

![]()


No Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, um encontro de filmes que celebram diferentes vivências dessas comunidades e refletem sobre elas. O documentário Kiki, de Sara Jordenö, acompanha jovens artistas e ativistas da cena ballroom nova-iorquina. Desejo e ativismo político se entrecruzam no curta A felicidade delas, de Carol Rodrigues, exibido por ocasião da estreia de seu primeiro longa-metragem, Criadas. A programação conta ainda com a animação A sapatona galáctica, de Emma Hough Hobbs e Leela Varghese; Quinze dias, adaptação do best-seller de Vitor Martins; Apenas coisas boas, de Daniel Nolasco; e Natal amargo, de Pedro Almodóvar.
O Cinema do IMS realiza a estreia brasileira da nova cópia restaurada de Boogie Nights: prazer sem limites, um dos mais icônicos filmes de Paul Thomas Anderson, que este ano venceu o Oscar com Uma batalha após a outra.
Chega ao fim a retrospectiva integral da obra audiovisual de Agnès Varda no Cinema do IMS Paulista, com clássicos de sua filmografia e preciosas obras feitas sob encomenda para a televisão e instituições culturais, algumas delas exibidas pela primeira vez nos cinemas brasileiros. Entre os programas, um musical feminista, um passeio com Pasolini por Nova York, a homenagem a uma gatinha, um anticonto de fadas e um documentário em torno do legado da cineasta.
Em São Paulo, na Sessão Mutual Films, dois longas cujos personagens expressam um forte sentido de alienação e deslocamento, realizados por cineastas que viveram, eles mesmos, a maior parte de suas vidas fora de seu país de origem: O solo selado, de Marva Nabili, pioneira do cinema independente feito por mulheres no Irã, e Longe de casa, de Sohrab Shahid-Saless, um dos grandes nomes da Nova Onda Iraniana. Ambos em novas restaurações exibidas pela primeira vez no Brasil.
A exibição de O médico e a bola no Cinema do IMS Poços discute o legado de duas importantes personalidades negras da história da cidade: Ildefonso de Souza, primeiro dentista de Poços, e seu filho Paulino de Souza, primeiro jogador negro a vencer o Campeonato Carioca, à época, pelo Botafogo.
O Cinema do IMS Paulista recebe ainda o projeto Langsdorff: a expedição fluvial 200 anos, que discute memória, identidade, natureza e crise ambiental.
[imagem da capa]
Ó estações, ó castelos (Ô saisons, ô chateaux), de Agnès Varda



A sapatona galáctica (Lesbian Space Princess), de Emma Hough Hobbs e Leela Varghese
Em cartaz
A sombra do meu pai
(My Father’s Shadow)
Akinola Davies Jr. | DCP
Alpha
Julia Ducournau | DCP
Apenas coisas boas
Daniel Nolasco | DCP
Aqui não entra luz
Karol Maia | DCP

Criadas
Carol Rodrigues | DCP

Fanon
Jean-Claude Barny | DCP
Quem tem com que me pague, não me deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | DCP

Suspiria
Dario Argento | DCP, restauração 4K
Boogie Nights: prazer sem limites (Boogie Nights)
Paul Thomas Anderson | DCP, restauração 4k
Kiki
Sara Jordenö | Arquivo digital
A queda do céu
Eryk Rocha, Gabriela Carneiro da Cunha | DCP
Foco Akinola Davies Jr.
Lagarto (Lizard)
Akinola Davies Jr. | DCP
X Us
Akinola Davies Jr. | DCP
Foco Carol Rodrigues
A felicidade delas
Carol Rodrigues | DCP
O solo selado (Khake sar beh morh)
Marva Nabili | DCP
Longe de casa
(Dar Ghorbat/In der Fremde)
Sohrab Shahid-Saless | DCP
É possível assistir a alguns dos filmes em cartaz no Cinema do IMS Paulista com recursos de acessibilidade em Libras, legendas descritivas e audiodescrição. Para retirar o equipamento com recursos, consulte a bilheteria do IMS Paulista. Em caso de dúvidas, entrar em contato pelo telefone (11) 2842-9120 ou pelo e-mail imspaulista@ims.com.br.
Fotografia AGNÈS VARDA Cinema
Programa 1
Uma canta, a outra não
(Une chante, l´autre pas) restauração 2K
Programa 2
Resposta das mulheres:
nosso corpo, nosso sexo (Réponse de femmes: notre corps, notre sexe) restauração 2K
Os amantes da ponte Mac
Donald (Les Fiancés du pont Mac Donald) restauração 2K
Algumas viúvas de Noirmoutier (Quelques veuves de Noirmoutier)
Programa 3
Homenagem à gata Zgougou
(Hommage à Zgougou)
Crônicas da França:
as crianças no museu
(Chroniques de France: les enfants du musée)
restauração 4K
Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais…)
restauração 4K
Pier Paolo Pasolini – Agnès
Varda – New York – 1967
restauração 2K
Elsa, a Rosa (Elsa la Rose) restauração 2K
As pessoas no terraço (Les Gens de la terrasse)
Um minuto para uma imagem (Une minute pour une image)
filmes dirigidos por Agnès Varda, à exceção de Viva Varda!
Programa 4
Os três botões (Les Trois boutons)
Ulisses (Ulysse) restauração 2K
Viva Varda!
Pierre-Henri Gibert | DCP
Programa 5
O leão volátil (Le Lion volatil)
7 cômodos, coz., banh., ... imperdível! (7 P., cuis., s.de b... à saisir) restauração 2K
As tais cariátides
(Les Dites cariatides) restauração 2K
Ó estações, ó castelos (Ô saisons, ô chateaux)
Christmas Carole restauração 4K
Programa 6
Os justos no Panthéon
(Les Justes au Panthéon)
Os catadores e eu: dois anos
depois (Les Glaneurs et la glaneuse... deux ans après)
15:20 Suspiria (99')
17:20 Fanon (133')
20:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
15:30 Aqui não entra luz (79')
17:20 Fanon (133')
20:00 X Us + A sombra do meu pai (106')
15:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
17:00 Alpha (122')
19:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 2 (85')
15:00 Criadas (107')
18:00 sessão mutual films
O solo selado (91'), sessão apresentada por Eliane Arakaki
20:00 sessão mutual films
Longe de casa (92'), sessão apresentada por Mariana Shellard e Aaron Cutler
23
14:30 Alpha (122')
17:00 Criadas (107')
19:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema Programa 4 (100')
15:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
17:00 Alpha (122')
19:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 5 (78')
17
15:20 Alpha (100')
17:50 Criadas (107')
20:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 6 (75')
4
14:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
16:00 Lagarto + A sombra do meu pai (112')
18:20 fotografia AGNÈS VARDA cinema Programa 3 (66')
19:50 Alpha (122')
11
15:30 A sombra do meu pai (94')
17:30 Alpha (122')
19:50 A felicidade delas + Criadas (121')
14:00 Alpha (122')
17:50 Criadas (107')
20:00 Apenas coisas boas (104')
24
14:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
18
14:30 Alpha (122')
17:00 Criadas (107')
19:20 sessão especial
Boogie Nights: prazer sem limites (155')
25
14:00 Criadas (107')
16:10 Apenas coisas boas (104')
19:00 langsdorff 200 A queda do céu (108')
sexta sábado
5
15:00 Fanon (133')
17:30 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
19:30 especial ballroom
Kiki (94')
21:30 Alpha (122')
12
15:30 Alpha (122')
18:00 Aqui não entra luz (79')
19:50 Criadas (107')
22:00 Suspiria (99') 19
14:30 Criadas (107')
17:00 Alpha (122')
14:40 Fanon (133')
17:20 Criadas (107')
19:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 1 (120')
21:50 Apenas coisas boas (104') 6
14:00 Aqui não entra luz (79')
15:40 Quem tem com que me pague, não me
deve nada (100')
17:40 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 4 (100')
19:40 Alpha (122')
22:00 Suspiria (99')
15:00 Criadas (107')
Neste dia o IMS Paulista estará fechado
14:00 Aqui não entra luz (79')
15:50 Criadas (107')
18:00 especial ballroom
Kiki (94')
20:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 2 (85')
21:40 Alpha (122')
14:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
16:00 sessão mutual films
Longe de casa (92')
18:00 sessão mutual films
O solo selado (91')
20:00 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 6 (75')
21:50 Apenas coisas boas (104')
15:00 Alpha (122')
17:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 1 (120')
20:00 Criadas (107') 21
14:00 Aqui não entra luz (79')
15:50 Alpha (122')
18:10 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 5 (78')
19:50 A felicidade delas + Criadas (121') 28
15:00 Apenas coisas boas (104')
17:30 fotografia AGNÈS VARDA cinema
Programa 3 (66')
19:00 sessão especial
Boogie Nights: prazer sem limites (155')
Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas em ims.com.br.
A sapatona galáctica (Lesbian Space Princess)
Emma Hough Hobbs, Leela Varghese | DCP
Apenas coisas boas
Daniel Nolasco | DCP
Criadas
Carol Rodrigues | DCP
Natal amargo (Amarga Navidad)
Pedro Almodóvar | DCP
Nino de sexta a segunda (Nino)
Pauline Loquès | DCP
Quem tem com que me pague, não me deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | DCP
Quinze dias
Daniel Lieff | DCP
Surda (Sorda)
Eva Libertad | DCP
Boogie Nights: prazer sem limites (Boogie Nights)
Paul Thomas Anderson | DCP, restauração 4K
O médico e a bola
Vitor Campanario e Mário Carvão |
Arquivo digital
A felicidade delas
Carol Rodrigues | DCP
19:00 Quem tem com que me pague, não me deve nada (100')
19:00 A sapatona galáctica (87')
16:00 Nino de sexta a segunda (96')
18:00 Surda (98')
19:30 Criadas (107')
19:00 Natal amargo (111')
15:00 Natal amargo (111')
19:00 Quinze dias (87')
19:00 Apenas coisas boas (104') sexta sábado domingo 7
18:00 A sapatona galáctica (87')
19:00 Criadas (107')
16:00 Quinze dias (87') 18:00 Natal amargo (111')
16:00 O médico e a bola (15'), seguida de debate com Roberto Tereziano e Mário Carvão
18:00 sessão especial Boogie Nights: prazer sem limites (155')
16:00 A felicidade delas + A sapatona galáctica (101')
18:00 Nino de sexta a segunda (96')
16:00 Criadas (107')
18:10 Nino de sexta a segunda (96')
16:00 Criadas (107') 18:10 Natal amargo (111')
16:00 Apenas coisas boas (104') 18:10 Quinze dias (87')
Aaron Cutler e Mariana Shellard
Mas, antes que o homem aceite o mundo sagrado – para que seja capaz de aceitá-lo – ou antes que escape dele –para que seja capaz de se escapar –, há sempre um período de busca interior e revolta.
Do livro-ensaio O homem revoltado (L’Homme revolte, 1951), citado no início do filme O solo selado, de Marva Nabili
Não queria fazer mais um filme sobre trabalhadores imigrantes, mas sim um filme sobre a palavra “miséria”, que originalmente significava “viver em outro país” e depois passou a ser “longe de casa”, e começou a soar cada vez pior.
Texto assinado pelo cineasta Sohrab Shahid-Saless que aparece na abertura do filme Longe de casa
Em meados dos anos 1960, durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi, surgiu no Irã uma nova geração de cineastas que se contrapôs à indústria do cinema local, voltada à produção de filmes comerciais de gênero e baseados principalmente nas comédias musicais de Bollywood, conhecidos popularmente como filmfarsi. Muitos dos cineastas estudaram fora do Irã e, em sua busca para retratar as paisagens persas e a vida simples de seu povo no campo e na cidade, tomaram como inspiração as novas ondas do cinema mundial que procuravam examinar a realidade com um olhar ao mesmo tempo incisivo e fraturado, como a Nouvelle Vague francesa, o neorrealismo italiano, o cinema paralelo indiano e a Nuberu Bagu no Japão. As origens da Nova Onda Iraniana estão em documentários socialmente engajados, como A casa é escura (Khaneh siah ast, 1962), de Forough Farrokhzad, Teerã é a capital do Irã (Tehran, payetakht-e Iran ast, 1966), de Kamran Shirdel, e Mas surgiram problemas (Vali oftad moshkelha, 1965), de Hajir Darioush, e longas de ficção densos e alegóricos, como Tijolo e espelho (Khesht o Ayeneh, 1964), de Ebrahim Golestan, e A vaca (Gaav, 1969), de Dariush Mehrjui, cuja premiação no Festival de Veneza em 1971 foi
tida como um anúncio do movimento para o mundo. Na década de 1970, diversos filmes foram realizados por cineastas iranianos que moravam fora do Irã e que mantinham uma relação dividida com o país. Foi nesse meio que os diretores Marva Nabili e Sohrab Shahid-Saless deram início às suas obras. Marva Nabili nasceu em 1941 em Teerã, em uma família da Fé Bahá’í com tendências liberais, e foi criada por sua mãe viúva após a morte precoce de seu pai. Ela estudou pintura na Universidade de Teerã e entrou no cinema graças ao seu professor, Fereydoun Rahnema, que elogiou as pinturas dela por suas qualidades narrativas. Rahnema tinha feito um curta-metragem documental, que logo transformou em um longa de ficção com Nabili como a atriz principal e assistente de direção. Siavash em Persépolis ( Siyavosh dar takht-e Jamshid , 1965) toma como ponto de partida a lenda de Siavash – pertencente ao longo poema épico persa do século X Xanamé [Livro dos reis] –, na qual um jovem príncipe, ao se recusar a se envolver amorosamente com sua madrasta e trair seu pai, é exilado e morto. O filme foi rodado nas ruínas da antiga cidade imperial de Persépolis e utiliza uma linguagem moderna e experimental, ao colocar em contato os personagens
teatrais do épico com figuras corriqueiras do presente, como turistas e a própria equipe de filmagem.
Rahnema morreu jovem, em 1975, após fazer apenas mais um longa-metragem. Porém, sua influência sobre diversos cineastas iranianos foi grande, inclusive sobre Nabili, que acabou dedicando a ele seu longa-metragem de estreia. As experiências com Rahnema inspiraram Nabili a estudar e trabalhar com cinema, primeiro em Londres e depois em Nova York (onde ela se instalou de forma definitiva), em um momento em que a história do cinema iraniano contava com apenas um longa-metragem dirigido por uma mulher (o agora perdido filmfarsi Marjan, dirigido pela também atriz Shahla Riahi em 1956). Isso mudou quando Nabili voltou para o Irã, em 1976, para fazer seu filme de conclusão de curso, o longa-metragem O solo selado (Khake sar beh mohr, 1977).
O filme foi rodado com a população do vilarejo Ghalleh Noo-Asgar, localizado no sudeste iraniano e perto da cidade onde a irmã de Nabili trabalhou como professora infantil. A história se baseou em uma situação ocorrida no vilarejo, na qual uma garota de 15 anos foi ostracizada por recusar um casamento forçado. O elenco foi integralmente composto por não profissionais da
região, com exceção da atriz principal, Flora Shabaviz, uma mulher urbana que também precisou conviver no local para absorver o comportamento e os trejeitos das mulheres da aldeia. Ela interpreta a adolescente silenciosa Rooy-Bekheir, que provoca uma crise em sua família ao rejeitar propostas de casamento por motivos não expressados.
Para realizar o filme, Nabili tomou como suas principais referências estéticas a arte de miniaturas persas clássicas, a obra e o pensamento do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e o cinema do diretor francês Robert Bresson. Em meio a belas paisagens rurais e construções rudimentares em barro, quase sempre filmadas à distância, a diretora traz suas referências europeias de forma sutil e contínua. Por exemplo, com apontamentos francos sobre a futilidade do comportamento consumista, típicos das peças de Brecht, quando Rooy-Bekheir critica sua irmã mais nova – que estuda na cidade recém-construída próxima ao vilarejo e possui um comportamento mais urbanizado – por querer lavar o cabelo todos os dias e ter vários vestidos. Ou quando o chefe do vilarejo, que já não morava mais no local, retorna para tentar convencer a população a se mudar para a cidade, mesmo implicando em um alto custo para os moradores, tanto
financeiro quanto de perda da autonomia alimentar, pois na cidade não poderiam mais criar animais e plantar, tendo que depender da indústria agrícola local para seu sustento. Em contraponto, a presença bressoniana se manifesta no filme com a crescente alienação de Rooy-Bekheir, que vive entre duas realidades: a das tradições da comunidade e do papel da mulher nesse contexto – que deve viver uma vida restrita ao ambiente doméstico e submissa ao homem da casa –, e a da modernização, do ambiente urbano que anula os aspectos mais essenciais da vida ancestral. Nabili alude a diversos filmes de Bresson que tratam do aprisionamento (físico e espiritual), e especialmente ao seu filme Mouchette, a virgem possuída (Mouchette, 1967) em uma cena sensual em que a adolescente iraniana, descansando em um matagal perto do vilarejo, se despe parcialmente durante um temporal. Remetendo à cena final do filme francês, a jovem sofre um colapso mental e se atraca com as galinhas e com o vestido que deve usar para receber seu pretendente. A solução da família de Rooy-Bekheir é procurar um exorcista. Para conseguir financiar O solo selado, Nabili trabalhou em uma série para a televisão iraniana de contos antigos para
crianças, que teve como um de seus produtores Barbod Taheri, um grande cinegrafista iraniano (e marido de Flora Shabaviz, também atriz na série) que também produziu filmes de cineastas importantes da Nova Onda Iraniana, como Amir Naderi e Bahram
Beyzai. Mesmo assim, Nabili sabia que o conteúdo do seu filme seria proibido no Irã, e então contrabandeou os negativos para os Estados Unidos, onde foi finalizado. O filme teve uma carreira bem-sucedida em festivais, e, nas entrevistas que ela deu sobre O solo selado, Nabili falou sobre seu desejo de contar uma história relevante para aqueles que participaram do filme, ao mesmo tempo que apontou para as dimensões autobiográficas da história de uma mulher suspensa entre mundos.
Sohrab Shahid-Saless, assim como Nabili, passou boa parte dos anos 1960 fora do Irã antes de retornar para registrar a vida de seu povo. Ele nasceu em 1944 em Qazvin, a noroeste de Teerã. Seu pai foi um funcionário público que viajava com frequência, e a família estava constantemente em mudança de uma cidade para outra no país. Sua mãe deixou a família quando Shahid-Saless ainda era criança, o que colaborou com o desenvolvimento de uma personalidade melancólica que frequentemente recorria
ao cinema e à literatura para conforto. Aos 18 anos, se mudou para Paris para estudar cinema no prestigiado IDHEC (Institut des hautes études cinématographiques), porém logo precisou se mudar para Viena, onde o custo de vida era menor. Lá, aprendeu alemão e também estudou cinema, enquanto exercia trabalhos comumente associados a imigrantes, como limpeza e segurança. Após contrair tuberculose, ele voltou a Paris para se tratar, e lá conseguiu concluir seus estudos no Conservatoire Libre du Cinéma Français (CLCF). As experiências no exterior se tornaram uma importante referência para o primeiro filme que Shahid-Saless fez fora do Irã, uma coprodução alemã-iraniana chamada Longe de casa (Dar Ghorbat/In der Fremde, 1975).
Shahid-Saless começou a trabalhar com cinema no Irã fazendo curtas-metragens infantis no Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Crianças e Jovens Adultos, em Kanun (a mesma organização que deu origem às carreiras de Abbas Kiarostami e outros cineastas iranianos), e documentários sobre diferentes grupos étnicos e tradições regionais ao redor do país para o Ministério da Cultura. Foi durante uma viagem de trabalho para uma remota vila de pescadores no mar Cáspio que o cineasta encontrou a

