ISSN 1413-652X
CADERNOS DE
LITERATURA B R A S I L E I R A
CADERNOS DE
LITERATURA B R A S I L E I R A
Diretor Editorial Editor Executivo Edição de Arte e Finalização Fotografias
Antonio Fernando De Franceschi Rinaldo Gama ˜ BEI • Comunicação Eduardo Simões
Colaboraram nesta edição: Affonso Romano de Sant’Anna, Heloisa Seixas, Luiz Alberto Gómez de Souza, Marcio Moreira Alves, Rogério Reis, Ruy Castro, Zuenir Ventura (Rio de Janeiro); Adam Sun, Frei Betto, Lygia Fagundes Telles, Maria Eugênia (São Paulo); Raquel Illescas Bueno, Wilson Martins (Curitiba-PR); Antonio Hohlfeldt, Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre-RS).
NÚMERO
12 - DEZEMBRO DE 2001
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA é uma publicação semestral do Instituto Moreira Salles.
Assinaturas: tel. (0 XX 11) 3371-4455; Internet – http://www.ims.com.br
FOLHA DE ROSTO, 4 MEMÓRIA SELETIVA, 8 CONFLUÊNCIAS, 14 ENTREVISTA, 32 GEOGRAFIA PESSOAL, 56 INÉDITOS, 76 ENSAIOS, 88 GUIA, 146
F O L H A D E R O S TO
Romance com palavras NO PRINCÍPIO ERA A FALA (FALHA, FRÁGIL). E A FALA SE FEZ LÍNGUA (CULTA, BELA), LINGUAGEM, ESCRITA E ESTILO DA ARTE DE ESCREVER (SEMPRE, COMO SE FALASSE, SOBRE TODAS AS COISAS) DE CARLOS HEITOR CONY
Ainda que viva cem, mil anos, o escritor jamais esquecerá aquele dia em que, no meio da festa de aniversário de 12 anos do irmão mais velho, foi convidado a se aproximar de uma roda de meninos, que lhe pediram para repetir em voz alta: “Dona Jandira adora um fogão”. (Dona Jandira, esclareça-se, era a vizinha, talvez até adorasse mesmo fogões, quem sabe? – embora dela se dissessem coisas –, mas o garoto de 8 anos transformado em orador só podia odiar palavras como “fogão”. Sem flexibilidade, sua língua fracassava na pronúncia de certas consoantes, trocando-as inevitavelmente – o “g”, por exemplo, virava “d”.) Orgulhoso do convite da turma dos maiores, ele não se deu conta da armadilha. Endireitou o corpo, abriu a boca e soltou a frase. Mal o “d” tomou o lugar do “g”, as gargalhadas soaram alto, frias, cruas. De início, sem entender o que se passara, o ridicularizado não fez nenhum ruído, apenas se afastou. Na manhã seguinte, pegou um caderno e escreveu muitas, inúmeras vezes a palavra “fogão”. Procurou seus carrascos da véspera, mostrou-lhes as páginas, e para seu espanto – seria melhor dizer: alívio – ninguém riu. Todos os seus sentidos ficaram então detidos naquela palavra, uma palavra que, procurava entender, não o tornava ridículo ao ser apresentada daquela forma: escrita. Compreendeu assim que ali estava o seu destino. Se a língua (presa, dura) transformava sua fala (falha, frágil) em motivo de chacota, a Língua (culta, bela) desenhada sobre uma página em branco (signo, símbolo) era capaz de abrigá-lo da crueza do mundo.
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Começava desse modo um romance com as palavras, algo que iria transformar Carlos Heitor Cony, tema deste décimo segundo número dos CADERNOS, em uma das mais extraordinárias referências da ficção urbana do país. Para quem, até os 5 anos de idade, era tido por mudo – e só descobrira a fala depois de soltar um grito de pavor ao ver um ruidoso hidroavião aproximar-se da praia onde estava, em Icaraí – a loquacidade do escritor carioca, de 75 anos, chega a surpreender (melhor seria dizer: conquistar). Tal fluência na fala explica as sete horas de conversa que resultaram na Entrevista da presente edição. Recebidos pelo ficcionista em seu escritório, na região central do Rio, no fim de outubro passado, Antonio Fernando De Franceschi e Rinaldo Gama, respectivamente diretor editorial e editor executivo da revista do IMS, levaram até ele, além das próprias perguntas, as que foram formuladas por Wilson Martins, crítico literário, e pelos escritores Affonso Romano de Sant’Anna, Frei Betto e Lygia Fagundes Telles, num total de mais de 100 questões. Ao respondê-las, Cony trata de sua vasta obra (a loquacidade o transformou num autor prolífico), da família (sobretudo do pai, quase-herói de Quase memória, o elogiado “quase-romance” que o devolveu ao gênero em 1995, após 21 anos de “prazerosa” distância), de filosofia (Santo Agostinho, Platão, Santo Tomás de Aquino) – e, naturalmente, de religião (o seminário, Deus acabou, Deus acabou?), do sentido da vida (a felicidade, que o fez escrever o escatológico Pilatos, lançado em 1974, e anunciar que abandonava a literatura), da vida sem sentido (a infelicidade, que o levou a desenterrar sua metralhadora literária e voltar à ficção). O tiro mais recente dessa arma é A tarde da sua ausência, romance do qual os CADERNOS publicam, na seção Inéditos, os capítulos 1, 2, 4, 11, 12 e 42, cedidos com exclusividade pelo autor. O livro – escrito em apenas três semanas de março passado e com lançamento previsto para abril de 2002 – tem por alvo uma “complicada família do Rio de Janeiro no final do século XX”. Embora “perdoável”, a miséria de seus personagens está longe de isolálos dos açoites do mundo – como de resto não se isolaram dos tormentos (tempestades de areia, de desejo, de paternidade) outras tantas figuras nasci-
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das no interior da obra de Carlos Heitor Cony desde O ventre (1958), seu primeiro romance. Conduzidos como se fossem terríveis confissões públicas, os textos ficcionais do autor de Informação ao crucificado (1961) estão no centro do estudo que abre a seção Ensaios, escrito por Antonio Hohlfeldt, doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Segue-se a ele uma análise comparativa entre O ventre e Dom Casmurro, empreendida pela professora de Literatura Brasileira Raquel Illescas Bueno, da Universidade Federal do Paraná, que no momento desenvolve seu doutorado em Letras na Universidade de São Paulo – exatamente sobre Cony. Como o próprio escritor admite que “social e politicamente” sua obra está ligada ao pensamento católico, os editores desta publicação consideraram pertinente encomendar um panorama didático e abrangente do catolicismo no Brasil. O painel ficou a cargo de Luiz Alberto Gómez de Souza, doutor em Sociologia pela Universidade de Paris e diretor executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) – entidade fundada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) –, que tem sede no Rio de Janeiro, onde a cultura católica se firmou de maneira notável. O Rio, por sua vez, é que se firmou de maneira notável nas páginas dos romances de Carlos Heitor Cony. Retratada na seção Geografia Pessoal por Eduardo Simões, fotógrafo dos CADERNOS, a cidade do ficcionista mistura zona sul e subúrbio, pernas e preces, bares e óperas, praias e quartos, seios e santos, luzes e trevas. Tempos de luzes e trevas também se acendem e se apagam nos depoimentos da seção Confluências, assinados por Ruy Castro, Marcio Moreira Alves, Heloisa Seixas, Zuenir Ventura e Luis Fernando Verissimo. De algum modo, essas quase-matérias – todos os depoentes escrevem em jornais, como o homenageado – completam as seções Memória Seletiva e Guia, de dados biobibliográficos. Eis o mistério da Obra. Ainda que Carlos Heitor Cony não viva mil nem cem anos, o parto estranho de seu romance com as palavras, que a lucidez da dor tornou profundo e fértil, destravou-lhe para sempre a fala (individual), enobreceu a Língua (coletiva) – e, com elas, a própria Literatura Brasileira.
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M E M Ó R I A S E L E T I VA
Fotos: acervo do autor
A travessia da-se com a família para Niterói, onde moraria por dois anos.
Carlos Heitor Cony no seminário (1938)
1919 O jornalista Ernesto Cony Filho, neto de Augusto Cândido Xavier Cony, fundador da Escola Normal do Rio de Janeiro, casa-se com Julieta de Moraes, uma prima distante.
1931 Na Praia de Icaraí, assustase com a aproximação de um hidroavião vermelho pilotado por Francisco de Assis Correia, futuro brigadeiro e ministro da Aeronáutica do governo Juscelino Kubitschek – conhecido naquela época por Melo Maluco. Considerado mudo até então, Cony grita suas primeiras palavras, apavorado com o barulho do aparelho. Para evitar constrangimentos na escola, devido à disfunção que o fazia trocar consoantes, seus pais decidem ensiná-lo a ler e escrever em casa.
Torna-se ajudante de missa na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, no bairro de Vila Isabel. No aniversário de seu irmão mais velho, alguns meninos – cientes de seus problemas de fala – lhe pedem que diga uma frase com a palavra fogão. Ao pronunciá-la com o “d” no lugar do “g”, torna-se alvo de zombaria. No dia seguinte, incomodado com o episódio, escreve várias vezes num caderno a palavra fogão e mostra as folhas para os garotos da véspera. Como nenhum deles ri, entende que, para não se tornar motivo de chacota, deveria dedicar-se à palavra escrita.
1934 Faz a primeira comunhão.
1937 Manifesta o desejo de tornar-se padre. Seu pai o prepara
O pai, jornalista Ernesto Cony F°. (1939)
Julieta de Moraes, mãe do escritor (1951)
1926 No dia 14 de março, nasce em Lins de Vasconcelos, zona nor te do Rio de Janeiro, Carlos Heitor Cony, terceiro dos quatro filhos do casal Ernesto e Julieta. O primogênito, Giovane Alceste, viera ao mundo e morrera em 1920, dois anos antes do nascimento do segundo filho do casal, José Heitor. O quarto, José Carlos, nasceria em 1934. 1930 Carlos Heitor Cony mu-
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Fotos: acervo do autor
novembro, a comissão julgadora – composta por Austregésilo de Athayde, Celso Kelly e Manuel Bandeira – pronuncia-se dizendo que, embora O ventre fosse um livro “muito bom”, não poderia premiá-lo, por se tratar de uma obra forte demais para vencer um concurso oficial.
Carteirinha da Faculdade Nacional de Filosofia (1946), abandonada no 2°. ano
para os exames de admissão ao seminário. 1938 No dia 3 de março, ingressa no Seminário Arquidiocesano de São José, em Rio Comprido (RJ). 1941 Uma cirurgia realizada pelo médico Pedro Ernesto do Rego Batista, ex-prefeito carioca (1935-36), resolve seu problema de fala. 1945 Num domingo de outubro, abandona o seminário. 1946 Ingressa na Faculdade Na-
cional de Filosofia da Universidade do Brasil – hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro –, a qual deixaria no ano seguinte. 1947 Estréia na grande imprensa cobrindo férias do pai no Jornal do Brasil, do Rio. É nomeado funcionário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. 1948 Entra no Curso de Preparação de Oficiais da Reser va (CPOR), na arma de Infantaria, de onde sairia dois anos depois. 1949 Casa-se com Maria Zélia Machado Velho, que lhe daria duas filhas: Regina Celi (nascida em 1951) e Ma ria Ve rô ni ca (1954). Esta seria a primeira das seis uniões conjugais do escritor.
1957 Irritado com o tratamento dado a seu romance no ano anterior, inscreve-se novamente no Prêmio “Manuel Antônio de Almeida”. A verdade de cada dia, escrito em apenas nove dias – prazo exato para o término das inscrições –, acabaria vencendo o concurso. Fizeram parte do júri, desta vez, Carlos Drummond de Andrade e Austregésilo de Athayde. 1958 Inscreve-se de novo no concurso literário da Prefeitura do Rio de Janeiro, agora com o romance Tijolo de segurança. É declarado vencedor; Rachel de Queiroz, Antonio Olinto e Antonio Callado integravam a comissão que o premiou. A Civilização Brasileira, de Ênio Sil-
1952 Começa a trabalhar como redator na Rádio Jornal do Brasil.
De farda, quando servia no CPOR (1948)
1956 Concorre ao Prêmio “Manuel Antônio de Almeida” de Romance, promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, com O ventre, obra influenciada pelo escritor e filósofo francês JeanPaul Sartre (1905-1980). Em 9
Com Regina Celi, primeira filha (1951)
Fotos: acervo do autor
No lançamento de O ato e o fato, no Rio; em 1°. plano, o editor Ênio Silveira (1964)
Com o crítico Otto Maria Carpeaux, amigo da época do Correio da Manhã (1966)
São Paulo, revezando com Cecília Meireles.
veira, publica O ventre. A editora acabaria assinando um contrato com o escritor para a entrega regular de obras de ficção – algo raro no país.
1964 Saem O ato e o fato, coletânea de crônicas que escrevera na imprensa, e o seu sexto romance, Antes, o verão. Escreve um conto sobre a luxúria para ser incluído na coletânea Os sete pecados capitais, editada neste mesmo ano.
1960 Entra para o jornal Correio da Manhã, do Rio, trabalhando como copidesque. Passaria, no ano seguinte, a assinar a coluna “Da arte de falar mal” – revezando com Octavio de Faria –, que renderia um livro de crônicas editado com o mesmo título da seção em 1963. Sai Tijolo de segurança.
Divulgação/Acervo do autor
1959 Lança A verdade de cada dia. Escreve seu quarto romance, Informação ao crucificado.
1965 Demite-se do Correio da Manhã “para evitar uma crise entre a direção do jornal e a redação”. A origem do atrito fora uma crônica em que atacava o Ato Institucional n°. 2. Recebe convite da TV Rio para escrever uma novela sobre a °baixa classe média da ex-capital do país; assim, entre março e abril iria
1961 Publica Informação ao crucificado. 1962 Lança o quinto romance, Matéria de memória. 1963 Passa a escrever uma coluna no jornal Folha da Manhã, de
Norma Bengell e Jardel Filho em Antes, o verão, filme de Gerson Tavares (1968) 10
Fotos: acervo do autor
1966 Participa da coletânea 64 D.C.
Cony ao lado do dramaturgo, cronista e romancista Nelson Rodrigues (1975)
1967 Lança o seu oitavo romance, Pessach: a travessia. Viaja para Havana como membro do júri do concurso promovido pela Casa de las Américas, a mais conhecida instituição cultural de Cuba; lá permaneceria quase um ano. Paulo Gil Soares inicia a adaptação de Matéria de memória para o cinema; o projeto só seria concluído em 1968 por Fernando Coni Campos. Com o título Um homem e sua jaula, o filme teria no elenco Helena Ignez e Hugo Carvana.
ao ar, no horário das 19h, Comédia carioca, dirigida por Antonino Seabra e tendo à frente do elenco John Herbert e Eva Wilma. Após 37 capítulos, problemas com a Censura afastariam o autor da produção, que seria concluída por Oduvaldo Viana. É preso – junto com os cineastas Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Mário Carneiro, o diretor teatral Flavio Rangel, o embaixador Jaime Azevedo Rodrigues e os jornalistas Antonio Callado e
Marcio Moreira Alves – durante uma manifestação em frente ao Hotel Glória, no Rio. O gru po, co nhe ci do co mo os “Oito do Glória”, ficou detido numa cela da Polícia do Exército. Esta seria a primeira das seis prisões de Cony por motivos políticos. Publica Posto Seis, volume de crônicas, e o sétimo romance, Balé branco. Participa com o conto “Amar a Deus sobre todas as coisas” da coletânea Os dez mandamentos, que sairia também neste ano.
Segurando André Heitor, seu filho (1975)
Numa conversa com o cineasta Glauber Rocha, ex-companheiro de prisão (1977) 11
1968 De volta ao Brasil, é preso no aeroporto. Recebe convite de Adolpho Bloch para trabalhar em revistas do seu grupo editorial, como Manchete e Ele & Ela (da qual foi diretor). Publica Sobre todas as coisas, volume de contos. A obra seria reeditada em 1978 com o título Babilônia! Babilônia! Em 13 de dezembro, data da decretação do Ato Institucional nº. 5, é preso pelo regime
Fotos: acervo do autor
meira edição do novo livro esgota-se em um mês. 1975 Sai O caso Lou, livro-reportagem. 1976 Dirige o documentário JK, a voz da História, da Rede Manchete de Televisão. Casa-se com Beatriz Lazta, sua atual mulher.
As filhas, Regina Celi e Verônica, e Beatriz Lazta, atual mulher do escritor (1977)
militar. Esta seria sua mais longa detenção – duraria quase um mês. Gerson Tavares adapta o romance Antes, o verão para o cinema, com Jardel Filho e Norma Bengell nos papéis principais.
1972 Lança, pela Bloch – que passaria a editar seus textos de não-ficção –, Quem matou Vargas?, biografia inspirada na série que escrevera alguns anos antes para a revista Manchete.
1970 Inicia um extenso trabalho de adaptação de clássicos da literatura internacional para a Edições de Ouro, do Rio de Janeiro.
1973 Nasce André Heitor, seu fi lho com Eleo no ra Ra mos. Morre sua mãe.
1971 Escreve o nono romance, Pilatos.
1974 Pilatos é publicado – e o autor afirma que jamais voltaria a escrever outro romance. A pri-
Durante a cobertura da primeira viagem do papa João Paulo
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ao Brasil (1980)
1980 Faz a cobertura, para a revista Manchete, da primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil; 11 anos depois, voltaria a fazer o mesmo trabalho. 1981 Lança Nos passos de João de Deus (livro-reportagem). 1985 Morre seu pai. 1989 Estréia, na Rede Manchete, Kananga do Japão, novela de Wilson Aguiar Filho dirigida por Tizuka Yamasaki e baseada em projeto e sinopse de sua autoria e de Adolpho Bloch. 1993 Em março, volta à imprensa diária ao assumir a coluna
O ficcionista e sua cadela Mila (1982)
leira do Livro (“Melhor Romance” e “Livro do Ano – Ficção”). Publica seu décimo primeiro romance, O piano e a orquestra, vencedor do Prêmio Nacional Nestlé de Literatura. 1997 Lança o décimo segundo romance, A casa do poeta trágico, que lhe renderia novamente dois prêmios Jabuti (“Melhor Romance” e “Livro do Ano – Ficção”).
1995 Morre Mila, cadela da raça setter que o acompanhava havia 13 anos. Lança seu décimo romance, Quase memória, dedicado a Mila – o livro fora escrito durante as noites em que a cadela, já doente, não conseguia dormir e o dono ficava ao seu lado – e inspirado em suas lembranças do pai. O romance sairia pela Companhia das Letras, de São Paulo, que se tornaria sua editora para obra em ficção e passaria a reeditar seus romances no ano seguinte.
1998 Participa da série “O escritor por ele mesmo”, do IMS, apresentando-se em abril e outubro nos centros culturais de São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente. Em Paris, recebe a comenda da Ordre des Arts et des Lettres no grau de Chevalier, concedida pelo governo francês. 1999 Escreve, sob encomenda de sua editora, Romance sem palavras, publicado neste mesmo ano. Apresenta-se em abril no IMS-Poços de Caldas, dentro da série “O escritor por ele mesmo”.
Com Josué Montello, ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras (2000)
2000 Em março, é eleito – com 25 dos 37 votos possíveis – para a cadeira nº. 3 da Academia Brasileira de Letras. Sua posse ocorreria em maio. 2001 Sai o seu décimo quarto romance, O indigitado, também escrito sob encomenda – desta vez para a Editora Objetiva, do Rio, que com ele inauguraria a coleção “Cinco dedos de prosa”. Escreve A tarde da sua ausência, cujo lançamento seria adiado para 2002.
Eduardo Simões/IMS
Acervo do autor
1996 Recebe o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Quase memória ganha dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasi-
Acervo do autor
“Rio”, na página 2 da Folha de S. Paulo, em substituição a Otto Lara Resende, que morrera no ano anterior; em1996 passaria a integrar o Conselho Editorial do jornal e a escrever aos sábados no caderno “Ilustrada”.
Em Paris, junto ao túmulo de Sartre, que o influenciou na juventude (2000)
Carlos Heitor Cony na estação ferroviária de Paulo de Frontin (RJ, 2001), a antiga Rodeio, cenário do romance O piano e a orquestra, lançado em 1996; na infância, ele passava férias lá
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CONFLUÊNCIAS
O piano e a orquestra SOLOS DOS AMIGOS RUY CASTRO, MARCIO MOREIRA ALVES, HELOISA SEIXAS, ZUENIR VENTURA E LUIS FERNANDO VERISSIMO
Maria Elisa Franco/AE
O escritor e jornalista carioca Ruy Castro nasceu em 1948. Estreou em 1967 como repórter no jornal Correio da Manhã, passou por várias redações do Rio e de São Paulo e atualmente colabora em O Estado de S. Paulo. Publicou, entre outros livros, as antologias O melhor do mau humor (1989), O amor de mau humor (1991) e O poder de mau humor (1993); Chega de saudade (1990), uma história da bossa nova; as biografias O anjo pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues (1992) e Estrela solitária – Um brasileiro chamado Garrincha (1995); Ela é carioca – Uma enciclopédia de Ipanema (1999) e a novela Bilac vê estrelas (2000), todos pela editora paulista Companhia das Letras. Seus novos livros são A onda que se ergueu no mar – Novos mergulhos na bossa nova (Companhia das Letras) e O vermelho e o negro – Pequena grande história do Flamengo (São Paulo, DBA).
“
O romancista inglês Edgar Wallace, autor de Os quatro homens justos e de outros 172 livros, tinha a fa-
ma de escrever rápido. Diz a lenda que, certo dia, quando um amigo lhe telefonou, seu secretário atendeu e, sem rir, disse: ‘O sr. Wallace acaba de começar um romance e não pode falar agora. Ligue no fim da tarde, quando ele já o terá terminado’. Está certo, Wallace era rápido – mas precisava ser tão rápido? Carlos Heitor Cony é quase tão rápido – e escreve muito melhor. Em 1995, ele me telefonou: ‘Comecei ontem um romance. Quando terminar, vou te mandar o copião. Quero que você seja o primeiro a ler’. Vinte dias depois, uma pasta com o original chegou às minhas mãos. Na capa estava escrito, a tinta, com caneta vermelha: Quase memória. A simples notícia de que Cony estava escrevendo de novo (um romance, bem entendido, não os muitos trabalhos jornalísticos ou avulsos que nunca deixara de fazer) já era suficiente para me deixar feliz. Vinte e um anos antes, ele publicara Pilatos e mandara todo mundo – editores, críticos, leitores e os amigos, inclusive eu – lamber sabão. Mas agora ia voltar. E por que me escolhera como primeiro leitor? Porque, naqueles 14
21 anos, fui um dos poucos a nunca deixar de cobrar sua volta à literatura (não me conformava em ver o seu lugar ocupado por escritores menores e muito incensados). E havia outro motivo para Cony me solicitar: ele sabia que, entre aqueles poucos, praticamente só eu gostara de Pilatos, o romance que escrevera para deixar claro que se demitia da ‘vida literária’. Uma demissão que, para alguns, mesmo em 1974, já estava anunciada com uma antecedência de anos. Eu sabia dela desde 1970, quando encomendei a Cony alguns contos para uma revista que dirigia e ele me disse que a única ficção em que passara a acreditar era a pornográfica, a escatológica, a ‘suja’. Até então, quando ainda pertencia ao milieu, publicara oito romances ‘sérios’, em que procurara demonstrar a falência do homem, da família, da civilização cristã-ocidental. Pois a dita falência estava mais que demonstrada e não acontecera nada: o homem, a família e a civilização cristã-ocidental continuavam por aí, frívolos e peraltas, na crença de que estavam vivos. Pelo mesmo motivo, Cony não queria mais saber dos filmes de Fellini, Antonioni ou Visconti, todos mais ou menos com essa temática. A partir dali, ele me disse, se quisesse instruirse sobre a condição humana, iria aos teatros da Praça Tiradentes para ver as comédias pornográficas com Costinha, um comediante cuja descomunal grossura só permitia que ele se apresentasse em recintos fechados. Portanto, se eu ainda quisesse os tais contos, eles seriam naquela base. Eu não tinha nada a opor. A revista se chamava Fairplay e sua receita consistia de mulheres nuas e textos inteligentes ou divertidos. Ao ser fundada, em 1966, era a primeira do Brasil no gênero – uma inofensiva revista masculina, ‘erótica’, mas que os anunciantes viam como pornográfica do mesmo jeito e, por isso, não compareciam. Eu a assumira em 1970, quando ela já estava batendo as botas: Fairplay pertencia a uma pequena editora carioca, o dinheiro era pouco e a Censura nos obrigava a vendê-la envelopada. Curiosamente, aquele envelope de plástico deixava a Censura satisfeita – não tínhamos problemas com as fotos e muito menos com os textos. E só por isso um conto de Cony, ‘Solange, ou o homem e sua cabra’, pôde sair, na edição de fevereiro de 1971. Era a história de um sujeito que, cansado de ser traído por suas mulheres ou namoradas, resolve dedicar-se a transar com uma cabra. E, quando ele pensava que seriam felizes para sempre, a cabra também o trai, naturalmente que com um bode. Convencido de que a única salvação para o homem é defender-se como indivíduo, ele mata a cabra e o bode e adota, como programa de vida, a masturbação. Tudo com as palavras exatas, chulíssimas, por mais cabeludas para a época. Cony ainda escreveu outro conto, deliciosamente repulsivo, sobre um delegado de polícia que, não se sabe como, desfaz-se como se fosse macarrão e, como tal, é comido por sua própria família no almoço. Esse não saiu, porque Fairplay acabou antes – mas, poucos anos depois, tive o prazer de ver os dois contos (o da cabra e o do macarrão) incorporados à narrativa de Pilatos. Eu julgava entender a cabeça de Cony porque era seu leitor desde os 14 anos, em 1962, quando ele começara a publicar, três vezes por semana, uma crônica sob o título geral de ‘Da arte de falar mal’, no segundo caderno do Correio da Manhã. Cony saía às quartas, sextas e domingos, revezando com Octavio de Faria, que escrevia às terças, quintas e sábados (o Correio, como todos os matutinos, não circulava às segundas). Os dois escreviam sobre assuntos do momento, quase sempre culturais. Octavio era bom, mas ‘sincero’, compenetrado, meio opaco. Já Cony era brilhante, engraçado, de um deboche permanente, sem fazer o menor esforço para isso, e sua visão cética, irônica, iria marcar muitos garotos predispostos ao ceticismo e à ironia – como eu. 15
Naquele tempo, Cony parecia apolítico. Num país politicamente tumultuado, em que só se falava em greve, agitação e golpe, ele preferia escrever sobre ciclistas búlgaros, a ossada de Dana de Teffé, um estranho órgão do corpo chamado piloro e sobre O grande e verdadeiro livro de São Cipriano (que não devia ser confundido com O grande, verdadeiro e único livro de São Cipriano). E, nas raras vezes em que tratou de política, foi à sua maneira: numa crônica de 1963, ousou quebrar a unanimidade em torno de Vidas secas, o filme de Nelson Pereira dos Santos. Para a esquerda, promover Vidas secas era quase uma tarefa partidária, em prol do Cinema Novo, da conscientização das massas e da revolução brasileira. Pois Cony não quis nem saber: escreveu que largou o filme aos 20 minutos porque, urbano e carioca, a visão de uma vaca lhe dava tédio. Esse não-se-levar-a-sério, em contraste com o feroz escotismo circundante, era chocante e não faltava quem condenasse Cony como ‘alienado’. Eu gostava. Ao descobrir o cronista, descobri também o escritor e comecei a devorar seus romances, mais ou menos (e por mero acaso) na ordem de publicação: O ventre, A verdade de cada dia, Tijolo de segurança, Informação ao crucificado, Matéria de memória, Antes, o verão. Mas, neste último, já estávamos em 1964, e Cony havia surpreendido todo mundo, meses antes, com sua postura diante do recém-instaurado regime militar. Começara logo na crônica do dia 2 de abril, quando contou como, ao saber que a revolução estava nas ruas, foi dar uma volta pela vizinhança para assistir aos eventos. Perto do Forte de Copacabana, viu quando um general empilhou dois paralelepípedos para ‘barrar os tanques do governo’. Impressionado com aquela demonstração de inteligência militar, Cony resolveu conferir: numa distração do general, aproximou-se dos paralelepípedos e, com um peteleco do sapato, derrubou-os. A crônica se chamava ‘Da salvação da pátria’ e já se percebia que aquela revolução não ficaria impune na avaliação de Cony. O que não se esperava era que ele transformasse ‘Da arte de falar mal’ numa tremenda trincheira contra o novo regime. Nela, Cony começou a abrigar denúncias de prisões e torturas, a protestar contra as cassações de políticos (por muitos dos quais nunca tivera a menor simpatia) e a defender jornalistas e intelectuais perseguidos. Numa crônica memorável, intitulada ‘Cipós para todos’, comparou as disputas por cargos entre os militares à luta dos gorilas na selva pelos cipós. Em outra, perguntou ao general Costa e Silva, então temível ministro da Guerra, o que lhe restaria no futuro ‘além da farda, que as traças roem’. Eu, estudante, lia assombrado aquilo tudo, ainda mais porque, durante os primeiros meses, Cony era uma voz isolada nos jornais – o próprio Correio da Manhã, que depois se tornaria adversário (e vítima) do regime, ainda era moderado no noticiário e nos editoriais. Enquanto Cony dava essa demonstração de bravura, muitos dos que, antes, o acusavam de ‘alienado’ estavam se escondendo em armários, incinerando livros ‘suspeitos’ (como A capital, de Eça, e O vermelho e o negro, de Stendhal) e retirando seus nomes de manifestos publicados em tempos mais festivos. A direita passou a ver nele um homem de esquerda. Mas só quem conhecia Cony sabia que sua revolta não tinha nada de política nem de ideológica – era apenas humana. Eu não o conhecia pessoalmente e lamentei sua saída do Correio em 1965, além de seu posterior sumiço – para onde ele fora? Mas, em meados de 1967, já jornalista, fui dos primeiros a comprar e ler seu novo romance, Pessach: a travessia. E, por tudo que sabia de Cony, julguei vê-lo em Paulo Simões, o protagonista do livro. Paulo é um escritor de 40 anos – que, aliás, está completando no dia em que a história começa, 14 de 16
março de 1966. É romancista: sua temática é sartriana, ‘existencial’, seus livros são ‘fortes’ e profundamente pessimistas quanto ao futuro do homem, da família e da indefectível civilização cristã-ocidental. Mora bem (em Copacabana), fuma cachimbo, é desquitado (não havia no Brasil o divórcio) e tem uma filha que estuda em colégio de freiras. É também um homem sensual – nota-se, pela trama, que ele vive de olho nas mulheres. Sua editora fica no centro da cidade e o editor é seu amigo, embora sejam politicamente divergentes: o editor é ligado ao Partido Comunista e Paulo é considerado um ‘alienado’. Seu nome vive aparecendo em manifestos (contra a prisão de estudantes, contra a política econômica da ditadura, contra a guerra do Vietnã), mas ninguém o consideraria um perigoso inimigo do regime. Até que, no meio do livro, Paulo se vê – malgré lui – metido na luta armada contra os militares e descobre nisso a solução para o seu próprio impasse existencial. Cony, claro, também era romancista. Seus romances tinham a mesma temática dos de Paulo Simões e eram considerados ‘alienados’. Eu sabia que ele fumava cachimbo, que morava em Copacabana e que tinha 40 anos (não podia imaginar que fizesse aniversário no mesmo dia do personagem). Era desquitado e tinha duas filhas, não uma – o que não era segredo porque, em algumas raras ocasiões em que o sentimento escorregara, ele escrevera com lirismo sobre elas em ‘Da arte de falar mal’. Pelo que se percebia nas crônicas, Cony era também um homme à femmes – diferente dos outros cronistas e escritores, que, em comparação, pareciam levar uma vida platônica. A editora de Cony era a Civilização Brasileira, no Centro, e o editor, Ênio Silveira, seu amigo, era tão próximo do Partido Comunista quanto Cony era distante deste. E, assim como Paulo Simões, Cony, em 1964, também se vira metido num imbróglio político do qual não pedira para participar, muito menos fazer o herói. Alguém poderia imaginar, por exemplo, que, em 1965, ele estaria entre os senhores, quase todos de terno e gravata e alguns já grisalhos, que, num lance de capa-e-espada, juntaram-se para vaiar a chegada do presidente Castello Branco ao Hotel Glória, na abertura da Conferência da OEA, no Rio? Não. Nem o próprio Cony devia se antever no papel. Em Pessach, o personagem do editor refere-se com desprezo ao episódio: ‘Veja o caso do Hotel Glória. Uma atitude muito bonita, nove camaradas vão lá, vaiam o marechal, vão para a cadeia, comem queijos franceses na prisão, são notícia de jornal, provocam manifestos, são soltos, nada aconteceu. Apenas enriqueceram a biografia pessoal de cada um’. Era engraçado ler aquilo num livro cujo autor era um dos referidos. Quem não achara nenhuma graça em Pessach fora o Partido Comunista, responsável, na história de Cony, pela traição à luta armada contra a ditadura. O combate político tornara Cony um nome, coisa rara entre escritores e mesmo jornalistas. Mas eu sabia mais a seu respeito do que os jornais podiam dar – como sua segunda prisão, na noite de 13 de dezembro de 1968. Sabia que, naquela noite, que fora a do AI-5, Cony não estava vaiando ninguém nem conspirando contra nenhum marechal, mas placidamente em casa, fumando cachimbo e ouvindo ópera. Quem me falava dele eram amigos comuns, como Paulo Francis e José Lino Grünewald – aliás, por aqueles dias, Francis também fizera sua estréia em prisões. Semanas depois, já em 1969 e com todo mundo solto, um deles (Francis ou Zé Lino, nunca soube qual) sugeriu a Cony que me chamasse a colaborar em Ele & Ela, uma revista que ele estava criando para os Bloch. Cony me telefonou, fui até lá, conversamos e acabei assinando um artigo de humor no número 1 da revista. Tempos depois, eu é que lhe estaria pedindo aqueles contos para Fairplay. 17
Cony, na vida real, estava muito mais para o cronista moleque de ‘Da arte de falar mal’ do que para o homem que irritara os militares com seus artigos políticos – ou para o autor de Pessach que deixara os comunistas tiriricas. Naquela época, é possível que ele estivesse conhecendo o pior dos dois mundos: de um lado, a ditadura e de outro, o Partidão. Em 1969, Cony não tinha ido parar nos Bloch por acaso: Adolpho Bloch fora o único homem que lhe oferecera emprego. Ali, pelos 32 anos seguintes, ele iria fundar e fechar revistas, participar da criação da rede de televisão, dar palpite na programação do teatro e tirar o patrão de inúmeras trapalhadas jurídicas ou financeiras. Mas sua principal atuação seria na Manchete. Do mata-mosquito ao papa, entrevistou todo mundo para a revista, fez inúmeras reportagens em série e, a pedido de Adolpho, ajudou a escrever as memórias do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Em 1971, eu próprio fui ser redator da Manchete e, durante dois anos, fomos vizinhos na redação. A mesa de Cony ficava no canto da sala, com as costas para uma divisória de vidro; a minha vinha a seguir; e, na minha frente, a do nosso querido colega, o veterano e respeitado R. (de Raymundo) Magalhães Jr. Juntos, eu com meus cigarros e Cony com seu cachimbo e mais cigarros, produzíamos uma permanente nuvem de fumaça que pairava sobre o ex-fumante Raymundo. Não fazíamos por mal, mas não conseguíamos conter o riso ao ouvir Raymundo, com sua voz característica, à Pato Donald, esbravejando contra o fumacê. Aquela era uma grande redação: o diretor da revista era Justino Martins; o chefe de redação, Maurício ‘Godard’ Gomes Leite. Raymundo e Cony eram os redatores mais graduados, por ser escritores e famosos. E o resto da manada não fazia feio: Roberto Muggiati, Narceu de Almeida, Flávio de Aquino, Heloneida Studart, Irineu Guimarães, Marcos de Castro, Ney Bianchi, Renato Sérgio e o caçula, eu, aos 23 anos. Seria, disparado, a melhor revista semanal do país se os Bloch não tivessem medo até da sombra. Foi somente nos primeiros anos na Bloch que a literatura ainda o incomodou – como uma unha encravada cujo único remédio, por mais doloroso, seria a extração. Pois, com Pilatos, ele a extraiu sem dor e, durante os 21 anos que separaram Pilatos de Quase memória, a literatura pareceu não lhe fazer a menor falta. Quem sentia falta de Cony eram seus velhos leitores, entre os quais eu. Note bem: sentia falta dos livros – porque, quando queria, eu tinha o verdadeiro Cony à mão. A vida e o trabalho nos separaram, mas, pelos muitos anos seguintes, com maior ou menor freqüência, não deixamos de nos falar. Gosto de pensar que estou para Cony como, no passado, o jovem Cony esteve para duas pessoas que admirava: Ary Barroso e Mario Filho. Quando ele os conheceu, os dois já eram grandes instituições da vida brasileira: Ary, da música popular; Mario, do jornalismo esportivo. Eram homens importantes, mas reconheceram em Cony um interlocutor, alguém que os admirava sem bajulações e com quem podiam conversar sem ter de explicar muito, apesar da diferença de idade – Ary, 23 anos mais velho; Mario, 20. Para meu orgulho, sei que Cony me considera (já escreveu isso) uma espécie de irmão mais novo. E devo ser mesmo – com quem mais ele pode partilhar seu amor por Nacio Herb Brown e Walter Donaldson, dois grandes (e hoje obscuros) compositores americanos dos anos 20? No seu caderninho, eles são maiores do que Cole Porter, George Gershwin ou qualquer dos medalhões. (Para quem não sabe, Brown, popularíssimo em sua época, foi o autor de ‘Singin’ in the rain’, ‘Broadway melody’, ‘All I do is dream of you’, ‘Temptation’, ‘Paradise’, ‘Alone’, ‘You stepped out of a dream’ e muitas outras. Depois foi esquecido e só voltou à tona quando suas canções foram re18
vividas no filme Cantando na chuva, em 1952. Quanto a Walter Donaldson, foi o autor de ‘Love me or leave me’, ‘At sundown’, ‘Makin’ whoopee’, ‘Little white lies’, ‘Yes, sir, that’s my baby’, ‘You’re driving me crazy’.) E para quem mais Cony pode tirar seu velho gramofone do armário (um gramofone de verdade, daqueles de corda), pôr para tocar ‘Hindustan’, num disco de 1918, prensado de um lado só, e ficarmos os dois babando de contentamento? Por mais confessional que seja no que escreve, Cony tem coisas que só seus amigos sabem. Uma delas: engana-se quem pensa que ele é louco por cachorros ou por animais de qualquer espécie. Cony era louco por Mila, uma setter que ganhou de Adolpho, e pela cria dela, Titi – e só. Aos domingos, sempre nos encontrávamos quando Cony e Beatriz levavam Mila e Titi à Praia do Diabo, no Arpoador. Mila teve câncer e foi para aliviar sua agonia (ela ficava a seus pés quando ele escrevia) que Cony começou a trabalhar de madrugada – para passar mais tempo com Mila. E, como não tinha o que escrever, escreveu Quase memória. Nas semanas seguintes à morte de Mila, Cony não conseguia falar dela sem chorar – presenciei isso várias vezes. Depois, Titi também morreu e não me consta que Cony tenha adotado novos cachorros. Seus dois melhores amigos, os editores Jorge Zahar e Ênio Silveira, também já morreram. De outro amigo que igualmente se foi, Paulo Francis, Cony guardou uma última recordação agradável: sua casa foi a última em que Francis jantou no Brasil, levado por mim, em novembro de 1996, dois meses antes daquele estúpido enfarte em Nova York. Ao fim de uma noite engraçadíssima, já de madrugada, Cony tirou o carro da garagem para deixar Francis (a quem chamava de Paulo) em seu hotel na Avenida Atlântica e a mim no Leblon – não imaginávamos que nunca mais o veríamos. A morte dos amigos o abala mais do que ele admite, mas, movido por uma energia invejável até por gente muito mais jovem, Cony segue em frente. Desde sua espetacular volta à literatura com Quase memória, já lançou quatro ou cinco novos romances, teve todos os seus livros dos anos 60 reeditados pela Companhia das Letras, autorizou a publicação de coletâneas de crônicas e produziu diversos livros de ocasião. Eu próprio, que também trabalho como um remador de Ben-Hur, não entendo como ele consegue – e mais ainda porque não falta com sua coluna diária na Folha de S.Paulo, aparece num programa de rádio, também diário, e, eventualmente, ainda costura para fora (ou seja, escreve para outras publicações). Isso deveria bastar para tomar-lhe todo o tempo, mas, quando se trata de dar entrevistas, Cony consegue ser o favorito dos jornais, revistas, televisões, rádios e sites – se precisam de uma declaração original e crítica sobre o governo, repórteres de toda parte (do New York Times ao boletim do sindicato dos hortifrútis) já sabem para quem ligar. Sem esquecer as palestras, que, de 1995 para cá, Cony tem sido solicitado a fazer, a uma média de dezenas por ano: toda semana, ele fala para estudantes, empresários, donas-de-casa, ventríloquos, taxidermistas. E não só no Rio ou em São Paulo – vai também a Arapiraca, Botucatu, Cascavel, aonde quer que o convidem. Nessas noites, os neoliberais dormem com as orelhas em fogo. Por causa de toda essa azáfama, nos últimos anos temos nos falado muito menos do que eu gostaria. Mesmo assim, ele continua a me distinguir com a primeira leitura de cada romance novo e dá a impressão de emprestar grande importância ao que eu ache ou deixe de achar. Isso, apesar de Cony ter uma profunda divergência comigo: o ‘rigor histórico’. Para ele, não dou um espirro nem tomo um copo d’água sem atentar para o ‘rigor histórico’ de tais peripécias. 19
Acontece que às vezes trabalho com biografias, as quais exigem um apego aos fatos ou, digamos, um ‘rigor histórico’. Mas Cony, que é ficcionista 24 horas por dia, detesta o ‘rigor histórico’. Ele simplesmente não acredita que a verdade de um fato possa ser estabelecida – e teve a prova disso ao sair do Maracanã na tarde de 16 de julho de 1950, quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai. Naquele momento, Cony, que já demitira Deus de seu panteão, deixou de acreditar também em Jesus Cristo. Não, como se pensa, porque ficou abalado pela derrota nacional – mas porque, apenas cinco minutos depois de terminada a partida (vencida pelo Uruguai por 2 a 1), já estava ouvindo, na própria porta do estádio, versões discrepantes sobre o que ele e 200 mil pessoas tinham presenciado durante os 90 minutos. Bem – raciocinou Cony –, se é impossível determinar um fato que acabou de acontecer, como saber do que se passou há dois mil anos? O ‘rigor histórico’ era uma impossibilidade, ele concluiu. Para Cony, o ‘rigor histórico’ não apenas não existe, como sua busca é um equívoco da humanidade: milhões de asneiras são cometidas pelo homem por causa do ‘rigor histórico’. Se o homem usasse mais a imaginação, seria mais livre, mais criativo, mais feliz – imagino que seja o que ele pense. Sua própria biografia é um exemplo: ninguém que conheça Cony pode garantir que certos eventos momentosos de sua vida tenham realmente acontecido – como a história do aviador Melo Maluco, quando pousou com seu biplano vermelho na Praia de Icaraí, em Niterói, a poucos metros de Cony, e este, que tinha 5 anos e nunca emitira um som, levou um susto tão grande que começou a falar. Ou a tampinha que lhe foi atirada por Noel Rosa e lhe cortou a orelha, quando Cony, aos 10 anos, se dirigia para a igreja onde servia de coroinha. Ou, mais recentemente, quando o navio em que ele fazia um cruzeiro pelo Mediterrâneo chocou-se contra uma baleia, encalhou sobre ela e foi preciso que escafandristas armados de serra elétrica despedaçassem a baleia para libertar o navio. Tudo isso pode ter saído de sua imaginação – quem vai saber? E para que saber, exceto em nome do ‘rigor histórico’? Como eu disse, ele é um ficcionista em tempo integral. Imagino seu sofrimento ao escrever Quem matou Vargas?, um livro ‘sério’ sobre as conspirações que levaram Getúlio ao suicídio. Posso vê-lo sofrendo por ter de escrever que Getúlio vestiu o pijama e deu um tiro no peito (como aconteceu), e não que morreu num botequim no Catete, ao comer a empada que matou o guarda – como seria muito mais engraçado de escrever. Cony fabula e escreve tão bem que os leitores de seus romances sempre pensam que seus protagonistas – homens secos, caladões e sensuais – são ‘ele’. Eu também pensava assim antes de conhecê-lo. Quem poderia ser aquele seminarista de Informação ao crucificado senão Cony? O narrador anônimo de Antes, o verão também tinha muitas coisas em comum com ele: casa em Cabo Frio, areia entrando em um casamento, um par de filhos. O Paulo de Pessach: a travessia, pelo menos até se meter na guerrilha, era quase uma crônica do seu cotidiano em 1966. Veio o longo interregno e, quando Cony voltou ao romance com Quase memória, a figura daquele pai lembrava muito o Cony-pai (um velho jornalista excêntrico que gostava de construir balões), cujas façanhas ele sempre nos contara em conversas – donde Cony devia ser o menino da história. Mas é claro que não é nada disso. Cony é que vive como se fosse um personagem de si mesmo. E privar com ele é como ler um de seus grandes livros – ao vivo, em cores e – como se diz mesmo? – em
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‘tempo real’.
