Revista Engenharia 666

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Linha de frente

MARCOS PONTES: O FUTURO DO BRASIL PASSA PELA CIÊNCIA

Novas tecnologias BIM TRANSFORMA A GESTÃO DE OBRAS PÚBLICAS

Eminente Engenheira

Mariangela Hungria coloca a ciência e a engenharia a serviço da vida no solo e da garantia da segurança alimentar

OUTUBRO 2025

Editada desde 1942 www.institutodeengenharia.org.br

REVISTA ENGENHARIA

ISSN 0013-7707

Órgão oficial do Instituto de Engenharia

Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 CEP 04012-180 - São Paulo, SP Tel. (55 11) 3466-9200

OUTUBRO – 2025 – ANO 84 – Nº 666

INSTITUTO DE ENGENHARIA

Presidente: José Eduardo Frascá Poyares Jardim Vice-presidente de Administração e Finanças: Miriana Pereira Marques Vice-presidente de Atividades Técnicas: Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto Vice-presidente de Relações Externas: Ivan Metran Whately Vice-presidente de Assuntos Internos: Lawrence Chung Koo

A MISSÃO DO INSTITUTO DE ENGENHARIA

Promover a engenharia em benefício do desenvolvimento e da qualidade de vida da sociedade. Realizar esta missão por meio da promoção do desenvolvimento e da valorização da engenharia; promoção da qualidade e credibilidade de seus profissionais; prestação de serviços à sociedade, por meio de fóruns e debates sobre problemas de interesse público, análise e manifestação de opiniões políticas, programas e ações governamentais, elaboração e estudo de pareceres técnicos e propostas para o poder público e para a iniciativa privada; e prestação de serviços para seus associados. Suas ações estão dirigidas para a comunidade em geral; os orgãos públicos e organizações não governamentais; as empresas do setor industrial, comercial e de serviços; as empresas de engenharia, os engenheiros e os profissionais de nível superior em geral; os institutos de pesquisas e escolas de engenharia; e os estudantes de engenharia.

CONSELHO EDITORIAL

Diretor da Revista: Rui Arruda Camargo

Secretário: Aléssio Bento Borelli

Membros: Alberto Epifani; Aléssio Bento Borelli; Aristeu Zensaburo Nakamura; Débora Sanches de A. Marinello; Douglas Couto; Flamínio Fichmann; Flávia Bartkevicius Cruz; Francisco José Peireira de Oliveira; Henrique José Boneti; Ivan Metran Whately; Jean Carlos Pejo; Jerônimo Cabral P. Fagundes Neto; João Ernesto

Figueiredo; José Eduardo Frascá Poyares Jardim; José Eduardo W. A. Cavalcanti; Luiz Fernando Portella; Maria da Penha Nobre; Milene Costa Facioli; Miracyr Assis Marcato; Osiris Monteiro Blanco; Paulo Eduardo de Q. M. Barreto; Paulo Ferreira; Ricardo Henrique de A. Imamura; Roberto Bartolomeu Berkes; Roberto Kochen; Rui Arruda Camargo e Vicente Abate

ITACARAMBI PRODUÇÕES

Diretora e Editora Responsável: Alexandra Itacarambi Mtb 94.836/SP

Edição de conteúdo: Leandro Haberli

Reportagem: Karina Lignelli, Marcus

Ribeiro, Renato Ibelli e Leandro Harbelli

Revisão: Renata Gama e Vinicius Maximo

Projeto Gráfico: Eduardo Magno

Design Gráfico: Guaraná Digital

Impressão e Acabamento: Referência Gráfica

A edição nº 666 da REVISTA ENGENHARIA é uma publicação da Itacarambi Produções Ltda. CNPJ 67.977.249/0001-22aitacarambi@uol.com.br

Engenheira

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Wilson Aiello / Embrapa

Nesta edição

PALAVRA

ARTIGOS

Marcelo Rozemberg

Marcos Vinicius Pereira de Matos George Paulus

ENTREVISTA

Mariangela Hungria lidera pesquisas que reduzem emissões e diminuem a dependência brasileira de fertilizantes importados 12

LINHA DE FRENTE

Marcos Pontes, ex-ministro do MCTI, defende que o Brasil invista em ciência e tecnologia como estratégia de desenvolvimento 22

COBERTURA

Mariangela Hungria é homenageada como Eminente Engenheira do Ano por suas contribuições à biotecnologia e sustentabilidade no agronegócio 30

NOVAS TECNOLOGIAS

Metodologia BIM avança como ferramenta essencial para modernizar a gestão de obras públicas e garantir eficiência no uso dos recursos no TCM-SP 40

SUSTENTABILIDADE

Com tecnologia e engenharia agronômica, o Brasil alcança produtividade recorde, sem expandir fronteiras agrícolas 48

Palavra do Presidente

Engenharia para um novo projeto de nação

Nesta edição dedicada à ciência, tecnologia e sustentabilidade, com destaque para o grande trabalho feito pela nossa Eminente Engenheira 2025, Mariangela Hungria, não poderíamos deixar de destacar que vivemos um momento singular na história do Brasil. Com a conclusão do PNDBio (Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia) a ser anunciada na COP-30, em Belém, o país se posiciona diante de uma oportunidade única: a de liderar uma transição global para uma economia que valoriza a vida, a biodiversidade e a inclusão social.

Este não é apenas um debate ambiental, mas a formulação de um novo e ambicioso projeto de nação, e a engenharia brasileira está no cerne desta transformação.

Devemos, em primeiro lugar, celebrar o caminho percorrido. A construção do PNDBio, por meio de um processo amplamente participativo e multissetorial, foi um feito notável de engenharia social e política. O plano que emerge é uma base sólida, que reconhece a complexidade de nossos biomas e a necessidade de aliar inovação tecnológica ao conhecimento tradicional.

O Brasil demonstrou ao mundo sua capacidade de articular uma visão estratégica complexa, e o Instituto de Engenharia se orgulha de ter contribuído ativamente para este diálogo com o desenvolvimento e a apresentação do estudo “Uma base de conhecimento para a estratégia nacional de bioeconomias” no painel técnico-científico sobre bioeconomia, organizado pela SBC/MMA (Secretaria Nacional de Bioeconomia/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima), com a presença de representantes dos 17 ministérios

que compuseram a CNBio (Comissão Nacional de Bioeconomia).

Contudo, como engenheiros, sabemos que o valor de um projeto não está apenas na qualidade de sua planta, mas na excelência de sua execução. A fase que se inicia agora é a mais desafiadora: a de transformar o plano em realidade concreta e duradoura. É aqui que nossa responsabilidade se torna central.

Com este espírito construtivo, o Instituto de Engenharia tem se dedicado a aprofundar o debate sobre a implementação. Defendemos a necessidade de refinar as metas do PNDBio, tornando-as mensuráveis e com cronogramas definidos. Propusemos a criação de uma missão dedicada às infraestruturas físicas, digitais e humanas, que são a condição essencial para o sucesso de todas as outras. E, acima de tudo, insistimos que o objetivo final desta grande obra nacional deve ser explícito: gerar prosperidade e reduzir a pobreza nos territórios onde a bioeconomia floresce.

Este é, portanto, um chamado à nossa comunidade. O desafio da bioeconomia é um desafio de engenharia em sua forma mais nobre: projetar sistemas produtivos sustentáveis, construir cadeias de valor resilientes, criar logística para a sociobiodiversidade e inovar em processos que transformem nosso capital natural em desenvolvimento humano. Convido cada engenheiro e engenheira a se engajarem neste movimento, pois está em nossas mãos a tarefa de construir as pontes, as biousinas e as redes que farão do Brasil um líder não apenas em biodiversidade, mas em engenharia para a vida.

DIRETOR REGIONAL DE VANCOUVER/CAN

PEDRO MARQUES DOS SANTOS VENTURA pventura@aeolus-consulting.ca

Diretorias Regionais

DIRETORA REGIONAL DE DUBLIN/IE

LUDMILA PEREIRA DOS SANTOS ludmila.pereira.santos@gmail.com

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PRESIDENTE JOSÉ EDUARDO FRASCÁ POYARES JARDIM presidencia@iengenharia.org.br

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CONSELHO DELIBERATIVO PRESIDENTE

JOSÉ EDUARDO FRACÁ POYARES JARDIM

SECRETÁRIO EXECUTIVO

SERGIO LUIZ DE AZEVEDO RESENDE

CONSELHEIROS

ADALBERTO FEBELIANO

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ALFREDO MARIO SAVELLI

ALFREDO PETRILLI JUNIOR

ALUÍZIO GUIMARÃES CUPERTINO

AMÂNDIO MARTINS

ANGELO SEBASTIÃO ZANINI

CARLOS PEREIRA DE MAGALHÃES NETO

DOUGLAS COUTO

FLAVIA BARTKEVICIUS CRUZ

FRANCISCO A. N.

CHRISTOVAM

GEORGE PAULUS

PEREIRA DIAS

JOSÉ EDUARDO W. DE A. CAVALCANTI

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JOSÉ MANOEL DE AGUIRRE NETO

JOSÉ ROBERTO BERNASCONI

LUIZ FELIPE PROOST DE SOUZA

LUIZ FERNANDO PORTELLA

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MARCELO STACHOW

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WATANABE

SERGIO LUIZ DE AZEVEDO RESENDE

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PRESIDENTE

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ALFREDO MÁRIO SAVELLI

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ARLINDO VIRGILIO

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CAMIL EID

CARLOS ANTONIO

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CLÁUDIO AMAURY

DALL’ACQUA

CLÁUDIO ARISA

CRISTIANO KOK

DÉBORA SANCHES

DE A. MARINELLO

DIRCEU CARLOS DA SILVA

EDEMAR DE SOUZA

AMORIM

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EDUARDO FERREIRA

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ELIAS SILVA

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ENY KAORI UONO SANCHEZ

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FELIPE GERIBELLO

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Áreas técnicas

VICE-PRESIDENTE DE ATIVIDADES TÉCNICAS – JERÔNIMO CABRAL PEREIRA FAGUNDES NETO

REVISTA ENGENHARIA

DIRETOR: RUI ARRUDA CAMARGO

SECRETÁRIO: ALÉSSIO BENTO BORELLI

PLANEJAMENTO E ESTRATÉGIAS

DESENVOLVIMENTO DE INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA

Diretor: Jean Carlos Pejo

Vice-Diretor:

Secretário: Paulo José Assunção Junior

FERROVIAS

Coordenador: Vicente Abate

CURSOS

DIRETOR: MARCO

ANTONIO GULLO

VICE-DIRETOR: PAULO

E. Q. M. BARRETO

Vice-Coordenador: Marcos Augusto Toassa Fontealba

Secretário: Élcio Silva Ribeiro

NAVEGAÇÃO INTERIOR E PORTOS

Coordenador: José Wagner Leite Ferreira

Vice-Coordenador: George Takahashi

Secretário: Pedro Marques dos Santos Ventura

RODOVIAS

Coordenador: José Manoel de Oliveira Reis

Vice-Coordenador:

Secretário:

TRANSPORTES AÉREOS

Coordenador: Adalberto Febeliano

Vice-Coordenador: Jorge Eduardo Leal Medeiros

Secretário:

DESENVOLVIMENTO URBANO E REGIONAL

Diretora: Maria da Penha Pereira Nobre

Vice-Diretor: Neuton Sigueki Karassawa

Secretário: Fernando José de Campos Marsiglia

ÁGUAS E SANEAMENTO

Coordenador: José Eduardo W. A. Cavalcanti

Vice-Coordenador: Milton Ushima

Secretário: Maurício Canton Pladevall

MOBILIDADE E LOGÍSTICA URBANA

Coordenador: Ivan Metran Whately

Vice-Coordenador:

Secretário:

URBANIZAÇÃO

Coordenador: Alberto Epifani

Vice-Coordenador:

Secretário:

MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE

Assessor Especial: José Manoel de Oliveira Reis

Coordenadora:

Vice-Coordenador: Denis Gerage Amorim

Secretário: Henrique Dias de Faria

TRÂNSITO

Coordenador: Vanderlei Coffani

Vice-Coordenador: Jaques Mendel Rechter

Secretário:

BIBLIOTECA

BIBLIOTECÁRIA:

MARIA DE FÁTIMA

SIMÃO DA SILVA

PROJETOS, SERVIÇOS, GESTÃO E OBJETIVOS

DESENVOLVIMENTO DE PROJETO E SERVIÇOS DE INFRAESTRUTURA

Assessor Especial: Roberto Kochen

Diretor: Francisco José Pereira de Oliveira

Vice-Diretor: Habib Georges Jarrouge Neto

Secretário:

ESTRUTURAS E CONTROLE TECNOLÓGICO

Assessor Especial: Natan Jacobsohn Levental

Coordenador: Douglas Couto

Vice-Coordenadora: Fernanda Albano H. Nurnberg

Secretário:

ARQUITETURA, PAISAGISMO E COMUNICAÇÃO VISUAL

Coordenadora: Taina Vieira Volcov

Vice-Coordenadora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi

Secretário:

SISTEMAS

Coordenador: Paulo Eduardo de Queirós Mattoso Barreto

Vice-Coordenador: Sérgio Kater

Secretário:

GEOTECNIA

Coordenador: Arthur Teixeira Askinis

Vice-Coordenador: Lucas Atanasio

Secretária: Fabiana Curtarello Sardella

CONFORTO AMBIENTAL E ACÚSTICA

Coordenador:

Vice-Coordenadora: Maria Luiza Rocha Belderrain

Secretário: Ricardo Santos Siqueira

PROJETOS DE ENERGIA

Coordenador: Roberto Massaru Watanabe

Vice-Coordenador:

Secretário:

DESENVOLVIMENTO DE GESTÃO E OBJETIVOS

Diretora: Débora Sanches de A. Marinello

Vice-Diretor: Constanzio Facci Ticeu

Secretária: Eny Kaori Uono Sanchez

GEOMÁTICA

Coordenador: Aristeu Zensaburo Nakamura

Vice-Coordenadora: Fátima Alves Tostes

Secretário: Osiris Monteiro Blanco

GERENCIAMENTO DE EMPREENDIMENTOS

Coordenador: Sérgio Luiz Azevedo Resende

Vice-Coordenador:

Secretário:

AVALIAÇÕES E PERÍCIAS

Assessor Especial: José Fiker

Coordenador: Ricardo Henrique de A. Imamura

Vice-Coordenadora: Miriana Pereira Marques

Secretário: Evandro Henrique

ENGENHARIA DIAGNÓSTICA

Coordenadora: Stella Marys Della Flora

Vice Coordenadora: Débora Sanches de A. Marinello

Secretária:

ENGENHARIA DE INCÊNDIO

Coordenador: Carlos Cotta Rodrigues

Vice-Coordenador: José Félix Drigo

Secretário: Silvio Paulo Piga

PLANEJAMENTO E ENGENHARIA ECONÔMICA

Coordenador: Bruno Dias

Vice-Coordenador:

Secretário:

SEGURANÇA DO TRABALHO

Coordenador: Jefferson Deodoro Teixeira da Costa

Vice-Coordenador:

Secretário: Sidney Esteves Peinado

COMPLIANCE

Coordenadora:

Vice-Coordenador: Ricardo Henrique de Araujo Imamura

Secretário: Wilson Abramovick Costa

TECNOLOGIAS DIGITAIS

Coordenador: Pedro Badra

Vice-Coordenador:

Secretário:

DIRETORIA OPERACIONAL

DIRETORA: TATIANA LOURENÇO MACHADO

VICE-DIRETOR: ROBERTO BARTOLOMEU BERKES

SECRETÁRIO:

PRODUÇÃO E OPERAÇÃO

DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIA, INDÚSTRIA, ENERGIA E TELECOMUNICAÇÕES

Diretor: Aléssio Bento Borelli

Vice-Diretora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi

Secretário: Antonio Lambertini

INOVAÇÃO PARA ECONOMIA DO CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO

Coordenador: José Roberto Cardoso

Vice-Coordenador: George Paulus Dias

ENERGIA

Coordenador: Antonio Pedro Timoszczuk

Vice-Coordenador: Luiz Sérgio Mendonça Coelho

Secretário:

INDÚSTRIA DE PETRÓLEO, GÁS, BIOENERGIA, MINERAÇÃO E DUTOVIAS

Assessor Especial: José Eduardo Frasca Poyares Jardim

Coordenador: José Jaime Sznelwar

Vice-Coordenador: João Carlos de Souza Meirelles

Secretário:

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, CONTROLE E AUTOMAÇÃO

Coordenadora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi

Vice-Coordenador:

Secretário:

EQUIPAMENTOS AUTOMOTORES PARA SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO FERROVIÁRIA

Coordenador:

Vice-Coordenador:

Secretário:

INDÚSTRIA QUÍMICA, METALÚRGICA E AUTOMOTIVA

Coordenador: Miguel Tadeu Campos Morata

Vice-Coordenador: Rodrigo Terezinho Pires

Secretário: Fernando Duque Barros

INDÚSTRIA 4.0

Coordenador: Anthony Gaspar Talon

Vice-Coordenador: Elcio Kazuaki Niwa

Secretária: Flávia Bartkevicius Cruz

TECNOLOGIAS RENOVÁVEIS

Coordenadora: Simone Cotrufo França

Vice-Coordenadora: Maristhela Passoni Araújo Marin

Secretário:

DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO

Diretor: Marcio Lacerda Gonçalves

Vice-Diretor:

Secretário: Henrique José Boneti

AGRONEGÓCIO, EQUIPAMENTOS E AUTOMAÇÃO

Coordenador:

Vice-Coordenador: Henrique Dias de Faria

Secretário: Kleber Marins de Paulo

INDÚSTRIA DE ALIMENTOS E ABASTECIMENTO

Coordenador:

Vice-Coordenador: Secretário:

Projeto brasileiro busca independência na produção de superímãs

O Brasil lançou uma iniciativa para dominar toda a cadeia produtiva de superímãs, ímãs permanentes de terras raras, essenciais para setores como energia limpa, mobilidade elétrica e defesa. Com investimento total de R$ 73 milhões, o projeto MagBras – Da mina ao ímã reúne 38 empresas, universidades, centros de pesquisa e startups.

O centro de desenvolvimento, em Lagoa Santa (MG), é um laboratório-fábrica inaugurado em 2024 que combina pesquisa científica, planta-piloto e linha semi-industrial. O espaço permite validar processos e protótipos antes da produção comercial, com capacidade anual de até 100 toneladas de superímãs.

“Temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, e condições para dominar a produção industrial desses materiais estratégicos”, afirma Luís Gonzaga Trabasso, coordenador do MagBras e pesquisador-chefe do Instituto Senai de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser.

Apesar de já controlar 60% a 70% do ciclo tecnológico, o país ainda depende da importação de neodímio metálico, principal componente dos superímãs. (Agência Fapesp)

Reator experimental usa luz para transformar urina em fertilizante

Pesquisadores da Polo-USP (Escola Politécnica da USP) desenvolveram um reator experimental que utiliza luz para transformar urina em fertilizante, oferecendo uma solução sustentável para comunidades vulneráveis e áreas sem acesso a saneamento básico.

O sistema combina energia solar fotovoltaica com um processo eletroquímico para remover amônia da urina e convertê-la em sulfato de amônio, um fertilizante utilizado na agricultura. Uma das inovações do projeto é o uso de baterias para armazenar energia solar, permitindo uma operação contínua e eficiente, mesmo durante períodos sem luz solar direta.

Fatecs passam a oferecer cursos gratuitos de engenharia a partir de 2026

Cursos foram planejados para aproveitar a infraestrutura de laboratórios das Fatecs

As Fatecs (Faculdades de Tecnologia do Estado) vão iniciar no primeiro semestre de 2026 os primeiros cursos gratuitos de engenharia. Serão oferecidos três cursos, cada um com 25 vagas pelo processo seletivo e 15 pelo Provão Paulista: engenharia civil à noite, na Fatec São Paulo; engenharia de produção no período da manhã, na Fatec São José dos Campos Jessen Vidal; e engenharia mecânica à noite, na Fatec Mogi Mirim Arthur de Azevedo. Cada curso terá duração de cinco anos.

Segundo o presidente do Centro Paula Souza, Clóvis Dias, os novos cursos foram planejados para aproveitar as vocações regionais e a infraestrutura de laboratórios das Fatecs, criando sinergia com os cursos tecnológicos já consolidados. A oferta inicial funcionará como projeto-piloto, com possibilidade de expansão para outras unidades.

Apesar dos avanços, o projeto enfrenta desafios, como a necessidade de grandes volumes de urina para produzir quantidades significativas de fertilizante, o que limita sua aplicação em larga escala.

Poli-USP / Amilton Botelho

Obras paradas de Angra 3 geram R$ 1

bilhão por ano em gastos públicos

A paralisação das obras da Usina Nuclear Angra 3, em Angra dos Reis, tem custado cerca de R$ 1 bilhão por ano aos cofres públicos. Com 60% da construção concluída, o projeto está parado desde 2015. A pauta foi tema de audiência pública realizada em 21 de setembro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O TCU (Tribunal de Contas da União) alerta que, sem um encaminhamento, o custo total de Angra 3 poderá ultrapassar R$ 66 bilhões, mais que o dobro do valor originalmente previsto, de R$ 23 bilhões.

“Manter a obra parada é um desperdício enorme. A usina já tem 60% das obras civis concluídas e equipamentos adquiridos, mas continuamos gastando R$ 1 bilhão por ano apenas para manter o projeto parado”, disse Flávia Azevedo, representante da Associação de Trabalhadores da Nuclebrás Equipamentos Pesados.

Gabriela Borsato, diretora da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), acrescentou que a conclusão de Angra 3 traria vantagens econômicas de longo prazo. “Após amortizar o investimento em 20 anos, a tarifa de energia pode cair em até 75%. Além disso, a energia nuclear opera com fator de capacidade de 90%, disponível 24 horas, enquanto fontes renováveis ficam em torno de 40%”, explicou. (Agência Brasil)

Oceano recebe aspirador flutuante de 600 metros para combater poluição

Um computador conectado à internet monitora o desempenho geral e o status da barcaça

Um novo sistema flutuante de limpeza foi lançado para enfrentar a poluição nos oceanos. Com 600 metros de comprimento, o “aspirador oceânico” desenvolvido por engenheiros holandeses funciona como uma barreira gigante que se move junto com as correntes naturais, capturando desde redes de pesca abandonadas até microplásticos.

O sistema direciona os resíduos para plataformas a bordo, onde são armazenados de forma segura para posterior reciclagem ou descarte. Um dos diferenciais do projeto é a operação totalmente sem combustível, utilizando energia solar, movimento das ondas e das correntes marítimas para funcionar.

Testes iniciais indicam que o equipamento já consegue coletar grandes volumes de detritos, oferecendo uma ferramenta promissora na luta global pela preservação dos oceanos e na mitigação dos impactos da poluição marinha.

Rio Ocean Week reforça elo entre saúde, clima e oceanos rumo à COP30

No Museu do Amanhã, o evento reuniu governo, cientistas e sociedade civil para alinhar ações pela vida marinha e pelo clima, fortalecendo a agenda do oceano antes da COP30 em Belém. (Fiocruz)

Eletronuclear

#EngenhariaAgrônomica

#Microbiologia

#Agricultura #Agronegócio

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 18 MINUTOS

Mariangela Hungria, engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa

“Sem

as engenharias, a microbiologia não chega ao agricultor”

RECONHECIDA COMO EMINENTE ENGENHEIRA DO ANO, MARIANGELA HUNGRIA USA A MICROBIOLOGIA DO SOLO PARA REDUZIR EMISSÕES E INOVAR NO AGRONEGÓCIO

• Por Leandro Haberli

Engenheira agrônoma, pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e referência mundial em microbiologia do solo, Mariangela Hungria é uma das vozes mais respeitadas da ciência brasileira. E também uma das que mais acreditam na engenharia como alicerce da sustentabilidade no campo. Formada em 1979 na Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), ela está à frente de pesquisas decisivas para diminuir o impacto ambiental do agronegócio brasileiro.

Ao permitir a substituição de fertilizantes químicos por microrganismos que fixam nitrogênio naturalmente no solo, evitando a liberação de milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera, o trabalho da engenheira também é estratégico para o país na medida em que diminui a histórica dependência do agronegócio, responsável por aproximadamente um quarto do nosso PIB, a insumos importados que pesam na balança comercial e custam centenas de bilhões de dólares todos anos. Afinal, o Brasil importa nada menos do que 85% dos fertilizantes que consome.

Para ela, o caminho para desatar esse nó depende da união entre as ciências biológicas e as engenharias. “O solo é vivo e complexo. A engenharia nos ajuda a entender, modelar e otimizar esse sistema natural”, afirma.

Essa interseção entre o invisível mundo microbiano e a precisão dos cálculos ajuda a entender a trajetória da cientista. Além de ter sido escolhida Eminente Engenheira do Ano pelo IE (Instituto de Engenharia), Mariangela acaba de receber o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o “Nobel da Agricultura”. Também neste ano, foi agraciada com o Prêmio Mulheres na Ciência, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), na área de engenharias.

Mariangela conversou com a equipe de reportagem da Revista Engenharia na sede do IE, pouco antes da cerimônia de entrega do prêmio Eminente Engenheiro do Ano. Além de analisar os desafios e as urgências do agro brasileiro, classificar como “absurda” a dependência externa de fertilizantes e defender a biotecnologia como caminho para a independência produtiva, ela descreveu com entusiasmo contagiante o potencial das biofábricas, drones e inteligência artificial para revolucionar a produção agrícola do país, discorrendo também sobre a corrida por engenheiros capazes de traduzir ciência em escala industrial. “Estamos vivendo a explosão dos biológicos. Mas falta gente com formação em engenharia de processos e produção. Quem tiver esse know-how, tem emprego garantido.”

Para ela, o maior gargalo do agronegócio brasileiro é também a sua maior oportunidade: as pastagens degradadas. “Se recuperarmos essas áreas, podemos dobrar a produção nacional sem derrubar uma árvore”, defende.

Mariangela também falou com emoção sobre as dificuldades e conquistas das mulheres na ciência. Lamentou o machismo que enfrentou na faculdade e as previsões de fracasso, felizmente erradas, quando decidiu se dedicar a fertilizantes biológicos.

Nesta edição comemorativa, o IE presta homenagem a essa profissional que fez da ciência uma ferramenta de transformação social e que enxerga no solo não apenas um recurso natural, mas o ponto de partida para um país sem fome, mais justo e sustentável.

Entrevista

DE QUE FORMA A ENGENHARIA SE MANIFESTA NO SEU TRABALHO DIÁRIO COM MICROBIOLOGIA DO SOLO E BIOTECNOLOGIA AGRÍCOLA?

Eu tive realmente o privilégio de ter essa profissão de engenheira agrônoma. Por quê? Porque é uma profissão que une as duas coisas: a engenharia, mais conectada com as ciências exatas em geral, e a agronomia, vinculada às ciências biológicas.

