
Quem tem com que me pague, não me deve nada, de Ary Rosa e Glenda Nicácio

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Quem tem com que me pague, não me deve nada, de Ary Rosa e Glenda Nicácio

Em maio, no Cinema do IMS, uma série de encontros entre o público, os filmes e seus realizadores.
No Cinema do IMS Paulista o projeto Cinema Comentado convida Gabriel Martins, que, junto a Kleber Mendonça Filho, comenta ao vivo, durante a projeção, seu filme Marte Um, retrato sensível e complexo de uma família negra de classe trabalhadora que cativou as audiências brasileiras.
A Sessão INDETERMINAÇÕES reúne duas obras que borram fronteiras: do tempo, da negridade, das ideias de Cultura e Nordeste: a estreia da restauração do curta Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, de Jomard Muniz de Britto, e o longa Aquele que viu o abismo, de Gregorio Gananian e Negro Leo. Estes últimos participam de um debate com os curadores da sessão.
No Cinema do IMS Poços, Fabio Meira apresenta Mambembe. Entre idas e vindas, ele acompanha durante 15 anos mulheres que trabalham nas artes circenses, e encontra seu jeito de fazer um filme também “mambembe”.
Laura Liuzzi e os participantes da Oficina Filme de Conversa fazem a estreia de um longa-metragem que, inspirado na obra de Eduardo Coutinho, reuniu encontros com personalidades e histórias marcantes de Poços de Caldas.
Em obras feitas para o cinema e a televisão e apresentadas no Cinema do IMS Paulista, Agnès Varda viaja pelo mundo visitando artistas e refletindo sobre política, arte e cultura.
Ainda este mês: Akinola Davies Jr. narra um drama familiar em um dia politicamente conturbado nos anos 1990 na Nigéria; Karol Maia parte das memórias com sua mãe, trabalhadora doméstica, para conversar com outras profissionais do cuidado; Eva Libertad conta a história de uma mulher surda que engravida em um mundo que não é preparado para atendê-la; Glenda Nicácio e Ary Rosa filmam o cômico encontro entre um cineasta frustrado e um cantor de pagotrap; Jim Jarmusch tece um calmo ensaio sobre relações familiares; e um dos grandes clássicos do terror de Dario Argento retorna aos cinemas em cópia restaurada.



Aqui não entra luz, de Karol Maia [imagem da capa]
A sombra do meu pai (My Father’s Shadow), de Akinola Davies Jr.

As histórias das nossas vidas, direção coletiva Oficina Filme de Conversa
cartaz
A sombra do meu pai
(My Father’s Shadow)
Akinola Davies Jr. | DCP
A voz de Deus
Miguel Antunes Ramos | DCP

Aqui não entra luz
Karol Maia | DCP

Fanon
Jean-Claude Barny | DCP
Mambembe
Fabio Meira | DCP
O riso e a faca
Pedro Pinho | DCP

Quem tem com que me pague, não me deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | DCP

AGNÈS VARDA
Cinema
Surda (Sorda)
Eva Libertad | DCP
Suspiria
Dario Argento | DCP, restauração 4K
Veneno para as fadas
(Veneno para las hadas)
Carlos Enrique Taboada | DCP, restauração 4K
Agnès Varda: daqui para lá
(Agnès de-ci de-là Varda)
Agnès Varda | 5 episódios, DCP
Nausicaa
Agnès Varda | DCP
Ydessa, os ursos e etc.
(Ydessa les ours et etc.)
Agnès Varda | DCP, restauração 2K
Foco Akinola Davies Jr.
Cinema comentado
Lagarto (Lizard)
Akinola Davies Jr. | DCP
X Us
Akinola Davies Jr. | DCP
Marte Um
Gabriel Martins | DCP
É possível assistir a alguns dos filmes em cartaz no Cinema do IMS Paulista com recursos de acessibilidade em Libras, legendas descritivas e audiodescrição. Para retirar o equipamento com recursos, consulte a bilheteria do IMS Paulista. Em caso de dúvidas, entrar em contato pelo telefone (11) 2842-9120 ou pelo e-mail imspaulista@ims.com.br.
Aquele que viu o abismo
Gregorio Gananian e Negro Leo | DCP
Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial
Jomard Muniz de Britto | DCP, restauração 2K
O IMS Paulista integra a programação
da Virada Cultural de São Paulo com uma programação de cinema especial e gratuita no sábado, dia 23 de maio. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.

15:00 A voz de Deus (85')
17:00 Suspiria (99')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema Ydessa, os ursos e etc. (44')
20:10 A sombra do meu pai (94')
14:00 O riso e a faca (216')
18:00 A sombra do meu pai (94')
20:00 Suspiria (99')
12
14:00 Suspiria (99')
16:00 A sombra do meu pai (94')
18:00 Aqui não entra luz (79')
20:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema Nausicaa (94')
19
14:00 Aqui não entra luz (79')
15:40 Mambembe (97')
17:40 Surda (98')
19:40 Fanon (133')
26
15:00 Mambembe (97')
17:00 Surda (98')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 1 (45')
20:10 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
13
14:00 O riso e a faca (216')
18:00 Aqui não entra luz (79')
19:40 Lagarto + A sombra do meu pai (112') 20
14:00 Aqui não entra luz (79')
15:40 Fanon (133')
19:00 cinema comentado Marte Um (115')
Gabriel Martins conversa com Kleber Mendonça Filho durante a exibição do filme
27
15:00 A voz de Deus (85')
17:00 Mambembe (97')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 2 (45')
20:10 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
14:00 A sombra do meu pai (94')
16:00 Aqui não entra luz (79')
19:00 sessão INDETERMINAÇÕES
Aquele que viu o abismo + Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou "Fricção histórico-existencial" (82'), seguida de debate com Gregorio Gananian, Negro Leo, Lorenna Rocha e Gabriel Araújo
14
15:30 Fanon (133')
18:00 Mambembe (97')
20:00 Surda (98')
21
14:00 Surda (98')
16:00 Veneno para as fadas (90')
18:00 Suspiria (99')
20:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
28
14:30 Suspiria (99')
16:30 Fanon (133')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 3 (44')
20:10 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
sábado
14:00 O riso e a faca (216')
18:00 Suspiria (99')
20:00 A sombra do meu pai (94')
8
14:00 O riso e a faca (216')
18:00 A sombra do meu pai (94')
20:00 Aqui não entra luz (79')
22:00 Suspiria (99')
15
14:00 A voz de Deus (85')
15:50 Aqui não entra luz (79')
17:30 Surda (98')
19:30 Mambembe (97')
21:30 Fanon (133')
22
Neste dia não haverá sessões de cinema 29
14:20 Fanon (133')
17:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 4 (45')
20:10 Aqui não entra luz (79')
21:50 Suspiria (99') 2
14:00 Veneno para as fadas (90')
16:00 O riso e a faca (216')
20:00 A sombra do meu pai (94')
22:00 Suspiria (99') 9
15:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 1 e 2 (90')
17:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 3 e 4 (89')
19:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 5 (45')
20:00 Aqui não entra luz (79')
22:00 Suspiria (99')
16
14:30 A sombra do meu pai (94')
16:30 Mambembe (97')
18:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Ydessa, os ursos e etc. (44')
19:40 Surda (98')
21:40 Fanon (133')
23 virada cultural
14:00 O riso e a faca (216')
18:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Nausicaa (94')
19:50 X Us + A sombra do meu pai (106')
22:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
00:00 Veneno para as fadas (90')
30
14:20 Aqui não entra luz (79')
16:00 sessão INDETERMINAÇÕES
Aquele que viu o abismo + Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial (82')
17:40 X Us + Lagarto (30')
18:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Agnès Varda: daqui para lá – ep. 5 (45')
19:40 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
21:50 Veneno para as fadas (90')
14:00 A voz de Deus (85')
16:00 Veneno para as fadas (90')
18:00 A sombra do meu pai (94')
20:00 Suspiria (99') 10
14:00 Veneno para as fadas (90')
16:00 A sombra do meu pai (94')
18:00 Aqui não entra luz (79')
20:00 Marte Um (115')
14:00 Surda (98')
20:00 Surda (98') 1
16:00 O riso e a faca (216')
20:00 Marte Um (115') 24
14:00 Aqui não entra luz (79')
16:00 Suspiria (99')
18:00 Mambembe (97')
20:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100') 31
14:00 A sombra do meu pai (94')
16:00 Mambembe (97')
18:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.
A mulher mais rica do mundo
(La Femme la plus riche du monde)
Thierry Klifa | DCP
A sombra do meu pai
(My Father’s Shadow)
Akinola Davies Jr. | DCP
Aqui não entra luz
Karol Maia | DCP
Fanon
Jean-Claude Barny | DCP
Mambembe
Fabio Meira | DCP
Pai mãe irmã irmão (Father Mother
Sister Brother)
Jim Jarmusch | DCP
Quem tem com que me pague, não me
deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | DCP
Surda (Sorda)
Eva Libertad | DCP
Suspiria
Dario Argento | DCP, restauração 4K
As histórias das nossas vidas
Oficina Filme de Conversa | Arquivo digital
Foco Akinola Davies Jr.
Lagarto (Lizard)
Akinola Davies Jr. | DCP
X Us
Akinola Davies Jr. | DCP
Surda (98')
19:00 Mambembe (97')
19:00 A mulher mais rica do mundo (121')
Pai mãe irmã irmão (111')
19:00 Fanon (133')
16:00 A sombra do meu pai (94')
18:00 Suspiria (99')
19:30 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
19:00 Suspiria (99')
16:00 Aqui não entra luz (79')
18:00 A sombra do meu pai (94')
16:00 Suspiria (99')
18:00 A mulher mais rica do mundo (121')
Pai mãe irmã irmão (111')
16:00 Pai mãe irmã irmão (111')
18:30 Mambembe (97')
15:30 As histórias das nossas vidas (74'), seguida de debate com Laura Liuzzi e participantes da Oficina Filme de Conversa
18:30 X Us + A sombra do meu pai (106')
16:00 Pai mãe irmã irmão (111') 18:10 Suspiria (99')
15:30 Mambembe (97'), seguida de debate com Fabio Meira e mediação de Marcelo Leme
18:30 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
16:00 Surda (98') 18:00 Lagarto + A sombra do meu pai (112')
16:00 Aqui não entra luz (79') 18:00 Fanon (133')
15:30 Fanon (133') 18:00 Surda (98')
Sessão indeterminações
Lorenna Rocha e Gabriel Araújo
É possível haver incêndio onde aparentemente não há fogo? Naquele espaço, aqui, ali, em que não parece haver brasa ou qualquer indício de fumaça? Onde as pequenas combustões não se revelam de forma mais visível? Como são essas chamas que se espalham através dos sons, sons, sons, pelas palavras, pelo sangue negro; na hiperluminosidade, com a dança, além do dendê, na viscosidade da seiva, no cigarro, no mar, em acordes fúteis de um violão, em sopros descontínuos?
A junção que antecede o espalhar de brasas: Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial (Jomard Muniz de Britto, 1978) e Aquele que viu o abismo (Gregorio Gananian e Negro Leo, 2024). Saltos temporais, mistura de matérias distantes, sombriamente desconexas, colapso permanente em suas diferentes desordens; desbunde, pirraça, desalinho absoluto. Não tem como estancar esse sangue. Não tem como estancar, pois esse fogo, essa coisa que já está, que fere, arranca, esculacha e, quando menos se espera: espalha. Vidas negativadas que se somam. 1 De permanência, nesse encontro
supostamente imprevisível, apenas a mutabilidade, a contínua replicação, desmantelo. Distração, matar, morrer. Uma vontade descomunal pelo desejo, desejo incendiário, que invade tudo aquilo que tenta estruturar-se enquanto um cerco rígido e falsamente irreversível. Uma feitiçaria para a transformação. Aquele prazer anárquico em sua desimportância. Desde ontem, desde agora.
Em Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, as invenções do Nordeste e da Cultura, sim, essas instituições fictícias, são desmanteladas a cada quadro, a cada símbolo, num cortejo de vida-morte. Vivencial, grupo de provações polifônicas, instável calor, ordem invertida para um mapa incompleto. Desnorteamento como método de contravenção, de criação diante da censura e repressão da ditadura civil-militar, que se reatualiza na figura de X, em Aquele que viu o abismo.
X, indeterminado, infinito. Eu me defino como tensão absoluta de abertura. Tomo esta negritude e, com lágrimas nos olhos, reconstituo seu mecanismo . 2 É este o
1. Jota Mombaça. “Carta às que vivem e vibram apesar do Brasil”. In: Não vão nos matar agora. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021, pp. 13-19.
2. Frantz Fanon. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008, p. 124.
corpo de um homem negro? Uma ideia negra? A própria escuridão? Capitalismo global, fascismo em seu continuum histórico, evento racial, militarismo. Os dados, os vírus, o hackeamento, a tentativa de jogar mais adrenalina nessa matéria disforme.
Tudo aquilo que ferve abre a programação da INDETERMINAÇÕES em 2026. Após a sessão, testemunharemos um encontro criativo entre Gregorio Gananian e Negro Leo, diretores de Aquele que viu o abismo. A dupla também participa de uma conversa mediada pelos cofundadores da plataforma. Já a artista transmídia antidisciplinar biarritzzz assina a vinheta do programa.
Outro destaque desta edição é o lançamento da cópia restaurada digitalmente em 2K de Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, realizada numa colaboração entre Cinelimite e INDETERMINAÇÕES, com financiamento do Itaú Cultural e apoio da Mnemosine Serviços Audiovisuais. O processo de restauração ocorreu na cidade de Brasília, no Laboratório Digital Cinelimite, sob coordenação técnica de William Plotnick e consultoria da preservadora audiovisual Débora Butruce, com materiais digitalizados pelo Cinelimite, através do projeto Jomard Muniz de Britto: Preservação, Pesquisa e Difusão.

Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial, de Jomard Muniz de Britto
A restauração de som é assinada por José Luiz Sasso.
Na Revista de Cinema do IMS, o filósofo e tradutor Victor Galdino assina o ensaio "Contra o excesso de ser ou ‘É preciso e urgentíssimo que alguém escreva para não salvar nada'", em que reflete sobre memória, esquecimento, biopolítica e o ingovernável. Disponibilizamos também um trecho de uma entrevista realizada com Gregorio Gananian e Negro Leo em 2024, por ocasião da estreia do longa na 27ª Mostra de Cinema
de Tiradentes, onde ganhou o Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme da Mostra Olhos Livres.
Com tamanha ebulição ao nosso redor, por todas as partes, indagamos: como não perseguir a negridade [blackness] contida nesse movimento abrupto, errático e desordenado pelo estilhaçamento?3
3. Jota Mombaça. “Na quebra. Juntas”. In: Op. cit., pp. 21-26.
Contra o excesso de ser
“É preciso e urgentíssimo que alguém escreva para não salvar nada”
Victor Galdino
Afastai de nós também, oh! Inominável
Os mundos que insistem em heróis gregos, persas, romanos, egípcios e sumérios
Os mundos que insistem na covardia
Do subjugo e da decapitação
E ensinai respeito aos mais antigos, mas
Quando necessário fazei-nos meditar no parricídio
"Altíssimo", Negro Leo
“O homem livre [...], sua vitória não contempla mais heróis." Ao final de Aquele que viu o abismo (Gregório Gananian e Negro Leo, 2024), Ava Rocha canta sobre esse “homem” que, em sua voluntariedade excedente, destina-se ao impróprio, corrompendo a inteligibilidade das linhas que separam vida e morte – e, com isso, o resto da experiência do que se convencionou nomear “realidade”. Como Gilgámesh, protagonista do poema épico por aqui traduzido como Ele que o abismo viu, 1 X (Negro Leo) se encontra com essa possibilidade de viver para além da parcela que lhe foi conferida no arranjo do mundo, e isso não vem sem um risco e uma tragédia pessoal. Nesse caso, porém, a imortalidade viria pela digitalização do sistema nervoso garantida pela ultracorporação Prolife. Pouco mais se pode dizer em termos de contextualização.
Acompanhando X, levando a sério sua agitadíssima jornada de quase 60 minutos, o frenesi imaginal nos arranca qualquer pretensão de poder situá-lo: está mesmo na China? Está morto-vivo dentro de uma simulação? O que é delírio, o que não é?
1. Sin-léqi-unnínni. Ele que o abismo viu: epopeia de Gilgámesh. Tradução, notas e comentário de Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
O que é paranoia, mas aquela paranoia que não significa que não há ninguém atrás de você? Que espaço é esse no qual seu drama se dispersa e se desdobra? O mais importante é abrir mão da vontade, da necessidade sentida – imaginada – de situar, inclusive de desvelar a identidade desse “protagonista”. Ele não tem fronteiras. Parece que a corrupção violenta do tempo dos mortais também nos impede de acessar um espaço estável, uma espacialidade familiar.
O preço disso é a dúvida permanente. Expressão cara a Jomard Muniz de Britto, que encontramos do outro lado da sessão, encontro improvável entre parentes óbvios. Ele acrescentaria: duvidar dessa forma, sim, mas “não neuroticamente”2 – o bom humor faz-se necessário como princípio ético que separa a insegurança da experimentação, a instabilidade da proliferação, a ruína da abundância. X é variável em movimento, não definido previamente, ponto em que se cruzam, de maneira inesperada e invariavelmente patológica, a res extensa e a res cogitans. É certamente perigosa essa lambança – X é também
2. Carolina Leão. “Aos oitenta anos, Jomard Muniz de Britto ainda rejeita o cativeiro das definições”. Revista Literária Pernambuco, n. 134, abr. 2017. Disponível em: pernambucorevista.com. br/acervo/images/pdf/PE_134_web.pdf.
constante, é o que não era para ser, interface negra entre a biopolítica e o ingovernável. Ele corre o risco de ser anulado por meio desse ensaio perverso que é o capitalismo, de não poder cumprir seu objetivo maior: nada mais e nada menos do que tocar piano para outras pessoas, improvisar o próprio improviso. Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial (1978) abre com um poema de Jomard musicado por Tonico Aguiar, uma das muitas assembleias de palavras no curta-metragem que poderia muito bem ter sido uma música de Negro Leo: “É preciso e urgentíssimo que alguém escreva para não salvar nada, nem mesmo a alegria”. O último verso cantado abre para um discurso, proferido por uma figura de adornos coloniais, que nos joga direto nessa Recife em disputa, em suas ruas e seus patrimônios, sua horizontalidade e sua verticalidade, por onde logo acompanharemos o cortejo funerário da cultura. A causa mortis é o sufocamento pelas instituições. Se, no outro filme, X é o lugar quase impessoal de descodificação –perda de instabilidade, desfazimento de uma rede prévia de sentidos –, o que temos, com Jomard, é uma resposta ao trabalho de recodificação do espaço nordestino, sua reconstrução no imaginário social a partir
de cadeias institucionalizadas de significação positiva.
Voltando a outro de seus filmes superoitistas, O palhaço degolado, do ano anterior, temos essa imagem da “casa-grande de detenção da cultura”: no encontro entre patrimonialização e essencialismo, a antiga Casa de Detenção do Recife, com sua arquitetura panóptica, ainda que desterritorializada e reterritorializada como Casa de Cultura, não deixaria para trás sua função de clausura, esta só teria mudado de sentido. Jomard enxerga, nessa possibilidade, um risco também associado aos pensadores-heróis de um Nordeste “autêntico” – Freyre e Suassuna – erguido no lugar de sua sistemática representação como espaço de muitas ausências, terra de fomes e secas. A questão, assim, é como libertar a cultura dos projetos de nação. Em Inventário, a consolidação de uma memória oficial pede, como resposta, alguma forma de esquecimento (é preciso recusar aquilo que nos foi recusado3).
3. Expressão usada algumas vezes por Fred Moten e Stefano Harney, e também por outras pessoas engajadas no que se convencionou chamar black studies nos EUA. Ver, por exemplo, dos autores mencionados: The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study. Nova York: Minor Compositions, 2013, p. 96.
“Será que os críticos preferem ser ‘guardiães de cemitérios’?”4
“Você não precisa se lembrar, deixa pra lá.”
X é acordado por um homem – batizado de Doutor Sun pelos diretores – no meio da rua, deslocado de si mesmo, sem saber o que lhe aconteceu ou como foi parar ali. Nós que testemunhamos sua errância também não sabemos, não importa quem é aquele que o pronome “sua” indica. “Deixa pra lá.” Sem memória, faltam-nos os fios que arranjam o espaço e o prendem para que não se disperse a qualquer momento; faltam-nos, também, os fios que usamos para costurar a nossa identidade pessoal. X se encontra, assim como nós, nesse momento prévio à recodificação, que reúne e restaura uma ordem. Sua subjetividade é mais como estação minimalista por onde “as coisas migram”, para citar mais uma vez a canção na voz de Ava.
Há uma insistência nesse momento prévio, como se fosse dádiva, como se fosse oportunidade singular; insistência no tempo anterior à questão sobre ser ou não possível “falar desta Olinda cidade”. Anterior a mais um mito
4. Jomard Muniz de Britto, Aristides Guimarães, Celso Marconi et al. “Inventário do nosso feudalismo cultural”. In: Bordel brasileiro bordel. Recife: Comunicarte, 1992, p. 82.
fundador – à tentativa de dar “respostas passadas aos problemas” de agora, como diz o manifesto "Inventário de nosso feudalismo cultural", assinado por Jomard, Caetano, Gil e outros.5 Essas respostas são como a muralha que Gilgámesh constrói, e deixa como eternidade possível, dado que ele mesmo, apesar de sua jornada, morrerá.
Não é mais relevante, aqui, a pedra do que a imagem-fronteira, que também vive mais do que os homens. O que é necessário que eu tenha sido? O que é necessário que eu tenha sido, seja, continue sendo, para não ser deixado para trás, na margem, na fronteira com a natureza? Para que eu viva para sempre…