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Rogério Reis/Tyba
Marcio Moreira Alves nasceu no Rio de Janeiro em 1936. Começou a trabalhar no Correio da Manhã aos 17 anos. Em 1956, foi enviado ao Egito como correspondente de guerra durante o conflito que resultara da nacionalização do Canal de Suez. No ano seguinte, encarregado de cobrir a sessão que deveria votar o impeachment do governador Muniz Falcão, de Alagoas, viajou para Maceió; ficou lá 24 horas, tempo suficiente para ter o fêmur partido por uma bala de metralhadora – a Assembléia foi invadida e houve tiroteio – e ditar, do hospital, uma reportagem com a qual se tornaria o mais jovem vencedor do Prêmio Esso. Após o golpe militar, passou a assinar artigos políticos no Correio. Em 1968, dois anos depois de ter sido eleito deputado federal, proferiu um discurso na Câmara que acabaria servindo de pretexto para o AI-5 – obrigando-o a exilar-se por 11 anos. Doutor pelo Instituto de Ciências Políticas da Sorbonne, regressaria ao país beneficiado pela Lei de Anistia. Desde 1993 é colunista político de O Globo.
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O Correio da Manhã, para o qual voltei em 1964, depois de uma ausência de quatro anos, ainda era
uma grande escola de jornalismo, como a que conhecera dez anos antes, no início de minha carreira jornalística. Antonio Callado não era mais o ocupante da pequena sala ao lado da redação, reservada ao editorchefe. Em seu lugar estava Edmundo Moniz, doce trotskista, dado a traduzir do francês os grandes poemas libertários da literatura universal. Na saleta um pouco maior, onde ficavam os colunistas e editorialistas, também houvera troca de ocupantes. Álvaro Lins, que eu ali conhecera, partira para outros vôos, no governo Kubitschek e na Embaixada do Brasil em Portugal, onde armara uma briga monumental com o governo Salazar ao conceder asilo político ao general Delgado. Otto Maria Carpeaux, a pessoa mais erudita que jamais passou por uma redação brasileira, imperava naquele espaço e esculhambava a ditadura militar nas 12 línguas que conhecia. Carpeaux era terrivelmente gago, mas cantarolava com desembaraço e assoviava na perfeição, inclusive acordes de Mozart e Beethoven, seus compositores favoritos. Corporativismo de austríaco, sem dúvida. A gagueira se agravava quando brigava com a mulher ao telefone, geralmente por causa do cachorrinho basset, paixão de ambos. Resistente aos avanços da tecnologia, Carpeaux nem chegara à máquina de escrever: escrevia à mão os seus artigos sobre política internacional, nos quais sempre contrabandeava referências desairosas às ditaduras da América Latina. Carlos Heitor Cony ocupava uma mesa de aço logo na entrada da redação, onde escrevia crônicas que eram publicadas no segundo caderno. Era já um romancista consagrado por vários prêmios, ganhos com os seus primeiros livros, mas nunca manifestara interesse por artigos políticos. O golpe de 1964 despertou a ira cívica de Cony, que passou a ridicularizar a truculência militar desde a primeira semana da ditadura. Após o golpe, um silêncio cúmplice se havia instalado nos grandes jornais, que tinham apoiado os militares ou eram por eles ameaçados, como foi o caso da Última Hora. As crônicas de Cony causavam espanto, admiração e, no caso de seus alvos, os todo-poderosos do momento, uma indigna21
ção profunda. Lembro-me de uma, profética, em que Cony afirmava, com certa soberba, que seus livros ainda seriam lidos muito depois de as traças terem comido as fardas dos generais. Como um mero jornalista, que nem comunista era, ousava escrever uma coisa dessas sobre as autoridades que reinavam absolutas no país? A rebeldia precoce, que pode ser constatada na coletânea de crônicas que publicou com o título de O ato e o fato, deu a Cony uma aura de herói político e um prestígio que, somente pela literatura, ainda não alcançara. A política, no entanto, não era a sua vocação. Dela participara num momento de crise por puro impulso de cidadão em defesa de seus direitos democráticos, que sentia ameaçados. Não me lembro se fui eu ou Antonio Callado quem convidou Cony a participar de uma manifestação de intelectuais em frente ao Hotel Glória, onde se reuniam delegados da OEA para discutir o fortalecimento da democracia na América Latina. A reunião, em novembro de 1965, se realizava dias depois da promulgação do AI-2,
que passava por cima da autoridade do Congresso, estabelecia a eleição indireta para a Presidência da Re-
pública, dissolvia os partidos políticos tradicionais e instituía apenas dois, um a favor do regime, a Arena, outro de oposição, o MDB. Achamos que o Brasil patrocinar uma reunião dessas era cinismo demais e um acinte para com a cidadania espezinhada nos seus direitos. Resolvemos protestar e nos juntamos, uns 50 ou 60, em frente ao hotel, para vaiar o presidente Castello Branco e o seu chanceler, general Juracy Magalhães, quando chegassem. Combinamos ainda que, se um de nós fosse preso, os demais se apresentariam presos também. Quem deu essa idéia, inspirada nos métodos de Gandhi, fui eu, e ela não teve aceitação integral. O Paulo Francis, por exemplo, desabalou em vertiginosa carreira pelas escadarias abaixo e só parou no Aterro do Flamengo. Afinal, fomos oito os presos levados para o Dops, na Rua da Relação. O governador interino da Guanabara era Raphael de Almeida Magalhães. Telefonou para lá e pediu que lhe lessem a lista dos prisioneiros: Glauber Rocha, Joaquim Pedro, Flavio Rangel, Mario Carneiro, embaixador Jaime Azevedo Rodrigues, Antonio Callado, Carlos Heitor Cony e eu. Surpreso com a batata quente que lhe caíra nas mãos, Raphael deu ordens para que nos soltassem caso o Exército não se encarregasse de nós no prazo de uma hora. Apareceu um capitão comandando uma escolta. Meteu-nos em dois jipões e fomos levados para o quartel da Rua Barão de Mesquita, que, nos anos seguintes, iria se celebrizar como centro de torturas. Naquele tempo uma das estratégias adotadas pelo Exército para poder interrogar os presos com vagar era negar informações sobre os seus paradeiros. Felizmente, a namorada de Jaime Azevedo Rodrigues teve a iniciativa de esperar na porta do Dops que nos removessem, seguiu os carros do Exército e, meia hora mais tarde, todas as redações do Rio de Janeiro sabiam onde estávamos. Tornou-se impossível negar que nos guardavam. Foi na cadeia que estreitei a amizade com Cony. O convívio forçado, 24 horas por dia, ou torna os prisioneiros amigos íntimos ou inimigos pela vida toda. No nosso grupo, não houve desavenças e todos nos mantivemos amigos enquanto duraram as nossas vidas. Somos hoje apenas três sobreviventes dos ‘Oito do Glória’: Cony, Mario Carneiro e eu, além de Thiago de Melo, que foi preso dois ou três dias mais tarde. Ao chegar à cela da Barão de Mesquita, verificamos que só havia seis camas para oito presos. Foi quando descobri que Cony era, realmente, de uma pura generosidade cristã. Sorteamos as camas. Ele ganhou uma, eu perdi. Pois não é que Cony prontificou-se a dormir no chão e me ceder o seu colchão de palha? O que ra22
pidamente soubemos é que conhecia a Bíblia de cor, como um pastor evangélico. Sapiência adquirida nos anos que passou no Seminário São José, onde também aprendeu latim e um pouco de grego. A Bíblia era o único livro que os carcereiros permitiam na prisão. Cony recomendava as passagens mais excitantes. ‘Leiam o Livro de Ester’, dizia, ou recomendava o Eclesiastes como um canto de amor incomparável. Por falar em amor, foi também na cadeia que descobrimos ser Cony o galante campeão de namoradas do grupo. Todos nós tínhamos duas mulheres, Casa Militar e Casa Civil, dizíamos. Mas Cony tinha diversas além da legítima, que se revezavam mandando-nos latas de sucos de frutas e de fumo de cachimbo Half and Half, que tem um perfume delicioso. Colocávamos tudo em comum num canto da cela, nossa despensa coletiva. Essa pletora de amores fez com que Cony confessasse já ter sido preso antes. Fora no Parque da Cidade, por atentado ao pudor. Estava num canto protegido do bosque, fornicando com uma senhora, esposa de um capitão do Exército, apoiada no capô inclinado de um Fusca, que, segundo ele, é o carro que tem o melhor desenho para esse tipo de atividade. Foram surpreendidos por um guarda florestal, que lhes deu voz de prisão. Como o Brasil já era Brasil naquele tempo, o guarda aceitou curar os seus pruridos morais ofendidos com uma nota de 50. Ou seja: Cony e sua fogosa companheira foram presos, mas não chegaram a ser encarcerados. Antes assim. Ficou salva a moral do Exército Brasileiro, corneado pelo escriba. Quem mais trabalhou na prisão foi Glauber Rocha. Foi lá que escreveu a primeira versão de Terra em transe. Testava conosco algumas de suas idéias. Só me lembro de termos rejeitado uma. Glauber queria pôr um monte de negros pendurados numa grande árvore, de preferência um fícus. Um colonizador, com chapéu colonial, short e meias brancas até o meio das canelas, chegaria à frente de outros negros. Pararia diante do fícus e derrubaria a negrada com rajadas de metralhadora. Vetamos a cena por nos parecer grosseira ao exagero na sua denúncia do imperialismo branco. Não entrou em Terra em transe, mas me contaram que foi incorporada a um dos filmes que Glauber rodou no exílio. Não garanto. Não vi. Glauber também pintou muito na cadeia. Roubou uma resma de papel de desenho e as tintas de guache que foram mandadas para Mario Carneiro e, deitado de bruços no chão, despachava pinturas em série. Eram, na maioria, Cristos sangrentos, crucificados em imensos caralhos, igualmente ensangüentados. Um pavor. Ao juntarmos nossas coisas para deixar a prisão, em vésperas do Natal, Glauber nos consultou se não valeria a pena montarmos uma exposição de seus trabalhos na Petite Galerie, em Ipanema, para doar o dinheiro das vendas aos estudantes da UNE. Cony era, dentre nós, o mais versado em assuntos eclesiásticos. Perguntou a Glauber: – Você não acha que a revolução no Brasil vai ser uma mistura de padres com comunistas, tudo junto, e que a Igreja é muito importante para esse movimento? Glauber, compenetrado, concordou. Cony então perguntou: – Você não acha que os padres vão ficar indignados com esses teus Cristos crucificados em pênis? Glauber convenceu-se da insensatez do projeto. Rasgou os guaches e assim foi salva a estética nacional de um atentado. Os anos passaram. O grupo se dissolveu, seguindo cada um o seu caminho. Cinco já morreram. Por
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vezes tenho saudade daqueles dias na cadeia.
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Rogério Reis/Tyba
Nascida no Rio de Janeiro, Heloisa Seixas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalhou em diversos órgãos da imprensa antes de se dedicar à literatura. É autora do livro de contos Pente de Vênus (Porto Alegre, Sulina, 1995, reeditado em 2000 pela Record, do Rio, que há cinco anos publica todos os seus trabalhos) e dos romances A porta (1996), Diário de Perséfone (1998) e Através do vidro (2001). Também organizou e traduziu três antologias de contos góticos: Depois – Sete histórias de horror e terror (1998), com narrativas de diversos escritores, Visões da noite (1999), de Ambrose Bierce, e A casa do passado (2001), de Algernon Blackwood. Semanalmente publica seus “Contos mínimos” – lançados agora em antologia – na revista Domingo, do Jornal do Brasil.
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‘O escritor é sempre contra o homem’, disse Carlos Heitor Cony, explicando em 1995 por que fica-
ra mais de 20 anos sem escrever. Ele garantia ter passado aquelas duas décadas dedicando-se simplesmente a viver, porque era o que importava. ‘Eu escrevia e ninguém tomava providências’, riu Cony. Eu o ouvia impressionada. Para mim, que, aos 40 anos, mal começava a escrever – por uma premência absoluta e com a sensação de que se não o fizesse morreria –, botar vida e literatura em lados opostos parecia um contra-senso, uma contradição em termos. Era nosso primeiro encontro. Pessoal, quero dizer, porque literariamente já nos conhecíamos. Eu havia lido quase todos os seus romances e ele, por uma deferência que me surpreendera, lera, ainda nos originais, meu primeiro livro de contos, Pente de Vênus (cuja orelha escreveria). E quisera me conhecer. Acompanhados de mais duas pessoas amigas, estávamos sentados numa mesinha do Barril 1800, na Praia de Ipanema, a poucos metros do Arpoador, lugar onde, havia anos, Cony levava a passear sua cadela Mila. Ele acabara de escrever Quase memória, que só seria publicado dali a alguns meses. Era um fim de tarde de primavera, um dia de semana, e o sol ainda incidia sobre as pedras portuguesas da calçada, enquanto Cony falava sem parar. Com sua oratória caudalosa, dizia que, ao parar de escrever, vinte anos antes, vivia um momento único da vida, de absoluta plenitude. ‘O homem não pode trair o escritor, mas o escritor deve sempre trair o homem. Quando ele assume a condição de escritor, fica acima do homem. Foi por isso que, naquela época, eu preferi viver. Minha vida estava divertida, estava ótima.’ E eu o escutava perguntando-me se ele estaria falando sério. Seu último romance antes de começar o jejum – Pilatos – era um escárnio, uma agressão, dando a impressão de ter sido escrito com um misto de 24
deboche e raiva. Era como se Cony, ao escrever Pilatos, estivesse mesmo disposto a romper com tudo, a subverter a ordem – todas as ordens. Não dava, em absoluto, a impressão de ser um romance escrito por alguém que vivia um momento de plenitude. Ao contrário, trazia uma carga de ódio. Apesar de às vezes cômico, era um livro cruel, escatológico. Quase uma cusparada. O livro me deixara tão impressionada que eu até escrevera um conto – incluído no Pente de Vênus – tendo como personagem um escritor que cometia uma espécie de suicídio literário. Claro que usara essa idéia apenas como ponto de partida e me preocupara em evitar que o personagem se parecesse com Cony, embora na época nem de longe imaginasse que um dia ele fosse ler a história. O conto chamava-se ‘Pantáculo’ e a ação se deslocava constantemente para o passado, concentrando-se mais na infância do personagem, um menino solitário que costumava abraçar árvores e se esconder debaixo da mesa da sala para chorar. Mas a conversa continuou e Cony passou a comentar meus contos. Falou e falou sobre vários deles, sempre com seu jeito instigante. Até que de repente parou e, pela primeira vez naquela tarde, pareceu prestar atenção na vida lá fora, no resto de sol batendo nas pedras, na faixa de areia quase vazia. E por um instante ficou calado. Em seguida me olhou com seus olhos castanho-escuros, de enorme vivacidade, e disse: ‘Mas tem uma coisa estranha nesse livro que você escreveu. Uma coisa que eu não entendi’. Esperei que ele continuasse. ‘É que eu me reconheci em um de seus contos’, disse Cony. Fiquei estarrecida. E completamente sem graça. Sabia que ele só podia estar falando do personagem de ‘Pantáculo’, mas, sinceramente, não imaginava que a história contivesse tantos elementos que permitissem um reconhecimento. Até porque a tal idéia de ‘suicídio literário’ podia ser só imaginação minha e não ter nenhuma relação com o que acontecera com Cony na vida real. Afinal, o próprio Cony acabara de afirmar ter parado de escrever movido pela vontade de viver, e não por qualquer sentimento destrutivo. Como, então, ele se reconhecera? E por quê? Enquanto tudo isso passava por minha cabeça, comecei a balbuciar uma desculpa. Mas Cony nem pareceu me ouvir. ‘O que me espanta é que você revelou uma coisa que não poderia saber’, continuou. ‘E não poderia saber por uma razão muito simples: porque ninguém sabe. Tenho certeza de que nunca contei a ninguém.’ Agora eu estava muda. Não sabia, nem de longe, a que ele se referia. E Cony, com uma ponta de sorriso, completou: ‘Ninguém sabe. Mas, quando era menino, eu me escondia debaixo da mesa da sala – e chorava’. Ficamos em silêncio, todos. Ainda sorrindo, Cony me observava. Eu sustentei o olhar, fascinada. Naquele momento, era como se olhasse não para ele, mas para o próprio ato de escrever, essa coisa misteriosa, capaz de nos fazer relatar o que não sabemos. Ao usar Cony como inspiração para compor um personagem adulto, eu descortinara um detalhe de sua infância que desconhecia. Para o bem ou para o mal, contra ou a favor do homem, a literatura em sua face mais estranha – a de um mundo de sombras onde, o tempo todo, abrimos passagens para o desconhecido – estava ali, diante de mim. 25
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Rogério Reis/Tyba
O jornalista e escritor Zuenir Ventura é mineiro de Além Paraíba, onde nasceu em 1931. Formado em Letras Neolatinas pela Faculdade de Filosofia da ex-Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio Janeiro), trabalhou como repórter, redator e editor em alguns dos principais órgãos da imprensa escrita do país. Atualmente, é colunista da revista semanal Época, do jornal O Globo e da revista eletrônica no.com. Publicou 1968 – O ano que não terminou (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, ensaio histórico), que está na 38ª. edição; Cidade partida (São Paulo, Companhia das Letras, 1994), que receberia o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria Reportagem; e Inveja – Mal secreto (Rio de Janeiro, Objetiva, 1998, ficção), entre outras obras. Em 1999, escreveu o prefácio do livro Rio de Janeiro, 1862-1927: Álbum fotográfico da formação da cidade, lançado pelo Instituto Moreira Salles para marcar a abertura do seu centro cultural carioca.
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Muitos são os Conys em um só. E não sei se alguém, a não ser ele, conhece todos. Aliás, não sei nem
se ele mesmo os conhece bem. Há, como todo mundo sabe, o Cony escritor, o Cony jornalista e o Cony cronista. Mas há também o Cony seminarista, o que poderia ter sido cardeal e não foi, o Cony casto, o hippie e o careta, o Cony das seis esposas e de um grande amor, o da sua Beatriz, o crente e o descrente que lamenta ter perdido a graça de crer, o militante político e o de saco cheio da política, o recluso e o exposto. O reflexivo e o ativista, o provocador e o quieto. O blasé e o indignado. O cheio de vida e o cheio de melancolia. Se alguns não existem mais, já existiram. Há o que se comove toda vez que fala de Maria, a judiazinha ‘camponesa ou pastora que ficou prenhe de um Deus’ sem deixar de ser virgem, e essa evocação me faz lembrar a aparição que precipitou sua saída do Seminário São José às vésperas da tonsura – desculpe, a saída de João Falcão, o seminarista de Informação ao crucificado. Era uma ‘guria de 16 anos’ que ele e um colega, cheios de fantasias reprimidas, surpreenderam nua. ‘De repente. A filha mais velha do porteiro, Luísa, nuínha em pêlo, a tomar banho de sol.’ Há o Cony que parece mas não é, e até o que ele se diz ser sem de fato sê-lo totalmente. Por exemplo, desconfiem do autoproclamado Cony pessimista e muito menos acreditem no Cony cínico. Ou melhor, acreditem, mas considerem que é uma atitude filosófica, moral, intelectual, uma visão de mundo que é desmentida a cada dia por sua prática de vida. Não confundam cabeça e coração, razão e emoção. Nem interpretem mal o seu olhar preferencialmente picaresco para a aventura humana, para o seu lado grotesto. Ele não lhe tira e não abala nem um pouco a sua inabalável consciência social. Como naqueles paradoxos entre os quais ele gosta de caminhar, divertindo-se com os oxímoros, será o seu propalado ceticismo tão cético que é capaz de não acreditar nem no próprio ceticismo? Acho que não é bem assim, talvez seja uma proteção contra o niilismo e o desespero. 26
Ele ‘esconde atrás da máscara de um cinismo feroz seu sentimentalismo inato’, escreveu Otto Maria Carpeaux, que sabia muito de seu amigo, além de saber de tudo. Na realidade, Cony talvez seja tão cético quanto anarquista, um anarquismo meio anarquizado que se submete à disciplina e aos rituais da cerimoniosa Academia Brasileira de Letras, com suas liturgias de chás, discursos, fardões e espadas. Curiosamente, a liturgia não desagrada ao anarquista. Muito pelo contrário: ‘Estudei em um seminário não por um sentido místico, mas porque a liturgia me atraía’. Acreditem: o que o fascinava nos seus dez anos de internato eram justamente os rituais, o recolhimento, e não a vida religiosa. Ainda no capítulo das surpresas, não deixa de ser engraçado também observar o lado caxias desse anarquista ferrenho cumpridor de seus deveres públicos e privados, estivador da palavra, escritor disciplinado e escravo dos prazos, obediente ao relógio a ponto de chegar com uma hora de antecedência aos encontros. Como se disse, muitos são os Cony, e alguns devem viver discutindo entre si, até porque todos gostam muito desse esporte. Acho que Carpeaux tem razão quanto à ‘máscara’. Se não é sentimentalismo, eu não sei o que é o espetáculo de padecimento afetivo que ele ofereceu ao país quando sua cadela Mila morreu. O obituário que lhe dedicou numa crônica que comoveu até desafetos políticos foi tão pungente, tão sentido quanto o que dedicou a seu pai: ‘Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo do vento. O que fazer contra o vento? Amá-la’. Nos dois réquiens, dois Cony aparentemente inconciliáveis convivem no sentimento e na sua expressão literária. Na crônica ao pai, a contenção, o pudor e a economia de emoções. É um relato na terceira pessoa, em que o narrador descreve com certo distanciamento alguém diante de um homem que acaba de morrer. Ele só tem olhos para as mãos do morto pousadas sobre o peito: ‘Sim, agora tudo acabara. Ele contempla as mãos do homem. Estão quietas, finalmente, depois da agitação dos últimos dias, depois de sua missão pela vida inteira. Mãos que não se gastaram em 55 anos de jornalismo antigo’. Enquanto as contempla, vão surgindo em flashback as lembranças de toda uma vida. Só no final se fica sabendo quem são os personagens da cena – o próprio cronista e seu velho pai: ‘Mãos que começaram a ficar mais brancas e mais quietas: dentro delas, o nada cheio de tudo o que ele fora. Mãos que, antes que se apagassem definitivamente, foram beijadas pelo filho – mãos de meu pai’. Todo mundo sabe que o ídolo do autor de Quase memória é, se não o único, pelo menos o maior, o seu pai, que aparece em outros romances e em todas as lembranças. Nunca é ‘meu pai’ ou ‘papai’, mas invariavelmente ‘o pai’, como se esse ‘o’ fosse aquele artigo que se usa com maiúscula para substituir o substantivo Deus. A relação entre os dois talvez seja a mais bem construída na obra e na vida de Cony. O que este rejeita no pai, muitas vezes morto de vergonha – a espontaneidade, a franqueza, a coragem de ‘entrar em canoas furadas’, a ingenuidade –, acaba sendo justamente a principal fonte de admiração do filho: a inocência que julga ter perdido. Pois bem. Apesar ou por causa disso, não é falando do pai que ele se desmancha, mas em crônicas 27
como ‘Mila’. Ao chorar a perda da cadela Titi e recordar ainda inconsolável a morte da mãe desta, Mila, é aí que o autor se entrega sem pudor ao luto e à dor da perda, enternecendo-se e enternecendo seus leitores: ‘Das coisas boas que Mila me deixou, além da saudade brutal que não vai embora, a mais importante é Titi, uma setter dourada como sua mãe, que esta semana completou dez anos [...] Fico apenas mais sozinho mesmo, sem ter aquele olhar que vai fundo na gente e adivinha até a alegria e tristeza que sentimos sem compreender. Sem Titi, é mais fácil aceitar que a morte seja tão poderosa, desde que seja bem menos poderosa do que o amor’. Desconhecido das novas gerações, há o Cony politicamente engajado, o destemido panfletário do Correio da Manhã de 1964, aquele cujos artigos tanto irritavam os militares. Além deste, que só usava a palavra, há ainda o outro que partia para a ação, aquele que foi preso seis vezes pela ditadura militar, o que participou dos ‘Oito do Glória’, um grupo de intelectuais que em 1965, numa ação de estratégia meio guerrilheira, fez um protesto diante do hotel onde se realizava uma conferência da Organização dos Estados Americanos, chamando a atenção do mundo para a ditadura e a desta para Cony e seus sete companheiros brancaleones, entre os quais se encontravam Glauber Rocha e Flavio Rangel. Mas, afinal, em que posição ideológica joga o Cony? Já se fez muito essa pergunta. Não é de esquerda porque, como diz, não tem ‘disciplina mental’ para sê-lo, não é de direita porque lhe falta ‘firmeza monolítica’ nem é de centro porque não se sente confortável na ‘imobilidade tática’ dessa posição. Resta-lhe então ser anarquista – ‘um anarquista triste, humilde e inofensivo’, como confessou no seu discurso de posse na Academia, citando Eça de Queiroz: ‘Diante de tanta miséria humana, diante de tanto velho sem casa, tanta criança sem pão[...], só me resta ser um anarquista humilde, triste e inofensivo’. Não será esse anarquismo mais rebeldia e insubordinação, uma espécie de espírito de contradição de quem gosta de contrariar expectativas óbvias e se compraz em nadar contra a correnteza? Dificilmente ele se deixa apanhar estacionado em uma posição ideológica ou morando estático em uma opção política. Se já foi flagrado na esquerda, na direita ou no centro, não terá sido por muito tempo. A exemplo mais uma vez do seminarista João Falcão, Cony não quis ser servo nem de Deus. Está sempre caminhando – ora virando à esquerda, ora à direita, ora ao centro, como se pretendesse desorientar possíveis seguidores. Antididático e antidogmático, o seu exercício preferido e permanente é o da dúvida e da crítica. Cony escreveu uma vez que, quase vizinhos de bairro – ele mora na Lagoa Rodrigo de Freitas e eu, em Ipanema –, só nos encontrávamos nos aeroportos ou fora do Brasil. Foi num desses encontros, aliás, que lembramos o primeiro deles – na redação da velha Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda, em 1958, quando ele estava para lançar o seu primeiro romance, O ventre. Luiz Garcia e eu dirigíamos o suplemento literário do jornal, e o candidato a romancista fora lá com as provas do livro para que a gente fizesse uma resenha, se evidentemente achasse que valia a pena. Valia, e como! Acabamos sendo um dos primeiros a falar do livro – um romance que provocou choques e resistências na época. Embora contivesse algumas preocupações existencialistas tão caras à nossa geração – o absurdo, a nausée e o suicídio como temas –, O ventre não facilitava muito sua aceitação, porque em meio à euforia daquele Brasil de JK, da bossa nova, de Pelé, de Brasília, ele desafinava um pouco o coro dos 28
contentes com imagens fortes e uma inesperada contundência de linguagem. Já estava nesse livro de estréia um pouco da dissonância que iria marcar a vida e a obra do autor. Carpeaux, no prefácio de Antes, o verão, fala dos cinco romances iniciais de Cony como ‘um protesto contra os lugares-comuns da teologia moral. São um curso completo de antiteologia antimoral’. O grande crítico fez o diagnóstico e viu aí a doença dos monges medievais que, cansados dos ritos, começavam a blasfemar: a acídia. Isso foi em 1964, dez anos antes de publicar Pilatos, o mais pessoal de seus romances, o de que o autor mais gosta, o livro-marco, a obra terminal de um ciclo de sua vida, aquele que anunciava o grande silêncio literário que se seguiu, ou seja, os 21 anos de agrafia ficcional. Com Pilatos, a história de um anti-herói emasculado que anda pela vida carregando num vidro com iodo e álcool o que perdera num acidente, o próprio pênis, ele resolvia ‘dar uma banana para a literatura e para a moral, para os bons costumes, para a condição humana. Lavei as mãos. Não só da vida política, mas também da vida social, da vida-vida. Daí Pilatos’. Mistério ao sumir. Acídia? Desencanto? Ele mesmo já adiantou uma explicação: ‘A consciência da inutilidade da minha luta’. Mistério ao sumir, surpresa ao reaparecer. Ele voltou tão fecundo e prolífero quanto voluntariamente estéril fora antes: escreve para jornal todo dia, toda semana, faz crônica para televisão, participa de programa matinal de rádio, dá palestras pelo Brasil afora, faz prefácio e apresentações de jovens autores, e produz livros, um atrás do outro, às vezes dois ao mesmo tempo. Uns se desculpam por escrever pouco. Cony justifica sua fecundidade repassando os méritos para as novas tecnologias: ‘Com computador é fácil escrever dois livros ao mesmo tempo’. Ele teria dez razões para publicar pouco, mas sempre arranja uma para publicar muito. Ainda bem para a literatura brasileira. Não sei se é tão simples assim como vou dizer, mas parece óbvio que há aí um processo compensatório parecido com o do menino que, por causa de um defeito na fala, ficou mudo até os 5 anos e, quando começou a articular palavras, misturava letras, provocando o riso dos colegas de infância por não conseguir pronunciar direito, por exemplo, a palavra ‘fogão’, trocando ‘g’ por ‘d’. Em compensação, adulto, acabou virando o incansável causeur, esse grande contador de histórias que é Cony. Gozador, ele deve se divertir com o efeito sobre os outros da imagem que criou de pessimista, mal-humorado e rabugento. Na verdade, tratase também de proteção, de mais uma ‘máscara’ que aprendeu a usar com Machado de Assis: ‘É um modo de você não ser deslumbrado’. Se não me falha a quase memória, é o que tinha a dizer sobre esse agnóstico e devoto de seus santos tutelares, ‘em processo, doloroso mas sincero, de retorno à fé naquele Deus que o rei e profeta dizia ter alegrado a sua juventude’. É um personagem muito original que, conforme o ângulo de vista, a incidência da luz ou do foco, pode se parecer com algumas de suas criaturas – meio penumbrista, meio fin-de-siècle, um pouco melancólico, quem sabe, mas cheio de inteligência e sedução. Temo que esse mundo que está por vir, que está aí, vá rarear nossos encontros já tão raros para o meu gosto. Ó tempos! Acho que nem o pessimismo de Cony seria capaz de prever que os aeroportos onde tantas vezes nos encontramos passariam a ser uma perigosa zona de risco até para encontros de dois pacíficos e inocentes companheiros de viagem – um tido por pessimista e o outro dito otimista. 29
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Adriana Elias/Folha Imagem
O escritor Luis Fernando Verissimo nasceu na cidade de Porto Alegre (RS) em 1936. Entre 1943 e 1945, morou na Califórnia (EUA) – seu pai, o ficcionista Érico Veríssimo, recebera um convite para lecionar em Berkeley, na Universidade da Califórnia. Em 1954, voltaria a residir nos Estados Unidos, desta vez em Washington, DC, onde Érico Veríssimo exerceu a função de presidente do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana. De volta à capital gaúcha, em 1956, ingressaria no setor de arte da Editora Globo; lá chegou a fazer a capa do romance O retrato, de seu pai. A carreira jornalística teria início em 1967 no jornal Zero Hora, de Porto Alegre; nele sairiam, a partir de 1969, suas primeiras crônicas, reunidas em O popular (Rio de Janeiro, José Olympio, 1973). Depois dessa obra, Luis Fernando Verissimo publicou mais de 30 livros – como O analista de Bagé (Porto Alegre, LP&M, 1980) –, além de escrever para TV, teatro e cinema. Atualmente, é cronista de O Estado de S. Paulo, Zero Hora e O Globo, cuja agência distribui suas crônicas para vários jornais do país. Em 1997 e 1998, participou da série “O escritor por ele mesmo”, do IMS, em São Paulo e Belo Horizonte.
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Um escritor só é responsável pelo seu texto até o ponto final. O mundo que o texto vai encontrar de-
pois do ponto final – o mundo dos leitores, dos críticos, do comércio e das repercussões – escapa ao seu controle. Não faltam, claro, autores que tentam estender seus domínios além do ponto final. Promovem seus livros, vão atrás dos leitores para conquistá-los – ou dos críticos para pedir satisfações – e acompanham suas próprias palavras como mães que cuidam dos filhos, atentas a qualquer provocação, até eles ficarem velhos. Mas mesmo estes não controlam completamente o vasto mundo que vem depois do texto pronto. O Cony, por exemplo, não tinha como saber o que seus artigos escritos durante o regime militar – ou durante o curto período depois de março de 1964 em que ainda se podia escrever contra um regime que se autodefinia como provisório – significavam para mim, só para usar o exemplo mais à mão. Lembro que naqueles tristes dias ler o Cony no Correio da Manhã era, ao mesmo tempo, um ato de rebeldia seguro, pois era o que todos estavam fazendo, e um tônico contra o sentimento generalizado de impotência. O Cony dizia o que queríamos dizer. O Cony era a nossa barricada moral. Foi através do Cony que não ficamos quietos. Seus artigos tiveram outras conseqüências além do entusiasmo compartilhado pelos seus leitores, na época em que a frase ‘Leu o Cony hoje?’ virou uma espécie de senha dos inconformados. Várias prisões do autor, por exemplo. E acho que muita gente começou a ler a ficção do Cony, como eu, não porque esperava encontrar nela uma extensão do seu estilo jornalístico, mas como uma forma de solidariedade. Gostei do primeiro livro dele que li, Pessach: a travessia, mas teria gostado mesmo sem gostar, porque foi a leitura algo distraída de um devoto agradecido. Depois o regime militar decidiu que viera para ficar, endureceu, ofi30
cializou a censura e proibiu a crítica, e o Cony – era a impressão que dava – fez a sua paz em separado, não com o regime mas com a inevitabilidade da situação. Foi trabalhar na Manchete e assim como tinha sido um símbolo da resistência possível transformou-se num exemplo da grande acomodação nacional. Não chegou a haver uma decepção com ele. Afinal, ele não era um homem de esquerda. Sua posição, enquanto pôde mantê-la, fora a de um intelectual revoltado com a burrice prepotente, ou com a prepotência burra, e, embora parecesse que escrevia e dava pau nos militares por nós, sua insurgência ia só até o ponto final dos seus artigos. Construíra uma barricada pessoal na qual tínhamos tomado abrigo como penetras. A idéia de que depois escolheu a alienação (uma palavra da época que felizmente não se usa mais) paga pelos Bloch como uma forma de auto-eclipse pertence ao mundo pós-ponto final, de teses e inferições, sobre o qual o autor não tem controle. Como articulista político fora de ação, sobravam o cronista e o romancista. Em 1974 ele lançou o delirante Pilatos, que também li e saboreei. Depois passou 21 anos sem publicar um romance. Voltou com o ótimo Quase memória, que além de tudo me levou a reler Pessach: a travessia – agora com atenção. A leitura do Quase memória sugeria que Pessach, o principal romance do Cony, poderia ser mais autobiográfico do que parecera na primeira vez. Seu personagem central, Paulo Simões, romancista carioca como o autor, com a mesma idade deste quando escreveu o romance, debate-se entre o egoísmo e o engajamento político, e o dilema se reparte em várias escolhas que ele precisa fazer: entre uma mulher burguesa e uma revolucionária, entre a literatura frívola e séria, entre seu instinto de que a humanidade é corrupta e irredimível e a necessidade de acreditar em alguma forma de redenção. A própria dualidade formal do livro, a prosa crua e poética ao mesmo tempo, as duas partes distintas da narrativa – a do dia em que Paulo Simões toma consciência de que precisa escolher uma vida e a da sua travessia para o engajamento – reforçam a idéia do dilema, que era certamente a do autor na época. Cony se tornou um revolucionário – no caso um anti-revolucionário providencial – com sua resistência depois de 1964, mas isto não venceu sua convicção de que nenhuma grande causa merece o comprometimento de um escritor, salvo a da honestidade intelectual. Ou seja, nenhuma merece mais do que o escritor pode empenhar antes do ponto final do seu texto. A resolução do dilema Cony encontrou no seu estilo, que é direto e fácil e também cheio de evocações e segundos sentidos, como na alusão bíblica e épica na trajetória do herói de Pessach para a sua terra prometida, a da definição política, à qual ele chega sem abandonar o ceticismo, e portanto a lucidez e a ironia. Escrever ‘sério’ com simplicidade e comprometer-se com o humano sem renunciar a uma saudável misantropia talvez sejam os paradoxos obrigatórios para um grande escritor. Ele diz que me conheceu numa visita à casa do meu pai, quando eu era garoto. Não acreditei, não por duvidar dele, mas por duvidar de que algum dia eu fui garoto. Nós nos conhecemos mesmo em Paris, no Salão do Livro de 1998, quando o Brasil foi o país homenageado e ele recebeu a comenda da Ordre des Arts e des Lettres. Conversamos mais demoradamente numa viagem de metrô do local do Salão para o Centro da cidade. Não sei se ele notou que eu estava emocionado. E não apenas porque era a primeira vez que
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andava de metrô com um Chevalier da França. Eu continuava um devoto agradecido. 31
E N T R E V I S TA
Quase memória O dia: 26 de outubro de 2001. A hora: aproximadamente dez e quinze, talvez dez e vinte da manhã. O local: o oitavo andar do Edifício São Luís, número 311 da Rua do Catete, perto do Palácio, no Centro do Rio. Acabaram de chegar à sala 814 Carlos Heitor Cony, suas duas secretárias e o motorista. Desde o ano passado, uma vez por semana o grupo se encontra ali naquele horário e, pelo que todos se lembram, há sempre grandes coisas a fazer. É, em todos os sentidos, um lugar de trabalho. Cony não chegou a ouvir o seu nome quando, passados poucos minutos, ao primeiro toque da campainha, adivinhando tratar-se dos editores dos CADERNOS, suas secretárias se encaminharam para a porta. Aproximando-se dos visitantes, o escritor, em mangas de camisa, suspensórios, saudouos pelo nome e, puxando duas cadeiras em frente à sua mesa, convidou-os a se acomodarem. Já sentado também, o rosto ancorado nas mãos entrelaçadas abaixo do queixo, sentenciou: “Pronto, podemos começar”. Nove horas depois – duas gastas num restaurante das imediações, do qual Cony é freqüentador mais ou menos regular –, o romancista havia discorrido sobre sua vida e obra como raras vezes o fizera: confissão, quase memória. Até mesmo os cheiros – da Praia de Icaraí (que o viu soltar, menino tido por mudo, seu primeiro grito), do sabonete Eucalol (que devolveu um padre do seminário em que estudou ao altar de sua primeira missa), do fumo e da água de alfazema que o pai gostava de usar (metade por vaidade, metade por acreditar que alfazema cortava o mau-olhado, do qual tinha hereditário horror) – espalharam-se pela conversa. Tudo nesse pacote de lembranças e reflexões revelava o escritor, inteiro, total: a infância, a família, a fala e a Língua; a psicanálise, a morte, os santos e o sexo; o real, o virtual, os livros e as prisões; o jornalismo, o cinema, as influências e as encomendas literárias; a filosofia, a política, a felicidade e a decadência; o inferno, a esperança, o fim e a ressurreição de Deus. “Não ter esperança é habitar o inferno”, diz Cony, o rosto ancorado na noite (começou a escurecer, há uma luz cortando o vidro da janela algo distante do mar). A entrevista termina, mas deixa uma certeza: amanhã ele ainda quer voltar a fazer grandes coisas. 33
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA: É quase inevitável começarmos pela figura de seu pai, centro, como se sabe, de um de seus romances mais bem-sucedidos, Quase memória [1995], responsável por seu retorno ao gênero depois de mais de duas décadas. O sr. diria que seu pai teve um papel direto em sua decisão de se tornar escritor e em sua formação literária, ou o interesse pela literatura só encontrou nele elementos como o humanismo, por exemplo, que salta aos olhos naquela obra?
