cinema out.2026
Calmon, de Joyce Prado
destaques de outubro Em sua atuação em associações, sindicatos, festas e outras atividades culturais, Laudelina de Campos Mello deixou um valioso legado para as trabalhadoras domésticas e para as populações negras. A partir da exposição que apresenta essa trajetória, em cartaz no IMS Paulista, o Cinema do IMS discute representações, fabulações e tensionamentos em torno do trabalho doméstico nas artes visuais e no cinema. A programação inclui a exibição de Calmon, último curta-metragem dirigido pela cineasta Joyce Prado. As muitas estradas e viagens de carro que conduzem personagens e espectadores dos filmes de um dos grandes cineastas dos últimos tempos compõem a programação de outubro da mostra Abbas Kiarostami em retrospectiva. Realizados em diferentes períodos de sua carreira, em uma obra de constante deslocamento, Solução número um, Gosto de cereja e Um alguém apaixonado se somam ao curta-homenagem Volte sempre, Abbas!. Este último foi dirigido por Renata de Almeida e Leon Cakoff, os grandes responsáveis pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em cartaz no IMS em sua 50ª edição. Imagem-cristal: uma mesma história filmada em duas versões. Well Bravo propõe uma conversa no Cinema do IMS Poços a partir da experiência de sua oficina de realização cinematográfica. A carreira de Thomaz Souto Corrêa, considerado um dos maiores revisteiros do mundo, é revisitada na exibição seguida de debate de Thomaz e as revistas: lições óbvias. Ainda entre as estreias do mês, um olhar para a obra de Hyldon, importante nome da black music no Brasil; o relançamento em 4K de Ran, adaptação de Rei Lear dirigida por Akira Kurosawa; e uma investigação em torno dos sistemas militares do genocídio promovido contra a população de Gaza pelo exército israelense. [imagem da capa] Um alguém apaixonado (Like Someone in Love), de Abbas Kiarostami 1
Gosto de cereja (Ta’m-e guilass), de Abbas Kiarostami
As dores do mundo: Hyldon, de Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues
I Want Your Sex, de Gregg Araki
IMS Paulista
Em cartaz Akira Katsuhiro Ōtomo | DCP, remasterização 4K
As dores do mundo: Hyldon Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues | DCP I Want Your Sex Gregg Araki | DCP
Morte e vida Madalena Guto Parente | DCP Naza Yuval Abraham e Rachel Szor | DCP Nosso segredo Grace Passô | DCP
Rosebush Pruning Karim Aïnouz | DCP Não recomendado para menores de 18 anos
Virtuosas Cíntia Domit Bittar | DCP
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello Aqui não entra luz Karol Maia | DCP
Criadas Carol Rodrigues | DCP Calmon Joyce Prado | Arquivo digital
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo Filmes e mais informações em mostra.org e cinema.ims.com.br
É possível assistir a alguns dos filmes em cartaz no Cinema do IMS Paulista com recursos de acessibilidade em Libras, legendas descritivas e audiodescrição. Para retirar o equipamento com recursos, consulte a bilheteria do IMS Paulista. Em caso de dúvidas, entrar em contato pelo telefone (11) 2842-9120 ou pelo e-mail imspaulista@ims.com.br.
2
IMS Paulista
Sessão especial Thomaz e as revistas: lições óbvias Francisco Passarelli | DCP
Abbas Kiarostami em retrospectiva Gosto de cereja (Ta’m-e guilass) Abbas Kiarostami | DCP, restauração 4K Solução número um (Rah Hal-e Yek) Abbas Kiarostami | DCP, restauração 2K Um alguém apaixonado (Like Someone in Love) Abbas Kiarostami | DCP, restauração 2K
Volte sempre, Abbas! Leon Cakoff e Renata de Almeida | 35 mm
Solução número um (Rah Hal-e Yek), de Abbas Kiarostami 3
IMS Paulista
terça
6 14:00 16:10 18:00 20:00
quarta
Nosso segredo (108') Morte e vida Madalena (85') Virtuosas (88') As dores do mundo: Hyldon (90')
13 14:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 16:00 Nosso segredo (108') 19:00 dignidade e luta: laudelina de campos mello Exibição do curta Calmon, de Joyce Prado, seguida de debate com Carol Rodrigues, Karol Maia e Renata Sampaio. Mediação de Marcia Vaz. 20
27
4
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
7 14:00 15:50 17:40 19:40
14 14:00 15:45 18:10 20:00
21
28
Morte e vida Madalena (85') Virtuosas (88') As dores do mundo: Hyldon (90') abbas kiarostami em retrospectiva Volte sempre, Abbas! + Um alguém apaixonado (115')
Morte e vida Madalena (85') Akira (124') As dores do mundo: Hyldon (90') Naza (80')
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
19:00 sessão especial Thomaz e as revistas: lições óbvias (70') seguida de debate com Thomaz Souto Corrêa, Maria Dolores e Francisco Passarelli
quinta 1 14:00 16:00 18:00 20:00
Morte e vida Madalena (85') Virtuosas (88') Naza (80') As dores do mundo: Hyldon (90')
8 14:00 16:10 18:00 20:00
Nosso segredo (108') Virtuosas (88') Morte e vida Madalena (85') As dores do mundo: Hyldon (90')
15
22
29
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
IMS Paulista
sexta
sábado
domingo
2 14:00 16:00 18:00 19:50
3 14:00 16:00 18:00 19:50 21:40
4 Neste dia o IMS Paulista estará fechado
Virtuosas (88') Naza (80') As dores do mundo: Hyldon (90') abbas kiarostami em retrospectiva Solução número um + Gosto de cereja (109') 22:00 Nosso segredo (108')
9 14:00 16:00 18:00 19:50 21:40
16
23
30 14:00 15:50 18:00 20:00 21:50
5
Virtuosas (88') Morte e vida Madalena (85') Naza (80') As dores do mundo: Hyldon (90') Akira (124')
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo As dores do mundo: Hyldon (90') Nosso segredo (108') Rosebush Pruning (94') I Want Your Sex (90') Akira (124')
Virtuosas (88') Morte e vida Madalena (85') Naza (80') As dores do mundo: Hyldon (90') Akira (124')
10 14:00 Naza (80') 16:00 dignidade e luta: laudelina de campos mello Aqui não entra luz (79') 18:00 abbas kiarostami em retrospectiva Solução número um + Gosto de cereja (109') 20:10 As dores do mundo: Hyldon (90') 22:00 Nosso segredo (108') 17
24
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
31 14:00 Naza (80') 16:00 I Want Your Sex (90') 17:50 abbas kiarostami em retrospectiva Volte sempre, Abbas! + Um alguém apaixonado (115') 20:00 Rosebush Pruning (94') 22:00 Nosso segredo (108')
11 14:00 Morte e vida Madalena (85') 16:00 dignidade e luta: laudelina de campos mello Criadas (105') 18:10 Naza (80') 20:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 18
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
25 Neste dia o IMS Paulista estará fechado 1/nov 14:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 16:00 Rosebush Pruning (94') 18:00 Naza (80') 20:00 I Want Your Sex (90') Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.
IMS Poços
Em cartaz As dores do mundo: Hyldon Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues | DCP
Sessão especial Ran Akira Kurosawa | DCP, restauração 4K
Digger Alejandro G. Iñárritu | DCP
Rosebush Pruning Karim Aïnouz | DCP Não recomendado para menores de 18 anos
I Want Your Sex Gregg Araki | DCP
Uma infância alemã (Amrum) Fatih Akin | DCP
Naza Yuval Abraham e Rachel Szor | DCP
6
IMAGEM-CRISTAL (versões 01 e 02) Well Bravo | Arquivo digital
IMS Poços
quinta
sexta
sábado
domingo
1 19:00 Morte e vida Madalena (85')
2 19:00 Digger (128')
4 Neste dia o IMS Poços estará fechado
8 19:00 Sessão especial IMAGEM-CRISTAL (22') Exibição de curtas-metragens, seguida de conversa com Well Bravo e participantes das equipes dos filmes. Mediação de Marcelo Leme.