Então, eu falo que eu não tive que deixar nenhum dos meus amores. Tanto é que, neste ano, eu também tive o privilégio e a grande honra de ganhar o primeiro Prêmio Mulheres na Ciência, do CNPq. E foi na área de engenharias. E é muito interessante, porque, antes, tinha mais o viés biológico. Mas a engenharia ganha cada vez mais força na nossa área. Por exemplo, agora, estamos muito na parte de engenharia de produção para a fabricação de biológicos. Quem tiver esse know-how, tem emprego garantido, pois está faltando gente no mercado. Por isso, tenho trabalhado muito na formação de profissionais na parte de engenharia de processos e engenharia de produção, porque os biológicos finalmente explodiram.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) vai lançar um edital para dez biofábricas, mas não tem gente com formação para delinear como deve ser. Estruturar, ver os equipamentos, maximizar os processos microbianos. Então, a parte mais relacionada às ciências exatas, mais as-

Ninguém falava de vida no solo. E, hoje, a vida no solo é cada vez mais importante e considerada

sociada com o biológico, tem feito parte cada vez mais da minha carreira. Bem, o solo pode ser visto como um sistema vivo, complexo.

E os princípios da engenharia, como modelagem, processos, serviços e ciências, ajudam a compreender e otimizar esse sistema natural. Isso também é muito interessante, porque, quando eu entrei na universidade, em 1976, eu estava analisando basicamente três conceitos. Era dito que a gente jamais ia conseguir ter no Cerrado uma alta produção. Isso porque os cerrados eram solos inférteis, o clima era inóspito e não ia ser possível. Inclusive, graças, em grande medida, à ação de um engenheiro que foi homenageado por vocês, o Alysson Paolinelli, nós criamos a agricultura tropical e o Cerrado hoje é a nossa principal região produtora.

Outro conceito que mudou muito é que, antes, o solo era um conjunto de minerais. Só. Ninguém falava de vida no solo. E, hoje, a vida no solo é cada vez mais importante e considerada. A gente sabe que o solo sem vida não é solo, não serve para nada, porque ele nem consegue sustentar as plantas. E as engenharias, elas estão cada vez mais presentes. Por exemplo, é superimportante aumentar o carbono no solo. A gente fazia muitas análises. Hoje, não. Basta passar um drone com infravermelho. Tudo desenvolvido pela

engenharia. Além de equipamentos, há os algoritmos, os programas de computador. Por todos esses desenvolvimentos, hoje também somos líderes em bioanálise do solo.

Hoje, já estamos com 30 mil análises em todo o Brasil, e sabemos que 67% dos nossos solos estão bem de saúde. O restante está começando a adoecer, e nós temos que cuidar. Todas as ciências trabalham em conjunto em um único objetivo. Não há mais nada que possa ser desenvolvido por uma única ciência. Um problema que a gente não pode deixar de pensar todos os minutos é a segurança alimentar e nutricional.

Eu fui fazer agronomia porque tinha muita dó de ver uma pessoa passando fome. Enfim, eu fui fazer agronomia para produzir alimentos para as pessoas não passarem fome. Só que hoje a gente sabe que produzir os alimentos é só 30% da solução. Também são necessárias políticas públicas, economia, educação, comunicação para resolver o problema da fome. Então, a engenharia está integrada com tudo.

QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DO SOLO?

Pastagens degradadas. Temos 164 milhões de hectares em pastagens, sendo que 60% estão em algum estágio de degradação. E nós temos 80 milhões de hectares com todas as culturas. A gente tem que recuperar essas pastagens. Temos tecnologia para isso. O governo lançou um programa com uma meta de recuperação de pastagens. Se a gente recuperar, podemos duplicar, quem sabe até triplicar, toda a produção nacional sem ter que cortar uma árvore. Então, esse é um problema que vai exigir a ação de todas as ciências: engenharia, agronomia, políticas públicas. Isso sem falar do problema ambiental. Porque, se a gente melhorar a qualidade dessas pastagens, o gado vai emitir menos metano, gás que causa efeito estufa. A agropecuária é o setor que mais emite gás de

Eu fui fazer agronomia para produzir alimentos para as pessoas não passarem fome. Só que hoje a gente sabe que produzir os alimentos é só 30% da solução

efeito estufa no país. Quero dedicar o resto da minha vida a tentar resolver esse problema de pastagens degradadas.

NA PRÁTICA, COMO A ENGENHARIA AGRÍCOLA E A MICROBIOLOGIA SE CONVERGEM NA CRIAÇÃO DE SOLUÇÕES PARA REDUZIR O USO DE FERTILIZANTES QUÍMICOS E PROMOVER A SUSTENTABILIDADE NO CAMPO?

Temos vários processos microbianos. Eu trabalho com aqueles de substituição de fertilizantes minerais. Mas também tem todos os microrganismos que trabalham na parte de controle biológico. Nós, os microbiologistas, procuramos microrganismos, fazemos seleção. A gente pode fazer edição gênica, uma coisa impensável antes. Você pode mudar as letrinhas do DNA para a sua bactéria fazer o que você quer.

Mas como essa solução chega para o agricultor? Os drones e os programas, hoje, facilitam muito o acesso aos dados, mas é preciso ter engenharia de produção para produzir em alta escala, ter dimensionamento, funcionamento, melhoria de processos. Sem isso, o resultado não chega ao agricultor. Não adianta um microrganismo fabuloso no laboratório. É preciso ter escala. Só o mercado desses microrganismos com os quais eu

Entrevista

Estamos importando 85% de todos os fertilizantes que usamos.

Uns oito, dez anos atrás, eram 65%. Mas por quê? Porque já não produzíamos muito. E ainda desmantelaram as indústrias que existiam

trabalho é de 206 milhões de doses por ano. E você não imagina o que a gente tem para crescer. Quase não tem fábricas no Nordeste. Não tem nenhuma na região Norte. Há uma alta demanda de pequenos agricultores que não são atendidos. Sem as engenharias, essa microbiologia não chega ao agricultor.

HOJE, QUAL O NÍVEL DE

DEPENDÊNCIA

DO AGRO BRASILEIRO A FERTILIZANTES VINDOS DE FORA?

É um absurdo a situação do Brasil. Somos um país agrícola. A gente precisa de fertilizantes. Mas estamos importando 85% de todos os fertilizantes que usamos. Uns oito, dez anos atrás, eram 65%. Mas por quê? Porque já não produzíamos muito. E ainda desmantelaram as indústrias que existiam. Agora, estão tentando recuperar. Aquela lá do Mato Grosso do Sul, de Três Lagoas, está sendo recuperada.

Como pode um país em que o agro representa um quarto do PIB, que precisa de fertilizante, ter que importar 85% desses produtos? Se não fossem os biológicos, a gente estaria numa situação muito complicada.

E os biológicos atendem determinados processos, culturas. É o caso da fixação biológica do nitrogênio na cultura da soja, que é o nosso carro-chefe. Se não tivéssemos esse processo, teríamos que ter gastado, só com a cultura da soja no ano passado, 27 bilhões de dólares com a compra de nitrogênio fertilizante. E, tão crítico quanto isso, a gente teria emitido 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Mas os nossos microrganismos não permitiram isso.

Nós também desenvolvemos um novo conceito dos microrganismos ajudando os fertilizantes. Esses microrganismos produzem muitos hormônios, aumentam as raízes da planta. Uma planta com mais raiz absorve mais água e aproveita melhor o fertilizante, evitando que ele seja perdido. Hoje, 85% dos agricultores brasileiros usam essas bactérias todo ano. Eles aproveitam os benefícios que já estão lá no solo. Somos líderes nisso, mas podemos crescer mais ainda. Na agricultura global, hoje, os biológicos representam 15%, 20% no máximo. Mas temos tecnologia para atingir 50%, 60%. O resto, a gente precisa fazer pesquisas, são inovações disruptivas. Mas, hoje, a gente poderia estar usando muito mais.

O QUE LIMITA O USO DE BIOLÓGICOS?

A própria indústria, que quer lucro de curto prazo. E está certa, paga imposto, gera emprego, é importante, mas eles só querem vender soja e milho, embalagens grandes, grandes agricultores. Mas nós temos muitas soluções para pequenos e médios agricultores, que hoje não têm acesso. Neste ano, a gente fez uma primeira tentativa. Foi uma parceria da Embrapa com uma cooperativa, a Coopavel, do Paraná, para tentar fazer esses produtos chegarem ao pequeno e médio agricultor. Será uma super revolução na agricultura brasileira.

VOCÊ TEM UMA TRAJETÓRIA CONECTADA

COM A SUSTENTABILIDADE. QUE PAPEL

A ENGENHARIA PODE DESEMPENHAR NA TRANSIÇÃO PARA SISTEMAS AGRÍCOLAS REGENERATIVOS DE BAIXO IMPACTO?

Um papel muito, muito grande. Todas as engenharias. Porque não adianta fazer uma coisa sustentável se a gente não a prova, não a mede. Um exemplo de como a engenharia pode mudar tudo é a emissão de gás de efeito estufa. A gente precisa fazer um inventário nacional. O negócio é um caos. A gente tem que ter esses números. Nós temos compromissos externos. Temos que comprovar. O meu sonho de consumo é um equipamento que custa R$ 1 milhão. Eu nunca consegui comprar esse equipamento. Agora, junto com os colegas de engenharia, estamos fazendo um protótipo que custa R$ 1 mil. Já estou com 120 no meu laboratório e validamos em dois ensaios. Com ele, a gente consegue medir CO2, NOx, etileno, temperatura, umidade. É uma coisa que vai super revolucionar o mercado. Vai ter uma plaquinha solar. A cada minuto, ele coleta os dados.

Nós temos um problema biológico, que é a emissão de gás de efeito estufa. Como eu vou saber se determinado manejo realmente está diminuindo as emissões? Você tem que medir. Com isso, agora, a gente consegue medir, além de realmente saber como mitigar a emissão de gás de efeito estufa, apresentando dados concretos para a comunidade internacional.

COMO TRADUZIR OS RESULTADOS DE LABORATÓRIOS EM PRÁTICAS AGRÍCOLAS EFICIENTES E ECONOMICAMENTE VIÁVEIS?

São tantos exemplos. Somos o décimo país do mundo que mais tem perdas e desperdícios de alimentos. As perdas, em geral, ocorrem no campo ou no armazenamento. No caso de frutas, a gente perde 70%. Os números são absurdos. As engenharias podem ajudar a reverter esse quadro, com processos

para preparar e manter esses alimentos na pós-colheita.

Estou vendo as engenharias entrando bastante em processamento para conservação de alimentos. Isso inclui nanotecnologia, tipos de embalagens, revestimento de alimentos. A perda maior é para o agricultor.

NA QUESTÃO DO ARMAZENAMENTO, A EMBRAPA TEM ALGUM OLHAR PARA INFRAESTRUTURA DE SILOS, POR EXEMPLO?

Sim. Nós temos uma unidade que trabalha com frutas tropicais e está trabalhando bastante na conservação desses alimentos, fazendo sucos, por exemplo. Na parte de armazenamento, nós temos um déficit de silos. Se der um caos no transporte de caminhões, nós vamos ficar numa situação ainda pior. Porque uma grande porcentagem dos nossos grãos, na verdade, está armazenada nos caminhões. Nós não temos silos. E a parte de silos, nossa, é pura engenharia. Porque é preciso controlar a temperatura, a aeração, a umidade, tudo de acordo com o grão. Um silo que foi feito com má engenharia, certamente, vai dar problema.

Se você conhece pessoas, grupos com conhecimento, é muito mais fácil adquirir conhecimento. E repassar. Por isso, sempre acreditei muito em cooperação

No ano passado, houve um acidente que matou pessoas que estavam trabalhando. Sem controle de temperatura e umidade, os grãos fermentam e a estrutura explode mesmo. Então, na parte fundamental de armazenamento, na qual a gente tem um déficit, as engenharias são muito mais responsáveis do que qualquer ciência biológica.

SUA CARREIRA É MARCADA POR COLABORAÇÕES EM UNIVERSIDADES, CENTROS DE PESQUISA E O SETOR PRODUTIVO. COMO A INTEGRAÇÃO ENTRE ENGENHEIROS E CIENTISTAS PODE ACELERAR A INOVAÇÃO E O GANHO DE ESCALA NA AGRICULTURA?

Olha, eu sou uma apaixonada por ciências. Eu realmente acredito que só com a ciência a gente vai pra frente. Acredito também que a ciência se faz com o conhecimento. Se você conhece pessoas, grupos com conhecimento, é muito mais fácil adquirir conhecimento. E repassar. Por isso, sempre acreditei muito em cooperação. Temos várias cooperações nacionais e internacionais.

Eu também lidero o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Microrganismos na Agricultura. Nós temos parcerias internacionais com todos os continentes. Todos os países, todos os laboratórios acabam trazendo conhecimento. Eu trabalho na Embrapa, foi o meu primeiro e único emprego, mas sempre

trabalhei com universidades. Também oriento, desde que fui pra Londrina, na pós-graduação em microbiologia. Ajudei a criar o curso de biotecnologia, que tem muita engenharia. Isso é importante, porque permite avançar na ciência. Sem os alunos, a gente não consegue dar conta de tudo. Porque não adianta você fazer um trabalho maravilhoso e depois não ter sucessores. Disso eu tenho muito orgulho. Já são mais de 200 orientados, mais de 100 de mestrados, doutorados, que estão trabalhando, alguns no exterior, desde a Amazônia até o Rio Grande do Sul. No setor público, privado, em startups, indústrias. É aquela continuidade não só dos valores científicos, como dos valores éticos que você passa.

No laboratório, todo mundo tem que se ajudar, sem esperar que seu nome vá no trabalho. E dá um orgulho quando você encontra o presidente de uma indústria ou professor de uma universidade que foi seu aluno. É uma inspiração.

O USO DE SENSORES DE AUTOMAÇÃO, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, TEM TRANSFORMADO O CAMPO DOS DADOS. COMO ESSAS FERRAMENTAS PODEM SER ALIADAS DA MICROBIOLOGIA NA BUSCA DE MAIOR PRODUTIVIDADE E MENOR IMPACTO?

Não são aliadas só da microbiologia, e sim de todos os campos da agronomia. Muitas startups estão usando sensores de inteligência artificial na agricultura. Olha, não sei se existe algum campo em que esse uso seja tão profícuo quanto na agricultura. Está havendo uma revolução com aplicativos de celular mesmo. Coisas que a gente tinha que analisar no laboratório, como índice de doença, hoje, o celular já te indica quanto você tem de doença, se está na hora de aplicar alguma coisa.

E hoje, no Brasil, a gente aplica muito mais do que deve aplicar, porque não tinha essas ferramentas, sensores, inteligência artificial, drones. Um dos problemas mais sérios é a

falta de conectividade. A Embrapa Soja fica a 17 km do centro de Londrina, quarta maior cidade do Sul. Você sai na estrada, não pega. O mesmo ocorre no Mato Grosso e em outras partes do país onde o agro é forte.

QUE COMPETÊNCIAS DE ENGENHARIA

SÃO HOJE EM DIA INDISPENSÁVEIS PARA QUEM QUER TRABALHAR COM BIOTECNOLOGIA DE SOLO E SISTEMAS AGRÍCOLAS SUSTENTÁVEIS?

A gente ainda não descobriu um jeito de formar um engenheiro sem ter todos os conhecimentos. Quando você entra na universidade, você tem que ter a base, saber como pensar, ter raciocínio lógico. Eu tenho muito medo de receber texto de aluno feito por inteligência artificial e não saber detectar. No nosso tempo de aluno, a gente usava regras de cálculo. Hoje, ninguém sabe como usar. Em dez anos, a nova geração não vai mais saber multiplicar. Teremos que continuar insistindo no básico, senão as pessoas vão só acreditar no que sai de uma inteligência artificial total.

BOM, VOCÊ É UMA DAS PIONEIRAS NUM CAMPO QUE AINDA É DOMINADO POR HOMENS. COMO FOI ABRIR ESPAÇO PARA

UMA MULHER ENGENHEIRA EM ÁREAS TÉCNICAS E CIENTÍFICAS HISTORICAMENTE MASCULINAS?

As mulheres já são mais de 50% entre as engenheiras. Mas engenheiras pesquisadoras somam apenas 30% do total. O pior não é ser um campo majoritariamente masculino, e sim majoritariamente machista. E a agronomia era, de fato, um ambiente extremamente machista.

Por ser uma engenheira agrônoma que optou pela área dos biológicos, ouvi muito que eu era “delicadinha”, que eu só queria fazer uma “hortinha”. É uma coisa complicada.

E, para complicar mais ainda, eu engravidei por acidente no segundo ano da faculdade, em um ambiente machista. Todo mundo falava que eu tinha acabado com a minha vida, que eu nunca ia ser ninguém. Mas, hoje, eu vejo que mudou, mas não tanto.

Com essa oportunidade de ser nomeada para o World Food Prize neste ano, eu dei muitas entrevistas. E sabe o que me emocionou muito? Sempre era uma engenheira que vinha me entrevistar, sempre mulheres. Nossa, as entrevistas viravam um consultório psicológico, muitas choravam. Tenho duas filhas, uma especial. Então, meu exemplo inspira muitas engenheiras. Mas é muito mais difícil para nós, mulheres engenheiras. A situação ainda é pior do que eu pensava. Temos que fazer alguma coisa para quebrar isso.

As mulheres já são mais de 50% entre as engenheiras. Mas engenheiras pesquisadoras somam apenas 30% do total

” É preciso enxergar como elementos estratégicos para o desenvolvimento do país ciência, tecnologia e pesquisa

PARA MARCOS PONTES, SÓ A EDUCAÇÃO EM ENGENHARIA FOCADA EM PRODUÇÃO PODE AJUDAR A RESOLVER PROBLEMAS ESTRUTURAIS DO BRASIL

• Por Karina Lignelli e José Eduardo Jardim

“Você pode ser tudo o que quiser na vida, desde que estude, trabalhe, persista e sempre faça mais do que esperam de você.” A frase de dona Zuleika Pontes se concretizou. Seu filho, o primeiro brasileiro a viajar para o espaço, agora é senador da República. E, além dos esforços para espalhar lições de persistência e pioneirismo para a “realização de sonhos”, conforme diz, o astronauta Marcos Pontes atua para manter viva uma agenda baseada em ciência, tecnologia e inovação –assim como foi em sua gestão nesse ministério, de 2019 a 2022. O objetivo? Projetar o país além das fronteiras – e até no espaço novamente, se possível, já que não descarta novas missões espaciais brasileiras para a Lua ou até Marte. “Ainda vamos realizar esse sonho de novo”, sinalizou.

Pontes conversou com a Revista Engenharia no dia 8 de agosto, pouco antes do evento sobre sua trajetória realizado no IE (Instituto de Engenharia), em São Paulo. Lá, contou sua história

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 25 MINUTOS

em detalhes, da vida familiar humilde em Bauru, no interior paulista, passando pela formação no ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica) como engenheiro aeronáutico, pela carreira militar, admissão na Nasa em 1998 e “conquista do espaço” na nave Soyuz, em 2006.

Destacou, entre as lições que marcariam sua vida profissional, a noção de que engenheiros não são apenas técnicos, mas “resolvedores de problemas”, citando sua experiência na missão espacial como “mecânico de espaçonaves”, o engenheiro responsável pela manutenção da Soyuz. “Lá, eu era o Scott (da série televisiva Star Trek), o cara que consertava tudo. Essa era, e ainda é, minha missão”, disse, bem-humorado.

Falou também de sua atuação como ministro do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), quando enumerou projetos que continuam em andamento em áreas como biodiversidade, medicina e exploração espacial. Em sua gestão, buscou aproximar jovens da ciência e, hoje, defende ampliar investimentos em pesquisa para que o país

transforme ciência e tecnologia em pilares de desenvolvimento.

Para Pontes, só uma política de Estado sólida, voltada à pesquisa, à inovação e à formação de especialistas ajudará o país a não perder espaço para as grandes potências tecnológicas. “A ciência não pode ser vista como gasto, mas como investimento estratégico”, destaca.

A seguir, confira a entrevista de Marcos Pontes, da qual participaram o presidente do IE, José Eduardo Jardim, e alguns de seus diretores.

COMO UM BRASILEIRO QUE LEVOU NOSSO PAÍS PARA O MUNDO PARA SER RECONHECIDO, COM SUA EXPERIÊNCIA, O SENHOR PODE ORIENTAR NOSSA JUVENTUDE A VENCER NA VIDA DE FORMA CORRETA E HONESTA? PORQUE O BRASIL TEM TUDO PARA ESTAR EM PRIMEIRO NO MUNDO.

Uma coisa que eu tenho notado no Brasil, e isso é preocupante, é que a educação e o foco da juventude são muito dispersos, com eles, de forma geral, buscando soluções rápi-

Marcos Pontes, senador

Linha de Frente

das para a vida, coisa que não existe. Quem é mais velho, como a gente, sabe disso. Não existe esse tipo de coisa: “eu quero ser influencer e ficar bilionário no ano que vem”.

Porém, pior do que quebrar a cara, estamos perdendo a chance de que um monte de talentos trabalhe pelo país. Esses jovens poderiam gerar tanto conhecimento, novos produtos e serviços de forma sólida. E o Brasil, como o senhor falou e com que concordo 100%, tem essa oportunidade na mão. Eu me arrisco a dizer que somos o país do planeta Terra com maior capacidade de gerar recursos, que poderiam ser transformados em bens e serviços, em nota fiscal e emprego. Nós poderíamos e ainda podemos, pois eu sou otimista.

O SENHOR TEVE A OPORTUNIDADE DE VIVER NO BRASIL, DE FREQUENTAR UMA FACULDADE RECONHECIDAMENTE IMPORTANTE, TEM COLEGAS AQUI NO IE. TAMBÉM TEVE A CHANCE DE ESTAR NOS ESTADOS UNIDOS, NA RÚSSIA, DE OLHAR O BRASIL LÁ DE CIMA. COMO É QUE O MUNDO ENXERGA NOSSO PAÍS HOJE?

Embora eu não tenha mais atividades práticas, eu sou embaixador da ONU (Organização das Nações Unidas) para o desenvolvimen-

Eu me arrisco a dizer que somos o país do planeta Terra com maior capacidade de gerar recursos, que poderiam ser transformados em bens e serviços, em nota fiscal e emprego

to industrial. O que percebo é o seguinte: o mundo vê o Brasil por várias perspectivas. Do ponto de vista de recursos naturais, o Brasil é visto talvez como o último cesto de recursos no planeta. Mesmo porque grande parte dos recursos em outros países foi degradada, pois não havia preocupação com o desenvolvimento sustentável.

Ninguém pensava muito em como isso poderia ser feito em harmonia com o restante, ou seja, a parte social e a parte ambiental, que compõem, junto com o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento sustentável.

E o Brasil é, por uma razão ou por outra, uma reserva muito importante do planeta em relação à sua biodiversidade. São os biomas que a gente tem, que incluem reservas minerais, água e todos os recursos do oceano. Por isso, nosso país se tornou um ponto de cobiça de grande parte do planeta Terra, onde esses recursos são escassos, não só pela geografia existente, mas porque foram degradados ou perderam capacidade ao longo do tempo. Por um lado, temos que tomar cuidado por conta das pressões econômicas que vão surgir.

A gente precisa ter esses cuidados em relação ao Brasil e utilizar tudo isso a nosso favor. Temos a chance de ser o maior exemplo do mundo em desenvolvimento sustentável, econômico, social e ambiental. Nesse quesito, o Brasil pode e deve ser exemplo.

SUA GESTÃO À FRENTE DO MCTI FOI MARCADA POR INVESTIMENTOS NAS ÁREAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, BIOECONOMIA, TRANSFORMAÇÃO DIGITAL E STARTUPS. COMO O SENHOR AVALIA O ATUAL MOMENTO DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA NO BRASIL?

Nós escrevemos diversas políticas e planos para vários eixos estratégicos. Entre eles, para energia renovável, terras raras e uma série de pilares de transformação digital. O problema é que também depende de orçamento.

Em 2021, depois de muita conversa com o Congresso e muitas discussões internas para conseguir colocar na pauta a importância do investimento em ciência e tecnologia, nós conseguimos liberar a LC 177, do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que veda a imposição de limites à execução orçamentária e financeira do fundo. Com isso, ele se transformou no principal instrumento público de financiamento em ciência, inovação e tecnologia. O problema é o setor econômico, pois uma boa parte dos investidores, dos tomadores de decisão, não enxerga ciência, tecnologia e pesquisa como elementos estratégicos para o desenvolvimento do país.

QUAL É O PRINCIPAL ENTRAVE?

Muitas vezes, se ouve: “para que investir nisso agora se só vou precisar daqui a 10 anos?”. Daí, prefere-se investir em alguma outra coisa que dê mais visibilidade ou que consiga aparecer mais na parte social.

Nós temos problemas sociais? Temos. Temos um monte deles. E eles vão cada vez se agravar mais se não houver investimento em pesquisa e desenvolvimento. Porque isso é o que vai ajudar a economizar dinheiro no futuro para que as iniciativas sejam mais eficientes. Mas não é assim, e eu fico chateado de ver.

O problema é que você não pode simplesmente chegar e “jogar dinheiro” sem uma estratégia por trás, sem saber para onde esse dinheiro vai. E a estratégia mais eficiente, de novo olhando o exemplo dos países que hoje são desenvolvidos, é a educação focada em assuntos de produção para o país.

É matemática, física, química, engenharia, de forma geral. E a parte biológica também. É preciso também focar na educação de resultados. Depois ter, em paralelo, um investimento consistente em pesquisa, porque, a partir daí, é possível resolver problemas para o país, problemas específicos e ainda achar outras soluções.

Com pesquisadores e cientistas, a gente consegue descobrir as melhores soluções. Aliás, deveria existir sempre um conjunto, um grupo de consultores nos diversos setores da economia, como no MCTI. Lá, há grupos de especialistas, como um que instituímos, o Rede Vírus, um mês antes de começar a pandemia.

ESSE GRUPO ESPECÍFICO CONTINUA? EXISTEM OUTROS SEMELHANTES?

Eles tiveram o seu mandato renovado pelo ministério, mas continuam como um grupo de especialistas para ajudar a tomar decisões eficientes naquele setor. Da mesma forma, há um grupo no setor de telecomunicações, outro de inteligência artificial etc. Esses grupos ajudam muito, mas, para isso, é preciso ter investimento consistente em pesquisa, desenvolvimento e, depois, em novos produtos e serviços.

Depois, é necessário colocar isso no mercado, transformar esse negócio em dinheiro, em nota fiscal e em empregos para o país. É essa visão mais pragmática, essa sistemática, que eu vejo faltar. E falta muito saber dar continuidade.

Eu me lembro de quando cheguei ao ministério, o ministro era o (Gilberto) Kassab, e falei: “quais são os projetos que você tem de

Linha de Frente

mais importantes para dar continuidade?” Ele falou: “deixa-me chamar o secretário executivo”. E eu respondi: “não, quero ouvir de você, da sua cabeça, porque significa que esses são os mais importantes mesmo”.

Ele elencou alguns, como o Sirius (o acelerador de partículas brasileiro do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, em Campinas) e a continuidade do Sirius, que estava lá, mas não era operacional ainda, pois faltavam as linhas de luz. Ele me falou mais alguns, e demos continuidade. Porque não importa o partido do qual você seja, o que importa é dar continuidade. É dinheiro público, não pode variar a direção.

QUAIS OUTRAS INICIATIVAS DA SUA GESTÃO NO MCTI QUE CONTINUAM EM ANDAMENTO?

Tem alguns pontos que precisamos dar ênfase, que são importantes. Em biodiversidade, por exemplo, temos vários projetos nos vários biomas, mas eu vou falar mais da Amazônia, porque é o bioma talvez mais conhecido.