CADERNOS: Tendo até um certo desprezo pelo profissional que era o seu pai, o que o sr. sentiu quando foi cobrir as férias dele no Jornal do Brasil, iniciando assim sua própria carreira jornalística? Foi uma espécie de contrapartida pelo fato de, bem ou mal, ele ter dado condições para que o sr. se preparasse para uma profissão?
Carlos Heitor Cony: Não, diretamente ele não me influenciou em nada para que eu me tornasse escritor. No caso de Quase memória, citado por vocês, o que aconteceu foi o seguinte: percebi que ele era um personagem tão grande que eu só poderia entendê-lo – ou não entendê-lo –, só poderia captá-lo através de uma arte. Se eu fosse pintor, seria um quadro. Se eu fosse músico, teria saído uma sinfonia – jocosa, alegre. Como não dou nem para músico nem para pintor, achei que tinha de captá-lo através da palavra. Mas vejam que não fiz uma coisa pesada, macabra, pois o personagem que eu tinha na minha frente não permitia isso, diferentemente dos pais que aparecem nos meus outros romances – como O ventre [1958] e Matéria de memória [1962], por exemplo –, que são tratados com uma crueldade terrível.
CADERNOS: Sua relação com seu pai não era propriamente de carinho?
Carlos Heitor Cony: Não vou dizer que tenha sido uma coisa de “dever”. Foi uma retribuição: durante anos, ele me deu espetáculos – e eu tinha que pagar alguma coisa.
Carlos Heitor Cony: Não, não era uma relação carinhosa. Eu nunca fui carinhoso com meu pai. Acho que ele ficaria muito surpreso se visse Quase memória. CADERNOS: E sua mãe, o que dizia da maneira de ser do seu pai?
Carlos Heitor Cony: Minha mãe achava que ele era um palhaço, o próprio Chacrinha. O que mais irritava meu pai era quando ele fazia alguma graça e minha mãe dizia: “Chacrinha”! Meu pai tinha alguma coisa do Chacrinha. CADERNOS: Naquele tempo, o menino se envergonhava disso; Quase memória não deixa dúvidas a esse respeito. No entanto, o escritor amadurecido que escreveu aquele livro parece ter perdoado o pai Chacrinha, como se perdoasse as “travessuras”, digamos assim, de um garoto, numa curiosa inversão de papéis. É isso?
CADERNOS: Mas vendo seu pai trabalhar como jornalista, e sendo ele uma pessoa ligada às letras, nem assim o sr. pensava em se tornar escritor?
Carlos Heitor Cony: Meu pai tinha realmente essa ligação, era metido a escrever. Tinha feito uns poemas, chegou a colaborar com um jornalzinho de Barbacena, publicando contos. Eu achava tudo aquilo ridículo. Minha ligação com a escrita nasceu mesmo no dia em que eu, que tinha um problema de fala – trocava consoantes, como, por exemplo, o “g” pelo “d” – fui gozado por um grupo de garotos que me pediram para falar uma frase com a palavra “fogão”. Escrevi, então, várias vezes a palavra “fogão”, mostrei para eles e descobri que daquele jeito ninguém ria de mim.
Carlos Heitor Cony: É verdade. Vejam um exemplo típico. Nós morávamos no Rio Comprido. Eu pegava um ônibus da Viação Continental e um dia meu pai entrou nele. Sentou na primeira fila; eu estava lá atrás. Quando meu pai me viu, começou a falar comigo como se nós estivéssemos na sala da nossa casa. Começou a falar de coisas domésticas, assim, bem alto – e eu ali, vermelho, morrendo de vergonha, o ônibus inteiro olhando. E ele nem um 34
mória. Iria parecer Rambo 3, O poderoso chefão 2. Aliás, um dos elogios do Paulo Francis a Quase memória foi pelo desprezo que eu dei à minha mãe no livro. E olhem que eu era o filho predileto dela. Minha mãe era uma mulher muito inteligente, esperta. Ela falava coisas que as pessoas só iriam entender dias depois. Meu pai, aliás, não percebia nunca. Ele passou a vida sem entender. Quando ela morreu, vi meu pai chorando, dizendo que minha mãe era uma santa, “como me tratava bem” – e quantas vezes ela espezinhou meu pai! Minha mãe o reduzia a pó-de-mico e ele nem percebia. No meu caso, não: eu era, de fato, o filho preferido. Eu tenho uma historinha que se chama O irmão que tu me deste [1979], é um livro de bolso que publiquei pela Ediouro, em que aparece uma cena que aconteceu comigo e minha mãe. Um dia, ela chegou da feira, passou por mim e disse: “Vai para o banheiro”. Eu fui, estranhando um pouco aquilo, olhando para trás. Vi quando minha mãe abriu a sacola, foi tirando couve, tomate, galinha, até que pegou uma caixa de pêssegos assim, pequenininhos, de fazer doce. Ela sabia que eu estava espreitando. Foi até o banheiro, pegou um e me deu. Eu nunca esqueci isso. Mas olhando com meus olhos críticos, de romancista, acho que minha mãe não daria uma grande personagem; o pai sim. Eu percebi que, sabendo olhar, ele daria um belo personagem literário.
pouco preocupado: “Olha, eu deixei 10 cruzeiros para a Jurema fazer compras (Jurema era nossa empregada) e ela não trouxe nada”. Parava. Dali a pouco, ele continuava: “Você tomou o remédio?”. E depois: “Sua mãe está me preocupando muito, aquela vesícula dela...”. Entenderam? Isso, no meio do ônibus! Na hora, achei aquilo o fim da picada, tive vontade de matar meu pai. Agora, tantos e tantos anos depois, eu penso: um homem que entra num ônibus, vê o filho lá longe e ignora tudo, ignora o mundo, a sociedade, e começa a falar com ele como se estivesse em casa... Eu não teria grandeza para fazer um troço desses. CADERNOS: O sr. ficou mais de 20 anos sem escrever um romance. De repente, uma série de fatores desencadeou Quase memória: um sonho no qual o seu pai lhe entregava um embrulho, a doença terminal de sua cadela Mila, a compra de um computador (até então o sr. só trabalhara com máquina de escrever). Quase memória foi resultado de coincidências, apesar de o pai, no livro, dizer freqüentemente que elas não existem?
Carlos Heitor Cony: É verdade, essas três coincidências geraram Quase memória. Vejam bem, até Pilatos, que saiu em 1974 e marcou meu afastamento da literatura por mais de duas décadas, eu tinha escrito, a partir de 1958, nada menos do que nove romances – um depois do outro, na máquina de escrever. Além disso, havia feito três livros de crônicas e um de contos, uma biografia do Vargas. Quer dizer, tinha trabalhado muito. Aí parei, porque casei com uma mulher bem mais jovem, uma pessoa inteligente, advogada, mas que não gostava muito de vida intelectual, não tinha vida intelectual. Eu vivia muito bem com ela, estava felicíssimo mesmo – e aí descobri que só escrevia quando estava infeliz. Quando voltei a ficar infeliz, com a doença de Mila, fui escrever de novo.
CADERNOS: Como sua mãe reagiu quando o sr. decidiu ir para o seminário?
Carlos Heitor Cony: Apesar de ser religiosa, ela sofreu muito quando eu disse que queria ser padre. Quando fui para o seminário, ela fez de tudo para que a família se mudasse, só para ficar perto do lugar onde eu estava. CADERNOS: A religiosidade familiar pesou na sua decisão de entrar para o seminário?
Carlos Heitor Cony: Não. Minha família não era tão religiosa assim. Mas quando entrei no seminário, meu pai, mais do que minha mãe, passou a achar importante ter um filho que iria ser padre. Era uma coisa importante para ele dizer aos amigos. Por isso abraçou a causa com muito entusias-
CADERNOS: Sua mãe renderia um romance na linha de Quase memória? Como era sua relação com ela?
Carlos Heitor Cony: Eu nunca faria um romance sobre a minha mãe assim, na linha do Quase me35
nição, não fazia o menor sentido. O sr. partilha dessa visão dele, de que a infância está longe de ser uma fase feliz da vida do homem?
mo, em proveito próprio. Meu pai sempre misturou muito as coisas nesse ponto. Quando ele dizia “meu filho não mente”, estava elogiando não o filho, mas a si próprio.
Carlos Heitor Cony: Realmente, a infância é muito mais cheia de frustrações, de experiências impossíveis, de mistérios. É a fase das condições, das barreiras. Se eu fosse representar a infância, representaria com um garotinho querendo empurrar uma barreira, uma muralha enorme. Mas, paradoxalmente – e a trajetória humana é uma grande contradição, é um paradoxo –, a infância é nosso momento mais espontâneo, é a fase em que temos a coragem de fazer as coisas, de dizer as coisas, de perguntar as coisas. Depois a vida vai nos reprimindo, e de castração em castração se produz o adulto.
CADERNOS: Voltando à problemática da figura do pai, ela sempre foi muito forte em sua obra. Quase memória seria apenas uma espécie de ponto culminante dessa tendência, considerando que naquele livro o pai retratado é o seu. Como o sr. explicaria isso? Aliás, essa obsessão pela figura paterna despertou tal atenção de psicanalistas que o sr. já foi convidado a participar de mesas-redondas sobre o assunto com profissionais da área de psicologia.
Carlos Heitor Cony: É verdade. Não sou ligado a Freud nem à psicanálise, mas de fato esse problema da paternidade despertou a atenção de psicólogos para a minha obra. O que eu digo sempre é o seguinte: na tradição da literatura ocidental, a mãe sempre teve muita importância, sempre foi beatificada. Isso, desde a mitologia grega. A mãe sempre foi colocada numa redoma especial, enquanto o pai não. Uma das conseqüências disso é que, em determinados países, uma pessoa que tinha a mãe ofendida, e mate por esse motivo, é absolvida. A mãe, portanto, na literatura ocidental, não é um ser humano que teve uma relação sexual com um homem e depois pariu uma criança. Ela é uma deusa, é Nossa Senhora. Já o pai não passa de um reprodutor. Pois bem, isso sempre me chamou a atenção. Eu nem pensava em escrever O ventre e já tinha uma cisma com essa tendência. Eu gosto muito do Kafka, é evidente, o Kafka de A metamorfose [1915], de O castelo [1926], mas há um livro dele, Carta ao pai [1919], que me impressionou demais. Eu li esse livro quando era jovem, com 22, 23 anos. Kafka tinha uma revolta muito grande contra o pai. Ele acusava o pai por ser judeu, por estar preso ao idioma alemão, por ficar tuberculoso. Eu reparei que a literatura do Ocidente sempre responsabilizava o pai pelos fracassos e enaltecia a figura da mãe.
CADERNOS: O sr. já fez análise?
Carlos Heitor Cony: Não, nunca fiz. CADERNOS: Pelo menos foi ou é leitor de Freud ou de algum outro expoente da psicanálise?
Carlos Heitor Cony: Não li Freud. Ou melhor, li muito pouco. De Freud, eu só li um livro, aquele sobre Moisés – não o último [Moisés e o monoteísmo, 1938], o outro [O Moisés de Michelangelo, 1914]. Wilson Martins: Do ponto de vista estritamente literário, isto é, como criação de um estilo narrativo, Quase memória pode ser classificado como sua obra-prima. É também um livro fora de série no conjunto de seus trabalhos. Aceita comentar isso?
Carlos Heitor Cony: Quase memória, como disse antes, surgiu depois de uma diáspora literária, depois de um tempo em que eu não só deixei de escrever ficção, como não freqüentava livrarias e me recusava a falar sobre literatura. Mesmo profissionalmente eu escrevia sobre qualquer coisa – Roberto Carlos, Pelé, Didi, cinema, Getúlio, Juscelino –, menos a respeito de livros. E me sentia feliz. Quando voltei a me sentir infeliz, conforme disse há pouco, busquei de novo a literatura – e saiu Quase memória.
CADERNOS: Impossível falar dessa relação com pai e mãe sem nos remetermos à infância. Para Alceu Amoroso Lima, a idéia corrente de que a infância é um momento feliz, por defi36
CADERNOS: Otto Lara Resende, que foi conselheiro do Instituto Moreira Salles e tem seu arquivo depositado conosco, dizia que, de certa maneira, ele alimentou um cansaço pela literatura. No seu caso, naquelas duas décadas que separam Pilatos de Quase memória, também ocorreu isso, um “cansaço da literatura”?
Pilatos não explora a explosão formal da narrativa, mas, do ponto de vista do conteúdo, há uma clara pretensão de colocar ali um limite. Além das suas motivações pessoais, o sr. quis fazer o livro daquele modo para pôr em discussão também os rumos do romance como gênero literário?
Carlos Heitor Cony: Não. Eu entendo um pouco o Otto, o caso dele é diferente. O Otto, quando morreu em 1992, não sei se vocês sabem, estava fazendo uma terceira ou quarta revisão de O braço direito [1963]. Parece que ele, depois de rabiscar uma porção de vezes um trecho e recuperar uma palavra, escreveu lá o seguinte comentário: “Só um besta se mete a escrever romance”. O que o Otto queria era a perfeição. Ele sofria muito com isso, ele se torturava. No meu caso foi diferente. A literatura não me torturou – ela me enojou.
Carlos Heitor Cony: Sim. Vejam bem, nos anos 50, eu escrevi um artigo para o “Suplemento Dominical” do Jornal do Brasil chamado “Funeral do romance”. Nele, eu dizia que o romance no século XX tinha feito um ângulo reto, tendo na vertical Joyce e na horizontal Kafka. Na linha do Joyce, haveria uma linguagem toda desarticulada, com uma história articulada. Na vertente do Kafka, o contrário, uma linguagem articulada e um conteúdo completamente louco. Aí surgiu um William Faulkner, por exemplo, que fechou o triângulo, fez a hipotenusa.
CADERNOS: O sr. poderia explicar melhor o que foi esse “nojo” da literatura?
CADERNOS: A síntese?
Carlos Heitor Cony: Eu, em pouco tempo, tive tudo. Era totalmente desconhecido no meio literário, fiz o meu primeiro livro e comecei a ganhar prêmios. Veio o editor mais importante da época e quis publicar o primeiro romance que escrevi na vida. Depois veio o jornalismo. Em 1964 eu assumi uma posição extremamente crítica em relação ao regime militar. Durante algum tempo, o Correio da Manhã, o jornal onde eu trabalhava, foi o único que se bateu contra a ditadura. Lá, eu era o opositor mais violento – acabei preso e processado pelo Costa e Silva [ministro da Guerra na época]. Quando me casei com uma mulher bem mais jovem, comecei a sentir um desprezo pela vida de escritor que foi se tornando cada vez maior. Quis então descarregar esse sentimento num livro antiliterário, num romance que demonstrasse esse desapego, esse nojo que eu estava sentindo pela literatura. Aí, como se sabe, escrevi Pilatos, que considero, conforme já falei tantas vezes, o meu melhor livro – e anunciei que abandonava a ficção.
Carlos Heitor Cony: Sim, porque às vezes ele é Joyce e em outras é tipicamente Kafka. A partir daí, todo romance ficou preso nesse triângulo. Você não consegue sair disso. Pilatos é um romance com princípio, meio e fim, não tem nenhuma agressão ao tempo, mas a história é completamente louca, inviável. Meu limite estava ali. Era o romance que eu queria fazer. É verdade que alguns tentaram escapar do triângulo. Alain Robbe-Grillet, por exemplo. Mas tudo o que ele fez foi colocar um olho vendo esse triângulo – e não virou nada. CADERNOS: O sr. tinha dito antes que descobriu que só escrevia quando estava infeliz. A literatura corresponde, portanto, a um momento específico da alma que se poderia chamar de infelicidade?
Carlos Heitor Cony: Não posso falar pelos outros, só por mim. Eu só fui procurar a literatura por deficiências e carências. A literatura teve sempre para mim esse lado de abrigo, de apoio.
CADERNOS: O que se percebe em Pilatos é que o livro busca extremar o processo narrativo – ele procura levar o romance a um impasse.
CADERNOS: Como estava feliz na época de Pilatos, o sr. parou de escrever. E o leitor, procu37
ra a literatura porque é infeliz? Se estiver feliz não precisa ler, não precisa de literatura, não precisa de arte?
CADERNOS: A referência a Deus nos leva de volta ao seu tempo de seminário. O narrador de Informação ao crucificado [1961], ao desistir de ser padre, diz, ao final do romance: “Deus acabou”. Depois de 40 anos, considerando as tintas autobiográficas do livro, o que o sr. pensa: Deus acabou?
Carlos Heitor Cony: Não é assim. Eu acho que as pessoas sentem uma grande felicidade ao ouvir uma sinfonia de Beethoven ou ver um quadro de Van Gogh ou uma escultura de Michelangelo. Isso, sem dúvida. Agora, Michelangelo, por exemplo, foi uma pessoa extremamente infeliz. Beethoven, na velhice, não tomava mais banho, vivia brigando com o sobrinho, estava surdo – e no entanto fez coisas maravilhosas. Mozart também era um infeliz; com aquele jeitão dele, de brincalhão, era na verdade uma pessoa extremamente infeliz.
Carlos Heitor Cony: Quando você escreve, acaba se traindo – coloca alguma coisa sua dentro do livro. Sobre esse aspecto que vocês levantam, a respeito de Deus, digo o seguinte: existe aquela famosa máxima do Nietzsche de que Deus morreu. Eu nunca ia dizer “Deus morreu”. Não poderia afirmar isso, em primeiro lugar, porque, para morrer, Ele teria de ter existido. Eu considerava Deus um capital grande, ao qual eu tinha um acesso muito controlado. Esse capital eu havia ganho, me ensinaram que eu tinha uma conta em Deus, que eu podia sacar – e eu fui sacando. Saquei durante muitos anos; desde a minha infância, qualquer coisa eu apelava para Deus, Deus, Deus. Até que um dia vi que meus fundos tinham acabado. Recebi aquela cartinha do banco: saldo devedor. De repente eu soube que não tinha mais Deus. Por isso deixei o seminário. Não era a disciplina eclesiástica, por exemplo, que me incomodava. Não foi isso. É que de repente eu descobri que tinha esgotado o meu capital de Deus. Vamos pensar que Deus fosse medido em reais. Eu imaginava que tinha 2 milhões de reais em Deus. Fui gastando, gastando e um belo dia o banco me avisou: “Você está sem saldo; se passar cheque, será considerado estelionatário”. Então minha conta foi fechada. Eu não tinha mais Deus – portanto não podia sacá-lo. Agora, tem uma coisa: uns dez anos atrás, alguém, misteriosamente, fez um depósito no banco e eu recebi uma cartinha dizendo que tinham reaberto a minha conta, com um capitalzinho. Quer dizer, eu podia voltar a sacar; não muito, como antes, mas alguém havia posto alguma coisa lá em meu nome – um tio qualquer, uma leitora, um amigo – e eu podia passar cheque de novo.
CADERNOS: O sr. procura a alegria, a felicidade, na arte, na literatura?
Carlos Heitor Cony: Não digo alegria. A arte me dá muita emoção: Michelangelo, Van Gogh, Goya. Esse tipo de emoção pode ou não levar uma pessoa a ficar menos infeliz. O que interessa é a fruição da arte. CADERNOS: Na Grécia, por exemplo, essa fruição era especial.
Carlos Heitor Cony: A Grécia foi uma sociedade muito peculiar. Lá os deuses se misturavam com as pessoas. São Paulo, quando esteve na Grécia, começou o sermão dele dizendo: “Passeando por vossas ruas, vi que sois o povo mais religioso do mundo, tendes Deus em todas as partes. E para minha surpresa, vi que tendes um altar para o Deus Desconhecido. Eu vim pregar esse Deus que vós desconheceis”. A sociedade grega era tão misturada com a divindade que, já com medo de errar, fez um altar para o Deus Desconhecido, assim como nós temos o túmulo do Soldado Desconhecido. O artista grego era diferente por isso. Já nas sociedades monoteístas, a arte foi sempre infeliz. Quando Moisés voltou do Sinai com a tábua dos dez mandamentos, encontrou o povo adorando o Bezerro de Ouro, quer dizer, a arte – bezerro feito da melhor forma possível e com um material nobre, o ouro. Nessa hora, quebrou a tábua e levou a mão à barriga, porque sentiu náuseas pensando que aquele povo não merecia o Deus único.
CADERNOS: Aquele momento em que o saldo foi zerado coincide com algo como a visão que o narrador de Informação ao crucificado tem da filha do zelador do seminário, toman38
Bem, a primeira coisa que descobriram foi que estavam nus.
do banho de sol nua? Ou seja, o esgotamento de Deus coincide com a descoberta da fruição da vida, a necessidade de fruir a vida, como na lição do carpe diem? Quando o sr. começou a fruir a vida, Deus acabou?
CADERNOS: O seu Deus, esse que o capitalizou dez anos atrás, é o do Velho ou do Novo Testamento?
Carlos Heitor Cony: A gente pode perfeitamente fruir a vida sem se esquecer de Deus. Essa confusão se deve à noção de ascese.
Carlos Heitor Cony: Eu não tenho Deus, nem do Novo nem do Velho Testamento. Eu não estou comprometido, digamos assim, com Deus. Estou comprometido, no máximo, com os santos – que foram homens fabulosos, que existiram de verdade, Santo Antônio, São José. Vejam a história de São José: é lindíssima. Um sujeito simples, noivo de uma menina, chega um anjo e diz: “Olha, Zé, sua noiva vai ter um filho, mas não esquenta a cabeça. Você não vai entender nunca, então, aceita, aceita isso”. E ele aceita.
CADERNOS:Talvez naquele momento da juventude o sr. não conseguisse conciliar a fruição da vida com a presença do divino.
Carlos Heitor Cony: Santo Agostinho dizia que amar a beleza é amar a Deus. Quer dizer, Deus não negaria a fruição da beleza. O problema a que estamos nos referindo é outro, é a questão da castidade. O sexo é pecado ou não? O sexo deve ser disciplinado? O sexo, afinal de contas, emana de Deus? É um erro pensar que a cena da maçã na Bíblia diz respeito a um problema sexual, ou seja, Adão e Eva estavam nus, veio a serpente, eles comeram a maçã, transaram, o Senhor ficou chateado com a indecência deles e os expulsou do Paraíso. Na cena da maçã, Adão e Eva foram seduzidos pelo conhecimento – já entrando aqui no problema filosófico; aí é que estava o pecado.
CADERNOS: E São Francisco na hierarquia desses santos?
Carlos Heitor Cony: São Francisco é diferente. Ele tinha meios para entender. Mas um carpinteiro de Nazaré! Você pode dizer que tudo foi uma balela, só que nem na mitologia grega existe uma história tão comovente quanto a de José, um homem simples que aceita um mistério daquele. 39
CADERNOS: E quanto ao “filho misterioso” que a noiva de José teve?
do aquilo a sério e a longo prazo. Agora, não: todos os meus projetos são de curto, no máximo médio, prazo. E nesse prazo, então, a religião é muito doce. Ela não me julga. Eu vou para ela sem medo (eu tinha muito medo da religião). De um tempo para cá, a religião é uma coisa suave, light, cercada de exemplos de homens que foram tão frágeis quanto eu.
Carlos Heitor Cony: Não sinto muita atração por ele. Como ser humano, o.k., mas se Cristo era um homem-Deus, para mim perdeu a graça. Se fosse apenas homem, eu o colocaria acima de São Francisco, de São Pedro, de Santo Antônio. Mas se tem essa natureza divina, se é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, não me diz nada. Vejam a diferença: José não era Deus, era um homem inculto, não sabia sequer assinar o nome.
CADERNOS: No Rio de Janeiro, há uma forte tradição da presença católica nos meios intelectuais: Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima, Cecília Meireles. Carlos Heitor Cony, de algum modo, faz parte dessa herança?
CADERNOS: Ou seja, o que o sr. admira é a compreensão que José teve do mistério, apesar da sua simplicidade?
Carlos Heitor Cony: Todos esses autores tiveram problemas religiosos voltados para Deus. Eu não me volto muito para Deus, eu me volto mais para a vida dos santos.
Carlos Heitor Cony: Não houve compreensão do mistério, houve aceitação, pureza. A aceitação de um homem que sabia que seria zombado, ridicularizado: “Olha esse velho, com uma menina que está esperando o filho de outro!”.
CADERNOS: Por trás disso, no entanto, existe evidentemente o sentido da transcendência.
CADERNOS: Quando voltou a formar um capital religioso, por assim dizer, o sr. já era devoto dos santos, de Santo Antônio, por exemplo? Vemos que o sr. tem uma imagem dele aí, ao lado do seu computador.
Carlos Heitor Cony: Sim. Eu admito a transcendência, admito que é possível a gente superar a consciência humana, superar a miséria humana, através de uma concepção de vida, de uma visão de mundo transcendente. Isso os santos fizeram maravilhosamente.
Carlos Heitor Cony: Esse Santo Antônio eu trouxe de Pádua e aquele São José [aponta para uma mesa à sua esquerda] veio de Roma. Eu sou devoto de Santo Antônio por herança familiar. Na minha infância, ele era o santo do balão, da batata-doce, do melado. Depois é que descobri o quanto esse santo é popular, tanto no Brasil como em Portugal.
CADERNOS: Com essa ênfase na paternidade que a sua obra apresenta, ela de algum modo está referida a Deus, não? A um “Pai Maior”?
Carlos Heitor Cony: É possível. Então, digamos que eu não seja um filho direto, praticante e fichado, com carteirinha da Igreja Católica – mas meu universo passa por ela, social e politicamente falando. Agora, o que me distanciou muito do cristianismo foi o proselitismo. Quando sinto que há proselitismo, eu me afasto – seja o da Igreja Católica, de um partido político, do Talibã. Qualquer proselitismo me repudia.
CADERNOS: E em relação à religiosidade propriamente dita, ela ressurgiu, dez anos atrás, com algum traço novo?
Carlos Heitor Cony: Antes, minha religiosidade estava ligada a uma escolha de vida. Na infância, quando decidi ir para o seminário, eu não queria ser “meio religioso”, queria ser religioso integral. Minha escolha foi nesse sentido. Mesmo sendo criança, eu tinha consciência disso. Estava levan-
CADERNOS: O sr. continua “um anarquista triste, humilde e inofensivo”, como disse no discurso de posse da Academia Brasileira de Letras, citando Eça de Queiroz? 40
problema do virtual, de sabermos até que ponto o real existe ou vai acabar. De minha parte, eu acho que o virtual é uma forma do real. O homem se conhece numa escala ainda muito pequena. Ele pode ter avançado, e avançou sem dúvida, no âmbito da ciência. Só que em relação a si mesmo, à sua essência, ele ainda está muito atrasado. O homem é uma abelha criando mel; sabe tirar o mel – mas no fundo, no fundo, é uma abelha. Vai chegar o dia em que ele terá um grande encontro consigo mesmo. Quando eu estava no seminário, li uma peça de um colega chamado Marcílio (ele já morreu) que dizia que, no final dos tempos, descobriremos que os deuses somos nós – e, ao mesmo tempo, a sombra de todos nós é Deus. Isso nos leva ao seguinte: “Deus não existe. Ainda”.
Carlos Heitor Cony: Pela tradição, o discurso de posse na Academia precisa ser dividido em três partes. Na primeira, o novo acadêmico fala dos ocupantes mais antigos, depois fala da pessoa que o precedeu na cadeira e por fim fala de si mesmo. Segui a regra, num discurso cronometrado. Na última parte, quando precisei falar de mim, tratei de esclarecer as coisas. Houve, inclusive, cobrança nesse sentido; queriam que eu me explicasse politicamente. Tinha gente que dizia: “Você é um comunista histórico!”. Eu respondia: “O que é isso?! Os comunistas me detestam”. Vinha outro: “Você é de direita”. Eu, na hora: “Como?! Fui preso seis vezes pelo regime militar!”. Percebi que precisava deixar a coisa às claras no meu discurso. Então, está lá: “Diante de tanta miséria, diante de tanto velho sem casa, tanta criança sem pão, diante da falência da ditadura, da democracia, da monarquia e da república, de dar um pão para cada um, um teto para cada velho, só me restou me tornar vagamente anarquista”. E completei: “Não tenho disciplina bastante para ser de esquerda, não tenho firmeza ideológica para ser de direita e também não aceito a posição comodista e oportunista do centro. Sendo assim, só me resta ser um anarquista humilde, triste e inofensivo”. O pessoal levantou para bater palmas.
CADERNOS: Voltando ao virtual versus real.
Carlos Heitor Cony: A longo prazo, sim. Sempre no longo prazo.
Carlos Heitor Cony: Vamos supor que a gente decida fazer um filme virtual. Então a gente pega a Ingrid Bergman, o Oscarito e bola um roteiro misturando Casablanca e as chanchadas. Ingrid e Oscarito já morreram, claro, mas no mundo virtual existem arquivos com imagens dos dois de tudo quanto é jeito. Com o auxílio da tecnologia, a gente faz com que os dois conversem, se beijem, briguem. Agora, eu pergunto: aquela Ingrid Bergman era Ingrid mesmo? Ingrid, quando estava em Casablanca, também não estava sendo manobrada por alguma força externa? É uma pergunta sem resposta. O virtual é “força”, virtu, que deu origem à palavra “virtude”.
CADERNOS: Falou-se há pouco do fim de Deus. Para Jean Baudrillard, a morte de Deus encontra paralelo no que ele chama de verdadeiro crime perfeito: o assassinato da realidade. Segundo Baudrillard, em nosso mundo virtual, o problema do real não pode sequer ser apresentado. O cadáver da realidade não foi e não será encontrado, o que quer dizer que o real não apenas morreu, como seu corpo desapareceu. O sr. concorda com essa postura?
CADERNOS: Em latim, porque em grego ela é completamente diferente. Essa mudança é fundamental, porque a virtude, sendo força, está na esfera do domínio humano. Já o aretê grego é uma coisa que os deuses escolhem – é algo que você pode ter ou não. Apesar disso, se o virtual é um tipo de real, então não existe contradição em se falar num humanismo – deixemos a vontade dos deuses, em relação à virtude, de lado – “virtual”, certo?
Carlos Heitor Cony: Platão foi o, digamos assim, “pai da virtualidade”. Até hoje estamos às voltas com questões como essas que vocês colocaram – o
Carlos Heitor Cony: A virtualidade, no caso, seria um produto do humano, e não o contrário. O efeito seria o virtual, a causa seria o humanismo. Res-
CADERNOS: O sr. vê o homem como um ser capaz de aprender com a História?
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lor, produz carros mais rápidos. Mas não tem melhorado a nossa relação com o outro. Ao contrário: o avanço tecnológico tem criado mais conflito, alimentando a idéia de que uma pessoa viva melhor do que a outra, vista-se melhor, tenha um carro melhor.
ta saber se o humanismo continuará dominando a técnica a ponto de fazer um virtual realmente humano ou se, ao contrário, o que vai prevalecer é um virtual nefasto. CADERNOS: Nas análises dos atentados do dia 11 de setembro, falou-se muito nas antecipações que a virtualidade ofereceu àquele desastre sem precedentes.
CADERNOS: Fala-se em fim da História, em fim das utopias, das ideologias. Sua geração foi fortemente marcada pelo embate das ideologias. Como o sr. vê agora esse quadro?
Carlos Heitor Cony: Claro. A virtualidade está em progresso e o humanismo, em retrocesso. O humanismo hoje é considerado uma coisa do passado, tem uma imagem negativa. Com a virtualidade acontece exatamente o contrário. Por isso, no caso dos atentados, o virtual antecedeu ao real, antecedeu ao grande drama, à tragédia.
Carlos Heitor Cony: Eu pessoalmente nunca fui afetado por essas disputas ideológicas a que vocês estão se referindo. É verdade que faço parte de uma geração marcadíssima pelas lutas ideológicas, mas, do ponto de vista pessoal, nunca me senti afetado por isso. Aliás, o debate ideológico pode se dar de maneira bastante deformada. O que está em choque no Oriente Médio, por exemplo, são visões de mundo – que muitas vezes nada têm a ver com ideologia ou religião. São confrontos entre duas vontades.
Lygia Fagundes Telles: Segundo um antigo escritor russo cujo nome perdeu-se na memória, “só os loucos, os hereges e os visionários são capazes de escrever uma grande obra”. Sei que você é avesso a rótulos, mas agora não resisto a apontá-lo como visionário. Aceita essa designação?
Lygia Fagundes Telles: Na Antigüidade Clássica, Santo Agostinho, esse romano da África (da nossa admiração), preocupava-se muito com “a arte de viver em tempo de catástrofe”. Como você enfrenta a dupla dificuldade de viver em nosso tempo e em nosso país?
Carlos Heitor Cony: Estou com você, Lygia. Temos visões. No início de Fausto [1808], Goethe diz: “Eis-me Visões, sou vosso”. É isso aí, Lygia. CADERNOS: Mesmo confessando um cer to otimismo a longo prazo, o sr. diria que a preocupação ética do humanismo hoje se reveste de novas expressões para poder se apresentar com os conteúdos que lhe são tradicionais? A ética é a responsabilidade do homem em relação ao homem. O sr. acha possível, depois do que aconteceu no dia 11 de setembro, que um sopro de sensatez se apresente ao mundo, ainda que pela exclusão, pela falta de alternativas?
Carlos Heitor Cony: Somos namorados de Santo Agostinho, minha cara Lygia. Ele nos ensinou o mais importante: temos de ser maiores que a catástrofe. CADERNOS: De volta à literatura. Augusto, personagem já maduro de A casa do poeta trágico [1997], se compraz em fascinar a jovem Francesca – ou Mona, como ele a rebatiza – com seu poder de narrador onisciente, capaz de contar a ela nada menos que a “história do mundo” e ensinar-lhe os “truques possíveis para se colocar acima do mundo”. Essa onipotência é mera fantasia, naturalmente, como o romance mostra com seu desfecho. No entanto, e apesar disso, essa não poderia ser também a fantasia do escritor, que tem o poder
Carlos Heitor Cony: A “sensatez”, hoje, é criar coisas inúteis. Eu pergunto: o que a sociedade tecnológica, com seus avanços extraordinários, tem feito, de fato, para melhorar o homem interiormente? A tecnologia melhora a nossa visão, faz um tecido mais fresco para a gente agüentar o ca42
de nomear, criando assim um mundo vicário onde ele próprio reina soberano?
acabaria pedindo que eu contasse a melhor história do mundo.
Carlos Heitor Cony: Sim. Todo escritor tem complexo de Adão, de dar nome às coisas. Deus fez o mundo e chamou Adão para dar nome às coisas. Isso é o que qualquer escritor gostaria de fazer. Ele tem, portanto, essa frustração. Quando pode fazer isso, o escritor se esbalda; afinal, de certo modo, esse é um poder divino. Em A casa do poeta trágico, Francesca dá a Augusto essa oportunidade.
CADERNOS: Como se conciliam esses auto-retratos tão diferentes – do João Falcão de Informação ao crucificado, por exemplo, e do Augusto de A casa do poeta trágico? Uma vida inteira separa os dois.
Carlos Heitor Cony: Aí nós vamos entrar numa discussão de teoria literária. Eu não digo que os personagens sejam clones do autor, mas são pastiches dele. É o autor se escondendo de uma coisa ou de outra. Você pode sentir isso em Dostoiévski. Vocês hão de convir que Ivan Karamazov é o Dostoiévski do passado. No meu caso, eu já tendo um pouco mesmo para o gênero memorialístico. Tenho modelos ilustres. O embrulho de Quase memória tem a mesma função da madeleine no chá de Proust. (Aliás, eu nem precisei abrir o embrulho para desembrulhar todas aquelas lembranças do pai em Quase memória.) E, bem, por falar em companhias ilustres, Flaubert tem aquela frase famosíssima: “Madame Bovary c’est moi”.
CADERNOS: Ainda falando de A casa do poeta trágico, vale lembrar que a geografia do romance nada tem de casual. Em sua busca obsessiva de satisfação, o narrador – apesar de nosso contemporâneo – professa o mesmo epicurismo que se atribui aos habitantes de Pompéia, cidade romana soterrada pelas cinzas do Vesúvio há quase 20 séculos, em cujas ruínas tem lugar o episódio nuclear da narrativa. Mas se o epicurismo, ao qual se deve acrescentar uma pitada de ceticismo, foi a tinta mobilizada para esboçar o personagem, o resultado mais parece um auto-retrato nostálgico, deslocado, deliberadamente amaneirado. Essa leitura lhe parece possível?
CADERNOS: Em Quase memória, o cheiro tem um papel fundamental para atiçar as lembranças do narrador. Em sua crônica de hoje [26.10.01] na Folha de S.Paulo, o sr. volta ao assunto. O olfato é o sentido mais importante para o sr.?
Carlos Heitor Cony: Dizem que todo romance é uma biografia psíquica do autor. Pois nesse caso há, isso sim, do mesmo modo que havia em Quase memória. A casa do poeta trágico nasceu a partir de um fato que eu vivi. Eu estava viajando de navio e ele parou em Nápoles, depois de 12 dias de mar. Eu não ia descer lá, ia ficar em Gênova. Pois bem: eu estava lá em cima e vi uma menina descer em direção à alfândega. Pensei: “Essa menina vai saltar e vai olhar para trás; eu, pelo menos, faria isso: depois de 12 dias naquele navio grande, naquele cisne enorme, eu olharia para trás; ela, com certeza, fará isso”. Só que a menina não olhou. Fiquei furioso. Desci, deram-me uma senha para eu entrar de volta, mas não a vi mais. Agora, vamos supor que algum guarda a tivesse obrigado a abrir as malas e eu a alcançasse. Quando chegasse perto dela, o que eu iria dizer? Esse foi o ponto de partida. Imaginei que, se me encontrasse com ela, iria impressioná-la de tal modo que aquela moça
Carlos Heitor Cony: Dizem que ele é o sentido mais legítimo, e eu concordo, porque você não pode tapeá-lo. Eu não prestava muita atenção nisso, mas agora me dou conta. Outro dia, quando fui a Icaraí fazer fotos para esta edição dos CADERNOS, senti lá todo o cheiro da minha infância. Mas a lembrança mais forte que tenho nesse terreno é da minha época de seminário. Havia chegado um aluno novo e um padre foi levá-lo para o quarto. Lá, pôs a mala do menino em cima da cama e começou a examiná-la. Quando encontrou um sabonete Eucalol, ele o colocou bem perto do nariz, aspirou forte e disse: “Ah, esse sabonete, eu me lembro da minha primeira missa!”. Fiquei pensando o que uma coisa tinha a ver com a outra e cheguei à conclusão de que só poderia ser porque, para a primei43
bém estiveram na intimidade com o Diabo. Para mim, o Demônio é a encarnação da fúria, da força, não vou dizer do Mal, mas da força negativa. Se você pegar a força positiva sem a força negativa, ela não é nada.
ra missa, ele devia ter tomado um bom banho na casa da mãe com aquele sabonete – e ficou a lembrança do Eucalol guardada na memória. CADERNOS: O que a figura do Demônio, que aparece, por exemplo, num de seus livros recentes, O piano e a orquestra, de 1996, significa para o sr.?
CADERNOS: O sr. falou numa “conta Deus”, que de dez anos para cá foi reativada. Pois bem, no período em que ela esteve fechada, a do “concorrente” se manteve ativa? Ou seja, em sua fase de felicidade plena, o sr. acreditava no Demônio?
Carlos Heitor Cony: Como personagem literário, ele é bem mais rico que Deus – haja vista o que fizeram com o Diabo autores como Goethe, Thomas Mann, Guimarães Rosa. Eu acho que todo livro precisa ter um lado demoníaco, um espaço com alguma coisa demoníaca, nem sempre associada ao mal.
Carlos Heitor Cony: Enquanto o banco de Deus é uma instituição séria, que na hora em que eu fiquei sem fundos me comunicou isso, o banco do Diabo é desonesto; lá eles não avisam nada, deixam você gastar sem poder.
CADERNOS: O sr. está falando do rendimento poético do Demônio. Mas, se pensarmos nos textos sagrados, o grande rendimento literário está em Deus.
CADERNOS: Hoje, como é sua relação, por assim dizer, formal com a religião? O sr. vai à missa, por exemplo?
Carlos Heitor Cony: Só que, se a gente olhar Deus, automaticamente vai pensar também em seu oposto, o Diabo.
Carlos Heitor Cony: Vou pouco à missa.
CADERNOS: Em termos religiosos, o sr. teme ou já temeu o Demônio?
CADERNOS: Seus filhos foram batizados?
Carlos Heitor Cony: Sim, mas foi uma atitude mais cultural do que religiosa.
Carlos Heitor Cony: Muita gente diz que Deus não existe, que Ele é apenas uma possibilidade, que ainda vai existir – ao passo que o Demônio é uma realidade. Dentro da dicotomia que marca a natureza – norte e sul, calor e frio, luz e trevas –, se há o princípio do Bem, que seria Deus, para os pratos estarem equilibrados precisaria haver o Mal. A idéia do Demônio é muito antiga – e não só na tradição ocidental. Aliás, as primeiras imagens do Demônio vêm do Oriente.
Affonso Romano de Sant’Anna: Lembro-me de uma conversa com você e [o publicitário] Mauro Salles, em Recife, durante um congresso da seção local da UBE [União Brasileira de Escritores].Vocês falavam de fé. Lamento não ter anotado o que ouvi. Era uma fervorosa exposição de almas. Era você ou o Mauro que dizia andar sempre com um crucifixo no bolso?
Carlos Heitor Cony: O Mauro é uma pessoa religiosa, altamente religiosa, e reza todo dia para que eu me converta.
CADERNOS: Guimarães Rosa chegou a dizer que teve visões do Demônio.
Carlos Heitor Cony: Se o Rosa, que foi meu vizinho no Posto 6, dizia isso, eu só posso acreditar. Do mesmo modo, se você for à casa do Lutero, vai encontrar lá a parede manchada com a tinta que ele jogou no Diabo – quer dizer, ele viu o Demônio, Lutero não ia mentir. Alguns santos tam-
CADERNOS: Não seria uma reconversão?