Há uma pergunta que soa mais de uma vez em Aquele que viu o abismo: “Como é que você vai reabilitar uma pessoa sem apagar a sua história?”. Trata-se de uma preocupação voltada à relação entre cura e preservação – dada a possibilidade de a personalidade ser desfeita junto com o trauma – que podemos repensar, talvez de maneira um tanto corrupta, como a relação entre metamorfose e memória. Nesse sentido, a correção biopolítica produz, ainda que pela violência, um esquecimento a ser
aproveitado. O abismo do poema mesopotâmico, aliás, é o espaço de onde as possibilidades ganham corpo, esse lugar antes do ser, antes das formas e dos códigos –aquosidade sem rosto lembrável. Qual a diferença entre homem e espaço geográfico? Ambas as coisas podem ser racializadas, colonizadas, governadas, enclausuradas, imageticamente carregadas ao ponto da exaustão. Ambas podem ser vítimas de um excesso de ser.
O caráter ameaçador da organização patrimonial do espaço, com o risco destrutivo que acompanha a biopolítica, nos toca como fantasmagoria amaldiçoada, que inclui, na verdade, a nós mesmas e mesmos. Isso quer dizer: no caótico Nordeste anti-institucional e abissal que Jomard e o Grupo de Teatro Vivencial fazem invadir a cena, e que poderíamos chamar de “Y”, querendo ou não, somos como X. Pouco importa se a imagem oficial nos mostra seca ou quitutes, sobretudo quando uma ditadura militar ronda a marginalidade. A hipótese: e se, simplesmente, não houvesse imagem alguma investida de força suficiente para governar, ou para participar de um governo?
5. Ibidem, p. 81.
“Por que foi precisamente aquela gota a gota d’água? Eis o segredo: as milhões de outras que a acompanharam – é tudo matemática”6 Sendo como X, aquele que viu o abismo, mesmo que nossa catábase tenha sido impulsionada por uma vontade sombria de eternidade, de fixação fotoquímica na nuvem das representações, o espaço que habitamos – e que se confunde com o que somos a cada momento – é organizado por essa livre associação “nordestina” que Jomard convoca. É um exagero irresponsável cruzar, dessa maneira, os dois filmes e os problemas que trazem para o pensamento, sobretudo quando lidam com violências de ordem bem distintas? Bem, morte é morte. E um homem é o espaço que sobrevive – vive – ao se misturar com espaços mais amplos.
Dizer que X é negro ou que Y é nordestino abre ou encerra a questão? Por outro lado, se há uma preocupação acerca de que vida viver, seria mesmo possível sustentar, permanentemente, a dispersão ou a dúvida? É preciso sempre substituir “X” e “Y” por 6. “Why did one straw break the camel’s back?/
Here’s the secret – the million other straws underneath it/ It’s all mathematics”, versos de Mos Def em Mathematics (1999).
algum número, certo? “Se você quiser rimar, melhor aprender como somar”, diz Mos Def em Mathematics, coleção de versos que oferece uma tradução da violência sistematicamente direcionada às pessoas racializadas como negras em linguagem matemática7 – newtonianismo militante que vê na proliferação numérica a possibilidade de pensar o inquantificável.
“X” e “Y” devem ser substituídos eventualmente, certo. Esses números que virão, entretanto, são aleatórios, não são a essência por trás da marca, a ordem secreta do mundo que nos livrará das más – falsas –representações. Esses números não param de vir, de passar e voltar e desaparecer novamente. Quantos nordestes no Nordeste? Infinitos, até a nordestinidade nada ser sem a liberdade das variáveis, nada servir para uma harmonia nacional que tem em muitas formas de morte o seu sustento. E, ainda que a cultura morra, ressuscita em sua multitude, fracasso constitutivo das instituições, como vemos nos créditos de Inventário. Quem mais poderia habitar esse lugar impermanente, sem substancialidade, livre de muralhas? Aquele que não tem nome próprio.
A memória ainda é uma ilha de edição. Precarizada, com recursos insuficientes, infraestrutura elétrica demasiadamente antiga e risco permanente de incêndio. Pode-se trocar o seu corpo pelo da instituição: uma memória oficial – um bom uso para muralhas, como as da China imperial. Ou trocar o seu corpo por uma construção digital. São duas formas de viver para além da mortalidade que nos foi dada. Duas formas de evitar a questão derradeira da liberdade, que nada mais é do que a questão do esquecimento; contornando, assim, o fato mesmo de que a humanidade está condenada a ela, esse presente terrível, maldição épica. “Sua vitória não contempla mais heróis.”
7. “You wanna know how to rhyme? You better learn how to add.”
Sessão indeterminações
Ver e ouvir – a saga
Gilgámesh, ou fragmentos de uma
em torno
Aquele que viu o abismo
Gabriel Araújo
Quando apresentou o longa Aquele que viu o abismo na sua sessão de estreia, na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Negro Leo, que codirige a obra ao lado de Gregorio Gananian e interpreta o protagonista X, foi sucinto: “Esse é um filme para ver e ouvir”.
A fala, simples à primeira vista, desbanca uma mania corrente por interpretação direcionada a filmes dito experimentais. Na contramão de uma ode à explicação dos signos expostos e à transparência narrativa, o conselho de Negro Leo nos leva a valorizar aquilo que de mais singular existe diante da experiência cinematográfica: a possibilidade de, numa sala escura, deixar imergir os sentidos diante do que é, a princípio, desconhecido.
Eis que, na obra, a imagem e o som chegam. Um homem negro adulto em vias de cometer suicídio. Uma China abarrotada, localizada num tempo que pode ser presente, passado ou futuro. A Prolife, uma empresa planetária. Um ruído que insiste em incomodar. Lasers que, sobre a fumaça, contam mais de uma história. São essas imagens e sons que inspiram uma conversa realizada com os diretores em janeiro de 2024 e publicada, na íntegra, no site da plataforma indeterminações. A seguir, estão alguns fragmentos desse diálogo triangulado.
Negro Leo: Usamos a epopeia de Gilgámesh como uma referência, ou inspiração longínqua [para a construção do filme]. Ela foi traduzida pelo professor Jacyntho Brandão como Ele que o abismo viu; assim mesmo, com essa sintaxe meio rebuscada. E a gente pensou: por que não “aquele”? Porque aquele é um pronome demonstrativo que você usa quando a coisa da qual se fala está longe de quem fala e para quem se fala. E “aquele” é algo indeterminado. “Aquele” não é “ele”, no sentido daquilo que se sabe.
Gilgámesh é o rei de Uruk, o rei da era pós-diluviana, a mesma de Noé, da Bíblia. Quando Enquidu morre – seu amigo, uma besta humana que precisava ser, de certa forma, civilizada –, Gilgámesh entra em desespero e se dá conta da finitude da vida. Então ele sai em busca para se tornar um deus.
Só aí dá pra ver que existe uma relação, de alguma forma, com Aquele que viu o abismo. O que é vida e morte num contexto desses que estamos vivendo? O filme tinha a possibilidade de ser um sci-fi no início, mas depois percebemos que tudo o que estávamos vendo, na verdade, era real, do ponto de vista dos desenvolvimentos tecnológicos. Preservação de cérebro, digitalização… Tudo isso é agora, tudo isso
está acontecendo. Embrionário, incipiente, mas acontecendo.
Gregorio: Essa coisa do experimentalismo é engraçada, porque talvez seja algo introjetado que a gente não percebe. O que estávamos tentando o tempo inteiro era fazer um filme que a gente gostasse. Que, quando terminasse, e a gente visse ele pronto, tivéssemos orgulho. É lógico que a gente tem um processo que eu sinto que é criativo – onde colocamos toda a criatividade da permissividade da criação –, e a gente acredita na inteligência da outra pessoa que está assistindo. Eu acho que esse é um comum no processo meu e do Leo, tenho certeza, a gente gosta e sempre teve muito amor por coisas que fizeram a gente chegar por conta nossa. Que confiou na gente pra acender algo. Porque quando você, por conta própria, descobre o mundo, aquilo é inesquecível. E você ganha uma certa autonomia também.
Eu sinto que o filme resulta de um lugar nosso de criatividade, de busca para conseguir contar o que queríamos com as linguagens que o cinema oferece. E de aprender essas linguagens. Quando o Leo falou aquela história [durante a estreia do filme] de “imagem e som”, é porque nós estávamos o tempo inteiro buscando essas fricções