9 19:00 As dores do mundo: Hyldon (90')
3 16:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 18:00 Naza (80') 10 16:00 Uma infância alemã (93') 18:00 Ran (160')
11 16:00 Naza (80') 18:00 Digger (128')
15 19:30 Naza (80')
16 19:00 Uma infância alemã (93')
17 16:00 Rosebush Pruning (94') 18:00 Digger (128')
18 16:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 18:00 Ran (160')
22 19:00 I Want Your Sex (90')
23 19:00 Rosebush Pruning (94')
25 Neste dia o IMS Poços estará fechado
29 19:00 Rosebush Pruning (94')
30 19:00 Uma infância alemã (93')
24 16:00 I Want Your Sex (90') 18:00 Digger (128')
31 16:00 As dores do mundo: Hyldon (90') 18:00 I Want Your Sex (90')
1/nov 16:00 Uma infância alemã (93') 18:00 Ran (160')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br. 7
IMS Paulista
Abbas Kiarostami em retrospectiva
O vento nos levará: recordações de um amigo Renata de Almeida
[Texto originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo, em 10 de julho de 2016, na semana da morte de Kiarostami, e republicado em versão ampliada, tal como reproduzido aqui, no blog da Abraccine, em 14 de agosto do mesmo ano.]
Renata de Almeida é diretora da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Formada em rádio e televisão pela Faap, consolidou sua visão estética em Nova York, com especialização em cinema e documentário. Como produtora e distribuidora, levou aos Festivais de Cannes e Veneza trabalhos de Manoel de Oliveira e Mohsen Makhmalbaf.
8
No dia 4 de julho de 2016, tivemos a triste notícia da partida de Kiarostami. Muito se falou e se escreveu nesses dias sobre o grande artista que Abbas foi, reconhecido por críticos e admirado por cineastas como Akira Kurosawa, Jean-Luc Godard e Martin Scorsese. “Abbas, o Magnífico”, como estampou a capa da Cahiers du Cinéma há alguns anos. Já que tanto foi dito sobre o poeta que veio do Irã e deslumbrou o mundo, aqui irei apenas recordar-me do amigo. Abbas veio ao Brasil pela primeira vez em 1994, durante a 18ª edição da Mostra. Ele faria parte do nosso primeiro júri, que também contava com Maria de Medeiros, Chris Sievernich, Patrick Bauchau e Carlos Reichenbach. Leon Cakoff e eu estávamos no escritório, imaginando se o Abbas já teria chegado ao hotel, quando alguém tocou a campainha: era ele próprio, que, não tendo encontrado ninguém no aeroporto, seguiu o endereço do fax que tinha em mãos. Ficamos arrasados com o erro, mas Abbas, com a sua elegância característica, mesmo depois de 22 horas de viagem, apenas disse que estava cansado e queria dormir um pouco. A compreensão dos nobres de espírito.
Já sabíamos que Abbas tinha uma simpatia pelo Brasil por causa do filme E a vida continua (1992), no qual desabrigados do terremoto veem um jogo do Brasil em uma tela improvisada, mas, depois dessa primeira visita, o que era apenas simpatia virou uma amizade verdadeira. Mais de uma vez, Abbas disse que, depois do Irã, o Brasil era o lugar onde se sentia mais confortável, e só lamentava o empecilho da língua, mas, como era um observador muito perspicaz e sensível, acredito que o empecilho não era tão grande assim. Ainda em 1994, estávamos com o júri em um restaurante na Liberdade quando o Abbas chegou atrasado e um pouco abalado. Emocionado, contou que tinha seguido uma menina que abria lixeiras pela avenida Paulista. Descreveu como comprou um sanduíche e como correu para deixá-lo na próxima lixeira, sem que a menina percebesse. Essa história virou um lindo conto que foi publicado na Cahiers du Cinéma, na Film Comment e na Folha de S.Paulo. Só entendi a amplitude da sua emoção depois de ler o conto – a menina o fez lembrar-se da primeira paixão que teve quando ainda
estava na escola. Muito conversamos sobre a possibilidade de filmar esse conto, e ele dizia que não estava muito certo se a história seria boa para um filme, mas queria muito achar um projeto para o Brasil. Repetiu isso na última vez que esteve em São Paulo, em 2012. A TV Cultura nos convidou, Leon (Cakoff) e eu, para fazer uma matéria assinada para o Metrópolis. Por causa do conto e da recente visita, fizemos uma carta visual para o Abbas, que virou o curta-metragem Volte sempre, Abbas!. Vimos o curta ao lado do próprio Abbas, no Festival de Veneza. Foi uma noite bonita, na qual ele disse que jamais alguém havia recebido um convite tão original e carinhoso. Naquele mesmo ano, Abbas faria a arte da 19ª Mostra, inspirada na avenida Paulista e em seus prédios. Encontramos o Abbas muitas vezes em festivais e em outras cidades. Mas ele só viria a São Paulo novamente em 2004, para uma retrospectiva e homenagem que realizamos na 28ª Mostra. Naquele ano, a estadia foi bem mais longa porque, além da retrospectiva, organizamos também uma exposição de fotos, o lançamento do livro Abbas Kiarostami e uma oficina na Faap. Até hoje encontro pessoas que comentam sobre o privilégio que tiveram em ter o Abbas como professor. 9
Volte sempre, Abbas!, de Leon Cakoff e Renata de Almeida
A última vez que Abbas esteve em São Paulo foi em 2012, na 36ª Mostra, a primeira depois da morte do Leon. Nós tínhamos nos encontrado em Cannes e, acho que percebendo a fragilidade do momento, Abbas prometeu que voltaria a São Paulo com o seu filme Um alguém apaixonado. Eu disse que seria uma ótima ocasião para homenageá-lo com o Prêmio Leon Cakoff, criado naquele ano. Em São Paulo, me contou que estava com problemas de coluna, mas que, quando o
médico perguntou por que ele queria ir a um festival, respondeu: “Não é um festival, é minha família, e ela está precisando de mim”. Completou dizendo que eu era a sua irmã, e que tinha o sentimento de me conhecer desde sempre. Então, muito feliz com a nova família, nos adotamos como irmãos a partir desse dia. Abbas fez questão de me acompanhar ao Prêmio Bravo!, para o qual eu tinha sido indicada. No caminho, me contou sobre as filmagens no Japão e uma história sobre o
Gosto de cereja, de Abbas Kiarostami
10
ator principal do filme, Tadashi Okuno. Disse que era o primeiro papel do sr. Okuno como protagonista, antes ele trabalhara apenas como extra ou coadjuvante. Mas, no final da filmagem, o sr. Okuno disse que chegou à conclusão de que queria mesmo continuar a ser extra. Não era feito para ser protagonista e não aceitaria outro papel com tanto destaque. Pena, porque Abbas estava pensando nele para um outro projeto. Enquanto estávamos no auditório, Abbas contou algo sobre a cerimônia do Festival de Cannes do ano em que estava concorrendo com Através das oliveiras (1994). Como a maioria dos jornais dizia que o filme era o favorito à Palma de Ouro, a câmera que transmitia a cerimônia começou a se direcionar na direção do Abbas na hora do anúncio do prêmio. Mas, para a surpresa do operador da câmera, o filme premiado foi Pulp Fiction, e a câmera teve que fazer uma curva acentuada em busca de Quentin Tarantino. Abbas disse que ele estava tão apreensivo que a única coisa que sentiu foi um grande alívio. Em 1997, ganharia a Palma de Ouro por Gosto de cereja. Já estava mais preparado para discursos. Hoje, acho que o Abbas, vendo o meu constrangimento com a situação, tentava 11
me tranquilizar. Ou estava me preparando caso não ganhasse prêmio algum. No final, quando recebi o Prêmio Bravo!, disse que o dividia com o Leon onde quer que ele estivesse. E dediquei o prêmio a uma pessoa que provava que amizade vence distâncias, vence nacionalidades, tempo, cultura ou costumes. Que, mesmo que se ausente, se torna presente quando mais precisamos. Como discursei em português, acho que o Abbas nunca soube o que eu disse, mas levantou quando foi ovacionado pela plateia que ouviu o seu nome. Ou entendeu tudo, porque ele não precisava de legendas. A última vez que me encontrei com o Abbas pessoalmente foi em 2014, novamente no Festival de Cannes. Ele era presidente do júri da Cinéfondation, do qual fazia parte Daniela Thomas. Numa roda do júri, disse a todos que eu era a sua irmã, e comentei que a Daniela também era minha irmã. Ele aceitou, mas disse que se eu tivesse outro irmão não valia. Eu garanti que não, que ele era o meu único irmão. Em fevereiro de 2016, combinamos que ele voltaria a São Paulo para os 40 anos da Mostra. Abbas faria uma oficina de fotografia e uma exposição com os seus novos trabalhos. Estava feliz, disse que tinha voltado de
Cuba e falado de mim, do Leon e da Mostra com o embaixador brasileiro. Iria filmar em abril, mas reservaria as datas da Mostra. Depois de um tempo sem respostas, recebi a notícia de que ele estava internado. Mandei uma mensagem e flores por meio da família de um amigo iraniano. Alguém agradeceu em seu nome, dizendo que a minha mensagem e as flores encheram o seu coração de alegria. Foram as últimas palavras que recebi do Abbas. Nesta semana, vi algumas entrevistas do Abbas na internet. Numa delas, ele diz que é importante ver filmes para alguém que quer fazer cinema, mas que o mais importante é viver e usar as suas experiências e os seus sentimentos. Afirma que gostava de viver, que não se importava muito com o que iria deixar e que, se tivesse que escolher, viveria mais e não deixaria nada. Mas não deu, ele se foi e nos deixou uma obra magnífica. Só com o tempo aprendemos a não nos lamentar pelo que perdemos, e sim a ser gratos pelo que tivemos. Então, só tenho que agradecer a este irmão de última hora e dizer: ainda bem que ele nos deixou tanto.