Carlos Heitor Cony: No meu caso, não. Depois daquela fase em que eu tentei ser religioso, passei a me considerar agnóstico. Fiz uma opção de real44
CADERNOS: Essa dúvida tem se mantido inabalável ao longo de sua vida ou, à medida que o sr., de certo modo, vem se pacificando com a religião, ela está se atenuando?
mente aceitar a minha vida sem a intervenção de nenhuma força metafísica: um mundo sem Deus. Agora, de uns dez anos para cá, conforme eu disse antes, talvez até pela minha ligação com os santos, talvez pelo desgaste da idade, que vai atenuando as nossas divergências, não posso dizer que eu seja um crente absoluto, não tenho condições ainda de viver religiosamente – mas estou bem próximo disso.
Carlos Heitor Cony: Esse problema de Deus não tem a ver com religião. Não estou discutindo isso sob esse ponto de vista. Agora, pessoalmente, eu acredito na mortalidade, num fim natural, algo previsto pela natureza. Portanto, nós só sofreremos aqui o que tivermos de sofrer e gozaremos o que tivermos de gozar.
CADERNOS: E a morte? O sr. tem medo dela?
Carlos Heitor Cony: Bem, a morte, como sabemos, é o grande problema, a única coisa inevitável para todo mundo, é óbvio. Mas saber disso não nos consola. Para mim, dá um certo grau de responsabilidade – eu vou morrer porque estou vivo; tenho muitas contas a prestar. Na minha fase atual, a morte não é um problema metafísico, é apenas físico. O que me preocupa é como será a minha morte. Eu me faço sempre essa pergunta. Como vou morrer? Vou cair da janela de um hotel, vou morrer queimado num incêndio, vou morrer de câncer? Essa incerteza, a certeza da incerteza, ou melhor, a incerteza da certeza é que me preocupa, me dá medo. Mas insisto: é um medo estritamente físico.
CADERNOS: Ou seja, o jogo começa e termina aqui.
Carlos Heitor Cony: Vamos botar um pouco de Platão nisso. Vamos colocar uma lente bastante grande no que acontece aqui e projetar em 35 milímetros, numa tela de cinerama, uma tela de 10 por 5 metros. Você bota a luz aqui e isso quer dizer que o que acontece aqui fica muito grande, mas, no fundo, é sempre a mesma história. Acho que é em O ventre que eu digo que nada pode ser medido a não ser quando se tem a horizontalidade do chão. CADERNOS: Santo Tomás de Aquino dizia que a razão é apenas uma imperfeição da inteligência. Não se está procurando, nesse caso, uma racionalidade onde ela simplesmente não deve entrar?
CADERNOS: Nenhuma dúvida, porém, quanto à transcendência?
Carlos Heitor Cony: Ou Deus existe e é exatamente da forma como todos os religiosos acreditam, um ser soberano, perfeito, justo, que vai me julgar bem, ou Deus não existe e ponto.
Carlos Heitor Cony: Bem, a religião é uma questão sentimental. Eu vejo a religião mais pelo plano 45
CADERNOS: Já que se está falando de modelos literários que podem provocar, para usar a expressão de Harold Bloom, a “angústia da influência”, quais seriam os outros autores que serviram de referência à sua obra?
da emoção do que pelo da inteligência. Ser um crente intelectual é não ser crente. Agora, a inteligência é quase um sinal de emoção. Frei Betto: Suas obras se comparam, a meus olhos, a certos tapetes orientais que usam fios resistentes e coloridos para estampar situações trágicas na vida. Há uma mescla de desesperança do humano com, ao mesmo tempo, a ânsia de que haja alguma coisa além do humano. É consciente essa estreita janela aberta ao transcendental?
Carlos Heitor Cony: É impossível, claro, viver sem influências. Peguem aí os maiores sábios do mundo – todos eles sofreram influência de alguém. Agora, existem influências escolhidas e outras não. No meu caso, Sartre foi escolhido e Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto, três cariocas, não.
Carlos Heitor Cony: Não. É sentimental. Se fosse consciente, eu optaria pela não salvação – mas sentimentalmente me vejo obrigado a abrir uma porta para a esperança.
CADERNOS: E Nelson Rodrigues?
Carlos Heitor Cony: Na apresentação de Babilônia! Babilônia! [1978], meu livro de contos, Paulo Francis fazia um paralelo entre nós e reclamava um ensaio que tratasse desse tema.
CADERNOS: Portanto, apesar de tudo, o “princípio esperança” funciona para o sr.?
CADERNOS: A existência desses “pais autorais” não dificulta – mais do que facilita – a obra de cada novo escritor, como se fossem sóis ao contrário? Em vez de iluminar caminhos, não tirariam luz dos “descendentes”?
Carlos Heitor Cony: O problema do homem é esse – a esperança. Pensem na frase mais radical da Divina comédia [1321]. Deixar a esperança de lado antes de entrar no Inferno diz tudo. O Inferno não é um lugar de suplício, não tem fogo, não tem caldeirão. É apenas um mundo sem esperança. Se você perde a esperança, torna-se um residente do Inferno, com direito a green card. A esperança dá ao homem o dom de suportar o mundo. Basta você não ter esperança para estar no Inferno.
Carlos Heitor Cony: Isso pode acontecer. C A DER NOS : Cos tu ma cau sar es pé cie sua afirmação de que faltam paradigmas nacionais para a literatura brasileira – uma obra que nos una e nos condicione. Nem Machado teria alcançado tal estatura. O sr. poderia explicar por quê? E Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade, não foram modelos para a produção literária nacional no século XX?
CADERNOS: Não ter esperança é mergulhar naquela angústia sartriana que marcou tanto a sua geração?
Carlos Heitor Cony: É verdade, fomos muito influenciados pelo existencialismo. Quando eu deixei o seminário, o filósofo que prevalecia era Sartre. O ventre é essencialmente influenciado por ele. Mas eu deixei de aceitar Sartre quando ele assumiu aquelas posições engajadas, quando ele se esquerdizou demais e começou a entrar numa luta muito concreta.
Carlos Heitor Cony: Eu já disse e repito que nos falta um Sócrates. Ele pode estar nascendo hoje, quem sabe? O fato é que nos falta alguém que seja realmente o vértice no qual vão desaguar todos esses gigantes da literatura brasileira que vocês acabaram de citar – e também os não gigantes, porque a vantagem de Sócrates é que ele não pegou só os grandes filósofos que o antecederam, pegou todo o lixo anterior.
CADERNOS: O Jean-Paul Sartre que o sr. tomou como modelo foi mais o escritor ou o filósofo?
Carlos Heitor Cony: O Sartre romancista. 46
CADERNOS: Numa entrevista ao poeta Bruno Tolentino, concedida por ocasião do lançamento de Romance sem palavras [1999], o sr. parafraseou Millôr Fernandes ao assegurar que é um escritor sem estilo. Disse preferir a técnica, que é mais segura, já que o estilo seria algo “para gente grande, Flaubert, Joyce, Proust”. O sr. poderia comentar essa afirmação?
CADERNOS: Essa lacuna, o fato de não termos uma antena da raça na forma de um escritor extraordinário, genial, estaria ligada à dúvida que persiste quanto à identidade nacional?
Carlos Heitor Cony: Essa personalidade, é claro, não se iria formar aleatoriamente. Do ponto de vista genético, esse grande nome já tem um DNA poderoso. Eu acho que um dia chegaremos lá, mas este “chegaremos lá” está dependendo desse fundador, desse Sócrates. Por enquanto, estamos na fase pré-socrática.
Carlos Heitor Cony: Eu realmente acredito que estilo seja para gente grande. Vejam o Raul Pompéia. Eu fiz uma adaptação de O Ateneu [1888], trazendo-o para uma linguagem mais contemporânea. Pompéia tem estilo. No caso dele, em vez de dizer que o estilo é o homem, o correto seria falar que o homem era o estilo. Claro que eu gostaria de ser Flaubert, de ser alguém que, por exemplo, escrevesse um parágrafo por mês. Mas o meu DNA não dá para isso. Escrevi neste ano dois romances ao mesmo tempo, O indigitado, já lançado, e A tarde da sua ausência [leia trechos na seção Inéditos]. Se eu fosse buscar o estilo, teria de nascer outra vez; já a técnica me sai naturalmente, devido, talvez, à agilidade.
CADERNOS: Não se pode esquecer que, para alguns pensadores, a Grécia socrática era decadente.
Carlos Heitor Cony: Sim, a decadência começa depois que você atingiu o ponto mais alto. A decadência da Grécia pode ter começado com Sócrates, mas foi uma decadência que trouxe Platão, por exemplo. CADERNOS: Pietro Maria Bardi dizia que o Brasil precisa aprender a ter paciência, pois é um país ainda em formação.
CADERNOS: O sr. insiste, portanto, que um livro como Quase memória, considerado por muitos sua obra-prima, é sobretudo técnica, daí porque qualquer pessoa mais ou menos dotada poderia escrevê-lo?
Carlos Heitor Cony: A palavra-chave é DNA. Nós temos um DNA, que vai formar um cromossomo, o tecido e assim por diante. CADERNOS: E quando chegar ao ápice terá início a decadência.
Carlos Heitor Cony: Eu realmente acredito nisso, assim como acredito que Pilatos seja um livro só meu. Por isso achei que depois dele não precisava fazer mais nada.
Carlos Heitor Cony: Vou contar uma coisa para vocês. No meu primeiro casamento, eu tinha cunhados muito jovens, que gostavam de brincar o Carnaval e cheirar lança-perfume. Um dia, eles me ofereceram e eu aceitei. Dei uma cheirada, gostei e, quando percebi, já havia passado um tempo e o pessoal estava lá, todo preocupado, me sacudindo. Assim que saí daquele estado, lembrei que tinha ouvido uma voz dentro de mim dizendo: “A cada pólo oposto corresponde uma grandeza proporcional”. Então é assim: vamos chegar lá e depois teremos a decadência – que pode abrigar até um Platão, um Aristóteles. A cada pólo oposto corresponde uma grandeza proporcional.
CADERNOS: O sr. falou há pouco de sua inclinação para a memorialística. A que se deve isso?
Carlos Heitor Cony: Eu não vou dizer que tenha procurado a memorialística por uma questão de facilidade, por exemplo. A memorialística, no fundo, é uma questão de gosto – não é por acaso que tenho dois livros com a palavra memória no título, Matéria de memória e Quase memória. Realmente aprecio essa vertente, embora a memorialística seja acusada, por alguns, de subliteratura. 47
CADERNOS: Um livro por excelência memorialístico é Informação ao crucificado, escrito sob a forma de diário. Aquele diário existiu? E, tendo existido, foi mesmo a base para o romance?
Carlos Heitor Cony: Não. Em geral, não gosto de ouvir música enquanto escrevo. CADERNOS: A certa altura de Informação ao crucificado, o narrador, em plena crise, diz que “a poesia não adianta”. Essa é uma opinião sua? O sr. lê poesia?
Carlos Heitor Cony: Eu mantinha um diário, sim, no seminário, mas o destruí. Quanto a Informação, ele era, originalmente, apenas parte de um projeto maior, A paixão segundo Mateus, uma trilogia cujo segundo volume seria Missa para o papa Marcello e o terceiro, outro livro que ficou sem título. O projeto gorou, porque eu acabei publicando a primeira parte e a partir daí me envolvi com outros livros. Mas ainda pretendo fazer a Missa, aliás, já o comecei, só que para concluí-lo preciso primeiro resolver alguns problemas relacionados àquele banco [ri].
Carlos Heitor Cony: Eu li muita poesia. Nunca fiz poesia. Quer dizer, em Informação ao crucificado há um poema meu, o hino oficial do seminário – são versos meus; mas nunca fui atraído pela idéia de me tornar poeta. Agora, antes de ler prosa, eu li muito Manuel Bandeira, meu poeta predileto, li Drummond, claro, García Lorca, Horácio (aliás, com Horácio eu me identifico, tem um lado dele que é muito meu). Mas o grande poeta para mim, realmente, é Manuel Bandeira.
CADERNOS: A propósito de projetos inacabados, o sr. também iria escrever uma biografia de José Lins do Rego, não? O projeto está de pé?
CADERNOS: Como o sr. vê a ligação entre poesia e religião?
Carlos Heitor Cony: Não. A Academia instituiu um concurso para homenagear o Zé Lins e eu acabei entre os jurados.
Carlos Heitor Cony: Do ponto de vista vulgar, todas as religiões são muito poéticas. Qualquer religião tem traços poéticos, mas talvez o ponto mais alto da poeticidade religiosa esteja mesmo no catolicismo, naquele momento em que o padre consagra o pão, consagra o vinho e depois diz: “Eis o mistério da fé”. Ali, realmente, você continua vendo o pão, o vinho, mas através do mistério da fé sente que é o corpo e o sangue de um Deus.
CADERNOS: De volta à Missa. Trata-se, é claro, de uma referência à Missa Papae Marcelli [c. 1561], do romano Giovani Pierluigi da Palestrina [c. 1525-1594]. Em suas poucas semanas de papado, Marcelo II revelou o desejo de reformar a música clássica, de maneira que se chegou a dizer que a composição de Palestrina teria sido escrita para persuadir o Concílio de Trento a não banir a polifonia. Ao que parece, do ponto de vista do conteúdo, o seu romance também tratará de uma mudança – espiritual, no caso. E no plano da técnica narrativa?
CADERNOS: Portanto, pelo prisma do mistério, religião e poesia estão juntas?
Carlos Heitor Cony: Estão. É o ponto em que forma e essência se unem. Eis o mistério da fé. CADERNOS: Quando falou de suas leituras poéticas, o sr. não mencionou os poetas católicos Jorge de Lima e Murilo Mendes.
Carlos Heitor Cony: Aí, não. Tenho visto tanta experimentação que vou apelar para a simplicidade. Interessa-me muito mais chegar à minha conclusão quanto à verdade espiritual. Tenho esse desencontro básico na vida: afinal, eu sou ou não um crente? Tenho ou não uma alma?
Carlos Heitor Cony: Conheci Jorge de Lima quando ele era vereador. Eu o vi corrigindo A invenção de Orfeu [1952], que tem alguns dos versos mais bonitos da literatura brasileira. A religiosidade do Jorge era bastante nordestina, muito telúrica. O Murilo era mais complicado, mineiro.
CADERNOS: O sr. ouve Palestrina quando está escrevendo esse romance? 48
Frei Betto: Há uma forte carga afetiva no modo como você descreve personagens, como se o autor tivesse uma ligação atávica com eles, dando a impressão de que – para usar uma expressão da moda – clonou-os do real para a ficção. Atrás de seus personagens há sempre pessoas reais?
CADERNOS: Depois de deixar o seminário, o sr. entrou para a Faculdade Nacional de Filosofia, mas também a abandonou – no segundo ano. Por quê?
Carlos Heitor Cony: Em 80% deles, sim. Em Quase memória, o narrador sou eu e o personagem principal, meu pai. Já no caso de Pilatos isso não acontece. Em Pessach: a travessia [1967], todos os personagens têm por trás deles uma figura real.
Frei Betto: Em seus romances, o sexo é tratado como religião, algo que requer rituais e celebrações, promessas e comunhões, rupturas e dores, e a religião – parafraseando São Paulo – como um espinho no espírito. A religião é como uma rolha que o menino quer afundar na banheira, mas basta largá-la no fundo para que ela emerja e permaneça na superfície.Você tem esperança de que conseguirá afundar a cortiça?
Carlos Heitor Cony: Estava aprendendo mal o que já havia aprendido bem no seminário.
CADERNOS: O personagem que não é real, com exceção de Pilatos, vira apenas um acessório, um andaime?
Carlos Heitor Cony: Havia um poeta em Portugal que ficou furioso e processou Eça de Queiroz porque achava que estava retratado num dos personagens dele. Chegou a entrar na Justiça para processar o romancista por danos morais. Sabem o que Eça respondeu? “Saia do meu personagem!” Um personagem tirado da vida real muitas vezes nem sequer é verossímil, enquanto outro, completamente fictício, é bastante realista. No caso de Informação ao crucificado, citado há pouco, metade é vida real, metade ficção.
Carlos Heitor Cony: Eu acho que joguei a rolha fora e esvaziei a banheira. CADERNOS: Em Informação ao crucificado, a questão sexual é bem menos presente do que se poderia esperar numa narrativa daquela natureza. Isso ocorre porque, em seus anos de seminário, o problema teve exatamente aquela dimensão ou houve um cuidado de sua parte em não destacar um assunto tão polêmico?
Carlos Heitor Cony: Isso aconteceu porque, conforme eu disse antes, Informação ao crucificado era apenas a primeira parte de um grande projeto. Nos outros volumes da minha pretendida trilogia, eu pegaria os personagens em outra fase da vida. O narrador tentaria tirar do Mateus a idéia de ser padre – lembrem-se de que a trilogia deveria se chamar A paixão segundo Mateus.
CADERNOS: Aqueles que foram tirados da vida real ainda têm contato com o sr.?
Carlos Heitor Cony: Alguns sim. CADERNOS: Por exemplo?
Carlos Heitor Cony: O “Eduardo” [Koaik], que vem a ser o bispo de Piracicaba. Ele, inclusive, está deixando o posto agora, só aguarda que o papa nomeie seu sucessor. Outro dia ele ligou para mim. Um é o amigo mais antigo do outro.
CADERNOS: De qualquer maneira, há em Informação ao crucificado um desnudamento espiritual bastante corajoso.
Carlos Heitor Cony: Quando a gente vai escrever, uma das primeiras coisas que acontecem é a perda do pudor – a menos que você decida se colocar numa posição de cautela. Mas aí, fatalmente, você acaba se traindo.
CADERNOS: Ele apoiou, na época, sua decisão de deixar o seminário?
Carlos Heitor Cony: Sim, ele acabou entendendo. 49
CADERNOS: É curioso notar como alguns de seus romances são extraordinariamente ambientais ou cenográficos, se podemos dizer assim. É o caso, por exemplo, de Antes, o verão [1964], cuja trama se desenvolve numa casa em Cabo Frio. Altaneira, isolada na península, a construção é fustigada por ventos incessantes, pela areia e pela salsugem do mar. A tal ponto a evocação da natureza inclemente ganha corpo que o andamento da narrativa, o ritmo dos diálogos e talvez mesmo o comportamento dos personagens acabam afetados por essas forças primais. Haveria aqui uma infuência do cinema?
CADERNOS: O tema da telenovela remete à criação de diálogos. O sr., como foi dito, sentiu atração pela escrita ainda na infância porque tinha um problema de fala. Curiosamente, os diálogos são um ponto forte da sua ficção. Existe um cuidado especial de sua parte em relação a esse aspecto?
Carlos Heitor Cony: Não, o tratamento é o mesmo de outros pontos. C A DER NOS : Em que me di da o jor na lis mo orientou a sua produção ficcional – e eventualmente continua orientando? A referência não diz respeito apenas aos aspectos formais do texto, mas também aos próprios temas que o interessaram e interessam como ficcionista.
Carlos Heitor Cony: Tenho a impressão de que a gente vê tanto cinema que acaba absorvendo alguma coisa da técnica dele. Vocês citam Antes, o verão como um romance que apresenta essas influências – o que é verdade, tanto que ele foi adaptado para o cinema. Mas eu, na hora de escrevê-lo, tentei pegar mais o lado da reflexão do que do cenário.
Carlos Heitor Cony: O jornalismo me deu unicamente velocidade e concentração. Foi só isso – ele não me deu nada nem quanto à técnica nem em relação a temas.
CADERNOS: Como anda o interesse dos cineastas por seus romances?
CADERNOS: Como é sua rotina quando está escrevendo ficção?
Carlos Heitor Cony: No início, eu era muito procurado para adaptações. Além de Antes, o verão, Matéria de memória também foi filmado. Depois, o ritmo caiu, eu também me afastei. Mas logo que lancei Quase memória o interesse voltou. Acabei vendendo os direitos do livro para Ruy Guerra e Marisa Leão.
Carlos Heitor Cony: Eu sou do tipo que era o Jorge Amado. Passo um tempo sem fazer nada. E, de repente, não atendo ninguém – até acabar o novo romance. Tenho medo de interromper um livro. Romance interrompido é romance perdido. Às vezes acontece de eu estar cansado, comecei a escrever às 3 horas da tarde e são 3 da manhã. Parei para jantar, fumei um charuto. Estou cansado, não agüento mais. Aí, desligo o computador e vou dormir – mas vou dormir com medo. Será que vou terminar amanhã?
CADERNOS: Nos anos 60, o sr. chegou a escrever uma telenovela; mais tarde, colaboraria em outras. E hoje, aceitaria convite nesse sentido?
CADERNOS: E no caso das crônicas?
Carlos Heitor Cony: Em 1965, fui convidado pelo Walter Clark para escrever uma novela na TV Rio. Fiz então a Comédia carioca. Trinta e sete capítulos foram ao ar e aí veio uma briga com a censura e tive de sair. Chamaram o Oduvaldo Viana para terminar a novela. Foi minha primeira e única experiência novelística. É um trabalho muito grande. São 26, 30 laudas por dia. Hoje, a maioria dos autores mais experientes tem auxiliares.
Carlos Heitor Cony: Faço em cinco minutos. CADERNOS: Quando o sr. começou, já era rápido assim?
Carlos Heitor Cony: Eu era rápido, mas não como sou hoje. Meu negócio é o seguinte: ou eu faço rápido, ou não faço nunca. 50
CADERNOS: O sr. tem dito que encara com tranqüilidade as encomendas que recebe para escrever ficção. No seu caso, existe diferença entre um romance escrito a pedido do editor e aquele que sai, digamos,“por uma necessidade interior”?
CADERNOS: A pressão do tempo é um bom combustível?
Carlos Heitor Cony: No jornalismo, vocês sabem, a gente trabalha sob pressão. Não é vantagem nem desvantagem. É um fato. Numa sexta-feira, cheguei à redação da Manchete e o motorista já foi falando: “Vou levar o sr. para o aeroporto”. E eu: “Que aeroporto?”. Ele disse que eu ia viajar para Roma (o papa estava vindo para o Brasil). “Mas e a minha roupa?”, perguntei. “Vai sem roupa mesmo!”, respondeu o motorista. E eu fui.
Carlos Heitor Cony: Setenta por cento das obras de arte ocidentais foram feitas por encomenda. Vou dar exemplos aleatórios de criadores que trabalharam por encomenda: Mozart, Michelangelo, Da Vinci, Dostoiévski. Sinceramente, não sei se o 51
la de seus familiares, apesar de toda a retaguarda que um jornalista e escritor de sua importância imaginaria ter mesmo num regime de exceção?
fato de ser uma encomenda leva você a fazer o seu pior ou o seu melhor livro. CADERNOS: Pessach talvez seja o seu romance em que a realidade imediata se apresenta de maneira mais explícita. Por que o sr. sentiu necessidade de escrevê-lo?
Carlos Heitor Cony: Houve sim esse momento. Foi ainda em 1964. Um dia em que eu não estava em casa a polícia invadiu meu apartamento. Eles bateram nas empregadas, revistaram tudo – chegaram a furar o teto, que era rebaixado, para ver se não tinha arma. Quando cheguei e vi aquilo, fiquei com muito medo. Eu, na verdade, já vinha recebendo ameaças. Na manhã seguinte, o telefone tocou, era do Correio da Manhã, avisando que um grupo de militares iria me seqüestrar. Comecei a tremer. Eu morava no quarto andar de um prédio em Copacabana. Desci até o primeiro, que ficava sobre pilotis, pulei para o edifício vizinho e fugi. Passei duas semanas escondido em casa de amigos. Em 1966, fui avisado por várias pessoas de que o regime queria, de novo, me pegar. Fui me esconder na fazenda da mãe do Marcio Moreira Alves, Branca Alves, na divisa entre Rio e Minas. Passei um mês lá.
Carlos Heitor Cony: Eu quis tentar imaginar, dentro daquele cenário conturbado, qual seria a reação do Partido Comunista, que era contra a luta armada, se determinados grupos partissem, como acabariam partindo, para a guerrilha. Wilson Martins: Gostaria que expusesse sua posição de princípio no que se refere às relações entre o romance e a política. Em que medida e de que forma a idéia política pode se incorporar à tessitura da intriga e da ação?
Carlos Heitor Cony: Pode se incorporar de várias maneiras. Os exemplos se multiplicam – em muitas direções. Pense em Stendhal, Balzac, Graciliano. A intriga política é um dos pilares da novelística ocidental.
CADERNOS: O sr. nunca teve a pretensão de se candidatar a um cargo público?
CADERNOS: Qual era a sua posição, afinal, nos anos 60 a respeito do engajamento da arte e qual é ela hoje?
Carlos Heitor Cony: Em 1966, Tancredo Neves foi a minha casa e me convidou para ser candidato a deputado federal. Eu disse não, mas levei Tancredo até a redação do Correio da Manhã e propus a candidatura do Marcito [Marcio Moreira Alves], que acabou eleito, junto com mais três do jornal [Hermano Alves, como deputado federal, Fabiano Vilanova e Alberto Rajão para a Assembléia do Estado da Guanabara].
Carlos Heitor Cony: Há determinados momentos em que a arte tem de ser engajada, pode e deve ser engajada. Mas isso não pode acontecer sempre. Em momentos críticos, por exemplo, na época do nazismo na Europa, compreende-se a posição de um Camus, de Sartre. Pode-se compreender Jorge Amado em Os subterrâneos da liberdade [1954], Graciliano e suas Memórias do cárcere [1955]. O fato de ser engajada não quer dizer que a arte seja melhor ou pior. A obra engajada pode ser uma maravilha ou uma porcaria. Eu considero Antes, o verão, que não tem nada de política, um dos meus melhores livros – e eu o escrevi em 1964.
CADERNOS: Como foi o seu auto-exílio?
Carlos Heitor Cony: Em 1967, fui a Havana para participar do júri do Prêmio Casa de las Américas e acabei ficando quase um ano em Cuba. Quando voltei, fui preso já no aeroporto.
CADERNOS: O governo militar o prendeu em seis oportunidades. Além disso, fez ameaças à sua família. Houve um momento em que o sr., de fato, temeu por sua integridade física e pe-
CADERNOS: O longo silêncio literário entre Pilatos e Quase memória faz lembrar o paradoxo formulado por Chester ton, segundo o 52
qual há duas maneiras de ficar em casa. Uma é sair, dar a volta ao mundo e voltar para casa. Outra é nunca sair de casa. Como foi, no seu caso, o passeio pelo mundo antes de voltar à literatura? Quais transformações esse périplo impôs ao escritor retornado? Parece que o sr., de fato, não saiu da literatura, cer to?
Carlos Heitor Cony: Eles me serviram de motivação, principalmente no início. E existem premiações em dinheiro, o que, claro, é sempre muito bom. CADERNOS: E o Nobel?
Carlos Heitor Cony: É um prêmio político. Houve uma época em que ele mantinha uma certa discrição. Depois, tornou-se politizado demais – haja vista que um autor como Sartre, exatamente quando era o escritor mais bem lido do mundo, foi premiado. Eu, de minha parte, tenho muito orgulho daqueles dois prêmios [aponta para a parede diante de sua mesa no escritório, onde aparecem enquadrados os diplomas de vencedor do Prêmio “Manuel Antônio de Almeida” de Romance – promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro – nos anos de 1957 e 1958 com A verdade de cada dia e Tijolo de segurança, respectivamente]. E sabem por quê? Porque eram dois livros inéditos; eu era um autor desconhecido, os livros estavam inscritos sob pseudônimo, e jurados do porte de Drummond, Austregésilo de Athayde, Rachel de Queiroz, Antonio Callado e Antonio Olinto acabaram me premiando.
Carlos Heitor Cony: Eu considero que saí da literatura. Como disse antes, eu me desinteressei. CADERNOS: Enquanto o sr. escrevia Pilatos, pensava que seria uma despedida da literatura?
Carlos Heitor Cony: Não. Mas, quando terminei, tive certeza disso. E garanto a vocês que no tempo em que me mantive afastado procurei evitar inclusive os editores – cheguei a receber uma ótima proposta para reeditar todos os meus livros, mas a recusei. CADERNOS: O sr. faria outra pausa longa na sua carreira literária?
Carlos Heitor Cony: Se eu tivesse idade, faria essa parada. O problema é que não tenho mais 25 anos de vida. Já brinquei com meu editor que vou passar 24 anos sem escrever nada e depois entrego a ele um livro chamado Toda memória.
CADERNOS: Na sua opinião, que autor contemporâneo, dentro ou fora do Brasil, mereceria o Nobel, para além das circunstâncias políticas que o sr. enxerga hoje no prêmio?
CADERNOS: Como o sr. avalia o olhar da crítica sobre o conjunto de sua obra?
Carlos Heitor Cony: Vou falar do Brasil. Mais recentemente, acho que Jorge Amado, João Cabral e Drummond poderiam muito bem ter recebido o prêmio. Agora, penso, por exemplo, na Rachel de Queiroz. Ela não fica nada a dever a alguns dos nomes que a Academia Sueca premiou nos últimos tempos.
Carlos Heitor Cony: A crítica, de modo geral, foi bastante generosa comigo. Acho que o saldo é positivo. Já tive, claro, críticas pesadíssimas, sobretudo quando lancei o primeiro livro. Mas tive elogios também. Em determinada época, as críticas passaram a ser dirigidas mais à minha pessoa do que aos meus livros. Quando voltei à literatura, com Quase memória, tive a meu favor quase a unanimidade da crítica. De lá para cá também tenho recebido muitos prêmios literários.
CADERNOS: Já que o sr. citou os dois títulos, por que A verdade de cada dia e Tijolo de segurança ainda não foram republicados, dentro desse projeto de novas edições de seus romances iniciado em 1996? O sr. não quer mais relançá-los? Se for isso, qual é o motivo?
CADERNOS: Na verdade, o sr. foi bastante premiado também no início da carreira. Qual é a importância dos prêmios?
Carlos Heitor Cony: Não, não. Quero reeditá-los, sim. Os livros têm saído à razão de dois por ano. 53
Em 2001, saiu Pessach: a travessia e ia sair também Tijolo de segurança. Mas, como eu prometi, e fiz, um romance novo, A tarde da sua ausência, Tijolo... ficou para o ano que vem. No final, A tarde da sua ausência também teve seu lançamento adiado para 2002, ano em que eu pensava sugerir a reedição de A verdade de cada dia. Mas, dependendo das circunstâncias, é possível que A verdade... saia ainda em 2002.
Carlos Heitor Cony: Sim, porque naquela época, conforme eu já disse, o prazer era diferente. Eu experimentei uma mudança de personalidade: comprei uma calça vermelha, um blusão verde, deixei o cabelo crescer para fazer rabo-de-cavalo, tinha um carro vermelho, saía pela estrada com uma moça maravilhosa, minha mulher, meus pais estavam vivos, eu havia escrito o livro que queria, não tinha problema de dinheiro. Depois, tudo foi acabando, meu cabelo começou a cair, a mulher morreu. Quando fui ver, estava de novo entre quatro paredes. Eu me vi, de novo, encurralado, infeliz. Fui, então, escrever fogão outra vez – e estou escrevendo fogão até hoje.
CADERNOS: Nessas reedições o sr. sempre mexe nos livros, como fez, declaradamente, com O ventre, por exemplo?
Carlos Heitor Cony: Mexo às vezes. Affonso Romano de Sant’Anna: É verdade que Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, tinha um contrato com você para escrever um romance por ano? Se é verdade, você foi um dos raros escritores profissionais do nosso tempo. Como isso funcionava?
CADERNOS: E, nesses casos, que tipo de interferência o sr. faz?
Carlos Heitor Cony: Quando Machado de Assis publicou a terceira edição de Memórias póstumas de Brás Cubas, fez um prefaciozinho dizendo que havia tomado a liberdade de emendar “alguma coisa” e suprimir “duas ou três dúzias de linhas”. Na hora de reeditar O ventre, fiz também uma nota, lembrando Machado. Só que, em vez de duas ou três dúzias de linhas, eu mexi numas duzentas.
Carlos Heitor Cony: Quando Ênio leu O ventre, me chamou para assinar o contrato de edição com a Civilização Brasileira e disse o seguinte: “Eu acho que esse livro tem muitos defeitos. Mas você é bom. Não vai ficar nesse romance. Confio em você. Vou apostar em você. Quero que escreva mais. Você me dá esse livro, eu publico e lhe ofereço uma retirada mensal, para você fazer outros”. Eu perguntei: “Então não vou ter direito aos 10% de direito autoral?” E ele: “Não é isso! Os 10% são à parte. O que vou lhe dar é uma retirada por mês para você escrever outros romances”. E foi assim mesmo que aconteceu durante anos. Quando eu terminei Quase memória – meu primeiro grande romance a sair fora do selo da Civilização Brasileira –, Ênio já estava doente, internado num hospital. Ele leu, gostou, mas dis se pa ra mim, na fren te do An tô nio Houaiss, que O ventre continuava sendo o meu livro mais importante.
CADERNOS: Dê um exemplo de livro em que o sr. não mexeu para republicar.
Carlos Heitor Cony: Pessach. CADERNOS: E Pilatos?
Carlos Heitor Cony: Não mexi também. Ou melhor, mexi numa palavra, não lembro mais qual. Frei Betto: Escrever para você é um tormento ou um prazer? Exorcismo ou oblação? Expurgo ou oração?
Carlos Heitor Cony: Eu acho que eventualmente é tudo isso.
CADERNOS: O sr. fazia traduções também?
CADERNOS: Apesar da felicidade dos 24 anos sem literatura [Pilatos foi escrito em 1971 e Quase memória, em 1995].
Carlos Heitor Cony: Traduzi pouca coisa; fiz mais adaptações de clássicos, mas não para a Civilização Brasileira. 54
CADERNOS: O sr. já recebeu encomenda para escrever um livro eletrônico? E, se recebesse, aceitaria?
CADERNOS: Por que alguém hoje deveria abraçar a carreira literária?
Carlos Heitor Cony: O jovem não tem de abraçar a literatura, é a literatura que tem de abraçá-lo. É ele que tem de ser escolhido pela carreira literária, e não o contrário. Você pode escolher uma roupa, mas não a literatura nem outra carreira artística.
Carlos Heitor Cony: Talvez não, embora eu seja a favor do livro eletrônico. CADERNOS: Então, por que a recusa?
Carlos Heitor Cony: Não me considero um internauta. Uso apenas o básico. Tenho um supercomputador em casa, um boeing, mas eu uso como se fosse um teco-teco.
CADERNOS: O sr., então, foi escolhido?
Carlos Heitor Cony: Na minha infância, quando eu comecei a ser obrigado a escrever porque falava mal, percebi que ali estava o meu destino – na medida em que eu escrevia “fogão” certo e dizia “fodão”. Fui, como disse antes, escrevendo fogão, fogão e de repente estava com 20 e poucos anos escrevendo um romance, O ventre.
CADERNOS: O sr. já leu algum e-book?
Carlos Heitor Cony: Não, mas tenho uma opinião favorável a ele. No ano passado, aconteceu um debate sobre o assunto na Academia. Eu fui o único a defender o livro eletrônico. A minha teoria sobre a Internet é a seguinte: nunca se escreveu tanto quanto agora, graças à rede. A garota da des co briu que, atra vés da es cri ta, po de “brincar” com outras pessoas a distância. O menino começa escrevendo osso com “ç”; alguém vem do lado, corrige e daqui a pouco ele pode estar escrevendo melhor.
CADERNOS: E agora, ainda existe alguma obra que o sr. queira fazer, para ficar como a maior de sua carreira?
Carlos Heitor Cony: Melhor do que Pilatos, não. Essa pergunta me lembra Thomas Mann, que escreveu mais ou menos assim no diário dele: “Eu sobrevivi à minha obra mais do que deveria”. De fato, ele escreveu muita coisa ruim depois de Doutor Fausto [1947]. Isso é como estar fazendo uma palestra e o assunto acabar antes do tempo que foi dado para a sua fala. De qualquer maneira, mesmo sem a pretensão de fazer algo superior a Pilatos, quero concluir esse livro de que falei antes, Missa para o papa Marcello. Estou tendo muita dificuldade, como eu disse, porque preciso chegar a uma certeza que ainda não tenho a respeito da minha vida espiritual. Já fiz umas 70 páginas, parei para escrever outros livros, mas sei que esse romance só vai deslanchar mesmo quando houver aquela determinação do personagem de aceitar o fator divino na existência dele. Seja como for, não se trata de uma obra apenas autobiográfica. O problema central do romance é comum a muitas biografias.
CADERNOS: Por que o sr. se dedicou tão pouco ao conto?
Carlos Heitor Cony: Acho que jamais fiz um conto por conta própria, foi sempre de encomenda. Gosto muito do gênero, mas não sou um contista. Quando começo uma história, por mais simples que seja, vou desdobrando, desdobrando. Se não tiver aquela imposição de cinco páginas, para entregar amanhã para tal revista, eu não faço uma história curta. CADERNOS: Falou-se aqui de cinema, televisão, da impor tância dos diálogos em sua obra. E o teatro? O sr. nunca tentou escrever uma peça?
CADERNOS: Seria um livro da sua maturidade?
Carlos Heitor Cony: Teatro eu não pego. Numa peça, iria depender muito do diretor e dos atores. Prefiro não tentar.
Carlos Heitor Cony: Sim. A Missa é um livro que me persegue há tempos. Ou melhor, que eu persigo há tempos. 55
Rio de Janeiro
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“Esta é a história de uma família complicada, no Rio de Janeiro, final do século XX.
Tão complicada que parece improvável”, escreve Carlos Heitor Cony na nota que
apresenta seu décimo quinto romance, A tarde da sua ausência, do qual os CADERNOS publicam aqui os capítulos 1, 2, 4, 11, 12 e 42, cedidos especialmente pelo autor. Previsto para sair em abril de 2002, o novo livro de Cony foi escrito em apenas três semanas, ao longo de março passado, a partir de um pedido da editora Companhia das Letras, de São Paulo, que publica com regularidade sua obra ficcional. Enquanto estava redigindo a primeira metade de A tarde da sua ausência, o ficcionista concluiu O indigitado (Rio de Janeiro, Objetiva), romance de encomenda iniciado naquele mesmo mês e que chegaria às livrarias em agosto. A “família complicada” anunciada na abertura do romance é a dos Machado Alves. E o centro das complicações repousa na figura de Vera, que no início de uma tarde qualquer dos anos 60 se faz presente na rede em que o cunhado Henrique se deitara para ler um livro – cuja capa estampava “o rosto torturado de um homem”. Positivamente torturados são os protagonistas de A tarde da sua ausência – a exemplo do irmão do narrador de O ventre (1958), romance de estréia de Carlos Heitor Cony, e de tantas outras criaturas enredadas nas tramas de suas obras. “Durante a narrativa, fui obrigado a recontar fatos, circunstâncias e sentimentos, repeti cenas e situações para que eu próprio acreditasse na perdoável miséria dos seus personagens”, conclui a nota que introduz essa história simples (em sua linguagem) e tão amarga (no seu drama) que parece, isto sim, bastante provável.
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Carlos Heitor Cony
A TARDE DA SUA AUSÊNCIA romance 2001
1 Abriu o computador e recebeu a foto, em preto-e-branco, da qual havia muito se esquecera. Quem a tirara? O mais certo seria perguntar quem lhe enviara aquele farrapo do passado, todos reunidos, na escada que dava para a varanda da rua Redentor, tarde de um verão dos anos 60. Estavam todos lá, de short e biquinis, se havia alguém que gostasse de fotografar, seria ele próprio. Mas Henrique aparecia na foto, imprensado pelo ex-sogro, Álvaro, e pela ex-mulher, Dalva, tendo ao colo Inês, a filha, com pouco mais de um ano de idade. O segundo no interesse em fotografar seria Lula, que possuía bom equipamento, mas também ele estava lá, sentado no jeito muito seu, meio de lado, a cara triste de quem adivinhava que morreria cedo. Daniel gostava de fotografias, mas não era fanático. Também ele aparecia na foto, era o mais ostensivo do grupo, ocupava o primeiro plano, mocinho, os cabelos cortados no estilo dos cadetes. De todos, seria o que menos mudaria com o tempo. A última vez que estivera com ele, tinha a mesma cara, o mesmo cabelo, o rosto cheio, os olhos claros dos Machados Alves. Havia uma ausência naquela tarde de verão dos anos 60. Vera não estava lá. Já naquele tempo, aproveitava qualquer pretexto para isolar-se, ocupar o espaço que lhe era próprio, ou pelo menos, que não fosse o mesmo dos outros. Teria 16 anos na época. Fora ela que tirara a foto. Ao enquadrá-la, não
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centralizara o grupo. No canto esquerdo aparecia metade da rede que cortava a varanda em diagonal. Sem nenhuma relação de causa e efeito, Henrique ouviu um telefone tocar. Na caverna mais funda da memória houve um pulo no tempo, a filha telefonando de Portugal, fora avisada que a mãe morrera subitamente. Alguém teria de fazer alguma coisa, não podiam deixar tudo por conta de Ítalo, que bebia muito e devia estar fora de combate. Para a filha, era impossível sair de Portugal naquele instante. O único que restava, que devia fazer alguma coisa, era ele mesmo. — Tem de ser você, pai — dissera Inês. Henrique argumentou que nada mais tinha com a ex-mulher. E naquele instante, estava ocupado — o que era mentira, havia muito que não se ocupava de nada. — Bem...se é assim... quem vai se virar sou eu... — admitiu. A filha percebeu a má vontade do pai. Insistiu. Na melhor das hipóteses, ela só poderia chegar ao Rio no dia seguinte. E, afinal, tratava-se da mãe dela. Queria que o pai engolisse o passado, esquecesse o ressentimento, a vida que a ex-mulher levara, em parte ou no todo para se vingar dele próprio, o marido que não a amara. — Vou telefonar para a Varig e para a Air Portugal... se encontrar vôo, chego aí amanhã... — Não, não precisa, filha... vou entrar no circuito..... Inês ficou aliviada. Apesar da distância, era a única que mantinha contato com Dalva e a família de Ítalo, o atual marido. Comunicando a morte da mãe ao pai, ela sabia que de alguma forma ele seria obrigado a voltar àquele grupo que todo ele estava ali, no alto da escada que dava para a varanda da casa da rua Redentor. Estavam todos lá. Apenas uma ausência naquela tarde de verão dos anos 60. No lugar dela, a rede.