para acender essa fogueira. Eu sinto que é um aprendizado nosso sobre cinema.
Negro Leo: É inevitável não arriscar. Se há ou pode haver uma solução, está diretamente vinculada à ambição de compreender ou de estar num mundo tão maluco e difícil como este. Pensa em processos revolucionários ou revoltas, puras e simples. Tem que ter um grau de ambição e compreensão e, ao chegar lá, um misto de constrangimento e consternação. E aí se torna difícil se resignar diante uma situação como essa. É quase como sair da caverna no mito platônico. O que você vai fazer nessa situação? Há que ser ambicioso. Quem não precisa
ter ambição é quem tem dinheiro no bolso, quem tem as contas pagas.
Negro Leo: Há um momento do filme em que X diz que a “Ultimate Fighting da história é planejada por dois homens brancos”; uma remissão à luta do [Mark] Zuckerberg contra o Elon Musk. E aí é interessante gravar na China, e aí é interessante ser um personagem preto: porque passaram pelo colonialismo europeu. Aí você une as duas pontas. A gente está falando dos 100 anos de vergonha da China [também conhecidos como “século de humilhação”, período em que a China esteve sob o jugo do imperialismo ocidental e japonês] e os 100 anos de colonização na África.
Gregorio: E a gente chegou na China no momento que o Bolsonaro tinha sido eleito. Então, de alguma forma, a questão do filme não estava relacionada exatamente às questões políticas da China atual. Essa empresa [a Prolife] é muito mais. Como se tivesse uma empresa planetária que ultrapassasse as fronteiras das nações.
Negro Leo: Por isso eu falei que a chave para assistir ao filme é audiovisual mesmo, “ver e ouvir”, deixar fluir. Na primeira chave, a pessoa vê. Chega, vê o personagem preto, descobre, ao longo do filme, que esse cara está internado num lugar – que é a própria Prolife, não é um hospital –, que o seu psiquiatra recomendou a ele que se voluntariasse… E quem é o personagem que passa pela experiência? Quem é que passa pelas experiências do capitalismo de forma radical, avassaladora? São os corpos pretos. E foi tão bonito quando a gente chegou num lugar, no final, com a última música do disco, cujo título foi descoberto pelo Greg: “O homem livre”. O arco retorna para o início. E você volta para o tiro na boca. E o cara não se mata. Ele não se mata por falta de coragem, eu acho que alguma coisa pinta ali. Negro Leo: O X funciona como uma espécie de Deus machina. Não Deus ex machina, mas de Deus machina mesmo. Pensamos nisso
a partir de uma pesquisa sobre xenobots. Eles são pequenos robôs orgânicos, nanorrobôs que são feitos de células embrionárias de rã e que se reproduzem, são autorreplicáveis. Em breve, eles podem ser usados para entrar no nosso corpo e fazer sei lá o quê. O que isso faz a gente pensar? É uma matéria orgânica, autorreplicável, mas é um robô. Será então que nós mesmos não somos uma espécie de invenção? Uma criação de uma civilização alienígena muito mais sofisticada que nós, nessa perspectiva de sci-fi americano mesmo? Mas e daí se somos ou não somos? O filme esbarra nesse lugar. Só que é tudo real. É real que a gente pode ser, simplesmente, uma espécie de simulação de uma civilização alienígena, depois dos xenobots.
Gregorio: É uma realidade; uma realidade que a gente pode criar.
Negro Leo: É uma realidade! Para além de Darwin, Lamarck, e de todos os outros pais da biologia moderna...
Gabriel: E nem precisamos ir tão longe quando paramos pra pensar que a internet também possibilita essa criação alternativa de realidades de alguma forma.
Gregorio: Eu sinto no filme uma certa esperança. Uma esperança muito cruel. Não é para amador, né? Tudo está complexo. Mas
eu acho que tem uma certa esperança do prazer dos sentidos, num sentido amplo. Porque, no momento final do filme, existe uma apoteose. Eu só não sei se a palavra “esperança” dá conta disso.
Negro Leo: Eu diria que eu acho que ele tem um desejo. Mais forte que a esperança. E é isso que talvez faça ele se movimentar, no sentido primeiro de não se matar e tentar uma solução, uma saída dali. A doutora pergunta pra ele: “E o que você vai fazer se tudo der certo e você conseguir sair daqui?”. Ele não responde. Noutro momento, ele diz, em delírio: “Eu quero injetar um pouco de adrenalina, comprar um revólver, eu quero me meter numa guerra…”.
Gre gorio: “Que a vida seja ao menos emocionante.”
Negro Leo: “Que a vida seja ao menos emocionante!” E ele diz: “Libertem as famílias da sociedade”. São os três axiomas que, simultaneamente falados, apresentam um contexto do que seria a sociedade que a gente vive. Eu acho essa coisa muito forte pro X. Menos esperança, e mais desejo, talvez, de permanecer.
Leia a íntegra da conversa em tinyurl.com/vereouvir.
Francisco Carbone
Existem muitas maneiras de contar uma história, mas uma forma que vem se popularizando é transformar em certo o que deu errado. No documentário, especificamente, esse recurso não apenas contempla muitas maneiras de contornar o incontornável, como também, vez por outra, consegue amarrar algo que não teria salvação aparente, para costurar uma grande obra constituída do desastre. Como o recente Amanhã, de Marcos Pimentel, que nasce do desacontecimento inesperado para revelar angústias de um país, Mambembe contém o tanto de desespero intrínseco de quem acompanha um acidente irreversível e inevitável. O que é revelado de supetão não apenas mostra uma saída possível dentro do que poderia ser feito, como também ressignifica uma obra dada como perdida – e, assim, não apenas salva, como é recauchutada em sua gênese.
Fabio Meira dirigiu dois longas-metragens antes de Mambembe, e, em ambos, ele se debruçava sobre conceitos de família com alguma dose de naturalismo – até que um rasgo adentrava a narrativa, permitindo o risco e a suspensão do realismo. As duas Irenes tratava de um encontro familiar que não deveria ter acontecido por uma certa ordem tradicionalista das coisas. Tia Virgínia
descortina uma festa igualmente tradicional, para desconstruir as aparentes normalidades de cada um, ou dos olhos de cada um, sobre si e sobre o outro. Em seu novo filme, Meira já parte do fim da certeza, do esquema que não apenas não se concretizou, mas ruiu toda a ideia de obra. Um filme construído a partir do que não funcionou, do erro esquecido e que agora pode ser reconstruído, sob nova encarnação.
O que deveria ser uma narrativa ficcional acompanhando integrantes de circos pelo interior do país, com foco específico em três protagonistas femininas, dá lugar (em parte) a um documentário sobre a tentativa de realizar esse mesmo filme, agora aparentemente do avesso. O Mambembe original teve suas filmagens realizadas há 15 anos, ou seja, seria na verdade o primeiro longa de Meira. Ao não revelar os motivos pelos quais seu projeto não foi concluído, e permitir-se criar um duo de situações fora do comum (a realidade da ficção e a ficção da realidade), o autor alcança uma textura que não é tão incomum assim, mas que ele organiza de maneira aí sim inédita. Porque, em tese, estamos diante de dois filmes em um: o que existe e está em tela, e o que não existe e será criado diante do espectador a partir do descaminho.
A partir daí, e conjecturando novas ideias, o fascínio é a porta de entrada para uma narrativa que, em suas curvas radicais, apresenta sempre tanto um dado novo como uma saída inesperada; a sedução está posta. No trio de protagonistas, Índia Morena, Madona Show e Jessica, e na interação que surge naturalmente entre as personagens, está a chave dessa conexão estabelecida entre as artistas e o que elas representam: a valorização da produção circense, em um momento que as novas gerações perderam o contato exatamente com o que intitula o filme. “Mambembe” é um termo comumente usado para descrever grupos teatrais ou circenses itinerantes, sem recursos ou infraestrutura, que viajam apresentando espetáculos simples. Na outra ponta de significação, algo imprestável, ordinário, medíocre ou de pouco valor. Em Mambembe, a arte não é tipificada ou subjugada, e sim exaltada no que ela tem de mais puro.
Ao falar do circo, Meira mais uma vez rememora seu compromisso com os laços familiares que formam a base de sua obra até aqui, investigando a união entre seus personagens e o que é questionado diante de tais modelos disfuncionais. O que o autor não previa era que estava também
ele costurando uma nova família gestada pela arte, e que, mesmo separada pelas circunstâncias, não reluta em reencontrar-se diante do imprevisível. Para as respostas que o tempo cobra de cada relação apresentada, Meira retorna ao ponto de origem para revelar pessoas que nunca conhecemos o suficiente, que florescem a cada novo encontro. Com isso, o cineasta constrói uma espécie de Cabra marcado para morrer muito particular, sobre almas ciganas com as quais somos imbuídos pela expressão artística, tenha ela a moldura que tiver.
Conseguir sair de uma dificuldade que se impôs durante uma produção primeira da carreira e igualmente conseguir desfazê-la ao longo de mais de uma década já seria uma tarefa hercúlea. O que Meira faz em Mambembe, reconfigurando um percurso de narrativa para criar uma segunda faixa de entendimento para a obra, situando dados de fantasia na realidade e arroubos de realidade na dita ficção, é além de qualquer expectativa. Que ele consiga então emergir de uma pecha de fracasso pessoal diante de algo que poderia ter sido belo, para sagrar-se superior aos desfeitos, e então se juntar aos personagens, para também ele compor, é um tratamento excepcional e uma prova de que, muitas vezes, a melhor psicologia que
podemos fazer a nós mesmos será provida por uma tentativa de desconstrução do próprio trabalho.
Com um exercício de montagem arrebatador dele, de Juliano Castro e de Affonso Uchôa (o homem por trás de Arábia ), Mambembe é uma obra mergulhada na família pelo tamanho do calor humano que Meira preenche acerca dos seus personagens e atores, na roupagem que for. Estejam no passado ou no presente, essa obra carrega uma dose de hibridismo que impressiona justamente por aproximar seu corpo de elenco até essa proposta-saída. Quando são espelhados os dois momentos da produção, a busca de Meira enfim parece cessar. Seja o que for, o que vemos hoje a respeito do que um dia foi Mambembe é o que teríamos de ver; não à toa, a criatividade narrativa de seu autor foi utilizada como motor para encontrar um novo filme dentro de algo que tinha tentado ser, e esperou por 15 anos para então sê-lo.