inspiração para fazer seu primeiro longa-metragem de ficção, Um evento simples (Yek ettefāq-e sade, 1973), no qual um garoto de 10 anos divide seus dias entre as rotinas da escola, os cuidados com sua mãe doente e as tarefas para seu pai, um alcoólatra envolvido em pesca ilegal. O desequilíbrio na vida do menino provocado pela morte da mãe delineia um tema
que se mostrou caro ao cinema muitas vezes observacional de Shahid-Saless, ao tratar da perda da inocência frente à dura realidade do mundo. Esse tema também se manifestou, por exemplo, em um filme que o diretor realizou na Alemanha alguns anos depois, o trágico Tempo de amadurecimento (Reifezeit, 1976), no qual um garoto berlinense e sua mãe, uma profissional do
sexo, tentam mutuamente ignorar a natureza do trabalho que sustenta a casa. Ambos os filmes abordam a infância de forma nada sentimental e mostram o ingresso prematuro dos protagonistas na vida adulta. Após Um evento simples, Shahid-Saless realizou seu segundo e último longa-metragem filmado no Irã, na mesma região perto do mar Cáspio. Natureza morta (Ṭabi’at-e
bijān, 1974) mostra, por meio de uma série de cenas silenciosas, o processo pelo qual um trabalhador ferroviário idoso e sua esposa são despejados de sua residência após ele receber a notícia por carta de sua aposentadoria forçada. Conforme o homem lamenta sua perda de forma incrédula e procura sua pensão com pessoas indiferentes, Natureza morta expõe o comportamento desumano do Estado e de seus burocratas, e, de forma mais ampla, da sociedade iraniana moderna. O destino do homem remete àquele do servo Firs em O jardim das cerejeiras (Vishnyovyi sad, 1904), a última peça de teatro escrita por Anton Tchekhov, o autor preferido de Shahid-Saless, que identificou ressonâncias tristes entre as épocas czaristas na Rússia e do xá no Irã.
Um evento simples e Natureza morta chegaram a ser considerados como obras fundamentais da Nova Onda Iraniana, e Natureza morta particularmente foi realizado dentro da égide do Grupo do Novo Cinema Iraniano, um coletivo de artistas cinematográficos que incluiu Shahid-Saless, Dariush Mehrjui e Parviz Sayyad, um cineasta e ator cômico muito conhecido da televisão iraniana que frequentemente abriu mão do seu salário ou até investiu diretamente em produções em que acreditava
(por exemplo, produziu Natureza morta).
A presença de ambos os filmes na edição de 1974 do Festival Internacional de Cinema de Berlim marcou a primeira vez em que um cineasta apresentou dois filmes no festival no mesmo ano, e Shahid-Saless saiu do evento com seis prêmios, inclusive o Urso de Prata da competição principal para Natureza morta. Porém, quando tentou realizar seu filme seguinte no Irã –uma história ambientada em um orfanato chamado Quarentena – a produção foi cancelada por agentes do governo do xá devido a uma briga entre Shahid-Saless e o gerente do local. O cineasta percebeu que seria impossível realizar obras socialmente críticas em seu país, e então voltou para a Alemanha Ocidental.
O primeiro projeto alemão de Shahid-Saless foi Longe de casa, produzido e estrelado por Parviz Sayyad e que contou com contribuições de diversas pessoas alemãs e iranianas, como a corroterista com Shahid-Saless, Helga Houzer (sua companheira na época), e o cinegrafista Ramin Reza Molai (um iraniano já estabelecido em Berlim Ocidental).
Ele deu para o filme o nome alemão de um conto de Tchekhov chamado “Em terras estrangeiras” (“Na chuzhbine”, 1885) e rodou principalmente em Kreuzberg, o bairro em
Berlim Ocidental onde uma grande comunidade de imigrantes turcos havia se estabelecido. O filme resultante mistura ficção, documentário e autobiografia ao relatar a vida árdua e isolada dessa comunidade, que é submetida às regras vampirescas aplicadas aos estrangeiros com vistos temporários de trabalho – uma condição legal que Shahid-Saless conheceu bem, sendo ele mesmo um Gastarbeiter (literalmente, “trabalhador convidado”).
A ação minimalista de Longe de casa é conduzida por Husseyin, um operário turco da indústria metalúrgica que se desloca diariamente por trem entre Kreuzberg e a fábrica no distrito de Wedding para trabalhar de forma mecânica e silenciosa. Depois, ele volta para seu apartamento alugado, onde conversa com os outros habitantes (inclusive um jovem com quem ele divide o quarto) sobre seus sonhos de juntar dinheiro suficiente para se casar e comprar uma casa em sua terra natal. Assim como em seus filmes iranianos, Shahid-Saless explora a paisagem em Longe de casa com planos abertos, que delineiam a profunda solidão compartilhada entre os personagens. As ruas de Berlim Ocidental são retratadas ainda em estado decadente, algumas décadas após a Segunda Guerra Mundial, assim como o
interior empobrecido dos apartamentos onde os imigrantes vivem em grupos, até com famílias inteiras em um mesmo imóvel.
Ao mesmo tempo, o cineasta começa a delinear as diferentes faces do temperamento atormentado, violento e, por outro lado, submisso da sociedade alemã contemporânea. Como a vizinha de Husseyin, uma senhora idosa que o convida para tomar um café e acaba se fechando nas lembranças descontroladamente amargas sobre o filho que se mudou para os Estados Unidos. Ou em um encontro ameaçador com um trabalhador alemão bêbado em um vagão do metrô, que exige que o imigrante volte para sua terra de origem. Essas tendências protagonizarão os longas-metragens de ficção subsequentes de Shahid-Saless, realizados na Alemanha e voltados mais exclusivamente aos cidadãos do país em diversos contextos de trabalho, como Ordem (Ordnung, 1980) e Utopia (1983), nos quais as formas secas e brutais das falas dos protagonistas alemães transmitem a impressão de um país que ainda vive sob a sombra de nazismo.
Apesar de exercer uma profissão “burguesa”, diferente da dos personagens de Longe de casa, Shahid-Saless compartilhava sua situação em diversas formas –por exemplo, a lei alemã o proibia de atuar
como produtor dos seus filmes, obrigando-o a depender de produtores externos e enfrentar contratos abusivos. Mesmo assim, ele conseguiu fazer um total de 13 filmes (entre ficções e documentários, filmes para o cinema e para a televisão) ao longo das duas décadas que trabalhou na Alemanha. Shahid-Saless também morou e trabalhou por alguns anos na Checoslováquia na década de 1980 e se mudou para os Estados Unidos, onde morava seu irmão, em meados da década de 1990 para tratar uma doença crônica em seu fígado. Ele faleceu precocemente em Chicago em 1998, aos 54 anos. Não sobreviveu para ver a recuperação e restauração digital dos seus filmes alemães a partir de 2020, em uma tentativa de pesquisadores e preservacionistas de cinema de colocar sua produção subestimada no mesmo nível da dos outros gigantes do Novo Cinema Alemão. Sua reputação crítica, porém, nunca precisou ser reabilitada no Irã, onde seu nome foi dado a uma escola de cinema e onde ele é reverenciado até hoje por muitos cinéfilos e cineastas.
Nos quase 50 anos em que Marva Nabili morou nos Estados Unidos após a conclusão de O solo selado, ela conseguiu realizar apenas um filme (com uma bolsa do Instituto Sundance), um docudrama poético sobre famílias chinesas baseadas em Nova York,
chamado Nightsongs (1982), que toma como base textos de jornais escritos por uma mulher chinesa-vietnamita, e assim justapõe a vida interior de uma imigrante com sua bruta realidade. Ela trabalhou com o cinema de diversas outras formas, inclusive como montadora para produções comerciais, e, em 2024, conseguiu supervisionar a restauração digital do seu único filme iraniano, que até o momento não foi exibido de forma pública no país onde foi filmado. Nabili acompanhou as exibições da cópia restaurada de O solo selado em festivais na Europa e nos Estados Unidos e falou que viu no filme uma relevância continua para a sociedade iraniana, mais de 40 anos após a revolução que substituiu a ditadura do xá pelo regime do aiatolá Khomeini. O solo selado foi tido por muitos como uma grande redescoberta.
A Sessão Mutual Films de junho de 2026 é dedicada às memórias dos artistas cinematográficos iranianos Bahram Beyzai (19382025), Dariush Mehrjui (1939-2023), Kobra Amin Saeedi (“Shahrzad”, 1950-2025), Nasser Taghvai (1941-2025) e Vahideh Mohammadifar (1969-2023) e dos artistas cinematográficos alemães Alexander Kluge (1932-2026) e Bert Schmidt (1950-2024).

