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Livro de olhar

como este é um livro de olhar, convém escrever pouco para não atrapalhar. Mas algumas histórias não estão registradas em filme, e vale a pena contá-las. Esta Antologia pessoal é o resultado de um longo trabalho a muitas mãos – e para mim, como editor fotográfico e como filho, trabalhar em sua produção foi um privilégio. Talvez pela primeira vez pudemos visitar detidamente toda a produção fotográfica do Thomaz – e, dirigidos por ele, chegar a um livro capaz de convidar a uma revisão abrangente e profunda de sua obra.

Na minha infância, como terceiro filho de Thomaz e Melanie, o pai que fui descobrindo era um apaixonado pelo Brasil, sua gente, sua música e muitas outras manifestações culturais: da cachaça à arquitetura modernista, do samba à cozinha rústica nordestina, transitando sem nenhum preconceito entre a mais antenada visão de mundo e as mais profundas tradições populares. Mas a fotografia que fora o foco e a origem de seu trabalho expressivo estava arquivada. A partir da década de 1960, sua fotografia ocupava-se apenas do registro cotidiano da família, dos amigos e do trabalho, ou de suas andanças pelo Brasil. As ampliações premiadas e os troféus conquistados em exposições internacionais andavam esquecidos nos cantos menos frequentados da casa na rua Itaperuna. Muito influenciado por uma visão de mundo à esquerda, o Thomaz agora levava sua curiosidade e seu espírito empreendedor para as fronteiras do registro e da busca de transformação da vida social. O cinema documentário

tornara-se a sua paixão. Foram influências importantes o contato com seu professor Villanova Artigas e seus concunhados James e Jorge Amado.

As imagens aqui reunidas são fruto do olhar e da engenhosidade do jovem nascido em Budapeste, e criado no Pacaembu, em São Paulo, filho de um casal húngaro que emigrou logo após a i Guerra Mundial e abriu sua loja na rua São Bento, no coração da cidade que crescia depressa. Desidério – pai do Thomaz – trouxera na bagagem uma carta de crédito lastreada pela Hafa, a loja de fotografia fundada pelos Farkas e os Hatschek na Hungria. A mãe, Thereza Hatschek de solteira, era da família dos sócios dos Farkas na Hafa e trouxe na mudança o piano de cauda com que tomara aulas de Béla Bartók. Bemeducada, sofisticada e de personalidade melancólica, segundo testemunhos familiares. O pai, por sua vez, nunca perdeu o grande carisma pessoal e o inconfundível sotaque magiar – que acentuava sempre a primeira sílaba de qualquer palavra –; chegara ao Brasil com boa dose de educação, principalmente visual, pois trabalhara como desenhista industrial. A aventura brasileira do casal, iniciada em 1920 com a fundação da Casa Fotoptica, foi interrompida em 1924 com a gravidez de Thereza, que voltou a Budapeste para o nascimento de Thomaz, seu único filho. Seis anos depois, a pequena família voltava a São Paulo, para retomar os negócios à frente da Fotoptica e se instalar na travessa Buri.