Tem o programa Salas, que é o Sistema Amazônico de Laboratórios-Satélites. São 50 laboratórios: 25 em terra firme, fixos, e 25 flutuantes para pesquisa da biodiversidade. Porque a gente conhece só 4% da biodiversidade da Amazônia, o que é muito pouco ainda. Cada um desses laboratórios tem capacidade para 16 ou mais pesquisadores, do Brasil e de outros países, que podem trabalhar em conjunto.

Lá, eles pesquisam e conversam com a comunidade local. Isso é importante porque quem mora lá há muito tempo sabe que essa plantinha, por exemplo, é boa para cicatrizar, mas não sabem por quê, só sabem que isso vem sendo passado para eles de geração em geração. Aí, o cientista faz análise e manda via satélite para as fábricas de moléculas. Tudo isso faz parte de um sistema maior, o Salas. E ali eles pesquisam.

Temos três fábricas de moléculas em uni -

versidades e centros de pesquisa, que a transformam e sintetizam em moléculas. O que foi sintetizado vem para São Paulo, para Botucatu, no Cevap, na Unesp, que eu chamo de Centro Nacional de Desenvolvimento de Medicamentos. E qual é a ideia? Eles trabalham com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e com indústrias farmacêuticas para desenvolver algo que seja viável na produção. Trabalham com animais peçonhentos, mas também com outros animais, em biotérios, para fazer os testes clínicos preliminares e depois transformar isso em um medicamento.

Além disso, há outras aplicações possíveis, em cosméticos e outras utilizações da floresta em pé para gerar dinheiro para quem mora lá não ser corrompido por aqueles madeireiros incorretos que derrubam as árvores.

ENTÃO, É UMA ESPÉCIE DE INCENTIVO AO EMPREENDEDORISMO NAS COMUNIDADES ONDE TEM PESQUISA?

É. Porque a pessoa tem que sustentar dez filhos e arranjar dinheiro para isso. Se alguém me oferece: “olha, você vai cortar tantas árvores”. Entre a árvore e o meu filho, eu vou pelo meu filho. Isso é óbvio. Mas, se a gente der uma solução para eles, para ganhar dinheiro sem cortar a árvore, para ser parte do seu ganha-pão, o cara vai falar: “você vai cortar”. E ele vai responder: "não, eu vou te denunciar.” Com isso, conseguimos desenvol-

vimento sustentável dando condições para as pessoas que moram lá. O Salas faz parte disso. Outro projeto importante é o Programa Ciência no Mar, do Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), há muito tempo esperado pela comunidade científica, para juntar todos os esforços de preservação e estudos e utilizar os oceanos como fonte de recursos sustentáveis e de proteção.

É de extrema relevância a continuidade do Sirius. Construímos dez linhas de luz. Ainda há mais umas dez pela frente, e uma parte importante é o Laboratório de Biossegurança 4, que foi construído ao lado do Sirius. Porque do Sirius vão sair três linhas de luz que vão entrar no Laboratório de Biossegurança 4. O investimento do Sirius é em torno de R$ 2 bilhões. Eu faço questão de falar esses números, porque dizem: “nossa, é muito caro”. Mas quanto custa a vida de uma pessoa? Quanta gente ele vai salvar? Então, é preciso ver que esse é um investimento com retorno muito grande no futuro.

Também terão outros laboratórios: um de biossegurança 4, e 12 de biossegurança 3. Fizemos a contratação de empresas nos Estados Unidos que constroem esses laboratórios, pegamos três para fazer isso, e os cientistas vão ter capacidade de analisar como o vírus ou a bactéria interage com a célula humana em nível molecular. Saber se ele vai se conectar ali na proteína B1, S1, como o vírus engana a célula para entrar nela.

QUAL O OBJETIVO PRINCIPAL DESSE LABORATÓRIO NO MÉDIO-LONGO PRAZO?

Vai acelerar a produção de vacinas e medicamentos em, pelo menos, metade do tempo. É a única instalação do planeta Terra que tem essa capacidade. O Sirius já é de geração 4. Só existem três desses no planeta.

Em outra área, a de terras raras, por exemplo, demos um empurrão no desenvolvimento. Já temos muita tecnologia para nióbio com a CBMM (mineradora especializada).

Não importa o partido do qual você seja, o que importa é dar continuidade. É dinheiro público, não pode variar a direção

AS TERRAS RARAS ESTÃO ATÉ NO RADAR AGORA POR SEREM CONSIDERADAS ESTRATÉGICAS PARA O ATUAL MOMENTO DE NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS GEOPOLÍTICAS.

Sim. O nióbio, por exemplo, tem grande utilização em vários tipos de material, ligas metálicas, inclusive borracha de foguete, entre uma série de outras aplicações. E a gente tem a melhor tecnologia: 97% do mercado mundial é do Brasil por causa dessa empresa. E vamos incrementar, colocando o nióbio junto com outros elementos, como cobre, estanho, titânio, para fazer supercondutores que operem em temperaturas mais altas.

Também fizemos acordo com o Cern (o laboratório franco-suíço de física de partículas), que estava pendurado na gaveta do ministério durante muito tempo. Fomos lá recuperar diplomaticamente essa vantagem e nossa credibilidade com eles. Falei: “olha, nós vamos participar”. Custa US$ 10 milhões por ano para ser um membro associado do Cern. E não é só isso: não é só a parte acadêmica, com o pessoal do desenvolvimento de supercondutor, pois eles passam tecnologia para nós. Um laboratório de supercondutores em parceria com a CBMM, dentro do Cnpem, vai permitir ao Brasil criar soluções para a área de energia, por exemplo, reduzindo o tamanho de motores para parques eólicos.

Linha de Frente

COMO ESTAVA E COMO FICOU ESSE SETOR COM SUA GESTÃO NO MCTI?

Quando eu cheguei, o espaço era sempre colocado de lado, como uma coisa secundária, ninguém ligava. A agência espacial não tinha recurso, não tinha nada. Aí, eu falei: “continuamos com dificuldade em colocar recursos na agência espacial”. Mas usei todos os meus contatos internacionais para isso, para colocar o Brasil no Projeto Artemis, liderado pela Nasa. Fomos os primeiros das Américas, exceto os Estados Unidos, a participar do retorno à Lua nesta década; Marte, na década seguinte, com espaçonaves novas, asteroides e outras coisas.

Nossas empresas também podem desenvolver nossa engenharia, criar subsistemas para as espaçonaves e equipamentos que vão estar nesses planetas ou nesse empreendimento completo. Além disso, há a possibilidade de ter outros astronautas. Essa parte eu não consegui chegar até o fim lá no MCTI, mas também está indo.

E O CENTRO ESPACIAL DE ALCÂNTARA?

O programa espacial é separado em cinco vertentes, que são satélites, foguetes, lançadores, centros de lançamento, aplicações do espaço e cooperações internacionais.

Então, em todas as áreas ajudamos a avançar o país. Hoje, por exemplo, em satélite,

Em outra área, a de terras raras, por exemplo, demos um empurrão no desenvolvimento. Já temos muita tecnologia para nióbio com a CBMM

nós conseguimos lançar o Amazônia 1, que já estava no início da construção. Obviamente, foi anterior, mas conseguimos chegar ao fim dele. É um satélite com desenho brasileiro construído no Brasil, lançado pela Índia, porque a gente tinha um lançador. É uma operação completamente nacional, que funciona melhor que o C-Bers, parceria com a China.

Por isso que, durante o meu período lá, falamos com a China: “eu vou terminar o programa C-Bers”. Aí disseram: “como é? Está parado desde 1998”. Mas eu lembrei que já temos um satélite nacional, que no campo visual é melhor que o C-Bers. “Vamos prosseguir com vocês, mas eu quero mudar a tecnologia. Eu quero radar de abertura sintética e que o Brasil possa transferir a nossa e vocês possam transferir essa tecnologia para o Brasil”. Então o C-Bers 2 já está 70% pronto. Fui lá no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) outro dia e ele está lá, só que vai usar essa tecnologia de radar de abertura sintética. E por que eu queria isso? Porque com elas você consegue, por exemplo, pegar o desmatamento antes de acontecer.

COMO ISSO É POSSÍVEL?

Porque tem um monte de dosséis nas árvores. Se você usa só no campo visual, verá que teve desmatamento depois de ele acontecer, obviamente. Com o radar de abertura sintética, dá para ver as alterações embaixo dos dosséis. E, antes de cortar uma árvore com um tronco do tamanho dessa sala, eles têm que limpar a área e colocar trator, que está escondido pelos dosséis. Com um radar, você consegue ver. E vai pegar os criminosos antes de fazerem isso. Esse é um exemplo, mas tem outros.

O Centro Espacial de Alcântara também fez um acordo com os Estados Unidos para transformá-lo em um centro comercial. O pessoal criticou: “não pode ser, você vai vender o Alcântara para os americanos”. Falaram

um monte de besteira. Mas isso é um acordo natural de proteção de tecnologia. Pelo menos 80% dos foguetes e satélites do planeta usam algum tipo de tecnologia de empresa americana.

Tem os russos, os chineses, mas sobre o que fala esse acordo? Diz assim: “os Estados Unidos concordam que o Brasil lance qualquer foguete ou satélite de qualquer país que use nossa tecnologia, desde que se comprometa a proteger essa tecnologia para não ser roubada ou copiada”. Só isso, não tem nenhuma interferência, nada disso. Com isso, com o centro operacional, já tivemos lançamentos em parceria com empresas.

Nós fizemos acordo com quatro empresas dos Estados Unidos, uma do Canadá e uma da Coreia do Sul. Da Coreia do Sul já houve lançamento, e há outros 22 previstos. No Senado, o relator da Lei Geral de Atividades Parciais, que divide público, privado, civil e militar, vai permitir atrair muito mais investimento com a Alada (Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil).

O SENHOR JÁ DISSE QUE ESSA EMPRESA

DE PROJETOS AEROESPACIAIS PODE GERAR TANTO DINHEIRO QUE LITERALMENTE FARÁ O SETOR DECOLAR. COMO?

A Alada é uma empresa estatal temporária e independente (criada para atrair investimentos, desenvolver e comercializar esse tipo de projeto) porque ela vai fazer muito dinheiro. Dá para fazer R$ 3 bilhões por ano se a gente pegar 1% do mercado de micro e pequenos satélites do planeta. Com isso, o programa espacial vai ter dinheiro para, literalmente, decolar. E essa empresa é independente porque gera dinheiro para si mesma.

Não depende de cofres públicos e ela é temporária, porque deve durar uns sete anos como empresa estatal e depois será privatizada. Fica ligada ao comando da Aeronáutica até o momento em que o comando se sentir confortável com a separação militar, civil e co-

mercial lá em Alcântara, similar à Nasa com o Cabo Canaveral da Força Aérea.

RECENTEMENTE, O SENHOR CRITICOU A FALTA DE INVESTIMENTO NO PROGRAMA AEROESPACIAL BRASILEIRO. COMO ELE ESTÁ HOJE E QUAIS AS PERSPECTIVAS?

Ele está, digamos, com uma série de possibilidades pela frente. O Brasil precisa perceber a necessidade de investir mais em programa espacial, porque você vê como o pessoal tem falado agora do GPS brasileiro e essas coisas.

Tudo isso depende de tecnologia espacial. Ou seja, a agricultura, com drones e inteligência artificial, dependerá de satélites. Portanto, muitas atividades exigem um programa espacial forte no Brasil. A gente precisa fazer isso, e com a Alada teremos essa oportunidade. Estou em busca também de atrair empresas para participarem aqui no Brasil e criar outros centros espaciais privados a fim de movimentar o setor.

Porque o que gera muito dinheiro são as aplicações espaciais. Para utilizar, por exemplo, dados de comunicação e dados de satélite na geração de empregos, no apoio à agricultura, que é mais fácil de entender, com segurança.

FALANDO DO GPS BRASILEIRO, ESPECIALISTAS DIZEM QUE OS PRINCIPAIS DESAFIOS SÃO CUSTO E COMPLEXIDADE. QUAL SUA AVALIAÇÃO SOBRE A TECNOLOGIA, EM QUE PÉ ESTÁ?

Eu digo o seguinte: é interessante o Brasil desenvolver esse tipo de sistema, mas é preciso fazer as coisas passo a passo. O programa espacial ainda precisa de vários passos até chegar na capacidade de desenvolver um sistema próprio de navegação por satélite. Nós temos, sim, a capacidade de fazer isso, mas a longo prazo. Há a necessidade de um plano bem feito de longa duração, que possamos integrar ao que temos e ao que preci-

Linha de Frente

samos para chegar lá. Eu não sou contra a iniciativa, sou a favor, mas acho que precisa ser feita de uma forma mais realista e sistêmica.

DO

PONTO DE VISTA DA ENGENHARIA, QUAIS OS DESAFIOS TÉCNICOS PARA MANTER ESSA COMPETITIVIDADE DO SETOR ESPACIAL BRASILEIRO NO MERCADO?

O primeiro desafio é técnico, mas um pouco misto, porque também tem o da educação. E começa lá embaixo, que são a promoção e popularização da ciência. Quando estava no ministério, criamos uma secretaria só para isso, copiando a Nasa, que tem um vice-administrador para popularização da ciência. Não adianta ter a tecnologia da Nasa aqui se não tiver jovens interessados em tecnologia.

Por isso, é preciso começar lá na escola, promovendo a ciência, fazendo a formação de professores para ciências, utilizando robótica e astronomia. Há tantas iniciativas que podem ser feitas com os jovens para motivá-los a seguir carreiras em ciência e tecnologia. É necessário começar no ensino profissionalizante.

Os institutos federais de ciência e tecnologia deveriam estar no Ministério de Ciência e Tecnologia, focados em seu desenvolvimento, principalmente em nível técnico.

As universidades públicas são muito lentas para se adaptar às novas tecnologias. É preciso mais velocidade, rapidez nas novas tecnologias e criar cursos para isso acontecer.

O QUE MAIS É PRECISO PARA DESENVOLVER ESSE PONTO?

Voltando ao ponto básico, é incentivar a criação de cursos de engenharia de qualidade no país, não só engenharia em si, mas também as disciplinas complementares, como matemática, física etc. Embora quando a gente fala disso, parece estar falando do passado; não é, é o futuro.

Precisamos incentivar o desenvolvimento de bons cursos de pesquisa. Aí, entra aquele ponto que eu defendo desde o tempo de ministro: o orçamento para isso. Lá no Senado também, é fundamental a manutenção do orçamento para educação, pesquisa e desenvolvimento no país. Tudo isso é possível, e o Brasil pode chegar a esse objetivo por meio de um conjunto de atores, pois não dá para ter um tratamento isolado.

O SENHOR ACREDITA QUE É POSSÍVEL EXPLORAR OS NOSSOS RECURSOS RESPEITANDO O MEIO AMBIENTE?

Plenamente. E a engenharia está no cerne da resposta. Porque, quando você fala, por exemplo, em pegar um ponto que geralmente é complexo do ponto de vista ambiental, como extração de petróleo, falamos assim: “olha, é a exploração de petróleo em grande profundidade, dentro de uma área que se pretende também ter como uma reserva ambiental, pode trazer problemas”. Então, o que vem daí? Possíveis vazamentos de operações incorretas, como no Golfo do México, da BP (British Petroleum), em 2010.

Mas nós temos também a engenharia, a tecnologia para mitigar esses riscos. Ou seja, você reduz a probabilidade de ocorrência de evento catastrófico nesse contexto. Temos essa engenharia que vai ficando cada vez melhor no Brasil, com a Petrobras, uma das empresas de maior tecnologia de prospecção em grande profundidade. É reconhecida pelo mundo todo, e nós temos essa capacidade aqui mesmo.

ESCOLA DE ENGENHARIA MACKENZIE

A Escola de Engenharia (EE) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fundada em 1896, com o curso de Engenharia Civil, se consolidou como um centro de referência em ensino, pesquisa e extensão na área de Engenharia. Atualmente, oferece 8 cursos de graduação, diversos cursos de especialização (Lato Sensu) e programas de mestrado e doutorado.

Os cursos são projetados para integrar pioneirismo, tradição e inovação, com currículos alinhados às demandas do mercado, combinando teoria e prática em modernos laboratórios. A EE também se destaca por seus projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), colaborando com mais de 70 empresas, o que fortalece sua conexão com o mercado de trabalho e gera oportunidades para os alunos. Esse ambiente colaborativo contribui para a alta empregabilidade dos graduados e solidifica a posição da EE como um referencial de excelência no Brasil.

Pós-graduação Lato Sensu:

• MBA em Gestão de Projetos

• Pós em Construções Civis: Excelência Construtiva e Anomalias

• Pós em Engenharia de Segurança do Trabalho

Pós-graduação StrictoSensu:

• Engenharia de Materiais e Nanotecnologia

• Engenharia Elétrica e Computação Mestrado Profissional em Engenharia de Produção

• Turma prevista para o 2º semestre

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Cobertura

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#Embrapa #Evento

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 23 MINUTOS

Ciência e sustentabilidade marcam homenagem a Mariangela Hungria

PESQUISADORA DA EMBRAPA SOJA QUE REVOLUCIONOU O USO DE BIOINSUMOS

NA AGRICULTURA BRASILEIRA É A EMINENTE ENGENHEIRA DO ANO

• Por Leandro Haberli

Aconteceu, no dia 13 de outubro, na sede do IE (Instituto de Engenharia), em São Paulo, a outorga do título Eminente Engenheiro do Ano 2025. Em sua 62ª edição, o reconhecimento marcou os 109 anos do IE e foi entregue a Mariangela Hungria, engenheira agrônoma da Embrapa Soja. Além da homenageada, participaram da solenidade José Eduardo Jardim, presidente do IE; Alfredo Mario Savelli, ex-presidente e presidente do Conselho Consultivo do IE; e João Carlos Souza Meirelles, Eminente Engenheiro do Ano em 1999, que esteve à frente de quatro secretarias do governo do Estado de São Paulo, incluindo a de Agricultura e Abastecimento (de 1998 a 2002).

Há mais de 30 anos, Mariangela pesquisa formas de substituir fertilizantes químicos por alternativas biológicas sustentáveis, em especial os inoculantes, como são conhecidos os produtos com microrganismos que ajudam as plantas a absorverem nutrientes.

Estima-se que os conhecimentos advindos das pesquisas desenvolvidas pela engenheira e sua equipe são aplicados de forma prática em grande parte dos 40 milhões de hectares cultivados com soja no Brasil, beneficiando 85% das 171,5 milhões de toneladas produzidas no ano passado. As tecnologias contribuíram para diminuir a dependência brasileira de fertilizantes químicos

Mariangela Hungria, engenheira agrônoma da Embrapa e Eminente Engenheira do Ano

Fotos: Marcelo
Justo

importados, gerando grande economia para os agricultores e para o país. Ademais, evitaram a emissão de centenas de milhões de toneladas de CO2 equivalente. Além da produção de soja, pesquisas conduzidas por Mariangela beneficiam as culturas de feijão, milho, trigo e pastagens braquiárias.

Formada pela Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo), com mestrado em solos e nutrição de plantas, pela mesma instituição, Mariangela é doutora em ciência do solo pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e tem pós-doutorado em três universidades internacionais. Desde 1991 na Embrapa Soja, instituição situada em Londrina (PR), a engenheira possui mais de 500 publicações científicas e já orientou mais de 200 alunos de graduação e pós-graduação.

Comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e também da Academia Mundial de Ciências, Mariangela é professora e orientadora da pós-graduação em microbiologia e em biotecnologia na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Atua também na Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e na Sociedade Brasileira de Microbiologia.

Estima-se que os conhecimentos advindos das pesquisas desenvolvidas pela engenheira e sua equipe são aplicados de forma prática em grande parte dos 40 milhões de hectares cultivados com soja no Brasil

Cobertura

Por sua contribuição ao desenvolvimento de insumos biológicos para a agricultura, foi anunciada, em maio deste ano, como vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), considerado o “Nobel da Agricultura”. Mariangela foi a primeira brasileira a ser agraciada com tal reconhecimento. A solenidade de entrega do prêmio ocorreu em 23 de outubro, nos Estados Unidos, poucos dias após o evento no IE.

Também em 2025, Mariangela recebeu o prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), em parceria com o Ministério das Mulheres, o British Council e o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe).

Orgulho pela agronomia e perseverança na ciência

Mariangela iniciou seu discurso de agradecimento falando do orgulho e da alegria de ser engenheira agrônoma. “Na nossa profissão, temos o privilégio de não precisar abdicar das ciências exatas nem das ciências biológicas. Nós temos tudo. Se existe uma profissão perfeita, é certamente a de engenheiro agrônomo.”

Ela também ressaltou que havia muitos educadores na sua família, incluindo sua avó e sua mãe, que eram professoras de escola pública. Embora ninguém tivesse ligação com a área, ela foi fazer agronomia para achar uma maneira de erradicar a fome no mundo.

Quanto ao interesse por microbiologia, explicou que ele surgiu aos 8 anos, quando sua avó lhe deu um livro sobre o tema. “Aquilo me fascinou. Eu falei: ‘vó, quero ser uma microbiologista, mas para produzir alimentos’. E foi a isso que dediquei minha vida.”

O início, ela contou, não foi fácil. Mariangela lembrou que, quando ingressou na Esalq, em 1976, a chamada Revolução Verde vivia seu apogeu, com o melhoramento das plantas e a adição de adubos químicos revolucionando a produção de alimentos mundo afora.

Mariangela prosseguiu afirmando que havia a perspectiva de muita fome na época, porque a população, segundo a teoria de Malthus, crescia exponencialmente e a produção de alimentos estava empacada. Mas, ainda segundo ela, o engenheiro agrônomo Norman Borlaug mostrou que, por meio do melhoramento da adubação química, a produção de alimentos poderia aumentar muito. Por esse feito, ele recebeu o Nobel da Paz.

“Na nossa profissão, temos o privilégio de não precisar abdicar das ciências exatas nem das ciências biológicas. Nós temos tudo”, disse Mariangela

Mariangela Hungria com Vahan Agopyan e João Carlos Souza Meirelles
José Eduardo Jardim, Mariangela Hungria, Alfredo Mario Savelli e João Carlos Souza Meirelles

“Mas eu tinha dentro de mim a certeza de que havia espaço para os biológicos. Quando me formei, muita gente me disse que eu não deveria seguir esse caminho, que ele não tinha futuro. Mas eu tinha a minha certeza e nunca desviei um centímetro dela, por mais que ouvisse que estava jogando a minha carreira fora. A perspectiva diferente que lancei era a de que os biológicos também podiam ser usados em larga escala, não apenas em agricultura familiar. Quando eu tive a oportunidade de ter o meu próprio laboratório, eu falei: ‘quero um biológico que atinja o máximo de produtividade’. Essa visão nos diferencia no mundo hoje, porque nós conseguimos ser os maiores exportadores de soja, tendo a mais alta taxa de uso de biológicos. Isso mostra que é preciso ter perseverança, persistência, resiliência e não desistir dos sonhos.”

Em seguida, Mariangela enalteceu a Embrapa e destacou o retorno à sociedade dado pela empresa. “Eu devo tudo à Embrapa, uma instituição pública que, por quatro décadas, acreditou em biológicos, começando em uma época em que ninguém acreditava nisso. As pesquisas que desenvolvemos na Embrapa possibilitam a economia de muito dinheiro aos produtores e ao país, além de mitigar milhões de toneladas sobre o CO2 equivalente. É isso que uma empresa pública faz. Ela dá retorno à sociedade.”

Mariangela destacou o empenho das mulheres nas pesquisas envolvendo engenharia agrônoma e a importância do olhar feminino para a preservação do solo.

“A agricultura do futuro é uma agricultura feminina. Não quero dizer que seja só de mulheres. Mas noto que muitos homens que vão conversar comigo na Embrapa querem ser os campeões de produtividade. Por sua vez, as mulheres que me procuram querem saber sobre a saúde do solo. Eu diria que pensar na qualidade do solo para as próximas gerações é uma preocupação feminina. Nós, engenheiras agrônomas, merecemos ser reconhecidas por essa visão de futuro. Infelizmente, ainda somos apenas 30% das engenheiras que fazem ciência no país. Precisamos aumentar isso. Na agricultura, área em que, mais do que produzir alimento, devemos pensar em segurança alimentar, as mulheres são fundamentais. Elas estão em toda a cadeia. Só que o papel e a relevância delas, em geral, têm menos visibilidade. Não adianta sermos os maiores produtores de tantas culturas se tivermos um único brasileiro passan-

Mariangela recebe certificado das mãos do presidente do IE, José Eduardo Jardim

“Eu diria que pensar na qualidade do solo para as próximas gerações é uma preocupação feminina. Nós, engenheiras agrônomas, merecemos ser reconhecidas por essa visão de futuro”, conta Mariangela

Cobertura

do fome. Durante a pandemia, chegamos a 33 milhões de pessoas em condição de insegurança alimentar grave. É um absurdo. Graças a Deus, agora deixamos essa situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), mas ainda temos brasileiros passando fome.”

Para Mariangela, é imprescindível valorizar as mulheres que contribuem para mudar essa situação, desde as que atuam em hortas domésticas, salvando as melhores sementes para a safra seguinte, às que transmitem conceitos de nutrição e alimentação adequada para as novas gerações, passando pelas comunicadoras e indo até as engenheiras agrônomas, que trabalham na produção, na extensão agropecuária e na pesquisa.

“Tenho muito orgulho de ser uma engenheira agrônoma e me sinto muito, muito agradecida por essa visibilidade que o IE está dando ao papel das mulheres na engenharia”, finalizou.

Após a fala de Mariangela, a engenheira Miriana Pereira Marques, vice-presidente de Administração e Finanças do IE, cumprimentou a homenageada e lhe entregou flores.

IE celebra 109 anos e reforça legado da engenharia nacional

Em seu discurso na cerimônia, o presidente do IE explicou com bom humor, que sofreu uma queda em um evento no próprio instituto há cerca de dois meses. Por isso, teve que ser submetido a uma cirurgia no joelho e estava de cadeira de rodas. Após arrancar risadas do público com piadas sobre o problema, Jardim agradeceu a presença de todos e destacou os serviços prestados pelo IE ao longo de seus 109 anos. “Uma caminhada de mais de um século a serviço da engenharia, do desenvolvimento e da qualidade de vida da sociedade”, frisou.

Em seguida, Jardim saudou os eminentes engenheiros de anos anteriores que estavam presentes, além de ex-presidentes do IE, associados, colaboradores e amigos.

“Em 1961, me associei ao IE, logo após a graduação em engenharia civil pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo). E, desde sempre, acompanhei, nesta casa, praticamente todos os assuntos de engenharia que já foram objeto da margem de debate em nossa entidade”, disse, acrescentando que a ideia de criar o IE surgiu quando um grupo de engenheiros se

Cerimônia foi realizada no Auditório Francisco de Paula Ramos de Azevedo do IE
Público aplaude Mariangela Hungria após seu discurso
Colegas de Esalq presentes na Cerimônia

indignou com a decisão do então prefeito de São Paulo, Barão de Duprat, de contratar um urbanista francês para conduzir grandes projetos da cidade.