2 Diante da telinha, Henrique olha mais uma vez a foto recebida. Quem a mandara? Pelo endereço eletrônico, não podia localizar ninguém, o e-mail viera de uma empresa com mais de 3 mil funcionários. Se respondesse, perguntando
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pela origem da foto, a mensagem seria lida por estranhos, muita gente olharia aquela foto, foto de mortos de um mundo morto, ele procurava esquecer aquele cemitério sentimental, emoções de outro homem que não mais era ele. Nos últimos 20 anos, conseguira dominar o processo interior de não lembrar que um dia estivera sentado naquela varanda, cercado de mortos. Impossível reconstruir o que cada um deles havia feito cinco minutos antes da foto, nem o que faria cinco minutos depois. Imobilizados no visor da roleiflex que ele ganhara do sogro, aquela mesma imagem se formara, imóvel por um segundo, nos olhos verdes-água de Vera. Era a única que não estava ali. Por um acaso que não percebera antes, aquele instantâneo do passado, congelado na foto em preto-e-branco, a denunciava. Pior: a desmascarava. Ela nunca estivera, nunca estaria ali, ave estranha no ninho, patinho feio às avessas, ausência permanente na tarde longa que breve começaria para todos. Nunca pertencera àquele amontoado de rostos e corpos quase desnudos num verão antigo. A sua ausência era o anúncio dela própria. Se Vera não aparecia na foto, aparecia a rede cortando em diagonal a varanda da casa que seria mais tarde demolida para a construção de mais um edifício na rua Redentor. Casa perdida no espaço, perdida no tempo, perdida como todos estavam perdidos ali na foto, ele também, ele e não-ele. No visor da roleiflex, máquina fotográfica que fazia sucesso na época, Vera fixara o grupo, pai, mãe, avó, irmãos, alguns tios e primos. Inclusive ele, que nunca lhe ensinara quem fora Joana d’Arc. Cada destino ali parecia depender do olhar todo-poderoso, feito de verde e água, tanta água e tanto verde, o olhar próximo mas neutro de Vera, que olhava tudo e não via nada além de si mesma. Ela aparecera na foto anterior do mesmo grupo, tirada por ele. O sogro quis que houvesse outra foto, com Henrique a seu lado. Desligada de todos, Vera se levantara, apanhara a roleiflex não para tirar a foto, mas para sair dela. Somente agora, tantos anos passados, Henrique descobria que tudo parecia ter sentido. Na ocasião, ninguém percebera o sentido de tudo. A foto era também uma acusação. Fragmento que revelava o todo. Um todo que só ele poderia compreender, embora não fizesse esforço para isso. Quem lhe mandara aquela foto sabia que somente ele poderia nomear cada um daqueles mortos, conheceria o que a vida faria de cada pedaço. Vera não estava na foto. Nunca estivera em lugar algum. Estaria na rede que cortava a varanda em diagonal, naquela tarde que ficaria como a tarde da sua ausência?
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4 — Bem, professor, isso contraria a nossa rotina, mas não vou criar caso. Se o senhor quer assim, assim será. A turma B é no segundo andar, sala 202, na parte da frente. Hugo levantou-se, apanhou o caderno que a diretora destinara para ele. Leu na capa: Instituto Lafayette - Departamento Feminino - História - Turma B - Professor João Donato de Souza. A diretora percebeu o desagrado do novo professor. Não houvera tempo para mudar a etiqueta da capa, o professor João Donato de Souza fora despedido, bebia demais, faltava às aulas, no último semestre levara as provas do alunos para casa, passara num bar, perdera a pasta — a turma teve de fazer novos exames, os pais reclamaram, um aborrecimento. A falta foi considerada grave, demitiram o professor e contrataram outro, bem recomendado, na faixa apropriada dos 40 anos, nem muito moço nem muito velho para dar aulas a uma turma de moças de 16 aos 18 anos. — Se tiver alguma dificuldade, pode me chamar. Estou aqui para isso mesmo, dar apoio aos professores, principalmente aos novos... as turmas às vezes estranham... e essas meninas não são as mesmas do nosso tempo... A diretora já devia ter mais de 50 anos, sabia que, no mínimo, era dez anos mais velha, mas se incluía naquilo que ela chamava de "nosso tempo". Hugo entendia o que aquilo queria dizer: a nova geração, que começava a chegar aos 20 anos, considerava-se a ponta mais avançada da sociedade humana, descartara-se de tabus milenares. A pílula modificara o comportamento das adolescentes, o vocabulário desinibido, as roupas agressivas e, ao mesmo tempo, uma espécie de desprezo não apenas às convenções mas aos compromissos, tudo isso fazia germinar senão uma mulher nova, uma mulher tentando ser nova. Ao subir os dois lances de escadas que ligavam o pavimento térreo ao segundo andar, Hugo abriu o caderno e viu a lista com o nome das alunas, na ordem alfabética de sempre. Uma sucessão de Patrícias, Flávias, Veras e Sandras. Fixou-se nos nomes das famílias, talvez conhecesse alguma. Contou por alto, 22 alunas. Como ele gostava, uma turma nem grande nem pequena. Chegou ao segundo andar e sentiu o fôlego descompassado. Fumando mais de um maço de cigarros por dia, sem fazer esporte há muito, sua forma física estava em pedaços. Parou diante da sala 202, para recuperar o fôlego. Não fazia questão de impressionar as novas alunas, mas não queria exibir o início de sua decadência.
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Quando sentiu a respiração normal, abriu a porta, devagarinho, sem fazer ruído. A turma estava agrupada em volta das últimas carteiras. Uma jovem loura, de rabo-de-cavalo, era a única que sentava na primeira fila. A saia verde, a blusa branca, aumentavam-lhe a juventude. Encaminhou-se para o pequeno estrado onde ficava a sua mesa. Reparou que as instalações eram boas, colégio particular da Tijuca, salas arejadas, carteiras novas, chão limpo, meninas da classe média para cima. Colocou o caderno em cima da mesa e olhou a turma. A moça da primeira fila continuava escrevendo no bloco de papel preso a uma prancheta. As demais não tinham percebido que o professor chegara. Continuavam lá no fundo, todas de costas para ele. Podia bater com o caderno na mesa, anunciando-se. Dispensara a presença da diretora, que se oferecera para apresentá-lo naquele primeiro dia. Preferiu não fazer nada, continuou em pé, protegido pela mesa. Reparou mais uma vez na moça da primeira fila, não lhe via o rosto, ela continuava escrevendo no bloco de papel. Era a única que poderia ter percebido que o professor chegara. Se percebera, não dera importância. Nem olhara para ele. Lá do fundo, duas moças finalmente o descobriram, estavam rindo, com uma revista nas mãos. Ficaram sérias de repente. Cada uma avisou a que estava mais próxima, logo todas abandonaram as revistas e, em silêncio, foram ocupando as carteiras. Uma das alunas recolheu as revistas e meteu-as numa pasta. Não fora um bom começo. Hugo esperou que todas se sentassem. Achou estranho que a moça da primeira fila fosse a única que não notara a sua chegada, continuava de cabeça baixa, escrevendo no bloco de papel. Reparou em suas pernas, brancas, projetadas para a frente, a saia verde deixava ver o início das coxas cruzadas. Ele exagerou na espera. Se a diretora ali estivesse, bateria com a caneta na mesa, pediria silêncio, diria com a voz habitual de todas as diretoras de colégio: — Apresento a vocês o professor Hugo de Aquino, que dará aulas a partir de hoje, até o final do semestre. Peço que o recebam com respeito e atenção. Ninguém precisara pedir silêncio, mas a turma estava em silêncio, ele estava em silêncio. Um silêncio tão grande que a moça da primeira fila estranhou, levantou os olhos da prancheta, primeiramente olhou para os lados,
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para saber porque todas ficaram quietas. Só depois é que olhou para a frente e reparou que havia um homem atrás da mesa, um estranho, que certamente seria o novo professor. Hugo notou que a moça parecia a mais surpreendida de todas, ao dar com ele em cima do estrado. Encarou-a, como que cobrando alguma coisa, "diabo, eu estava aqui há algum tempo e você nem reparou, foi a última a olhar, devo ser insignificante mas não sabia quanto..." O silêncio prolongado incomodava a turma e Hugo saboreou a expectativa forçada que soubera criar. Sem pressa, abriu o caderno. Na primeira página, a lista de chamada. Era necessário saber quem era quem. Examinou novamente os nomes, para ver se havia algum arrevesado, que não soubesse pronunciar. Tirante uma Gisela Schwartzman, todas tinham nomes comuns. — Adélia Pacheco... Começara a chamada mas parou. Antes de mais nada, ele precisava se apresentar. Lido o primeiro nome da lista, olhou a turma, encarando aquelas moças que, umas pelas outras, representavam a burguesia tijucana, moças saudáveis, bem alimentadas, bem banhadas, bem fornidas. Bem tudo. — Meu nome é Hugo de Aquino, sou o novo professor de História... e... bem, alguma pergunta? Nem fez pausa. Recomeçou a chamada; — Adélia Pacheco... Agnes Miranda de Souza... Aída Gonçalves... Enquanto lia, descobriu com algum desagrado que gostaria de saber logo o nome da moça da primeira fila, rabo-de-cavalo louro, a última a notar que ele chegara. — ... Vera Barroso... Vera Cavalcânti... Vera Machado Alves... A moça levantou a mão. Tinha olhos verdes.
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11 — De onde você copiou o texto? — perguntou ele. — De um dicionário. Foi o único que consegui — respondeu ela. As alunas já tinham saído. Na sala, os dois estavam novamente sozinhos. — Acha que assim aprenderá alguma coisa? — Assim como? Não estava certo? — Evidente que estava. Mas você copiou de uma fonte única. Não pesquisou, não confrontou com outros textos, enfim... a lei do menor esforço... acha que basta? Vera detestava ser censurada. Além do mais, tinha a certeza de que fizera o possível. Enfrentou o professor: — Ano passado, na aula de História, aprendi que Agripina morreu no ano 33. Hugo percebeu o recado: — Você acha inútil estudar História? Agripina era uma devassa, Joana d'Arc era uma virgem. Pelo que entendo, isso nada tem a ver com você. — É. De certa forma, nada do que aprendo tem a ver comigo. A soma do quadrado dos catetos é igual à soma do quadrado da hipotenusa inteira. Aprendi isso na aula de ontem, o teorema de Pitágoras. Mas não pergunte em que ano ele morreu que eu não sei. Hugo ia dizer qualquer coisa. Preferiu fixar o mais fundo de seus olhos. Tinha a certeza: eram olhos vazios, mas cheio de asas. Mudou de tom. Não era mais o professor, mas um homem qualquer, que podia ser amigo ou inimigo da moça vestida de verde e branco. — Você acha inútil estudar? Está perdendo tempo aqui? — Não. Não estou perdendo tempo. Eu nunca perco tempo. Estou sempre fazendo alguma coisa. — Quantos anos tem? 15? 16? — 16. Vai chegar o dia em que será má educação perguntar a minha idade. — Não perguntaria se achasse que tinha mais de 20. Antes disso, não é falta de educação perguntar a idade de ninguém. — O senhor deve ter mais de 20. Quantos anos tem? — 40. Feitos na semana passada. — Está ficando... Vera se travou. Ia dizendo que o professor era velho. Corrigiu-se a
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tempo: — Como é ter 40 anos? — perguntou. — Não sei ainda. Acho que estou ficando velho... — Meu pai tem 50 anos...não é um velho... — O problema não é esse. Estou velho para mim mesmo. Vera ia dizer qualquer coisa de gentil. Preferiu sorrir — era a primeira vez que sorria para ele. Olhou-o com aquilo que ela consideraria condescendência e se despediu. Como sempre acontecia quando dava costas a um homem, percebeu que ele olhava para suas pernas.
12 O carro atravessava o túnel Rebouças e saía para a claridade da Lagoa, cheia de sol. Contornaria a Fonte da Saudade antes de chegar a Ipanema. No banco de trás, Vera olhava a nuca do motorista, cabeça raspada como um sentenciado medieval, homem forte que o pai mantinha para servir a filha mais nova. Em caso de emergência, seria excelente guarda-costas, tinha porte de arma e fora campeão de luta-livre em Campos. — Vai devagar, Zé, não tenho pressa. O motorista diminuiu a marcha. Antes de chegar ao sinal que dá acesso a Ipanema, Vera pediu: — Por favor, dê uma volta inteira na Lagoa. Para se justificar, repetiu: — Não tenho pressa de chegar em casa. Não era a primeira vez que fazia o mesmo pedido: prolongar o momento de chegar em casa. Todos estariam fora, somente Dalva com a criança, fechadas no quarto, e certamente Henrique, lendo na rede. E ela queria espaço e tempo para pensar, embora não pensasse em nada precisamente. Era este o seu brinquedo predileto, brinquedo que aos poucos tornavase vício, veneno que dominava com a dose exata: quando se sentia mal, quando resvalava para um território desconhecido que a assustava, ela cortava tudo com a simples volta à rotina. E aí era importante ir à praia com Cátia ou saber quem fora e o que fizera Joana d'Arc.
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O carro deu duas, três voltas ao redor da Lagoa. Em marcha lenta, irritando os motoristas que passavam pelo imenso Dodge Dart prateado, presente que o pai lhe dera quando completara 15 anos. — Eu desço aqui — disse ela, quando o carro dirigia-se à garagem dos fundos que guardava a frota da família. Saltou ao lado da varanda. Viu que a rede estava esticada, alguém a ocupava. Desistiu de entrar por ali, preferiu a porta lateral, que dava para o hall onde o pai colocara o lustre de cristal que fora do antigo Cassino da Urca, sobra da complicada massa falida do grupo que explorava o jogo até 1948. Vera olhava para o lustre. Ao contrário do pai e dos irmãos, não sentia orgulho dele. Era ao mesmo tempo um luxo, um símbolo e uma advertência. Decidiu: "Nunca mais vou ao colégio!"
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42 Ter visto a foto podia ser alucinação. Mas o que estava vendo, agora, era real, dolorosamente real. Henrique guardara o carro na garagem. Lá de baixo, surpreendera Vera na janela do quarto que o velho Machado Alves ocupava. Olhava para ele. O que estaria fazendo ali? Visitara o pai na semana anterior. Tão logo soubera da morte de Dalva, aparecera de repente, ela que abandonara duas vezes a nave-mãe. Não deixou que Henrique desse a notícia, ela mesma diria ao pai que Dalva morrera. Ao se deparar Álvaro, perdeu a vontade. Não disse nada. Mais tarde, ao encontrar o cunhado, comentou como se não desse importância ao que dizia: — Acho melhor o pai não saber... E agora, nem uma semana se passara, ela voltava, estava na janela olhando Henrique que guardava o carro na garagem abandonada, a cortina de ferro encravada, coberta de ferrugem, na nudez da decadência. “O que será que ela veio fazer aqui?” O pensamento durou na cabeça de Henrique até que chegasse ao hall da entrada. Viu José descendo com duas malas vazias. — Alguma novidade? — perguntou ao empregado. — Dona Vera... — e mais não precisou dizer. Havia um brilho no cansado olhar do ex-campeão de luta-livre de Campos, no motorista que levava Vera ao Instituto Lafayette e agora, um pouco surdo mas forte de corpo e cabeça, descia as escadas com as malas vazias. Geralmente, ao chegar da cidade, Henrique subia para ver se o velho Machado Alves precisava de alguma coisa, embora sabendo que ele não mais precisava de nada. Com Vera lá em cima, desistiu de subir. Mas Vera desceu. — Entreguei meu apartamento. Vim morar aqui. Prometo não incomodar. Quando a casa for demolida, ficarei onde o pai ficar. Alguma coisa contra? Henrique estava tão assustado que nem ficou surpreendido. — Mas... você... você detesta esta casa... detesta todos nós... — Não existe mais esse “todos nós”. E a casa também vai deixar de existir. Ela entrou no salão, onde colocara as coisas que trouxera. — Fique tranqüilo que não vou bagunçar nada...aliás, nada há a bagunçar...tudo está no fim...
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Henrique não admitia que ela pudesse estar ali, falando em ficar. — Alguma coisa aconteceu...sinceramente, não acredito...você sempre procurou fugir, fugiu do colégio, da casa, do casamento, da família... — Agora fugi mais uma vez... vim me esconder aqui... — Como se esconder? Ou eu não entendo mais nada ou é você que entende demais... — Isso mesmo, Henrique. Fez uma pausa, não tinha pressa, nunca tivera pressa. Perguntou: — Você já tentou esconder uma árvore? — Esconder o quê? Uma árvore? — Sim, uma árvore. Henrique desconfiou que ela ficara louca. — Mas como esconder uma árvore? — É fácil. Basta colocá-la na floresta.
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ENSAIOS
O caso Cony Antonio Hohlfeldt
O escritor burguês, que produz obras destinadas à diversão, não reconhece esta alternativa. Vós lhe demonstrais que, sem o admitir, ele trabalha a serviço de certos interesses de classe. O escritor progressista conhece essa alternativa. Sua decisão se dá no campo da luta de classes, na qual se coloca ao lado do proletariado. Walter Benjamin1
A biografia é um romance documental e documentado; o romance tem muito de biografia imaginária. Numerosos romances de renome universal, dando continuidade a uma longa e clássica tradição cênica, levam títulos que são nomes de gente; não é coincidência, a biografia está para o romance como a foto para o quadro ou o desenho. Décio Pignatari2
Um escritor verdadeiramente profissional. Eis o mínimo que se pode dizer de Carlos Heitor Cony, independentemente da apreciação que se possa fazer de sua obra. E dizer isto, no Brasil, é dizer muito. E dizer isto, de um escritor, é dizer, sobretudo, que ele viveu, permanentemente, de sua pena (vá lá a figura de estilo), desde que, em 1947, substituindo o pai, jornalista, entrou para o Jornal do Brasil, onde iniciaria carreira de jornalista, até os dias de hoje, quando, consagrado escritor, é também um jornalista respeitado. Mais que isso: é dizer que se trata de um escritor que, sem pretender experimentar estilisticamente, domina o idioma como instrumento básico de sua expressão e, valendo-se da língua comum a todos nós, como bem registrou Otto Maria Carpeaux, entre tantos críticos, é capaz de escrever aquilo que pretende realmente dizer. Ou seja, deve-se ler Carlos Heitor Cony enquanto um escritor absolutamente côns-
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cio de que o estilo é uma opção, de que sua escrita é uma dentre muitas alternativas disponíveis para um autor e que tal opção tem uma determinada significação pessoal e social. É sob tal perspectiva que queremos aqui discutir sua obra e propor-lhe uma determinada leitura. Se vale um depoimento do próprio autor, havia, desde o início, um projeto de obra que talvez tenha sofrido alguns percalços ao longo de seu desdobramento, em boa parte, por certo, graças ao enfrentamento que o escritor teve com o regime militar implantado a partir de 1964 no país. Escrevia ele, naquele ano: “Sou, em substância, um escritor que pretende uma obra literária, programada inicialmente para dez romances, seis dos quais já estão impressos ou reimpressos”3. Essa afirmação surgia justamente com a publicação de um polêmico livro, reunindo crônicas recentes das páginas do Correio da Manhã, transformado por ele e pelos responsáveis pelo jornal no primeiro baluarte de resistência ao golpe de março. De fato, até aquele momento, Cony já havia editado O ventre (1958)4, A verdade de cada dia (1959), Tijolo de segurança (1960), Informação ao crucificado (1961), Matéria de memória (1962) e Antes, o verão (1964), todos romances, além de uma conferência sobre Charles Chaplin e um sem-número de crônicas jornalísticas, que iniciara em 1962 naquele mesmo jornal, do qual se afastaria, quando da edição do Ato Institucional nº. 2, diante da pressão que sofria por parte das autoridades policiais, estando processado pelo general Costa e Silva, então ministro da Guerra5. Ocorre que, como raramente escritor pode sobreviver de sua profissão entre nós, o jornalismo viria a ser sua alternativa de sobrevivência, até enfrentar ele os dissabores de um exílio, após a condenação no processo mencionado. Ainda assim, publicaria, naquele momento, outros dois romances, Balé branco (1965) e Pessach: a travessia (1967). Um primeiro momento de silêncio se seguiria, quando o escritor trataria de voltar ao jornalismo e também à literatura, regressando ao país para incorporar-se ao grupo Manchete e, ao mesmo tempo, editando, sucessivamente, Pilatos (1974) e abrindo um campo experimental novo, em que mesclava a dupla experiência de jornalismo e de ficção, com O caso Lou (1975). Naquele romance-reportagem, como se denominou então, buscava Cony aprofundar a tendência de uma maior participação social, já antecipada por Pessach e que traduzia, obviamente, seu posicionamento sobre a ditadura então vigente: “A série ro-
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mance-reportagem se propõe, por isso mesmo, a dar sentido à realidade. Escritores e jornalistas de renome nos darão aqui, depois de serena pesquisa, as múltiplas verdades que explicam episódios controvertidos da crônica policial, da atividade política, da vida econômica”6. Sua obra evoluiria, depois de um novo interregno de exatos vinte anos, com a publicação, em 1995, de Quase memória. O curioso é que, se excetuarmos o romance O caso Lou, Quase memória deve ser considerado seu décimo romance, com o que se poderia imaginar que Carlos Heitor Cony teria, então, completado aquele seu projeto original de ficcionista. A nova experiência, contudo, faria bem ao escritor. O sucesso de público e de crítica levá-lo-ia a voltar a escrever, editando, ainda, sucessivamente e até o momento deste ensaio, O piano e a orquestra (1996), A casa do poeta trágico (1997), Romance sem palavras (1999) e O indigitado (2001). Afora isso, Cony tem ainda um volume de contos, Sobre todas as coisas (1968), reeditado com o título de Babilônia! Babilônia! (1978), nome de um dos textos que o compõem, evidenciando um lado interessante de seu trabalho que é a preocupação constante com a recepção que o público leitor empresta a sua obra. Os dicionários que registram seu verbete mencionam, ainda, um inédito manuscrito intitulado Cadernos do fundo do abismo (1955), muito provavelmente uma primeira versão de Informação ao crucificado. A leitura abrangente da obra de Cony nos coloca algumas observações logo à primeira vista: a) a estrutura narrativa apresenta-se de modo circular, pois normalmente se inicia em um tempo presente, para desdobrar-se em um mais ou menos longo flashback, retornando-se àquele tempo presente e daí alcançando o desenlace da ação, explicada, assim, a partir daquele ponto de partida; b) a narrativa vale-se, por conseqüência, de uma estrutura memorialística, com maior ou menor ênfase biográfica ou autobiográfica. Tal perspectiva abre um interessante debate sobre as relações entre autobiografia e biografia, ou o auto-retrato, enquanto cruzamento de textos narrativos que dependem do que Philippe Lejeune denomina de pactos com o leitor7, destinatário do texto; c) o narrador é majoritariamente autodiegético, nos termos da teoria genettiana8, ou homodiegético, ou seja, narra a própria história ou uma história da qual participa, ainda que não como protagonista;
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d) o narrador, por conseqüência, é fundamentalmente apresentado na primeira pessoa do singular, e quando isso não ocorre, dando lugar a uma terceira pessoa do singular, a narrativa se vale do diálogo interior; e) do ponto de vista ambiental, a narrativa retrata a classe média urbana brasileira, ainda que, à época de seu desdobramento, os críticos tenham destacado especialmente a burguesia carioca, o que, em meu entendimento, é uma visão que diminui a obra de Cony, já que seus relatos podem ser lidos enquanto metáforas mais amplas não apenas de um locus regional, ainda que urbano, como o Rio de Janeiro, mas também de um momento específico da nacionalidade, a passagem dos anos 60, quando se desdobra a industrialização brasileira, de que os dramas enfocados por Cony são um reflexo; f ) tematicamente, o romance de Cony aborda a crise e mesmo a falência da família, a busca da identidade e o sentimento de vazio do eu do narrador, remetendo à sensação de náusea que o existencialismo sartriano também registrara na Europa nas décadas anteriores; g) a narrativa está marcada pela tentativa desesperada da erotização, ainda que frustrada, como espécie de compensação e reencontro da personagem consigo mesma e com seus semelhantes; h) a fragmentação é uma constante em todos os textos, na medida em que as personagens não alcançam compreender o que ocorre a sua volta e com elas mesmas; i) a noção de escrita está muito nítida na obra de Carlos Heitor Cony, de sorte que mesmo os romances mais distantes uns dos outros guardam forte unidade e homogeneidade. Em síntese, são estas as perspectivas que queremos aqui desdobrar.
I Um dos primeiros críticos a registrar a característica de narrativa retrospectiva que a ficção de Cony assume foi Malcolm Silverman9. Num ensaio inicial de abrangência de toda a obra até então édita, Silverman destacava a visão retrospectiva e os monólogos interiores. Esta visão retrospectiva implica numa espécie de memorialismo que não deve enganar o leitor, levando-o a confundir
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autor com narrador. Frise-se que, embora muitas vezes se tenha dito que algumas das obras de Cony são autobiográficas, não é, neste momento, o problema que me preocupa. Estruturalmente, o que interessa verificar aqui é que não apenas a palavra memória está explicitada em pelo menos dois títulos destas obras – Matéria de memória e Quase memória –, como esta perspectiva de reminiscência da personagem encontra-se na maioria quase absoluta das obras ficcionais de Cony, e isso desde O ventre. Tal perspectiva, evidentemente, tem sido um dos problemas teóricos mais polemizados na literatura. Júlio Pinto e Lúcia Castello Branco, por exemplo, sugerem que a memória é uma tendência para o futuro, não uma tendência rígida, um caso especial o do tipo se p, então necessariamente q, mas algo que se move teleologicamente em direção a algo no futuro, o que vale dizer que é esse algo no futuro que determina a direção e o próprio movimento daquilo que se move em direção a ele. A memória é por isso o paradoxo aparente da recuperação in futuro10. Mostram os dois ensaístas que a memória se confunde com um processo semiótico, nos termos de Charles Sanders Peirce, já que o signo, para ele, remete a uma outra coisa que não aquela mesma. O mesmo Peirce, segundo os autores, entende a memória como efeito da idéia que a produz (p. 101), acrescentando: “Peirce não só acena para o seu caráter de processo in futuro, como também aponta para sua possível previsibilidade (a partir da causa que a determina), o que equivale a dizer que o fato, ou o fenômeno, já traz consigo sua memória virtual” (p. 101). Para que se entenda bem tal perspectiva, é bom lembrar o que afirmei logo no início: o caráter memorialístico implica num movimento circular que parte de um presente, retornando a um passado, através de um movimento de flashback – prática provavelmente herdada do cinema –, para, retornando a este mesmo presente, não só iluminá-lo como desdobrá-lo em suas conseqüências finais. Ora, o narrador, ao decidir voltar-se para o passado, certamente o faz interessado em compreender o presente ou admitindo que aquele mesmo passado explica o presente. Com isso, está-se, de certo modo, precavendo contra as conseqüências de tal relação, antecipando-as, de certo modo, no futuro, porque
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o presente, neste sentido, não vai além de um momento de passagem, um elo de ligação entre o passado, já ocorrido, mas cujas conseqüências não conhecemos em sua totalidade, e o futuro, cuja concretização desconhecemos absolutamente, ainda que possamos pretender antecipá-lo, dominá-lo ou influenciá-lo. Como sabemos, na mitologia grega, a Memória é Mnemósine, uma das nove musas, que atua através da reminiscência. Ela é filha de Urano, o céu, e Gaia, a terra. Irmã e concubina de Cronos, o tempo, é geradora das nove musas, uma das quais, justamente, é Clio, a história, ou, como diriam os gregos, a proclamadora da fama. Ora, a diferente percepção do tempo, por parte dos gregos, que implica numa espécie de simultaneidade de acontecimentos, faz com que o passado antecipe, de certo modo, o presente e, por conseqüência, interfira no futuro, pois cada um dos outros elementos encontra-se latente um no outro11. Assim, o presente está prenhe do futuro, do mesmo modo que o passado está antecipando o presente. Uma narrativa que se preocupa com a recuperação do passado não o faz gratuitamente, mas está imbuída de um objetivo que, inclusive, ultrapassa o próprio presente, projetando-se no futuro. É isso, justamente, o que verificamos na obra de Carlos Heitor Cony. Tomem-se, ao acaso, alguns desses volumes. Em O ventre, o narrador de primeira pessoa inicia sua narrativa assim: “Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se devidamente explorada – mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é bife com batatas fritas ou um par de coxas macias”12. Este primeiro parágrafo do romance, que, aliás, evidencia um narrador em primeira pessoa do singular, já nos coloca um segundo problema, que é distinguir entre o narrador autodiegético e o narrador homodiegético, porque, aparentemente, leremos uma narrativa sobre o irmão quando, na verdade, pode-se afirmar que a narrativa centra-se justamente no próprio narrador, que disfarça tal fato buscando desviar a atenção do leitor. Não vou antecipar, contudo, aqui esta discussão, que farei mais adiante. Tenha-se presente apenas a idéia de que, para falar da tortura do irmão, o narrador explicará sua gênese e, por conseqüência, também a própria origem. Pode haver variações, como em Matéria de memória, romance dividido em três partes, como este primeiro, mas no qual cada parte tem como narrador uma
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personagem diferenciada13. Assim, na primeira é Tino, um artista plástico; na segunda é Selma, sua sogra e quase-amante; e na terceira é João, o filho da mulher. O movimento é exatamente o mesmo: cada personagem mergulha em seu passado para dele resgatar o presente, projetando, ao mesmo tempo, um futuro. Podese pressupor, pelo desdobramento da obra, que Tino é a referência principal da narrativa, na medida em que é sobre ele que se encerra o romance. Mais que isso, no entanto, se levarmos em conta que existe uma estrutura de obra que vai além das próprias narrativas porque, semioticamente, é o conjunto e a tessitura de todas elas, entremeadas, devemos também afirmar que todas elas, e cada uma em particular, existem apenas para reafirmar ou cotejar a própria narrativa de Tino, relativizada e, ao mesmo tempo, ratificada por cada uma das demais. Outros exemplos podem ser buscados em Quase memória ou no mais recente O indigitado. Naquele, o narrador recebe um pacote que deve abrir. Glosando o procedimento literário da petite madeleine proustiana, a personagem e narrador prepara-se e prepara o leitor para a recepção de uma rememoração que é descoberta (no sentido literal da palavra) à medida que o pacote recebido é analisado e sopesado: Não tive pressa em abrir o pacote. Durante algum tempo fiquei com ele, passando-o da mão esquerda para a direita. Alguém me contava o fim do filme que assistira na véspera – o que me poupou qualquer comentário ou alusão ao embrulho. Queria apenas ficar sozinho, não exatamente para abrir o envelope, mas para pensar no assunto, embora se tratasse de assunto impensável14 (p. 11). Já em O indigitado, repetindo procedimento adotado em livros anteriores (em Pilatos, por exemplo), Cony abre um capítulo introdutório, que serve como uma passagem para a narrativa principal. Neste caso, temos a narrativa dentro da narrativa, e mais: nesta narrativa de primeira pessoa, o narrador e personagem já conhece a verdade e o que busca é reparti-la com o leitor, ao mesmo tempo que, de certa maneira, legitima seu modo de percepção, legitimando a si próprio: Contei esta história há tempos, numa coluna da página 2 da Folha de S.Paulo e meus leitores, sobretudo leitoras, me escreveram per-
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guntando se era verdade. Mario Prata, em livro recente, contou-a a seu modo e é natural que eu a conte a meu modo e com maiores detalhes, uma vez que, além de mais interessado do que Mario, o personagem principal sou eu mesmo. Vamos a ela [...]. O ano da graça de 1966 foi um ano sem graça. Nada de importante, a não ser o meu nascimento, coisa que não teve graça alguma, nem mesmo para mim15 (pp. 7 e 13). Um crítico chegou a observar, com acerto, que todo o romance de Cony obedece rigidamente a um triplo movimento que está inclusive explicitado em Matéria de memória: uma tese, uma antítese e uma síntese16, o que justificaria ainda mais a forma circular da narrativa, na medida em que a busca da síntese obrigaria a, partindo de uma tese, por exemplo, buscar sua antítese para chegar, enfim, à solução do impasse.
II Esta primeira problematização nos leva, com naturalidade, a uma segunda, que é a questão da relação entre o autor e o narrador, entre o autor e a sua escritura: O autor é uma personagem moderna, produzida sem dúvida por nossa sociedade na medida em que, ao sair da Idade Média, com o empirismo inglês, o racionalismo francês e a fé pessoal da Reforma, ela descobriu o prestígio do indivíduo ou, como se diz mais nobremente, da pessoa humana [...]. O Autor, quando se crê nele, é sempre concebido como o passado de seu livro: o livro e o autor colocam-se por si mesmos numa mesma linha, distribuída como um antes e um depois: considerase que o Autor nutre o livro, quer dizer que existe antes dele, pensa, sofre, vive por ele; está para a sua obra na mesma relação de antecedência que um pai para com o filho17. Este princípio, expresso por Roland Barthes, certamente é o que ocasiona a confusão do leitor despreparado, que, deparando-se com um texto em primei-
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ra pessoa do singular, logo imagina uma identidade perfeita entre autor e narrador ou personagem. Na verdade, o conceito de autor corresponde a um processo de individualização na história das idéias, como assinala Foucault18. Significa, por outro lado, reconhecer determinado poder a este ente, um poder exercido especialmente sobre o discurso, que se traduz numa escrita, na medida em que um autor agrupa e organiza textos, delimita-os, seleciona-os, cria-lhes oposições etc. Em suma, o nome do autor serve para caracterizar certo modo de ser do discurso: para um discurso, ter um nome de autor [...] indica que esse discurso não é um discurso quotidiano, indiferente, um discurso flutuante e passageiro, imediatamente consumível, mas que se trata de um discurso que deve ser recebido de certa maneira e que deve, numa determinada cultura, receber um certo estatuto (p. 45). Advém desta perspectiva, inclusive, a noção de artefato da obra de arte, em especial, em meu caso, da obra de arte literária, de objeto produzido artificialmente, no sentido de que é fabricado conscientemente, deliberadamente, voluntariamente, para diferenciar-se dos demais discursos. Barthes, nesse ensaio, identifica quatro funções básicas a serem desempenhadas pelo autor, quais sejam, a apropriação, que permite uma identificação e uma responsabilização por determinada obra a um determinado ente; a oscilação entre universalização e constância, na medida em que, embora tendendo a uma unidade, nem sempre as obras ganham, desde um primeiro momento, aspectos de semelhança entre si. Ocorre que, muitas vezes, esta parecença surgirá apenas bem adiante no tempo, através de leituras mais profundas e críticas, sugerindo, muitas vezes, num primeiro momento, mais a dessemelhança do que a proximidade entre elas; a autoria resulta, igualmente, de processos complexos e nada naturais, em que ao autor não basta produzir um texto, mas sociabilizá-lo, discuti-lo, assumi-lo, reivindicando-se um ser específico entre os demais, em especial entre os demais seres de outros autores; por fim, a um autor cabe a criação de uma determinada série de signos que reenviam o texto automaticamente a este mesmo autor, espécie de identidades do autor, surgindo daí, inclusive, a confusão a que já aludimos, quando o autor opta por uma primeira pessoa em sua narrativa:
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Sabemos que num romance que se apresenta como uma narrativa de um narrador, o pronome de primeira pessoa, o presente do indicativo, os signos de localização nunca reenviam exatamente para o escritor, nem para o momento em que ele escreve, nem para o gesto da sua escrita; mas para um alter ego cuja distância relativamente ao escritor pode ser maior ou menor e variar ao longo da própria obra. Seria tão falso procurar o autor no escritor real como no locutor fictício; a função autor efetua-se na própria cisão – nesta divisão e nessa distância [...]. Todos os discursos que são providos da função autor comportam esta pluralidade de eus [...] o eu designa um plano e um momento de demonstração que qualquer indivíduo pode ocupar, desde que tenha aceitado o mesmo sistema de símbolos, o mesmo jogo de axiomas, o mesmo conjunto de demonstrações prévias (pp. 54 e 55). A assertiva de Barthes evidencia, portanto, de um lado, o necessário distanciamento entre o autor e o narrador, ou entre o autor e a personagem, e, de outro, a necessária identificação que o autor exige do leitor, receptor de seu texto, para poder compreender a mensagem produzida, o discurso ficcional, neste caso. No entanto, essa aparente facilidade de definir papéis não é assim tão fácil quando se verifica, como na obra de Carlos Heitor Cony, que, se quisermos eventualmente cotejar os dados da vida real do autor com elementos revelados através do discurso em relação ao narrador ou à personagem, a semelhança entre eles pode ser facilmente percebida. Tal fato tem levado os críticos a entenderem que obras como Informação ao crucificado e Quase memória seriam livros autobiográficos. O próprio escritor, ao publicar este último, fez questão de abordar o assunto numa nota prévia que denomina de “Teoria geral do quase”, na qual explica que, editado Pilatos, decidira não mais escrever: Daí a repugnância em considerar este Quase memória como romance. Falta-lhe, entre outras coisas, a linguagem. Ela oscila, desgovernada, entre a crônica, a reportagem e, até mesmo, a ficção. Prefiro classificá-lo como “quase-romance” – que de fato o é. Além da linguagem, os personagens reais e irreais se misturam, impro-
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vavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil [...]. No quase-quase de um quase-romance de uma quase-memória, adoto um dos lemas do personagem central deste livro, embora às avessas: amanhã não farei mais essas coisas19. Na verdade, Carlos Heitor Cony, astuta e conscientemente, apresenta mais uma armadilha ao leitor. É certo que, se cotejarmos dados biográficos seus com os da personagem, encontraremos aproximações. Mas não é isso, efetivamente, que preocupa o autor. O que ele quer é propor uma chave antecipada de leitura. Busca concretizar aquele que Umberto Eco denomina de leitor modelo20, num procedimento que Philippe Lejeune analisa como a necessidade de um pacto que necessariamente deve ser firmado entre cada autor e cada leitor, para que a comunicação da obra se efetive. Na verdade, Lejeune está preocupado especificamente com determinado tipo de discurso, que ele chama de autobiográfico 21, mas cuja problematização, generalizada, pode e deve ser também aplicada a todo e qualquer discurso, inclusive o romanesco e ficcional. Lejeune salienta que a autobiografia se apresenta, desde logo, como um texto literário (p. 7). O que a diferenciaria é que se trata de um “relato retrospectivo em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, desde o momento em que ela destaca sua vida individual, em particular a história de sua personalidade” (p. 14). Assim, para que se concretize, a autobiografia exige uma identidade absoluta entre o autor, o narrador e a personagem (p. 15). Contudo, desde logo Lejeune reconhece que esta identidade levanta numerosos problemas que ele depois nomeia, indagando-se: como se pode exprimir a identidade do narrador e da personagem no texto? No caso de um discurso em primeira pessoa, como se manifesta a identidade do autor e da personagem-narrador? Não haveria confusão, nos casos de autobiografia, entre a noção de identidade e a de verossimilhança? Ele destaca que “é no nome próprio que pessoa e discurso se articulam antes mesmo de se articularem na primeira pessoa, como o demonstra a ordem de aquisição da linguagem pelas crianças” (p. 22), ou seja, há uma diferenciação entre um eu e um outro a partir da denominação de alguém por um nome específico, João, Paulo, Maria etc.
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Lejeune lembra que um autor não é uma pessoa qualquer. Trata-se de alguém que escreve e que publica. Assim, o autor se define enquanto uma pessoa simultaneamente real, socialmente responsável, e o produtor de um discurso. Para o leitor, que não conhece aquela pessoa real, ainda que acreditando em sua existência, o autor se define como a pessoa capaz de produzir este discurso, e o imagina assim a partir disto que ela produz (p. 23). Há, portanto, a necessidade de certa credibilidade por parte do autor e, ao mesmo tempo, de determinada confiabilidade por parte do leitor. É daí que advém o conceito de pacto autobiográfico, em que o autor afirma existir e ter praticado os atos que relata, enquanto o leitor admite acreditar que exista tal autor e que tais atos foram praticados exatamente como estão narrados. Como frisa Lejeune, “tudo repousa assim sobre a decisão do leitor [...]. O que define a autobiografia para aquele que a lê é, antes de tudo, um contrato de identidade que é selado pelo nome próprio. E isto vale também para aquele que escreve o texto” (p. 33). Ele continua: [Este pacto] não mais se funda sobre uma análise interna do funcionamento do texto, da estrutura ou dos aspectos do texto publicado; mas sobre uma análise, ao nível global da publicação, do contrato implícito ou explícito proposto pelo autor ao leitor, contrato que determina o modo de leitura do texto e engendra os efeitos que, atribuídos ao texto, parecem-nos defini-lo como uma autobiografia (p. 44). Lejeune reconhece, contudo, que tais textos comportam graus de verossimilhança, e é então que refere o romance autobiográfico, todos os textos de ficção nos quais o leitor pode ter razões para supor, a partir de semelhanças que ele acredita adivinhar, que existe uma identidade entre o autor e a personagem, ainda que o autor, ele mesmo, tenha escolhido negar esta identidade ou ao menos não afirmá-la. Assim definido, o romance autobiográfico engloba tanto
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discursos pessoais (identidade entre o narrador e a personagem) quanto discursos impessoais (personagens designados pela terceira pessoa): ele se define ao nível de seu conteúdo (p. 25). O que é importante referir, de qualquer modo, e assim o faz Lejeune, é que a biografia e a autobiografia são textos referenciais (p. 36), ou seja, eles são em si mesmos signos de uma realidade, porque a representam, mas remetem o leitor a esta mesma realidade que não é ela mesma o discurso que se lê. Pode-se concluir que o romance autobiográfico se basta a si mesmo, pois se coloca essencialmente como símbolo, sem nenhuma tautologia necessária, não passando de um jogo – de um contrato – ficcional que firmam autor e leitor. Dito de outro modo, poder-se-ia afirmar, por exemplo, a propósito dos romances de Dostoiévski ou de Carlos Heitor Cony, que existe um falso pacto autobiográfico, porque o que se sugere como autobiografia não o é e vice-versa, aquilo que não se dá enquanto autobiografia pode conter dados autobiográficos. Para resolver esse impasse, alguns autores, como Wander Melo Miranda, preferem assumir outro conceito, o auto-retrato, desenvolvido por Michel Beaujour, que se constitui segundo um sistema de recorrências, retomadas, superposições e correspondências entre elementos homólogos e substituíveis, de modo que sua principal aparência é a do descontínuo, da justaposição anacrônica e da montagem. Ao contrário da autobiografia, cuja unidade já está implícita na escolha de um curriculum vitae, ao auto-retrato pode-se sempre ajuntar elementos homólogos ao paradigma, já que prescinde de uma unidade dada de antemão: o auto-retratista não conta o que fez mas tenta dizer quem é22. É evidente que esta nova opção de leitura nos propõe outros problemas. Não só substituiremos a questão da veracidade da autobiografia pela de verossimilhança como deveremos problematizar o uso da primeira ou da terceira pessoas do singular por parte do narrador e suas relações com a(s) personagem(ns), além de repensar a questão da identidade que imediatamente se coloca. “A ex-
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periência inaugural de todo auto-retratista é a do vazio e da ausência de si” (p. 223). O auto-retrato pressupõe, assim, uma indagação contínua e, mais que isso, um discurso que cria uma imagem à medida que se desenrola e constrói aos olhos do leitor, tanto quanto ao olhar do próprio narrador e personagem. Porque é a busca de uma identidade, de uma explicação, de uma afirmação, que leva o narrador ao auto-retrato. Esta é, de fato, a chave que entendemos própria para a leitura de Cony, não enquanto autor, mas a leitura dos textos – dos discursos ficcionais – de Carlos Heitor Cony, conforme as afirmações iniciais de nosso texto, que corroboram os registros que a crítica tem feito ao longo dos anos a respeito de sua obra, destacando a narrativa voltada para a crise familiar, a busca do eu, a tentativa de unificar os fragmentos de vida, a necessidade do ultrapassamento das aparentes contradições etc. O que nos interessa destacar, aqui, é que essa opção, portanto, não é apenas formal, mas corresponde a determinado modo de ver o mundo, a uma gestalt que caracteriza não só a obra de Carlos Heitor Cony como também determinada produção literária de certo tempo em algum lugar, no caso, a literatura brasileira de caráter urbano, a partir da década dos 60. No caso específico de Carlos Heitor Cony, faz dele um caudatário de Manuel Antonio de Almeida quanto ao romance de costumes; de um Machado de Assis quanto à prospectiva psicológica e irônica, por vezes cínica, dos narradores e das personagens; e, enfim, de um sentimento de náusea advindo da “incluência” existencialista dos anos 50 que se espalhou entre nós. Examinaremos agora algumas destas questões, a começar por aquela que leva o escritor a optar, na maioria das vezes, pelo uso da primeira pessoa do singular para o seu texto.