Correspondências 12.set.2026 de: Carol Rodrigues para: Karoline Maia assunto:
Como medir essa distância?
Carol Rodrigues escreve e dirige histórias atravessadas por raça, classe, gênero, memória e afeto. Seu primeiro longa, Criadas, coloca mulheres negras no centro da imagem e venceu o Prêmio do Público na Mostra de São Paulo. Seu trabalho busca ampliar quem pode existir com complexidade na tela. Em 2026, recebeu o Prêmio Abraço da Abra. 12
Querida Karol, como você tá? Em junho de 2020, eu entrei no Benfeitoria e contribuí para que o seu filme existisse. Ainda não sabia o que Aqui não entra luz seria. É bonito pensar nisso agora. Antes de existir como filme, 1.375 pessoas disseram que ele deveria existir. Eu fui uma delas. Jamais imaginei que anos depois me sentaria diante do seu filme pensando na minha avó. Pensando na minha mãe. Pensando nas mulheres que aparecem no seu filme e nas mulheres que inventei pro meu. Pensando principalmente que, durante tempo demais, mulheres negras estiveram dentro do retrato sem que o retrato fosse delas. Elas estavam atrás. Carregavam uma criança. Serviam uma mesa. Limpavam alguma coisa. Às vezes apareciam por acaso numa fotografia de família. Faziam parte da casa e, ao mesmo tempo, a casa nunca era delas. Faziam parte da família, diziam, mas seus filhos ficavam em outro lugar. Talvez por isso tenha me tocado tanto perceber que o seu filme nasce de uma mulher negra recusando ser filmada. Sua mãe não quer que você a entreviste. E você faz um filme. Você atravessa casas, cidades, quartos, corredores, portas de serviço. Encontra outras mulheres. Escuta histórias que às vezes são tão violentas que assustam, justamente porque quem conta aprendeu a contá-las como algo ordinário. É uma coisa terrível que fazemos pra sobreviver. Inventamos uma lógica pro sofrimento. Transformamos o insuportável em cotidiano. Enquanto assistia, pensei que talvez a recusa da sua mãe pudesse ser uma das primeiras pontes entre os nossos filmes. Criadas também começa por causa da imagem de uma mãe que não está disponível.
Sandra volta à casa da prima Mariana procurando uma fotografia de Ivone, sua mãe. Ivone trabalhou como empregada residente naquela casa. Sandra é uma mulher negra de pele escura. Mariana é uma mulher negra de pele clara. São primas. São família. E, ainda assim, aquela mesma casa ofereceu às duas infâncias muito diferentes. No seu filme, existe uma mãe que diz que não quer ser filmada. No meu, existe uma filha dizendo que precisa encontrar a mãe. Isso me atravessou, sabe. Porque talvez nossos filmes sejam menos sobre trabalho doméstico do que sobre o direito de reorganizar tudo aquilo que herdamos. Neusa Santos Souza escreveu sobre a necessidade de construir um discurso sobre si e não deixar as palavras dos outros nos definir. Tenho pensado se fazer cinema, para nós, não é também isso. Não é só sobre representação. Isso é pouco e impreciso. Nós sempre estivemos nas imagens brasileiras. O problema é onde nos colocaram. No fundo. Na cozinha. Na porta. Atrás da criança branca. Embaixo da criança branca. Com a bandeja na mão. Com a vassoura. Com o pano de esfregar. O que acontece quando uma mulher negra ocupa o centro da imagem? O mundo permanece igual ou se reorganiza inteiro pra acolhê-la? Penso no final de Negro drama, quando Mano Brown diz que a história dele “daria um filme”, e a primeira imagem desse filme é uma mulher negra com uma criança nos braços, sozinha na cidade. Depois, ele debocha do interlocutor branco que lhe ofereceu um mundo de miséria, mas não conseguiu impedir que ele entrasse 13
pelo rádio na casa do dono de tudo e alcançasse seu filho. Agora, o menino “ginga e fala gíria; gíria não, dialeto” e “quer ser preto, ah!, que ironia”. Há uma disputa imensa nessas palavras. E acho que elas sintetizam o que é, pra gente, fazer filme e entrar pelas telas. Porque não basta estar presente. É preciso disputar quem inventa a língua. Quem produz referência. Quem determina o que pode ser desejado, lembrado, reconhecido. Por quem as pessoas choram? Que existências são consideradas dignas? E penso em Laudelina de Campos Mello enquanto escrevo isso. Acho bonito que nossos filmes se encontrem numa exposição dedicada a alguém que passou a vida organizando trabalhadoras domésticas, lutando pelos direitos delas e recusando que esse trabalho fosse entendido como destino natural de mulheres negras. Há uma linha ligando essas mulheres. Não uma linha reta. Nossa história nunca teve esse luxo. Nem nunca quis. Talvez seja uma linha espiralar feita de interrupções, retornos, esquecimentos, coisas escondidas em armários, fotografias desaparecidas, quartos pequenos demais e filhas tentando compreender o preço pago pelas mães para que elas pudessem desejar outra vida. Nós conseguimos fazer filmes. Às vezes escrevo isso e parece pouco. Depois lembro de quem veio antes e percebo o tamanho. Como medir essa distância? Como medir o que uma geração precisou suportar para que outra pudesse imaginar? Talvez por isso eu tenha dificuldade com uma ideia de ancestralidade que seja apenas bonita.