IMS Poços
A sapatona galáctica
Lesbian Space Princess Emma Hough Hobbs, Leela Varghese | Austrália | 2025, 87’, DCP (Synapse)
Saira, a princesa lésbica espacial, parte em uma missão na gayláxia para resgatar sua ex-namorada das garras dos homeliens héteros brancos. Com uma nave problemática e uma amiga cantora voz e violão, ela descobre que o verdadeiro poder vem de dentro.
A sapatona galáctica é dirigido por duas artistas que são também parceiras de vida. Em entrevista ao portal The Queer Review, Leela Varghese comenta sobre a estruturação dos personagens: “Teve muito a ver com o empoderamento do nosso público-alvo, que são lésbicas e a comuni-
dade LGBTQIA+. Queríamos criar uma escapatória. É uma fuga da realidade. É assim que sempre enxergamos esse filme. É uma diversão. Ele não se leva muito a sério. Venha ao cinema, assista a algo fora desse mundo e se divirta.”
“Quando você inverte a dinâmica de hoje”, Emma Hough Hobbs complementa, “você coloca personagens queer, femininas e racializadas no centro do filme, e essa identidade não as define, porque isso é a norma no mundo que estamos criando. Ao fazer o inverso, temos os incels do futuro, que são a nova comunidade marginalizada nesse mundo. Apontamos as semelhanças entre o que eles podem estar sentindo e o que nós sentimos, porque há muitos paralelos entre a personagem principal e os Straight White Maliens. Os dois só querem conquistar a garota, mas precisam perceber que não é necessariamente disso que precisam.”
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ ehhlbsapatona]
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

My Father’s Shadow Akinola Davies Jr. | Nigéria, Reino Unido | 2025, 94’, DCP (Filmes da Mostra)
Um dia na metrópole nigeriana de Lagos, durante a crise eleitoral de 1993. A história acompanha um pai, afastado dos dois filhos pequenos, durante uma jornada por essa enorme cidade enquanto a agitação política ameaça sua volta para casa.
O primeiro longa-metragem de Akinola Davies Jr., que recebeu a menção honrosa do júri da Caméra d’Or no Festival de Cannes, tem uma relação direta com a vida do cineasta. “Acho que, no começo, eu teria dito que há uma grande diferença entre uma coisa e outra, mas quanto mais eu vejo o filme e converso com meu irmão, mais difícil fica saber o que é ficção e o que não é”, declara Davies em entrevista a Bruno Carmelo para o portal Meio Amargo. “O fato é que a gente perdeu nosso pai quando éramos bem novos. Meu
pai morreu quando eu tinha 1 ano e oito meses, e meu irmão devia ter uns 3 anos. Mas o filme se passa em 12 de junho de 1993, e, nessa época, no filme, os meninos têm 8 e 12 anos. Então as coisas começam a se misturar. Muitas das histórias vêm de coisas que nos contaram sobre o nosso pai – o que nossa mãe dizia, o que outras pessoas diziam –, e como essas histórias mudaram com o tempo.
Os eventos históricos são baseados no que realmente aconteceu naquele dia. Bonny Camp é um lugar real. Os massacres aconteceram em momentos diferentes, mas a gente juntou tudo para colocar no filme. Então o personagem paterno é uma versão ficcional do nosso pai, mas decorre das histórias que escutamos sobre ele. É bem difícil separar o que é ficção e o que não é. Acho que a diferença mais óbvia é que, por exemplo, no filme, a gente muda a idade dos personagens, e também, no filme, a família é de classe trabalhadora, enquanto a nossa era de classe média.”
“Bonny Camp sempre foi um lugar onde pessoas ‘problemáticas’ sumiam. Era uma base policial, e depois virou uma base militar. Uma das razões pelas quais o governo militar mudou a capital de Lagos para Abuja foi justamente porque, quando havia protestos, as pessoas iam para Bonny Camp. Fela Kuti, por exemplo – um dos nossos músicos mais famosos – levou o caixão da mãe dele até Bonny Camp para entregar aos militares, depois que ela foi jogada do telhado e morreu. Então Bonny Camp virou um símbolo no imaginário nigeriano, um lugar onde militares e policiais faziam opositores desaparecerem. Como a gente queria contar essa história para jovens
nigerianos – e também para quem não conhece a história da Nigéria –, quisemos homenagear esses lugares, onde pessoas lutaram contra o autoritarismo e perderam a vida.”
Na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A sombra do meu pai recebeu o Prêmios da Crítica de Melhor Filme Internacional e o Prêmio
Brada de Melhor Direção de Arte.
[Íntegra da entrevista em: tinyurl.com/adjsombra]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Julia Ducournau | França, Bélgica | 2025, 128’, DCP (O2 Play)
Alpha, uma adolescente atormentada de 13 anos, mora apenas com sua mãe. O mundo delas desaba no dia em que ela volta da escola com uma tatuagem no braço.
Em entrevista disponibilizada no material de imprensa do filme, Julia Ducournau, diretora de Grave (2016) e do vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Titane (2021), reflete: “Nos meus dois primeiros filmes, me concentrei na figura paterna e, especialmente com Titane, senti que havia dito o que tinha a dizer e explorado completamente meus sentimentos sobre esse assunto. Depois vem a mãe, e lidar com a mãe, com esse vínculo, é incrivelmente difícil. Percebi isso com outros cineastas também. Alpha é, na verdade, um projeto sobre o qual venho pensando há anos, mas sempre achei que era algo que faria mais adiante.
Sentia que ainda não era madura o suficiente para enfrentá-lo – que precisava dar mais tempo para amadurecer. Mas as circunstâncias me fizeram sentir que precisava fazer o filme imediatamente. Com as mães, você lida com um tipo de emancipação muito mais profundo. Vai além de simplesmente sair das expectativas de um dos pais ou buscar sua aprovação: trata-se de romper com uma relação simbiótica, uma fusão. E isso é especialmente verdadeiro neste caso, quando a mãe em questão é completamente abnegada. A personagem não é apenas a mãe de Alpha: ela é uma Mãe com M maiúsculo. Ela é mãe para seus pacientes, para seu irmão, para toda a humanidade. Seu instinto materno se estende ao mundo inteiro, e por isso se afastar disso é incrivelmente difícil.”
Quando questionada se teria se afastado dos códigos do cinema de gênero, ela diz: “Se me afastei de algo, foi do tipo de distância protetora que as convenções de gênero oferecem. Por ‘distância’, quero dizer aquilo que faz com que, quando você assiste a um filme de terror, saiba que não é real. Os monstros ou fantasmas não existem: são apenas uma hipótese ficcional. E, por definição, quando algo é apenas uma hipótese, não é ameaçador. Então certamente me afastei disso. Por outro lado, porém, sinto que o gênero e seu potencial catártico foram assimilados pelo próprio filme. O gênero ainda está lá, escondido nas partes mais dramáticas, vulneráveis, indizíveis e perigosas do filme.”
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