“Aquele grupo iniciou um movimento em defesa de que profissionais brasileiros desenvolvessem os projetos da nação. Assim, em 1916, esse grupo se reuniu na Poli-USP e fundou o IE, que teve como primeiro presidente Antônio Francisco de Paula Souza”, rememorou, citando o professor nascido em Itu que viveu de 1843 a 1917, fundou a Poli-USP e trabalhou para o desenvolvimento da infraestrutura do Brasil.

O presidente do IE também falou sobre a estrutura da entidade, que é composta por seis departamentos, 34 divisões técnicas e diversos grupos de trabalho. Jardim destacou ainda alguns projetos que o IE tem acompanhado de perto, como a introdução do VLT na cidade de São Paulo; o desenvolvimento das hidrovias urbanas, em especial o Aquático São Paulo, que conecta os bairros Grajaú, Cocaia e Pedreira, na zona sul da cidade; o potencial de produção de óleo e gás na Margem Equatorial, na Bacia de Pelotas e nas reservas ainda não exploradas da Bacia de Santos; a preservação do abastecimento de água pela Represa Guarapiranga, responsável por atender 20% da Região Metropolitana de São Paulo; a nova ligação do planalto à Baixada Santista; e a construção do túnel Santos-Guarujá.

Jardim também comentou sobre as recentes visitas de autoridades ao IE, a começar pelo vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, que se debruçou sobre as PPPs (Parcerias Público-Privadas), privatizações e concessões, passando pelo vice-prefeito de São Paulo, coronel Melo Araújo, que focou nas iniciativas voltadas à promoção da segurança pública na cidade, e pelo secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Jorge Lima, que frisou a importância da atração de investimentos para o desenvolvimento de grandes projetos de engenharia.

Sobre as parcerias do IE com outras instituições, Jardim destacou dois termos de cooperação técnica. O primeiro, firmado com o TCM-SP (Tribunal de Contas do Município de São Paulo) e com o Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo), é voltado à capacitação de profissionais na metodologia BIM (Building Information Modeling), usada para criar e gerenciar informações de projetos de construção por meio de modelos digitais tridimensionais. O segundo, com o Ipen

“Tenho muito orgulho de ser uma engenheira agrônoma e me sinto muito, muito agradecida por essa visibilidade que o IE está dando ao papel das mulheres na engenharia”, finalizou Mariangela
Mariangela Hungria, recebe de Miriana Marques um buquê da homenagem

Cobertura

(Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), envolve a promoção de atividades relacionadas ao uso de tecnologia nuclear para fins pacíficos, em especial a irradiação de alimentos, com o objetivo de descontaminá-los, garantindo, assim, maior vida útil e evitando desperdício.

Por fim, Jardim destacou o notável currículo de Mariangela Hungria e celebrou a crescente presença de mulheres na diretoria, conselhos e corpo técnico do IE. “O que antes era uma entidade majoritariamente masculina vem se transformando com a presença cada vez mais expressiva de engenheiras, que contribuem ativamente nos debates, nos estudos, nas ações externas e nas decisões que escrevem os capítulos da nossa história.”

Tal inserção, prosseguiu, também se reflete nas premiações e na outorga do título de Eminente Engenheiro do Ano, que, em 2022, foi entregue a Monica Ferreira do Amaral Porto e, em 2025, a Tânia Cosentino.

Engenharia que muda o mundo

A cerimônia de outorga do título de Eminente Engenheiro do Ano a Mariangela também contou com uma fala inspirada do engenheiro e produtor rural João Carlos Souza Meirelles, que classificou a solenidade como um “momento absolutamente ímpar na história” por homenagear alguém que está “produzindo engenharia para mudar o mundo”.

Após classificar a vocação de Mariangela como “insopitável” (irrefreável), Meirelles falou da infância da homenageada, revelando laços familiares com ela: Mariangela é sua sobrinha. “Eu conheço sua história. Mariangela nasceu em São Paulo, mas foi criada em Itapetininga. Ela morava com seus pais ao lado da casa dos avós, que eram a minha sogra e o meu sogro. E, desde pequena, tem compromisso social com a cultura e com aquilo que importa ao país. Já engenheira agrônoma, dedicou seu saber e sua pesquisa não para ganhar dinheiro, mas para produzir os efeitos que hoje está produzindo”, disse Meirelles, acrescentando que Mariangela ingressou na Esalq em uma época em que poucas meninas estudavam lá. Meirelles destacou que as pesquisas conduzidas por Mariangela permitem aumentar a produtividade no campo preservando o solo e as águas. “Não estamos falando de conservação como alguma coisa poética, mas como algo que diz respeito à sustentabilidade econômica, social e ambiental. Ou seja, trata-se de um conjunto

“Não estamos falando de conservação como alguma coisa poética, mas como algo que diz respeito à sustentabilidade econômica, social e ambiental”, disse Meirelles

José Eduardo Jardim, Mariangela Hungria, Miriana Pereira Marques, Alfredo Mario Savelli, João Carlos Souza Meirelles
Mariangela recebe os convidados no Pavilhão de eventos

articulado de ações que a agronomia, como parte das engenharias e junto com a biotecnologia e as matemáticas, está oferecendo para mudarmos a realidade brasileira. O Brasil, hoje, é o maior exportador mundial de soja, passou os Estados Unidos na exportação de milho, é o maior exportador mundial de carne bovina, o maior exportador mundial de aves e o quarto maior exportador de carne suína. Esses bovinos, suínos e aves estão comendo soja, milho. Evidentemente, nos resta um desafio: fazer com que essas tecnologias cheguem ao pequeno produtor. E essa é a missão que ainda resta a Mariangela nas próximas dezenas de anos de vida que ela tem pela frente.”

Cerimônia reúne autoridades e engenheiros de diversas áreas

Seguida de coquetel oferecido no pavilhão de eventos do IE, a entrega do título foi conduzida pelo mestre de cerimônias Sidney Botelho e realizada no Auditório Francisco de Paula Ramos de Azevedo. Além de personalidades e profissionais do setor, o evento contou com a presença de agrônomos formados na Esalq, incluindo colegas de turma de Mariangela, representantes de instituições de ensino, de entidades representativas e de autoridades municipais, estaduais e federais, incluindo o presidente da Sobratema (Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração), Afonso Mamede; o presidente da Abifer

(Associação Brasileira da Indústria Ferroviária), Vicente Abate; o CEO do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), Humberto Casagrande; o reitor do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia, Marcello Nitz; o secretário-executivo do Governo do Estado de São Paulo, Marcos Penido; o presidente da SP Urbanismo, Pedro Martins Fernandes; o presidente da CAF Brasil, Renato Meirelles; o ex-embaixador Rubens Barbosa; o reitor do Centro Universitário FEI (Fundação Educacional Inaciana Padre Sabóia de Medeiros), Vagner Bernal Barbeta; o presidente do Tribunal de Contas do Município de São Paulo, Domin -

gos Dissei; o almirante de esquadra Alexandre Rabello de Faria; o superintendente de Desenvolvimento de Infraestrutura do Porto de Santos, Luiz Felipe Távora; o diretor de agronegócios da Business France Brasil, André Jürgens Rios; o presidente do Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo), Antônio de Souza Ramalho; o engenheiro Flávio Galvão, da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos; os conselheiros e ex-presidentes do Instituto de Engenharia o engenheiro Edemar de Souza Amorim, o engenheiro Eduardo Ferreira Lafraia e o engenheiro Paulo Ferreira.

A Embrapa Soja, uma das 43 unidades da Embrapa, localizada em Londrina (PR), completa 50 anos. A instituição teve protagonismo no desenvolvimento da soja brasileira, tanto que desenvolveu cerca de 440 cultivares de soja. Para apoiar os programas de melhoramento genético, a Embrapa Soja possui um dos maiores bancos ativos de germoplasma de soja do mundo - uma coleção de sementes com mais de 65 mil acessos de soja. Atualmente, a Embrapa Soja vem fortalecendo suas ações em quatro eixos de pesquisa: genética avançada, bioinsumos, soja baixo carbono e agricultura digital.

Elizeo Garcia/ Arquivo Embrapa

#OpenBIM #Obras #GestãoPública #Governança

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 25 MINUTOS

BIM na gestão pública:

tecnologia, engenharia e transparência

COM LIDERANÇA TÉCNICA E VISÃO ESTRATÉGICA, O TCM-SP APOSTA NA METODOLOGIA BIM PARA TRANSFORMAR A FISCALIZAÇÃO DE OBRAS PÚBLICAS, INTEGRAR PROCESSOS E ELEVAR O PADRÃO DA GESTÃO URBANA

Atecnologia BIM ( Building Information Modeling ) está deixando de ser uma promessa e se consolidando como ferramenta essencial na modernização da gestão pública. No TCM-SP (Tribunal de Contas do Município de São Paulo), essa virada é liderada por Domingos Dissei, primeiro engenheiro civil a ocupar a presidência da instituição.

“A formação em engenharia civil imprime método, lógica, análise quantitativa e criatividade à gestão e leva a priorizar processos robustos e tecnologias que integrem pessoas, dados e fluxos de trabalho ao longo de todo o ciclo de vida dos empreendimentos”, afirma Dissei. Para ele, o BIM é exemplar nesse sentido. “Modelos colaborativos permitem antecipar problemas e decidir com base em evidências, elevando eficiência, qualidade e economicidade.”

A metodologia BIM, que não se resume a um software, mas sim a uma abordagem integrada de projetos, execução e operação, já apresenta diferentes níveis de maturidade no Brasil, como nos explicaram os especialistas no tema. “Observamos um estágio bastante amadurecido de implantação em projetos e obras industriais, estágio avançado em edificações e um intermediário em obras de

infraestrutura”, aponta Marco Giusti, diretor-executivo da Melhores Rodovias do Brasil –ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias).

Especialistas em obras públicas e novas tecnologias apontam que a utilização de processos BIM tem um impacto ampliado se adotada em todas as etapas, inclusive nas fases preliminares ao projeto, como o levantamento de requisitos e estudos de viabilidade. Da mesma forma, é preciso destacar a importância do conceito openBIM, que utiliza padrões abertos e normas ISO para garantir interoperabilidade entre plataformas — um ponto crítico para a administração pública.

A adoção da metodologia também exige uma mudança cultural e técnica. “Os engenheiros sabem que a adoção do BIM e toda a digitalização da engenharia que vem a reboque não são mais uma opção”, afirma Fábio Fujii, consultor de projetos de engenharia. Na prática, o BIM é uma ferramenta que integra vários processos e pessoas, permitindo que todas as equipes envolvidas participem do processo de pré-construção, análise de custos, planejamento de logística, execução e pós-obra, algo fundamental nos processos do TCM-SP.

Para se ter uma ideia da evolução do BIM no mercado, o valor global estimado de BIM

é de 10,7 bilhões de dólares até 2026, impulsionado pela digitalização da construção civil e pela demanda por eficiência nos investimentos públicos. No Brasil, iniciativas como a Estratégia BIM BR e o Marco Legal do Saneamento reforçam a urgência de incorporar essa metodologia à infraestrutura nacional. Por isso, a proposta do TCM-SP é clara: usar engenharia e tecnologia para garantir que cada recurso público seja aplicado com responsabilidade, rastreabilidade e impacto real na vida urbana.

Ganhos na fiscalização

A adoção do BIM pelo TCM-SP representa um salto qualitativo na fiscalização de obras públicas. Ao integrar dados técnicos, finan-

A proposta do TCM-SP é clara: usar engenharia e tecnologia para garantir que cada recurso público seja aplicado com responsabilidade, rastreabilidade e impacto real na vida urbana

Edifício do TCM-SP é marco arquitetônico em São Paulo

Novas Tecnologias

ceiros e operacionais em modelos digitais, a metodologia permite uma atuação mais precisa, preventiva e transparente.

“Em custos, o BIM associa cada elemento a quantidades, especificações e preços, produz orçamentos coerentes com o projeto, habilita a detecção de conflitos, simulações

“O BIM desloca a fiscalização do reativo para o proativo, registra digitalmente todas as etapas, facilita a verificação

de cronogramas e orçamentos e dá suporte a auditorias com informações acessíveis ao público”, ensina Dissei

de cenários como prazo, escopo, logística e garante rastreabilidade de insumos e serviços”, explica Dissei, que acredita que a abordagem reduz desvios entre o previsto e o realizado, diminui aditivos contratuais e gera economia ao erário.

Além disso, o BIM amplia o alcance da fiscalização com modelagem digital, verificações parametrizadas e coordenação multidisciplinar, acelerando prazos e reduzindo erros. “O BIM desloca a fiscalização do reativo para o proativo, registra digitalmente todas as etapas, facilita a verificação de cronogramas e orçamentos e dá suporte a auditorias com informações acessíveis ao público”, ensina Dissei.

A tecnologia também fortalece a governança, respeitando a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e os direitos autorais. Marcus Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo, reforça que “a utilização de processos BIM tem um impacto ampliado se adotada em todas as etapas, inclusive nas fases preliminares ao projeto, como o levantamento de requisitos e estudos de viabilidade.”

Com o avanço do chamado data-driven (orientado por dados) BIM, em que decisões são tomadas com base em dados de desempenho, seu uso é potencializado pelo uso de IA (inteligência artificial). Em resumo,

Marcus Granadeiro, sócio-diretor da Construtivo
Domingos Dissei, presidente do TCM-SP
Fábio Fujii, consultor de projetos de engenharia

uma licitação realizada com base em processos BIM tem a tendência de ser tecnicamente mais assertiva, reduzindo riscos e futuras pendências jurídicas.

Projetos-piloto e o TCM-SP

A implementação do BIM na gestão pública paulistana já conta com ações concretas sob supervisão do TCM-SP. Segundo Dissei, presidente do Tribunal, o trabalho avança em duas frentes: junto aos órgãos da prefeitura e dentro da estrutura técnica da Corte. “Promovemos a indução e o alinhamento técnico com os jurisdicionados por meio de encontros no plenário do TCM-SP, um em abril e outro em setembro de 2025, reunindo gestores e especialistas para impulsionar contratações com BIM”, revela.

A iniciativa culminou na criação da Comissão Especial de BIM, formalizada pela Portaria n.º 376/2025, que vem acelerando a definição de diretrizes e boas práticas.

Internamente, o Tribunal criou ainda a Utae (Unidade Técnica de Arquitetura e Engenha-

A proposta do TCM-SP é clara: usar engenharia e tecnologia para garantir que cada recurso público seja aplicado com responsabilidade, rastreabilidade e impacto real na vida urbana

ria), responsável por capacitar servidores e preparar a adoção da modelagem digital em projetos e auditorias. “Estamos em fase de treinamento com a meta de realizar, em 2026, a primeira contratação do TCM-SP utilizando a modelagem de forma abrangente”, completa o presidente.

Termo de cooperação

A capacitação técnica em larga escala é um dos pilares da estratégia do TCM-SP para consolidar o uso do BIM na gestão pública. Com a assinatura do Termo de Cooperação Técnica e Institucional com o Crea-SP, o Tribunal passou a contar com o programa Crea-SP Capacita, que oferece cursos, trilhas formativas, workshops e palestras voltados às necessidades específicas dos servidores do TCM e das secretarias municipais.

“O eixo central é a capacitação em escala e sob medida”, afirma Dissei. “As ações são definidas a partir de pesquisas com os servidores e incluem também consultas e orientação sobre a utilização do BIM para técnicos e auditores”, completa ele.

Além disso, a parceria com o IE fortalece a vertente prática da formação, com o uso do Laboratório BIM Centro de Treinamento Sebastião Camargo, que permite simulações e treinamentos aplicados à realidade dos projetos públicos. “Com isso, aceleramos a qualificação das equipes, padronizamos requisitos e rotinas e damos segurança técnica para contratar, gerir e acompanhar obras em BIM no âmbito municipal”, completa Dissei.

A iniciativa representa um passo decisivo para nivelar o conhecimento técnico entre os profissionais do setor público e da iniciativa privada, promovendo uma gestão mais eficiente, transparente e orientada por dados.

Trajetória de Domingos Dissei

Nascido em 1953, no bairro do Ipiranga, Domingos Dissei construiu uma carreira pública marcada pelo compromisso com os mais vulneráveis. Como vereador da Câmara Municipal de São Paulo, apresentou mais de 150 projetos de lei voltados a pessoas com deficiência, idosos, moradores de periferia, crianças em idade escolar e cidadãos de baixa renda. E, desde o início, demonstrou entusiasmo pela tecnologia como ferramenta de inclusão e eficiência.

À frente do Núcleo de Tecnologia da Informação do TCM-SP, Dissei liderou iniciativas que colocam a inovação no centro do controle externo. “No início dos anos 2000, propor a integração digital de bancos de dados para agilizar a busca por desaparecidos soava quase futurista, mas a ideia central já era clara: informação salva vidas quando há integração efetiva entre órgãos e sistemas”, alerta. Hoje, com o uso de IA, BIM, georreferenciamento e análise de dados, o Tribunal avança na transformação digital, alinhado a plataformas como GeoSampa, gov.br e Smart Sampa.

“Chegar ao cargo de conselheiro e, atualmente, à presidência do TCM-SP é a coroação de uma vida dedicada aos estudos, ao aprimoramento técnico e ao serviço público”, resume Dissei. Com mais de 13 anos no Tribunal, ele lidera a agenda de inovação com foco em controle preventivo, transparência e eficiência. E reconhece o papel fundamental do corpo técnico e dos demais conselheiros na construção de uma gestão moderna e colaborativa. “O trabalho coletivo é o que nos permite avançar e entregar resultados cada vez melhores à sociedade”, finaliza.

O executivo da Construtivo, por sua vez, reforça que “o movimento de projetos-piloto é essencial para consolidar o uso da metodologia. Todos estão, de certa forma, se movimentando e buscando entender e aprender os processos”. Ele cita como exemplo a restauração do Museu Nacional, na qual o conceito de openBIM foi aplicado com sucesso. “Foram integradas diversas plataformas, o que resultou em um modelo muito interessante”. A consolidação do BIM como ferramenta institucional no TCM-SP passa por uma estratégia estruturada de capacitação, infraestrutura e articulação técnica. “A administração pública deve ser um agente indutor da implantação do BIM no país, e isso demanda servidores com competência técnica equiparável à da iniciativa privada”, compara Dissei. Nesse sentido, o Tribunal tem investido em formação continuada, com apoio de parceiros como o Crea-SP e o IE (Instituto de Engenharia), além de participar de cursos e intercâmbios com instituições que já adotam a metodologia.

A estrutura interna também foi reforçada para acompanhar essa evolução. O TCM-SP adquiriu equipamentos de alto desempenho e licenças específicas para softwares de modelagem, garantindo que os técnicos tenham acesso às ferramentas necessárias para realizar auditorias mais precisas e baseadas em dados.

A meta é tornar os processos de fiscalização mais técnicos e preventivos, com maior rastreabilidade e controle. Em resumo, a incorporação do BIM aos fluxos de trabalho do Tribunal representa não apenas uma modernização tecnológica, mas uma mudança de cultura institucional, voltada totalmente à eficiência, à transparência e à responsabilidade com os recursos públicos.

BIM no setor público

A incorporação do BIM na administração pública, no entanto, não se limita à execução de obras; ela redefine a forma como os da-

dos são gerados, compartilhados e utilizados para tomada de decisão. E, claro, os próprios arquivos e dados, principalmente ao adotar o padrão openBIM, são fontes primárias para as auditorias e fiscalizações.

Devemos ressaltar a norma ISO 19.650-2, que orienta o fluxo de informação na Capex (fase de investimento) como referência para estruturar processos públicos com maior rastreabilidade e transparência. “Entender e ter acesso ao CDE (Common Data Environment ou Ambiente Comum de Dados), sistema que gerencia todas as informações dos processos BIM, é essencial para garantir controle e governança”, afirma o executivo da Construtivo.

A experiência acumulada pela Construtivo, desde 2000, em obras públicas reforça o potencial da metodologia e sua usabilidade pelo Tribunal. Granadeiro lembra, inclusive, que a cidade de São Paulo foi pioneira ao integrar BIM com blockchain em contratos de fiscalização, como nos casos das reformas do Autódromo de Interlagos e da Ponte Estaiada.

No setor de saneamento, Fujii também destaca que “a utilização é limitada, mas há sinalização de grande evolução no curto prazo. O BIM é, definitivamente, parte da solução”, afirma. Ele participou do desenvolvimento, em 2014, do primeiro projeto de estação de tratamento de esgoto executado em BIM. A adoção da metodologia é impulsionada por diretrizes nacionais, como a Estratégia BIM BR e o Marco Legal do Saneamento Básico, que reforçam a urgência de modernizar a infraestrutura com foco na universalização e na eficiência.

É preciso vincular o BIM ao conceito de cidades inteligentes. Afinal, ambos são conceitos completamente conectados. Como exemplo, existe a cidade-estado de Singapura, onde a tecnologia da LeapThought integra processos de BIM de todas as agências públicas, contribuindo para um projeto urbano moderno, digital e sustentável. Tal integração entre planejamento urbano, dados abertos e modelagem digital aponta para um futuro em

que a gestão pública será cada vez mais técnica, conectada e centrada no cidadão.

Principais gargalos

Apesar dos avanços e do potencial transformador da metodologia BIM, sua adoção em larga escala na gestão pública ainda enfrenta obstáculos estruturais. Para o presidente do TCM-SP, os principais desafios estão concentrados em três frentes: capacitação, interoperabilidade e financiamento. “É preciso treinamento dos colaboradores, formação continuada e mudança cultural para superar a lógica 2D e adotar fluxos digitais colaborativos”, pontua.

A interoperabilidade entre plataformas e padrões distintos também dificulta a troca de informações entre órgãos e empresas, exigindo padronização de dados. Já no campo institucional, os custos de implementação, que envolvem software , hardware e capacitação, somam-se a processos licitatórios desatualizados e à ausência de incentivos ou coordenação de longo prazo. “Apesar do investimento inicial, os ganhos em transparência, eficiência e redução de custos ao longo do ciclo de vida justificam a adoção, que precisa ser tratada como política de Estado”, reforça Dissei.

Na cidade-estado de Singapura, onde a tecnologia da LeapThought integra processos de BIM de todas as agências públicas, contribuindo para um projeto urbano moderno, digital e sustentável

Novas Tecnologias

A ideia da interoperabilidade parece estar bem resolvida com o avanço dos processos openBIM, e o quesito financiamento não deve ser visto como um grave entrave. “A questão principal está na formação, e não estou falando na formação de modeladores e técnicos, mas em gestores, engenheiros, advogados, administradores que não sabem o que é BIM, por onde começar e o que fazer”, critica Granadeiro.

A necessidade de ampliar o conhecimento sobre a metodologia é compartilhada por outros especialistas. “Além da disponibilidade de recursos, a capacitação e o treinamento de pessoas para a nova metodologia são um ponto relevante para que as empresas desenvolvam sua expertise em projetos que apliquem a BIM”, argumenta Giusti, da ABCR. Exemplos como o projeto da prefeitura de Suzano, em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie, mostram que o setor público começa a se mover fora das capitais e grandes centros.

Papel dos engenheiros e técnicos

A transformação digital da gestão pública, impulsionada pela adoção do BIM, exige mais do que tecnologia: requer protagonismo técnico e visão estratégica. Para Dissei, engenheiros e técnicos ocupam uma posição central nesse processo. “São protagonistas naturais porque traduzem políticas em processos, integram tecnologia, planejamento, controle e definem padrões técnicos para implantações consistentes, como BIM e gestão de ativos”, conclui.

Ele destaca que esses profissionais, tradicionalmente mais voltados à operação, agora têm a oportunidade, e a responsabilidade, de atuar também na formulação de políticas públicas, no desenho de sistemas e na gestão de dados e indicadores. “Há espaço em todas as áreas para bons profissionais. É nosso dever capacitá-los e, a partir daí, cada um, por mérito e dedicação, ocupará os espaços existentes”, projeta.

Outros executivos concordam que a engenharia tem papel-chave na liderança dessa transformação, mas o gestor da Construtivo ressalta um ponto de atenção. “Entre as formações, a que vejo com mais potencial para conduzir e liderar esse processo é a do engenheiro. Há, no entanto, uma falha associada à visão de negócio que precisa ser sanada para que se tenha esse protagonismo”, alerta.

Para ele, é essencial que os profissionais técnicos compreendam não apenas os aspectos operacionais, como também os impactos estratégicos e econômicos das decisões tomadas com base em dados e modelagens digitais. A combinação entre domínio técnico e visão sistêmica será determinante para o sucesso da digitalização no setor público.

Prazos e execução

A aplicação do BIM na gestão pública não apenas melhora a qualidade dos projetos, como também contribui diretamente para o cumprimento dos prazos e a redução de imprevistos. Giusti destaca que, “por meio da metodologia, podemos detectar eventuais problemas no projeto antes de se tornarem problemas reais. O objetivo é reduzir imprevistos e facilitar a execução da obra dentro dos prazos estimados”. A antecipação de falhas e a simulação de cenários tornam o planejamento mais robusto, permitindo que gestores públicos validem custos, negociem com fornecedores de forma transparente e otimizem a produção.

A eficiência também se reflete na etapa de orçamento. Quando a modelagem está alinhada aos processos executivos da empresa, é possível reduzir em até 75% o tempo de levantamento de quantitativos, liberando as equipes para tarefas mais estratégicas. E, embora a administração pública raramente execute diretamente as obras, o BIM oferece ganhos significativos em controle e visibilidade.

“A produtividade não é o principal ponto, mas, com controle de custos, projetos otimi-

Mais e melhores tecnologias

A aplicação do BIM na gestão pública é uma das plataformas dentro de um rio de tecnologias. No TCM-SP, essa visão se soma a sistemas internos como Átomo, Íris, Ábaco e eTCM, que já modernizam as auditorias.

É preciso destacar o potencial da integração entre BIM e IA. “O uso de IA, com Machine Learning , permite definir requisitos com base em dados reais de uso, como iluminação e espaço em salas de aula correlacionados ao desempenho dos alunos”, explica Granadeiro, da Construtivo. A IA também já é aplicada na validação de requisitos urbanísticos e de segurança, além da fiscalização de obras e contratos, identificando alterações em imagens e calculando volumes com precisão. Essas tecnologias ampliam a capacidade de análise e tornam os processos mais inteligentes e automatizados.

No TCM-SP, a IA também já é uma realidade. “Ela proporciona agilidade, aprimoramento e qualidade aos trabalhos dos auditores ao cruzar grandes bases e identificar padrões de risco, fortalecendo a auditoria preventiva”, afirma Dissei. Os ensaios tecnológicos, realizados com apoio de institutos como IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos) e Falcão Bauer, garantem a conformidade da execução com o projeto. Em pavimentação, o Tribunal utiliza escaneamento a laser com PavScan, fotos georreferenciadas e câmeras em tempo real para monitorar obras. Combinadas ao BIM, essas frentes tornam a fiscalização mais precisa, econômica e transparente, com benefícios concretos para a sociedade.

zados, construções mais planejadas e aplicação na operação, chegaremos ao impacto na sustentabilidade”, explica o executivo da Construtivo. Afinal, uma gestão orientada por dados e pela modelagem digital transforma o ciclo de vida das obras públicas, promovendo entregas mais eficientes e ambientalmente responsáveis.

Futuro no presente

A adoção do BIM na administração pública não é mais uma hipótese, mas uma realidade em curso. É um fato que ela vai acontecer, de forma paulatina e em diferentes graus, em todos os níveis da administração pública. E é preciso comparar o momento atual ao início da transição para o CAD (Computer-Aided Design) há três décadas, quando muitos profissionais ainda produziam documentos a nanquim. Agora, a questão é como esta adoção evoluirá de simples modelos 3D para os “completos” gêmeos digitais.