III Todo discurso em primeira pessoa implica que a personagem, mesmo se ela narra suas aventuras mais distantes, é também ao mesmo tempo a pessoa atual que produz a narração: o sujeito do enunciado é duplo, no sentido de que ele é inseparável da enunciação; ele só se torna simples, no limite, quando o narrador falar de sua própria narração
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atual, jamais naquele outro sentido, para designar uma personagem pura de todo o narrador atual 23. Entenda-se que toda narrativa, quando concretizada, pressupõe um olhar filtrado pela passagem do tempo em relação àquilo que se narra. Ou seja, o narrador se encontra sempre no futuro daquilo que narra e, por conseqüência, a coisa narrada é seu passado. A questão é que, pela passagem do tempo, evidentemente jamais se terá a mesma percepção de um acontecimento em tempos distintos. A própria distância – temporal e por vezes espacial – do acontecimento faz com que o percebamos sob perspectiva diversa. Assim sendo, a escolha pela primeira pessoa, e a opção pela narrativa autodiegética ou homodiegética, tem uma série de desdobramentos que precisam ser levados em conta tanto pelo autor, quando opta por ela, quanto pelo leitor, quando dela se conscientiza, porque se reflete diretamente sobre o narrador e sua perspectiva narradora. “A primeira pessoa é Deus”, afirma Louis Dudek, em uma conhecida série de conferências que pronunciou sobre a primeira pessoa do narrador24. Para o crítico, o eu é sempre uma idéia abstrata que precisa ser concretizada através de uma narrativa. Deste modo, abandona-se a impessoalidade para personalizar-se, literalmente, tornar-se pessoa ou personagem (p. 6). Historicamente, Jean-Jacques Rousseau teria sido o primeiro escritor moderno a experimentar tal prática em suas Confissões, tomando-se a si mesmo enquanto personagem. A perspectiva de uma personagem é sempre subjetiva e, sob tal ótica, oposta às verdades universais. A primeira pessoa não é, jamais, um ser completo (p. 11). Existe um evidente divórcio entre o pessoal e o universal, mas, ao mesmo tempo, o pessoal aspira tornar-se universal e, com isso, referencial, modelar (p. 37). O uso de uma primeira pessoa por parte do escritor, assim, não seria apenas uma técnica literária, mas uma opção de alguém que se julga uma possível referência para os demais. A transformação do pessoal no universal, segundo Dudek, pode se dar sob duas práticas: uma delas é a auto-afirmação, que leva à auto-suficiência, quando não à futilidade; a outra é a exuberância, em que a personagem se transforma em um ser dramático, pleno de identidade, que se imagina em guerra com tudo o que não seja ela mesma (p. 13).
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Tanto num quanto no outro caso, a personagem lança mão de sua imaginação para dimensionar os próprios atos. A imaginação apresenta as coisas muito pior do que elas são, ou muito melhor do que elas são25; de qualquer modo, como algo possível de crescer em tensão, em aspiração, em potencialidade sobre como as coisas são. O propósito da imaginação é magnificar ou diminuir; embelezar ou enfear; aperfeiçoar ou distorcer. A imaginação é uma exageração da realidade; e em termos de uma autoprojeção humana isso significa nos projetar para além do domínio da realidade e da atualidade. Viver verdadeiramente dentro da imaginação é como dizer para si mesmo: você pode fazer tudo o que você quiser. Você pode fazer tudo o que você quiser! Imagine as enormes possibilidades disto! (p. 18). Essa distinção, aliás, é clássica, e vamo-la encontrar já a partir da poética aristotélica, quando ele menciona a comédia (que diminui, enfeia ou distorce) e a tragédia (que magnifica, embeleza ou aperfeiçoa ações e personagens). Esta potencialidade é, contudo, relativizada na medida em que o escritor deve fazer opções sobre o ponto de vista a partir do qual vai apresentar sua narrativa. Poderá ela distanciar-se da subjetividade, e então teremos o emprego de uma terceira pessoa. Mas poderá mergulhar na subjetividade, assumida enquanto primeira pessoa, nas variantes de falar de si mesmo – modo autodiegético – ou falar a partir de sua percepção, mas a respeito de outras personagens – heterodiegético. Há, ainda, uma variante importante, que é a adoção da terceira pessoa com o monólogo interior, prática contemporânea cuja descoberta boa parte dos historiadores da literatura atribui a James Joyce, a partir do Ulisses (1922). Vejamos cada uma destas alternativas e como elas se dão nos textos de Cony, começando pelo narrador autodiegético: A opção por uma focalização interna ou por uma focalização onisciente relaciona-se com uma certa imagem privilegiada pelo narrador; privilegiando a imagem da personagem, o narrador constitui artificialmente o tempo da experiência, os ritmos em que ela decorreu e
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as atitudes cognitivas que a regeram, ao mesmo tempo que abdica da prematura revelação de eventos posteriores a esse tempo da experiência em decurso26. Certamente, O ventre não é o melhor exemplo a ser aqui citado, porque ele se configura, ao menos em aparência, como se valendo de um narrador homodiegético. Os romances que se seguirão, A verdade de cada dia e Tijolo de segurança, farão experiências em terceira pessoa. É, portanto, em Matéria de memória que vamos encontrar a prática do narrador autodiegético. Logo na abertura do romance lemos: “Não tenho mais nada. A rigor, talvez nunca tenha tido realmente alguma coisa. Um sofá-cama forrado de novo, quadros, poucas roupas, algumas recordações desagradáveis – e as calçadas, as calçadas da minha rua, da minha cidade, do meu mundo”27. Aparentemente, nenhuma problematização: um narrador em primeira pessoa, onisciente, que vai buscar compreender seu presente a partir da rememoração do passado. No entanto, esse texto inicial está antecipado por um título de parte ou capítulo – Tino –, nome da personagem, cujo ponto de vista será literalmente cotejado com os de Selma e de João, como já mencionamos antes. Portanto, o escritor, astutamente, relativiza, desde logo, aquela primeira subjetividade, colocando-a em confronto com duas outras, as de Selma e de João, retomando, contudo, a mesma personagem numa quarta e definitiva parte, ainda dedicada a Tino. É aqui que se exemplifica, de maneira feliz, a imagem inicial que mencionei: a partir de um ponto determinado, retrocede-se no caminho e se retorna ao ponto inicial, de onde, procedido o exame de consciência, se avança na narrativa. Isso significa, na prática, que temos dois modos diferentes de narrar: num primeiro, o narrador é onisciente e conhece antecipadamente o que narra; no outro, a narração se dá como que simultaneamente aos acontecimentos. Isso se traduz na modificação do tempo verbal, como se verifica ainda na abertura daquela última parte: E por mais que pareça incrível, o tempo passa depressa. Estou só, um estreito espaço bastando para eu ser eu. Enedina levou as chaves, Selma deve estar chegando e já não posso – ainda que de repente queira – ir vê-la. Arrumei papéis e desarrumei lembranças. Posso agora pintar – sou um homem livre e libertado. Quarenta anos e livre. Estou tão pre-
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parado para ser livre que posso me matar ou ser camelô na cidade. Tão livre, que posso ver Selma, só para me contrariar e provar que posso fazer tudo, inclusive vê-la (p. 137). Se na primeira citação há um sutil deslocamento de registro semântico entre a última frase e as demais, na medida em que meu mundo não designa mais um espaço real e concreto, material, mas é alusão à subjetividade da personagem que passará a ser explorada pela narrativa, a segunda citação é ainda mais radical. Além de estabelecer um paradoxo provocado pelo falso silogismo da plena e absoluta liberdade, e porque a narrativa agora é um presente em desenvolvimento que perdeu a onisciência do narrador, ao adotar a prática autodiegética com focalização interna, permite que o leitor acompanhe e julgue o que está a ler. É neste momento que se dá então a quebra da unidade entre a coisa narrada e os acontecimentos propriamente ditos, porque, pela narrativa, o leitor antecipa a possibilidade de Selma não se encontrar mais no aeroporto, ou de Selma ter aceitado o convite do homem que conheceu no avião e ter saído com ele, predispondo-se a casar. O narrador, contudo, não tem mais o controle da narrativa, e é assim que surge o estranhamento entre a narrativa – no que toca à expectativa do narrador – e a concretização dos fatos que este mesmo narrador, de certo modo transformado em um narrador de terceira pessoa, termina por transmitir ao leitor, tornado agora testemunha, apenas, e não mais confidente do narrador. O exemplo radical do narrador autodiegético com foco interno é aquele adotado em Informação ao crucificado, através da forma do diário: Dia de São Tomás de Aquino. Padroeiro dos filósofos, padroeiro da divisão. Sim, filósofo, olho-me no espelho cheio de importância, sou um filósofo, o italiano que me fez a batina nova botou no embrulho: “Ao filósofo João Falcão, n. 28”, sou eu mesmo, filósofo João Falcão. Data festiva no Seminário. Fim do longo retiro espiritual com que se inicia o ano letivo. A semana inteira em silêncio, muita capela, muita conta de rosário desfiada silenciosamente sob pátios coloniais28. Falsa ou não em relação ao segmento histórico, há ainda uma datação: 1944, com o que a narrativa se quer um rito de passagem, pois, iniciada em 7
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de março, encerrar-se-á em um 8 de outubro com um lacônico registro: E eis que vos dou a informação: Deus acabou (p. 101), paródia ao texto bíblico, em geral fórmula utilizada pelos profetas para anunciar o Messias, aqui assumida pelo narrador para referir exatamente o contrário. O autodiegetismo constante de Carlos Heitor Cony pode ter ainda outras variações, como em Antes, o verão, em que a narrativa se abre com uma espécie de passe-partout que é um texto único que inicia e fecha a narrativa: “Agora, escrevo especialmente para você. Ninguém saberá que é para você que estou escrevendo, e você mesma só sentirá isso depois de muitos, muitos dias, quando a dor e o tempo pousarem sobre seus olhos e tornarem sua carne mais neutra que a nuvem e mais breve que a espuma”29. O movimento aqui é aquele primeiro já mencionado: a partir de um momento presente, o retorno ao passado. No entanto, menos do que explicar-se a si próprio, o narrador dirige-se a um terceiro, que é ao mesmo tempo o leitor e uma potencial personagem com quem teria convivido. Concluída a narrativa, contudo, conhecida a sorte dessa mesma personagem, a retomada daquele mesmo tempo surge sob outro sentido, que apenas a leitura pode revelar. Mais que isso, a retomada do texto cede lugar a um último fragmento narrativo em terceira pessoa, portanto, distanciado das personagens, conferindo-lhes, uma vez mais, outra interpretação e leitura. Em Pessach: a travessia30, nova experiência. O romance, dividido em duas partes, vale-se, em ambas, de uma primeira pessoa que desdobra uma narrativa sob foco interno, de modo que acompanhamos as ações à medida que elas se desdobram. No entanto, a combinação de ambas permite ver que existe uma articulação entre a primeira e a segunda, eis que esta é explicada por aquela... Já a experiência homodiegética, de certo modo inaugurada e, ao mesmo tempo, relativizada por O ventre, é plenamente desenvolvida em romances como Pilatos. O relato se abre com a narrativa de uma personagem que irá referir acontecimentos relativos a outrem, alguém a quem ela denomina Dos Passos 31: Não ouvi barulho, vi apenas que Dos Passos tremeu e sentou-se no banco. Eu estava desligado, incapaz de perceber qualquer coisa. Mas reparei naqueles pontos luminosos que saíram da janela de um carro em movimento, a alguns metros do local onde decidíramos passar a noite e esperar
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pela manhã. Estranhei a velocidade com que o carro seguiu seu caminho. Só então, quando me voltei para Dos Passos, percebi que estava morto. Podemos referir, inicialmente, a brincadeira do batismo da personagem, provável alusão ao escritor norte-americano John Dos Passos, um dos iniciadores do romance-reportagem nos Estados Unidos e um dos grandes escritores realistas do século XX. Mas o que interessa é que, feito este primeiro quadro de impacto, que imediatamente prende o leitor, abre-se um segundo bloco narrativo que vai buscar, justamente, resgatar o passado daquela personagem, ainda que, simultaneamente, resgate também o passado do narrador, embora sem tanta ênfase quanto aquela verificada em O ventre. Uma variante interessante será encontrada em O piano e a orquestra. Neste livro recente, a narrativa é iniciada com um primeiro capítulo em que aparentemente o narrador se situa distante da narrativa, numa terceira pessoa. Mas imediatamente no capítulo seguinte altera-se essa perspectiva, e a primeira pessoa surge, onisciente, para desempenhar sua função, procedimento que repete, aliás, aquele adotado em A verdade de cada dia, cuja relativização já se dava a partir do próprio dia do romance: Todos sabem como ele morreu. Afora isso, nada sabem e talvez nada saibam de nada. Foi aí pelas três horas da tarde, mesma hora em que o Filho do Outro morreu, vinte séculos atrás. Francisco de Assis Rodano já anunciara que lançaria o Grande Desafio àquela mesma hora, naquele lugar e, sobretudo, naquela circunstância. [...] Não dei muita importância ao nosso primeiro encontro. Andava eu pelos sete ou oito anos quando tomei conhecimento daquele primo distante, que de fato o era, ao menos topograficamente: morava eu no Rio e ele em Barra do Piraí. Hoje, as duas cidades estão ligadas por ônibus de quinze em quinze minutos, funcionando a segunda como um subúrbio da primeira. Mas, naquele tempo, Barra do Piraí era exatamente onde terminava o mundo e começavam o infinito, a lua, o sol e as outras estrelas32. A sutileza estilística de Carlos Heitor Cony é admirável. Observe-se a frase inicial, aludindo ao conhecimento que as pessoas teriam de algo, logo seguida
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da alusão ao Cristo crucificado, com o que antecipa alguns episódios da narrativa. Neste romance picaresco e burlesco, acompanharemos ações ridículas que são, ao mesmo tempo, risíveis e simbólicas de um determinado estado de coisas e de um estado social. Por outro lado, a frase final da segunda citação, aquele “terminava o mundo e começavam o infinito, a lua...”, evidencia o alto domínio do idioma que possui o escritor, como tem sido destacado, permitindo-lhe trocar o registro semântico num mesmo segmento frasal, de modo a distanciar-se da prosa para aproximar-se do lírico. O narrador homodiegético, lemos, é a entidade que veicula informações advindas da sua própria experiência diegética; quer isto dizer que, tendo vivido a história como personagem, o narrador retirou daí as informações de que carece para construir o seu relato, assim se distinguindo do narrador heterodiegético, na medida em que este último não dispõe de um conhecimento direto. Por outro lado, embora funcionalmente se assemelhe ao narrador autodiegético, o narrador homodiegético difere dele por ter participado da história, não como protagonista, mas como figura cujo destaque pode ir da posição de simples testemunha imparcial a personagem secundária estreitamente solidária com a central 33. Esta diferenciação é importante, porque permite variados graus de distanciamento entre o narrador e a coisa narrada. Vejamos os exemplos do narrador heterodiegético, bem mais raros em Cony, pois dos 15 romances até agora publicados pelo autor (incluído O caso Lou) apenas três utilizam a terceira pessoa do singular, o citado romance-reportagem, por motivo óbvio, além de Tijolo de segurança e Balé branco. No entanto, mesmo nestes dois casos, especialmente no primeiro, o narrador heterodiegético está permanentemente atravessado pela onisciência do anônimo narrador, capaz de o surpreender em reações as mais íntimas: Quando fechou o portão da rua Bojuru, o empregado da buate varria a calçada em frente. – Deu ladrão na rua.
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Não se espantou nem se preocupou, estava com sono, dormira mal, Renata tivera pesadelo, gastara parte da noite com a filha no colo, e agora a lombeira, preguiça de descer à cidade. O mar, no fim da rua, azul, com cheiro de mundo [...]. Dia estúpido à frente, compromissos sem importância 34. O mesmo procedimento ocorre com Balé branco, bastando observar os adjetivos introspectivos usados pelo narrador, que atribui uma carga emocional a gestos e movimentos de que não teria como apropriar-se racionalmente a partir de suas próprias exterioridades: “A mão do maestro subiu com raiva, tremeu lá em cima e despencou subitamente, livrando o acorde que a orquestra prolongou até que o ruído das palmas engrossou e invadiu o buraco escuro que afogava a platéia” 35.
IV Todos estes procedimentos emprestam à obra de Carlos Heitor Cony uma homogeneidade, já registrada por Malcolm Silverman, que é bastante rara, se considerarmos a distância temporal entre alguns de seus títulos e a quantidade destes romances. Tal constatação é tão mais importante porque as opções estilísticas do escritor correspondem, efetivamente, a uma visão de mundo muito bem definida e clara, personalíssima, e que, para além da abordagem da família burguesa carioca, que é seu cenário preferido, alcança um retrato fiel do clima que vivia a sociedade urbana brasileira dos anos 60. Naquela década, como se sabe, a nascente industrialização produzia um ainda relativamente incipiente processo de acumulação de riquezas e de capitais, fluxos iniciais de consumismo e, de modo especial, um sentimento de divisão entre a fidelidade a princípios e a adesão à nova realidade – que provoca a crise que está sempre no cerne das narrativas de Cony, reduzida aparentemente à subjetividade daquelas personagens, sobretudo dos narradores, mas que, na verdade, pode ser generalizada à sociedade brasileira urbana como um todo. Essa perspectiva fica especialmente evidente se observamos a preocupação com a relativização da narrativa e a evidente fragmentação que caracteriza
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a literatura de Carlos Heitor Cony. Não existe apenas monotonia, como querem alguns críticos (por exemplo, em Antes, o verão), ou nostalgia de um universo perdido (como em Informação ao crucificado). Há, sim, um processo em andamento de degradação humana (presente, por exemplo, em Balé branco), em que os acontecimentos, automatizados, passaram a não depender da vontade das pessoas e onde um primeiro movimento de fuga não vai além de uma misantropia, de um enclausuramento em que a personagem/narrador intenta uma espécie de exame de consciência, sem resultados muito positivos (como em Romance sem palavras, valendo a exceção, talvez, para Matéria de memória, perspectiva que pode ser relativizada se levarmos em conta a personalidade de Tino e sua pequena persistência), ou então uma fuga alternativa que se traduz na sexualidade reificada, nos relacionamentos apenas corporais, sem quaisquer adensamentos emocionais (como em O ventre, já citado). Outras alternativas que se colocam são decisões radicais de enfrentamento da realidade, como em Pessach: a travessia, mas constituem uma exceção, ou a busca de uma narrativa mais cômica, marcada pelo picaresco, em que o distanciamento permite um livre jogo de ironias e de espelhamentos que, ridicularizando as personagens, leva o narrador a revelar-lhes a verdadeira face ao leitor, como em O piano e a orquestra e O indigitado, prática que me parece mais recente no escritor, talvez a revelar a ultrapassagem de alguns questionamentos que sua obra demonstra latentes. Já uma exceção significativa em toda esta obra é justamente aquele livro que marcou o reaparecimento do escritor, Quase memória. Este trabalho, em nosso entendimento, deve sempre ser lido como um texto-chave para a compreensão da literatura de Cony, não porque eventualmente seja autobiográfico, mas porque, literariamente, trabalha todos aqueles procedimentos literários impostos pelo escritor e que traduzem, com absoluta fidelidade, sua visão de mundo. Referimo-nos sobretudo ao final daquele relato, o último capítulo, do qual retiramos algumas referências para comentá-las, encerrando e, ao mesmo tempo, retomando as propostas iniciais que fizemos para este ensaio: Deveria ter trazido o embrulho comigo, mesmo sem abri-lo. Aliás, tenho a certeza de que nunca irei abri-lo, por desnecessário. Tenha lá dentro o que tiver, dá no mesmo (p. 209).
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[...] só eu pareço estar indo para algum lugar, embora não tenha para onde ir, nem vontade disso tenho. Vou andando, para onde a noite e o carro me levarem (p. 210). Pior também para mim. Alguma coisa acabou ou está acabando. Cansado ou não, dou-me direito a uma alucinação pessoal: ver o balão que ele fazia, rei de todos os outros reis, silencioso e iluminado, passando por cima desses prédios, dessas pistas largas e fosforescentes. Para ele, seria uma bela vingança (p. 211). A sensação agora é que estou sozinho, sobrevivendo de um mundo que acabou. Só não sei, ainda, se eu também acabei (p. 212). [...] e tudo enfim nesta noite que não termina nunca, enseada escura onde a memória é âncora e luz, noite que vai adormecer todas as coisas que ele assinou, mas só por algum tempo, até que chegue o amanhã onde as grandes coisas são feitas (p. 213). Entendemos que, de certo modo, tudo o que se tentou dizer, nas linhas precedentes, pode ser encontrado nestas citações. De certo modo, toda a poética de Carlos Heitor Cony sintetiza-se neste livro, e especialmente nestas passagens. Não nos referimos ao indivíduo Carlos Heitor Cony, mas sim ao escritor e sua obra, às imagens que sua literatura nos transmite e à visão de mundo que seus livros traduzem e que tentamos aqui evidenciar. Aqui temos, numa primeira alusão, a idéia de que um objeto da realidade externa é apenas um elemento provocador do exercício da memória, esta sim verdadeiro elemento dinâmico de todo o processo narrativo. Na verdade, objetos da realidade exterior são apenas objetos, seu significado próprio encontrase esvaziado por outro significado, mais amplo, que a memória lhes empresta (ou não, como neste caso). Por outro lado, o exercício da memória, que parece ser um princípio ativo, não se apresenta necessariamente como tal, na realidade. O movimento não passaria de uma aparência, pelos mesmos motivos pelos quais os objetos da realidade exterior são praticamente negados. É que a memória, embora em um movimento interno, é, na verdade, um movimento que se dá em torno dela mesma e que, portanto, não conduz efetivamente a lugar algum, ou, dito de outro modo, não leva a nenhum lugar. Daí a personagem/narrador afirmar que pare-
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ce estar indo a algum lugar, mas, se movimento existe, ele é apenas aparente (“para onde o carro me levar”) porque, na verdade, ele se dirige apenas para a noite, que é um não-lugar. Esta perspectiva fica ainda mais explicitada com a citação seguinte, quando o narrador menciona que “alguma coisa acabou ou está acabando”, pois novamente existe não apenas uma aparência de movimento como um esgotamento da realidade. Uma alternativa é o sonho – a alucinação referida –, a outra é a solidão absoluta, mencionada na outra citação, ou, enfim, o enclausuramento na memória, que é a referência final, ainda assim relativizada pelas imagens contraditórias e ambíguas traduzidas na “âncora”, “luz” e “noite”... A identidade posta em crise, nem a memória consegue salvá-la ou devolvê-la, ainda que o exercício de seu resgate seja importante, porque traduz uma tentativa de compreensão da realidade. A literatura sombria de Carlos Heitor Cony, assim mencionada tantas vezes por aqueles que registraram sua obra, não é, contudo, uma negação absoluta, porque se tal ocorresse negaria o próprio esforço da obra literária concretizada e que estamos a analisar. Mas é uma situação-limite, assim definida e escolhida pelo escritor, que a ilumina para, a partir dela, tentar encontrar um caminho. Por isso este romance se encerra (ou se suspende) com a frase “até que chegue o amanhã onde as grandes coisas são feitas”, projeção de uma utopia simultaneamente individual e social, que a perspectiva dialética parece lhe apontar de modo permanente: há que resistir, há que resistir, há que resistir... E a literatura é um modo de resistência.
Antonio Hohlfeldt é jornalista, doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, e autor de livros de ficção para crianças e jovens.
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BENJAMIN,
Walter. “O autor como produtor”. In: Obras escolhidas. Tradução de Paulo Sérgio Rouanet. São Paulo, Brasiliense, 1985, vol. 1, p. 120 e ss. PIGNATARI, Décio. “Para uma semiótica da biografia”. In: HISGAIL, Fani (org.). Biografia: sintoma da cultura. São Paulo, Hacker/CESPUC, 1996, p. 14. CONY, Carlos Heitor. Prefácio do autor a O ato e o fato – Crônicas políticas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964, p. IX (numeração do ensaísta). Segundo se sabe, obra de 1956, enviada a concurso e preterida, por ser muito forte, viria a ser editada em 1958, quando o autor já conquistara premiação em outro concurso e com outro trabalho. Ver, a respeito, MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. Rio de Janeiro, LTC, 1978; verbete sobre o autor, p. 200. Ver, a propósito, as crônicas “A rima e a insistência”, “Na cova do leão” e “Maomé e a montanha”, do livro Posto Seis (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965), além da transcrição da carta de demissão mencionada, enviada ao então redator-chefe daquele jornal, o também escritor Antonio Callado, que viria a se demitir, igualmente, de sua função em solidariedade ao colega. CONY, Carlos Heitor. O caso Lou – Assim é se lhe parece. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975. Nota da segunda orelha do livro. LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris, Éditions du Seuil, 1975. Ver, também, BEAUJOUR, Michel. “Autobiographie et autoportrait”. In: Poétique, Paris, 32: 442-458, novembro de 1977. GENETTE, Gérard. Figures III. Paris, Éditions du Seuil, 1972 e REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria narrativa. São Paulo, Ática, 1988. SILVERMAN, Malcolm. “O mundo ficcional de Carlos Heitor Cony”. In: Moderna ficção brasileira. Rio de Janeiro/Brasília, Civilização Brasileira/INL, 1978, vol. 1, p. 52 e ss. PINTO, Júlio e CASTELLO BRANCO, Lúcia. “Notas para uma poética da memória”. In: O eixo e a roda – Revista de Literatura Brasileira. Belo Horizonte, Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, vol. 6, julho de 1988, p. 99 e ss. Para esta concepção, pode-se consultar o excelente ensaio de Jaa Torrano, “O mundo como função de musas”, contido na abertura do volume Teogonia – A origem dos deuses, de Hesíodo. São Paulo, Iluminuras, 1992, p. 11 e ss. Do mesmo modo, um excelente estudo sobre as relações entre tempo e história se encontra no ensaio “O sono e a vigília”, de José Américo Motta Pessanha. In: Tempo e história. São Paulo, Companhia das Letras/Secretaria Municipal da Cultura, 1992, p. 33 e ss. CONY, Carlos Heitor. O ventre. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967, p. 1. Idem. Matéria de memória. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968. Idem. Quase memória. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. Idem. O indigitado. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001. SILVERMAN, Malcolm, op. cit., p. 53. BARTHES, Roland. “A morte do autor”. In: O rumor da língua. Tradução de Mário Laranjeira e Leyla Perrone-Moisés. São Paulo, Brasiliense, 1988, pp. 67-8. FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Tradução de Antonio F. Cascais e Edmundo Cordeiro. Lisboa, Vega-Passagens, 2000, p. 33 e ss. Trata-se de nota posta à página 7, justificando não só a estrutura da obra como seu próprio título, uma vez que, embora mencionado como Quase memória, na verdade o título completo é Quase memória – Quase-romance. ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo, Companhia das Letras, 1994. LEJEUNE, Philippe, op. cit. MIRANDA, Wander Melo. “Água-viva: auto-retrato (im)possível”. In: SOUZA, Eneida Maria e ANDRADE, Vera Lúcia (org.). Ensaios de semiótica. Belo Horizonte, UFMG, 1983, p. 219 e ss. A obra original de Michel Beaujour referida no texto é “Autobiographie et autoportrait”, mencionada na nota 7 deste trabalho. LEJEUNE, Philippe, op. cit., p. 39. DUDEK, Louis. The first person in literature – Six talks for CBS Radio. Toronto, CBC, 1967, p. 2. Aqui, Dudek incorpora, sem mencionar, antigo princípio de Aristóteles, presente em sua Poética, que explicaria a diferenciação entre a comédia e a tragédia. REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Dicionário de teoria narrativa, cit., p. 119, relativo ao verbete narrador autodiegético. CONY, Carlos Heitor. Matéria de memória, cit., p. 1. Idem. Informação ao crucificado. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972, p. 3. Idem. Antes, o verão. São Paulo, Companhia das Letras, 1996, pp. 13 e 187. Idem. Pessach: a travessia. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, pp. 7 e 133. Idem. Pilatos. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 7. Idem. O piano e a orquestra. São Paulo, Companhia das Letras, 1999, pp. 11 e 15. REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M. Op. cit., p.124. CONY, Carlos Heitor. Tijolo de segurança. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1960, pp. 1-2. Idem. Balé branco. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966, p. 3.