IMS Poços IMS Paulista
Daniel Nolasco | Brasil | 2025, 104’, DCP (Olhar Filmes)
Catalão, interior de Goiás, 1984. A região rural da Batalha dos Neves é formada por grandes pastos de lavoura, algumas poucas fazendas e dividida ao meio pelo rio São Marcos. Antônio vive sozinho e isolado, cuidando dos afazeres de sua pequena fazenda, até o dia em que seu destino cruza com o de Marcelo, um motoqueiro solitário que sofre um acidente atravessando a região. Antônio cuida das feridas de Marcelo. Os dois se apaixonam e vivem uma história que transforma, desestabiliza e provoca rupturas em cada um deles.
“Acredito que o Apenas coisas boas vem ao encontro de duas investigações que estão presentes em outros filmes que realizei”, comenta Daniel Nolasco em entrevista ao portal Club do Filme. “Uma estética, as possibilidades de representação do homoerotismo em diálogo com as estéticas fetichistas; e a outra narrativa, a busca por contar histórias de pessoas queers que vivem em regiões longe dos centros urbanos. Existe nesse filme essa intenção de mostrar a pluralidade de vivências e desejos de pessoas LGBTs que vivem em pequenas cidades do interior do Brasil, mais especificamente no Centro-Oeste. Há também uma vontade de filmar a região em que eu nasci e as transformações que as paisagens desse lugar vêm sofrendo ao longo das últimas décadas. É uma região em que a natureza vem sendo transformada significativamente com a construção de uma barragem e com o avanço do agronegócio. Desde os meus curtas, procuro registrar como esse lugar muda a cada ano que passa.“
“A narrativa do filme é dividida em dois momentos diferentes na vida do Antônio – o primeiro é a chegada de Marcelo, e o segundo é quando este desaparece. O começo e o fim de um relacionamento. No filme, existe um interesse em trabalhar com diferentes gêneros cinematográficos para cada momento da vida do protagonista. O primeiro é um diálogo com o western, principalmente na forma como são filmadas as paisagens, como são mostradas a violência e a solidão masculina. E o segundo, o filme se aproxima do thriller policial, com o mistério em torno do desaparecimento do Marcelo e com uma certa dubiedade nas intenções e na moralidade de quase todos os per-
sonagens. Uma primeira parte rural, uma segunda urbana. O começo e o fim de uma história de amor. O filme também deixa de narrar 40 anos da vida dos dois, há uma lacuna, as quatro décadas em que o protagonista muda bastante, se torna quase outra pessoa. A intenção nessa quebra tão marcada entre os dois momentos era fazer o espectador perceber essa mudança – se Antônio 40 anos depois é outra pessoa, o filme também é outro. O filme, como forma, também muda junto com o personagem.”
[Íntegra da entrevista: tinyurl.com/dncoisasboas]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Karol Maia | Brasil | 2025, 79’, DCP (Embaúba Filmes)
Entre memórias pessoais e pesquisas históricas, uma cineasta, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre os quatro estados brasileiros que mais receberam mão de obra escravizada e conversa com trabalhadoras domésticas. Mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas possam sonhar outros destinos. O filme constrói um retrato íntimo e político de como a arquitetura no Brasil ainda carrega os traços da escravidão e reflete sobre como os espaços de moradia foram projetados para segregar corpos e sustentar hierarquias.
“Eu acho que o trabalho doméstico mantém privilégios em pé”, comenta Karol Maia em entrevista a Renato Silveira para o portal Cinematório. “Quando a gente tem na construção de um país um projeto de escravização tão bem estruturado
como foi aqui no Brasil, o último país das Américas a abolir a escravidão, continuar a fazer a manutenção desse modelo é confortável pra muita gente. Então, eu acho que, ao falar desse assunto, inevitavelmente a gente vai ter que falar de coisas difíceis, vai ter que falar sobre pontos de responsabilidade individual. E eu acho que o silêncio protege muitas pessoas. Eu acho que protege de formas diferentes. Não posso falar por todas, mas algumas trabalhadoras optam pelo silêncio porque não querem perder seus empregos. E os contratantes optam pelo silêncio porque não querem perder o seu privilégio de remunerar alguém mal e ter essa pessoa disponível pra fazer um trabalho muito complexo e muito difícil, que é o da trabalhadora doméstica. E trabalho doméstico a gente pode entender como babá, como a cozinheira, a faxineira, todo mundo que tá trabalhando nesse ambiente familiar que é um ambiente de segredo, né? Uma família não vai revelar os segredos que estão acontecendo dentro de casa.”
“Este filme já teve muitos cortes”, ela conta em outra entrevista concedida a Luana Ibelli para o Brasil de Fato. “Foram muitos anos montando ele. Ele já teve um caminho muito mais político, quase didático mesmo, mais informativo. E aí eu fui abrindo mão de algumas coisas e lapidando cada uma das entrevistas com o que eu considerava o melhor daquele encontro. Porque eu acho que, pra além da entrevista, também tem um tom de encontro com aquelas trabalhadoras. Porque pra eu conseguir chegar naquela intimidade que a gente conseguiu alcançar em pouquíssimo tempo é porque eu também tava me abrindo. Eu também entregava alguma coisa pra elas. Porque o meu interesse era transformar aquele encontro numa
coisa íntima. No limite do que uma câmera ligada e pessoas desconhecidas na sua casa permite. Mas eu fui entendendo que, pra mim, a questão política e a questão mais prática da arquitetura foram perdendo espaço, porque eu entendia que tinha muitas nuances das trabalhadoras que eu gostaria de trabalhar. E eu tive que abrir mão de alguma coisa. Quanto mais eu fui entrando, eu, enquanto personagem, fui dando um pouco da minha história pro filme também, e esse ciclo se encerrou.”
[Íntegra das entrevistas em: tinyurl.com/kmaquinao e tinyurl.com/kmentraluz]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Carol Rodrigues | Brasil | 2025, 105’, DCP (Vitrine Filmes)
Sandra retorna à casa de sua prima Mariana em busca de uma foto de sua falecida mãe, que trabalhou ali como empregada residente para os pais de Mariana. Embora tenham sido criadas juntas, Sandra, negra de pele escura, e Mariana, negra de pele clara, viveram aquela casa de formas muito diferentes. Ao se reconectarem, memórias há muito enterradas tomam forma ao redor delas. Fantasmas da infância, da ancestralidade, de um amor que nunca foi embora completamente.
“A história fala das contradições internas da minha família”, conta Carol Rodrigues em depoimento veiculado no portal Mundo Negro. “Minha avó veio para São Paulo com 14 anos para trabalhar como empregada do lar. Com 40 anos, se tornou funcionária pública e começou a trazer pri-
mas para trabalhar em casa. Eu morava com a minha avó, mas a minha mãe me teve muito cedo, com 21 anos, e a gente morava no mesmo quintal. Apesar de, afetivamente, o filme ser dedicado à minha avó, acho que a minha família entendeu que o filme é sobre a gente.”
Por ocasião da estreia de Criadas, o Cinema do IMS exibe também o curta-metragem A felicidade delas, também de Carol Rodrigues.
[Depoimento extraído de: tinyurl.com/crcriadas]
Ingressos:
IMS Paulista e IMS Poços R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia).

Fanon
Jean-Claude Barny | França, Luxemburgo, Canadá | 2025, 133’, DCP (Fênix Filmes)
Baseado na história real de Frantz Fanon, o pensador, psiquiatra e ativista martinicano que ousou enfrentar o sistema colonial francês. Em plena Guerra da Argélia, sua trajetória redefiniu não só a psiquiatria e a luta anticolonial, mas a própria ideia de liberdade. Fanon deixou para o mundo um arcabouço teórico e prático de valor incontornável junto ao pan-africanismo e às lutas anticolonial.
O diretor Jean-Claude Barny comenta: “Para mim, Fanon foi quem me permitiu ter uma visão diferente de como eu poderia integrar personagens de ascendência africana ao cinema em geral, e construir personagens que fossem totalmente sinceros, autênticos e desprovidos de qualquer servidão à indústria. Tínhamos a impressão de que estávamos criando alguém com um
forte senso de humanidade e que era reconhecível como alguém dotado de uma espécie de sinceridade autêntica. Ele é um personagem que estava fora do comum e acima do comum. Mas não podemos transformá-lo em um ícone intocável, um ícone sem realidade. O que nos interessa é trazê-lo de volta ao mundo dos vivos, e não ao mundo de um ícone póstumo. Primeiro tivemos que torná-lo tangível, torná-lo real. Tivemos que construir e desconstruir. Tivemos que edificar um ser humano – e esse ser humano tem um destino extraordinário.”
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

IMS Poços
Natal amargo
Amarga Navidad
Pedro Almodóvar | Espanha | 2026, 111’, DCP (Warner Bros. do Brasil)
Duas histórias paralelas entre Madri e as ilhas Canárias. De um lado, a publicitária Elsa, que perdeu a mãe durante as festas de Natal e agora se afoga no trabalho. Não tendo espaço para lidar com o luto, um ataque de pânico severo a obriga a tirar uma pausa e viajar para Lazarote, nas ilhas Canárias, ao lado de sua amiga Patricia, enquanto seu marido permanece em Madri. Do outro lado, Raúl Durán é um diretor e roteirista que enfrenta dificuldades em separar a realidade da ficção.
As entrevistas e depoimentos dados por Almodóvar por ocasião do lançamento do filme têm enfocado muito nas dinâmicas da autoficção e no intervalo entre o real e o ficcional. Em entrevista à revista Vanity Fair Espanha, Almodóvar é questionado sobre uma das afirmações ditas em
Natal amargo, a de que o cinema tem algo de “premonitório”. O diretor responde:
“Gosto dessa frase. Serve-me como estímulo quando escrevo. Desde pequenininho, vendo minha mãe inventar as cartas que lia para suas vizinhas, recebi a primeira lição de que a realidade precisa da ficção para ser mais perfeita, mais vivível. Há tempos desenvolvo essa ideia no meu cinema. Já estava em Matador, quando os protagonistas vão ao cinema Urquijo ver Duelo ao sol [de King Vidor e William Dieterle], e ficam olhando para a tela, que lhes revela o que acontecerá com eles mesmos. Ou em Má educação, quando Lluís Homar, diante de um ciclo de cinema noir, diz: ‘Todos os filmes falam sobre nós’. Há também no cinema algo de ensaio da vida real. Lembro que, depois de fazer Mulheres à beira de um ataque de nervos, me vi pela primeira vez quebrando coisas contra a parede para não as jogar em alguém. E já havia ensaiado isso através da personagem de Carmen Maura no filme!”
[Íntegra da entrevista, em espanhol: tinyurl.com/ panatal]
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

IMS Poços
Nino de sexta a segunda
Nino
Pauline Loquès | França | 2025, 97’, DCP (Filmes do Estação)
Ao descobrir em um exame de rotina que está com câncer, Nino precisa iniciar o tratamento em poucos dias. Sem saber como dar a notícia para sua mãe e amigos, ele atravessa Paris em um fim de semana decisivo.
O filme teve estreia na Semana da Crítica, seção paralela ao Festival de Cannes, onde o ator Théodore Pellerin recebeu o prêmio de Ator Revelação pela sua interpretação de Nino. Ao portal da mostra, a diretora Pauline Loquès conta: “Há alguns anos, perdi um ente querido, um jovem levado pelo câncer. Devastada pela tristeza e pela raiva, recorri à escrita para recuperar a esperança. Precisava reinventar a história, salvar uma personagem. Nino chegou até mim de repente, como um amor à primeira vista numa esquina. Criei afei-
ção por esse menino hesitante, de contornos imprecisos, e o segui enquanto ele vagava. Logo entendi que não seria a história de alguém ceifado no auge da vida, mas a de um jovem à deriva, que seria lançado para dentro da vida pelo anúncio de uma doença grave. Escolhi um intervalo curto –três dias – entre o diagnóstico de câncer e o início do tratamento. Adoro profundamente as crônicas no cinema, e tinha muita curiosidade de explorar o que poderia acontecer nesse 'tempo morto' entre esses dois grandes eventos. Ainda há dias e noites a serem vividos, então como se atravessa esse período? Como se vive o ordinário num momento extraordinário da própria vida?”
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