Essa evolução representa uma mudança de paradigma na forma como o poder público projeta, executa, fiscaliza e opera seus ativos urbanos. Com o uso de gêmeos digitais, modelos que simulam o comportamento real de edifícios, sistemas e cidades, por exemplo, será possível prever falhas, planejar intervenções com precisão e otimizar recursos em tempo real.

O TCM-SP, ao incorporar o BIM em suas auditorias e processos internos, posiciona-se como agente catalisador dessa transformação, promovendo uma gestão pública mais técnica, transparente e orientada por dados.

A jornada ainda exige investimentos, capacitação e mudança cultural. Entretanto, os ganhos são claros: obras mais eficientes, menos desperdício, maior controle social e melhor aplicação dos recursos públicos. A transformação é coletiva, e cada profissional capacitado é uma engrenagem essencial para que o BIM se torne um padrão na gestão urbana brasileira.

#Biodefensivos #EficiênciaNoCampo

#Produtividadde #Embrapa

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 27 MINUTOS

Guerra biológica no campo busca tornar lavouras mais produtivas e sustentáveis

• Por Renato Ibelli

BIODEFENSIVOS, MELHORAMENTO GENÉTICO E IA PERMITEM AO BRASIL BATER RECORDES SEM EXPANDIR ÁREAS DE PLANTIO

OBrasil deve colher o volume recorde de 342 milhões de toneladas na safra agrícola de 2025, um aumento de 16,8% em relação a 2024, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A área plantada, por sua vez, é estimada em 81,4 milhões de hectares neste ano, 3% maior que a do ano passado. O descolamento entre o volume a ser colhido e a necessidade de abertura de novas áreas para plantio é uma constante, safra após safra, e evidencia o ganho de produtividade obtido no campo, resultado de técnicas e tecnologias desenvolvidas e aplicadas com o suporte da engenharia agronômica.

No Mato Grosso do Sul, por exemplo, são produzidos 3,5 mil quilos de soja por hectare. Na década de 1980, quando o grão começou a ser plantado na região, se obtinha 1,4 mil quilos por hectare. Ou seja, hoje se produz três vezes mais na mesma área plantada. Essa é uma realidade que pode ser estendida a outros cultivos e estados. Nos últimos 50 anos, segundo dados do Insper Agro Global, a PTF (Produtividade Total de Fatores) na agricultura — indicador que mede a eficiência para transformar recursos em produtos agrícolas — cresceu a uma média anual de 2,5% no Brasil, bem acima da mundial, que avançou 1,3% no período.

Levando-se em consideração os dados do Insper, se a eficiência no campo hoje fosse a mesma da década de 1980, para se

Canva

chegar ao volume recorde que deve ser colhido no país neste ano, seria necessário o acréscimo de 125 milhões de hectares à área plantada atual. “A tecnologia permitiu ganhos de produtividade, proporcionando esse ‘efeito poupa terra’, que é o aumento da produção agrícola em um nível muito maior que a expansão da área cultivada”, diz o pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Fernando Mendes Lamas.

Produtividade maior em uma área menor significa mais lucro para o produtor devido à otimização dos recursos e benefícios ao meio ambiente, uma vez que se reduzem a dispersão de defensivos agrícolas, o uso de água e a troca de mata nativa por lavouras.

Fernando Mendes Lamas, pesquisador da Embrapa

Busca pelo espécime perfeito

No rol de tecnologias que possibilitaram aumentar a eficiência no campo, a biotecnologia tem lugar de destaque. O melhoramento genético de espécies, obtido a partir da seleção e cruzamento de plantas com características

Christiane Congro Comas

Sustentabilidade

desejadas, permitiu, por exemplo, a produção de variedades de milho mais resistentes à seca, garantindo bons resultados na safrinha, plantada logo após a colheita da safra principal no verão, que costuma ser de soja.

O termo safrinha, aliás, não faz jus à real dimensão desse cultivo. A expectativa do IBGE para este ano é de que esse milho de segunda safra totalize 112,3 milhões de toneladas, o que representa um terço da safra total de grãos estimada para 2025 (342 milhões de toneladas), considerando cereais, leguminosas e oleaginosas.

A incidência de pragas e doenças é grande nas lavouras brasileiras, chegando a causar prejuízo de mais de 60 bilhões de reais por ano

A chave para o melhoramento de espécies, segundo Lamas, está no avanço das técnicas de sequenciamento genético. Hoje já é possível fazer ajustes no DNA das plantas, inserindo nelas características genéticas que proporcionam maior resistência a pragas e tolerância a herbicidas. Recentemente, a Embrapa colocou no mercado, em parceria com a Bayer, dois cultivares de soja (BRS 2058 i2X e BRS 2361 i2X) com essas características. A expectativa é de que essas variedades tenham uma produtividade de 5 mil quilos por hectare, até 4% maior que a média dos cultivares hoje disponíveis.

“As plantas daninhas competem com as lavouras e são hospedeiras de pragas, doenças e nematoides (vermes que ficam em suas raízes). Então, quando se dispõe de cultivares mais tolerantes a herbicidas, o manejo dessas plantas daninhas fica significativamente facilitado. Isso melhora o desempenho da cultura plantada e diminui a quantidade de químicos no ambiente”, explica Lamas.

Ainda assim, a incidência de pragas e doenças é grande nas lavouras brasileiras, chegan-

Percevejo marrom
Ferrugem asiática
Claudia Vieira
GodoyEmbrapa Life Biological

Bicudo-do-algodoeiro

do a causar prejuízo de mais de 60 bilhões de reais por ano, segundo a Embrapa. No caso da soja, que tem o Brasil como maior produtor mundial, há duas doenças que ainda causam prejuízos econômicos expressivos: a mancha-alvo e a ferrugem asiática, ambas originadas por fungos e que exigem grande quantidade de produtos químicos para seu controle.

Mesmo com os avanços na análise do genoma das espécies cultivadas, Lamas diz que ainda é difícil reproduzir no campo os resultados obtidos em laboratório. O pesquisador exemplifica com o caso do bicudo-do-algodoeiro, um besouro que causa grandes prejuízos à cultura do algodão no Brasil e no mundo. Há anos, são pesquisadas proteínas que atuam no controle dessa praga, entre elas a Cry1Ia, derivada de bactérias, que tem se mostrado eficiente nos testes. A Embrapa estuda inserir o gene dessa proteína no genoma de plantas do algodão ou criar defensivos biológicos à base dela.

O problema é que o bicudo-do-algodoeiro ataca o sistema reprodutivo da planta em suas diferentes fases — o botão floral, a flor e

o fruto —, exigindo que a proteína de controle atue nessas diferentes etapas da formação da planta, que, para complicar, é uma espécie perene e de crescimento indeterminado. “Criamos o bicudo em laboratório para testar o defensivo e conseguimos uma eficiência razoável. Mas, no laboratório, a dieta do bicudo é artificial. Quando vamos para a natureza, o comportamento dele é diferente e a eficiência cai”, explica Lamas. “O controle dessa praga é a grande sacada para a sustentabilidade da cultura do algodão no Brasil e no mundo. Todos os países produtores de algodão enfrentam esse problema”, completa o pesquisador.

Para controlar pragas e doenças nas lavouras brasileiras, ainda é necessária uma grande quantidade de defensivos químicos, que têm grande eficiência, mas causam prejuízos ao meio ambiente. Segundo pesquisa do Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), o volume de defensivos agrícolas utilizados em 2024 para o controle de pragas, doenças e plantas daninhas cresceu 8,5% em relação a 2023.

Sebastião José AraújoEmbrapa

Sustentabilidade

Defensivos agrícolas utilizados em 2024

Herbicidas - 45%

Inseticidas - 23%

Fungicidas - 23%

Tratamentos de sementes - 1%

Outros - 8%

Empoderamento da agricultura

A boa notícia é que o uso de biodefensivos, produtos derivados de organismos vivos ou de substâncias naturais, cresce a uma média de 30% ao ano no Brasil, o dobro da média mundial, e já movimenta R$ 5 bilhões anualmente, respondendo por cerca de 7% do mercado brasileiro de defensivos. Este, por sua vez, movimenta R$ 70 bilhões, segundo a engenheira agrônoma Cristiane Tibola, CEO da Life Biological Control, empresa que atua na produção desses agentes de controle biológicos.

Trata-se de uma área promissora da engenharia agronômica, mostrando resultados surpreendentes ao direcionar recursos que a própria natureza oferece, como vírus e in-

setos, para combater pragas. A Life Biological, por exemplo, utiliza uma microvespa, a telenomus podisi, para enfrentar o percevejo marrom, a principal praga das lavouras de soja no Brasil.

O controle acontece da seguinte maneira: drones dispersam entre cinco mil e sete mil vespas encapsuladas por hectare de lavoura. Ao se livrarem das cápsulas, as telenomus podisi buscam e parasitam os ovos dos percevejos marrons, que, a partir daí, passam a gerar mais vespas, e não mais percevejos.

“As vespas atuam antes mesmo de a praga nascer. A capacidade de controle fica acima de 96%”, diz Cristiane. “Os biodefensivos fazem um controle altamente específico. Essa vespa é um parasitoide que só ataca e se desenvolve nos ovos dos percevejos marrons, não atingindo ovos de outras espécies. Se não encontra a praga específica, a vespa morre”, explica a CEO.

O principal produto da empresa, porém, usa um vírus, o baculovírus, como inseticida para controlar a lagarta-do-cartucho, a principal praga do milho no mundo, que é

A microvespa telenomus podisi

altamente resistente aos agrotóxicos convencionais e aos cultivares produzidos pela biotecnologia. Assim como no caso das vespas, a ação desse vírus é específica, agindo somente contra a lagarta.

Cristiane diz que o custo desse produto para o produtor é similar ao dos defensivos químicos. “Conseguimos grande adesão do mercado a ele porque sua aplicação imita a dos agrotóxicos, podendo ser feita com trator ou avião. Ele também pode ser misturado com outros defensivos. A profissionalização desse mercado permitiu a redução de custos”, diz.

Um diferencial do defensivo da Life Biological à base de baculovírus é que ele não precisa de refrigeração, podendo ficar em temperatura ambiente por até dois anos, o que reduz custos de logística e armazenagem.

Novos produtos da empresa, que devem chegar ao mercado no próximo ano, envolvem biodefensivos que controlam, isoladamente, até três tipos de pragas. Sobre as novas linhas de pesquisa, Cristiane diz que trabalha no desenvolvimento de produtos à base de baculovírus, mas com mecanismos de ação diferenciados. Hoje, por exemplo, para controlar a lagarta-do-cartucho, o vírus precisa ser ingerido pela praga. “Queremos ativar também o controle pelo contato”, diz.

Vários fatores têm impulsionado as pesquisas envolvendo o controle biológico. Um deles é a aceitação desse tipo de produto pelos grandes produtores, algo ligado às mudanças de comportamento do consumidor final, que busca cada vez mais produtos com menos agrotóxicos. “É uma exigência para se vender para muitos países que compram do agronegócio brasileiro”, afirma Cristiane.

Hoje, segundo a CEO da Life Biological, controles biológicos são usados em 44% dos 50 milhões de hectares de área plantada com soja no Brasil. No caso do milho, a utilização dos biodefensivos chega a 33% da área. “Costumo dizer que o controle biológico é

o empoderamento da agricultura brasileira. Somos o celeiro do mundo, temos terra boa, culturas variadas, clima favorável, produzimos muito. Agora, precisamos fazer isso com menos agrotóxico.”

Quadrante por quadrante

O segredo para o aumento da produtividade e sustentabilidade das lavouras brasileiras, porém, não pode ser atribuído unicamente aos avanços nas áreas da biotecnologia e controle biológico, mas sim à integração delas com outras tecnologias voltadas ao campo, como as desenvolvidas pela agricultura de precisão.

Hoje, é possível mapear cada centímetro da lavoura e identificar as características de cada quadrante. Isso permite o manejo integrado de pragas, por exemplo, gerando mapas digitais que apontam onde há mais e menos incidência de doenças e, assim, possibilitando a aplicação localizada dos defensivos. É possível fazer aplicações de sementes, fertilizantes e adubos com taxas variáveis, porque o solo não é igual em todos os pontos, e isso é

Lagarta-do-cartucho

O papel do engenheiro agrônomo

O Brasil conta com um batalhão de 137,2 mil engenheiros agrônomos atuantes, segundo o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia). Eles estão na linha de frente da produção de novos insumos agrícolas, como sementes, fertilizantes e defensivos, fazem a gestão do uso desses recursos, organizam os estoques e a comercialização da produção, são responsáveis por certificações e pelas regras de conformidade ambiental, entre outras atribuições da categoria.

Segundo a engenheira agrônoma Giucelia Figueiredo, conselheira federal do Confea, uma das áreas de atuação da categoria que mais tem crescido está ligada à agroenergia, especialmente à produção de biodiesel. “Com o aumento da mistura de biodiesel ao diesel comum, a demanda por esse biocombustível cresce, exigindo investimentos na expansão da capacidade produtiva do país”, diz Giucelia. “Isso gera oportunidades para engenheiros agrônomos atuarem no desenvolvimento e manejo de culturas energéticas usadas para biodiesel”, completa.

Ela destaca ainda a expansão das áreas de certificação e manejo florestal sustentável, além do manejo eficiente da irrigação. “Essas áreas refletem a tendência de uma agricultura mais sustentável e tecnológica, na qual o engenheiro agrônomo é essencial para planejar, implementar e monitorar soluções.”

A busca pela produção agrícola sustentável depende do engenheiro agrônomo, que tem papel fundamental na conformidade ambiental e nas certificações. “É ele que se responsabiliza tecnicamente pela elaboração de planos e projetos de manejo que estejam em conformidade com a legislação ambiental, os quais são necessários para a obtenção de licenças junto ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ou órgãos estaduais”, explica Giucelia. Segundo a conselheira do Confea, no que tange aos procedimentos de certificação, o engenheiro agrônomo orienta os produtores na adoção de práticas, como as da

agricultura orgânica, por exemplo. “Os requisitos para certificação orgânica envolvem o manejo sustentável do solo, controle natural de pragas e conservação da biodiversidade, bem como questões regulamentares.”

Ajudar a produzir de maneira sustentável, segundo Giucelia, é o principal desafio da profissão de engenheiro agrônomo. Dentro desse escopo, ela destaca o Plano ABC, uma política pública pautada pela adoção de tecnologias agropecuárias que mitiguem as emissões de gases de efeito estufa e o aquecimento global. Para isso, deve-se buscar: a recuperação de pastagens degradadas; a integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroflorestais; o sistema de plantio direto; a fixação biológica de nitrogênio; florestas plantadas; o tratamento de dejetos animais; e a adaptação às mudanças climáticas.

“A engenharia agronômica está muito ligada às técnicas e tecnologias que tornam a produção agrícola mais sustentável. A agricultura de precisão reduz desperdícios e impactos ambientais. A biotecnologia desenvolve plantas resistentes à seca, pragas e doenças. Quando juntamos esses dois campos de atuação, temos a agricultura de baixo carbono, que é ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente justa”, completa Giucelia.

dos NIRS, já está presente nas lavouras, possibilitando medir, em tempo real, o perfil dos nutrientes do solo, por exemplo. A tecnologia NIRS envolve a emissão de um feixe de luz infravermelha. Dependendo da luz absorvida ou refletida pela amostra, é possível qualificar sua composição química. “A automação do diagnóstico é integrada à automação das máquinas agrícolas, o que permite que liberem mais ou menos adubo, calcário ou outro insumo de forma localizada”, diz Molin.

realizado com o uso de semeadora e adubadora automatizadas, que liberam os insumos conforme as necessidades de cada área da lavoura mapeada anteriormente.

“A agricultura moderna precisa colocar a quantidade certa no lugar certo. Sustentabilidade, tanto econômica quanto ambiental, é não jogar fora, porque estamos falando de insumos que têm custo para o produtor e que contaminam o meio ambiente quando vão para o lugar errado”, diz o professor José Paulo Molin, do departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

O professor esclarece que precisão na agricultura não envolve apenas o GPS. A geolocalização é a faceta dessa área que agrega as demais, mas toda a automação de diagnóstico do solo e das plantas faz parte dessa disciplina. Hoje, o que se busca, segundo Molin, é a substituição de amostras, que precisam ser levadas para análise em laboratório, por sensores que fazem o diagnóstico em campo.

A adoção de sensores que usam espectroscopia no infravermelho próximo, os chama-

Mesmo sendo uma realidade, o uso de sensores ainda não está disseminado. Segundo o professor da Esalq, embora um terço das grandes propriedades do Brasil adote a agricultura de precisão, a grande maioria ainda depende da coleta de amostras das diferentes áreas da lavoura, que são levadas para análise em laboratório, para, então, ser gerado um mapa dos atributos localizados. Mas isso deve mudar rapidamente. A IA (inteligência artificial) deve acelerar as tecnologias de diagnósticos em tempo real, inclusive aquelas já embarcadas nas máquinas e implementos agrícolas.

“Sustentabilidade, tanto econômica quanto ambiental, é não jogar fora, porque estamos falando de insumos que têm custo para o produtor e que contaminam o meio ambiente quando vão para o lugar errado”, diz José Paulo Molin
José Paulo Molin, professor do departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq

Sustentabilidade

‘Colheita’ de dados

A coleta e análise de dados são a próxima fronteira do agronegócio, mas também um problema no Brasil, que não tem um histórico de armazenamento de informações. “Falar em IA só faz sentido quando se envolvem enormes conjuntos de dados. Mas começamos a armazenar dados no campo somente com a chegada do piloto automático nas máquinas, a partir de 2003”, diz Molin.

Como o grosso dos dados está na frota, é nela que as pesquisas da Esalq buscam suporte. “A indústria da cana foi pioneira na mecanização da frota. Por isso, procuramos por ela. Conseguimos que um grupo de usinas coletasse dados para nós de 80 mil hectares ao longo de quatro safras. Queremos fazer um mapa de produtividade com essas informações. Já conseguimos identificar que as necessidades de nutrientes, como potássio ou fósforo, variam segundo o comportamento climático. Sem o uso de IA, não haveria como ler tantos dados em tão pouco tempo”, explica Molin.

A Embrapa também tem pesquisas envolvendo IA. A empresa pública apresentou, durante o último Siagro (Simpósio Nacional de

Instrumentação Agropecuária), duas tecnologias que usam aprendizado de máquina e estão em fase de testes. Uma delas foi batizada de LumiBot. “Esse equipamento emite luz ultravioleta visível sobre as folhas das plantas e, analisando a fluorescência, faz o diagnóstico de potenciais doenças antes mesmo que apareçam”, diz Lamas.

Segundo a Embrapa Instrumentação, o LumiBot já consegue uma taxa de sucesso de 80% na identificação de infecção por nematoides em testes laboratoriais. O próximo passo será levar o equipamento para o campo. Entre as vantagens dessa tecnologia está a sustentabilidade ambiental, já que o diagnóstico precoce de doenças evita o uso excessivo de defensivos agrícolas para controle do problema.

A outra tecnologia que usa IA apresentada pela Embrapa no Siagro foi um método para estimar a densidade do solo e o teor de carbono em análise única. Hoje, pelo método convencional, essa análise depende de várias etapas. Esse tipo de medição contribui para o manejo sustentável do solo e pode impulsionar o monitoramento de créditos de carbono, segundo a empresa.

LumiBot em operação
Wilson Aiello / Embrapa

Irradiação de alimentos

Airradiação de alimentos é uma tecnologia segura e reconhecida internacionalmente, utilizada para eliminar microrganismos, parasitas e insetos, retardar o amadurecimento e prolongar a vida útil de produtos agrícolas. É aprovada e regulamentada por organismos como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), seguindo as normas do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil.

O princípio da técnica se baseia na radiação ionizante, descoberta no fim do século 19 e aplicada comercialmente, a partir de 1953, no programa “Átomos para a Paz”. Em 1983, a Codex Alimentarius Commission definiu o primeiro padrão global para alimentos irradiados. Hoje, cerca de 60 países utilizam a tecnologia em carnes, aves, frutos do mar, frutas, vegetais e especiarias, com mais de 160 centros de irradiação em operação.

O processo consiste na exposição controlada dos alimentos a raios ionizantes produzidos por uma fonte irradiativa (cobalto-60 ou acelerador de elétrons). Essa energia destrói microrganismos e inibe o amadurecimento sem gerar resíduos nem alterar o sabor, a aparência, a textura ou o valor nutricional. O tratamento não substitui as boas práticas agrícolas e de higiene, mas as complementa, garantindo segurança e reduzindo desperdícios, que hoje, chegam a cerca de 30% da produção mundial,

com volumes ainda maiores no Brasil. Entre os principais benefícios, estão:

• Controle fitossanitário: elimina pragas e microrganismos, reduzindo perdas e riscos sanitários sem afetar as moléculas do elemento irradiado;

• Melhoria na saúde pública: diminui contaminações alimentares e internações;

• Aumento da durabilidade: amplia o tempo de prateleira, podendo até triplicá-lo;

• Maior eficiência econômica: reduz custos com armazenagem, transporte e estoques estratégicos;

• Valorização do produtor: permite maior oferta sem aumento de área, água ou insumos;

• Ampliação de mercados: facilita exportações pela garantia de conformidade sanitária. A irradiação pode substituir métodos convencionais como a fumigação, que utiliza produtos químicos prejudiciais ao meio ambiente. Além disso, apresenta custos operacionais competitivos e rápida Capex (amortização do investimento inicial), com alta escalabilidade e retorno viável em poucos anos.

Em síntese, trata-se de uma solução tecnológica limpa, eficiente e comprovadamente segura, capaz de reduzir perdas, aumentar a competitividade do agronegócio e de contribuir para o abastecimento sustentável de alimentos no Brasil.

*Marcelo Rozenberg é engenheiro civil, conselheiro do IE, diretor da GTP Engenharia de Projetos e da SBGE Consultoria Estratégica

Marcelo
Justo
Principais falhas

#Conhecimento #Aprendizagem

#Inovação #IndústriaAutomobilística

#CapitalIntelectual #Organizacional TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 35 MINUTOS

do sistema fotovoltaico

apresentadas pelo inversor fotovoltaico: suas causas e soluções
• Por Marcos Vinicius Pereira de Matos*

Este trabalho teve por objetivo principal a revisão das falhas recorrentes na maior parte das instalações que impedem a geração parcial ou total de energia elétrica fotovoltaica a partir da conversão CC/CA realizada pelo inversor fotovoltaico, dispositivo que apresenta como uma de suas principais características o diagnóstico de falhas do sistema de geração. Com base nesse princípio, as principais falhas tiveram suas causas e soluções analisadas, objetivando repassar definições, com uma linguagem básica da área do solar, e apresentar formas de sanar esses problemas das instalações, seja para novos instaladores sob a supervisão de engenheiros eletricistas que estão iniciando seus projetos, seja para os mais experientes. O trabalho também se baseou em definições e normas técnicas de livros de autores renomados e artigos científicos.

INTRODUÇÃO

A importância do conhecimento em energia solar fotovoltaica na formação de engenheiros eletricistas é fundamental para a diversificação da matriz elétrica nacional e do desenvolvimento dos profissionais capacitados para realizarem a instalação de FV (sistemas fotovoltaicos), visto que, para Rüther (1998), os sistemas fotovoltaicos que injetam energia elétrica na rede trazem consigo vantagens para as concessionárias no que se refere à diminuição dos

picos de consumo, aumentando a vida útil do sistema de transmissão de energia.

Sendo uma das mais promissoras formas de geração elétrica dentro do mercado de energias renováveis, o cuidado com a aprendizagem desse conteúdo, em especial no que se refere à pós-graduação do educando, na área de atuação de equipamentos fotovoltaicos no mercado brasileiro, é essencial para suprir a demanda energética do país e contribuir cada vez mais para a disseminação do conhecimento de geração fotovoltaica, objetivando mais instalações e mais energia ao SIN (Sistema Interligado Nacional), posto que, de acordo com Roberts et al. (2017), até agora, poucas pesquisas compararam a precisão dos dispositivos fotovoltaicos de forma individual e outras ainda não obtiveram os dados reais de geração, tendo apenas alguns trabalhos que estudaram o desempenho fotovoltaico como um todo.

Considerando o objetivo citado e utilizando uma linguagem acessível, de fácil compreensão para iniciantes e experientes do setor solar, buscando sanar as dificuldades enfrentadas pelos instaladores que atuam em campo nos sistemas FV, sob a direção de engenheiros eletricistas, temos que muitos problemas podem ser mais facilmente sanados se, previamente, identificarmos as falhas e suas consequências sobre a instalação. Este trabalho, além de apresentar algumas definições no âmbito da resolução de problemas de instala-

ções fotovoltaicas, tem por objetivo identificar as causas e soluções de quatro dos principais problemas nessas instalações, os quais correspondem pela maioria das soluções em campo, sendo eles basicamente: baixa resistência de isolação, alta tensão no barramento de corrente alternada, alta tensão no barramento de corrente contínua e, ainda, corrente reversa.

DESENVOLVIMENTO

DEFINIÇÃO DE INVERSOR FOTOVOLTAICO, MÓDULO OU PAINEL FOTOVOLTAICO E MPPT (MAXIMUM POWER POINT TRACKING)

O inversor fotovoltaico é o equipamento responsável por converter a energia em forma de corrente contínua, que advém dos módulos, para corrente alternada, que provê potência ativa para as cargas do sistema fotovoltaico, no que se refere ao lado de corrente alternada ou ainda à injeção na rede. Além disso, o inversor deve ser dimensionado de modo a ter o mínimo de perdas por ineficiência na conversão, sendo, segundo a norma internacional IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional, na sigla em inglês) 61836, a eficiência de conversão CA-CC do inversor a razão entre a energia real entregue ao lado de corrente alternada e a energia advinda dos módulos FV.

Além disso, os inversores fotovoltaicos têm a capacidade de identificar falhas do sistema FV, distinguindo-as em alarmes e erros, utilidade primordial para a realização deste trabalho. Por sua vez, o módulo fotovoltaico, ou ainda painel solar, é definido como sendo o equipamento responsável por captar luz solar em suas células fotovoltaicas por meio do efeito fotovoltaico, descoberto em 1839 pelo físico Edmond Becquerel, que utilizou uma célula eletroquímica, fazendo com que uma diferença de potencial entre dois eletrodos surgisse quando tal célula era exposta à luz e, por conseguinte, obtendo energia na forma de corrente contínua, segundo E. Becquerel (1839, p. 561).

Com relação à definição de MPPT (Maximum Power Point Tracking), temos que essa se caracteriza por ser o ponto de máxima potência rastreada, alcançada pelo algoritmo da placa principal ou inversora do equipamento, geralmente. Isso se dá por termos uma corrente variável dentro da geração intermitente, que ocorre na geração solar, ao longo do dia, uma vez que a iluminação sobre o painel fotovoltaico também varia. Logo, faz-se necessário alcançarmos o ponto de máxima potência que o equipamento pode oferecer em dado instante do dia iluminado.