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Passados setenta e tantos anos de Brasil, o fotógrafo, cine- pia, originalidade, iluminação, o que de certa forma induasta, comerciante e fértil homem de cultura começou a se zia a pesquisa dos fotógrafos, como a do próprio Thomaz. preocupar com a preservação de seu material fotográfico. “Quando começaram a dar nota pelos quesitos para julgar Das tratativas com Antonio Fernando De Franceschi nas- as fotos, ficou chato, e eu fui embora”, ele comentou. ceu o acordo de guarda e recuperação de seus originais sob a Aparentemente, a primeira grande transformação daresponsabilidade do Instituto Moreira Salles – um trabalho quele jovem foi provocada pela Escola Politécnica, com tocado com absoluta dedicação por Sergio Burgi e Virgínia a diversidade cultural dos colegas e as viagens da turma Albertini, do setor de fotografia, que também se enfronha- para visitar obras de engenharia pelo Brasil. Nessa época, ram nesta edição, ao lado de Samuel Titan Jr. e de meu surgiram os primeiros tímidos retratos de desconhecidos irmão Kiko Farkas, que desenhara outros três livros do pai. e paisagens novas. Dominados os elementos básicos da O rigoroso trabalho técnico do pessoal do Instituto, técnica em seus ensaios anteriores – composição, textura, somado à natureza sistemática do Thomaz, que datava e enquadramento, relação fundo-figura, foco e desfoque, arquivava metodicamente seus negativos, permitiram que altas luzes e baixas luzes, –, começava então a nascer um todos nós, em meados de 2010, pudéssemos mergulhar olhar que descobria as profundezas de um país extremanum universo de imagens que nos transporta às decadas mente variado e rico visualmente. Começava a surgir um de 1940, 1950 e 1960 pelo visor do fotógrafo. Nos debru- repertório de personagens até então ausentes: velhos, neçamos sobre 15 enormes álbuns de contatos, de mais de gros, lavradores, empregados, crianças. 450 rolos de 35 mm, além de dezenas de caixas de ampliações-guia da época (a grande maioria em tom quente e papel fosco) que acompanham outros 100 rolos de negativos 6 × 6. Cópias sempre marcadas à caneta ou lápis Percorrer os anos da transformação de um jovem imigrante dermatográfico, indicando os cortes ousados e o tamanho que fotografava seus gatos, sombras, efeitos gráficos, textupara as ampliações definitivas, executadas no laboratório ras e vistas da janela de casa, num documentarista e desbrada Casa Fotoptica. vador da alma brasileira, tendo por guia as imagens quadro a quadro de suas escolhas fotográficas, registradas nas cópias-contato, foi uma tarefa profundamente prazerosa. Examinar pela primeira vez todos aqueles negativos Por coincidência, ou não, o Foto Cine Clube Bandeirante, ofereceu a mim e ao Kiko uma experiência de reconstruo grêmio que reunia aficionados, diletantes e alguns fotó- ção afetiva e de descobertas estéticas. A magia da consergrafos profissionais em São Paulo, ocupava um andar no vação das tiras numeradas do 35 mm é inigualável em nos mesmo prédio da rua São Bento em que a Fotoptica estava apresentar tentativas e buscas, erros e acertos percebidos instalada. E o menino Tomy (como o chamava Desidério) ou não pelo fotógrafo, em preservar, portanto, seu perlogo encontrou o caminho do clube, onde foi recebido curso criativo e seu diálogo com o ofício expressivo. como uma espécie de mascote e depois como prodígio, Como editor de fotografia, passei bons anos debruçaquando vieram os salões e as premiações internacionais. do sobre mesas de luz, editando o trabalho de uma taBastante rígidos em suas normas, os concursos normal- lentosa geração de fotojornalistas brasileiros. Ali aprendi mente premiavam por temas e julgavam as fotos por seus as regras básicas do ofício, que obriga a navegar entre a diversos aspectos técnicos: composição, qualidade da có- subjetividade do autor, as limitações objetivas da tecnolo-

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gia e o universo perceptivo do público. Mas nunca tivera o privilégio de ver, no intervalo de algumas semanas, o longo desenvolvimento de um fotógrafo. Contato a contato, pasta a pasta, ano a ano, um olhar inicialmente técnico foi ganhando contornos de uma visão pessoal influenciada por um mundo real e significativo, e não apenas simbólico ou gráfico. O jovem húngaro começava a encontrar o eixo de seus interesses, deixava-se envolver pelo turbilhão da brasilidade. Nascia um fotógrafo, na acepção nobre desse ofício.

Alguns anos depois da Escola Politécnica, o Rio de Janeiro veio marcar com força o desenvolvimento desse olhar. Levado pela amizade de José Medeiros, entre outros, Thomaz ia seguidamente ao Rio. Provavelmente envolvido e estimulado por um ambiente novo e inspirador, ele fotografava intensamente. A sinuosidade carioca propunha imagens sensuais – as fotografias de Copacabana ou da baía de Guanabara à noite, por exemplo, são momentos extraordinários (e várias dessas imagens são publicadas aqui pela primeira vez). Mas havia também a Lapa, o samba de rua, o jogo de bola, os primeiros bailes gay, as bailarinas dançando na praia, tudo isso injetando mais sangue tropical e quente nas veias europeias do Thomaz.