IMS Poços IMS Paulista
Quem tem com que me pague, não me deve nada
Ary Rosa e Glenda Nicácio | Brasil | 2025, 100’, DCP (Elo Studios)
Henrique, um cineasta paulista frustrado e preso às glórias do passado, vê sua vida mudar quando cruza o caminho de Cristian Mugunzá, um carismático cantor baiano de pagotrap que arrasta multidões no Carnaval de Salvador. No calor do Recôncavo Baiano, o encontro entre esses dois mundos opostos – um cinza e desencantado, outro solar e explosivo – dá origem a situações hilárias, amizades improváveis e uma jornada de redescoberta, alegria e afeto.
Quem tem com que me pague, não me deve nada é o mais novo lançamento da produtora Rosza Filmes, sediada no Recôncavo Baiano e responsável por sucessos como Café com canela (2017), Ilha (2018) e Até o fim (2020). “A semente deste filme vem de um desejo antigo de investi-
gar o humor dentro da nossa filmografia”, contam os diretores em depoimento disponibilizado no material de imprensa do filme. “Desde o nosso primeiro longa, Café com canela, o alívio cômico e a leveza já estavam presentes. Para este novo projeto, quisemos brincar com as possíveis estruturas do humor. A ideia era iniciar com um formato de humor mais ‘clássico’ e contido, ao apresentar o cineasta Henrique Garcia, para depois deixar a comédia florescer em um tom mais popular e vibrante assim que ele desembarca no Recôncavo e encontra Cristian Mugunzá e seu grupo de amigos."
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

IMS Poços
Quinze dias
Daniel Lieff | Brasil | 2026, 100’, DCP (Vitrine Filmes)
Os planos de férias de um adolescente inseguro são furados por uma visita inesperada: seu vizinho e antigo amigo de infância que passará duas semanas dormindo na sua casa. Os dias que prometiam paz, tranquilidade e maratonas épicas de séries acabam trazendo um turbilhão de sentimentos e questões mal-resolvidas.
O filme é uma adaptação do livro homônimo do escritor Vitor Martins, lançado em 2017, com mais de 100 mil exemplares vendidos no Brasil e tradução para nove países. Em depoimentos recentes à imprensa, o autor disse: “Escrevi esse livro pensando no adolescente que eu fui, e agora ver esses personagens ganhando voz e corpo é algo transformador” e “tenho certeza de que também será um acontecimento especial para jovens com corpos fora do padrão que nunca se viram no papel de protagonista nas telas.”
[Depoimentos extraídos dos portais Almanaque da Cultura e Terra em: tinyurl.com/dlquinze e tinyurl.com/dlquinze2]
Ingressos:
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

IMS Poços
Surda
Sorda
Eva Libertad | Espanha | 2025, 98’, DCP (Retrato Filmes)
Ángela, uma mulher surda, vive pela primeira vez a experiência da maternidade, ao lado de seu parceiro Hector, um homem ouvinte. Com a chegada do bebê, Ángela precisa enfrentar os desafios e as complexidades de ser mãe em um mundo que não foi preparado para pessoas como ela.
Surda é um desdobramento de um curta-metragem de mesmo nome dirigido por Eva Libertad que também tem sua irmã, a atriz surda Miriam Garlo no papel principal. O curta recebeu mais de 50 prêmios em festivais ao redor do mundo. Em 2025, o longa foi vencedor do Prêmio do Público na seção Panorama do Festival de Berlim, onde teve sua estreia mundial.
“Em 2021, realizámos um curta-metragem que nasceu de uma situação muito pessoal. A minha irmã, Miriam Garlo, estava a pensar em ser mãe, e conversávamos muito sobre isso”, conta Libertad em entrevista ao blog Cinematograficamente Falando. “A certa altura, pedi-lhe que escrevesse esses medos, e dias depois recebi uma lista que me impactou profundamente. Percebi que, mesmo sendo irmã de uma pessoa surda, nunca tinha refletido tão a fundo sobre essa experiência. Dessa lista, nasceu o roteiro do curta.”
“Para escrever o longa, tive que me distanciar da experiência pessoal da Miriam, até porque ela acabou por decidir não ser mãe. Entrei então numa fase de documentação: entrevistei várias mães surdas que partilharam comigo as suas vivências durante a gravidez, o parto e a criação dos filhos. A partir desses testemunhos, construí o roteiro do longa-metragem.”
“Tinha desde sempre a ideia de Ángela ser uma mulher com caráter, imperfeita. Como espectadora, gosto de ver personagens contraditórias, difíceis, especialmente quando se trata de mulheres. Durante muito tempo, os papéis femininos foram limitados, pouco complexos. É por isso que gosto de anti-heroínas: mulheres que erram, que podem ser antipáticas, e que por vezes não as compreendemos. Não queria que o fato de ser surda a transformasse numa figura exemplar. A Ángela não é ‘representante’ de todas as mulheres surdas, é uma personagem particular, com os seus próprios medos e fragilidades.”
[Íntegra da entrevista: tinyurl.com/elsurda]
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

Dario Argento | Itália | 1977, 99’, DCP (FJ Cines), restauração 4K
Quase 50 anos depois de seu lançamento, Suspiria retorna aos cinemas em cópia digital 4k, restaurada a partir de seu negativo original. No filme, quando Suzy Banner chega à escola de balé em que sempre sonhou estudar, eventos perturbadores e uma série de assassinatos a levam a tentar desvendar segredos que podem estar ligados ao mundo sobrenatural.
“Queríamos recriar as cores dos antigos filmes em Technicolor e da Disney”, comenta Dario Argento em entrevista a Ben Cobb para a revista Another Man em 2018. “As cores vívidas e fortes desses filmes ficaram na minha memória desde a infância. Incrivelmente, Tovoli encontrou um antigo estoque de filme da Kodak em um laboratório nos Estados Unidos e nós usamos isso. Mas havia uma quantidade tão limitada que só tínhamos o sufi-
ciente para filmar uma ou duas tomadas, então ensaiávamos muito antes de cada cena. É por isso que Suspiria demorou tanto para ser filmado: 16 semanas.”
“É verdade, quase todo mundo é mulher em Suspiria, todos os heróis e vilões são mulheres, e os poucos homens são cegos, mudos ou inúteis”, comenta o cineasta quando questionado sobre a prevalência da personagem feminina em Suspiria. “Mas não sei se é feminista, as pessoas dizem que é… A verdade é que eu gosto de trabalhar com mulheres, sempre fui fascinado por elas. Quando eu era muito jovem, estudava em uma escola perto do estúdio da minha mãe; ela era fotógrafa, famosa por seus retratos de atrizes nos anos 1940 e 1950. Depois da escola, eu corria para lá e ficava na sala da frente, onde as atrizes se maquiavam e trocavam para vestidos glamourosos, e eu via aquelas mulheres maravilhosas se transformarem. Eu observava como minha mãe iluminava seus rostos e corpos e, quando estava filmando Suspiria, me lembrei disso.”
Inspirado no romance Suspiria de Profundis, de Thomas Quincey, o longa é o primeiro da trilogia As três mães, de Dario Argento, seguido por A mansão do inferno (1980) e O retorno da maldição – A mãe das lágrimas (2007).
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ dasuspiria]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
Sessão especial

Boogie Nights: prazer sem limites
Boogie Nights
Paul Thomas Anderson | EUA | 1997, 155’, DCP (Park Circus), restauração 4K
Durante o auge da disco music na década de 1970, Eddie Adams, um garçom de 17 anos, está em busca de sua grande oportunidade, quando é descoberto pelo veterano diretor de filmes pornográficos Jack Horner. Horner rebatiza Eddie de Dirk Diggler e o transforma em uma estrela do cinema adulto. Aproveitando sua fama recém-conquistada e adotando um estilo de vida à altura, Eddie está pouco preparado para as mudanças na indústria pornográfica que virão com a chegada da década de 1980 e a ascensão da fita de vídeo.
Boogie Nights é o segundo longa-metragem de Paul Thomas Anderson, e é frequentemente considerado um dos marcos do cinema estadunidense dos anos 1990. Em uma entrevista
de 1998 para Matt Grainer, o diretor declara: “É sobre encontrar uma família, pra ser honesto. Eu sei que isso soa meio absurdo, porque é sobre pornô! Sabe, e isso é uma coisa realmente estranha – você quer dizer ‘bem, é sobre a indústria pornográfica’ e aí quer logo acrescentar ‘bem, na verdade não’. E aí talvez as pessoas te olhem de lado e falem ‘vamos lá, o que é afinal?’. Mas acho que, no fundo, a coisa que eu realmente mais gostei e em que mais me concentrei é que é sobre muitas pessoas em busca de dignidade, tentando encontrar qualquer tipo de amor e afeto que consigam. E elas encontram isso de formas bem fodidas e tortas – mas conseguem, sabe?”
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/imsboogie]
Ingressos:
IMS Paulista e IMS Poços R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

O médico e a bola
Vitor Campanario e Mário Carvão | Brasil | 2026, 15’, Arquivo digital (Olho-Pião Filmes, Trama Ação Urbana e Michelle Veloso)
A exibição de O médico e a bola no Cinema do IMS Poços propõe um encontro entre cinema, memória e debate histórico, relembrando a trajetória de Paulino de Souza, um personagem fundamental, e ainda pouco conhecido, da história de Poços de Caldas e do futebol brasileiro. Após a exibição, uma conversa em torno de protagonismo negro, apagamento histórico e preservação da memória cultural, com Roberto Tereziano –pesquisador, jornalista, ator, produtor audiovisual e poeta – e o diretor Mário Carvão – arquiteto, urbanista e roteirista.
O médico e a bola retoma a trajetória do estudante de medicina que levou a primeira bola de futebol para Poços de Caldas em 1904 e se tornou o primeiro campeão negro do futebol bra-
sileiro, atuando pelo Botafogo em 1906. Filho de Ildefonso de Souza (primeiro dentista da cidade e também um importante pioneiro negro em Poços de Caldas), Paulino rompeu barreiras sociais em um território e período marcados pela discriminação racial. Através de pesquisa histórica, arquivos, entrevistas e reconstruções cênicas, o filme revisita a memória dessa família e sua contribuição para a formação cultural, esportiva e social da cidade.
Ingressos:
IMS Poços Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.

comunidade ao longo de quatro anos, tanto no dia a dia de performances, eventos e preparativos quanto nas batalhas diárias e no ativismo político contra diferentes formas de exclusão social.
Sara Jordenö | Suécia, EUA | 2016, 95’, Arquivo digital (Cargo Film & Releasing)
Em Nova York, jovens LGBTQIAPN+ negros e latinos se reúnem no Christopher Street Pier, praticando uma forma de dança performática, o voguing, e se encontram em bailes, chamados balls, criando a comunidade ballroom. Há décadas, a ballroom exerce influência no cenário audiovisual, em obras populares como o videoclipe de “Vogue”, de Madonna, o documentário Paris Is Burning, de Jennie Livingston, ambos dos anos 1990, e a série Pose (2018). Nos dias atuais, uma nova geração de jovens do ballroom formou a Cena Kiki, uma subcultura artística e ativista.
Este documentário, uma colaboração cinematográfica entre a artista Twiggy Pucci Garçon, uma das guardiãs da cena Kiki, e a cineasta sueca Sara Jordenö, acompanha sete personagens dessa
“Sou do norte da Suécia, de uma cidade muito pequena, de seis mil habitantes. Aprendi sobre o ballroom principalmente pela teoria queer. Depois, estava fazendo um projeto no Harlem – um projeto diferente – e simplesmente encontrei Twiggy e Chichi. Fiquei tão impressionada com eles que eles marcaram uma reunião comigo e apresentaram toda a subcultura, da qual eu não tinha ideia que existia, especialmente a parte de liderança e mentoria”, comenta a diretora Sara Jordenö. “Pareceu muito importante fazer um filme que não ‘expusesse esse mundo secreto’. Queríamos fazer um filme centrado nos personagens.”
Em 2016, Kiki venceu o prêmio Teddy, voltado à temática LGBTQIAPN+, de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Berlim, assim como Paris Is Burning fizera em 1991. Mas, como sintetiza a roteirista e personagem Twiggy Pucci Garçon, “assim como Tina Turner é Tina Turner e Beyoncé é Beyoncé, Paris Is Burning é Paris Is Burning, e nós somos Kiki”.
Gia Marie Love, também personagem do longa, complementa: “A cena dos bailes de Kiki foi criada para abordar questões muito específicas entre os jovens da cidade de Nova York, e essa é uma diferença narrativa entre os dois. Paris Is Burning foca mais no aspecto performático. Kiki é uma declaração política, porque jovens de 13 a 24 anos estão entre os grupos de maior risco em nosso país. A cena de Kiki foi criada para educar esse grupo vulnerável por meio de diversas plataformas. [...] Há um senso diferente de protagonismo e ati-
vismo político que se observa, e uma relação entre as pessoas neste filme e a forma como nos comportamos na sociedade, não apenas no mundo da ballroom. Usamos a ballroom como uma plataforma para estarmos no mundo.”
Esta programação especial tem curadoria de Statement Princess Dani Mutatis e Angel Jayaci.
[Os depoimentos foram extraídos e compilados a partir de entrevistas para o portal da Red Bull Musical Academy e para o jornal Los Angeles Times. A íntegra pode ser acessada, em inglês, nos links: tinyurl.com/sjkiki e tinyurl.com/sjkiki2]
Ingressos:
IMS Paulista Entrada gratuita. Distribuição de senhas 60 minutos antes da exibição. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Por ocasião da estreia de A sombra do meu pai, de Akiola Davies Jr., o Cinema do IMS apresenta dois curtas-metragens do cineasta.
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