Aqui não entra luz, de Karol Maia
Nossas mães e avós não são símbolos. Pagaram materialmente pela possibilidade que temos de sonhar. Pagaram com tempo, corpo, separações, com trabalhos que começaram cedo demais e terminaram tarde demais. O trabalho doméstico não apenas sustentou casas. Sustentou a reprodução do próprio trabalho. Alguém precisava cozinhar pra que outra pessoa trabalhasse. Alguém precisava limpar pra que outra pessoa estudasse. Alguém precisava criar uma criança pra que outra pessoa pudesse ter uma profissão. E muitas vezes aquela mulher estava criando a criança de outra pessoa enquanto outra mulher criava a sua. 14
É uma engenharia perversa. Em Criadas, patroa e empregada são negras. E são primas. Isso importa muito pra mim. Seria confortável demais imaginar que a estrutura desaparece quando uma pessoa branca sai do quadro. A branquitude pode parecer estar fora e continuar organizando tudo por dentro. Está na distribuição do dinheiro, do espaço, do trabalho, do futuro. Está naquilo que aprendemos a desejar e também no que aprendemos a repetir. Pessoas negras podem se amar, compartilhar uma história, reconhecer alguma coisa de si umas nas outras e ainda ocupar posições radicalmente desiguais dentro da mesma casa.
Malcolm X dizia que não existe capitalismo sem racismo. O racismo não precisa de uma pessoa branca em cada cômodo pra continuar funcionando. Ele já organizou os cômodos. Talvez seja por isso que as casas importem tanto nos nossos filmes. No seu, a arquitetura guarda a hierarquia. A porta, o corredor, o quarto sem luz dizem quem pode circular e quem deve desaparecer. No meu, a casa também guarda aquilo que as pessoas tentaram esquecer. Ela vira arquivo, corpo e assombração. O Brasil é muito bom em colocar no passado algo que ainda está acontecendo. Em tratar o racismo como herança, quando ele continua organizando o presente. Beatriz Nascimento me ajudou a compreender que nossa memória não precisa morar apenas nos arquivos que fizeram sobre nós. Ela pode morar no corpo, no deslocamento, no quilombo. Gosto de pensar o quilombo também como uma tecnologia de continuidade. Talvez nossos filmes sejam pequenos quilombos. Não porque sejam seguros. Não são. Mas porque dentro deles podemos reorganizar quem ocupa o centro. Podemos olhar pras nossas mães. E podemos aceitar quando elas não querem ser olhadas. Minha esposa me apresentou um historiador da arte alemão, Aby Warburg, que pensava a imagem como uma maneira de elaborar a realidade. Ele sugeria que a arte talvez seja menos um espelho do mundo e mais um órgão de elaboração dele. Gosto disso porque me tira de uma obrigação que tantas vezes colocam sobre pessoas negras que fazem arte, a de explicar. Eu não quero explicar o mundo. Quero poder elaborá-lo. 15
Quero ter a liberdade de buscar Fanon, Beatriz Nascimento, Neusa Santos Souza, Paul B. Preciado, Warburg, Jane Schoenbrun, Kiki Smith, Racionais, Kendrick Lamar ou qualquer pessoa que me ajude a fabricar uma linguagem para aquilo que ainda não sei nomear. Podemos colocar tudo isso numa mesma mesa. Podemos criar nossos próprios conceitos a partir daí. Essa liberdade também foi conquistada. Durante muito tempo, fizeram o contrário: pegaram nossas mães e nossas avós e transformaram suas vidas em objeto pra que outras pessoas produzissem conceitos. Agora nós também produzimos os conceitos. No final de Criadas, Sandra e Mariana destroem a casa. Precisam quebrar fisicamente aquela arquitetura pra conseguir se reencontrar. Não é uma destruição pela destruição. Há coisas que precisam cair pra que alguma outra relação possa existir. No seu filme, acontece quase o movimento contrário. Você passa o filme procurando uma mãe que não quer ser filmada. Procura essa mãe em outras mulheres. Até que ela finalmente se permite estar diante da sua câmera. E então você diz que o filme acabou. Quando percebi isso, chorei. Porque talvez a casa destruída e a mãe que finalmente aceita estar diante da câmera sejam duas respostas pra uma pergunta parecida. Como romper um destino que durante tanto tempo pareceu inevitável? Em Criadas, Ivone, mãe de Sandra, canta: “Levo minha mãe comigo Embora já se tenha ido” Essa frase tem outro peso agora.
Minha avó não chegou a ver meu primeiro longa. Ela, que me criou, que foi minha segunda mãe, que se orgulhava de ter me trazido da maternidade no colo, que sempre me perguntava se eu tinha comida, que me fazia ter coragem para dar saltos cada vez mais altos, faleceu 12 dias antes de começarmos a filmar. O filme é dedicado a ela: “Para minha vó Esméria, que me ensinou o amor incondicional”. Minha avó começou a trabalhar como empregada doméstica aos 14 anos. Décadas depois, eu entrava numa casa com uma equipe de cinema pra dirigir um filme sobre mulheres negras atravessadas pelo trabalho doméstico. Doze dias separaram sua morte do primeiro dia de filmagem. Mas entre essas duas datas existe uma vida inteira. A dela e a minha. Talvez seja isso que fazemos quando filmamos. Inventamos maneiras de levar conosco quem não pôde chegar até onde chegamos. Você levou sua mãe com você, mesmo quando ela se recusava a aparecer. Sandra voltou pra buscar a mãe numa fotografia. Eu levei minha avó pra dentro de um filme que ela não pôde ver. E aquelas mulheres que durante tanto tempo entraram pelas portas de serviço das casas dos outros agora podem existir sem compor o fundo da história de ninguém. Talvez seja essa a responsabilidade que sinto no nosso trabalho como pessoas negras fazendo cinema. Não apenas colocar mais corpos negros na tela, mas expandir o nosso imaginário. Permitir que nossas mães sejam 16
contraditórias, engraçadas, cansadas, desejantes, misteriosas. Que não precisem representar uma tese pra existir. Por isso fico muito feliz de ter sido uma daquelas 1.375 pessoas. Na época, minha contribuição era apenas um gesto de confiança na promessa de um filme. Hoje consigo entender que eu estava ajudando, sem saber, a tornar possível uma obra que, anos depois, também me ajudaria a pensar a minha. Seu filme mexeu fundo comigo, Karol. Espero que os caminhos que nossas mães, avós e bisavós abriram para nós continuem se abrindo. E espero principalmente que a gente não esqueça o trabalho que custou chegar até aqui. Porque elas abriram uma passagem. Agora nós podemos atravessar. Alargar. Para que mais gente como nós possa passar. Com carinho ❤︎ Carol Rodrigues
Correspondências 15.set.2026 de: Karol Maia para: Carol Rodrigues assunto:
Conseguiu descansar?
Karol Maia se inspira em referências periféricas e negras para criar seus projetos. Seu longa-metragem Aqui não entra luz recebeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Brasília e foi selecionado para o IDFA. Também dirigiu produções para a Globo, a Warner Bros. Discovery e a Paramount+. 17
Carol, obrigada por ter sido uma das mais de 1.300 pessoas que ajudaram Aqui não entra luz a existir. Lembrei das primeiras vezes em que ouvi falar de Criadas. Foi nas redes sociais, quando tudo ainda era um sonho no papel. Quase sempre se lança um filme com a idade de uma criança, né? O meu, por exemplo, levou oito anos para existir: se fosse uma pessoa, hoje estaria com a mochila nas costas, indo para a escola e, provavelmente, aprendendo a farmar aura. Amei sua citação de “Negro drama”. Essa é uma das poucas letras dos Racionais que sei inteira de cor. Racionais me ajuda a entender uma coisa grande em mim: ser paulistana. E, muitas vezes por aqui, “a garoa rasga a carne”. E é nessa cidade que me formou e continua me formando que descobri que não quero ser mãe, mas venho pensando como a maternidade vem perpassando os projetos que já fiz e os que estou desenvolvendo. Eu nunca imaginei muita trilha sonora em Aqui não entra luz, mas as poucas músicas que tem, eu usei com muita certeza. Uma delas é “Querer bem”, cantada por Mariene de Castro e Roberto Mendes, composta por João Mendes. Ela é uma carta de amor, e a escolhi pensando na minha mãe e nas outras mães presentes no filme. Mas também a selecionei pensando na possibilidade de terminar um filme com temas tão densos com alguma fresta pro acolhimento, uma fantasia minha. Eu até gravei algumas cenas baseadas nesse desejo, especificamente sobre o direito ao descanso depois de tanto tempo servindo ao outro, mas elas não entraram no filme. Nós, que vivemos em São Paulo, sabemos como às vezes é difícil parar e só descansar, mais uma vez meu instinto paulistano me inspirando.