IMS Poços
A mulher mais rica do mundo
La Femme la plus riche du monde
Thierry Klifa | França | 2025, 123’, DCP (Synapse)
A mulher mais rica do mundo. Um fotógrafo ambicioso e insolente. O amor à primeira vista que os arrebata. Uma herdeira desconfiada que luta para ser amada. Um mordomo vigilante que sabe mais do que revela. Segredos de família. Uma guerra onde todos os golpes são permitidos.
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

sombra do meu pai
My Father’s Shadow
Akinola Davies Jr. | Nigéria, Reino Unido | 2025, 94’, DCP (Filmes da Mostra)
Um dia na metrópole nigeriana de Lagos, durante a crise eleitoral de 1993. A história acompanha um pai, afastado dos dois filhos pequenos, durante uma jornada por essa enorme cidade enquanto a agitação política ameaça sua volta para casa.
O primeiro longa-metragem de Akinola Davies Jr., que recebeu a menção honrosa do júri da Caméra d’Or no Festival de Cannes, tem uma relação direta com a vida do cineasta. “Acho que, no começo, eu teria dito que há uma grande diferença entre uma coisa e outra, mas quanto mais Em cartaz
eu vejo o filme e converso com meu irmão, mais difícil fica saber o que é ficção e o que não é”, declara Davies em entrevista a Bruno Carmelo para o portal Meio Amargo. “O fato é que a gente perdeu nosso pai quando éramos bem novos. Meu pai morreu quando eu tinha 1 ano e oito meses, e meu irmão devia ter uns 3 anos. Mas o filme se passa em 12 de junho de 1993, e, nessa época, no filme, os meninos têm 8 e 12 anos. Então as coisas começam a se misturar. Muitas das histórias vêm de coisas que nos contaram sobre o nosso pai – o que nossa mãe dizia, o que outras pessoas diziam –, e como essas histórias mudaram com o tempo.
Os eventos históricos são baseados no que realmente aconteceu naquele dia. Bonny Camp é um lugar real. Os massacres aconteceram em momentos diferentes, mas a gente juntou tudo para colocar no filme. Então o personagem paterno é uma versão ficcional do nosso pai, mas decorre das histórias que escutamos sobre ele. É bem difícil separar o que é ficção e o que não é. Acho que a diferença mais óbvia é que, por exemplo, no filme, a gente muda a idade dos personagens, e também, no filme, a família é de classe trabalhadora, enquanto a nossa era de classe média.”
“Bonny Camp sempre foi um lugar onde pessoas ‘problemáticas’ sumiam. Era uma base policial, e depois virou uma base militar. Uma das razões pelas quais o governo militar mudou a capital de Lagos para Abuja foi justamente porque, quando havia protestos, as pessoas iam para Bonny Camp. Fela Kuti, por exemplo – um dos nossos músicos mais famosos – levou o cai-
xão da mãe dele até Bonny Camp para entregar aos militares, depois que ela foi jogada do telhado e morreu. Então Bonny Camp virou um símbolo no imaginário nigeriano, um lugar onde militares e policiais faziam opositores desaparecerem. Como a gente queria contar essa história para jovens nigerianos – e também para quem não conhece a história da Nigéria –, quisemos homenagear esses lugares, onde pessoas lutaram contra o autoritarismo e perderam a vida.”
Na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A sombra do meu pai recebeu o Prêmio da Crítica de Melhor Filme Internacional e o Prêmio Brada de Melhor Direção de Arte.
[Íntegra da entrevista em: tinyurl.com/adjsombra]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).


A voz de Deus
Miguel Antunes Ramos | Brasil | 2025, 85’, DCP (Embaúba Filmes)
Duas crianças pregadoras buscam um caminho para uma vida melhor por meio da fé. Daniel Pentecoste, com 17 anos, foi o pregador infantil mais famoso do Brasil, mas, ao crescer, enfrenta a frustração de um futuro incerto. João Vitor, de 12 anos, está no auge, com um milhão de seguidores. Entre lives e smartphones, prega para multidões.
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Karol Maia | Brasil | 2025, 79’, DCP (Embaúba Filmes)
Entre memórias pessoais e pesquisas históricas, uma cineasta, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre os quatro estados brasileiros que mais receberam mão de obra escravizada e conversa com trabalhadoras domésticas. Mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas possam sonhar outros destinos. O filme constrói um retrato íntimo e político de como a arquitetura no Brasil ainda carrega os traços da escravidão e reflete sobre como os espaços de moradia foram projetados para segregar corpos e sustentar hierarquias.
“Eu acho que o trabalho doméstico mantém privilégios em pé”, comenta Karol Maia em entrevista a Renato Silveira para o portal Cinematório. “Quando a gente tem na construção de um país um projeto de escravização tão bem estruturado como foi aqui no Brasil, o último país das Américas a abolir a escravidão, continuar a fazer a manutenção desse modelo é confortável pra muita gente. Então, eu acho que, ao falar desse assunto, inevitavelmente a gente vai ter que falar de coisas difíceis, vai ter que falar sobre pontos de responsabilidade individual. E eu acho que o silêncio protege muitas pessoas. Eu acho que protege de formas diferentes. Não posso falar por todas, mas algumas trabalhadoras optam pelo silêncio porque não querem perder seus empregos. E os contratantes optam pelo silêncio porque não querem perder o seu privilégio de remunerar alguém mal e ter essa pessoa disponível pra fazer um trabalho muito complexo e muito difícil, que é o da trabalhadora doméstica. E trabalho doméstico a gente pode entender como babá, como a cozinheira, a faxineira, todo mundo que tá trabalhando nesse ambiente familiar que é um ambiente de segredo, né? Uma família não vai revelar os segredos que estão acontecendo dentro de casa.”
“Este filme já teve muitos cortes”, ela conta em outra entrevista concedida a Luana Ibelli para o Brasil de Fato. “Foram muitos anos montando ele. Ele já teve um caminho muito mais político, quase didático mesmo, mais informativo. E aí eu fui abrindo mão de algumas coisas e lapidando cada uma das entrevistas com o que eu considerava o melhor daquele encontro. Porque eu acho
que, pra além da entrevista, também tem um tom de encontro com aquelas trabalhadoras. Porque pra eu conseguir chegar naquela intimidade que a gente conseguiu alcançar em pouquíssimo tempo é porque eu também tava me abrindo. Eu também entregava alguma coisa pra elas. Porque o meu interesse era transformar aquele encontro numa coisa íntima. No limite do que uma câmera ligada e pessoas desconhecidas na sua casa permite. Mas eu fui entendendo que, pra mim, a questão política e a questão mais prática da arquitetura foram perdendo espaço, porque eu entendia que tinha muitas nuances das trabalhadoras que eu gostaria de trabalhar. E eu tive que abrir mão de alguma coisa. Quanto mais eu fui entrando, eu, enquanto personagem, fui dando um pouco da minha história pro filme também, e esse ciclo se encerrou.”
[Íntegra das entrevistas em: tinyurl.com/kmaquinao e tinyurl.com/kmentraluz]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).