IMS Paulista
Akinola Davies Jr. | Nigéria, Reino Unido | 2020, 18’, DCP
Em Lagos, uma menina de 8 anos, com a capacidade de pressentir o perigo, é expulsa de uma aula da escola dominical. Fora dos muros da igreja, ela encontra um mundo quase animalesco de abandono e hipocrisia.
“Eu queria contar uma história pessoal, isto é, baseado em uma história real” – comenta Akinola Davies Jr. em entrevista a James Maitre para o portal Directors Note. “Tudo o que acontece em Lagarto aconteceu comigo quando eu tinha 8 anos, tirando ver um lagarto gigante, claro. Nós fomos assaltados à mão armada voltando da igreja, eu, meu irmão e meus primos, quando éramos bem novos. A lembrança disso sempre ficou na minha cabeça. Foi algo sobre o qual nunca falamos. Então, acho que, quando percebi
o quanto aquilo podia ser um choque, comecei a buscar essas memórias e imediatamente escrevi Lagarto.”
“A principal prioridade para mim era criar muito contraste entre luz e escuridão, alto e baixo, e trabalhar a modelagem da luz. Esse foi meio que o meu foco principal nas conversas com o diretor de fotografia, Shabier Kirchner. Acho que, em termos da linguagem do filme, é realmente uma interpretação da minha história. Eu queria explorar esse contraste entre claro e escuro e como as coisas se dissipam rapidamente, além de captar a Nigéria em película e fazer com que ela parecesse úmida e suada, do jeito que é.”
O filme recebeu o Grande Prêmio do Júri de Curta-Metragem na edição de 2021 do Festival de Sundance.
[Íntegra da entrevista, em inglês: tinyurl.com/ adlagarto]


Akinola Davies Jr. | Reino Unido | 2021, 12’, DCP
Dois irmãos desacompanhados embarcam em uma jornada rumo a um novo assentamento na lua Titã. Suas interações refletem a ingenuidade e o medo que esse enorme momento representa para cada um deles, em meio a um grupo de migrantes em escala industrial.
Carol Rodrigues | Brasil | 2019, 14’, DCP (Manjericão Filmes)
Duas jovens fogem juntas da polícia depois de uma manifestação. Apesar da violência, buscam uma forma de viver o seu desejo.
Por ocasião da estreia de Criadas, longa-metragem de Carol Rodrigues, o Cinema do IMS exibe o curta A felicidade delas, exibido em mais de 20 festivais desde sua estreia. Em entrevista de janeiro de 2020 ao portal Alagoar, a cineasta declara:
“Pra mim, de forma geral, eu acho que quando a gente tá falando de nós, oprimidos de forma geral (mulheres, negros, LGBTs), a gente tá falando de nos colocar sempre a escanteio, à margem, nos lugares do sistema de forma geral, e o processo naquilo que eu acredito é justamente a gente ir nesses lugares, ocupar esse lugares, até o ponto de encontrar essas brechas, essas
falhas, essas vulnerabilidades, onde a gente pode reconstruir nossa própria existência, nossas referências, e implodir tudo isso e repensar o nosso próprio local, reconstruir esse mundo assim. Um amigo meu fala que todos os filmes meus basicamente são personagens vivendo sob uma grande pressão, e que de repente explodem de alguma forma, de várias formas específicas. No meu longa que eu tô fazendo agora [Criadas, à época ainda um projeto], acontece a mesma coisa: são duas personagens buscando uma forma de existir até chegarem no ponto que explodem, em que destroem. Eu acredito na violência como uma forma de atuação no mundo, a violência de várias formas, não só do ato agressivo em si, mas a violência sutil. Por acreditar nisso, que esses personagens estão sempre vasculhando a cidade, tentando encontrar uma forma de tomar ela pra si. E especificamente em A felicidade delas, gosto da ideia de ter um mecanismo que vai revelando o lugar aos poucos, delas terem esse pequeno aparelho na mão em que elas vão aos poucos iluminando isso, elas também tão tateando a própria relação entre elas. Que afinal de contas, na vida mesmo, a gente tateia, a gente pode ter todas as certezas do mundo, mas, ainda assim, nós estamos andando, tateando no meio do escuro.”
[Íntegra da entrevista: tinyurl.com/crfelicidade]
Ingressos:
IMS Paulista terça, quarta e quinta: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia); sexta, sábado, domingo e feriados: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).
IMS Poços R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Sessão Mutual Films Em terras estranhas: Longe de casa e O solo selado
A Sessão Mutual Films de junho de 2026 traz dois longas-metragens de ficção da década de 1970 restaurados, de cineastas iranianos que viveram a maior parte de suas vidas fora do seu país de origem, inclusive nos anos que antecederam a Revolução Iraniana de 1979. Os filmes expressam o sentimento de alienação por meio de personagens que não se enquadram ao ambiente social em que vivem. O solo selado (1977) foi o primeiro longa-metragem independente dirigido por uma mulher no Irã. A diretora do filme, Marva Nabili (nascida em 1941), estava morando nos Estados Unidos e trabalhando no Irã quando criou uma história híbrida entre documentário e ficção com a população local de uma aldeia iraniana, na qual uma adolescente local (interpretada pela atriz profissional Flora Shabaviz) resiste ao mesmo tempo à imposição tradicional de propostas de casamento e à entrada em uma nova cidade moderna construída ao lado do vilarejo. Longe de casa (1975) foi o primeiro filme realizado na Alemanha Ocidental por um dos grandes nomes da Nova Onda Iraniana, Sohrab Shahid-Saless (1944-1998). O filme retrata, de forma minimalista, a vida monótona e solitária de um imigrante turco em Berlim Ocidental que trabalha na indústria metalúrgica (interpretado pelo astro de cinema e televisão iraniano Parviz Sayyad). Shahid-Saless filmou com atores não profissionais turcos que moravam em uma cidade ainda abatida pela destruição da Segunda Guerra Mundial e se inspirou em suas próprias experiências como um “trabalhador temporário” na Europa.
A versão restaurada de Longe de casa faz parte de um projeto mais amplo da restauração e circulação dos filmes alemães de Shahid-Saless e será apresentada com o apoio do Goethe-Institut. O solo selado foi um dos poucos filmes realizados por Nabili e vai passar no Cinema do IMS Paulista graças ao trabalho da pequena distribuidora norte-americana Venera Films. A primeira exibição do filme contará com uma introdução da pesquisadora de cinema iraniano Eliane Arakaki.
Ingressos:
IMS Paulista
Dia 16 de junho: Entrada gratuita. Distribuição de senhas a partir das 17h. Limite de uma senha por pessoa. Sujeito à lotação da sala.
Dia 27 de junho: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

O solo selado
Khake sar beh morh
Marva Nabili | Irã | 1977, 91’, DCP (Venera Films), restauração 4K
Em um pequeno vilarejo iraniano próximo à cidade de Abadan, na divisa com o Iraque, vive uma jovem em idade de se casar. Rooy-Bekheir (interpretada por Flora Shabaviz) exerce corriqueiramente as tarefas domésticas que se espera de uma mulher na aldeia: alimenta as galinhas, lava e estende as roupas e busca água no poço, repetindo as mesmas rotinas dia após dia. Porém, sua vida pacata passa a ser ameaçada pela intenção da família de arrumar-lhe um marido (ela já negou três propostas de casamento, por motivos desconhecidos) e, ao mesmo tempo, pela possível transferência da comunidade para a nova cidade
nas proximidades, construída pelo governo do xá, que supostamente tornaria a vida de todos mais confortável. Contudo, a jovem não quer abrir mão de sua vida tradicional no vilarejo e também não aceita as antigas regras locais. Conforme as pressões aumentam, ela se sente cada vez mais acuada, até sofrer um colapso nervoso.
O filme O solo selado conta essa história com planos abertos (nos quais Rooy-Bekheir é quase sempre vista de longe), poucos diálogos e um ritmo cadenciado. Foi baseado em um fato real que ocorreu com uma menina na aldeia arenosa de Ghalleh Noo-Asgar. Os habitantes da aldeia interpretam versões de si mesmos e contracenam com a atriz que interpreta Rooy-Bekheir, que viveu por algumas semanas no vilarejo antes das filmagens para se adaptar aos movimentos das mulheres locais. A diretora Marva Nabili rodou seu longa-metragem de estreia em apenas seis dias, após também morar por um mês no vilarejo, que era próximo à casa de sua irmã. Ela contou com uma pequena equipe, cujos integrantes incluíram o renomado cinegrafista iraniano Barbod Taheri (primo da cineasta) e o músico Hooreh, responsável pela hipnótica trilha sonora que acompanha Rooy-Bekheir.
Nabili (autora de apenas dois longas-metragens até o momento) estava morando no exterior há 15 anos quando voltou para o Irã para produzir uma série televisiva de contos para crianças, período durante o qual ela também fez O solo selado. No processo, se tornou apenas a segunda mulher na história do cinema iraniano a dirigir um longa-metragem. Ela contrabandeou os negativos para
fora do Irã, finalizou o filme nos Estados Unidos e acompanhou sua estreia mundial no ano seguinte na mostra Forum, no Festival Internacional do Cinema de Berlim. O solo selado teve inicialmente uma circulação restrita (inclusive nunca foi exibido no Irã) e passou décadas adormecido, até ser restaurado graças a uma iniciativa da pesquisadora e produtora Garineh Nazarian (da distribuidora norte-americana Venera Films), que viu nele uma parte crucial da história do cinema iraniano. A restauração em 4K dos negativos originais em 16 mm do filme foi realizada em 2024 pela equipe da UCLA Film & Television Archive, em Los Angeles, sob a supervisão da cineasta, e a cópia restaurada de O solo selado terá sua estreia brasileira no Cinema do IMS Paulista. A primeira exibição do filme será apresentada por Eliane Arakaki, pesquisadora na Universidade de São Paulo que trabalha com a representação da mulher no cinema iraniano.