Como é possível descansar vivendo no próprio trabalho? Um dos achados mais interessantes da pesquisa que fiz para o filme foi perceber que as patroas sabem pouco ou quase nada sobre o quarto de empregada que fica nas suas próprias casas, como se ele ficasse do outro lado da rua, e não a poucos metros da sala de jantar. A periferia arquitetônica da casa brasileira é o quarto de empregada, e ela recebe o mesmo descaso que se dá às bordas das grandes cidades. Eu não cresci em quarto de empregada. Na verdade, a primeira vez que entrei em um foi para fazer Aqui não entra luz. Mas cresci e vivi boa parte da vida numa periferia, e hoje, tendo mais autonomia para escolher onde e como morar, penso em como esse cômodo distancia quem o habita do conforto e do descanso. Uma amiga me apresentou o livro Descansar é resistir, da Tricia Hersey, uma mulher negra norte-americana que reivindica esse direito e que organizou um pensamento ao redor disso. Penso que o descanso que as mulheres negras precisam vai além da pausa física. Precisamos que o descanso configure nossa existência assim como a sobrecarga o faz. E realizar esse descanso também passa pela forma como moramos. Sou fascinada por casas e consigo ver o poder da escolha da casa que você construiu em Criadas. Obrigada por ter me levado para passear nela com tanta maestria. A cozinha, os quartos, o quintal, a sala: eu realmente estive ali com as personagens. A anatomia da casa ajuda a revelar a anatomia das relações. Amo também a Raquel, personagem de Rudmira Fula, e como ela diz que não precisa ser salva por ninguém. Isso dá um tom ainda mais preciso a essa casa comandada por mulheres negras. Gosto do seu cuidado em não deixar essas mulheres iguais entre si. O filme carrega desconfortos bons, e quem está atento consegue reconhecê-los e levá-los para casa, se quiser. 18
Tenho certeza de que sua avó Esméria tá ligada em tudo que vem acontecendo com Criadas e celebrando cada passo que seu filme tem dado. Eu espero que você venha conseguindo celebrar durante a jornada, Carol. Fazer filme é um lance difícil. Acho que quem dirige, aparecendo diretamente na tela ou não, se expõe e fica vulnerável de uma forma tão intensa... Ainda sinto frio na barriga toda vez que estou numa sessão de Aqui não entra luz. Eu não assisto mais ao filme inteiro, calculo o tempo para chegar só na cena final. Sempre tem gente que ri, mais ou menos, dependendo da sessão, e fico feliz com esse riso. Falando em final: muita cena ficou de fora de Aqui não entra luz. Uma delas era eu e minha mãe descansando na beira da piscina do meu prédio. Estava cotada para ser a cena final, não foi a que ficou; a montagem escolheu outro caminho. Mas essa cena continua comigo, como a reivindicação, ou o delírio, de que mulheres negras possam descansar devagar, em São Paulo ou em qualquer lugar do Brasil, com a segurança de uma casa inteira e próspera esperando por elas. Espero que esteja comendo bem E dando gargalhada à toa A vida inteira pra se apaixonar E banho de uma chuva boa. (“Querer bem”) Com carinho, Karol
Criadas, de Carol Rodrigues
19
Digger, de Alejandro G. Iñárritu
20
Em cartaz
IMS Paulista
Akira
IMS Poços
IMS Paulista
IMS Poços
Katsuhiro Ōtomo | Japão | 1988, 124’, DCP (Sato Company), remasterização 4K
Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues | Brasil | 2025, 90’, DCP (Curta Distribuidora)
As dores do mundo: Hyldon
Digger
Um dos mais clássicos filmes japoneses de animação de todos os tempos. Baseado no mangá homônimo de Katsuhiro Ōtomo, que também assina a direção. O filme parte de 1988, quando uma explosão nuclear destruiu Tóquio, reconstruída em 2019 como Neo Tokyo. Kaneda e Tetsuo são amigos e integram uma gangue de motoqueiros que disputa as ruas com a gangue rival dos Palhaços. Após um acidente, Tetsuo desenvolve estranhos poderes e é levado pelo exército.
Hyldon é uma lenda viva. Seu primeiro álbum, Na rua, na chuva, na fazenda completou 50 anos em 2025. Um clássico da música brasileira. Uma série de canções compostas por ele, inspiradas em histórias reais, revelam o soul romântico de um dos grandes compositores da nossa música popular, parceiro de Cassiano e Tim Maia. O documentário segue a formação e o trajeto do menino do sertão da Bahia ao jovem no topo das paradas de sucesso no Brasil.
A mais recente comédia de Alejandro Iñárritu, diretor de Birdman, Babel e Amores brutos, conta a história do magnata Digger Rockwell, interpretado por Tom Cruise, que provoca, com uma de suas empresas, um desastre ecológico de grandes proporções. Diante de um mundo em colapso, sob risco até de guerra nuclear, Digger embarca em uma missão desesperada para convencer a todos de que é o único capaz de resolver a catástrofe que ele próprio criou.
Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Ingressos IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). 21
Alejandro G. Iñárritu | EUA | 2026, 128’, DCP (Warner Bros.)
IMS Poços
IMS Paulista
I Want Your Sex
Gregg Araki | EUA | 2026, 90’, DCP (O2 Play) Parte do New Queer Cinema, Gregg Araki (Mistérios da carne) se volta a um protagonista heterossexual, em uma mistura de sátira, comédia romântica, mistério e assassinato. Trata-se de Elliot, um jovem sem rumo que vive um relacionamento morno com sua namorada, interpretada pela cantora Charli XCX. Sua vida se transforma quando consegue emprego com uma célebre e provocadora artista, interpretada por Olivia Wilde, que o envolve num jogo de sedução e submissão sexual. Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). 22
IMS Poços
IMS Paulista
Morte e vida Madalena
IMS Poços
IMS Paulista
Naza
Guto Parente | Brasil | 2025, 85’, DCP (Embaúba Filmes)
Yuval Abraham e Rachel Szor | Reino Unido | 2026, 80’, DCP (Vitrine Filmes)
Madalena é uma produtora de cinema lidando com a morte recente do pai, sua gravidez de oito meses e a produção de uma ficção científica B em que tudo parece dar errado. Em seu mais recente filme, uma comédia metalinguística, Guto Parente se insere na vasta e rica tradição do humor cearense, apostando nas vias “da autoironia, do absurdo e dos diálogos”, como destaca o cineasta. O longa estreou no 36º FIDMarseille, onde recebeu um prêmio de apoio à distribuição.