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Histórias de subúrbios UMA ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE DOM CASMURRO E O VENTRE 1 Raquel Illescas Bueno
Em 1998, faltando um ano para o centenário de Dom Casmurro , Car2
los Heitor Cony publicou nova versão de O ventre, seu romance de estréia3. A primeira edição deste livro foi publicada em 1958, quando Dom Casmurro, obra da maturidade de Machado de Assis, já vinha intrigando público e crítica por ininterruptos 60 anos. Helena, protagonista de O ventre, carrega nos olhos estrábicos a ambigüidade que faz pensar em Capitu. No ventre, um filho bastardo. No prefácio à oitava edição daquele seu romance, Cony explicita sua proximidade com o universo da ficção machadiana, atribuindo ao mestre a herança de certo “sentimento amargo e áspero”. Este trabalho parte de coincidências que aproximam os livros citados para pesquisar a comunhão de tons e de uma visão de mundo cética, relativista, a partir da qual ambos os autores traçam a história dos “subúrbios que todo homem carrega dentro de si”. Essa expressão de Cony dialoga com a História dos subúrbios prometida por Bento Santiago em Dom Casmurro. A cronologia não será desconsiderada. Machado de Assis foi moderno avant la lettre. Carlos Heitor Cony, que publica ficção desde o final da década dos 50, é um escritor da modernidade, herdeiro de Machado e também, em alguma medida, de Proust e Joyce, de Faulkner e Sartre. Machado e Cony irmanam-se por aquilo que denominarei retórica da negatividade, para enfocar o ceticismo e sua expressão amarga e mal-humorada. Encontramos exemplos dessa modulação retórica já no primeiro capítulo de cada romance. Na pena de Bento Santiago, o comentário à expressão “Dom Casmurro”: “Não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro da-
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qui até ao fim do livro, vai este mesmo” (Assis, 1992, p. 13). No romance de Cony, na voz do cruel José Severo, um ventre de mulher só pode conter um erro e o próprio ventre será tão errado quanto as possíveis tripas que dentro dele incham até não agüentar mais. “Aí vêm para fora, a gente dá mingau, o padre benze, o colégio ensina os pronomes oblíquos e pronto. Mas, no fundo, é uma tripa” (Cony, 1998, p. 154). A mesma crueldade é empregada, desde o primeiro capítulo, na autoapresentação de José Severo: “[...] jamais me preocupei com problemas do espírito [...]. Não creio nos sentimentais encabulados, nos líricos disfarçados que se benzem quando os raios caem. Meu materialismo é integral. Nasceu no mesmo ventre que me concebeu” (Cony, 1998, p. 13). O filtro pelo qual passam as expressões da negatividade de Bento e de José Severo é sempre o da ironia, com variações de grau e intensidade. José insistirá em mostrar a face mais sórdida do que vai por dentro de si e dos que com ele convivem. Verdades ou mentiras, a qualquer tempo é preciso desconfiar desses narradores feridos pelo que consideram traição de quem mais amaram. O tema predileto de Machado de Assis e de Carlos Heitor Cony é o da infidelidade. Na maioria das narrativas, o assunto é a traição de um homem por uma mulher. Muitas vezes o caso é de adultério propriamente dito, porém, para abranger maior número de exemplos nas obras de ambos, convém optar pela palavra infidelidade. A publicação de O ventre pela Civilização Brasileira deveu-se à persistência do editor, o qual rebateu um parecer que sugeria a reescrita de grande parte do texto. Cony revisou alguns detalhes que comprometiam a verossimilhança, mas recusou-se a fazer alterações profundas. Contou, então, com a convicção de Ênio Silveira, que confiava no sucesso do estreante. A publicidade para o lançamento de O ventre apostou no apelo dos seguintes slogans: “Um romance que chocará a muitos, mas que impressionará a todos”; “Um libelo contra a mulher!”4. Carlos Heitor Cony não hesita em atribuir a Capitu a condição de adúltera. Em 1999, depôs como testemunha de acusação no julgamento que a Folha de S. Paulo promoveu em comemoração ao centenário de Dom Casmurro. Presidido por um ministro do Supremo Tribunal Federal, o júri simulado acabou por absolver Capitu, entre outros motivos, por insuficiência de provas. O próprio Cony, ambiguamente, afirmou em juízo e em crônica que absolveria a acusada por ela ser uma “adúltera extraordinária”5. Durante o depoimento, ele
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citou um espirituoso haicai de Dalton Trevisan: “Se Capitu não traiu Bentinho, Machado de Assis chamou-se José de Alencar”6. Depois de Machado de Assis, se ainda existem personagens incapazes de trair, certamente seu criador não atende pelo nome de Dalton Trevisan nem de Carlos Heitor Cony. Representantes, ambos, da linhagem machadiana na ficção brasileira contemporânea, eles não se recusam a enfrentar em seus textos os desafios dos subúrbios do homem – e da mulher, é claro. Desde antes do adultério e de seus possíveis frutos, os personagens desses dois escritores caminham para um mesmo beco sem saída. Seus anseios e sentimentos, muitas vezes menos nobres do que amores não correspondidos, restam condenados à insatisfação. Em Cony, o tédio e o desprezo corroem as esperanças de realização das personagens. Na origem da incapacidade de entrega afetiva, percebe-se a incomunicabilidade travando os diálogos, represando as emoções. As metáforas para a localização das fontes de infelicidade e incompreensão variam de um texto para outro, sugerindo sempre algo de recôndito, impenetrável. Serão ora os subúrbios, ora os embrulhos, ora as “cavernas incalculáveis da alma humana” (expressão buscada em Santo Agostinho, o devasso posteriormente convertido à castidade). No sentido empregado pelo autor, ventre é sinônimo de útero. Centro do corpo feminino, símbolo da maternidade e usualmente relacionado à necessidade de proteção, o ventre tem localização precisa e funções específicas. Como órgão do aparelho reprodutor, é um lugar de resguardo. Não é assim que o vê José Severo. Conforme a maneira como se encare a reprodução humana, o ventre será o espaço obsceno da multiplicação dos erros. Essa leitura pode aproveitar a aproximação entre uma simbologia positiva do ventre e outra, negativa, que trata de castração e voracidade. O ventre pode ser considerado sede dos desejos, de sua insaciabilidade. Como a caverna, ele é um refúgio, mas pode sugerir destruição e sufocamento7. Conjugando os planos moral e biológico, o ventre assume no texto de Cony o caráter simbólico de primeira morada da incompreensão. Em sua ficção, as mulheres são sempre inescrutáveis. Quais as razões de Helena, afinal? Não sabemos, porque José também não sabe. Os homens, por sua vez, são casmurros, ensimesmados, incapazes de qualquer abertura. Há apenas suspeitas quanto às verdadeiras fontes da tortura existencial das personagens masculinas. Acontecem revelações em momentos-chave da trama, mas outros esclarecimentos importan-
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tes, em relação a algum triângulo amoroso, por exemplo, não são fornecidos. O leitor não saberá mais do que o pouco que José conhece, e a incapacidade dele para compreender Helena fica clara desde o início do romance. Não se sabe quem engravidou a personagem feminina identificada como “mulher do capitão”, vizinha do colégio interno onde o protagonista estuda. Vários colegas, além dele mesmo, com ela se relacionavam. José afirma ter certeza de que teria sido ele o responsável, mas o leitor não tem como rebater ou confirmar essa afirmação. Também não há resposta para a dúvida sobre a paternidade do filho de Helena. Se, em Dom Casmurro, Bento e Escobar são os possíveis pais de Ezequiel, no romance de Cony não se trata de ambigüidade, mas sim de uma total indefinição. O ventre é colocado sob suspeita já nas primeiras linhas do livro. Quando criança, o protagonista evitava pronunciar a palavra ventre ao rezar a ave-maria, por julgá-la feia, indigna. Sua mãe sofre de um câncer no pâncreas. À beira da morte, revela ao marido seu maior segredo, que envolve a paternidade de José. Antes de falar da doença da mãe, ele acusa o ventre materno por ter colaborado com uma desinteligência da natureza: gerar dois seres muito diferentes entre si, dois irmãos que se odeiam. Esse desamor é central na trama, marcando mesmo o desacordo entre o protagonista e o mundo. O romance trata das relações entre José Severo – protagonista-narrador – e o casal formado por seu irmão e Helena, apresentada em seus 8 anos de idade como “a mulher pública de toda a infância adjacente”. No momento da morte da mãe, José Severo a escuta confessando ao marido que ele (José) é filho bastardo. Seu verdadeiro pai era o médico da família. Depois do nascimento dele, que foi o primogênito, sua mãe e seu suposto pai conceberam o único filho de ambos (meio-irmão de José, portanto), que não é nomeado na narrativa. No texto original, a maioria das referências a essa personagem traz o epíteto “meu torturado irmão”; na oitava edição, revista, ele é “o irmão”. Helena iniciou sexualmente os dois meninos, depois casou-se com “o irmão” e não tiveram filhos. José Severo, o filho revoltado, passou algum tempo num internato como tentativa de correção. Expulso devido a seu comportamento no episódio da gravidez da esposa do capitão, afastou-se de todos e foi trabalhar como motorista de ônibus em Maceió. Ao voltar uma vez ao Rio de Janeiro, assistiu à morte daquele a quem chamava “pai”, a quem tanto odiava. Foi
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quando descobriu que, “morto o ódio que não entendia, sobrava lugar para o amor que precisaria compreender” (Cony, 1998, p. 106). Ele nunca esqueceria Helena e nunca compreenderia seus sentimentos por ela e pelo irmão, nem o que unia o casal que o traíra. Enquanto no texto original o sentimento é nomeado como amor em mais de uma passagem, na versão posterior evita-se tal expressão no que diz respeito à relação entre José e Helena8. José Severo é um desgarrado e despreza a classe social a que pertence (a pequena burguesia). Percorre o Brasil como caminhoneiro, depois volta ao Rio a pedido do irmão, que a essa altura já se tornara um matemático bem-sucedido. Mantinha contato com Einstein, mas era, como José, outro homem insatisfeito, profundamente angustiado. Convivendo com o casal Helena-irmão, José Severo percebeu falsidades e desconfiou de adultério, surpreendendo-se com a decisão do irmão de viajar para o exterior apesar da negativa de Helena em acompanhá-lo. Tendo praticamente se confessado bissexual (detalhe enfatizado no texto da oitava edição), o irmão parte, deixando ao protagonista a incumbência de cuidar de Helena em sua prolongada ausência. Sete meses depois, ela chama José, comunica que está grávida e afirma que conta com ele para ajudá-la a ter a criança. O diálogo tem algo de surreal, mas José é dirigido pela determinação de Helena. Eles se isolam na Serra da Mantiqueira, num povoado chamado Desengano, e só voltam ao Rio depois do nascimento do menino. No lugarejo onde se refugiaram, acontece o único beijo entre José e Helena adultos. Na seqüência, Helena e um novo companheiro, apenas mencionado, morrem durante uma viagem, não sem antes deixar a José a responsabilidade pelo filho dela. Tudo leva a crer que o garoto crescerá pensando ser filho de José, como acreditavam todas as demais personagens, inclusive o irmão. Helena preferia assim e o narrador não diz se revelará a verdade algum dia. Mas qual seria a verdade a ser revelada? Não há menção ao homem que engravidou Helena. José dispensa Helena de fornecer essas explicações, mas o leitor custará a compreender que a narrativa como um todo também a dispensa. Para o leitor, resta dúvida também sobre algo que pudesse explicar a crescente semelhança física entre o menino e José Severo: “O garoto é odioso. Tem o mau gosto de ir se parecendo comigo. Eu trato bem dele para me distrair e purificar” (Cony, 1998, p. 196). Deixando muitos pontos sem maiores esclarecimentos, por outro lado
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insistindo na fixação de José por Helena, Cony se aproxima de Machado. Aproximação proposital, se não vejamos: • Aos olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu, corresponde, em Helena, um “olhar meio estrábico que zombava de tudo ao mesmo tempo e [me] deixava sem jeito” (Cony, 1998, p. 106). • A segurança de Capitu, sua capacidade de dissimulação, contrastava com a insegurança de Bentinho: “Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?” (Assis, 1992, p. 117). O mesmo vale para José Severo em relação a Helena. Ao comunicar sua gravidez, ela o surpreende: “Ela soltava a coisa. Não era como eu, que precisava de engulhos, não dizia, vomitava. Ela não. Aquilo saíra tão natural como um sopro para apagar velinhas de bolo de aniversário” (Cony, 1998, p. 137). • Assim como as famílias Santiago e Pádua, os Severo e a família de Helena eram vizinhos. • A rua em que José decide morar quando volta ao Rio de Janeiro é a Riachuelo, antiga Mata-Cavalos. Mas o Centro do Rio tinha se degradado: “Rua feia, feia mesmo, a rua mais feia do Centro. E os rendez-vous malcheirosos, mal freqüentados” (Cony, 1998, p. 117). O narrador explica que, apesar do nome atual, prefere empregar o antigo, como no trecho que segue: “A rua Mata-Cavalos à frente, o morro de Santa Teresa por trás. No meio nada, quer dizer, eu” (Cony, 1998, p.120). Que cenário poderia remeter mais diretamente ao de Dom Casmurro? Ocorre que essa região do Centro do Rio de Janeiro passou a ser um espaço sórdido. • Se o seminário afastou Bentinho de Capitu, José e Helena são afastados fisicamente pelo internato, o que dá oportunidade para Helena e o irmão se aproximarem. • Tanto Bentinho quanto José sofrem muito com a expectativa da reação feminina a suas partidas. A reação de Capitu, nos seus 14 anos, al-
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terna indiferença, fúria, aceitação dissimulada e idéias atrevidas (Assis, 1992, p. 35). Helena, nos seus precoces 8 anos, ouve sem dar importância, terrível em sua auto-suficiência. “– Então, nunca mais, Helena?”, pergunta José, e como resposta ouve: “– Nunca mais o quê?”. Conforme apontou Luís Augusto Fischer, em artigo intitulado “O ventre e a linhagem das memórias”, “Helena é, sem muita diferença de psicologia, a mesma Capitu de Machado [...]. Claro, há diferenças. Helena é uma cínica total, em adulta, mas ainda assim uma mulher fascinante em sua completude” 9. • Quanto ao tema da fraternidade, há mais diferenças do que semelhanças. Trata-se, porém, de contrastes fundamentais para entender o jogo de referências cruzadas que conduz ao desfecho em O ventre. Bentinho era filho único. Escobar, seu melhor amigo, perdera a única irmã. A amizade entre ele e Bentinho os tornava algo parecidos a dois irmãos. Escobar se casa com Sancha, melhor amiga de Capitu, quase uma irmã, e Sancha também não passa despercebida a Bentinho em seus encantos femininos (capítulo “A mão de Sancha”). Em O ventre, José descobre-se filho bastardo e meio-irmão. Ao contrário de Bentinho e Escobar, ambos os irmãos sempre se odiaram e disputaram a mesma mulher desde a infância. Ao rever José pela primeira vez depois de casada, Helena lhe diz: “– Sabe, agora somos irmãos?” (Cony, 1998, p. 111). Insinua-se o tema do incesto, ainda que simbólico – tema freqüente na ficção de Cony –, fazendo lembrar a outra Helena, a personagem de Machado que protagoniza o romance que leva seu nome. Por causa de uma confusão em torno da paternidade da protagonista – mais uma filha bastarda de algum ventre do século XIX –, a Helena de Machado não se pôde unir a Estácio, a quem amava e que correspondia a esse amor. Ao contrário do que Estácio havia sido levado a crer, Helena não era sua irmã de sangue. Porém bastava a fraternidade jurídica de ambos para colocar em pauta o tema do incesto e conduzir ao desfecho trágico. Estávamos, afinal, em 1876 e, embora Machado de Assis já não se chamasse José de Alencar, havia algum espaço em seus romances para resquícios do romantismo
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dos folhetins. Helena – a de Machado – morreu de amor. Antes da solução romântica, contudo, haviam sido abordados os temas que interessa destacar: infidelidade, bastardia e incesto. • A cabeça aritmética de Escobar, herdada por Ezequiel, é traço definidor da personalidade do irmão de José. Segundo Bentinho, Escobar “era das cabeças aritméticas de Holmes (2+2 = 4)” (Assis, 1992, p. 127). O irmão matemático, segundo José Severo, fazia parte “daquela gente para a qual a vida é um E sobre a raiz quadrada de m2 ± T = X” (Cony, 1998, p. 123). Além disso, o irmão acreditava na definição do universo formulada por Einstein, para quem RiK, = 0, RiK, 1 + i + R1 = 0 (Cony, 1998, p. 187). Ao revisar o texto, Cony eliminou a informação de que o nome do irmão teria sido indicado para concorrer ao Prêmio Nobel, reduzindo o âmbito de sua notoriedade ao reconhecimento entre os cientistas latino-americanos. • Um dos indícios da infidelidade de Capitu foi a demora da gravidez tão desejada por Bentinho. Em O ventre, a dificuldade de ser pai torna ainda mais amargurado o irmão, que explica a José: “O médico diz que a culpa é minha [...] a seiva é fraca, e não combina com a de Helena” (Cony, 1998, p. 128). • A perversidade, tão freqüente em Machado e em Cony, é exemplificada no sadismo dos dois meninos. Ezequiel insiste em ver até o fim a devoração de um rato por um gato (Assis, 1992, p. 147); o filho de Helena, na última cena do romance, destripa os canários que ganhara depois de muita birra, apenas para verificar se tinham mesmo um apito na barriga, conforme José lhe havia dito no intuito de se ver livre de uma curiosidade do menino (Cony, 1998, p. 196). • A idéia de suicídio, que seduziu Bento Santiago antes de ele se separar de Capitu, é aventada diversas vezes por José e concretizada pelo irmão, que corta os pulsos para, em seguida, submergir na banheira da casa de José. Ao fazê-lo, revive muito ironicamente, em águas pa-
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radas, o afogamento e a morte de Escobar. José descreve o irmão morto com a habitual frieza: “Na banheira encontrei-o tal qual em nossa infância: amorfo, meio pulha, só não estava corado” (Cony, 1998, p. 195). Desaparece, no texto de Cony, aquele grão de heroísmo que Escobar assumira enquanto nadava nas águas revoltas da Praia do Flamengo: “[...] meteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu” (Assis, 1992, p. 159). • Capitu morreu e foi enterrada na Suíça; Ezequiel morreu de febre tifóide nas imediações de Jerusalém, para onde fora em viagem científica, ou, nas palavras de Bento Santiago, “arqueologias”. Em O ventre, três anos depois do suicídio do marido, a viúva Helena “[...] se juntou a um inglês. Foram procurar a ossada de um cientista inglês perdido na selva amazônica. Morreram mesmo por lá, picados por mosquitos. Li nos jornais que outro inglês veio procurar a ossada dos dois” (Cony, 1998, p. 195). Das arqueologias orientais de Machado às arqueologias tropicais de Cony, repete-se o motivo da morte da heroína considerada culpada pelo narrador. Não sem ironia, em O ventre, a procura de ossadas na Amazônia reúne as idéias de morte a distância da mulher adúltera e de morte de quem procurava ossos alheios. Em ambos os romances, o trágico se dissolve na ironia da notícia apressada do falecimento (seja de Capitu, seja de Helena), na ausência de comentários elegíacos e no tom de desprezo à ciência, que se detém sobre os restos do que tenha sido corpo de gente. A diferença principal é que, em O ventre, o filho bastardo não se transforma em ossada. Ele permanece vivo, para a dor e a delícia do narrador. Ele é o resto com quem é necessário conviver. Um dos bordões preferidos de Cony em suas crônicas é a pergunta sobre onde estarão os ossos de Dana de Teffé. O caso policial que envolveu o desaparecimento dessa pessoa foi encerrado sem que houvesse possibilidade de julgar os acusados, pois nunca se localizou o corpo da vítima. A localização dos ossos justificaria a reabertura do processo e poderia levar a alguma conclusão. Com a procrastinação,
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perde-se em grande parte o sentido desses procedimentos. Essa é, portanto, uma pergunta formulada sem esperança de resposta, num tempo em que a resposta já nem interessa à maioria dos envolvidos. Mas nem por isso deixa de ser uma pergunta pertinente, razoável. Da mesma forma, os narradores dos romances de Cony não confiam em obter respostas, mas não abrem mão das perguntas mais difíceis, denunciando aqui e ali a origem de sua inquietude existencial. A afirmação inicial de José de que não se interessa pelos problemas do espírito deve ser entendida no contexto de sua visão iconoclasta, expressada com uma linguagem que valoriza o insulto e a virulência. Para compreender melhor essa visão de mundo, que percorre toda a obra de Cony, é importante considerar também Informação ao crucificado, de 1961, relato de viés autobiográfico que narra em forma de diário a crise de fé do seminarista João Falcão, adolescente que decide abandonar os estudos religiosos. Em princípio, o protagonista de O ventre seria o avesso desse personagem, pois, além de estudar em colégio laico, odeia os livros e rejeita a formação humanista que seu padrinho tenta lhe dar. Mas há semelhanças: ambos incorporam uma abnegação ao sofrimento, sentem-se deslocados, confinam-se em seus dramas pessoais. • O último capítulo de Dom Casmurro intitula-se “É bem, e o resto?”; a última parte do romance de Cony denomina-se “O ventre e o resto”. Entre José Severo e o irmão jamais houve a confiança que existia entre Escobar e Bentinho. Havia disputa, ódio, desprezo e alguma amabilidade para disfarçar tudo isso: “Nós sempre fôramos amáveis um com o outro, principalmente quando nos detestávamos” (Cony, 1998, p. 125). Gerados no mesmo ventre, sua relação merece ser estudada à luz de outras, como a de Caim e Abel, a dos gêmeos Esaú e Jacó (personagens citadas por José em O ventre) ou ainda a de Pedro e Paulo machadianos. Nenhuma personagem de O ventre oferece contraste aos desenganos do narrador (função que, em Dom Casmurro, é desempenhada por D. Glória e, de
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certa forma, José Dias). José Severo está sozinho, inclusive como protagonista. Helena, apesar de sua força, não divide o primeiro plano da ação na intensidade do que acontece em Dom Casmurro. Apesar de obcecados por mulheres a quem negam a voz, Bento e José prezam bastante a própria liberdade. O existencialismo está na base do pensamento do Cony dos anos 50, reforçando a negatividade da retórica. José Severo e seu meio-irmão vivem conflitos tipicamente sartrianos. Suas angústias contaminam a forma com que encaram o presente e o futuro. Sua idéia de liberdade incorpora a relativização que esse conceito sofreu com o exacerbado individualismo desenvolvido na primeira metade do século xx. Preso ao passado e a Capitu, Bento Santiago reconstruiu no Engenho Novo a velha casa de Mata-Cavalos. Mas, em certo sentido, ele está livre. D. Glória, José Dias, Escobar, Ezequiel e Capitu já haviam ido “estudar a geologia dos campos santos” quando ele resolveu reinventar literariamente seu passado. Seu cotidiano inclui a decisão de visitar ou não alguma daquelas jovens amigas cujo convívio o obriga a “consultar dicionários”. Bento Santiago tem a opção de, enfastiado, não enfrentar o que é novo e recolher-se, casmurro, para escrever o texto em que procura atar as pontas de sua vida. José, ao contrário, permanece responsável pelo novo. Ele seguirá recusando a si e aos outros, mas não recusou a incumbência de educar o filho de Helena. Justo ele, que nunca quis assumir responsabilidade alguma. “Fiquei com o resto”, ele diz. E prossegue resto afora, distraindo-se e se purificando muito à sua maneira. Para encerrar o romance, José não promete contar a história de ninguém, nem de nenhum subúrbio. Ao ouvir a explicação que o menino lhe dá para a morte dos canários, identifica-se tanto com ele que lhe oferece como prêmio uma sessão de cinema, balas e ainda lhe promete um canivete. Entretanto, como fez Bento Santiago na frase final de Dom Casmurro, José também se volta para o futuro – coisa rara em seu discurso – ao encerrar a narrativa. Conclui, então, com a mesma crueldade de sempre: “Não há dúvida, esse menino promete, não há dúvida, esse menino promete” (Cony, 1998, p. 196). A revolta de José seguirá fazendo que ele odeie ou despreze os vivos, os mortos, seus ventres, a si mesmo. Nunca perdoará ao irmão ter-se suicidado justamente em seu apartamento da Rua Mata-Cavalos. Habitante do ventre de-
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gradado do Rio de Janeiro, José é um homem que, sem ter possuído a única mulher que amou, herdou “o fruto equivocado de seu ventre equivocado”. Em Balé branco, de 1965, a protagonista, Betinha, não se realiza na vida pessoal nem na profissão. Bailarina, ela representa apenas papéis pequenos. Então decide engravidar, como forma de agredir os outros e o próprio corpo. Bem antes que se falasse em “produção independente”, Betinha decide ser mãe solteira: “Seria um filho sem pai, não por descuido ou erro de sua parte, mas por cálculo, por sabedoria, por amor. E contaria para ele a sua experiência, a sua aventura. E juntos se desforrariam do mundo e se vingariam, juntos”10. Depois de abortar em conseqüência de uma queda acidental, ela se sente vazia, “órfã do filho que nunca teve”. No final do romance, segue com sua insatisfação, fazendo o que fazia antes de engravidar. Uma visão mais escatológica da gestação e do próprio ventre feminino aparece em Pessach: a travessia, de 1967. O protagonista, Paulo Simões, questiona o médico de sua mãe sobre uma doença uterina. A descrição e um desenho feitos pelo profissional levam Paulo Simões a pensar em canibalismo e a concluir que a medicina é obscena. Noutra passagem, o bebê de sua ex-mulher também parece obsceno a Paulo Simões. Além disso, a segunda parte do romance, cuja ação se desenvolve em uma fazenda que serve de local de treinamento para um grupo guerrilheiro, traz cenas de perversão e de violência sexual. Nesse romance, a sociedade civil toda é posta sob suspeita, os parâmetros burgueses são deixados para trás, mas nem por isso a sexualidade será exercida de maneira satisfatória. Sejam pessoas reprimidas e tendentes ao conservadorismo, como “o irmão”, em O ventre; libertárias, como a protagonista de Balé branco; sejam postas em xeque num momento decisivo da vida nacional (é o caso do escritor Paulo Simões, que muito a contragosto adere à luta armada), as personagens estarão sempre angustiadas e se relacionando de forma conflituosa com o tema da procriação. Nos detalhes, revelam-se desejos escondidos, revoltas sufocadas. O gosto pelos detalhes sórdidos tem tradição na literatura brasileira. Antonio Candido apontou exemplos de desarmonias instauradas por ocorrências desse tipo em obras de José de Alencar, como, por exemplo, a luxúria do velho Couto, em Lucíola, e o fetichismo sexual de Horácio, em A pata da gazela. O crítico observou: “[...] embora sintamos a relativa argúcia do autor, imaginamos, pesarosos, que conto não teria aquilo rendido nas mãos de Machado de
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Assis”11. Em Dom Casmurro, Machado de Assis não insiste na crueldade humana, no sadismo, mas há vários exemplos em seus romances (como a tão comentada análise da discriminação por causa do defeito físico de Eugênia, a moça coxa de Memórias póstumas de Brás Cubas) e em seus contos (“A causa secreta”, “Verba testamentária”, “Pai contra mãe”, por exemplo). Em Ao vencedor as batatas, Roberto Schwarz atém-se a alguns rendimentos ficcionais dos detalhes perversos. Considera a estética romântica de José de Alencar inconsistente no centro e afirma que esses detalhes aparecem relacionados, num primeiro momento da análise, ao embate entre alma e corpo, mas suscitam vivacidade no recorte de realidade escolhido. Na seqüência, Schwarz fala de uma tendência da literatura brasileira, ali denominada de “tradição do instante cafajeste”. Tais desvios de rota operariam a filtragem proveitosa para os textos de “alguma coisa de mordente”, esmiuçando um defeito físico, por exemplo. Além das obras de José de Alencar, aponta exemplos de A Moreninha, de Macedo, e também Eugênia, de Memórias póstumas de Brás Cubas. Em seguida, amplia o foco para citar como instantes cafajestes as “grosserias parnasianonaturalistas”, as “piadas de Oswald”, a “podridão programática de Nelson Rodrigues” e “o tom mesquinho” de Dalton Trevisan12. Desses autores, o que mais se aproxima do Cony de O ventre é Nelson Rodrigues, seja pelo momento da criação da obra, seja pelo ânimo antiburguês, levando à crítica ao comedimento e às falsidades sobre as quais se apoiava a família na metade do século passado. Como ficou dito, nos textos de Nelson Rodrigues não se trata propriamente de “instante cafajeste”, mas de predomínio programático desse registro, com ênfase hiper-realista nos aspectos mais sórdidos da existência. O adultério, muitas vezes envolvendo cunhados, é tema freqüente na obra de Nelson Rodrigues. A título de exemplo, cite-se O beijo no asfalto, escrita cerca de dois anos depois da publicação de O ventre. Nessa peça, sobrepõemse homossexualidade (inclusive o desejo homossexual do sogro pelo genro), incesto, paixão de uma adolescente por seu cunhado, com destaque para diálogos em que as motivações são reveladas abertamente (a principal personagem feminina, grávida, confessa o desejo de abortar para não alterar seu corpo, por exemplo). Coincidentemente, a casa dos protagonistas dessa peça de Nelson Rodrigues fica no Grajaú, mesmo bairro onde vivem Helena e o irmão.
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Para José Severo, aquele seria um endereço suspeito: “Grajaú, bairrinho metido a grã-fino, ilhado, uma pequena burguesia feroz, semiprovinciana. [...] ‘Deve haver muito adultério por aqui’” (Cony, 1998, p. 110). O ímpeto antiburguês, pondo em xeque os valores familiares, assumiu conotação programática também nos primeiros romances de Cony. Nas suas obras mais recentes, posteriores a diversas transformações sociais e à liberalização dos costumes, o autor já não coloca a instituição social da família como alvo principal de suas críticas. Permanece o “sentimento amargo e áspero” referido por Cony na nota à oitava edição de O ventre. Ao revisar o texto, o autor procurou acirrar as iniqüidades, tornando as personagens ainda mais cínicas e incapazes de sentimentos. Foram eliminadas, por exemplo, as referências a “amor”, “alma”, “saudade” e “coração”, além de duas cenas de choro de José no período em que acompanhou a gravidez de Helena no exílio em Desengano13. Esse povoado na serra teria sido o lugar perfeito para um relacionamento amoroso, mas surgiu na hora errada, por motivos alheios à vontade do protagonista, como local para preparar o nascimento de um menino que, na visão de José, ampliaria o engano e o desengano no mundo. Como o José do Evangelho, o de Cony aceita o destino de proteger a mulher que ama no período de sua gestação, mesmo não sendo o pai da criança. As comparações param por aí. Helena não é virgem, seu filho não é o Messias, José não é magnânimo nem tem comportamentos exemplares. De toda forma, o ambiente rural de Desengano agrega um toque idílico à narrativa, suscitando o pouco de entrega amorosa que personagens como Helena e José se permitiriam. Ela é sempre provocante; ele, submisso à determinação dela, ao mesmo tempo obediente à promessa feita ao irmão. As descrições dos banhos de rio, das traíras com cara de gente e do vale adormecido colaboram para a atmosfera sensual e cheia de interdições, que não se repete no ambiente urbano do Rio de Janeiro. Finalmente, as páginas que narram esse intervalo, espécie de “temporada no paraíso possível”, revelam o que seriam os desejos mais fundos de José. Depois do parto, ele optará mais uma vez por sua própria solidão e liberdade, reconhecendo que há perda nessa atitude. Antes do suicídio, os dois irmãos têm a única conversa importante de suas vidas. O marido de Helena percebe que José está diferente e pergunta se isso aconteceu por causa do convívio com ela. José nega o motivo, mas admite
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a mudança. Na primeira versão do texto, diz ter adquirido uma “humilde certeza”; no texto revisado, diz que passou a ter “compaixão”. Para explicar esse sentimento, José se refere a uma maior capacidade de aceitação: “Compaixão... a certeza de que nada se pode fazer a não ser esperar que as coisas aconteçam...” (Cony, 1998, p. 194). Na seqüência, em frase acrescentada na revisão do texto, o irmão diz: “Você é o pai do filho dela. Estou lhe pagando a dívida em nome do pai” (Cony, 1998, p. 194). Nessa frase, ganha força a idéia do cruzamento de erros, dos ventres errados que geram filhos errados. Num raciocínio matemático muito perverso, surge a hipótese de saldar a dívida nascida no ventre da mãe de ambos, responsabilidade que, na fala do irmão, seria originalmente “do pai”. O irmão não se refere, nessa fala, ao pai biológico de José, e sim ao marido traído que criou os dois meninos. Pergunta-se: em que escala de valores o fato de José ter um filho com Helena poderia acomodar sua própria bastardia? Trair o irmão com a cunhada compensaria o fato de ele não ser filho do homem que considerou pai por tantos anos? O que soa como jogo de palavras ou humor negro pode ser lido também como confusão mental do torturado irmão, que horas depois se suicidou. Mas José é conivente com essa confusão. Podendo esclarecer alguma coisa, ele permanece calado. O irmão não ouve de sua boca a verdade mais dura (que para ele poderia ter o poder de um bálsamo), ou seja, que José não era o pai da criança, que ele se mantivera fiel à promessa de cuidar de Helena. A neutralidade de José nesse momento decisivo não é assumida por ele como causa do suicídio. Ao contrário, ele afirma que perdoa tudo ao irmão, menos o fato de ter-se suicidado em sua banheira. Livra-se da polícia com uma mentira e segue em frente. A última frase de O ventre (“Não há dúvida, esse menino promete, não há dúvida, esse menino promete.”) ecoará mais tarde no parágrafo final de Matéria de memória, romance de 1962 em que Cony narra outro caso de paternidade duvidosa. O protagonista desse romance observa o garoto e afirma: “Olhoo mais uma vez e vejo que é parecido comigo. Mas é impressão passageira. É que todos os meninos tristes se parecem comigo”14. Em O ventre, a vida de José passa a se nortear pelo convívio com o menino rebelde que se parece com ele, apesar de não ter nas veias o sangue dos Se-
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vero. Com ou sem laços consangüíneos, a herança de pai para filho não traz aperfeiçoamento. A história tende a se repetir, sempre com mais erros do que acertos. Retomando a comparação com Machado de Assis: a descrença no gênero humano dá o tom negativo à retórica e promove alguma inversão de valores. Isso não impede a permanência do amor da adolescência em seus personagens. No fundo, Bentinho e José são dois sujeitos dominados, cada um por sua obsessão. Um homem, sem entender os próprios subúrbios e inconformado por não entender os subúrbios da mulher, fica ligado a ela para sempre. As ambigüidades constituem os enigmáticos subúrbios de Dom Casmurro e de O ventre e fazem com que essas obras permaneçam. Raquel Illescas Bueno é professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Paraná. Atualmente, desenvolve doutorado em Letras, a respeito da obra de Carlos Heitor Cony, na Universidade de São Paulo.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS,
Machado de. Dom Casmurro. 26ª. ed., São Paulo, Ática, 1992. ASSIS, Machado de. Helena. 17ª. ed., São Paulo, Ática, 1992. CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981. CONY, Carlos Heitor. Balé branco. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965. CONY, Carlos Heitor. Matéria de memória. 7ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1998. CONY, Carlos Heitor. Pessach: a travessia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967. CONY, Carlos Heitor. O ventre. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958. CONY, Carlos Heitor. O ventre. 8ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1998. CONY, Carlos Heitor. “Capitu absolvida”. Folha de S.Paulo, 25.06.1999. “Ilustrada”, pp. 6-7. CONY, Carlos Heitor. “O adultério de Capitu e o perdão de Cristo”. Folha de S.Paulo, 02.07.1999. “Ilustrada”, p. 12. FISCHER, Luís Augusto. Para fazer diferença. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1998. RIBEIRO, Luis Filipe. Mulheres de papel; um estudo do imaginário em José de Alencar e Machado de Assis. Niterói, Eduff, 1996. RODRIGUES, Nelson. O beijo no asfalto. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989. SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo, Duas Cidades, 1988. TREVISAN, Dalton. “Nove haicais”. In: TREVISAN, Dalton. Pão e sangue. Rio de Janeiro, Record, 1988.
NOTAS 1 Uma primeira versão deste texto foi publicada na revista Scripta (Belo Horizonte, PUC-MG, v. 3, nº. 6, 2000, pp. 177-182). 2 Todas as citações de Dom Casmurro se baseiam em: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 26ª. ed., São Paulo, Ática, 1992. 3 Foram consultadas a primeira (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958) e a oitava edições (São Paulo, Companhia das Letras, 1998) do livro. 4 Informação obtida em consulta ao arquivo particular de Carlos Heitor Cony. 5 CONY, Carlos Heitor. Folha de S. Paulo, 25.06.1999, p. 6. Dias depois da absolvição de Capitu, Cony publicou crônica intitulada “O adultério de Capitu e o perdão de Cristo”, em que comentou: “Apesar de derrotado pelo júri, fiquei orgulhoso de meu culto machadiano. Cem anos após ter escrito o romance mais famoso de nossa literatura, um auditório lotado se empolgava com os disfarces, as insinuações, as pistas falsas que criara para contar a história de um paspalhão que, além de corno, era casmurro...” (Folha de S. Paulo, 02.07.1999, p. 12). 6 TREVISAN, Dalton. “Nove haicais”. In: TREVISAN, Dalton. Pão e sangue. Rio de Janeiro, Record, 1988, p. 92. 7 “Esse aspecto castrador do ventre deve-se, sem dúvida, ao fato de ele ser especificamente a sede dos apetites, dos desejos, cuja voracidade pode parecer assustadora para aquele que não ousa aceitar a sua animalidade profunda: [...] o que reside aqui, mais secretamente, não é riqueza, mas pobreza; é este outro lado do amor que é desejo e falta.” (CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Tradução de Vera da Costa e Silva. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989, p. 937.) 8 Comparem-se as duas versões de um mesmo trecho: “[...] sem entender, pouco a pouco, parecia que já começava a amar” (Cony, 1958, p. 42) / “[...] sem entender, pouco a pouco já começava a conviver não mais como um prisioneiro, mas como um cúmplice” (Cony, 1998, p. 54). Observe-se aqui também a substituição da palavra “amor”: “À altura dos quadris sentia seu ventre. Não nos inutilizava, nem sequer nos separava mais. As mãos de Helena desceram até o peito. Segurei-as com amor” (Cony, 1958, p. 154) / “À altura dos quadris, eu sentia seu ventre inchado. As mãos desceram até o meu peito. Segurei-as com força” (Cony, 1998, p. 163). 9 FISCHER. Luis Augusto. Para fazer diferença. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1998, p. 133. 10 CONY, Carlos Heitor. Balé branco. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965, p. 29. 11 CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira, v. II. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981, p. 231. 12 SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo, Duas Cidades, 1988, p. 47. 13 Noutro sentido, o autor eliminou talvez a frase mais forte de todo o texto, comparando as posturas do pai e da mãe do protagonista momentos antes da morte desta: “Mamãe não, parecia feder de remorso” (Cony, 1958, p. 48). 14 CONY, Carlos Heitor. Matéria de memória. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
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Sob a inspiração do crucificado UM PANORAMA DO PENSAMENTO CATÓLICO NO BRASIL Luiz Alberto Gómez de Souza
Recentemente, por ocasião da morte de Roberto Campos, Carlos Heitor Cony lembrava como eles receberam forte influência da Igreja Católica. Passando por instituições de formação do clero, ou como alunos de colégios jesuítas, maristas ou beneditinos, ou ainda participando de movimentos católicos, tantos intelectuais ou artistas deixam transparecer as marcas de um ensino ou de uma militância religiosa, diante dos quais freqüentemente se rebelaram; nem por isso, entretanto, estas deixaram de ser menos relevantes em seus itinerários1. A influência católica no mundo da cultura não se esgota dentro das fronteiras de sua instituição, mas penetra porosamente pela sociedade, com uma presença direta ou indireta, aberta ou disfarçada, nos mais diferentes âmbitos. Carlos Heitor Cony, como se sabe, trata, no autobiográfico Informação ao crucificado (1961), do período que passou no seminário. O caso brasileiro é diferente de outras situações. Não tivemos uma oposição laicista violenta como na França, um isolamento para enfrentar o liberalismo como na Colômbia ou no México ou, nesse último país, aquela situação de recíprocas discriminações2. Nem se constituiu aqui um catolicismo intransigente e poderoso na vida política e social como na Argentina, com alianças no meio militar. Não-católicos e católicos conviveram nos mesmos jornais e nas mesmas universidades. Carlos Heitor Cony e Otto Maria Carpeaux, desafiando o regime militar já nos primeiros dias depois do golpe, tinham ao lado Marcio Moreira Alves, que acompanhava por dentro a Igreja, e Hermano Alves, que vinha da Juventude Universitária Católica. Em outro jornal, Alceu Amoroso Lima, com o mesmo desassombro, iria também denunciar vigorosamente o “terrorismo cultural”3.
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Não é fácil traçar um panorama, ao mesmo tempo amplo e breve, do pensamento católico brasileiro. Corre-se o risco de omissões involuntárias ou de dar prioridades certamente sujeitas a desacordos de muitos leitores. Sendo protagonista dessa caminhada num bom espaço de tempo, não me pretendo neutro. Tratarei apenas de indicar linhas gerais de um processo histórico4. As notas bibliográficas são indicativas e por isso mesmo parciais. Num país que se considerava naturalmente católico, a identidade católica se dissolvia na totalidade. Joaquim Nabuco ou Carlos de Laet eram reconhecidamente personalidades de prática religiosa, mas sua crença não virava adjetivo para qualificar suas competências profissionais ou intelectuais. Além disso, a Igreja Católica não parecia ter prestígio no mundo da cultura. Alguns membros da Igreja, na defensiva, sentiam isso como produto de campanhas da maçonaria ou de um preconceito positivista. Foi significativa a reação de Mário de Andrade quando, em 1928, soube da conversão do respeitado Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima), tido até então como agnóstico (ou livre pensador, que era um título arejado que enobrecia). Lamentou ele: “Perdemos um crítico literário”. Como poderia continuar fazendo análises sem viseiras quem entrava para o mundo dos dogmas? A verdade é que Alceu-Tristão seguiria aplicadamente nessa tarefa por mais meio século. A mudança chegara um pouco antes, naqueles anos 20, ponto de inflexão no país. 1922 foi o momento da Semana de Arte Moderna em São Paulo, do começo do tenentismo, da criação do Partido Comunista e... do Centro D. Vital no Rio de Janeiro. Jackson de Figueiredo, jovem nordestino ardente, convertido, criou uma trincheira beligerante do mundo católico e lhe deu o nome do bispo de Olinda e Recife, que enfrentara o poder imperial e a maçonaria. Por trás, o arcebispo do Rio, D. Sebastião Leme, que também fora bispo na sede de D. Vital e dava uma importância especial ao trabalho religioso – que se começaria a chamar de apostolado – no mundo da cultura. E a revista do grupo, criada um pouco antes (1921), também teria uma denominação significativa, A Ordem, para enfrentar uma temida desordem social. Nenhuma alusão ao lema positivista da bandeira nacional. Tratava-se mais bem de uma reação ao mundo moderno. Jackson declarava-se convictamente reacionário, na linha do francês Louis Veulliot ou de Joseph de Maistre, que lutaram por restaurar o ancien régime. Era a afirmação belicosa de uma identidade5.
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Jackson, bom observador, pusera atenção no jovem Alceu Amoroso Lima, cético e diletante. Por anos se corresponderam quase diariamente; vivendo na mesma cidade, pouco se encontravam, era pelas cartas que crescia um diálogo, ou melhor, um embate tumultuado, em que o crítico defendia sua “disponibilidade” e o militante o chamava para suas fileiras combatentes. E enfim, em agosto de 1928, Alceu, em texto ardente, dava seu Adeus à disponibilidade e se declarava católico6. Poucos meses depois, Jackson morreria afogado e D. Leme, na volta do enterro, passava a Alceu o legado jacksoniano. Podemos imaginar a perturbação do jovem crítico, acostumado ao não-compromisso e à observação sem preconceitos, tendo de ser o continuador de alguém tão diferente dele nas reações e na sensibilidade. Aceitou com uma obediência que talvez hoje nos surpreenda, provavelmente violentando inclinações naturais e vestindo a couraça de cruzado da causa católica. Os anos 30 veriam o desenvolvimento de um pensamento católico que se buscava a si mesmo. Uma vertente, a mais visível e oficial, com o apoio do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, crescia no Centro D. Vital e na recém-criada Ação Católica Brasileira – iniciativa internacional do papa Pio XI para agrupar as fileiras católicas diante do fascismo italiano e do comunismo moscovita. O presidente nacional da AC seria Alceu, é claro. A Revolução de 1930 fizera implodir a velha república oligárquica do café-com-leite e era tempo de novos alinhamentos. Jackson, anos antes, sonhara com a criação de um partido católico. A isso se opusera fortemente D. Leme, e o Brasil se distinguiria de outros países latino-americanos como o Chile ou a Venezuela com seus partidos social-cristãos7. O episcopado brasileiro preferiu criar a Liga Eleitoral Católica (LEC), espécie de tribunal privado eclesiástico, para julgar os candidatos a postos políticos em função de seu alinhamento diante dos interesses corporativos da Igreja: ensino religioso, indissolubilidade do casamento etc. E, uma vez mais, o dirigente seria Alceu, comandante em tantas frentes. Mas essa posição não foi unânime. Um setor do pensamento católico se inclinava para as experiências autoritárias da Europa, talvez um pouco a partir da Itália ou da Áustria, mas principalmente do salazarismo português. A visão corporativista, que aliás estava latente na encíclica social de Pio XI de 1931, Quadragésimo anno, seria uma referência. Um escritor paulista, Plínio Salgado – com intelectuais espalhados pelo país, Gustavo Barroso, o militar Severino Sombra,
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o jovem sacerdote nordestino Hélder Câmara –, iria criar, a partir de 1932, a Ação Integralista Brasileira, com suas bandeiras verdes, seu símbolo semelhante a outros movimentos desse tempo, na escolha de uma letra grega e seu lema indígena, Anauê 8. Hoje isso tudo parece folclórico, meio opereta, mas no momento despertou entusiasmos. Uma parte significativa do episcopado viu com simpatia essas milícias e o apoio cresceu ainda mais com o começo da guerra civil na Espanha e da “cruzada” anticomunista do general Franco. Alceu Amoroso Lima, ao contrário de algumas afirmações, não pertenceu ao integralismo. Mas é verdade que, em seu livro Indicações políticas9, recomendou esse movimento aos jovens católicos que quisessem ingressar na vida partidária. Porém Alceu, homem visceralmente moderno, nunca se sentiu à vontade num ambiente de reação às coisas do seu tempo. Estava atento ao novo que surgia, à “idade nova” com que sonhava10, a um novo romancista lá no Nordeste ou a um poeta no Sul, com um olhar acolhedor aos fatos e obras da atualidade, sem as nostalgias do passado, tão comuns no mundo católico reacionário. A leitura de Chesterton, já antes de sua conversão, o atraía para o “distributismo” e o sentido de humor desse autor. E, logo depois, o entusiasmo pelo tomismo de Jacques Maritain o afastaria do integrismo católico ou do integralismo político11. Num livro de 1934, Humanismo integral, o filósofo francês traçava os rumos do que seria uma “nova cristandade”, deixando para trás a outra, dos tempos medievais. Maritain, como François Mauriac e, logo depois, Georges Bernanos, teria uma posição crítica diante da cruzada franquista. A guerra civil espanhola foi um divisor de águas entre os católicos daquele tempo. Outras transformações se estavam dando no mundo da cultura. Surgiu um personagem fascinante, que ficou alguns anos esquecido e está sendo redescoberto: Ismael Nery. Pintor e poeta influenciado pelo surrealismo e por Chagall, seria uma presença marcante desde 1922 até sua morte, em 1934. E fazia profissão de seu catolicismo. Da mesma maneira que Jackson com Alceu, insistiria com seu grande amigo, o poeta Murilo Mendes, para que este se aproximasse da Igreja. Ele o faria logo depois da morte de Ismael e, em 1935, fazia publicar na revista A Ordem textos dele12. Nesse mesmo ano Murilo, com outro poeta, Jorge de Lima, escreveu um livro de poemas militantes dedicado a Ismael Nery e com uma contundente
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afirmação na primeira página: “Restauremos a Poesia em Cristo”. Frase talvez capaz de perturbar Alceu e certamente de fazer estremecer Tristão...13 Já em 1929 nascia a Associação dos Universitários Católicos (AUC), que lançou em 1933 a revista A Vida. Em 1932, foi fundado o Instituto Católico de Estudos Superiores, embrião da futura Universidade Católica, sempre com Amoroso Lima à frente. Ali os jovens estudariam sociologia com Alceu, tomismo com o dominicano francês Pedro Secondi, teologia com o abade beneditino alemão Tomás Keller; logo depois, outro beneditino alemão, Martinho Michler, introduziria a renovação litúrgica, tendo o Mosteiro de São Bento como centro. A influência intelectual marcante e militante seria do jesuíta Leonel Franca. Nesse clima surgiram várias vocações religiosas e membros da AUC se fizeram beneditinos e dominicanos. Entre 1930 e meados dos anos 40, há um forte núcleo intelectual em torno ao Centro D. Vital, com Hamilton Nogueira, Domingos Velasco, que se declararia socialista, Perillo Gomes e dois ex-comunistas convertidos, figuras centrais nos anos seguintes, o impetuoso jornalista Carlos Lacerda e o engenheiro Gustavo Corção. O segundo contaria seu itinerário espiritual no livro A descoberta do outro, de grande impacto na ocasião, e, logo depois, seria o número 2 no Centro D. Vital14. Ali estava também outro ensaísta agudo, menos lembrado hoje, o médico nordestino J. Fernando Carneiro, autor de Catolicismo, revolução e reação, coletânea de artigos instigantes que provocou mal-estar nos meios católicos conservadores15. Por esses anos, nos meios da Arquidiocese de São Paulo e da Ação Católica dessa cidade, se esboçaria uma reação em outra direção, com dois sacerdotes, Castro Mayer e Proença Sigaud, e o medievalista Plínio Correia de Oliveira, que escreveria em 1943 o livro Em defesa da Ação Católica, criticando as orientações maritaineanas de Alceu e da Ação Católica Brasileira. Os dois primeiros seriam mais tarde bispos, em Campos um, em Jacarezinho e Diamantina o outro, e lançariam o jornal Catolicismo como trincheira de um catolicismo intransigente, fundando mais tarde o movimento integrista e monárquico Tradição, Família e Propriedade (TFP). No começo dos anos 40, Alceu Amoroso Lima deixou a direção da Ação Católica. Morrera em 1942 o cardeal D. Sebastião Leme, e o novo arcebispo do Rio de Janeiro, D. Jayme Câmara, sem a visão e a cultura de seu predecessor,
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não via com bons olhos aquele que, no momento, era o leigo por antonomásia. Deu-se então uma dupla libertação. Por um lado, Alceu despiu as roupagens da autoridade eclesial de que fora investido e que administrava com dedicação e eficiência, mas que pesava num espírito inquieto e aberto. Ele confessou mais tarde que sempre preferiu a conjunção“e”, que deixa as contradições conviverem, ao vocábulo “ou”, seletivo e excludente. Retornaria a uma certa disponibilidade num outro nível, num catolicismo aberto e pluralista, nas antípodas do integrismo, antecipando-se à abertura ecumênica e ao diálogo com “os homens de boa vontade” de João XXIII. Por outro lado, a Ação Católica deixaria de ter um líder forte, mas às vezes asfixiante, sairia do modelo centralizado italiano e se abriria às experiências dos movimentos de juventude franceses, belgas e canadenses, com operários, juventude agrária, estudantes... Dois movimentos foram então importantes, a Juventude Operária Católica (JOC), com seu método ver-julgar-agir, criada pelo belga Pe. Cardjin e desenvolvendo-se no Brasil desde 1935, e a Juventude Universitária Católica (JUC), organizada a nível nacional em 1950, à qual voltarei adiante. Se o tempo que vai de 1930 a 1943 teve como figura central Amoroso Lima, de 1947 a 1964 a grande presença seria de um padre cearense pequeno e vibrante, Hélder Câmara, que chegou ao Rio em 1937 para refazer-se de sua tentação política direitista, transformado em técnico em educação no Ministério desse nome. Em 1947 padre Hélder foi nomeado assistente nacional da Ação Católica. Seu grande carisma foi lançar profeticamente novas propostas e, ao mesmo tempo, apoiar iniciativas que julgava fecundas, vindas do que ele chamaria mais tarde as “minorias abraâmicas”. Na Ação Católica incentivou os jovens que transformavam o movimento e, a partir dela e com o apoio de seus dirigentes, principalmente mulheres, preparou e criou, ainda sacerdote, uma organização pioneira na Igreja Católica, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que surgiu em 1952 quebrando as estruturas eclesiásticas de localismos feudais e abrindo-as para as dimensões do Estado-Nação que a modernidade trouxera. Espaço tão inovador que o recente Sínodo de 2001 está tendo dificuldade de absorver, tantas são as resistências aos organismos intermediários e colegiais, numa instituição acostumada à centralização do papado e ao autoritarismo local do bispo, nomeado aliás de maneira bastante arbitrária e unilateral pelo primeiro.