IMS Paulista
Longe de casa
Dar Ghorbat/In der Fremde Sohrab Shahid-Saless | Alemanha Ocidental, Irã | 1975, 91’, DCP (Shahid Saless Archive/ Goethe-Institut), restauração 4K
Husseyin, um imigrante temporário turco com 30 anos de idade, trabalha em Berlim Ocidental na indústria metalúrgica, assim como muitos dos seus conterrâneos que se encontram na Alemanha Ocidental em meados da década de 1970. Seus gestos silenciosos, monótonos e repetitivos consistem em refilar chapas de metal com um maquinário pesado. Após o expediente, retorna para seu prédio no bairro de Kreuzberg e sobe a escadaria até seu quarto alugado no apartamento que divide com uma família e alguns outros jovens e velhos turcos. Na pequena comunidade que se forma dentro das quatro paredes, as pessoas jogam gamão, tocam músicas tradicionais, jantam, papeiam
sem intimidade e leem cartas dos seus parentes. Entre eles, Husseyin sonha em se casar, juntar dinheiro e construir uma casa em sua terra natal. Com a ajuda de um dos seus colegas, ele procura aprender a falar alemão para flertar com mulheres nativas no parque, mas sua fala desajeitada e o contraste cultural não o levam longe, e os passeios retratam uma crescente alienação que espelha a condição da própria cidade, ainda em fase de renovação pós-guerra. Assim como os demais, Husseyin enfrenta diariamente o racismo, e sua situação legal de residência na Alemanha é precária e atrelada à sua capacidade de trabalhar rapidamente. Mas Husseyin persiste, com um otimismo acanhado.
Longe de casa (cujo título foi inspirado no título de um conto de Anton Tchekhov) foi o primeiro dos 13 filmes alemães realizados pelo diretor iraniano Sohrab Shahid-Saless, após os sucessos internacionais dos seus longas-metragens iranianos Um evento simples (Yek Ettefāgh-e Sadeh, 1973) e Natureza morta (Tabi’at-e Bijān, 1974). A coprodução entre Irã e Alemanha Ocidental retrata o cotidiano de um imigrante que mora em uma cidade fraturada de forma crua e não sentimental, com momentos de humor melancólico. Através de escadarias escuras de edifícios malconservados, parques e ruas esvaziadas com portas de comércios cerradas, Shahid-Saless traça um importante e único retrato berlinense da época, guiado por um grupo socialmente marginalizado. O diretor recrutou os membros principais do seu elenco majoritariamente não profissional
entre a população de imigrantes turcos no próprio bairro de Kreuzberg. O único ator profissional entre eles foi o iraniano Parviz Sayyad, conhecido principalmente por suas atuações cômicas em filmes populares e séries de televisão no Irã, que expressou solidariedade ao colaborar com Shahid-Saless e outros cineastas iranianos independentes e que traz para o papel de Husseyin um senso tocante de ingenuidade.
Longe de casa participou na competição principal do Festival Internacional de Cinema de Berlim e chegou a ser considerado um filme icônico de Shahid-Saless. O filme foi restaurado em 4K em 2023, a partir dos seus negativos originais em 35 mm, que estavam aos cuidados da produtora alemã Provobis Film, como parte de um projeto da entidade Shahid Saless Archive (organizada pela pesquisadora alemã Vivien Buchhorn) de restaurar as obras audiovisuais de Shahid-Saless realizadas na Alemanhã e assim reposicionar o seu legado como um importante membro do Novo Cinema Alemão, além da Nova Onda Iraniana. A estreia brasileira da versão restaurada do filme no Cinema do IMS Paulista é realizada com o apoio do Goethe-Institut.
Uma Varda viajante é quem nos conduz pelo percurso que une a exposição Fotografia AGNÉS VARDA Cinema, já encerrada no IMS Paulista, à mostra de filmes em cartaz no Cinema do IMS. Fotógrafa e cineasta, Agnès Varda atravessou fronteiras geográficas, formais e afetivas com o mesmo olhar curioso e libertário, transformando o cotidiano em imagens e narrativas.
Antes de se tornar uma das grandes vozes do cinema, Varda formou-se como fotógrafa. Seu modo de ver o mundo nasce da atenção ao corpo e à paisagem. Em suas imagens, fixas ou em movimento, há sempre a escuta do outro, uma delicadeza que se funde com engajamento. O que ela fotografa e filma são gestos, rostos, ruelas, fragmentos de uma vida comum que, sob seu olhar, ganham uma dimensão universal.
Essas imagens, feitas de curiosidade, solidariedade e invenção, revelam o compromisso de Agnès Varda com as lutas pela dignidade humana e com a liberdade de olhar. Sua obra, feita de encontros e deslocamentos, pensa o cinema a partir da fotografia e a fotografia a partir da vida. Neste último mês da mostra, o público tem acesso a uma série de filmes, instalações e obras televisivas menos conhecidas de Varda, muitos deles inéditos em cinema no Brasil.
Ingressos:
IMS Paulista R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

IMS Paulista
Uma canta, a outra não
L’Une chante, l´autre pas Agnès Varda | França, Bélgica | 1977, 120’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
Um musical feminista. Duas jovens vivem em Paris em 1962. Pauline, estudante, sonha em deixar sua família para se tornar cantora. Suzanne cuida de seus dois filhos e lida com o trauma do suicídio do pai. A vida as separa; cada uma vive sua própria luta como mulher. Pauline se tornou cantora em uma banda itinerante militante após um casamento difícil no Irã. Suzanne escapou da pobreza e trabalha em uma clínica de planejamento familiar.
Dez anos depois, elas se reencontram em uma manifestação feminista. No final desta história, as encontramos juntas mais uma vez.
“O bastião do amor materno é sagrado, e tudo isso é embrutecedor, é terrível”, comenta Varda em depoimento veiculado junto ao mate-
rial de imprensa do filme. “É por isso que era preciso enfrentar este tema: a maternidade em todas as frentes ao mesmo tempo. Aborto livre e sem culpa. A não posse dos filhos. Horror à autoridade parental. Amor pelas crianças, inclusive as dos outros. Contracepção. Novas leis. Educação sexual. Amor pelos homens. Desejo de ter um filho. Ternura paterna. Famílias desfeitas. Gravidezes revigorantes. Direito à identidade com ou sem filhos… Isso já não é mais um filme, é uma enciclopédia…”

Resposta das mulheres: nosso
corpo, nosso sexo
Réponse de femmes: notre corps, notre sexe Agnès Varda | França | 1975, 8’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
1975: O ano da mulher. A Antenne 2 (um canal de televisão público francês) pediu a sete cineastas mulheres que respondessem à pergunta “O que é uma mulher?” em sete minutos. Agnès Varda respondeu com este curta-metragem – que ela pediu que tivesse oito minutos. Mulheres cis, com seus rostos femininos, discutem sexo, desejo, publicidade e filhos (se devem ou não os ter).
3



IMS Paulista
Os amantes da ponte Mac Donald
Les Fiancés du pont Mac Donald Agnès Varda | França | 1962, 5’, DCP (mk2 films), restauração 2K
Um jovem vê a vida em preto quando usa óculos escuros. Basta tirá-los para que as coisas mudem. Um curta-metragem mudo e de humor pastelão que é exibido dentro de Cléo das 5 às 7, que apresenta Jean-Luc Godard sem óculos e Anna Karina como loira. Em depoimento disponível junto ao material de imprensa do filme, Varda conta: “Certo dia, tínhamos todos decidido pintar, fomos a Nice buscar material e pintávamos alegremente. E Jean-Luc tinha tirado os óculos e limpado as lentes. Então eu tinha visto furtivamente seus grandes olhos e queria vê-los de novo. Daí minha estratégia de fazê-lo interpretar aquela esquete em que ele tiraria os óculos. Agora que ele usa lentes levemente tingidas, minha história parece exagerada.”
Algumas viúvas de Noirmoutier
Quelques veuves de Noirmoutier
Agnès Varda | França | 2006, 72’, DCP (Ciné-Tamaris)
As conversas íntimas de Agnès Varda com um grupo de viúvas retratam o próprio luto da cineasta, em relatos de ausência e perda. As histórias são emocionantes, muitas delas trágicas, e Varda as aborda com sua empatia característica, permanecendo incomumente silenciosa e ausente durante grande parte do filme, enquanto as mulheres passam por momentos de alegria, angústia, dor e amor. À sua maneira, Varda reflete sobre sua própria viuvez, 15 anos após a morte de Jacques Demy.
O filme foi originalmente concebido como uma instalação de vídeo para a Fundação Cartier.
Homenagem à gata Zgougou
Hommage à Zgougou
Agnès Varda | França | 2002, 2’, DCP (Ciné-Tamaris)
O filme é uma homenagem carinhosa à gata de Varda, Zgougou, que foi uma de suas companheiras mais fiéis e um ícone da sua produtora.



Crônicas da França: as crianças no museu
Chroniques de France: les enfants du musée
Agnès Varda | França | 1964 (1978), 8’, DCP (Ciné-Tamaris), restauração 4K
Crônicas da França foi uma coleção de reportagens curtas sobre aspectos da vida regional, cultural e artística da França durante as décadas de 1960 e 1970, oferecendo a outras nações um panorama abrangente da sociedade francesa. Varda dirigiu um destes episódios, intitulado As crianças no museu.
Você tem belas escadarias, sabia?
T’as de beaux escaliers, tu sais…
Agnès Varda | França | 1986, 3’, DCP (mk2 Films), restauração 4K
Varda atende ao desafio de, em 150 segundos, homenagear a Cinemateca Francesa, que à época completava 50 anos e ficava no bairro de Chaillot. Não poderia fazer isso sem filmar os 50 degraus que levavam ao Museu do Cinema e desciam até a sala escura, onde foram projetadas obras-primas que, por sua vez, também traziam imagens de famosas escadarias.
Pier Paolo Pasolini – Agnès Varda –
New York – 1967
Agnès Varda | França | 1967, 3’, DCP (Ciné-Tamaris), restauração 2K
Com uma câmera de 16 mm, Agnès Varda filmou a 42nd Street em 1966, captando os transeuntes ao ritmo de The Doors. Pier Paolo Pasolini está com ela, perdendo-se nas luzes, corpos e rostos de uma Nova Iorque multicultural e caótica.



Elsa, a Rosa
Elsa la Rose
Agnès Varda | França | 1965, 21’, DCP (mk2 Films), restauração 2K
Um casal lendário na Montparnasse dos loucos anos de 1920. A juventude de Elsa Triolet contada por Louis Aragon. Imagens, poemas e diálogos da intimidade do casal.
Les Gens de la terrasse
Agnès Varda | França | 2008, 3’, DCP (Ciné-Tamaris)
Concebida como uma videoinstalação, a obra revisita uma fotografia tirada por Varda em 1956 na Cité Radieuse de Le Corbusier, em Marselha, imaginando histórias sobre as pessoas retratadas
Um
Une Minute pour une image
Agnès Varda | França | 1982, 26’, DCP (Ciné-Tamaris)
Em 1982, Agnès Varda lançava no circuito televisivo francês o primeiro de seus 170 ensaios cinematográficos da série Um minuto para uma imagem. Depois de filmar Ulisses (1982), Varda constatou como pode ser diferente o modo como cada um vê uma mesma fotografia. Daí surgiu seu projeto: veicular uma foto por dia, sempre no mesmo canal, por 15 segundos silenciosos que precediam a descrição de um minuto feita por um convidado desconhecido do público. Apenas ao final do vídeo, quando o telespectador já havia considerado, reconsiderado ou desconsiderado o comentário anônimo, eram revelados os autores da fotografia e da narração.
Nesta compilação, estão os 14 episódios em que as fotografias são comentadas pela própria Varda.

IMS Paulista
Os três botões
Les Trois boutons
Agnès Varda | França | 2015, 11’, DCP (Ciné-Tamaris)
“Senhorita Jasmine! Tem uma encomenda para você!”
A menina de 14 anos com aparelho nos dentes faz uma pausa na ordenha da cabra. O carteiro trouxe uma surpresa. Ela abre. De dentro, flutua um mágico vestido de baile cor-de-rosa escuro, dez vezes maior que o seu tamanho de adolescente. “Tenho curiosidade”, ela diz, e entra nas dobras do vestido. A partir daí, Jasmine nos conduz por um anticonto de fadas moderno, por cavernas e estalactites, ruas e vitrines, obsessões e conquistas cotidianas.
O filme foi realizado por encomenda para a série de curtas-metragens Miu Miu Women’s Tales, todos realizados por mulheres, a fim de celebrar de um ponto de vista crítico a feminilidade no século XXI.
Varda realiza no filme uma justaposição contraditória entre a vida rural e a alta-costura.
Em depoimento disponibilizado no material de imprensa do curta, ela conta: “As histórias de princesas são idiotas, porque à meia-noite, paf! acabou, elas voltam a ter roupas velhas, aventais… Mas o avental escolar é bonito! A escola é bonita, é a educação, é a ambição de fazer algo da própria vida! Tudo isso são pequenos fios que eu puxo assim, do conhecimento que tenho da vida. Não é sentido, é representação. E a representação é o meu ofício.”

Ulisses
Ulysse
Agnès Varda | França | 1982, 22’, DCP (Filmes do Estação), restauração 2K
À beira-mar, uma cabra, uma criança e um homem. É uma fotografia tirada por Agnès Varda em 1954: a cabra estava morta, a criança chamava-se Ulisses e o homem estava nu. Passados 30 anos, Varda revisita a imagem.