Fanon
Jean-Claude Barny | França, Luxemburgo, Canadá | 2025, 133’, DCP (Fênix Filmes)
Baseado na história real de Frantz Fanon, o pensador, psiquiatra e ativista martinicano que ousou enfrentar o sistema colonial francês. Em plena Guerra da Argélia, sua trajetória redefiniu não só a psiquiatria e a luta anticolonial, mas a própria ideia de liberdade. Fanon deixou para o mundo um arcabouço teórico e prático de valor incontornável junto ao pan-africanismo e às lutas anticolonial.
O diretor Jean-Claude Barny comenta: “Para mim, Fanon foi quem me permitiu ter uma visão diferente de como eu poderia integrar personagens de ascendência africana ao cinema em geral, e construir personagens que fossem totalmente sinceros, autênticos e desprovidos de qualquer servidão à indústria. Tínhamos a impressão de que estávamos criando alguém com um
forte senso de humanidade e que era reconhecível como alguém dotado de uma espécie de sinceridade autêntica. Ele é um personagem que estava fora do comum e acima do comum. Mas não podemos transformá-lo em um ícone intocável, um ícone sem realidade. O que nos interessa é trazê-lo de volta ao mundo dos vivos, e não ao mundo de um ícone póstumo. Primeiro tivemos que torná-lo tangível, torná-lo real. Tivemos que construir e desconstruir. Tivemos que edificar um ser humano – e esse ser humano tem um destino extraordinário.”
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).








IMS Poços IMS Paulista
Mambembe
Fabio Meira | Brasil | 2024, 97’, DCP (Roseira Filmes)
Três mulheres de um circo itinerante – Índia Morena, Madona Show e Jéssica – cruzam o caminho de um misterioso topógrafo. A partir de suas histórias, se desenha uma trama que mistura ficção e realidade ao longo de 15 anos.
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços Dia 23 de maio - sessão com debate: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala. Demais sessões: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

O riso e a faca
Pedro Pinho | Portugal, Brasil, França, Romênia | 2025, 216’, DCP (Vitrine Filmes)
O engenheiro Sérgio viaja até uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar na construção de uma estrada entre o deserto e a selva, a serviço de uma ONG. Ali, ele se envolve em uma relação íntima, mas desequilibrada, com dois habitantes da cidade, Diára e Gui. À medida que adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil torna-se o seu último refúgio perante a solidão e a barbárie.
O riso e a faca recebeu o prêmio de Melhor Atriz para Cleo Diára na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, em 2025. Em entrevista a Paulo Maia, para a edição de 2025 do festival forumdoc.bh, o diretor Pedro Pinho (A fábrica de nada, 2017) conta: “O trabalho com os atores partiu de uma base escrita, de um roteiro
dialogado, retrabalhado na escrita muitas vezes, durante muito tempo, com várias pessoas. Mas eu, na minha prática normal, não dou o papel escrito, não dou o roteiro em papel aos atores. Fazemos uma leitura, e depois cada um guarda a impressão e a memória que quer e pode dessa leitura. A ideia é que não haja demasiada construção sobre as personagens, porque o meu objetivo é convidar os atores a trazer a sua subjetividade íntima – do ponto de vista político, do ponto de vista moral, do ponto de vista da sua personalidade –, de como reagem às coisas, às surpresas, às vozes dos outros, aos gestos, aos olhares, e construir a personagem a partir dessa subjetividade emprestada pelo ator.”
“Claro, é sempre uma dramaturgia negocial. Porque os atores negociam comigo aquilo que estão dispostos a entregar de si, dos seus traços de personalidade e, inclusive, o seu nome, a sua maneira de olhar, de gesticular, de falar, as suas opiniões políticas, filosóficas, as suas crenças morais. E, portanto, as personagens são construídas dessa forma, em processo meio dialético entre o roteiro e a mise en situation que acontece na rodagem com os atores.”
[Íntegra da entrevista: tinyurl.com/pprisofaca]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Pai
Father Mother Sister Brother Jim Jarmusch | EUA, Irlanda, França, Itália, Japão | 2025, 111’, DCP (Imovision)
Pai mãe irmã irmão é um longa-metragem, ainda que seja cuidadosamente construído na forma de um tríptico. As três histórias tratam das relações entre filhos adultos, seus pais, um tanto distantes, e também entre si. Cada um dos três capítulos se passa no presente e em um país diferente. “Pai” se passa no nordeste dos EUA; “Mãe” em Dublin, na Irlanda; e “Irmã irmão” em Paris, na França. Uma comédia entrelaçada por tons de melancolia, o filme é uma série de estudos de personagens: tranquilos, observacionais e sem julgamentos. E tem no elenco nomes como Tom Waits, Indya Moore, Adam Driver, Charlotte Rampling, Cate Blanchett e Vicky Krieps.
“Formas episódicas atravessam a literatura, de Decameron a Os contos da Cantuária. [A forma epi-
sódica] é muito usada no cinema. Para mim, é uma estrutura que conta histórias”, conta Jarmusch em entrevista a Amy Taubin para a revista Film Comment. “Eu escrevi o roteiro de Pai mãe irmã irmão em três semanas, mas, como em todos os meus roteiros, eu vinha reunindo coisas aleatórias que simplesmente me ocorrem, sem estrutura. Fiz isso por oito ou nove meses. [...] É algo bastante minimalista – interações íntimas e silenciosas. O filme não tem drama, na verdade. Não tem ação, não tem violência, não tem sexo, não tem nada.”
“Você nunca poderia separar as histórias deste filme, porque elas se acumulam. E, para mim, a parte de Paris, ‘Irmã irmão’, é um pouco emocional, mas não seria se você a visse isoladamente. Pai mãe irmã irmão é muito minimalista e observacional, mas destruiria a obra mostrar as partes separadamente como curtas-metragens. Usei arranjos de flores como metáfora nas três seções. É algo muito delicado, e exigiu muita concentração durante as filmagens, acredite se quiser. É muito mais fácil filmar zumbis saindo do chão e correndo atrás das pessoas do que estar atento às pálpebras de alguém, aos gestos dos dedos, ao tom da voz e ao momento em que a pessoa desvia o olhar – tudo isso foi muito, muito cuidadoso. Foi extremamente focado.”
Em 2025 o filme de Jarmusch foi vencedor do Leão de Ouro, o grande prêmio do Festival de Veneza.
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ jjpaimae]
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Quem tem com que me pague, não me deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2025, 100’, DCP (Elo Studios)
Henrique, um cineasta paulista frustrado e preso às glórias do passado, vê sua vida mudar quando cruza o caminho de Cristian Mugunzá, um carismático cantor baiano de pagotrap que arrasta multidões no Carnaval de Salvador. No calor do Recôncavo Baiano, o encontro entre esses dois mundos opostos – um cinza e desencantado, outro solar e explosivo – dá origem a situações hilárias, amizades improváveis e uma jornada de redescoberta, alegria e afeto.
Quem tem com que me pague, não me deve nada é o mais novo lançamento da produtora Rosza Filmes, sediada no Recôncavo Baiano e responsável por sucessos como Café com canela (2017), Ilha (2018) e Até o fim (2020). “A semente deste filme vem de um desejo antigo de investi-
gar o humor dentro da nossa filmografia”, contam os diretores em depoimento disponibilizado no material de imprensa do filme. “Desde o nosso primeiro longa, Café com canela, o alívio cômico e a leveza já estavam presentes. Para este novo projeto, quisemos brincar com as possíveis estruturas do humor. A ideia era iniciar com um formato de humor mais ‘clássico’ e contido, ao apresentar o cineasta Henrique Garcia, para depois deixar a comédia florescer em um tom mais popular e vibrante assim que ele desembarca no Recôncavo e encontra Cristian Mugunzá e seu grupo de amigos.
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).



