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E ó nóis aqui! Ó Day Rodrigues lançando filme, fila varando a Dom José inteira e os caraio. Porra, não cabe em mim. Apertei o passo todo empolgado e a preta do meu fone continua cantando “Minha bossa é treta neguin”. E o que é ver Mel Duarte recitando em Sarau do Ilú Obá, o que é ter oficina de rap com PretaRara, o que é esse cara que vos fala, em pé bem aqui soltando o verbo das fitas que a mente exala sem vergonha e sem motivo pra se sentir menor do que qualquer ouvinte. É fi, eles vão ter que nos engolir. O que eles não sacaram é que nóis sempre esteve na rua e na rua é outro b.o. O corre se faz na raça e, vai veno, o dom da minha raça é justamente resistir. Então salve Rosa Luz, salve Xênia França, salve Tássia Reis, Day Rodrigues, Ellen Oléria, Luana Hansen, Sueli, Djamila, Stephanie, Victoria Cruz, e Dina Di. Mais ainda, salve todas as mulheres negras que narrativa alguma registra. Salve a tia do dogão, a tia do meu omelete com porco, a tia que serve o café, a tia que limpa o chão, as tias que salvam todos os dias essa minha lida de moleque preto do destino torto. Salve!

Teodoro Albuquerque


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Sem dó Sem dó, mano. Sem dó. Chega. Sem passar pano pra sistema, pra Estado, pra bad e contato que não presta. Eu quero quem soma, quem soma fica e quem fica memo é quem sabe quem eu sou. Foda-se, sabe? Demorei 22 anos da minha vida para perceber o quanto eu fui castrado e mutilado. O quanto a colonização deu certo, até agora. Acordei para perceber e olhar em volta que eu estava escondido, enrolado em mim. É mó treta. O sistema não é feito pra gente ter certeza do que é, pra transbordar os nossos limites, os nossos gostos, afetos, quereres. Então a gente não chega nesse rolê batendo no peito, entende?


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Demora. Demora pra entender que quem tá errado é o resto. Demora pra acreditar no que todo o seu ser tá indicando. Por isso, de novo, chega. Tô batendo a poeira da roupa, já joguei vários tecos podres de carne violentada pro lado. É como se eu tivesse acordado zonzo, pedi aquele arrego, aqueles 5 min. Dormi pesado de novo, acordei no susto. Tive aquela sensação de que cê acabou de despencar da cama, manja? Caí pro lado, naquela pá de roupa suja, tênis, ponta, caneta e depressão que a gente deixa no pé da cama. Lavei o rosto, saí nessa porra de sol quente das três da tarde, um calor fodido e o mundão correndo. Chega de sombra. Acordei.

Teodoro Albuquerque


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Fugiu Foi embora correndo rápido pra caralho, a danada. Pô, eu cheguei a ver, mas abri a mão e vazou ligeiro a palavra. Tem dia que é foda pôr para fora catarro verde assim de mágoa. É um bagulho que te corrói, não larga. Cê quer xingar, empalidece, fecha o punho pra socar, mas sua frio. Ah, não vou aceitar. Vou rabiscar até sair qualquer meia dúzia de poema. Tô cansado de fechar gaveta, insatisfeito com livro inacabado, página vazia. É um negócio que acumula, inflama a garganta, dá mó azia. E quando cê pára aqueles 30 segundos de cara fixa no nada e as ideia parece que só embaraça?!


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Ah, parei. Riminha pobre nĂŁo rola. Ficou entĂŁo aqui mais do que registrada a minha tentativa pouco animada de me perdoar.

Teodoro Albuquerque


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Xuxu matinal Eu quero sentir o xuxu de Raquel Virgínia. O hálito matinal. Quero, mesmo. Quero sua voz grave de quem mal acordou. Quero a graça de ver aquela mijadinha em pé. De quem sai rápida, faminta, atrás de café. Quero tê-la de mãos dadas cruzando a 24 de maio Quero dizer-lhe que não tenho um puto. Que eu não pago nem almoço. Nem Chivas no Bourbon Street. Que sequer entrei naquele espaço com o meu próprio dinheiro. Que não vim até aqui na verdade com o meu próprio dinheiro. Que as roupas, os móveis os talheres do meu quarto-cozinha não vieram por mim. Que o máximo que eu tenho trampado são umas faxinas, uns freelas, umas coisas assim.


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E ela, indignada, vai me perguntar: por que isso importa? Vai me questionar se toda travesti ocupa automaticamente o lugar de puta. Na verdade, era só para ela saber de que lado eu estou. Era para endossar o parágrafo seguinte mostrando o que eu sou: Eu quero minha pele preta coladinha na pele preta de Raquel Virgínia. Quero ter livres as minhas tetas inchadas de ciclo menstrual na cama de Raquel Virgínia. Quero livre e despreocupada a minha voz fina. Quero livres os meus trejeitos afeminados. O meu quadril largo. Eu quero ser o homem que sou de vagina no pau, nas mãos, no corpo de Raquel Virgínia.

Teodoro Albuquerque


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Construção Não, eu não sou um homem de verdade. Definitivamente não sou, nunca serei. Vou te falar o que eu sei sobre homem de verdade. É forma viva da sapiência e erudição que urina fora do vaso, senta de perna muito aberta no busão, te agride se sente que está perdendo o altar em que se fez macho, escarra forte no chão. Tá sempre calculando o nível de esculacho que vai direcionar sem dó para todo e qualquer ser vivo desviante da condição de submissão cis - heteronormativa. E eu juro que não tô gastando palavra bonita, que comigo o verbo é torto mesmo, como eu sempre fui. Não, homem de verdade eu não sou, não. Eu saí de uma outra fornada. Eu nasci e fui criado na feminilidade, me ensinaram que a minha genitália foi criada para se invadir. Fecha a perna, garota. Não usa esse short perto de menino, é curto demais. Não adiantou.


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Eu to vivendo a consequência da minha invasão desde 1999. Hoje eu tenho 23 anos Cês tão fazendo a conta? Porque homem que é homem de verdade, não faz. Nem da idade, nem do consentimento. Palavra que vários deles não conhecem, tipo clitóris, orgasmo, fazer gozar e pode parar, para agora mesmo. Nesse poema não tem espaço pra problematização nem pra feminista radical sorrir de escárnio pensando em socialização. Eu to falando de masculinidade. Vamo combinar que é um problema maior que a vulnerabilidade da buceta. Até porque eu conheço homens de buceta que a cada dia que passa estão se esforçando pra ser homens de verdade jogando no vento a carta da criação, justificando incansavelmente a reprodução daquilo que os fez sofrer tanto quanto eu. Pronto, falei. Saiu direto das minhas tetas indesejadas, da minha ausência de pelo e falo, da minha voz aguda, da baixa estatura, da inconfundível distribuição muscular, dos meus quadris largos, da minha raxa.


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Tá bem aqui o boy que vai humilhar a masculinidade de vocês. E cês pode crer que a minha arma tá pronta e empunhada por mim e pelas minhas irmãs. Quem tá apontando é cada mina cis, trans e travesti, cada transviado, cada bicha, cada uma das pessoas afeminadas que vocês querem destruir.

Teodoro Albuquerque


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