Filmado secretamente à noite nos telhados de Tel Aviv, o filme reúne entrevistas com 24 oficiais e soldados da inteligência militar israelense que revelam em detalhe os sistemas por trás do assassinato em massa de civis palestinos em Gaza pelo Estado de Israel. Naza é dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, que também realizaram, junto com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, o longa Sem chão (No Other Land), vencedor do Oscar 2025 de Melhor Documentário. O título Naza foi retirado da sigla em hebraico usada pelas forças armadas israelenses para descrever o número de civis que poderiam morrer ao calcular a estimativa de vítimas fatais antes de um ataque. Alvo de uma forte campanha de difamação em Israel, o filme estreou em setembro no Festival
Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
de Veneza, onde foi ovacionado ao longo de 25 minutos e recebeu o Prêmio Especial do Júri. Na cerimônia de premiação, Yuval Abraham declarou: “Honestamente, não é muito fácil estar aqui e pensar em todas as pessoas, políticos e jornalistas israelenses em casa que estão nesse momento atacando este filme, rejeitando-o sem sequer tê-lo visto. Muito foi feito para que não se olhasse para a realidade. A realidade é que, desde o começo deste festival, só durante esses dez dias, Israel matou pelo menos seis crianças palestinas em Gaza. Uma garota de três anos foi bombardeada em uma escola. Uma garota de sete anos com o pai dela, no carro. Duas irmãs, em casa, dormindo. Os oficiais de inteligência israelense com quem falamos nos contam que essa matança é sistêmica. Não é acidente, é projeto. Atos de assassinato e políticas baseados na total desumanização de palestinos. E eu quero ser muito claro: essa verdade tem sido documentada e é sabida desde o primeiro dia graças a jornalistas palestinos. Mais de 200 deles foram mortos por Israel em Gaza. As vozes deles foram silenciadas e negadas. Nós acreditamos que a negação de um crime ajuda-o a persistir.” [A íntegra do discurso pode ser vista nas redes da distribuidora Vitrine Filmes: tinyurl.com/yuvalnz] Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). 23
IMS Paulista
IMS Poços
Nosso segredo
Ran
Uma família tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de fazê-los enfrentar a dor. Primeiro longa da cineasta, atriz e dramaturga Grace Passô, diretora do curta República (2020) e do média Vaga carne (2019, junto a Ricardo Alves Jr.). O filme teve sua estreia mundial na edição deste ano da Berlinale e conta com participações de Mateus Aleluia, Tássia Reis e trilha de Amaro Freitas.
Um poderoso senhor feudal decide dividir seu reino entre os três filhos, acreditando que a família permanecerá unida depois de sua morte. Mas a disputa pelo poder transforma a herança em uma guerra brutal, marcada por traições, vingança e ambição. Inspirado em Rei Lear, de Shakespeare, o épico de Akira Kurosawa retorna aos cinemas em cópia restaurada e remasterizada em 4K.
Grace Passô | Brasil | 2026, 108’, DCP (Vitrine Filmes)
Ingressos IMS Paulista R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia).
Akira Kurosawa | Japão | 1985, 160’, DCP (Pandora Filmes), restauração 4K
Ingressos IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
IMS Poços
IMS Paulista
Rosebush Pruning
Karim Aïnouz | Reino Unido, Itália, Alemanha | 2026, 94’, DCP (Filmes do Estação) NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Na Catalunha, uma rica família branca norteamericana vive em um isolamento hedonista, buscando amor e validação uns nos outros, em roupas de grife e na música pop. Quando o irmão mais velho apresenta sua noiva para a família, tensões há muito tempo reprimidas vêm à tona. Do diretor de Madame Satã e A vida invisível, o filme é inspirado em De punhos cerrados, de Marco Bellocchio, e tem no elenco Pamela Anderson, Elle Fanning e Jamie Bell. Estreou no Festival de Berlim deste ano.
Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). 24
IMS Poços
Uma infância alemã
IMS Paulista
Virtuosas
Amrum Fatih Akin | Alemanha | 2025, 93’, DCP (Imovision)
Cíntia Domit Bittar | Brasil | 2025, 88’, DCP (Olhar Filmes e Filmes do Estação)
Nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, na ilha de Amrum, na Alemanha, o pequeno Nanning, de 12 anos, trabalha na fazenda próxima para auxiliar no sustento da família. Ele cresce dividido entre um entorno que celebra o fim iminente do regime e uma mãe que amarga a derrocada do nazismo. O filme é baseado no livro de memórias do ator e cineasta Hark Bohm, que adoeceu enquanto escrevia o roteiro. Fatih Akin (diretor de Em pedaços) assumiu o projeto do amigo e mentor.
Um retiro VIP para mulheres em busca de sua melhor versão se transforma em uma jornada absurda e perigosa. Com a atriz Bruna Linzmeyer no papel de uma influenciadora e coach de nome Virginia, Virtuosas é a estreia de Bittar na direção de longas-metragens. Na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme recebeu o Prêmio Netflix.
Ingressos IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Ingressos IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello O Cinema do IMS, em São Paulo, propõe, junto à exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello, uma discussão em torno do universo do trabalho doméstico, suas representações, seus tensionamentos e suas fabulações no cinema e nas artes visuais. Natural de Poços de Caldas, Laudelina foi uma liderança fundamental na luta pela valorização e pelo reconhecimento dos direitos das trabalhadoras domésticas, além de importante militante antirracista. A programação inclui exibições especiais do documentário Aqui não entra luz, de Karol Maia, e do longa de ficção Criadas, de Carol Rodrigues, além de uma exibição, seguida de debate, de Calmon, último curta-metragem dirigido por Joyce Prado, falecida em dezembro do ano passado. Figura incontornável no audiovisual brasileiro, Joyce Prado se debruçou sobre a memória de Laudelina em uma de suas obras e abordou o trabalho doméstico também em Calmon, curta de ficção inspirado na relação com sua avó. Foi do diálogo com Prado, ainda em 2025, que surgiram os primeiros desenhos deste ciclo de filmes, que dedicamos em homenagem à sua memória. Participam do debate Karol Maia, Carol Rodrigues e Renata Sampaio, curadora da exposição, com mediação de Marcia Vaz, supervisora de curadoria e programação do Cinema do IMS.
IMS Paulista
Aqui não entra luz
Calmon
Karol Maia | Brasil | 2025, 79', DCP (Embaúba Filmes)
Joyce Prado | Brasil | 2026, 26’, Arquivo digital (Acervo familiar)
Uma cineasta, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre os quatro estados brasileiros que mais receberam mão de obra escravizada e conversa com outras trabalhadoras domésticas. Mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas sonhem outros destinos. Um retrato íntimo e político de como a arquitetura no Brasil carrega os traços da escravidão e de como os espaços de moradia foram projetados para segregar corpos e sustentar hierarquias.
Cristina é criada por sua avó com bastante carinho e independência. Enquanto passam os dias em sua casa, que fica numa região rural, constroem juntas um carrossel de brinquedo e esperam pela volta da mãe de Cristina. Mas ela precisa cuidar de uma criança branca. Calmon é o último curta-metragem dirigido por Joyce Prado. Referência incontornável do audiovisual no Brasil, Prado faleceu em dezembro de 2025, deixando um sentimento de profundo pesar na comunidade cinematográfica e legando uma trajetória marcada pela força criativa, pelo compromisso político e pela abertura de caminhos. Sua atuação foi decisiva tanto na realização de obras voltadas à cultura negra e diaspórica quanto na articulação de políticas públicas e na ampliação das vozes e presenças negras no setor audiovisual.
Ingressos IMS Paulista R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
25
IMS Paulista
Sessão especial IMAGEM-CRISTAL Este filme, que será exibido ainda em processo de finalização, parte de um roteiro inspirado em histórias familiares da diretora e aborda o impacto do trabalho doméstico na experiência de mulheres negras. Ingressos IMS Paulista Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala. IMS Paulista
Criadas
Carol Rodrigues | Brasil | 2025, 105', DCP (Vitrine Filmes) Sandra retorna à casa de sua prima Mariana em busca de uma foto de sua falecida mãe, que trabalhou ali como empregada residente para os pais de Mariana. Embora tenham sido criadas juntas, Sandra, negra de pele escura, e Mariana, negra de pele clara, viveram aquela casa de formas muito diferentes. Ao se reconectarem, memórias há muito enterradas tomam forma ao redor delas. Fantasmas da infância, da ancestralidade, de um amor que nunca foi embora completamente. Ingressos IMS Paulista R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia).