RESOLUÇÃO DOS PRINCIPAIS PROBLEMAS NAS INSTALAÇÕES FOTOVOLTAICAS INDICADOS PELO INVERSOR

Podemos caracterizar como problemas nos sistemas fotovoltaicos relacionados ao inversor tanto alarmes como erros, geralmente denominados assim nas plataformas de monitoramento das fabricantes chinesas de inversores fotovoltaicos. Temos por erro aquela falha que impede a geração total do equipamento, equivalente a uma parada de emergência. Por outro lado, temos por alarme aquela falha parcial, que pode impedir a geração total do equipamento, mas sua característica é de interrupção parcial da geração, tal qual ocorre na abertura do fusível de uma string conectada a uma MPPT do inversor por meio de uma stringbox.

Nas instalações fotovoltaicas de microgerações e minigerações, é comum encontrarmos problemas como baixa resistência de isolação, altas tensões, seja no barramento de corrente contínua, seja no barramento de corrente alternada, obstáculos presentes na instalação que poderiam ser previstos no dimensionamento do projeto por meio de correções de temperatura, por exemplo. Ainda, podemos encontrar formas de prevenir causas de parada de geração, como corrente reversa nos terminais de conexão de uma mesma MPPT do inversor.

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BAIXA RESISTÊNCIA DE ISOLAÇÃO

A baixa resistência de isolação se demonstra quando o arranjo fotovoltaico possui potencialmente uma fuga de corrente. Antes que a fuga de corrente possa ocorrer, o erro que o inversor nos dá é a baixa resistência de isolação. Basicamente, essa baixa resistência de isolação considera a impedância do sistema a partir da máxima tensão fotovoltaica do equipamento em razão de uma corrente de 30 miliamperes, definida como a máxima corrente de fuga que um sistema pode possuir pela NBR (Norma Brasileira) 5410, vigente no momento deste trabalho.

A fim de se localizar o problema, pela norma internacional IEC 62446-1, podemos, utilizando um megômetro, medir a resistência de isolamento do arranjo fotovoltaico, que pode ser feito de duas maneiras, ensaiado em curto-circuito, o que consiste em curto-circuitar os terminais positivo e negativo da string fotovoltaica antes de medir a resistência de isolamento – de acordo com o manual de uso do megômetro definido – entre o ponto de curto-circuito e o terra, ou ainda, ensaiado em circuito aberto, medindo-se separadamente o positivo e o terra e, após, o negativo e o terra, sem que haja um curto-circuito.

A diferença de ambos reside no fato de termos uma tensão nula (zero) em relação ao terra ou termos uma tensão acima de zero, dada pelo arranjo FV do sistema. Isso ocorre porque, em muitos casos, o arranjo fotovoltaico ultrapassa com sua tensão em aberto a capacidade limite de medição de tensão do megômetro Pode-se ter, então, outra forma de medição, na qual a tensão se torna zero devido ao curto-circuito provocado, geralmente, pela seccionadora de uma stringbox

Identificados os arranjos defeituosos, podemos seguir com a etapa de correção, que consiste na troca dos cabos danificados, amassados, fissurados ou, ainda, em contato com estruturas cortantes ou perfurantes – podendo ser de conduítes metálicos ou parafusos da estrutura de fixação dos painéis, respectivamente.

A troca fará com que o isolamento se readeque e o inversor passe a operar novamente, podendo, às vezes, ter a necessidade de um reset de fábrica para tal, a depender da fabricante.

SOBRETENSÃO NO BARRAMENTO DE CORRENTE ALTERNADA

Em muitos casos, temos o impedimento do funcionamento do equipamento devido à sobretensão no barramento de CA (corrente alternada) do inversor, medida em seus terminais de conexão CA.

Essa alta tensão CA não é provocada pela configuração eletrônica e de potência do equipamento, mas sim por fatores externos que a ocasionam. Muitas vezes, dado ao fato de ocorrer somente após o ligamento do equipamento fotovoltaico, há a inferência de um problema advindo no equipamento, contudo, tal fenômeno se manifesta porque é justo após à ligação, com as cargas do lado CA do sistema conectadas, que a tensão tem a probabilidade de se erguer.

A fim de se corrigir esse erro e evitar danos a sistemas sensíveis à sobretensão, que possam estar localizados como carga no lado CA da instalação fotovoltaica, temos alguns pontos a se notar, descritos a seguir.

DIMENSIONAMENTO

INCORRETO DE CONDUTORES DE CA

Conforme previsto pela Norma de Instalações Elétricas de Baixa Tensão, NBR 5410, os sistemas fotovoltaicos também precisam ter o dimensionamento de seus condutores de corrente alternada bem definidos. Tal dimensionamento deve prever se o sistema é preparado ao fotovoltaico, ou seja, se os condutores dentro dos conduítes serão do tipo B1 – previsto pela norma técnica A NBR 5410 define que os condutores devem atender unicamente como condutores do lado CA ao sistema FV, mas, em caso de atendimento a outros circuitos que não sejam únicos do sistema FV, como pontos de tomada, é possível redimensionar o

sistema com outro método por meio da norma. Ainda nesse contexto, temos que o problema pode ser notado quando os cabos CA estão esquentando na instalação.

Um adendo é que os condutores de proteção não são considerados como energizados, porém devem seguir os critérios de dimensionamento para suas bitolas mesmo assim, podendo ser de um meio a bitola do condutor de fase quando acima de 16 milímetros ao quadrado de seção transversal do cabo.

DESBALANCEAMENTO DE CARGAS ENTRE AS FASES DO CIRCUITO DO LADO CA

O desbalanceamento de cargas entre as fases do circuito do lado CA de um sistema fotovoltaico pode também provocar o erro de alta tensão no barramento CA identificado pelo inversor FV. Em caso de termos muita carga em uma das fases de um sistema trifásico, em detrimento das outras fases, isso faz com que a corrente naquela fase de maior carga seja maior e, como previsto pela Lei de Ohm, de acordo com Sadiku (2013), considerando a impedância do sistema constante, ocorre um aumento de corrente. Consequentemente, temos um aumento de tensão.

Essa tensão aumentada será a responsável por causar o desarme do equipamento até sua correção. Dentro disso, basta redistribuir as cargas de maneira uniforme entre as fases da instalação FV no lado CA, geralmente circuitos de equipamentos de iluminação, que podem ocorrer em aviários ou, ainda, em equipamentos resistivos e refrigeradores de frigoríficos.

ALTA IMPEDÂNCIA DE LINHA

A alta impedância de linha ocorre quando temos uma distância razoavelmente grande entre o ponto de consumo e o ponto de geração de energia em forma de corrente alternada. A alta impedância de linha pode ocorrer antes ou após o ponto de conexão de uma

instalação fotovoltaica, podendo ser advinda da rede ou de dentro da própria instalação, respectivamente.

Quando aquela ocorre advinda da rede, temos geralmente uma situação de instalação rural ou de fim de linha, na qual o centro de geração de potência ativa injetada na rede está muito distante dos pontos ou centro de consumo para essa energia, ocasionando uma grande impedância de linha e, por conseguinte, um aumento da tensão CA de forma a suprir a entrega dessa potência para o SIN (Sistema Interligado Nacional).

Para dentro do sistema de geração FV, agora após o ponto de conexão, essa elevação pode ocorrer quando o ponto de entrega e o padrão de entrada de energia estão longe do inversor fotovoltaico que, da mesma forma como ocorre antes do ponto de conexão, faz com que a distância aumente a impedância nos condutores, afirmada pela Segunda Lei de Ohm por Halliday et al. (2009). Isso pode acarretar elevação da tensão CA para suprir o ponto de entrega mais perto, sendo desta vez o foco entre inversor e padrão de entrada, em vez de centro de geração e centro de consumo mais próximo localizado na rede CA do SIN. O problema pode ser corrigido redimensionando os cabos CA, de forma a diminuir a impedância do sistema a ser percorrido pela corrente que irá atender aos pontos ou centros de consumo mais próximos.

ALTA TENSÃO NO BARRAMENTO DE CORRENTE CONTÍNUA

Antes de continuarmos com essa falha, aqui cabem duas definições: um arranjo fotovoltaico com módulos FV em série tem as tensões de cada módulo somadas e a corrente em série igual e módulos FV em paralelo têm as correntes somadas e a tensão igual. A segunda é que o termo MPPT também pode ser usado para nomear as entradas CC do inversor FV que possuem uma ou mais strings, para se conectar os arranjos fotovoltaicos através de um conector CC, geralmente um MC4.

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Essas definições serão úteis ao dimensionamento de um kit de geração solar, que deve considerar módulos FV de mesmas especificações técnicas – ou seja, geralmente mesma marca e modelo, uma vez que diferentes módulos podem ocasionar corrente reversa nos equipamentos, falha que será abordada mais adiante.

A alta tensão no barramento de corrente contínua pode ser produzida quando temos um ou mais módulos fotovoltaicos que excedem a máxima tensão da faixa de operação CC do inversor, podendo ocorrer de três formas: acima da faixa de operação de tensão CC para a MPPT, acima da faixa de operação para geração e acima do limite máximo de tensão CC, sendo que, quando o limite máximo é o mesmo que o limite superior da faixa de operação para geração, o dano ao equipamento pode ser irreversível. Tomando por base o primeiro caso e considerando o ponto de máxima potência rastreada (MPPT), existe uma faixa de operação dentro da qual a tensão do arranjo FV pode estar para que esse ponto seja facilmente alcançado pelo algoritmo do inversor.

Logo, essa faixa de operação é a melhor para que os arranjos FV trabalhem dentro de uma mesma MPPT do equipamento, tendo a máxima eficiência. Para o segundo caso, temos que a faixa de operação para geração é aquela que, além de abranger a faixa de operação de tensão CC para a MPPT, abrange um limite além, mínimo e máximo. Todavia, nem sempre esse limite além alcança o ponto de máxima potência rastreada, podendo o equipamento ter sua eficiência diminuída.

No terceiro caso, devemos anteriormente compreender que a tensão máxima FV pode ser igual ou maior que a tensão máxima da faixa de operação para a geração. Quando igual, o arranjo, ao ultrapassar a tensão máxima FV, apresenta o erro de alta tensão no barramento CC e interrompe sua geração, podendo haver danos ou não ao equipamento. Quando maior, o arranjo FV, ao ultrapassar a tensão máxima da faixa de operação para geração, obterá um

intervalo sem geração até a tensão máxima FV, aumentando a proteção sobre o equipamento em caso de erros de dimensionamento FV do lado CC.

Cabe ainda citar uma equação de correção por temperatura, que deve ser considerada no dimensionamento dos arranjos fotovoltaicos para que, no inverno, quando a temperatura diminui, a tensão que se eleva nos painéis seja levada em conta. Considerando isso, temos que:

CtVoc(STC)*ΔT(°C)*Voc(STC)*N+Voc(STC)*N, onde ΔT(°C) = 25 - Tf

Onde ainda, CtVoc(STC) = Coeficiente de Temperatura dado em V/°C,

ΔT(°C) = Variação de temperatura,

Voc(STC) = Tensão em circuito aberto individual do módulo FV,

N = Número de painéis FV dentro do arranjo a ser analisado, resulta no Valor Corrigido de Tensão em Circuito Aberto para o arranjo FV.

Uma observação a se ponderar é que, nessa equação, a variação de temperatura (ΔT) deve ser considerada em módulo e o Coeficiente de Temperatura, CtVoc(STC), deve ser considerado positivo para diminuição da temperatura ambiente e, negativo para aumento da temperatura ambiente.

Por solução dessa falha, devemos redimensionar os arranjos FV que a apresentarem, de forma que não haja a corrente reversa. No item a seguir, veremos sobre a corrente reversa.

CORRENTE REVERSA

A corrente reversa, dentro de um sistema fotovoltaico, é definida por ser aquela corrente ocasionada pela diferença de potencial (d.d.p.) entre um ou mais módulos FV no mesmo arranjo, produzindo a corrente reversa na série FV, ou ainda, como sendo a d.d.p. entre um ou mais arranjos de uma mesma MPPT, gerando a corrente reversa entre as séries fotovoltaicas em paralelo. Tal corrente é identi-

ficada pelo inversor fotovoltaico, que apresenta normalmente o alarme de PV Reverso, que nada mais é do que a identificação dessa d.d.p. no sistema, permitindo que essa corrente surja e circule por entre os módulos, danificando suas células fotovoltaicas.

A corrente reversa pode ocorrer quando utilizamos diferentes marcas e modelos de painéis FV em um ou mais arranjo da mesma MPPT do inversor ou, mais especificamente, quando utilizamos módulos FV com diferentes especificações técnicas previstas no datasheet dos módulos. Quando se trata de instalação, podemos ainda ter diferentes arranjos de uma mesma MPPT instalados em sentidos apontados para direções não paralelas ou desiguais, ou ainda em diferentes quedas d’água do telhado de uma residência, por exemplo. Fato é que, quando existe algum fator que gere a diferença de potencial entre os arranjos FV de uma mesma MPPT de um inversor, podemos ter a corrente reversa. Os sombreamentos, que também podem causar tais problemas, podem ser evitados com diodos de bypass ou otimizadores fotovoltaicos, por exemplo.

Para se estudar uma instalação com essa falha, de forma a corrigi-la, podemos testar uma string ou série por vez no inversor, sempre se lembrando de desligar o equipamento do lado, primeiro CA, depois CC e aguardar o tempo necessário de descarregamento dos capacitores para fazer os testes com cada string. Quando o equipamento se religa e opera normalmente, temos a comprovação de que a falha existia no sistema FV, bastando identificar com um multímetro onde está a d.d.p. que causa o alarme.

CONCLUSÃO

Neste trabalho, foram apresentadas algumas definições simples mas fundamentais na área de energia solar fotovoltaica, como MPPT, módulos em série e paralelo, equação de correção por temperatura, além de identificar causas de problemas e suas soluções nos sistemas

fotovoltaicos. Foram abordadas as causas de quatro dos principais problemas na geração fotovoltaica, sendo eles: baixa resistência de isolação, alta tensão no barramento de CA, alta tensão no barramento de CC e, ainda, corrente reversa.

Na identificação dos problemas e suas soluções foi utilizada uma linguagem comunicativa e simples para a aquisição do conhecimento por parte do leitor, buscando adentrar de forma acessível a este conteúdo, sem causar espantos, objetivando mitigar falhas que podem ser analisadas de maneira prévia à instalação fotovoltaica por parte dos novos instaladores e também experientes, sob a direção e orientação dos engenheiros eletricistas responsáveis pelas instalações fotovoltaicas e seu comissionamento. Para pesquisas futuras, sugere-se o diagnóstico das curvas IxV (corrente por tensão) para se medir a eficiência na geração alcançada pela MPPT do inversor em análise.

* Marcos Vinicius Pereira de Matos é engenheiro eletricista.

Referências

RÜTHER, R. Panorama Atual da Utilização da Energia Solar Fotovoltaica e Trabalho do Labsolar nesta Área. Laboratório de Energia Solar. Departamento de Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Santa Catarina, 1998.

ROBERTS, J. J., ZEVALLOS, A. A. M., & CASSULA, A. M. Assessment of photovoltaic performance models for system simulation. Renewable & Sustainable Energy Reviews, 72, 1104-1123, 2017.

IEC, International Electrotechnical Comission. Solar photovoltaic energy systems - Terms, definitions and symbols, IEC Standart 61836, Geneva: 2016.

BECQUEREL, M. E. Mémoire sur les effets électriques produits sous l’influence des rayons solaires. Paris: l’Académie des sciences. Comptes rendus hebdomadaires des séances, 1839.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - ABNT. NBR5410. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.

IEC, International Electrotechnical Comission. Requirements for testing, documentation and maintenance, IEC Standart 62446, Geneva: 2016.

ALEXANDER, C. K., SADIKU, M. N. O. Fundamentos de circuitos elétricos. 5. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

HALLIDAY, D., WALKER, J., RESNICK R. Fundamentos de Física. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2009.

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Meia década de engenharia de prompt na prática da inteligência artificial

Os últimos cinco anos marcaram uma era transformadora na IA (inteligência artificial), alimentada pelo rápido desenvolvimento dos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs – Large Language Models). Modelos como o GPT, Claude, Llama, Gemini, Qwen e DeepSeek exibem recursos destacados na compreensão e geração de texto semelhantes aos dos humanos, resolvendo problemas complexos e até mesmo auxiliando em tarefas de engenharia, como a geração de código.

A engenharia de prompt é um tema central para alavancar o potencial dessas ferramentas: trata-se da prática de projetar e refinar instruções de entrada (prompts) para orientar o comportamento dos LLMs de forma eficaz, sem alterar os parâmetros do modelo.

Para profissionais que atuam em atividades da economia do conhecimento, entender como

O propósito deste estudo é apresentar a evolução das boas práticas de engenharia de prompt nos últimos anos

criar prompts eficazes não é mais uma opção, mas uma habilidade fundamental para aproveitar LLMs em diversas aplicações. Os exemplos vão desde documentação técnica e geração de códigos até atividades de brainstorming e análise de dados. O propósito deste estudo é apresentar a evolução das boas práticas de engenharia de prompt nos últimos anos.

O PASSADO: FUNDAÇÕES E NASCIMENTO (~2020-2022)

As bases para os LLMs modernos foram lançadas pela arquitetura Transformer (Vaswani et al., 2017), cujo mecanismo de autoatenção paralelizável (parallelizable self-attention) permitiu novas ordens de grandeza no treinamento dos modelos. Essa inovação de arquitetura possibilitou que modelos como o pioneiro Bert, do Google (2018), e a série GPT, da OpenAI, fossem treinados com centenas de bilhões de parâmetros em bases de dados de centenas de bilhões de gigabytes de arquivos de textos.

Um ponto de descontinuidade no desenvolvimento dos modelos ocorreu com a chegada do GPT-3, em 2020. Sua grande dimensão (175 bilhões de parâmetros), 115 vezes maior que a versão anterior, de 2019, levou ao surgimento de recursos de Aprendizagem em Contexto (ICL – In-Context Learning). A ICL permite que os LLMs se adaptem a novas tarefas com base apenas em informações e

exemplos fornecidos no prompt, sem atualizações de parâmetros. As principais técnicas baseadas em ICL incluem:

• Zero-shot prompting: fornece apenas uma instrução para a tarefa junto dos dados de entrada. Depende inteiramente do conhecimento pré-treinado do modelo. É eficaz para tarefas simples ou modelos ajustados (fine-tuned) para instrução, mas muitas vezes é insuficiente para contextos de maior complexidade.

• Few-shot prompting: além da instrução, inclui um ou mais exemplos de entrada e saída (demonstrações) no prompt. Esses exemplos orientam o modelo no formato, estilo e lógica da tarefa esperada, melhorando significativamente o desempenho em tarefas complexas.

O sucesso da ICL, particularmente o aprendizado de few-shot com GPT-3, popularizou a engenharia de prompt, que era, a princípio, em grande parte, empírica, envolvendo tentativas e erros para encontrar frases e exemplos eficazes.

O PRESENTE: MATURAÇÃO E TÉCNICAS AVANÇADAS

(~2022-2024)

O período a partir de 2022 em diante viu a engenharia de prompt amadurecer com o desenvolvimento de técnicas estruturadas e um melhor entendimento das boas práticas devido a avanços como o RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback), que empregam humanos no processo de treinamento e ajuste dos LLMs. Técnicas como o RLHF foram empregadas no desenvolvimento de modelos como InstructGPT e ChatGPT e alinharam os LLMs às preferências humanas de utilidade, honestidade e inocuidade, tornando-os mais confiáveis quando alimentados por prompts complexos.

Avanços cruciais foram observados quando passaram a ser incluídas técnicas focadas em desencadear o raciocínio e a interação no pro-

cesso de construção das respostas dos LLMs:

• Solicitação da cadeia de pensamento (CoT - Chain of Thought ): introduzido por Wei et al. (2022), o CoT envolve solicitar que o LLM produza etapas intermediárias de raciocínio antes da resposta final. Essa decomposição melhora significativamente o desempenho em tarefas complexas de raciocínio (aritmética, senso comum, simbólica) e aumenta a interpretabilidade. O zero-shot CoT alcança resultados semelhantes simplesmente adicionando frases como “Vamos pensar passo a passo”.

• Autoconsistência (SC - Self-Consistency): proposto por Wang et al. (2022), o SC aprimora o CoT ao mostrar diversos caminhos de raciocínio e selecionar a resposta mais consistente por meio de voto majoritário. Isso melhora a robustez e a precisão em comparação com a dependência de um único caminho CoT.

• ReAct (Reason+Act): desenvolvido por Yao et al. (2022), o ReAct intercala etapas de raciocínio (pensamentos) com ações (por exemplo, chamadas de API, interações com o ambiente de ferramentas). Essa sinergia permite que os modelos planejem, coletem informações externas (reduzindo a alucinação) e ajam em direção a metas. Ele une o processamento da linguagem e a ação orientada a objetivos.

• Árvore de Pensamentos (ToT - Tree of Thoughts): introduzido por Yao et al. (2023), o ToT generaliza o CoT ao permitir a exploração de vários caminhos de raciocínio simultaneamente em uma estrutura de árvore. Ele usa o LLM para geração e avaliação de pensamento, guiado por algoritmos de busca (BFS, DFS). O ToT se destaca em tarefas que exigem planejamento e exploração, mas tem altos custos computacionais. Juntamente com essas técnicas, boas práticas se solidificaram:

• Clareza e especificidade: use instruções precisas e inequívocas. Defina tarefa, inten-

Instituto de Engenharia

ção, formato, comprimento e estilo explicitamente.

• Disposição de contexto: inclua todas as informações básicas necessárias. Use delimitadores (###, “””) para separar instruções, contexto e dados de entrada.

• Definição de restrição: especifique restrições (por exemplo, comprimento de saída). Prefira instruções positivas (“Faça Y”) em vez de apenas as negativas (“Não faça X”).

• Estrutura do prompt: coloque as instruções primeiro. Use exemplos de poucas fotos para demonstrar o formato ou estilo. Empregue o prompt de papel (“Agir como...”) para definir a persona.

TAXONOMIA

DAS PRINCIPAIS

• Iteração e refinamento: trate a solicitação como um processo de design iterativo. Comece simples, teste, avalie as saídas e refine o prompt com base nas falhas.

O FUTURO: FRONTEIRAS E DESAFIOS (~2024+)

Embora as técnicas discutidas anteriormente representem avanços significativos, o período de meados de 2024 em diante marca uma mudança em direção a aplicações ainda mais sofisticadas. A engenharia de prompt está indo além da obtenção de respostas específicas para orquestrar comportamentos complexos, principalmente por meio do surgimento de agentes baseados em LLMs.

TÉCNICAS DE ENGENHARIA DE PROMPT

Nome da técnica Conceito/Mecanismo central Tipos de tarefas principais

Zero-shot

ICL - Few-shot prompting

CoT - Cadeia de Pensamento

SC - Autoconsistência

Apenas instrução de tarefa, sem exemplos fornecidos. Depende do conhecimento pré-treinado do modelo

Fornecer exemplos de entrada-saída 1-N (demonstrações) no prompt

Gerar etapas intermediárias de raciocínio antes da resposta final

Fazer uma amostra de vários caminhos de CoT, selecionar a resposta mais consistente (por exemplo, por maioria de votos)

ReAct

ToT - Árvore de Pensamentos

RAG - Retrieval Augmented Generation

Intercalar o raciocínio (pensamento) com ações (uso da ferramenta) e observações

Explorar vários caminhos de raciocínio em uma estrutura de árvore usando LLM para geração/avaliação

Recuperar documentos externos e adicionar contexto relevante ao prompt antes da geração

Tarefas gerais e complexas, controle de formato Médio (tokens)

Raciocínio (matemática, senso comum, simbólico)

Raciocínio

QA, tomada de decisão, agentes

Planejamento, busca, problemas complexos

Médio (tokens de saída, latência)

Alto (várias chamadas LLM)

Médio-alto (custo de interação)

Muito alto (muitas chamadas LLM)

Tarefas intensivas em conhecimento, controle de qualidade Médio (custo de recuperação)

Tarefas gerais e simples Baixo

Diferentemente das interações tradicionais de solicitação-resposta em que o LLM fornece uma única saída com base em um prompt, um agente (ou um sistema composto por múltiplos agentes que interagem) é projetado para atingir objetivos mais amplos de forma autônoma e em várias etapas. As principais características dos agentes LLM incluem:

• Planejamento: dividir uma meta de alto nível (fornecida por meio de um prompt ou objetivo inicial) em uma sequência de subtarefas menores e gerenciáveis.

• Uso de ferramentas: interagir com software externos, APIs, bancos de dados ou outros recursos digitais para coletar informações ou executar ações. Isso é um ponto-

COMO PROJETAR UM LLM EFICAZ?

-chave para que as respostas do agente se conectem com dados e recursos do mundo real, além do conhecimento interno do LLM.

• Raciocínio e tomada de decisão: usando os principais recursos de raciocínio do LLM (geralmente guiados por estruturas como ReAct ou ToT) para analisar informações, tomar decisões sobre a próxima etapa, lidar com erros e adaptar o plano conforme necessário.

• Memória: manter informações sobre ações, observações e decisões passadas para informar as etapas futuras.

OUTRAS FRONTEIRAS

Embora os agentes representem uma grande mudança, outras fronteiras estão intima-

Instituto de Engenharia

mente relacionadas e muitas vezes permitem:

• Automação: o design de prompts manual é um gargalo. Técnicas como APE (Automatic Prompt Engineer) usam LLMs ou algoritmos de otimização para gerar e selecionar automaticamente prompts mais eficazes, às vezes superando os designers humanos. Isso envolve um trade-off entre o esforço manual reduzido e o custo computacional da otimização.

• Multimodalidade: à medida que os LLMs integram recursos de imagem, áudio e vídeo, a solicitação está se estendendo à interação multimodal, exigindo novas técnicas de instrução do tipo.

• Eficiência e custo: otimizar o trade-off entre eficácia de prompt e custo computacional (tokens, latência) continua sendo fundamental. Técnicas que exigem várias chamadas LLM (SC, ToT, APE) são poderosas, mas caras. A otimização de tokens é uma habilidade prática fundamental.

• Segurança e robustez: os LLMs permanecem vulneráveis à injeção via prompt (instruções maliciosas ocultas nos dados) e jailbreak (ignorando os filtros de segurança). A robustez a pequenas variações de prompt (sensibilidade, desvio imediato) também é uma preocupação. A defesa eficaz requer abordagens combinadas, além da solicitação cuidadosa, incluindo alinhamento e filtragem no nível do modelo.

• Desafios contínuos: compreender completamente os mecanismos de ICL e raciocínio, padronizar a avaliação além de simples benchmarks, melhorar a eficiência de métodos avançados e garantir que a justiça continue sendo uma área de pesquisa ativa.

CONCLUSÃO

Como uma nova área do conhecimento, a engenharia de prompt se transformou completamente em apenas meia década. Impulsionada por avanços na arquitetura dos modelos e técnicas como ICL, a prática evoluiu

para incluir métodos sofisticados como CoT, ReAct e ToT, que aprimoram o raciocínio e a capacidade de ação dos LLMs.

Atualmente, o campo avança para fronteiras como a automação do design de prompts (APE) e o desenvolvimento de agentes autônomos capazes de planejamento e uso de ferramentas, além da integração multimodal. Contudo, desafios significativos persistem, especialmente em relação ao custo computacional e à segurança contra manipulações.