Surda Sorda
Eva Libertad | Espanha | 2025, 98’, DCP (Retrato Filmes)
Ángela, uma mulher surda, vive pela primeira vez a experiência da maternidade, ao lado de seu parceiro Hector, um homem ouvinte. Ángela precisa enfrentar os desafios e as complexidades de ser mãe em um mundo que não foi preparado para pessoas como ela.
Surda é um desdobramento de um curta-metragem de mesmo nome dirigido por Eva Libertad que também tem sua irmã, a atriz surda Miriam Garlo no papel principal. O curta recebeu mais de 50 prêmios em festivais ao redor do mundo. Em 2025, o longa foi vencedor do Prêmio do Público na seção Panorama do Festival de Berlim.
“Em 2021, realizámos um curta-metragem que nasceu de uma situação muito pessoal. A minha irmã, Miriam Garlo, estava a pensar em ser mãe, e conversávamos muito sobre isso. Ela partilhava os seus medos, suas expectativas, suas dúvidas, sobretudo sobre como seria viver a maternidade sendo surda num mundo maioritariamente ouvinte”, conta Libertad em entrevista ao blog Cinematograficamente Falando. “A certa altura, pedi-lhe que escrevesse esses medos, e dias depois recebi uma lista que me impactou profundamente. Percebi que, mesmo sendo irmã de uma pessoa surda, nunca tinha refletido tão a fundo sobre essa experiência. Dessa lista, nasceu o roteiro do curta.”
“Para escrever o longa, tive que me distanciar da experiência pessoal da Miriam, até porque ela acabou por decidir não ser mãe. Entrei então numa fase de documentação: entrevistei várias mães surdas que partilharam comigo as suas vivências durante a gravidez, o parto e a criação dos filhos. A partir desses testemunhos, construí o roteiro do longa-metragem.”
[Íntegra da entrevista:tinyurl.com/elsurda]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Dario Argento | Itália | 1977, 99’, DCP (FJ Cines), restauração 4K
“A única coisa mais assustadora do que os 12 minutos finais deste filme, são os 72 iniciais”: é o que diz o cartaz de Suspiria, de 1977. Quase 50 anos depois, o filme retorna aos cinemas em cópia digital 4k, restaurada a partir de seu negativo original.
Em Suspiria, quando Suzy Banner chega à escola de balé em que sempre sonhou estudar, eventos perturbadores e uma série de assassinatos a levam a tentar desvendar segredos que podem estar ligados ao mundo sobrenatural.
“Queríamos recriar as cores dos antigos filmes em Technicolor e da Disney”, comenta Dario Argento em entrevista a Ben Cobb para a revista Another Man em 2018. “As cores vívidas e fortes desses filmes ficaram na minha memória desde a infância. Incrivelmente, Tovoli encontrou um antigo estoque
de filme da Kodak em um laboratório nos Estados Unidos e nós usamos isso. Mas havia uma quantidade tão limitada que só tínhamos o suficiente para filmar uma ou duas tomadas, então ensaiávamos muito antes de cada cena. É por isso que Suspiria demorou tanto para ser filmado: 16 semanas.”
“É verdade, quase todo mundo é mulher em Suspiria, todos os heróis e vilões são mulheres, e os poucos homens são cegos, mudos ou inúteis”, comenta o cineasta quando questionado sobre a prevalência da personagem feminina em Suspiria no filme. “A verdade é que eu gosto de trabalhar com mulheres, sempre fui fascinado por elas. Quando eu era muito jovem, estudava em uma escola perto do estúdio da minha mãe; ela era fotógrafa, famosa por seus retratos de atrizes nos anos 1940 e 1950. Depois da escola, eu corria para lá e ficava na sala da frente, onde as atrizes se maquiavam e trocavam para vestidos glamourosos, e eu via aquelas mulheres maravilhosas se transformarem. Eu observava como minha mãe iluminava seus rostos e corpos e, quando estava filmando Suspiria, me lembrei disso.”
Inspirado no romance Suspiria de Profundis, de Thomas Quincey, o longa é o primeiro da trilogia As três mães, de Dario Argento.
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ dasuspiria]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Foco Akinola Davies Jr.

IMS Paulista
Veneno para as fadas
Veneno para las hadas
Carlos Enrique Taboada | México | 1986, 90’, DCP (Filmicca), restauração 4K
Flavia e sua família rica se mudam para uma nova cidade, onde a jovem conhece uma estranha estudante chamada Verónica, que conta ser uma bruxa para Flavia. As duas meninas tornam-se amigas, mas a influência negativa de Verónica sobre Flavia logo se manifesta quando elas viajam juntas.
Um clássico absoluto do cinema mexicano e do horror, Veneno para as fadas foi o último filme lançado de Carlos Enrique Taboada.
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Por ocasião da estreia de A sombra do meu pai, de Akiola Davies Jr., o Cinema do IMS apresenta dois curtas-metragens do cineasta.
Ingressos:
Dia 30 de maio: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Demais sessões: terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Lizard
Akinola Davies Jr. | Nigéria, Reino Unido | 2020, 18’, DCP
Em Lagos, uma menina de 8 anos, com a capacidade de pressentir o perigo, é expulsa de uma aula da escola dominical. Fora dos muros da igreja, ela encontra um mundo quase animalesco de abandono e hipocrisia.
O filme recebeu o Grande Prêmio do Júri de Curta-Metragem na edição de 2021 do Festival de Sundance.

Akinola Davies Jr. | Reino Unido | 2021, 12’, DCP
Dois irmãos desacompanhados embarcam em uma jornada rumo a um novo assentamento na lua Titã. Suas interações refletem a ingenuidade e o medo que esse enorme momento representa para cada um deles, em meio a um grupo de migrantes em escala industrial.
Tal qual uma faixa comentada de DVD, o Cinema do IMS convida os realizadores a discutirem a obra e o processo de produção do filme enquanto ele é exibido em volume baixo. Um projeto que já recebeu Lucrécia Martel a comentar O pântano,
João Pedro Rodrigues e João Ruy Guerra da Mata a comentar O ornitólogo e Lázaro Ramos e Adrian Teijido a discutir Medida provisória.
Nesta edição, que acontecerá no dia 20 de maio, Gabriel Martins, da expoente produtora mineira Filmes de Plástico, discute seu longa-metragem Marte Um, com mediação de Kleber Mendonça Filho.
Esta sessão é recomendada àqueles que já assistiram ao filme. Por isso, sessões regulares foram programadas para os dias 10 e 17 de maio.

Martins | Brasil | 2022, 115’, DCP (Embaúba Filmes)
Os Martins são sonhadores, otimistas e levam a vida às margens de uma grande cidade brasileira depois da decepção da eleição de um presidente de extrema direita. Uma família negra de classe média baixa, eles sentem a tensão da nova realidade. Tércia, a mãe, revê seu mundo depois de um encontro inesperado, que faz com que ela suspeite ter sido amaldiçoada. Seu marido, Wellington, coloca todas as suas esperanças em fazer do filho caçula um jogador de futebol. Deivinho acompanha relutante a ambição do pai, pois sonha em estudar astrofísica e colonizar Marte. Enquanto isso, Eunice, a filha mais velha, se apaixona por uma jovem de espírito livre, e se questiona se não está na hora de sair de casa. Marte Um é a estreia na direção solo de Gabriel Martins em longa-metragem e foi financiado
pelo primeiro edital afirmativo do Brasil, que, em 2016, contemplou três longas-metragens produzidos ou dirigidos por pessoas negras. O filme estreou na edição daquele ano do Festival de Sundance, maior evento do cinema independente norte-americano.
“Tudo começou com a imagem de um garoto olhando para o céu e segurando uma bola de futebol”, conta o diretor em entrevista ao portal Screen Daily. “Talvez tivesse algo a ver com o Brasil perdendo de 7 a 1 pra Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo de 2014, em Belo Horizonte. Esse foi um grande momento, porque também estávamos passando por muitas lutas no cenário político. O Brasil tem sido uma enorme bagunça desde então, e antes também, então se trata de futebol, política e sonhos. Eu decidi fazer esse filme sobre o que significa para esse garoto sonhar com algo tão grande, algo tão distante dele.”
[A íntegra da entrevista, em inglês, está disponível em: bit.ly/imsmarteum]
Ingressos:
IMS Paulista
Dias 10 e 17 de maio: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Dia 20 de maio - Cinema comentado: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
É possível haver incêndio onde aparentemente não há fogo? Naquele espaço, aqui, ali, em que não parece haver brasa ou qualquer indício de fumaça? Onde as pequenas combustões não se revelam de forma mais visível? Como são essas chamas que se espalham através dos sons, sons, sons, pelas palavras, pelo sangue negro; na hiperluminosidade, com a dança, além do dendê, na viscosidade da seiva, no cigarro, no mar, em acordes fúteis de um violão, em sopros descontínuos? A junção que antecede o espalhar de brasas: Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial (Jomard Muniz de Britto, 1978, cópia inédita restaurada em 2K) e Aquele que viu o abismo (Gregorio Gananian e Negro Leo, 2024). Saltos temporais, mistura de matérias distantes, sombriamente desconexas, colapso permanente em suas diferentes desordens; desbunde, pirraça, desalinho absoluto. Com tamanha ebulição ao nosso redor, por todas as partes, indagamos: como não perseguir a negridade [blackness] contida nesse movimento abrupto, errático e desordenado pelo estilhaçamento?
Ingressos:
IMS Paulista
Dia 7 de maio - sessão com debate: Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Dia 30 de maio - reprise: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou Fricção histórico-existencial
Jomard Muniz de Brito | Brasil | 1978, 11’, DCP, restauração digital em 2K (Itaú Cultural/Cinelimite/ INDETERMINAÇÕES/Mnemosine Serviços Audiovisuais)
A poesia de Jomard Muniz de Britto alastra-se entre as imaginadas cidades incendiárias do Recife e de Olinda, em atrito com os monumentos, os institutos, as instituições e os bacharéisintelectuais-burocratas. Encontra-se com o corpo embrasado do Grupo de Teatro Vivencial, Bat macumba, vibrando em frequências singulares.

Gregorio Gananian e Negro Leo | Brasil | 2024, 70’, DCP (Acervo dos artistas)
X, indeterminado, infinito. Combustão, implosão, antidomínio. Des/reconhecimento facial, militarismo global, necropolítica. Maquinaria, danos irreparáveis, vidro em estilhaços. Fotografias: desde agora, desde ontem. Hiperluminosidade. Blackness. Tocar piano, fazer um jazz, tocar um sax. Fumar cigarro, descodificar-se. Pensa numa coisa: eu te amo.
Uma Varda viajante é quem nos conduz pelo percurso que une a exposição Fotografia AGNÉS
VARDA Cinema, já encerrada no IMS Paulista, à mostra de filmes em cartaz no Cinema do IMS. Fotógrafa e cineasta, Agnès Varda atravessou fronteiras geográficas, formais e afetivas com o mesmo olhar curioso e libertário, transformando o cotidiano em imagens e narrativas.
Antes de se tornar uma das grandes vozes do cinema, Varda formou-se como fotógrafa. Seu modo de ver o mundo nasce da atenção ao corpo e à paisagem. Em suas imagens, fixas ou em movimento, há sempre a escuta do outro, uma delicadeza que se funde com engajamento. O que ela fotografa e filma são gestos, rostos, ruelas, fragmentos de uma vida comum que, sob seu olhar, ganham uma dimensão universal.
Essas imagens, feitas de curiosidade, solidariedade e invenção, revelam o compromisso de Agnès Varda com as lutas pela dignidade humana e com a liberdade de olhar. Sua obra, feita de encontros e deslocamentos, pensa o cinema a partir da fotografia e a fotografia a partir da vida.
Ingressos:
IMS Paulista R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

Agnès Varda | França | 1971, 94’, DCP (Ciné-Tamaris)
Agnès Varda escreveu o roteiro desta história de amor semiautobiográfica como uma reação ao golpe militar na Grécia, em 1967. Após receber autorização para filmar para a televisão francesa em 1970, seus materiais foram confiscados, seu laboratório de pós-produção foi invadido, e o filme inteiro acabou sendo apreendido e suprimido. Varda nunca recebeu uma explicação formal do governo. A Cinemateca Real da Bélgica preservou o único copião existente do filme, que é apresentado aqui.