26
Esta sessão apresenta dois curtas-metragens realizados a partir da oficina Produzindo um curta-metragem, com Well Bravo, viabilizada pelo edital de patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura de Poços de Caldas. Durante uma semana, 20 participantes viveram, de forma prática, as etapas de preparação de uma produção audiovisual. Ao final do processo, duas equipes filmaram, em dias diferentes, suas próprias versões de um mesmo roteiro, com a participação dos atores Raylla Brunieri e Guilherme Assis e com o acompanhamento de profissionais locais responsáveis pela fotografia e pelo som direto. As filmagens aconteceram no Museu Histórico e Geográfico de Poços de Caldas. A sessão propõe assistir aos dois filmes lado a lado e, depois, abrir uma conversa sobre o processo que os originou: como diferentes pessoas, partindo exatamente da mesma história, podem construir imagens tão particulares e como é vivenciar o processo e os desafios de um filme do zero. Mais do que apresentar o resultado de uma oficina, o encontro revela o cinema como experiência coletiva e como possibilidade concreta de criação na própria cidade. Depois da sessão, será realizada uma conversa com Well Bravo, responsável pela oficina e pela direção do projeto, e participantes das equipes, com mediação de Marcelo Leme. Ingressos IMS Poços Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Sessão especial Thomaz e as revistas
IMS Poços
IMAGEM-CRISTAL (versões 01 e 02)
IMS Paulista
Thomaz e as revistas: lições óbvias
Well Bravo | Brasil | 2026, 10’ e 12’, Arquivo digital (Acervo do diretor)
Francisco Passarelli | Brasil | 2026, 70’, DCP (Movie Idea)
Durante a investigação de uma cena de crime em um museu, uma pessoa profissional da perícia vê corpos, reflexos e gravações que parecem guardar uma memória que ela própria tentou esquecer. O presente começa a se misturar ao passado, colocando em dúvida o que realmente aconteceu naquele lugar.
Este documentário inédito apresenta a trajetória de Thomaz Souto Corrêa, considerado um dos maiores revisteiros do mundo. Por mais de 60 anos, esteve à frente da criação, do desenvolvimento e da consolidação de algumas das revistas mais importantes do país, entre elas Claudia, Playboy, Placar, Superinteressante e Quatro Rodas. Mais do que editar revistas, Thomaz ajudou a formar uma cultura editorial que influenciou gerações de profissionais e leitores. Ingressos IMS Paulista Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
27
Abbas Kiarostami em retrospectiva O Cinema do IMS apresenta uma retrospectiva da obra de Abbas Kiarostami (1940-2016), um dos grandes nomes do cinema mundial. Dos primeiros curtas realizados no Kanoon (Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Adolescentes) até os longas que o consagraram internacionalmente, a mostra percorre cinco décadas de atividade e de um inquieto pensamento cinematográfico. De julho a dezembro de 2026, serão exibidos seus curtas, médias e longas-metragens, em cópias restauradas. Uma rara oportunidade para conhecer ou rever, em sua quase totalidade, a poética e a prática de um artista que expandiu as possibilidades da imagem em movimento desde o Irã e para o mundo. A programação inclui filmes como O pão e o beco (1970), primeiro curta do diretor, até seu último longa-metragem, 24 frames, lançado postumamente em 2017, passando por obras como a célebre trilogia Koker, que reúne Onde fica a casa do meu amigo?, E a vida continua e Através das oliveiras; Close-Up, um dos responsáveis por lançar os holofotes do mundo para sua obra; e Gosto de cereja, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1997. Ingressos IMS Paulista Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
O filme foi feito com exatamente três pessoas: o técnico de som, o operador de câmera e eu. Não, quatro pessoas, incluindo o ator. Foi uma filmagem muito prazerosa. Posso dizer que na verdade éramos cinco, já que o pneu também virou um personagem. Tinha personalidade própria e às vezes não nos obedecia: não era para cair no rio, mas caía assim mesmo. E aí tínhamos que trocar o pneu. Foi muito empolgante.”
IMS Paulista
Solução número um
[Citação extraída e livremente traduzida do livro Conversations with Kiarostami (2019), do crítico e especialista em cinema iraniano Godfrey Cheshire, volume que reúne uma série de entrevistas conduzidas com o cineasta ao longo dos anos 1990.]
IMS Paulista
Gosto de cereja
Rah Hal-e Yek Abbas Kiarostami | Irã | 1978, 11’, DCP (mk2 Films), restauração 2K
Ta’m-e guilass Abbas Kiarostami | Irã | 1997, 99’, DCP (mk2 Films), restauração 4K
Depois de consertar um pneu furado, um homem tenta pegar carona em uma estrada movimentada. Ele precisa voltar para o seu carro, estacionado distante dali. No entanto, nenhum motorista se disponibiliza a parar. “A ideia do filme é a combinação de um acontecimento pessoal com outro, do qual ouvi falar”, conta Kiarostami ao crítico e pesquisador Godfrey Cheshire. “Tinha acontecido na Alemanha: o pneu de alguém furou, e ele ficou horas parado na via expressa tentando parar um carro. Pelo visto ficou ali por 11 horas, e então ateou fogo ao próprio corpo. Aí todos os carros pararam, mas já era tarde demais. Foi na noite de Natal, numa das rodovias expressas de Colônia. Isso foi noticiado no Irã, então combinei essa ideia com a minha.
Quem é o sr. Badii, afinal? Um homem desesperado, um homem sábio? Em seu 4x4, ele percorre as majestosas paisagens iranianas ao redor de Teerã em busca de alguém disposto a lhe dar uma mão numa missão particular, em troca de uma recompensa em dinheiro. Afegãos, curdos, turcos, trabalhadores do deserto, um soldado, um estudante de seminário e um funcionário de museu: cada pessoa que ele encontra reage à sua proposta de um jeito diferente. “Gosto de cereja começou a tomar forma a partir de uma poesia iraniana que fala de uma borboleta curiosa. A borboleta esvoaça ao redor de uma vela e, pouco a pouco, se aproxima da chama para vê-la melhor, até que, inevitavelmente, se incendeia”, conta Kiarostami no texto “Duas ou
28
três coisas que sei de mim”, compilado no volume Abbas Kiarostami (2004), da editora Cosac Naify, com tradução de Álvaro Machado. “Também o protagonista do filme gira e volta a girar com seu automóvel, até cair no buraco que ele próprio cavara. Esse girar transmite também uma ideia de entusiasmo e de fogo interior que encontramos em muitos poemas persas. Pensei logo que o filme, que fala da morte, tinha de ter mais movimentos que meus outros trabalhos, porque o tema exigia mais ação, precisamente para contrariar a morte. Quando está para se apagar, a chama da vela aumenta de intensidade. Da mesma maneira, o doente prestes a morrer fica ótimo de repente, porque concentra todas as suas energias para resistir ao fim.” “A encenação ‘circular’ fazia parte da estrutura simbólica. Girar significa literalmente não ir a lugar nenhum. Estar em movimento para nada. Sem que isso faça qualquer sentido. Para avançar de fato é preciso ir de um ponto a outro. Esse percurso remete, assim, à ideia de imobilidade. E aquele que não evolui, que não cresce, que não faz progressos está doente, e, finalmente, condenado à morte.” “Queria registrar a consciência da morte, a ideia da morte que só o cinema sabe tornar aceitável. Essa ideia impõe-se quando a tela fica negra, quando a lua desaparece por trás das nuvens e todas as luzes se apagam. Percebemos que já não há mais nada, que a vida - como o cinema - provém da luz e, ao mesmo tempo, entendemos que o cinema e a vida são uma coisa só.” Em entrevista ao crítico e realizador de cinema Mamad Haghighat, disponibilizada junto ao material de imprensa do filme, Kiarostami diria ainda: 29
“A vida e a morte se confrontam em três dos meus filmes: E a vida continua, Através das oliveiras e Gosto de cereja. Vem-me à mente a célebre frase de Cioran: ‘Sem a possibilidade do suicídio, eu já teria me matado há muito tempo’. Os três filmes – Onde fica a casa do meu amigo?, E a vida continua e Através das oliveiras – são considerados uma trilogia. Mas, na minha opinião, se eu retirasse Onde fica a casa do meu amigo? e o substituísse por Gosto de cereja, poderia ser uma trilogia melhor. Nesses três filmes, celebramos a vida em vez de louvá-la, levando a morte aos lábios. Como disse o poeta persa Omar Khayyam, parafraseando-o: ‘Você não pode adorar a vida a menos que a morte esteja diante de você’. Ele via a morte de forma positiva. Dizia que a terra é o paraíso e que devemos viver bem nela.” Gosto de cereja teve de lidar com a censura estatal iraniana por abordar temas como o suicídio. Em 1997, o governo iraniano tentou vetar a saída do país de Kiarostami e da cópia do filme, que seria exibida no Festival de Cannes, a ponto de o filme sequer constar no catálogo oficial do festival. A liberação de última hora veio após intensa discussão nos altos escalões do governo e a intervenção pessoal do então ministro das Relações Exteriores, Ali Akbar Velayati. Uma vez na competição, no entanto, o filme recebeu a Palma de Ouro, prêmio máximo do festival, consagrando-se como o primeiro filme iraniano a recebê-lo.