Para a atuação profissional contemporânea, dominar a engenharia de prompt se torna cada dia mais indispensável. Para além da escolha do modelo mais apropriado a se utilizar, a engenharia de prompt não se limita à formulação de instruções, mas avança para a aplicação de um conjunto crescente de técnicas, a compreensão de suas nuances e limitações e a experiência de iterar sobre os prompts para alcançar os resultados desejados. À medida que a IA se integra mais profundamente em diversas áreas, a habilidade de se comunicar eficazmente com LLMs será crucial para destravar seu potencial de forma responsável, segura e inovadora.

*George Paulus é engenheiro de produção, mestre e doutor na área de Logística na Poli-USP. Possui 20 anos de experiência como docente em cursos de graduação e pós-graduação pela Fundação Vanzolini, Insper e Instituto de Engenharia.

Referências

Anthropic. Prompt engineering, https://docs.anthropic.com/en/docs/build-with- claude/prompt-engineering/overview. Acesso em: 28 abr. 2025.

Devlin, J., Chang, M. W., Lee, K., C Toutanova, K. (2019). BERT: Pre-training of Deep Bidirectional Transformers for Language Understanding. Proceedings of the 201S Conference of the North American Chapter of the Association for Computational Linguistics: Human Language Technologies, Volume 1 (Long and Short Papers).

Dong, Q., et al. (2023). A Survey on In-context Learning. arXiv preprint arXiv:2301.00234. Kojima, Takeshi et al. “Large Language Models are Zero-Shot Reasoners.” ArXiv abs/2205.11916 (2022).

OpenAI. Best practices for prompt engineering with the OpenAI API, https:// help.openai.com/en/articles/6654000-best-practices-for-prompt-engineering-with- the-openai-api. Acesso em: 28 abr. 2025.

Ouyang, L., et al. (2022). Training language models to follow instructions with human feedback. arXiv preprint arXiv:2203.02155v1.

Sahoo, Pranab et al. “A Systematic Survey of Prompt Engineering in Large Language Models: Techniques and Applications.” ArXiv abs/2402.07927 (2024).

Vaswani, A., et al. (2017). Attention is all you need. Advances in Neural Information Processing Systems 30 (NIPS 2017).

Wang, Xuezhi et al. “Self-Consistency Improves Chain of Thought Reasoning in Language Models.” ArXiv abs/2203.11171 (2022).

Wei, Jason et al. “Chain of Thought Prompting Elicits Reasoning in Large Language Models.” ArXiv abs/2201.11903 (2022).

Yao, Shunyu et al. “ReAct: Synergizing Reasoning and Acting in Language Models.” ArXiv abs/2210.03629 (2022).

Yao, Shunyu et al. “Tree of Thoughts: Deliberate Problem Solving with Large Language Models.” ArXiv abs/2305.10601 (2023).

Glossário de termos de IA e engenharia de prompt

Agente (agente LLM): um sistema de IA, geralmente alimentado por um (ou mais) LLM, projetado para perceber seu ambiente, tomar decisões e ações para atingir objetivos específicos. Os agentes geralmente podem usar ferramentas (como software ou APIs).

Alinhamento (alinhamento de IA): práticas destinadas a assegurar que as ações e objetivos dos sistemas de IA correspondam aos valores e intenções humanas, com destaque para técnicas como o RLHF.

Alucinação (contexto de IA): a tendência dos LLMs de gerar informações que soam plausíveis, mas que são factualmente incorretas ou sem sentido, essencialmente “inventando coisas” que não estavam presentes em seus dados de treinamento ou contexto fornecido.

APE (Automatic Prompt Engineer): técnica automatizada em que um LLM é utilizado para criar e otimizar prompts para outro modelo, frequentemente resultando em desempenho superior ao obtido com prompts desenvolvidos manualmente.

API (Application Programming Interface): um conjunto de regras e protocolos que permite que diferentes aplicativos de software se comuniquem e troquem dados entre si. Os LLMs podem usar APIs como “ferramentas” para acessar informações ou serviços externos (por exemplo, dados meteorológicos, resultados de pesquisa).

BERT (Bidirectional Encoder Representations from Transformers): modelo pioneiro do Google, baseado em Transformers, reconhecido por sua habilidade em capturar contextos linguísticos complexos e amplamente utilizado mediante ajustes específicos.

BFS (Breadth-First Search): um algoritmo comum para percorrer ou pesquisar estruturas de dados de árvore ou gráfico. No contexto do ToT, ele explora todos os “pensamentos” possíveis no nível atual antes de se aprofundar.

ChatGPT: um popular aplicativo de IA conversacional desenvolvido pela OpenAI, com base em seus modelos GPT, conhecido por sua capacidade de

seguir instruções e dialogar. Frequentemente, usa RLHF para alinhamento. Claude: uma família de LLMs desenvolvida pela Anthropic, conhecida por um forte foco em segurança e alinhamento, muitas vezes treinada usando princípios constitucionais de IA ao lado de RLHF.

Contexto (em prompting): as informações básicas, dados, exemplos ou restrições fornecidas em um prompt para ajudar o LLM a entender a situação específica ou os requisitos da tarefa.

CoT (Chain of Thought ou Cadeia de Pensamento): prompt de cadeia de pensamento é uma técnica de engenharia de prompt que incentiva/direciona um LLM a produzir suas etapas intermediárias de raciocínio antes de dar uma resposta final, melhorando o desempenho em problemas complexos.

Custo (custo computacional): avaliação dos recursos consumidos (tempo, capacidade computacional e custo financeiro) ao executar um modelo de IA.

DeepSeek: empresa chinesa que desenvolve LLMs de código aberto, os quais têm se tornado um grande sucesso e despertado atenção global pela ótima relação entre custo e benefício.

DFS (Depth-First Search): algoritmo comum para pesquisar estruturas de dados de árvore ou gráfico. No ToT, ele explora um caminho de “pensamentos” o mais profundamente possível antes de retroceder.

Few-shot learning/Few-shot prompting: uma aplicação de ICL em que o prompt inclui um pequeno número (um ou mais) de exemplos (pares de entrada- saída) demonstrando a tarefa desejada. Isso ajuda o LLM a entender e executar a tarefa sem ajustes específicos.

Fine-tuning (ajuste fino do modelo): o processo de pegar um LLM pré-treinado e treiná-lo em um conjunto de dados menor e específico da tarefa para adaptar seus parâmetros e melhorar seu desempenho nessa situação específica. Contrasta com a engenharia de prompt, que não altera os parâmetros do modelo.

Fluxos de trabalho automatizados: sequências de tarefas ou ações, potencialmente envolvendo várias etapas, ferramentas e pontos de decisão orquestrados e executados por um sistema de IA (geralmente um agente LLM) com intervenção humana mínima.

Gemini: uma família de LLMs multimodais desenvolvida pelo Google.

GPT (Generative Pre-trained Transformer): série de modelos generativos pré-treinados da OpenAI, baseados em Transformers, conhecidos por sua capacidade avançada em geração e compreensão textual.

ICL (In-Context Learning): habilidade dos modelos de linguagem em adquirir competências ou resolver problemas exclusivamente com base em informações fornecidas no prompt, dispensando treinamento adicional. O aprendizado de few-shot é uma forma de ICL.

InstructGPT: modelo da OpenAI (relacionado ao GPT-3) especificamente ajustado com RLHF para seguir instruções claras e diretas.

Jailbreaking: técnica para contornar restrições éticas e de segurança em modelos de IA, induzindo-os a realizar tarefas inadequadas ou proibidas por meio de prompts manipulados.

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Latência: tempo transcorrido entre o envio de um prompt e o recebimento da resposta gerada pelo modelo.

Lhama: uma família de LLMs lançada pela Meta (Facebook), frequentemente usada como base para o desenvolvimento de modelos de código aberto.

LLM (Large Language Model): um modelo de IA, normalmente baseado na arquitetura Transformer e treinado em grandes quantidades de dados de texto, capaz de entender e gerar linguagem semelhante à humana para uma ampla gama de tarefas.

Mecanismo de autoatenção: o componente principal da arquitetura do Transformer. Ele permite que o modelo avalie a importância de diferentes palavras na sequência de entrada em relação umas às outras ao processar qualquer palavra, permitindo uma melhor compreensão do contexto e das dependências de longo alcance no idioma.

Multimodalidade/Multimodal: refere-se a modelos de IA que podem processar e gerar informações em vários tipos de dados (modalidades), como texto, imagens, áudio e vídeo, em vez de apenas texto.

NLU (Natural Language Understanding): uma parte da PNL focada especificamente no aspecto de compreensão, permitindo que as máquinas entendam o significado do texto em linguagem humana.

Parâmetros (parâmetros do modelo): as variáveis internas (geralmente chamadas de pesos e vieses) dentro de um modelo de IA que são aprendidas com os dados durante o treinamento. Esses parâmetros armazenam o “conhecimento” do modelo. A engenharia de prompt visa guiar o modelo sem alterar esses parâmetros, ao contrário do ajuste fino.

PNL (Processamento de Linguagem Natural): um subcampo da IA focado em permitir que os computadores entendam, interpretem e gerem linguagem humana.

Pré-treinamento: a fase inicial de treinamento computacionalmente intensivo, em que um LLM aprende padrões gerais de linguagem, gramática, fatos e habilidades de raciocínio a partir de um enorme conjunto de dados disponíveis naInternet. Isso cria um modelo fundamental que pode ser solicitado ou ajustado.

Prompt: o texto de entrada (instruções, perguntas, exemplos, contexto) fornecido a um LLM para obter uma resposta ou comportamento específico.

Prompt injection: uma vulnerabilidade de segurança em que instruções maliciosas estão ocultas nas entradas de dados (por exemplo, texto de uma página da web, entrada do usuário) que um LLM processa. O LLM pode executar por engano essas instruções ocultas em vez de sua tarefa pretendida.

Qwen: é uma família de grandes modelos de linguagem de código aberto desenvolvidos pela empresa chinesa Alibaba Cloud.

RAG (Retrieval-Augmented Generation): uma técnica em que, antes de gerar uma resposta, o sistema busca e recupera informações relevantes de uma fonte de conhecimento externa (como um banco de dados ou coleção de documentos) e adiciona essas informações ao contexto do prompt. Isso ajuda a fundamentar a resposta do LLM em fatos específi-

cos, muitas vezes atualizados, reduzindo a alucinação.

ReAct (Reason+Act): uma estrutura de solicitação que permite que os LLMs resolvam tarefas gerando sequências intercaladas de etapas de raciocínio (“pensamentos”) e ações (“atos”, como usar uma ferramenta ou API), incorporando os resultados (“observações”) de volta ao processo de raciocínio.

RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback): uma técnica de treinamento usada para alinhar LLMs com as preferências humanas. Envolve a coleta de feedback humano (por exemplo, classificação de diferentes respostas do modelo) para treinar um “modelo de recompensa”, que é, então, usado para ajustar o LLM por meio de algoritmos de aprendizado por reforço, incentivando-o a gerar resultados que os humanos preferem (geralmente mais úteis, honestos e inofensivos).

SC (Self-Consistency ou Autoconsistência): uma técnica que melhora a confiabilidade do raciocínio (especialmente com CoT), gerando vários caminhos de raciocínio diferentes para o mesmo problema e escolhendo como resposta final aquela que aparece com mais frequência (voto majoritário).

Solicitação de função: uma técnica simples em que o prompt instrui o LLM a adotar uma persona ou função específica (por exemplo, “atuar como um engenheiro elétrico com 20 anos de experiência na área de alta tensão”) para influenciar o estilo, o tom e o conteúdo de sua resposta.

Tokens (tokens de entrada/saída): as unidades básicas de texto que os LLMs processam (geralmente palavras, partes de palavras ou pontuação).

Os custos de uso do LLM e os limites da janela de contexto são normalmente medidos em tokens. Os tokens de entrada são aqueles presentes no prompt; já os tokens de saída são aqueles gerados pelo modelo.

ToT (Tree of Thoughts ou Árvore de Pensamentos): uma estrutura de solicitação avançada que permite que um LLM explore vários caminhos de raciocínio simultaneamente em uma estrutura semelhante a uma árvore, usando o próprio LLM para gerar e avaliar possíveis etapas, guiadas por algoritmos de pesquisa. Útil para planejamento complexo e resolução de problemas.

Uso de ferramentas (LLM Tool Use): a capacidade de um LLM, geralmente habilitado por estruturas como ReAct ou designs de agentes específicos, de interagir com ferramentas de software externas, APIs ou bancos de dados para coletar informações ou executar ações além da simples geração de texto.

Zero-shot CoT: uma variação da Cadeia de Pensamento em que as etapas de raciocínio são eliciadas usando uma instrução simples (por exemplo, “vamos pensar passo a passo”) em vez de fornecer exemplos explícitos de cadeias de raciocínio.

Zero-shot prompting: fornecer uma instrução e entrada para um LLM sem nenhum exemplo de como executar a tarefa. O modelo depende exclusivamente de seu conhecimento pré-treinado para seguir a instrução.

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TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 10 MINUTOS

Direito e engenharia: a regulamentação jurídica em diferentes ramos da engenharia

• Por Raul Iberê Malagò*

Aengenharia, em seus diversos ramos, exerce um papel fundamental no desenvolvimento da sociedade, atuando em áreas que vão desde construção civil e infraestrutura até tecnologia, química, elétrica e agronomia. No entanto, a atuação do engenheiro não é pautada apenas por normas técnicas e conhecimentos científicos; ela também está inserida em um complexo arcabouço legal que busca regular o exercício profissional, garantir a segurança das operações e proteger os interesses da sociedade. Este artigo visa destacar como o direito se entrelaça com a engenharia e como as diversas legislações aplicáveis se estendem a todos os ramos dessa tão importante profissão.

O texto aqui apresentado contempla as questões jurídicas relacionadas tanto aos engenheiros quanto às empresas do setor de engenharia nas várias especialidades deste ramo. Além disso, considera também que o leitor da Revista Engenharia nem sempre é um engenheiro experiente, como, por exemplo, estudantes de engenharia e outros que nem mesmo sejam engenheiros, mas se interessem pelo assunto. Vejamos, então, alguns aspectos práticos dessa relação entre tais ciências.

Regulamentação profissional: o exercício da engenharia em seus diversos ramos

A atividade dos engenheiros é regulamentada principalmente pela Lei nº 5.194/1966, que define os requisitos para o exercício das profissões de engenheiro, arquiteto e agrimensor. Essa lei estabelece a obrigatoriedade do registro no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) para qualquer profissional que deseje atuar em um dos ramos da engenharia. Isso vale para engenheiros civis, químicos, mecânicos, elétricos, agrônomos e outros.

Essa regulamentação não apenas delimita as atividades privativas de cada especialidade, mas também atribui aos conselhos de classe a responsabilidade de fiscalizar o exercício da profissão, garantindo que os engenheiros atuem de acordo com padrões técnicos e éticos que resguardem os interesses da sociedade.

Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) e proteção jurídica em todos os setores

Independentemente do ramo de atuação, seja na engenharia elétrica, química, civil

ou agronomia, os profissionais devem realizar a ART, conforme estabelecido pela Lei nº 6.496/1977. A ART formaliza a responsabilidade do engenheiro sobre determinado projeto, serviço ou obra e serve como instrumento jurídico essencial para garantir a segurança das operações e assegurar os direitos do profissional.

A ART também é uma forma de proteção ao engenheiro, pois permite que ele tenha um registro formal de sua atuação em determinada obra ou serviço. Isso é crucial em possíveis disputas judiciais, em que a atribuição de responsabilidades precisa ser claramente estabelecida.

Código de Defesa do Consumidor e responsabilidade em serviços de engenharia

No contexto das relações de consumo, o CDC (Código de Defesa do Consumidor – Lei nº 8.078/1990) possui relevância significativa para engenheiros de todos os ramos, incluindo aqueles que atuam em setores como engenharia de software, elétrica, mecânica e química.

Por exemplo, um engenheiro de software que desenvolve sistemas e soluções para consumidores precisa garantir que o produto oferecido esteja em conformidade com os padrões de qualidade e segurança estabelecidos pelo CDC.

Além disso, a engenharia química e a engenharia de alimentos também lidam com produção e fornecimento de produtos ao mercado consumidor. Nessas situações, o profissional pode ser responsabilizado civilmente por qualquer falha ou dano decorrente dos produtos desenvolvidos. Dessa forma, é fundamental que os engenheiros compreendam as obrigações previstas no CDC e adotem medidas preventivas para mitigar riscos e evitar litígios.

Em pelo menos um aspecto, a norma do direito civil busca uma composição com normas técnicas. Vejamos um exemplo claro: o

A ART também é uma forma de proteção ao engenheiro, pois permite que ele tenha um registro formal de sua atuação

em determinada obra ou serviço

inciso VIII do art. 39 do CDC determina que é vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas, colocar no mercado de consumo qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ou outra entidade credenciada pelo Conmetro (Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial).

Normas Técnicas da ABNT e regulamentação específica para diferentes engenharias

A ABNT emite normas que abrangem diversos setores da engenharia. Para engenheiros civis, existem normas relativas à construção e à infraestrutura; para engenheiros eletricistas, normas sobre instalações elétricas; e, para engenheiros de segurança do trabalho, normas sobre segurança em ambientes de trabalho. Enquanto as normas da ABNT não são leis, elas ganham força vinculante quando mencionadas em contratos, regulamentos ou legislações específicas. No âmbito jurídico, as normas da ABNT são frequentemente usadas como referência para avaliar se os serviços e produtos atendem aos padrões de segurança e qualidade exigidos.

Direito e Engenharia

Em contratos com o setor privado, a presença de uma assessoria jurídica especializada é crucial para garantir que todos os aspectos legais sejam contemplados

Leis trabalhistas e normas de segurança no trabalho

A atuação dos engenheiros, principalmente daqueles que trabalham em campos industriais, de construção civil, mineração e produção química, está sujeita às normas da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e às NRs (Normas Regulamentadoras) do Ministério do Trabalho. A NR-18, por exemplo, estabelece diretrizes sobre segurança e saúde no ambiente de construção civil, exigindo a participação do engenheiro de segurança no desenvolvimento e implementação de medidas preventivas em canteiros de obras.

No caso de engenheiros que atuam em setores industriais, como a engenharia mecânica, a NR-12 e a NR-13 tratam, respectivamente, da segurança no trabalho em máquinas e equipamentos e da operação de caldeiras, vasos de pressão, tubulações e tanques de armazenamento. A responsabilidade pelo cumprimento dessas normas é compartilhada entre os empregadores e os engenheiros, que devem projetar e implementar soluções que garantam a segurança dos trabalhadores.

Engenharia e contratos com o setor público

Para engenheiros que atuam no setor público, seja em projetos de infraestrutura, sanea-

mento, eletrificação rural ou tecnologias de informação, a Lei nº 14.133/2021 (Lei de Licitações e Contratos que substituiu a antiga Lei nº 8.666/1993) estabelece normas para a contratação de serviços e obras públicas. A legislação busca garantir transparência, eficiência e qualidade das obras, e exige que os profissionais da engenharia estejam devidamente qualificados e capacitados para participar de licitações e executar projetos de acordo com as especificações técnicas estabelecidas.

Outro aspecto fundamental é a análise criteriosa do edital do ponto de vista legal, pois a proposta bem fundamentada e alinhada com as normas pode fazer significativa diferença no julgamento do certame e determinação do vencedor na licitação.

Contratos de engenharia com o setor privado

Além das licitações e contratos com o setor público, os profissionais de engenharia naturalmente se envolvem em contratos de prestação de serviços com empresas do setor privado e do terceiro setor, que demandam grande atenção aos aspectos legais e contratuais. Nesse contexto, a relação entre o direito e a engenharia se manifesta de diversas maneiras, desde a fase de negociação até a execução e conclusão dos projetos.

Em contratos com o setor privado, a presença de uma assessoria jurídica especializada é crucial para garantir que todos os aspectos legais sejam contemplados, desde a elaboração do contrato até a execução e eventual resolução de conflitos. Com uma abordagem bem estruturada, o engenheiro e as empresas de engenharia podem mitigar riscos, assegurar seus direitos e cumprir suas obrigações de forma eficaz, contribuindo para o sucesso do projeto e para a preservação de sua reputação profissional.

Cláusulas contratuais e obrigações

Os contratos de engenharia no setor privado são essencialmente acordos que espe-

cificam as obrigações, responsabilidades e direitos de cada parte envolvida em um projeto. Esses contratos devem ser elaborados com base nas leis civis, em especial no Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406/2002), que rege a formação e execução de contratos.

Para a segurança jurídica, os contratos de engenharia precisam conter cláusulas claras e precisas, abordando aspectos como:

• Escopo dos serviços: definir de forma detalhada os serviços que o engenheiro ou a empresa de engenharia se compromete a realizar. Isso pode incluir desde projetos arquitetônicos e cálculos estruturais até execução de obras e instalações.

• Cronograma e prazos: estabelecer prazos para a execução das atividades, com a definição de marcos intermediários e finais. A falta de clareza nesses prazos pode levar a disputas judiciais por atrasos ou pelo descumprimento contratual.

• Remuneração e pagamento: dispor sobre os valores a serem pagos pelos serviços, as formas de pagamento e a possibilidade de ajustes em caso de alterações no escopo do projeto. Deve-se atentar à eventual incidência de tributos, como PIS/Cofins e ISS, que devem ser previstos e calculados conforme a legislação tributária.

• Garantias e responsabilidades: os contratos com o setor privado frequentemente incluem garantias sobre a qualidade do serviço prestado e cláusulas de responsabilidade em caso de danos. O artigo 618 do Código Civil, por exemplo, estabelece que, em contratos de empreitada, o profissional é responsável pela solidez e segurança da obra pelo prazo de cinco anos, o que deve ser considerado nas negociações contratuais. Aliás, os artigos de 610 a 626 tratam da “empreitada”.

• Multas e penalidades: previsão de penalidades por descumprimento de prazos, qualidade do serviço, ou inobservância de normas técnicas. O cuidado e o conhecimento

jurídico na redação destas cláusulas são essenciais para evitar conflitos e assegurar que as partes cumpram suas obrigações.

Normas

técnicas e obrigações legais

Em contratos de engenharia com o setor privado, o engenheiro também deve observar as normas técnicas aplicáveis ao seu ramo de atuação. Isso se refere, por exemplo, à ABNT NBR 6118 no caso de projetos estruturais em concreto armado, ou à ABNT NBR 5410 para instalações elétricas de baixa tensão. Essas normas, embora técnicas, podem ser referenciadas no contrato (mais ou menos detalhadas) para garantir que a execução do serviço esteja em conformidade com os padrões mínimos de segurança e qualidade.

Os contratos também podem fazer referência a legislações específicas, como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados – Lei nº 13.709/2018), especialmente em projetos de engenharia que envolvem coleta e tratamento de dados pessoais (por exemplo, em projetos de automação predial ou sistemas inteligentes).

Além disso, os contratos devem observar o disposto nas leis anticorrupção

Os

contratos de engenharia no setor privado são essencialmente acordos que especificam as obrigações, responsabilidades e direitos de cada parte envolvida em um projeto

Direito e Engenharia

(Lei 12.846/2013) e da concorrência (Lei 12.529/2011), muito importantes para a segurança do negócio.

Arbitragem e resolução de conflitos

Diferentemente do setor público, em que os litígios são, geralmente, resolvidos por meio do Poder Judiciário, os contratos de engenharia com o setor privado podem prever mecanismos alternativos de resolução de conflitos, como arbitragem e mediação, nos termos da Lei de Arbitragem (Lei nº 9.307/1996). A inclusão de uma cláusula arbitral no contrato pode ser vantajosa, pois permite a solução de disputas de maneira mais rápida e técnica, com a escolha de árbitros especializados em engenharia.

Seguro de responsabilidade civil

Outro aspecto relevante nos contratos com o setor privado é a previsão do seguro de responsabilidade civil, que protege o engenheiro e as empresas de engenharia contra possíveis indenizações decorrentes de erros ou falhas na execução dos serviços. A contratação de um seguro é um ato prudente, que traz segurança ao profissional e à empresa contratante, resguardando os interesses de ambos em caso de eventuais problemas.

Mais do que um conjunto de normas a seguir, o arcabouço jurídico que regulamenta a engenharia é uma ferramenta de apoio ao exercício profissional de qualidade

Mas, para que o seguro surta os efeitos desejados e garanta a proteção ao segurado, recomenda-se que se conte com uma assessoria especializada na elaboração de um plano de seguro que atenda às necessidades de cobertura específica para cada caso concreto.

Responsabilidade civil do engenheiro

O Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406/2002) também se aplica aos diversos ramos da engenharia. Por exemplo, o artigo 927 estabelece a obrigação de reparar danos causados a terceiros, princípio que se estende a todas as especialidades da engenharia. Engenheiros eletricistas, por exemplo, podem ser responsabilizados em caso de falhas em instalações que provoquem acidentes. Da mesma forma, engenheiros agrônomos têm responsabilidade sobre a aplicação correta de produtos químicos nas lavouras, conforme as normas de segurança ambiental.

Conclusão

A interseção entre direito e engenharia é ampla e diversificada, envolvendo múltiplos ramos e atividades profissionais. O respeito às leis, regulamentos e normas, sejam eles específicos para a engenharia ou voltados à proteção do consumidor e do meio ambiente, é crucial para o exercício ético e seguro da profissão.

Conhecer e aplicar a legislação vigente assegura que os engenheiros possam desenvolver suas atividades com responsabilidade, minimizando riscos e promovendo a segurança e o bem-estar da sociedade. Mais do que um conjunto de normas a seguir, o arcabouço jurídico que regulamenta a engenharia é uma ferramenta de apoio ao exercício profissional de qualidade, protegendo tanto os engenheiros quanto aqueles que são impactados por seus trabalhos.

*Raul Iberê Malagò é arquiteto e advogado; Juiz do Tribunal de Impostos e Taxas do Estado de São Paulo e presidente do IIIMA.

A engenharia no Brasil em 2025

Aformação acadêmica em engenharia no Brasil é de excelência, com universidades oferecendo cursos de reconhecimento internacional. Mas os jovens brasileiros têm fugido dos cursos longos e difíceis da engenharia, que demandam conhecimento de matemática, física e química.

Divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 21 de janeiro de 2025, o Censo em Educação Superior, do Ministério da Educação, indica que, na comparação com 2014, no ano passado, o número de estudantes que ingressaram em cursos de graduação em engenharia caiu 23%. O mercado de trabalho para engenheiros no Brasil sempre oferece amplo espaço de oportunidades devido à diversidade nas áreas de atuação.

A competição sempre foi alta, mas o emprego tem sido afetado pelas flutuações econômicas. A instabilidade econômica e a variação no investimento em infraestruturas pública e privada impactam diretamente a demanda por engenheiros. No Brasil, existem desafios significativos para a engenharia em termos de P&D (pesquisa e desenvolvimento), com recursos limitados para inovação tecnológica. Isso impacta a capacidade do país de competir globalmente em termos de inovação de ponta. Iniciativas em centros de pesquisa e parcerias internacionais procuram superar essas limitações.

Com investimentos adequados em áreas como educação, inovação e infraestrutura, a engenharia no Brasil tem potencial para crescer e se tornar mais competitiva globalmente. Além disso, as novas tecnologias, como a au-

tomação e a inteligência artificial, têm o potencial de transformar a forma como os engenheiros trabalham, criando nichos e exigindo novas habilidades.