Viva Varda!
Pierre-Henri Gibert | França | 2023, 67’, DCP (mk2 Films)
Diretora de destaque do pós-guerra, pioneira da Nouvelle Vague, aclamada em vida como uma estrela do rock em Hollywood, Agnès Varda, cuja vida e obra é abordada neste documentário, é fonte de inspiração para toda uma nova geração de cineastas.
Varda construiu uma obra não convencional, aberta ao mundo, sensível aos mais vulneráveis e muitas vezes caprichosa. Sempre em sintonia com seu tempo, ela desafiou até mesmo o próprio cinema, recusando-se a reduzi-lo à pura ficção ou apenas a longas-metragens.
Agnès Varda se estabeleceu como uma mulher livre, constantemente imprevisível, tão desconcertante em sua jornada quanto sedutora em sua tenacidade, sua coragem de ir até o fim de seu desejo.
O leão volátil
Le Lion volatil
Agnès Varda | França | 2003, 11’, DCP (mk2 Films)
Clarisse, aprendiz de cartomante, e Lazare, funcionário das catacumbas de Paris, encontram-se diariamente perto da praça Denfert-Rochereau (no 14º distrito de Paris), onde se ergue um enorme leão de bronze. Um dia, Lazare desaparece, e o leão também!
7 Cômodos, coz., banh., ... imperdível!
7 P., cuis., s.de b... à saisir
Agnès Varda | França | 1984, 29’, DCP (mk2 Films), restauração 2K
Uma visita incomum a um apartamento grande e vazio... Está vazio ou não?
Talvez uma família tenha morado lá ou vá morar lá... Talvez uma jovem vá fugir de lá... Talvez alguns dos antigos moradores nunca tenham saído de lá... As próprias paredes contam as histórias do tempo que passa... É mais sobre imaginação do que sobre imóveis.



Les Dites cariatides
Agnès Varda | França | 1984, 12’, DCP (mk2 Films), restauração 2K
“É uma encomenda para um programa da TF1”, declara Varda em depoimento veiculado junto ao material de imprensa do filme. “Me propõem um documentário sobre as cariátides –mulheres-estátua, colunas humanas que, nuas ou seminuas, sustentam vergas, ombreiras, varandas, toda sorte de elementos arquitetônicos muito pesados. Penso na origem delas e digo para mim mesma: ‘Ótimo, vão me mandar ao Partenon e à Cária!’. Mas é um programa de baixo orçamento, e tenho que me limitar às cariátides de Paris. Vou caminhando, descubro algumas, as filmo, e percebo que a maioria data dos anos 1860. Não consigo deixar de pensar em Baudelaire, que escreveu poemas muito belos que poderiam muito bem acompanhar esse sonho de mulheres de pedra.”
Ó estações, ó castelos
Ô saisons, ô chateaux
Agnès Varda | França | 1957, 21’, DCP
(Les Films du Jeudi)
Um passeio pelos castelos ao longo do vale do Loire, apresentados em ordem cronológica de construção, com comentários, poemas do século XVI e reflexões dos jardineiros.
Em junho de 1958, na edição número 84, da revista Cahiers du Cinema, François Truffaut escrevia: “Quanto mais vejo este curta-metragem de Agnès Varda, mais o amo. Em Cannes, foi aclamado pelo público, e com razão. Nele encontramos fantasia, gosto, inteligência, intuição e sensibilidade – cinco virtudes que nunca deveriam faltar nos filmes. […] Agnès Varda […] se diverte ao rodar seus filmes, para que possamos nos divertir ao vê-los.”
Christmas Carole
Agnès Varda | França | 1966, 5’, DCP (Ciné-Tamaris), restauração 4K
Dois meninos e uma menina sem dinheiro, na época das festas de Natal de 1966, desafiam a sociedade de consumo. Seus amores, suas histórias.


IMS Paulista
Os justos no Panthéon
Les Justes au Panthéon
Agnès Varda | França | 2007, 12’, DCP (CinéTamaris)
Este filme é parte de uma instalação de Agnès Varda que homenageou os muitos “justos” franceses que salvaram crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial. Por algum tempo, essa instalação ocupou um lugar secundário na obra de Varda, até que ela lhe deu destaque no filme autobiográfico As praias de Agnès.
IMS Paulista
Os catadores e eu: dois anos depois
Les Glaneurs et la glaneuse: deux ans après Agnès Varda | França | 2002, 63’, DCP (Ciné-Tamaris)
“Aqueles que eu havia filmado no ano 2000 para o documentário Os catadores e eu tinham surpreendido, tocado e instruído os espectadores, e era eu quem recebia bravos… e prêmios. Eu dizia, quando os aplausos cessavam, que tinha consciência de ficar apenas com uma pequena parte para mim, e o restante para aqueles que eram o centro do filme, sua razão de ser. Além disso, havia mantido contato com alguns dos desprovidos encontrados durante as filmagens, e me pareceu muito natural empreender uma breve continuação do primeiro filme para dar notícias deles. De fio em agulha, e às vezes porque eu precisava circular e procurá-los de novo, fiz outros encontros. Ou escolhi dar a palavra a
Macha Makeieff, grande recolhedora – catadora –, colecionadora de objetos inconsoláveis. Ela representa com fineza e excesso esse gosto comum por achados e brechós. Segui menos a catação agrícola do que dois anos antes, e desta vez também perdi a catação das cerejas e dos pêssegos.”
“No lançamento e na exibição de Os catadores, recebi tantas cartas e pequenos presentes surpreendentes e afetuosos que me sentia no dever de ‘fazer algo’. Escrever para agradecer não bastava, e aliás eu não conseguia mais responder à correspondência. Comecei a filmar as cartas e as imagens recebidas, fui visitar desconhecidos que me tinham escrito.”
“Dois anos depois: se este documentário bis é a crônica das reações ao primeiro documentário, é também uma ilustração dos ‘pensamentos posteriores’, o que os anglófonos chamam de afterthought. De fato, cada um tinha algo a dizer depois de ver Os catadores e eu. Eu mesma, com o distanciamento, pude descobrir, no meu trabalho – que se quer informativo por ser documentado –, o trabalho do inconsciente (o meu) que nele se infiltrou. Por fim, as batatas-coração descobertas nos refugos fora do padrão permaneceram, como no primeiro filme, imagens emblemáticas. Desta vez filmei aquelas que, depois de secarem e até apodrecerem, voltavam a brotar. A energia vegetal é bela de se ver.”
[Depoimento de Agnès Varda veiculado junto ao material de imprensa do filme.]
Uma nova expedição pelo Brasil, a mostra Langsdorff 200 leva ao cinema questões urgentes do país.
Como parte do projeto Langsdorff: a expedição fluvial 200 anos depois, realizado pelo Instituto Hercule Florence (IHF) e pelo Documenta Pantanal, a mostra de cinema Langsdorff 200 acontece de 16 a 25 de junho no Centro Universitário MariAntonia, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e no Instituto Moreira Salles. Com curadoria de Mônica Guimarães, coordenadora do Documenta Pantanal, a programação reúne 17 filmes, entre longas, médias e curtas-metragens, que percorrem a Amazônia, o Pantanal e outros territórios brasileiros para discutir memória, identidade, natureza e crise ambiental.
Ingressos:
IMS Paulista R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

IMS Paulista
Eryk Rocha, Gabriela Carneiro da Cunha | Brasil, Itália, França | 2024, 108’, DCP (Gullane+)
Baseado nas palavras poderosas do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa, o documentário retrata a comunidade Watoriki durante o importante ritual funerário Reahu, um esforço coletivo para segurar o céu. O filme atua como uma contundente crítica xamânica àqueles que Davi Kopenawa chama de “o povo da mercadoria”, ao garimpo ilegal e à mistura mortal de epidemias trazidas pelos forasteiros, chamadas de xawara. Em primeiro plano, a beleza e a força geopolítica da cosmologia Yanomami e dos espíritos xapiri
A queda do céu estreou na Quinzaine de Cinéastes, mostra paralela do Festival de Cannes 2024. Desde então, circulou por uma série de festivais e reuniu prêmios, como os de Melhor Longa-Metragem Documentário Internacional no 27º Festival Internacional de Cinema de
Guanajuato, no México, Prêmio Especial do Júri no DMZ Docs, na Coreia do Sul, e Prêmio de Melhor Som e Melhor Direção de Documentário no Festival do Rio, todos em 2024.
Cinema
Coordenador | Curador
Kleber Mendonça Filho
Supervisora de curadoria e programação
Marcia Vaz
Programador
Thiago Gallego
Produtora de programação
Renata Alberton
Analista de programação
Lucas Gonçalves de Souza
Projeção IMS Paulista
Ana Clara da Costa, Adriano Brito e Sérgio Wong
Projeção IMS Poços
Fagner Andrades e Gilmar Tavares
Revista do Cinema do IMS
Produção de textos e edição
Thiago Gallego e Marcia Vaz
Diagramação
Marcela Souza
Revisão
Flávio Cintra do Amaral
Os filmes de junho
A programação do mês tem o apoio de Ciné-Tamaris, das distribuidoras Cargo Film & Releasing, Elo Studios, Embaúba Filmes, Fênix Filmes, Filmes da Mostra, Filmes do Estação, FJ Cines, Les Films du Jeudi, mk2 Films, O2 Play, Olhar Distribuidora, Park Circus, Retrato Filmes, Synapse, Vitrine Filmes, do projeto Sessão Vitrine Petrobras e Warner Bros. do Brasil.
Agradecemos a Aaron Cutler, Adriana Rattes, Bani Khoshnoudi, Behrang Samsami, Christoph Hochhäusler, David Marriott, Ehsan Khoshbakht, Ei Toshinari, Eli Kilpatrick, Eliane Arakaki, Frédérique Ros, Garineh Nazarian, Hannah Reinikainen, Irineu Franco Perpetuo, Jacques-Antoine Jagou, João Santana, Laurence Braunberger, Léa Daudon, Léa Tordjman, Lívia Pinheiro, Marva Nabili, Mateus Araújo, Mehrnaz Saeed-Vafa, Michelle Langford, Mônica Guimarães, Nathan Machado, Patrick Holzapfel, Rafael Moretzsohn Finardi, Regina De Martelaere, Renate Heilmeier, Rosalie Varda, Ross Lipman, Sandra Escribano Orpez, Simon Cozette, Stéphane Vieyra, Tatjana Lorenz, Thomas A. Fucci e Vivien Buchhorn.
Parceria



Sessão Mutual Films





Realização: Cinema do IMS
Curadoria e produção: Aaron Cutler e Mariana Shellard
apoio




Mostra Langsdorff 200 Especial Ballroom






Venda de ingressos
Ingressos à venda pelo site ingresso.com e na bilheteria do centro cultural, a partir das 12h, para sessões do mesmo dia. No ingresso.com, a venda é mensal, e os ingressos são liberados no primeiro dia do mês. Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.
Capacidade das salas
IMS Paulista: 145 lugares
IMS Poços: 85 lugares
Com apresentação de documentos comprobatórios para todos os grupos elegíveis à meia-entrada por lei e titulares do cartão Itaú (crédito ou débito).
Curadoria: Statement Princess Dani Mutatis e Angel Jayaci
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site. Programa sujeito a alterações. Eventuais mudanças serão informadas no site ims.com.br e no Instagram @imoreirasalles. Não é permitido o acesso com mochilas ou bolsas grandes, guarda-chuvas, bebidas ou alimentos. Use nosso guarda-volumes gratuito. Confira as classificações indicativas no site do IMS.


IMS Paulista
Terça a domingos, inclusive feriados, das 10h às 20h
Fechado às segundas. Avenida Paulista, 2424 São Paulo
imspaulista@ims.com.br
IMS Poços
Terça a sexta, das 13h às 19h
Sábados e domingos, das 9h às 19h Fechado às segundas
Rua Teresópolis, 90 Poços de Caldas ims.pc@ims.com.br