IMS Paulista
Volte sempre, Abbas!
Leon Cakoff e Renata de Almeida | Brasil | 1999, 6’, cópia 35 mm (Filmes da Mostra) Um dos membros do júri da 22ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o cineasta Abbas Kiarostami lançou um olhar generoso à cidade paulista e seus habitantes, detendo-se especialmente sobre uma garota que vivia nas ruas e que se tornou o assunto de seu texto “Uma boa cidadã”. Com essa história, Kiarostami homenageia os habitantes da cidade. A arquitetura caótica de São Paulo, alternando trechos novos e deteriorados, é o cenário em que esses cidadãos desassistidos improvisam seu cotidiano, procurando não perder de vista alguma alegria de viver.
IMS Paulista
Um alguém apaixonado
Like Someone in Love Abbas Kiarostami | Japão, França | 2012, 108’, DCP (mk2 Films), restauração 2K Um encontro entre um senhor erudito guardião das tradições, uma jovem sedutora que se prostitui para pagar os estudos e seu namorado ciumento. As histórias se entrelaçam num dia que mudará a vida deles para sempre. Um dos últimos longas-metragens de Kiarostami, Um alguém apaixonado foi filmado no Japão, em coprodução com a França, e estreou no Festival de Cannes em 2012. Com as crescentes dificuldades políticas e econômicas de rodar um filme no Irã, Kiarostami produziu uma série de obras fora do país, como ABC África e Cópia fiel, que ainda serão exibidos nesta mostra. Em entrevista concedida em 2012 ao portal The Film Stage, o diretor conta: 30
“Quando eu escrevia, era na minha própria língua e, obviamente, dentro da minha própria cultura, então moldei como uma espécie de história universal, que poderia acontecer em qualquer lugar. Mas depois, ao chegarmos lá, precisei confrontar meus personagens e a sociedade em que essa história se passava, para ver se eles se encaixavam, e havia pequenos detalhes que tinham que ser corrigidos. Por exemplo, se ela entra num cômodo, tem que tirar os sapatos; eles não apertam as mãos; e ele não pode tocar o rosto dela quando está tentando cuidar do ferimento. Eram pequenos detalhes mais fiéis às aparências japonesas. Mas, no fundo, isso não mudava nada. Eu não queria torná-lo excessivamente japonês do ponto de vista estético, porque não queria fazer um filme turístico, cheio de clichês sobre a cultura ou os costumes japoneses. Eu queria ter a aparência correta, mas focar no aspecto universal das pessoas e dos personagens da história.” “Não foi um problema tão grande para mim, essa questão da tradução ou da barreira do idioma, porque fiz como já faço com meus atores iranianos: dou muito pouca informação a eles. Acredito que uma das fases mais importantes é a escolha do elenco. Uma vez que você escolheu as pessoas certas, não deve interferir demais no que elas têm a oferecer. Então você dá apenas o mínimo de informação e deixa que sejam elas mesmas, dá espaço suficiente para que se expressem. É isso que faço com os iranianos: dou a pouca informação necessária. Eu passava isso por meio de tradução, e depois deixava que reagissem naturalmente, e simplesmente senti que eles estavam prontos, e não havia muito o que dizer sobre o idioma no que acontecia entre nós. Eu diria apenas
que não acredito muito numa direção constante de atores. Na minha forma de trabalhar, os atores não precisam ser dirigidos. Precisam ser escolhidos com cuidado, mas, uma vez escolhidos e recebendo as diretrizes gerais, são eles que trabalham, e nós estamos ali apenas para supervisionar. Até me lembro que, quando era jovem, era uma brincadeira: eu dizia: ’Um dia vou ao Japão fazer um filme e ver como eles reagem’. Mas aí os atores japoneses acabaram sendo exatamente como os atores iranianos.” [Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/abbasuaa]
50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo Em 2026, a Mostra celebra 50 anos de existência e de programação ininterrupta na cidade de São Paulo, um marco histórico para o cinema e para a cultura paulistana. Realizada desde 1977, a Mostra apresenta, a cada edição, um panorama do cinema contemporâneo mundial, colocando lado a lado novos cineastas e talentos do Brasil e do exterior e nomes já consagrados. A 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo acontece de 15 a 29 de outubro de 2026, e durante duas semanas apresenta um apanhado do que o cinema contemporâneo mundial tem produzido, além de novas tendências, temáticas, narrativas e estéticas. Programação, ingressos e mais informações em mostra.org e cinema.ims.com.br.
31
Instituto Moreira Salles Cinema Coordenador | Curador Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação Marcia Vaz Programador Thiago Gallego
Produtora de programação Renata Alberton Analista de programação Lucas Gonçalves de Souza
Projeção IMS Paulista Ana Clara da Costa, Adriano Brito e Sérgio Wong
Projeção IMS Poços Fagner Andrades e Gilmar Tavares Revista do Cinema do IMS Produção de textos e edição Thiago Gallego e Marcia Vaz Diagramação João Bomfim
Revisão Flávio Cintra do Amaral
32
Os filmes de outubro A programação do mês tem o apoio da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e das distribuidoras Curta Distribuidora, Embaúba Filmes, Filmes do Estação, Imovision, mk2 Films, O2 Play, Pandora Filmes, Sato Company, Vitrine Filmes, Warner Bros. e do projeto Sessão Vitrine Petrobras. Agradecemos a Adam Giely, Ana Gonçalves, Arthur Baeta, Carol Rodrigues, Claudia Augusta, Cláudia Priscila, Claudio Antônio Bernardes e Silva, Diego Corrêa, Francisco Passarelli, Guilherme Assis, Gustavo Nunes de Souza Dias, Ivan Prado Almeida, Izabel de Fátima Cruz Melo, Jacques-Antoine Jagou, Jady Gerônimo, Joyce Prado (in memoriam), Karol Maia, Léa Daudon, Letícia Rossi, Luciana Oliveira, Margô Oliveira, Maria Dolores, Nuna Nunes, Raquel Barreto, Raylla Brunieri, Renata de Almeida, Renata Sampaio, Thereza Cristina Prado Xavier, Thomaz Souto Corrêa e Well Bravo.
Venda de ingressos Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, a partir das 12h, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.
Parceria
Meia-entrada Com apresentação de documentos comprobatórios para todos os grupos elegíveis à meia-entrada por lei e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito).
Capacidade das salas IMS Paulista: 145 lugares IMS Poços: 85 lugares
Devolução de ingressos Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site. Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Não é permitido o acesso com mochilas ou bolsas grandes, guarda-chuvas, bebidas ou alimentos. Use nosso guarda-volumes gratuito. Confira as classificações indicativas no site do IMS.
Naza, de Yuval Abraham e Rachel Szor
IMS Paulista
Terça a domingos, inclusive feriados, das 10h às 20h
Fechado às segundas.
Avenida Paulista, 2424 São Paulo
imspaulista@ims.com.br IMS Poços
Terça a sexta, das 13h às 19h
Sábados e domingos, das 9h às 19h
Fechado às segundas Rua Teresópolis, 90 Poços de Caldas
ims.pc@ims.com.br
ims.com.br
/institutomoreirasalles @imoreirasalles Ran, de Akira Kurosawa
/imoreirasalles
/institutomoreirasalles