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D. Hélder é um dos personagens mais fascinantes da Igreja Católica no século XX, protagonista decisivo em tantos espaços. Apoiando-se em movimentos leigos e em jovens bispos, desenvolveu a dimensão social da Igreja, provocou reuniões de bispos da Amazônia e do Nordeste em torno a seus graves problemas, teve uma presença política forte, como na criação da Sudene, no diálogo com os governantes no período 1950-1964 e no surgimento das experiências de educação popular. Bispo auxiliar do Rio de Janeiro, com outro bispo auxiliar, seu companheiro complementar de trabalho, D. José Távora, preparou um convênio com o presidente eleito Jânio Quadros, em 1960, que esteve nas origens do Movimento de Educação de Base (MEB). Protegeu a JUC da caça às bruxas em 1960, inspirou candentes documentos da CNBB em 1962 e 1963 e, logo depois do golpe, já como arcebispo de Olinda e Recife, foi “voz dos sem voz”. Quando seu nome foi calado no país pela censura militar, encontrou uma audiência internacional nas suas campanhas pelos direitos humanos e pela paz16. Numa Igreja em que o bispo tem uma importância especial e, no caso do Brasil, em que a CNBB adquiriu um protagonismo crescente, há que lembrar aqui alguns bispos que foram tendo lugar relevante não só na esfera religiosa mas também na vida social e na cultural. Entre outros podemos citar, sem uma ordem estabelecida e ressalvando diferenças, Paulo Evaristo Arns, Cândido Padim, José Maria Pires, Antônio Fragoso, Tomás Balduíno, Waldyr Calheiros, Eugênio Salles, Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter e, logo depois, Luciano Mendes de Almeida ou Pedro Casaldáliga17. Nos anos 50, deu-se um forte dinamismo intelectual e político em São Paulo, o centro da vida econômica do país. A Livraria Duas Cidades, dirigida pelo dominicano Benevenuto Santa Cruz, traduziu obras de representantes do pensamento francês: Emmanuel Mounier, Yves Congar e padre Lebret. Este último, criador do movimento Economia e Humanismo, esteve na Colômbia e no Chile e foi consultor do governo de São Paulo. Nessa cidade, uma geração de jovens profissionais tentava transformar o pequeno Partido Democrata Cristão, que surgira depois de 1945 com a redemocratização e, sob a direção de monsenhor Arruda Câmara, era conhecido como o partido de resistência ao divórcio. A figura central dessa mudança seria André Franco Montoro, que Amoroso Lima incentivara a manter contatos com democrata-cristãos da Argentina, do Uruguai e do Chile. Ao lado dele, Queiroz Filho e, logo, uma geração mais
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jovem, Paulo de Tarso dos Santos e Plínio de Arruda Sampaio. Eles teriam presença significativa na vida política dos anos seguintes. No Rio de Janeiro, há que destacar a presença de Candido Antônio Mendes de Almeida. De família ligada às causas católicas, Candido, de ampla cultura, participara da política universitária na União Nacional dos Estudantes, fora dirigente nacional da JUC em 1950 e logo depois, quando os intelectuais católicos ainda se agrupavam no Centro D. Vital, ele se ligaria ao “grupo de Itatiaia” e, com Helio Jaguaribe, Roland Corbusier, Guerreiro Ramos, Vieira Pinto e outros, estaria à frente do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), uma participação católica num grupo pluralista aberto a várias tendências que vinham da esquerda e mesmo do integralismo, onde Hegel, Marx e Weber se cruzavam ecleticamente, numa atenção especial ao processo de modernização e de industrialização do país. Em 1963, Candido Mendes publicaria Nacionalismo e desenvolvimento, que trazia no título as idéias-chave desse momento e explicitava o que surgia como possível alternativa no mundo periférico e como proposta de uma “revolução nacional pelo desenvolvimento”. Em livro posterior, Memento dos vivos, acompanhava com acuidade uma nova geração de cristãos que surgia. Mais tarde estaria presente na Comissão Justiça e Paz da Igreja Católica, no cenário universitário e no espaço internacional da cultura e do pensamento18. No final dos anos 50 e começo da década seguinte, vai se constituindo o que foi chamada “a geração de Betinho”19. Ela se desenvolveu na JUC e, segundo o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez ou o brasilianista Ralph della Cava, ali, nesse movimento, estão as sementes de um catolicismo de vanguarda e os primeiros sinais da Teologia da Libertação. Um livro publicado por Herbert José de Souza (Betinho) e o autor deste texto, Cristianismo hoje, que recolhe artigos surgidos naqueles anos, reflete bem as idéias que surgiam sobre um compromisso dos cristãos diante de um novo projeto histórico20. À diferença dos movimentos social-cristãos de outros países, ligados ao pensamento de Jacques Maritain, a influência aqui seria de Emmanuel Mounier e de seu personalismo comunitário, assim como de sua opção socialista. Um filósofo, o jesuíta Henrique de Lima Vaz, introduziu a categoria de “consciência histórica”, de influência hegeliana21, e surgiu, em 1963, um movimento político, Ação Popular (AP), com as marcas de um pensamento cristão revolucionário, socialista e personalista22. O golpe de 1964, obrigando o movimento à clandestinidade, o encami-
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nharia mais adiante para outras direções, do althusserianismo ao maoísmo, em que se perderam as intuições originais. Mas essas foram se desenvolvendo em muitas experiências de educação popular, no MEB, já citado, através de textos de Carlos Brandão, Raul Landim, Aída Bezerra, Luiz Eduardo Wanderley e outros23. Aliás, podemos ligar ao pensamento católico da época educadores como Paulo Freire, Elza Freire, Anita Paes Barreto e Paulo Rosas no Recife, Moacyr de Góes em Natal, Lauro de Oliveira Lima em Fortaleza e depois no Rio de Janeiro24. Em São Paulo, nesses anos do começo da década, uma revista, Brasil Urgente, com o dominicano Carlos Josaphat e vários jornalistas, entre os quais o psiquiatra Roberto Freire, lançaria as propostas renovadoras de um pensamento radical e crítico25. Mas não podemos nos limitar ao eixo Rio–São Paulo. A nova geração da JUC e da AP cresceu em boa parte entre os estudantes mineiros da Faculdade de Ciências Econômicas de Belo Horizonte. Nessa cidade há que indicar também a presença marcante de alguém da geração anterior, Edgar de Godói da Mata Machado, atuante no campo do direito, da filosofia e da política26. No Rio Grande do Sul, um catolicismo conservador produziu lideranças intelectuais e políticas como o ministro da Justiça Adroaldo Mesquita da Costa ou o filósofo Armando Pereira da Câmara. Logo depois, outro filósofo, Ernani Maria Fiori, arejaria o pensamento católico em outras direções e teria influência no trabalho de educação popular. Expulso com o golpe de 1964 das universidades do Rio Grande do Sul e de Brasília, seria autor, como vice-reitor da Universidade Católica de Santiago do Chile, de uma criativa reforma universitária em 1968, ano aliás de significativas transformações no mundo inteiro. Fiori teria influência em movimentos latino-americanos de juventude e na obra de seu amigo e companheiro de exílio no Chile, Paulo Freire27. O Centro D. Vital continuava, mas abalado com a tensão crescente entre Amoroso Lima e Gustavo Corção, que criaria logo depois um grupo separado. Ali ainda surgiu uma “ala moça”, que teve à frente, entre outros, o jornalista e memorialista Antônio Carlos Villaça28. O Centro se mantém até o presente, ainda que mais discreto, agora sob a direção de Tarcísio Padilha, também presidente da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos e da Academia Brasileira de Letras.
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Voltando um pouco no tempo, o golpe de 1964 interferiu duramente na produção intelectual e nas experiências sociais e educativas. Vários espaços se fecharam, o trabalho de educação e de cultura popular foi em parte descontinuado, lideranças católicas tiveram problemas com o regime, foram detidas, mudaram de cidade ou partiram para o exílio. Ao mesmo tempo, outros católicos, como Paulo de Assis Ribeiro, participaram do governo Castello Branco. Aquele foi inclusive um dos responsáveis pelo Estatuto da Terra, uma das poucas transformações legais na questão da propriedade rural desde a Lei de Terras de 1850. Havia assim católicos nos vários e conflitantes espaços do espectro político. Da CNBB viria a denúncia, D. Candido Padim à frente, da doutrina de segurança nacional e a defesa vigorosa dos direitos humanos, através das Comissões Justiça e Paz. Anos depois, quando se esboçou a tentativa de um diálogo entre a CNBB e os militares, pela primeira entidade estiveram presentes Candido Mendes, dirigente da Comissão Nacional Justiça e Paz, e alguns bispos e do outro lado o general Muricy, que se declarava católico praticante, e o filósofo Tarcísio Padilha29. Mas a reflexão não se interrompeu. Em julho de 1966 apareceu o primeiro número da revista Paz e Terra, com um subtítulo significativo: “ecumenismo e humanismo; encontro e diálogo”. O nome indicava a inspiração da encíclica de João XXIII Pacem in Terris. Publicada por uma editora do mesmo nome, que surgiu ligada a outra, de esquerda, Civilização Brasileira, tinha como secretário o poeta e marxista Moacyr Félix e como diretor responsável o evangélico Waldo A. César. Católicos participaram da sua criação; no conselho de redação aparece um número significativo deles. Nesse primeiro número há artigos de Amoroso Lima, Henrique de Lima Vaz, Luiz Eduardo Wanderley e dois meus, sobre a Igreja e as instituições sociais e sobre Camilo Torres, morto pouco antes na guerrilha. O lançamento foi um momento de retomada pública de um debate pluralista. Protestantes, católicos e marxistas em diálogo. O clima na Igreja, ao final do Concílio Vaticano II (1962-1965), permitia esse exercício. Aliás, um diálogo ecumênico vinha se dando desde antes do golpe e reunia antigos membros da JUC com aqueles da Juventude Evangélica, Waldo César, Jether Ramalho, Rubem Cesar Fernandes, Jovelino Ramos, Rubem Alves, os uruguaios Julio de Santa Ana e Iber Conteris, o suíço Pierre Furter, apoiados na reflexão do teólogo presbiteriano americano Richard Shaull, autor de textos sobre uma “teologia da revolução”30.
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De lá para cá, atravessando o período autoritário e continuando pelos tempos da redemocratização, o pensamento católico se abriu em muitas direções. Vamos aqui apenas indicar sumariamente algumas contribuições das últimas décadas que assinalam um forte dinamismo. Em contraste com o fechamento político depois do AI-5, a Igreja Católica latino-americana e a brasileira em particular viveram um momento de grande criatividade entre o Encontro Episcopal Latino-Americano de 1968, em Medellín, e o de Puebla, de 1979, numa verdadeira “década gloriosa” de iniciativas e de pensamento31. Espaço de liberdade numa sociedade vigiada, depois da supressão da JUC em 1967 por setores conservadores da hierarquia católica, vão surgir as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), as pastorais da terra, operária, de juventude e indígena. Nesse clima apareceram os primeiros livros da teologia da libertação no continente: do peruano Gustavo Gutiérrez, do uruguaio Juan Luis Segundo e, entre nós, de Leonardo Boff, que escrevera seu Jesus Cristo libertador e começara propondo uma teologia do cativeiro, no clima repressivo do país32. Hugo Assmann, por vários anos no exterior, Frei Clodovis Boff, Frei Betto, o jesuíta João Batista Libânio, o monge Marcelo Barros são responsáveis por uma abundante produção33. Nos anos seguintes ela será alargada sempre mais pela inclusão de novos teólogos e novas temáticas, de gênero, de raça, diálogo inter-religioso e cultura, com a participação de leigos como Faustino Teixeira e de teólogas mulheres, religiosa como Ivone Gebara ou leigas como Maria Clara Bingemer ou Teresa Cavalcanti. Na filosofia, ao lado de Henrique de Lima Vaz, são lançados com bastante regularidade livros do sacerdote cearense Manfredo de Oliveira34. A produção foi crescendo, como indicam os lançamentos editoriais constantes das editoras Loyola, Vozes, Paulinas e Paulus. A reflexão bíblica, a partir dos textos de Carlos Mesters e com a criação do Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), também viu surgir toda uma geração de exegetas religiosos e leigos, católicos, luteranos, metodistas ou presbiterianos. Uma série de revistas deu visibilidade a toda essa produção: Tempo e Presença, Revista Eclesiástica Brasileira, Vozes, Grande Sinal, Caderno do CEAS, Religião e Sociedade, Perspectiva Teológica etc., dirigindo-se a um variado público de agentes de pastoral das igrejas cristãs. Paralelamente, foi surgindo uma historiografia em torno a um projeto latino-americano da Comissão de Estudos de História da Igreja na América La-
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tina (Cehila), animado no Brasil por José Oscar Beozzo, com a participação de historiadores como Eduardo Hoornaert e Riolando Azzi35. Na área das ciências sociais e da pastoral, há que assinalar a produção de alguns centros, como o Instituto de Estudos da Religião (Iser), o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social (Ibrades), o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), o Iser Assessoria, o Centro de Estudos e Ação Social de Salvador (Ceas), o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Pastoral (Cesep), o Centro Loyola e vários outros. Um grande número de pesquisas vem sendo realizado na área da sociologia da religião, com livros de Pedro Ribeiro de Oliveira, Ivo Lesbaupin, Rogério Valle, Regina Novaes, Lúcia Ribeiro, Pierre Sanchis... O Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (Caal), de Petrópolis, na antiga casa de Tristão de Athayde, é hoje um importante espaço de documentação sobre o pensamento católico brasileiro. Também universidades católicas, como a Unisinos em São Leopoldo, a de São Paulo, a do Rio de Janeiro e a do Recife, têm uma produção científica em várias áreas. Recentemente, centros de ciência da religião na Universidade Federal de Juiz de Fora ou na Católica de Brasília passaram a reunir equipes interdisciplinares de docência e de pesquisa. No mundo da política, a presença católica sempre se deu em diferentes partidos, porém, por intermédio de membros das pastorais sociais, teve especial influência na criação e no desenvolvimento do Partido dos Trabalhadores, no qual tem sido assinalada uma de suas tendências ligada ao mundo católico. Lideranças dessa orientação também participaram da renovação sindical e da criação da Central Única dos Trabalhadores. Um dinamismo intenso se está dando em muitos espaços da sociedade civil, especialmente nos movimentos sociais, ainda que não seja devidamente levado em conta pela universidade e pelos meios de comunicação36. E aí se pode descobrir a presença significativa de um pensamento e de uma prática católicos. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, teve uma de suas origens num espaço de reflexão e de práticas pastorais. Recentemente, a Comissão Justiça e Paz da CNBB, por meio de seu secretário-geral, Francisco Whitaker Ferreira, esteve na origem da criação do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, um dos mais expressivos espaços de articulação e de debate da atualidade.
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Talvez devido à diversidade, à dispersão e à presença simultânea em muitas frentes, não apareça à primeira vista um pensamento católico articulado. Em parte por sua natural heterogeneidade. Esse fato, longe de ser um defeito, pode ser um sinal positivo de vitalidade e de pluralismo. Mas também houve uma mudança na maneira como a Igreja é vista. Nas décadas de 30 e de 40, os jornalistas procuravam alguns leigos eminentes, como Alceu Amoroso Lima, Hamilton Nogueira, Gustavo Corção ou Edgar da Mata Machado, para que opinassem sobre a posição da Igreja diante de algum fato da atualidade. No começo dos anos 60, D. Hélder, com seu carisma, centralizou o interesse. Durante o regime militar, com a dispersão e a semiclandestinidade do laicato, a dificuldade e os riscos de opinar e, ao mesmo tempo, com o crescimento da presença da CNBB, o episcopado passou a ser mais requisitado para tomar posição. Houve, na prática, uma episcopalização da Igreja no cenário nacional que pode ter ofuscado a presença católica leiga ou de sacerdotes, ativa no mundo da cultura, da universidade, da política e dos movimentos sociais. Por outro lado, numa sociedade de massas complexa, já não são personalidades isoladas as que se impõem, mas organizações e movimentos coletivos. Para traçar hoje o panorama de uma presença católica na sociedade deve-se passar por um sem-número de organizações, publicações e centros de criação e de pesquisa. Voltando ao que foi dito no início, num mundo necessariamente pluralista, a identidade católica tem de conviver e enriquecer-se com outras contribuições. Ela às vezes desapareceu ou entrou em crise na imersão em movimentos políticos e culturais. Por outro lado, e em sentido inverso, temos visto surgir, nos últimos anos, um neo-integrismo católico que procura reforçar sua visibilidade à força de uma certa intolerância e triunfalismo. Manter a identidade e, ao mesmo tempo, a abertura ao diálogo e à troca é o desafio que está diante do pensamento católico, num mundo em que a cristandade ficou definitivamente para trás.
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Luiz Alberto Gómez de Souza é doutor em Sociologia pela Universidade de Paris. Foi dirigente nacional e internacional da Ação Católica de Juventude, funcionário do Ministério da Educação e das Nações Unidas (Cepal e FAO), professor na UFRJ e PUC-RJ. Atualmente exerce a função de diretor executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris). Publicou, entre outros, os livros A Igreja e o mundo (1965), Classes populares e Igreja nos caminhos da história (1982), A JUC: os estudantes católicos e a política (1985), todos pela Editora Vozes, de Petrópolis.
NOTAS 1 Rose Marie Muraro, em suas Memórias de uma mulher impossível (Rio de Janeiro, Rosa dos Ventos, 1999), mostra como foi decisiva sua entrada na Ação Católica: “Deus aparece na minha vida... um Deus Pulsante que me arrebatou... Com garras como uma ave de rapina. E até hoje eu luto com Ele” (p. 61). 2 POULAT, Émile. Liberté, laïcité. La guerre de deux France et le principe de la modernité. Paris, Cerf/Cujas, 1987. BLANCARTE, Roberto. História de la Iglesia Católica en México. México, Fondo de Cultura Económica, 1992. 3 Ver CONY, Carlos Heitor. O ato e o fato. Crônicas políticas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964, e AMOROSO LIMA, Alceu. Revolução, reação ou reforma? Crônicas de 1958 a 1964. Petrópolis, Vozes, 1999. Ver também MOREIRA ALVES, Marcio. O Cristo do povo. Rio de Janeiro, Sabiá, 1968. 4 Um panorama similar, até o final dos anos 60, foi traçado por VILLAÇA, Antônio Carlos. História do pensamento católico no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar, 1974. Uma breve análise em GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. “Igreja e intelectuais no Brasil recente”. In: BUARQUE, Cristovam et al. Fé, política e cultura. São Paulo, Paulinas, 1991. Informações complementares podem ser encontradas nos livros de BRUNEAU, Thomas. Catolicismo brasileiro em época de transição. São Paulo, Loyola, 1974; MAINWARING, Scott. The Catholic Church and politics in Brazil. Stanford, Stanford University Press, 1986; MOREIRA ALVES, Marcio. A Igreja e a política no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1979; BANDEIRA, Marina. A Igreja Católica na virada da questão social. Petrópolis, Vozes, 2000. 5 NOGUEIRA, Hamilton. Jackson de Figueiredo. 2ª. ed., São Paulo, Loyola, 1975. 6 A Editora Agir publicara no passado uma coletânea, incompleta, com as cartas de Jackson. A Academia Brasileira de Letras lançou recentemente, em dois volumes, boa parte do diálogo epistolar. 7 Para a reação do cardeal do Rio de Janeiro, ver SANTO ROSÁRIO, M. Regina do. O cardeal Leme. Rio de Janeiro, José Olympio, 1962, pp. 344-347. 8 TRINDADE, Hélgio. “Integralismo: teoria e práxis política nos anos trinta”. In: História geral da civilização brasileira, tomo III, v. 3. São Paulo, Difel, 1983. 9 AMOROSO LIMA, Alceu. Indicações políticas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1936, pp.187-193. 10 Duas obras do autor trazem essa expressão no título: No limiar da idade nova (1935) e Pela cristianização da idade nova, dois volumes (1938 e 1947). 11 Integrismo é aquela posição intransigente e auto-suficiente que considera a Igreja uma “sociedade perfeita”, dentro da qual estão as soluções para todos os problemas, e que vê com receio um diálogo com o mundo ou a convivência numa sociedade pluralista. Distinguimos de integralismo, que se refere a um movimento político brasileiro específico. 12 MENDES, Murilo. Recordações de Ismael Nery. São Paulo, Edusp, 1996. 13 LIMA, Jorge de & MENDES, Murilo. Tempo e eternidade. Poemas. Porto Alegre, Livraria do Globo, 1935. 14 A Livraria Agir, ligada ao Centro D.Vital, iria publicando os livros de Corção: A descoberta do outro, Três alqueires e uma vaca, Fronteiras da técnica, o romance Lições de abismo... A coluna de Corção, por anos, no Diário de Notícias, no qual também escrevia Alceu, seria muito lida nos meios católicos. Com o tempo as posições dos dois autores divergiriam cada vez mais e o pensamento de Corção se faria crescentemente intransigente e conservador. 15 CARNEIRO, J. Fernando. Catolicismo, revolução e reação. Rio de Janeiro, Agir, 1947. Idem. Psicologia do brasileiro. Rio de Janeiro, Agir, 1971 (obra póstuma). Nordestino radicado no Rio, no dizer de Alceu uma das pessoas mais inteligentes que ele conheceu, viveu os últimos anos em Porto Alegre.
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PILETTI, Nelson & PRAXEDES, Walter. Dom Hélder Câmara. Entre o poder e a profecia. São Paulo, Ática, 1997. ROCHA, Zildo (organizador). Hélder, o Dom. Uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1999. Estão começando a aparecer livros relativos a alguns deles. Ver, por exemplo, ARNS, D. Paulo Evaristo. Da esperança à utopia. Rio de Janeiro, Sextante, 2001. COSTA, Célia; PANDOLFI, Dulce; SERBIN, Kenneth (organizadores). O bispo de Volta Redonda: memórias de D. Waldyr Calheiros. Rio de Janeiro, Ed. Fundação Getúlio Vargas, 2001. Muitos são os livros de poesia de D. Pedro Casaldáliga, em três línguas, português, espanhol e catalão. Entre outros, El tiempo y la espera. Santander, Sal Terrae, 1986. Sua bibliografia é enorme. Aqui citamos: MENDES, Candido. Nacionalismo e desenvolvimento. Rio de Janeiro, Ibeaa, 1963. Idem, Memento dos vivos. A esquerda católica no Brasil. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1966. SEMERARO, Giovanni. A primavera dos anos sessenta. A geração de Betinho. São Paulo, Loyola, 1994. Ver também GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis, Vozes, 1985. SOUZA, Herbert José de & GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. Cristianismo hoje. Rio de Janeiro, Editora Universitária da UNE, 1ª. edição 1963, 2ª. edição 1964 (esta última quase toda destruída no incêndio da UNE de primeiro de abril). Uma coletânea de textos reuniu o debate desta geração com a anterior do Centro D. Vital: GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto (compilador). Brasil, o confronto de duas gerações de cristãos, 1960. Cidoc Dossier nº. 2, Cuernavaca, Cidoc, 1966. GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. “Pe. Vaz, mestre de uma geração de cristãos”. Revista Síntese, Belo Horizonte, v. 18, nº. 55, outubrodezembro 1991, pp. 643-651. SOUZA LIMA, Luiz Gonzaga. Evolução política dos católicos e da Igreja no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1979. SANDERS, Thomas. “Catholicism and development: the catholic left in Brazil”. In: SILVERT, Kalman H. Churches and States. New York, AUFS, 1967. SILVA GOTAY, Samuel. O pensamento cristão revolucionário na América Latina e no Caribe. São Paulo, Paulinas, 1985. DIAZ-SALAZAR, Rafael. La izquierda y el cristianismo. Madrid, Taurus,1998. WANDERLEY, Luiz Eduardo. Educar para transformar. Petrópolis, Vozes, 1984. KADT, Emanuel de. Catholic radicals in Brazil. London, Oxford University Press, 1970. A obra de Paulo Freire e sobre seu pensamento é extensíssima, desde Educação como prática para a liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967. Dos outros autores ver, por exemplo, GÓES, Moacyr de. De pé no chão também se aprende a ler. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980. Uma pesquisa de Paulo Cesar Botas, publicada pela Editora Vozes, fez um levantamento minucioso dos diferentes números da revista. NEVES, Lucília Almeida et al. (organizadores). Edgar de Godói da Mata Machado. Fé, cultura e liberdade. São Paulo, Editora UFMG/ Loyola, 1993. Trabalhos seus estão compilados em dois volumes: Ernani Maria Fiori. Textos escolhidos. Volume 1, Metafísica e história. Volume 2, Educação e política. Porto Alegre, L&PM, 1987 e 1992. Ver também GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. “Ernani Fiori: um pensamento fértil na consciência latino-americana”. Revista Síntese, Belo Horizonte, nº. 34, maio-agosto 1985. A obra de Villaça é bastante vasta, desde ensaios como o já citado O pensamento católico no Brasil. Literatura e vida (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,1976) até suas obras como memorialista: O nariz do morto (Rio de Janeiro, JCM, 1970), O anel (Rio de Janeiro, Editora Rio, 1972), O livro de Antonio (Rio de Janeiro, José Olympio, 1974), Monsenhor (Rio de Janeiro, Brasília, 1975). O historiador Kenneth Serbin está lançando, pela Editora Companhia das Letras, o livro Diálogo na sombra, sobre as atividades da Comissão Tripartite – na verdade de apenas duas frentes, Igreja e militares. Waldo César e Richard Shaull publicaram recentemente os resultados de uma pesquisa sobre o pentecostalismo. CÉSAR, Waldo & SHAULL, Richard. Pentecostais e futuro das igrejas cristãs. Promessas e desafios. Petrópolis, Vozes, 1999. GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. “A caminhada de Medellín a Puebla”. Perspectiva Teológica. Belo Horizonte, ano XXXI, nº. 84, maioagosto 1999, pp. 223-234. A lista de livros de Leonardo Boff é enorme, de Jesus Cristo libertador (Petrópolis, Vozes, 1972), Teologia da libertação e do cativeiro (Petrópolis, Vozes, 1976), Igreja, carisma e poder (Petrópolis, Vozes, 1981), chegando a Ecologia: grito da terra, grito dos pobres (São Paulo, Ática, 1995), O despertar da águia (Petrópolis, Vozes, 1998), Saber cuidar (Petrópolis, Vozes, 1999) e Tempo de transcendência (Rio de Janeiro, Sextante, 2000) e ao mais recente, O casamento entre o céu e a terra (Rio de Janeiro, Salamandra, 2001). Clodovis produziu vários livros publicados na editora Vozez: Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações (sua tese de doutoramento, 1978), Teologia pé-no-chão (1980), Teoria do método teológico (1998). Libânio escreve nas Edições Loyola: A volta à grande disciplina; Utopia e esperança cristã; Teologia da libertação, roteiro didático; Cenários da Igreja; A Igreja contemporânea, o encontro com a modernidade; os dois últimos, Lógicas da cidade e A arte de formar-se (ambos de 2001). Frei Betto e Marcelo Barros, além de diversos livros de espiritualidade, exegese ou problemas sociais, têm lançado romances ou contos. Frei Betto, vencedor de vários prêmios literários, autor do conhecido Fidel e a religião, na ficção publicou A vida suspeita do subversivo Raul Parelo (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979), O dia de Angelo (São Paulo, Brasiliense, 1987) até seu último, Hotel Brasil (São Paulo, Ática, 1999). Marcelo Barros escreveu três romances, sendo os dois últimos A noite do maracá (Goiás, Rede, 1999) e A festa do pastor (Goiás, Rede, 2000). A coleção Filosofia, das Edições Loyola, foi publicando as obras fundamentais de Henrique Vaz: Escritos de filosofia I: problemas de fronteira; Escritos de filosofia II: ética e cultura; Antropologia filosófica I e II; Escritos de filosofia III: filosofia e cultura; Escritos de filosofia IV e V: Introdução à ética filosófica. Seus editoriais e recensões na revista Síntese assinalam uma erudição extraordinária e a fecundidade de seu filosofar. Manfredo de Oliveira, de uma geração seguinte, na mesma coleção escreveu A filosofia na crise da modernidade, Ética e socialidade, Ética e crise da racionalidade; seus livros mais recentes são Diálogos entre razão e fé (São Paulo, Paulinas, 2000), Correntes fundamentais da ética contemporânea (Petrópolis, Vozes, 2000) e Desafios éticos da globalização (São Paulo, Paulinas, 2001). Ver os primeiros volumes, HOORNAERT et al. História da Igreja no Brasil. Primeira época. Petrópolis, Vozes, 1977. HAUCK et al. História da Igreja no Brasil. Segunda época. Petrópolis, Vozes, 1980. GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. “Um país dinâmico, um pensamento claudicante”. Estudos Avançados, São Paulo, USP, nº. 40, setembro-dezembro 2000, pp. 77-90.
145
G U I A C A R L O S H E I TO R C O N Y
Matérias de memória OBRAS DO AUTOR
Tijolo de segurança. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1960.
ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
1. Individuais Romances
Balé branco. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965.
O ventre. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1958; 9ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
Pessach: a travessia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967; 4ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1997.
Informação ao crucificado. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1961; 5ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1999.
A verdade de cada dia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959; 3ª. ed., Por to Alegre, Mercado Aberto, 1988.
Pilatos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1974; 5ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
Matéria de memória. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962; 5ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1999. Antes, o verão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964; 5ª. 146
Qua se me mó ria. São Pau lo, Companhia das Letras, 1995; 15ª. ed., São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
Crônicas* Da arte de falar mal. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963.
O burguês e o crime e outros contos. Rio de Janeiro, Ediouro, 1997. Seleção de contos publicados em Babilônia! Babilônia!
O ato e o fato. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964.
Ensaios biográficos
O piano e a orquestra. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. A casa do poeta trágico. São Paulo, Companhia das Letras, 1997. Romance sem palavras. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.
Charles Chaplin. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967. Posto Seis. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965.
Quem matou Vargas? Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1972.
Os anos mais antigos do passado. Rio de Janeiro, Record, 1998.
– Memorial do exílio. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1982. JK
O harém das bananeiras. Rio de Janeiro, Objetiva, 1999.
O indigitado. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
Teruz. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1985. Reportagens Contos Sobre todas as coisas. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968. Reeditado sob o título de Babilônia! Babilônia! Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.
O caso Lou – Assim é se lhe parece. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975. Nos passos de João de Deus. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1981.
* A partir deste item, não foram computadas eventuais reimpressões e/ou novas edições – à exceção de Sobre todas as coisas (contos, 1968) e das em coletâneas de histórias Os sete pecados capitais (1964) e Os dez mandamentos (1965).
147
Lagoa. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1996.
A ilha misteriosa, de Júlio Verne. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1972.
Infanto-juvenis Quinze anos. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1965. Uma história de amor. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1978.
Maravilhas do ano 2000, de Emilio Salgari. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1972. O leão de Damasco, de Emilio Salgari. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1972.
Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1974. Taras Bulba, de Nicolai Gogol. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1974. Pinóquio da Silva, de Carlo Collodi. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1978.
Os meninos aquáticos, de Charles Kingsley. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1972.
Rosa, vegetal de sangue. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979.
A máscara de ferro, de Alexandre Dumas. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1980.
O irmão que tu me deste. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979. A gorda e a volta por cima. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1986. Luciana saudade. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1989.
Ali Babá e os quarenta ladrões, de As mil e uma noites. Rio de Ja nei ro, Edi ções de Ou ro, 1972. Simbad, o marujo, de As mil e uma noites. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1972.
O livro dos dragões, de Edith Nesbit. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1983. Crime e castigo, de Dostoiévski. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1983.
Um capitão de quinze anos, de Júlio Verne. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1973. Tom Sawyer detetive, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1973. Adaptações Ben-Hur, de Lewis Wallace. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1971.
As viagens de Tom Sawyer, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1974.
Um ianque na corte do rei Artur, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1985.
O diário de Adão e Eva, de
O califa de Bagdá, de As mil e
148
uma noites. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1987. Aladim e a lâmpada maravilhosa, de As mil e uma noites. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1987. O roubo do elefante branco, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1989. O Ateneu, de Raul Pompéia. São Paulo, Scipione, 1998.
O grande Meaulne, de A. Fournier. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d. As melhores histórias das mil e uma noites. Reedição em coletânea de Ali Babá e os quarenta ladrões; Simbad, o marujo; O califa de Bagdá e Aladim e a lâmpada maravilhosa. Rio de Janeiro, Ediouro, 2001.
Leituras O piano e a orquestra e Quase memória (trechos). São Paulo, Instituto Moreira Salles, série “O escritor por ele mesmo”, 1998 (fita cassete). Prefácios e introduções Pente de Vênus, de Heloisa Seixas. Porto Alegre, Sulina, 1995.
Telenovela Comédia carioca. São Paulo, TV Record, de março a abril de 1965, às 19h. Direção de Antonino Seabra. Com Eva Wilma e John Herbert.
O horror econômico, de Vivianne Forrester. São Paulo, Editora da Unesp, 1997. Du pla ex po si ção: Sta nis law Ponte Preta, de Renato Sérgio. Rio de Janeiro, Ediouro, 1998.
Roteiros para o cinema
O primo Basílio, de Eça de Queiroz. São Paulo, Scipione, 1998. Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. São Paulo, Scipione, 2000. Moby Dick, de Herman Melville. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d. As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d. Huc kle berry Finn, de Mark Twain. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d. O capitão Tormenta, de Emilio Salgari. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d.
Os primeiros momentos. Direção de Pedro Camargo. Com Paulo Porto, Odete Lara e Stepan Nercessian, 1973. Paranóia. Direção de Antônio Calmon, 1976. O roteiro foi publicado com o título de A noite do massacre. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976.
Mito em chamas, de José Louzei ro. São Pau lo, Mo der na, 1998. Ensaios reunidos de Otto Maria Carpeaux, de Olavo de Carvalho (org.). Rio de Janeiro, Topbooks, 1999. Balão: paixão inexplicável, de Odair Bueno e Ivo Patrocínio. Rio de Janeiro, Sonora, 1999.
Depoimentos “Rachel de Queiroz”. In: Cadernos de Literatura Brasileira, nº. 4. São Paulo, Instituto Moreira Salles, setembro de 1997, pp. 15-17. “O fogão e a chuva ou Por que escrevo”. São Paulo, Instituto Moreira Salles, série “O escritor por ele mes mo”, 1998 (folder); publicado também no livro O harém das bananeiras, Rio de Janeiro, Objetiva, 1999, pp. 13-17. 149
Os jornalistas, de Honoré de Balzac. Rio de Janeiro, Ediouro, 1999. Órfão de tempestade, de Jason Tércio. Rio de Janeiro, Objetiva, 1999. Evangelho segundo São João. Rio de Janeiro, Objetiva, 1999. A fina flor da sedução, de José Louzeiro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.
Participação em coletâneas “Luxúria”. In: Os sete pecados capitais. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964; 5ª. edição, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001. “Amar a Deus sobre todas as coisas”. In: Os dez mandamentos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1965; 2ª. edição, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.
Cidade do México, Editorial Extemporanios, 1973. Para o francês
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Quasi-memoires. Tradução de Henri Raillard. Paris, Gallimard, 1999.
FORTUNA CRÍTICA
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2. Em parceria O presidente que sabia javanês (com charges de Angeli). São Paulo, Boitempo, 2000.
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“Ordem do dia”. In: 64 D.C. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1966. “Por vós e por muitos”. In: Contos. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1974.
História e política – séculos XIX e XX. Campinas, Editora Unicamp, 1998, pp. 219-246.
Juarez. História, memória e ficção em obras de Cony (mestrado em Letras). Curitiba, Universidade Federal do Paraná, 2001.
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3. Textos de apresentação O mistério das aranhas verdes (com Anna Lee). São Paulo, Editora Moderna, no prelo.
3. Traduções
2. Ensaios incluídos em livros
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Para o espanhol
KUSHNIR,
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Pessach: la travesia. Tradução de Jorge Humber to Robles.
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Jorge. JK – Memorial do Exílio. Rio de Janeiro, Edições Bloch, 1982, 1ª. edição (prefácio).
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Mário da Silva. Pilatos. Rio de Ja nei ro, Ci vi li za ção Bra si lei ra, 1974, 1ª. edi ção (orelha).
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Ruy. Quase memória. São Pau lo, Com pa nhia das Letras, 1995, 1ª. edição (contracapa).
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Fausto. “Uma arte”. In: Antes, o verão. Rio de Janeiro, Ci vi li za ção Bra si lei ra, 1964, 1ª. edição (orelha).
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4. Artigos de jornais HOUAISS, Antônio. Tijolo de segurança. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972, 3ª. edição (orelha). HOUAISS, Antônio. Babilônia! Babilônia! Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, 2ª. edição de Sobre todas as coisas (apresentação). KONDER,
Leandro. Pessach: a travessia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967, 1ª. edição (orelha). LIMA,
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BUENO,
153
de S.Paulo, 14.03.93. Entrevista a Luiz Caversan. “Cony”. Imprensa. São Paulo, maio de 1993. Entrevista a Gerson Sintoni. “Politicamente incorreto”. IstoÉ. São Paulo, 24.11.93. Entrevista a Benício Medeiros. “O romance carioca é um gênero”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 23.09.95. Sem assinatura. “O país da grande véspera”. Folha de S.Paulo, 19.11.95. Entrevista a Marcelo Coelho. “Quase memória de um humanista”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 25.12.95. Entrevista a Bráulio Neto. “Na prisão com Glauber e Calla do”. Fo lha de S.Pau lo, 28.06.96. Sem assinatura.
“Cony faz caso de amor sem palavras”. Folha de S.Paulo, 24.04.99. Entrevista a Marcelo Rubens Paiva. “Um agnóstico a caminho da igre ja”. Épo ca. São Pau lo, 13.12.99. Entrevista a Débora Crivellaro. “Carlos Heitor Cony”. Gazeta Mercantil. São Paulo, 23.12.99. Entrevista a Daniel Piza. “A Academia não faz o gênio”. O Globo. Rio de Janeiro, 24.03.00. Entrevista a Rachel Bertol. “Uma simples questão de identidade”. Gazeta do Povo. Curitiba, 12.08.01. Entrevista a Roberto Nicolato.
“Um Machado não basta”. Bravo! São Paulo, julho de 1997. Entrevista a Bruno Tolentino. “Prazeres quase bíblicos”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 28.03.99. Entrevista a Heloisa Seixas.
Você tem alguma idéia sobre a idéia que pretende ter? Roteiro de Antônio Moreno, Pedro Ernesto Stilpen e Olivar Luiz. Inédito, c. 1975. (Baseado no romance Pilatos.) Pilatos – Melopéia, fanopéia & logopéia, episódio V de Isabelle trouxe alguns amigos. Roteiro de Felipe Rodrigues, com a colaboração de Barbara Kahane e Patrick Pessoa. Inédito, 2000. (Baseado no romance Pilatos.)
ADAPTAÇÕES
“O país que poderia ter sido”. Folha de S.Paulo, 28.07.96. Entrevista a Fernando de Barros e Silva. “Uma conversa com o autor de Quase memória sobre quase tudo, inclusive sabotagem comunista, vizinhas dadivosas e um avô bandalho”. Playboy. São Paulo, julho de 1997. Entrevista a Humberto Werneck.
início em 1967, com Paulo Gil Soares à frente do projeto, o qual abandonaria, ficando para Coni Campos a tarefa de concluir o longa-metragem. O filme seria proibido pela Censura.)
Para o teatro Para o cinema
Pilatos. Peça de Mario Prata. Inédita, 1988. (Baseada no romance homônimo.)
Antes, o verão. Direção e roteiro de Gerson Tavares. Com Jardel Filho e Norma Bengell, 1968. (Baseado no romance homônimo.)
Pilatos. Peça de Roberto Barbosa. Inédita, 1995. (Baseada no romance homônimo.)
Um homem e sua jaula. Direção de Fernando Coni Campos e codireção de Paulo Gil Soares; roteiro de ambos. Com Helena Ignez e Hugo Carvana, 1968. (Baseada no romance Matéria de memória, essa adaptação teve 154
FONTES DO GUIA CARLOS HEITOR CONY Dedoc – Departamento de Documentação da Editora Abril; Arquivo do autor; Arquivo IMS; Serviço de Atendimento ao Usuário da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
AG R A D E C I M E N TO S
Antonio Carlos Villaça, Beatriz Lazta, Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Companhia das Letras, Dedoc – Departamento de Documentação da Editora Abril, Edilson Conceição Corrêa, Ediouro, Elizabeth Rodrigues Paiva, Flávia Leite, José Heitor Cony, Seminário Arquidiocesano de São José (Rio Comprido-RJ), Serviço de Atendimento ao Usuário da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
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CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA
À venda nas principais livrarias do país, nos espaços culturais do Instituto Moreira Salles e em Portugal Número 1 – João Cabral de Melo Neto (mar. 96) Número 2 – Raduan Nassar (set. 96) Número 3 – Jorge Amado (mar. 97) Número 4 – Rachel de Queiroz (set. 97) Número 5 – Lygia Fagundes Telles (mar. 98) Número 6 – Ferreira Gullar (set. 98) Número 7 – João Ubaldo Ribeiro (mar. 99) Número 8 – Hilda Hilst (out. 99) Número 9 – Adélia Prado (jun. 00) Número 10 – Ariano Suassuna (nov. 00) Número 11 – Ignácio de Loyola Brandão (jun. 01) Número 12 – Carlos Heitor Cony (dez. 01)
Jornalista responsável: Antonio Fernando De Franceschi (MTb: 9.093).
INSTITUTO MOREIRA SALLES Walther Moreira Salles (1912-2001) Fundador Diretoria
Conselho Consultivo
Fernando Moreira Salles Presidente
João Moreira Salles Presidente Antonio Fernando De Franceschi Augusto Carlos da Silva Telles Fernando Moreira Salles Gabriel Jorge Ferreira José Luiz Bulhões Pedreira Lygia Fagundes Telles Pedro Moreira Salles Pérsio Arida Raul Machado Horta Roberto Konder Bornhausen Walter Salles Conselheiros
João Moreira Salles Roberto Konder Bornhausen Vice-Presidentes Antonio Fernando De Franceschi Diretor Superintendente Gabriel Jorge Ferreira Diretor
Casa da Cultura de Poços de Caldas
João Moreira Salles Presidente Antonio Candido de Mello e Souza Resk Frayha Conselheiros
Sede Av. Paulista, 1294, 14º. andar, Bela Vista. CEP: 01310-915. São Paulo - SP. Tel.: (0 XX 11) 3371-4455; fax: (0 XX 11) 3371-4497. Internet – http://www.ims.com.br E-mail: ims@unibanco.com.br
Centros Culturais Rio de Janeiro Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea. CEP: 22451-040. Rio de Janeiro - RJ. Tel.: (0 XX 21) 512-6448; fax: (0 XX 21) 239-5559.
São Paulo Rua Piauí, 844, 1º. andar, Higienópolis. CEP: 01241-000. São Paulo - SP. Tel.: (0 XX 11) 3825-2560; fax: (0 XX 11) 3826-3793.
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Poços de Caldas Rua Teresópolis, 90, Jardim dos Estados. CEP: 37701-058. Poços de Caldas - MG. Tel./fax: (0 XX 35) 3722-2776.
ESTA OBRA FOI COMPOSTA PELA BEI˜ • COMUNICAÇÃO EM GARAMOND E GILL SANS COM FOTOLITOS E IMPRESSÃO DA TAKANO EDITORA GRÁFICA PARA O INSTITUTO MOREIRA SALLES EM DEZEMBRO DE 2001.