IMS Paulista
Ydessa, os ursos e etc.
Ydessa les ours et etc.
Agnès Varda | França | 2004, 44’, DCP (mk2), restauração 2K
Em 2004, Agnès Varda descobriu a exposição
The Living and the Artificial [O vivo e o artificial], na Haus der Kunst, em Munique, com curadoria da artista e colecionadora Ydessa Hendeles. Esse acúmulo de milhares de fotografias anônimas espalhadas pelas paredes tinha apenas um elemento em comum: a presença de um ursinho de pelúcia. A cineasta filmou a exposição e depois voou para Toronto, para encontrar Ydessa e tentar entender a busca obsessiva dessa colecionadora canadense de origem judaico-alemã.
Agnès Varda: daqui para lá
Agnès de-ci de-là Varda
Agnès Varda | França | 2011, 5 episódios de 45 min cada, DCP (Filmes do Estação)
Agnès Varda uma vez declarou: “Enquanto filmava Os catadores e eu, eu havia aprendido que as pequenas câmeras me davam a capacidade de filmar sozinha. Essa liberdade extraordinária me deu a ideia, quando fui convidada para muitos lugares, de filmar minhas viagens.”
Exibida pela primeira vez no canal Arte, em 2011, a série consiste em crônicas das extensas explorações da cineasta por diversos continentes, entre 2008 e 2011. A pé, de metrô, de carro, de avião ou de barco, Varda capta com sua câmera todos os movimentos e efervescências da vida cotidiana artística, artesanal, esportiva, tradicional ou festiva, da Europa às Américas.
Entre Copacabana e São Petersburgo, Varda apresenta conversas com titãs do cinema, como
Chris Marker, e o seu mundo de realidade virtual, e Manoel de Oliveira, aos 102 anos, em sua melhor imitação de Chaplin; visitas ao Museu Hermitage, à Bienal de Veneza e à casa de Frida Kahlo; vislumbres dos ateliês de artistas visuais aclamados, como Christian Boltanski, Annette Messager e Pierre Soulages; e as reflexões casualmente profundas de Varda sobre tudo, desde rios aos mestres holandeses, passando por suas próprias fotografias e instalações.
Em Berlim, Agnès explora o estúdio do cineasta
Chris Marker e descobre o seu universo virtual no jogo Second Life. Depois, visita Nantes para homenagear Jacques Demy, passa por Portugal, onde o cineasta Manuel de Oliveira lhe pede a câmera emprestada e improvisa uma dança, antes de explorar uma das suas obsessões favoritas: o que aconteceu antes e depois de uma fotografia?
Agnès conhece o artista Miguel Barceló em Maiorca, que lhe mostra as ferramentas que ele próprio cria para pintar gorilas, animais marinhos ou tomates escarlates, e depois assiste à inauguração do Museu Magritte em Bruxelas. Lá, descobre uma instalação de vídeo original criada por Harari e bombardeia de perguntas a jornalista Christina, que realizou um filme sobre a importância do cabelo, a perda gradual do seu próprio cabelo e as consequências disso.
Episódio 3
Agnès Varda desloca-se a Colônia, a São Petersburgo e à feira de Basileia, e convida os artistas Christian Boltanski e Annette Messager para almoçar no seu quintal.
Episódio 4
Em Sète, Agnès Varda reencontra um artista que conhece há muito tempo, Pierre Soulages. A cineasta visita também Ange e Daniel Calli, dois irmãos que conheceu quando precisava de redes de pesca para uma das suas instalações, a Cabane sur la plage. Na Bienal de Lyon, a realizadora conversa com os seus vizinhos chineses, cujas intenções artísticas ela tenta desvendar. Aproveitando essa parada em Lyon, Agnès Varda faz uma visita a Michel Jeannès, que realiza um trabalho poético e social surpreendente em torno de botões.
Episódio 5
Agnès Varda passeia pelos corredores do Museu Maillol e da Fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent por ocasião de duas exposições dedicadas às futilidades. Do outro lado do oceano, ela vagueia por um mercado onde Efgenia lhe recita a lista dos 18 ingredientes que compõem um molho tradicional mexicano. Ainda no México, um encontro cheio de surpresas com o cineasta Carlos Reygadas. E, em Los Angeles, Agnès Varda admira um mural do cantor Jim Morrison, relativamente recente e já todo rachado.

As histórias das nossas vidas
Direção coletiva Oficina Filme de Conversa | Brasil | 2026, 74’, Arquivo digital (IMS)
Durante dois dias, os participantes da Oficina Filme de Conversa, realizada no contexto da Ocupação Eduardo Coutinho, no IMS Poços, conversaram com moradores da zona sul da cidade sobre as histórias de suas vidas. No dia 23 de maio, será exibido o filme que resultou desse processo, seguido por uma conversa com as pessoas que participaram dele.
Uma realização coletiva de Daniela Alvisi, Débora Romano, Gabriela de Oliveira Billwiller, Gilmar Tavares, Igor de Almeida Lino Avelar, Laura Liuzzi, Marcelo Leme, Octávio Paulo Tothy, Pelegrino Batista, Robson Américo, Sergio Biscaldi, Tamara Cleveland Fortes de Mello, com direção de
fotografia de Rogério Fonseca, e depoimentos de Alaor da Silva, Diana Rodrigues das Neves, João Aparecido Tomé, Jorge Carlos Coler, José Batista, José Daniel Ambrogi, José dos Reis da Silveira, Maria de Fátima Peregrino, Pedro Zanetti, Renato Moura Figueiredo, Tatiana Miranda e Valdete Alves de Oliveira.
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Cinema
Coordenador | Curador
Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação
Marcia Vaz
Programador
Thiago Gallego
Produtora de programação
Renata Alberton
Analista de programação
Lucas Gonçalves de Souza
Projeção IMS Paulista
Ana Clara da Costa, Adriano Brito e Sérgio Wong
Projeção IMS Poços
Fagner Andrades e Gilmar Tavares
Revista do Cinema do IMS
Produção de textos e edição
Thiago Gallego e Marcia Vaz
Diagramação
Marcela Souza
Revisão
Flávio Cintra do Amaral
Os filmes de maio
A programação do mês tem o apoio de Ciné-Tamaris, das distribuidoras Elo Studios, Embaúba Filmes, Fênix Filmes, Filmes da Mostra, Filmes do Estação, Filmicca, FJ Cines, Imovision, mk2 Films, Retrato Filmes, Roseira Filmes, Synapse e Vitrine Filmes.
Agradecemos a Adriana Rattes, biarritzzz, Carolina Brandão (Cabra), Caru dos Santos, Daniel Queiroz, Gabriel Araújo, Gabriel Martins, Gregorio Gananian, Jacques-Antoine Jagou, João Santana, Jyan França, Léa Daudon, Léa Tordjman, Lorenna Rocha, Matheus Antunes, Nathan Machado, Negro Leo, Oficina Filme de Conversa (Daniela Alvisi, Débora Romano, Gabriela de Oliveira Billwiller, Gilmar Tavares, Igor de Almeida Lino Avelar, Laura Liuzzi, Marcelo Leme, Octávio Paulo Tothy, Pelegrino Batista, Robson Américo, Sergio Biscaldi, Tamara Cleveland Fortes de Mello), Rosalie Varda, Simon Cozette, Stèphane Vieyra e Victor Galdino.
Parceria



Realização: Cinema do IMS

Curadoria: Lorenna Rocha e Gabriel Araújo
Produtor associado: Jyan França
Produção executiva: Miracéu Audiovisual
Vinheta: biarritzzz, com finalização de som e imagem de Carolina Brandão (Cabra) apoio





Venda de ingressos
Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, a partir das 12h, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.
Capacidade das salas
IMS Paulista: 145 lugares
IMS Poços: 85 lugares
Com apresentação de documentos comprobatórios para todos os grupos elegíveis à meia-entrada por lei e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito).







Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site. Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Não é permitido o acesso com mochilas ou bolsas grandes, guarda-chuvas, bebidas ou alimentos. Use nosso guarda-volumes gratuito. Confira as classificações indicativas no site do IMS.






IMS Paulista
Terça a domingos, inclusive feriados, das 10h às 20h Fechado às segundas. Avenida Paulista, 2424 São Paulo
imspaulista@ims.com.br
IMS Poços
Terça a sexta, das 13h às 19h
Sábados e domingos, das 9h às 19h Fechado às segundas Rua Teresópolis, 90 Poços de Caldas ims.pc@ims.com.br


ims.com.br /institutomoreirasalles @imoreirasalles /imoreirasalles /institutomoreirasalles