de grande valor estético, além do aspecto documental, mas que serão objeto de publicação exclusiva oportunamente. E, por outro lado, a lenta perseguição de um olhar próprio e das imagens definitivas que construiram sua identidade como criador e seu lugar na história da fotografia brasileira. Nossa excitação e deslumbramento foi crescente à medida que descobríamos personagens sem registro em nossas retinas/memórias. Mais que tudo, foi emocionante descobrir imagens importantíssimas e inéditas, imagens que acrescentavam tanto ao conjunto da obra que nos perguntávamos: por que ficaram esquecidas, por que não foram ampliadas? Durante o processo de edição deste livro, várias vezes o Thomaz comentou: “Não me lembrava desta...”, e foi lentamente incorporando uma série delas e descartando outras, até chegar a um corpo realmente essencial de sua produção. Talvez se tratassem de imagens cujo grau de experimentalismo deixava-as fora do contexto estético da época, fotografias que não se encaixavam nos “temas” consagrados nos salões e nas publicações. Mas um encontro eventual com Milton Guran nos sugeriu outros motivos possíveis para esse esquecimento de fotogramas geniais; numa fórmula deliciosa, Guran disse: “É que o olho do fotógrafo é mais rápido do que a mente”. Talvez, de fato, o raciocínio visual dos fotógrafos ande mais rápido que o reconhecimento estético da época em que vivem. E esse é um dos grandes apelos da fotografia: a possibilidade de criar imagens “perfeitas” ou “acabadas” quase que automaticamente, sem passar pelos filtros racionais que qualquer outro processo artesanal impõe.

Voltando ainda à emoção de mergulhar num conjunto de imagens muito mais amplo do que as poucas fotografias ampliadas e guardadas que eu e Kiko conhecíamos, duas coisas nos mobilizaram de forma profunda. Em primeiro lugar, o registro da vida privada (anterior ao nosso nascimento) que o Thomaz não nos mostrara até então: seus Vale notar que após o período fotoclubístico, com suas expotios, os pais, a infância, os primos, as primeiras férias e sições, prêmios e publicações, Thomaz foi mostrando cada passeios em Visconde de Mauá, em Valinhos, na várzea vez mais cautela e resistência em considerar sua fotografia do Tietê e nas margens da represa Billings. São imagens como Arte (na acepção pretensiosa do termo). Para ele, a

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fotografia está mais próxima a uma técnica, um ofício a serviço da comunicação. Até hoje reluta em assinar e numerar cópias e não se sente muito confortável em lidar com o valor monetário que suas imagens adquiriram, como quem nos adverte que a aventura humana-estética-documental é muito maior que o valor capturado pelo mercado. Nessa mesma linha, Thomaz nunca teve preconceitos formais. Suas tentativas de corte não obedecem a imagem “completa” do negativo. O Kiko, que tem escritório ao lado do escritório do Thomaz, recorda a cena recorrente de Thomaz entrando em sua sala, geralmente sem sapato, e pedindo uma tesoura para perpetrar os cortes mais radicais nas imagens que estava trabalhando. Ao longo dos anos, os cortes foram ganhando versões relativamente diferentes a cada nova ampliação ou publicação. Para este livro, repassamos cada possibilidade, e Thomaz definia, por fim, a versão “definitiva” (pelo menos por enquanto), fazendo uso de sua ainda incrível acuidade visual e de sua consciência intuitiva do efeito das imagens.

Este livro fala um pouco da magia dessa arte que nos transforma em viajantes e descobridores, transcendendo o momento cronológico, seja na antevisão de um futuro estético ou na redescoberta (ou reinvenção) de um passado desconhecido. Redescobrir e reconhecer um pai (experiência que se pode ter ao abrir uma caixa perdida de fotografias de família), acompanhar o desenvolvimento de um fotógrafo, rever lugares e pessoas que não existiriam mais, não fosse a alquimia das emoções fixadas pelos preciosos sais de prata, dividir esta emoção de olhar, esta paixão e curiosidade pela vida, celebrar a infinita diversidade das almas humanas que se comunicam por uma janela no tempo e no espaço, transformando em universal o episódico, reinstaurando o sonho e a transcedência que a um só tempo está, pela fotografia, presa e liberta da “realidade” – por tudo isto agradecemos ao Thomaz. João Paulo Farkas

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João Farkas