Assim, enumeramos algumas áreas que hoje oferecem amplas oportunidades de trabalho para engenheiros no Brasil:

1. Os grandes projetos de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e saneamento básico, que demandam grande expertise em engenharia, possibilitando crescimento e desenvolvimento. Além disso, vale mencionar o patrimônio construtivo existente, produto do trabalho de gerações, a requerer permanente manutenção e zeladoria, atendendo a requisitos técnicos.

2. O aproveitamento do grande potencial em energia renovável, como hídrica, solar e eólica, tem na engenharia um componente que exerce papel central na sua expansão.

3. A engenharia de software, inteligência artificial, robótica e IoT (internet das coisas), com investimentos em inovação e startups. A inovação tecnológica, adequadamente difundida, é crucial para garantir a competitividade, o crescimento e o futuro de nossos engenheiros.

O Instituto de Engenharia, com sua história e isenção, oferece oportunidades de informação, atualização e especialização, especialmente no momento atual, no qual a engenharia no Brasil está em um cenário misto de desafios e oportunidades.

*Alfredo Mário Savelli é diretor da A.M. Savelli Engenharia e presidente do Conselho Consultivo do IE

Ética e tecnologia: uma breve reflexão

Atecnologia está para a ciência assim como a ética está para a moral, uma vez que ambas são a ação ou a aplicação prática da outra. Porém, a ética deverá sempre acompanhar a tecnologia para uma aplicação dentro dos nossos princípios morais e científicos, visando o bem coletivo.

O comportamento econômico e social é reflexo dos avanços científicos e tecnológicos. É nesse ponto que entra a engenharia, sendo a aplicação prática das ciências a serviço do homem. O agir ético para os engenheiros deve ser o uso primordial do mais avançado conhecimento de nossa tecnologia, dentro dos princípios normalizados, o que nos remete a um estudo continuado de nossa arte, a todo tempo em evolução.

Basta observarmos, por exemplo, as diversas fases da Revolução Industrial, evoluções tecnológicas aplicadas que transformaram a vida do homem, suas relações sociais, econô-

Nós, engenheiros, projetávamos e executávamos, na construção civil, obras grandiosas, sem imaginar o mal que poderiam ocasionar

micas, políticas, jurídicas, trabalhistas, urbanas, ambientais, entre tantas outras.

Os cientistas e os engenheiros se tornam os principais atores nesta jornada: os primeiros pesquisam, descobrem e desenvolvem teorias; os segundos, em suas ações, as aplicam, de forma prática em benefício de todos.

Surge agora uma nova questão a ser refletida sobre o princípio filosófico do bem e do mal, entrando na dualidade da natureza. Tudo o que produzimos é sempre para o bem? Ou somos, muitas vezes, levados inconscientemente a limites imprevisíveis? No curso da história, temos inúmeros casos para analisarmos estes limites.

Podemos exemplificar o notável brasileiro Alberto Santos Dumont, que inventou uma magnífica máquina mais pesada do que o ar e capaz de voar. Não restam dúvidas, pelo que sabemos, de que sua criatividade foi voltada para o bem: criar um novo meio de transporte, mais rápido, eficiente, possível de galgar distâncias muitas vezes intransponíveis. Santos Dumont, porém, jamais imaginaria que sua criação pudesse ser usada como uma terrível arma de destruição e extermínio humano.

Enfim, outros engenharam a transformação daquele invento para outro propósito, direcionado a princípio, conforme os padrões de moralidade, para o mal. No entanto, conforme a situação e o ponto de vista de quem cria e o utiliza, seu uso é visto como algo necessário para o bem daquele grupo, principalmente em um contexto em que o exterminado tenha sido demonizado.

Oppenheimer, por sua vez, projeta e desenvolve uma mortífera bomba, nunca vista até aquele momento, com espetacular capacidade de destruição, consciente do que produzia e de seu uso. Sob a ótica da moral, era um grande mal; porém, sob o aspecto do fim de uma guerra e de uma corrida armamentista que se impôs pela Guerra Fria, foi um bem, tendo Oppenheimer sido coroado por muitos como herói.

Até poucas décadas atrás, nós, engenheiros, projetávamos e executávamos, na construção civil, obras grandiosas, sem imaginar o mal que poderiam ocasionar, com impactos globais e locais na vizinhança. Projetávamos e executávamos grandes barragens, por exemplo, e não analisávamos os impactos negativos ambientais, sociais, econômicos, entre outros, que elas poderiam ocasionar. Porém, acordamos para isso: pesquisas, estudos, exames e análises foram feitos. Assim, surgiram novas normas voltadas para mitigar estes impactos. A questão moral e científica mudou, e nossas ações éticas e tecnológicas acompanharam estas evoluções em benefício das futuras gerações.

Dentro deste pensamento, podemos dizer que, na engenharia e na tecnologia, os conceitos de bem e mal são frequentemente relacionados à ética profissional e ao impacto das criações tecnológicas na sociedade e no meio ambiente.

Tais conceitos podem ser interpretados da seguinte forma: o bem, na engenharia e na tecnologia, deve priorizar a segurança e o bem-estar; a sustentabilidade; a acessibilidade e a inclusão; e uma inovação responsável. Ao passo que ao mal se podem associar: o

desenvolvimento de armas e tecnologias maliciosas; a negligência e a incompetência; o impacto ambiental negativo; e a exploração e a injustiça social.

Assim, os engenheiros e os demais profissionais das áreas tecnológicas têm a responsabilidade ética de considerar o impacto de suas criações e de trabalhar para garantir que suas inovações contribuam para o bem-estar da sociedade e do planeta, evitando danos e injustiças.

O engenheiro, ao se formar, sintetiza em seu juramento estes princípios, inspirados no compartilhamento de valores comuns de responsabilidade, ética e compromisso com a segurança pública e o bem-estar.

Ao colar o grau de engenheiro, ele jura que:

• Exercerá a profissão com dignidade, responsabilidade e respeito à vida humana, atuando em prol do desenvolvimento da sociedade e da preservação do meio ambiente;

• Utilizará seus conhecimentos para promover o bem-estar social, a segurança, a saúde e o conforto das pessoas;

• Observará os preceitos éticos, legais e técnicos da profissão, honrando os princípios de justiça e equidade;

• Buscará o aprimoramento contínuo do conhecimento e da competência profissional;

• Fará uso da tecnologia de forma sustentável, contribuindo para o progresso científico e tecnológico, sem prejuízo à natureza e ao ser humano.

Como podemos observar, este juramento é um compromisso solene feito ao colar o grau, refletindo a importância da ética e da responsabilidade em sua prática profissional.

*Luiz Felipe Proost de Souza é engenheiro civil especializado em segurança do trabalho, administrador, mestre em saneamento ambiental, professor universitário, perito judicial, foi conselheiro do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo), é diretor da Proost Engenharia de Avaliações, membro dos Conselhos Deliberativo e Consultivo do IE (Instituto de Engenharia de São Paulo). Contato: lpkproost@uol.com.br

IE, TCM-SP e Crea-SP assinam

Termo de Cooperação Técnica para consolidação do BIM

O Instituto de Engenharia, o TCM-SP (Tribunal de Contas do Município de São Paulo) e o Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo) assinaram, em setembro, no plenário do TCM-SP, um Termo de Cooperação Técnica, com o objetivo de consolidar a metodologia BIM ( Building Information Modelling ), oferecendo aos associados e servidores encontros, seminários, programas de formação e capacitação para aprimoramento na tecnologia. O termo foi assinado pelo presidente do IE, José Eduardo Jardim; pelo presidente do TCM-SP, Domingos Dissei; e pelos integrantes do Crea-SP, Marília Gregolin Costa de Castro e Abner Rodrigo Toledo. O encontro também contou com a participação de Miriana Marques e Ivan Whately, respectivamente, VP de Administração e Finanças e VP de Relações Externas do IE, e de Rui Camargo, diretor da Revista Engenharia.

Da esquerda para direita: Ivan Whately, Miriana Marques e Rui Camargo

Segundo José Eduardo Jardim, o BIM está se firmando como um novo padrão na construção civil, impulsionado não só por sua eficiência, mas também por exigências legais e pela busca por mais sustentabilidade, precisão e economia nas obras.

Projeto do túnel Sena Madureira é apresentado a técnicos do IE

Lideranças da equipe de trabalho da Prefeitura de São Paulo, que estão à frente do Projeto do Complexo Viário Sena Madureira, foram recebidas, em setembro, na sede do Instituto de Engenharia, pelo presidente da Casa, José Eduardo Jardim, sua diretoria e corpo técnico.

Durante o encontro, foi apresentado aos engenheiros do Instituto o projeto do túnel que conectará a rua Sena Madureira à avenida Ricardo Jafet, no bairro do Ipiranga. A obra tem como foco a melhoria da mobilidade urbana na região da Vila Mariana, em especial no cruzamento da rua Sena Madureira com a avenida Domingos de Moraes. As duas audiências públicas já realizadas ocorreram em espaço cedido pelo IE.

Estiveram no encontro Marcos Monteiro, secretário da Siurb (Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras); Marco Aléssio, presidente da SPObras; Rodrigo Kenji de Souza Ashiuchi, secretário do Verde e do Meio Ambiente; Sidney Cruz, secretário municipal de Habitação; Milton Persoli, presidente da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego); Ricardo Pradas, da Secretaria Executiva de Mobilidade e Trânsito, e Rafael Camargo, da SPTrans.

Na apresentação, foram abordados aspectos ambientais, de engenharia e geometria do projeto, trânsito e transporte, além das negociações necessárias para a realocação de cerca de 200 famílias das comunidades Sousa Ramos e Luís Alves.

Devido à complexidade do projeto, a equipe técnica do IE fará uma análise detalhada para emissão de um parecer técnico.

Dessa forma, o instituto reafirma seu compromisso de colaborar de forma responsável e isenta, colocando sua experiência a serviço do poder público e da população na busca por soluções que tragam benefícios concretos para a cidade.

Acervo
IE
José Eduardo Jardim na abertura

VLT

São Paulo foi tema de encontro no IE

Aconteceu, em setembro, no Instituto de Engenharia, o segundo encontro para discutir a implantação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) na cidade de São Paulo.

O evento contou com a presença de representantes da Prefeitura de São Paulo, entre eles Pedro Martin Fernandes, diretor-presidente da SPUrbanismo; e Manoel Marcos Botelho, secretário-executivo da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo; além de representantes da iniciativa privada, entidades do setor e corpo técnico do IE.

Durante o evento, foram apresentadas as estratégias de material rodante e em qual etapa estão na SPTrans e na Secretaria de Transportes, além de linhas alternativas passando pelo triângulo de São Paulo, que é um recorte do centro histórico paulistano, onde se situam os principais prédios

Assista ao vídeo do evento de maio de 2024, escaneando o QRCode ao lado

Vice-governador de SP ministrou palestra no IE

O vice-governador do estado de São Paulo, Felicio Ramuth, esteve, em agosto, na sede do Instituto de Engenharia para ministrar a palestra “PPS, Privatizações e Concessões”.

Recebido pela vice-presidente de Administração e Finanças, Miriana Marques, Ramuth apresentou a agenda do governo sobre o tema, destacando a contratação de R$ 354 milhões de uma carteira de R$ 550 milhões, com 11 leilões realizados e mais 10 previstos.

Ao Centro, a VP de Adm. e Finanças, Miriana Marques, com Pedro Martin (à dir.) e Manoel Botelho

históricos da cidade, entre eles o Largo São Bento, Pateo do Collegio e Largo São Francisco.

Este é o segundo evento sobre o tema. O primeiro aconteceu em maio de 2024.

Escaneie os QRCodes ao lado para conferir, respectivamente, as fotos e a gravação do evento de 2025

Ramuth salientou que isso significa mais estradas, metrô, trens, saneamento e serviços de qualidade para os paulistas. “Nosso compromisso é acelerar o desenvolvimento, gerar emprego e renda e transformar São Paulo em um estado ainda mais moderno, eficiente e preparado para o futuro”, finaliza.

Escaneie o QRCode ao lado para conferir as fotos da palestra

Confira a agenda de eventos do IE

TCM-SP visitou o laboratório

BIM, do IE, para estruturação de curso sobre a tecnologia

A Comissão BIM do TCM-SP (Tribunal de Contas do Município de São Paulo) realizou, em outubro, uma visita técnica ao laboratório BIM do IE (Instituto de Engenharia), denominado “Centro de Treinamento Sebastião Camargo”. O espaço foi

oferecido pelo IE para sediar o curso sobre tecnologia BIM (Building Information Modeling), em complemento aos cursos promovidos pelo Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo), em parceria com a Corte. O curso é estruturado com base em uma pesquisa aplicada aos servidores técnicos do TCM-SP e da prefeitura, com o objetivo de identificar os eixos mais relevantes para a formação de engenheiros, arquitetos e técnicos da administração pública.

Durante a visita, o presidente do IE, José Eduardo Jardim, destacou a relevância da iniciativa. “Estamos extremamente felizes por poder colaborar com o Tribunal de Contas do Município de São Paulo e com a administração pública municipal nesse processo moderno de controle e fiscalização, que traz benefícios inequívocos para a sociedade. O BIM permite que uma obra seja acompanhada em tempo real, resolvendo desvios ao longo da execução e evitando aditivos”, afirmou.

Fonte: TCM-SP

Representantes do IE são empossados no Conselho do Condephaat

Ivan Whately e Rui Camargo, respectivamente vice-presidente de Relações Externas e diretor da Revista Engenharia, foram designados representantes (titular e suplente) do Instituto de Engenharia, para integrar o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado) por um período de dois anos.

A cerimônia de posse aconteceu em setembro, na sala Carlos Gomes, no Complexo Júlio Prestes, e foi conduzida pelo presidente e pela vice-presidente do Condephaat, Carlos Augusto Mattei Faggin e Mariana de Souza Rolim, além da secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas do governo do estado de São Paulo, Marília Marton. A presidente interina do IE, Miriana Marques, também prestigiou a posse.

Da esq. p/ dir., Rui Arruda, Marília Marton (secretária de Cultura, Economia e Indústria Criativas) e Ivan Whately

Criado em 1968, o Condephaat é um órgão vinculado à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do governo do estado de São Paulo, que desempenha um papel crucial na salvaguarda de monumentos, edificações, sítios arqueológicos, paisagens e manifestações culturais imateriais que fazem parte da história e identidade paulistas.

Rui Klein, presidente da EcoRodovias, discute grandes concessões rodoviárias com equipe do IE

A vice-presidente de Administração e Finanças do Instituto de Engenharia, Miriana Marques, e membros da diretoria receberam, em agosto, o presidente da EcoRodovias, Rui Klein.

O encontro discutiu as grandes concessões rodoviárias, além de assuntos como a aproximação de grandes empresas de engenharia com o instituto; os aspectos técnicos da concepção de uma nova ligação do planalto com a Baixada Santista, assim como um evento conjunto para exposição do projeto, os movimentos sociais na região de Cotia, as características operacionais da nova concessão da rodovia Raposo Tavares e a possível introdução de um sistema de transporte público de média capacidade no empreendimento.

Vice-prefeito de São Paulo realizou palestra no Instituto de Engenharia sobre “Segurança em São Paulo”

No dia 13 de agosto, o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo, ministrou uma palestra, na sede do Instituto de Engenharia, sobre a segurança em São Paulo, assunto

que impacta diretamente a qualidade e o desenvolvimento econômico social.

No início do evento, o Coronel compartilhou sua trajetória profissional, relatando sua experiência desde o início, na Polícia Militar, até a conquista do cargo de vice-prefeito de São Paulo. Destacou, também, sua passagem pela CEAGESP e o trabalho que foi realizado por lá.

Sobre a segurança em SP, foram apresentados os trabalhos sociais que estão sendo realizados nas comunidades e o apoio psicológico para os policiais que lutam diariamente para garantir a segurança da população.

A vice-presidente de Administração e Finanças, Miriana Marques, e o vice-presidente de Relações Externas, Ivan Whately, encerraram o evento ao lado do Coronel.

IE participou da abertura da 31ª Semana de Tecnologia

Metroferroviária

Em setembro, o Instituto de Engenharia foi representado por sua vice-presidente de Administração e Finanças, Miriana Marques, na abertura da 31ª Semana de Tecnologia Metroferroviária. Ela participou do evento em nome do presidente, José Eduardo Jardim.

Em seu discurso, Miriana destacou a honra de representar o instituto, ressaltando sua própria trajetória profissional de mais de 30 anos ligada ao Metrô de São Paulo, onde atua como assistente técnica na área de desapropriação.

“Tive a oportunidade de iniciar minha trajetória profissional no Metrô ao lado do meu pai, Jason Marques, ainda na primeira fase da estação Vila Prudente. Desde então, acompanhei e contribuí para o desenvolvimento de importantes

projetos que ajudaram a transformar a mobilidade da nossa cidade.”

Neste ano, a Semana de Tecnologia Metroferroviária também comemora os 35 anos de criação da AEAMESP. “A Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Metrô tem cumprido, ao longo de sua história, um papel essencial na integração dos profissionais e no fortalecimento de toda a área metroferroviária, promovendo sempre a troca de experiências e de conhecimentos técnicos”, destacou Miriana.

VP do IE, Miriana Marques, entregou prêmios no 31º

Prêmio Master Imobiliário

Miriana Marques com os representantes das incorporadoras Attos e Base

Em setembro, foi realizada a cerimônia de entrega do 31º

Prêmio Master Imobiliário, criado em 1994 pela FIABCI-Brasil (Capítulo Brasileiro da Federação Internacional Imobiliária), em parceria com o Secovi-SP (Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo).

Do Instituto de Engenharia, o ex-presidente Paulo Ferreira participou da comissão julgadora, e a vice-presidente de Administração e Finanças, Miriana Marques, entregou o prêmio da Categoria Profissional para a Reserva Jardim Botânico, das incorporadoras Attos e Base.

O case Reserva Jardim Botânico é um exemplo magistral de comercialização, merecendo o prêmio por sua estratégia multifacetada que transformou o lançamento dos dois primeiros empreendimentos desse bairro planejado em um evento de mercado.

O Prêmio Master consolidou-se como um dos mais prestigiados do setor imobiliário em âmbito internacional e valoriza os projetos desenvolvidos por empresas de todos os portes – pequenas, médias e grandes –, sem distinção, evidenciando o mérito técnico, a inovação e a contribuição de cada iniciativa para o avanço urbano e social do país. Com informações de Prêmio Master Imobiliário.

VP

de Assuntos

Internos

do IE participou de cerimônia festiva na FEI

O vice-presidente de Assuntos Internos do Instituto de Engenharia, Lawrence Chung Koo, participou, em setembro, da cerimônia de graduação dos alunos da FEI (Fundação Educacional Inaciana Padre Saboia de Medeiros).

Na ocasião, aconteceu a homenagem para os melhores alunos das turmas de Engenharia, e Lawrence Koo representou o IE na entrega. Os mesmos alunos serão homenageados, também, na solenidade do Dia do Engenheiro, realizada pelo instituto, em dezembro, e na edição especial do Jornal do IE Melhores Alunos, além de ganharem um ano de associação gratuita no Instituto.

O IE deseja sucesso para o início da carreira de todos os jovens formandos!

#Vinho #Fermentação

#Fabricação #Açúcares

#Quimica #Cerveja

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 4 MINUTOS

A fermentação dos vinhos

• Por Eng° Ivan Carlos Regina*

Até o final do século 19, a fabricação do vinho era um processo basicamente empírico, pois a principal etapa de sua produção ainda não tinha sido estudada e decifrada.

Surge, então, a hoje famosa e lendária figura de Louis Pasteur, que inaugura a microbiologia e conduz suas pesquisas sobre a fermentação, fase essencial para a transformação do mosto vínico em vinho.

Seus experimentos e descobertas são abrangentes e extremamente importantes para a humanidade, como a criação de diversas vacinas e do processo que recebeu seu nome, a pasteurização, que está na base da grande maioria dos líquidos alimentares de nossa época.

Pasteur comprova cientificamente que a fermentação era efetuada por microrganismos vivos, as leveduras, e conduz seus trabalhos na região vitivinícola de Arbois, no Jura na França.

O mosto, sumo das uvas recém-prensadas, não contém álcool. E a magia de transformar este suco em vinho vem pela ação dos fermentos, que podem ser adicionados, mas que já existem naturalmente na pruína, uma espécie de cera protetora que recobre os bagos das uvas.

No processo fermentativo, o açúcar presente no mosto (que está classificado na categoria da química orgânica como uma frutose, ou seja, uma pentose), pela ação das leveduras, é transformado em álcool com a liberação de gás carbônico.

O que parece simples de ser explicado é, na verdade, um fenômeno bastante complexo, que, antes do cientista francês, era executado tomando como base as tradições de conhecimentos passados de geração em geração de vinicultores.

O processo fermentativo no vinho pode durar de alguns dias a várias semanas, sempre feito com temperatura controlada, pois, se a tempe-

ratura do líquido aumentar, as leveduras morrem, interrompendo o processo.

Este controle era antigamente efetuado pelo vinicultor de forma artesanal, resfriando as cubas onde o mosto fermentava, arrefecendo a temperatura e irrigando a parte externa delas com água gelada. Hoje, modernas serpentinas de resfriamento, controladas por computador, estabilizam a temperatura do líquido de forma constante e segura.

A fermentação do mosto para se transformar em vinho tem obrigatoriamente de ser feita num meio aeróbico. Nas antigas cubas de fermentação artesanais, as borras (sementes, cascas, eventuais folhas etc.) subiam à superfície impedindo o líquido de entrar em contato com o ar, formando uma espécie de casca, o que obrigava o vinicultor a golpeá-la para fracioná-la, com o intuito de que ela voltasse a submergir no líquido em fermentação. Este ato era chamado de “quebrar o chapéu”. Também, atualmente, isto é feito por equipamentos industriais, que podem ser progra-

Aquele vinho que você compra de famílias que produzem o chamado “vinho de colônia” em garrafões arrolhados e que pode ser bastante

gostoso se consumido no local onde foi produzido pode estar completamente azedo ao ser bebido algum tempo depois

mados para agir em intervalos regulares ou mesmo sutil e constantemente, num processo chamado de battonage

A fermentação do mosto vínico em meio anaeróbico leva à produção de vinagre.

A fermentação, como etapa principal do processo de fabrico do vinho, nos traz sempre importantes lições a serem aprendidas.

Também Pasteur concluiu, a partir de seus estudos, que os vinhos não se estabilizavam do ponto de vista físico-químico se não continham teores de álcool a partir dos 10 graus Lussac ou mais. O termo “grau Gay-Lussac” ou “grau GL” é uma unidade para medir o teor alcoólico de uma solução, indicando a porcentagem de álcool etílico em volume.

Quando o vinho contém pouco álcool, ele se torna alvo de várias doenças e pode ser atacado por famílias de microrganismos patogênicos.

Assim, aquele vinho que você compra de famílias que produzem o chamado “vinho de

Engenho & Arte

colônia” em garrafões arrolhados, que pode ser bastante gostoso se consumido no local onde foi produzido pode estar completamente azedo ao ser bebido algum tempo depois.

Assim, se o mosto de uvas não contém o açúcar necessário para se desdobrar e produzir o teor de álcool de que o vinho necessita, é costume bastante difundido acrescentar ao mosto, que ainda vai fermentar, açúcar de cana ou beterraba.

Este processo é chamado de chaptalização e vem do francês que o descobriu, Jean Antoine Chaptal, no início do século 19.

Este acréscimo de açúcar de cana ao mosto é, em alguns locais, proibido; em outros, permitido; e, ainda, parcialmente permitido em outros lugares, pois, se a adição for pequena, o vinho pouco se altera quimicamente e em sabor.

Muitas vezes, porém, este acréscimo é responsável por três ou quatro graus do teor alcoólico do vinho, e muitos dizem que a chaptalização está na origem da famosa dor de cabeça que algumas pessoas têm ao ingeri-lo. Lembramos que o açúcar da cana é uma sacarose e, portanto, classificado quimicamente como uma hexose.

Fermentação da cerveja

Curiosa também é a fermentação da cerveja. Como dissemos, o mosto das uvas já contém açúcares naturais. Mas como se dá o processo para a produção de cerveja, já que o trigo e a cevada não contêm açúcares naturais?

Vimos agora como três químicos franceses do século 19 mudaram para sempre a nossa maneira de enxergar o vinho

Este processo foi descoberto, ao que parece, já no Antigo Egito ou mesmo antes. As sementes de cevada ou trigo são molhadas, fermentadas e postas para brotar, o que faz o amido delas se desdobrar em açúcar. Esta brotação é interrompida e este processo, que recebe o nome de brassagem, produz o malte, que segue para a fermentação.

Até o nosso cauim (uma bebida indígena tradicional), beberagem pouco alcoólica obtida de quase uma trintena de insumos variados, passava pelo processo de fermentação.

Uma vez obtido o sumo base, normalmente a partir da mandioca ou do abacaxi (apenas como exemplos), era necessário que uma cunhã (mulher jovem) cuspisse no líquido para que se iniciasse a fermentação.

Vimos agora como três químicos franceses do século 19 mudaram para sempre a nossa maneira de enxergar o vinho.

Assim, temos que agradecer o auxílio destes homens, sem nos esquecer dos microrganismos que estão espalhados por toda a parte e que nos são essenciais na produção de um sem número de alimentos. Afinal, como poderíamos viver sem a tríade vinho, queijo e pão?

O pão como base da alimentação, o queijo como a ambrosia terrena e o vinho, com consumo moderado, como o néctar que nos conduz ao Paraíso?

*Ivan Carlos Regina é engenheiro do setor de transporte público, associado do Instituto de Engenharia e autor dos livros "Vinho, o Melhor Amigo do Homem" e "Harmonizando Vinho & Comida". E-mail: ivanregina@terra.com.br.

Agricultura digital

Brasília – DF

Embrapa, 2020, 406 p.

A obra explora como a tecnologia está transformando o campo e conduzindo a agropecuária brasileira rumo a uma produção mais sustentável, inteligente e conectada. O livro traz desde conceitos básicos de agricultura digital até aplicações avançadas em geotecnologias, visão computacional, bioinformática e genômica, mostrando como a inovação se alia à produtividade. Entre os destaques, o leitor encontra estudos sobre agricultura de precisão, modelagem agroambiental e o papel da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) como hub de inovação, além de reflexões sobre os desafios legais e comunicacionais da digitalização do setor. O livro ainda aponta as forças motrizes e tendências que vão moldar a agropecuária brasileira na próxima década.

LIMA, Luiz Carlos S. Ferreira

A evolução dos produtos fitossanitários e seu uso no Brasil

São Paulo – SP Andef, 2013, 73 p.

A publicação acompanha de perto o salto histórico da agricultura nacional,

resultado, principalmente, da incorporação de tecnologias desenvolvidas localmente por centros de pesquisa brasileiros, que transformaram a forma como o país produz alimentos.

O livro não apenas traça o histórico dos defensivos agrícolas desde 1960, como também detalha o trabalho das empresas associadas à Andef (Associação Nacional de Defesa Vegetal) na geração de dados sobre o desempenho dos produtos nas primeiras fases de pesquisa. A publicação mostra ainda como o Brasil passou a integrar programas globais de pesquisa, reforçando seu papel na inovação agrícola mundial.

Propriedade intelectual e aspectos regulatórios em biotecnologia

Brasília – DF

Ipea, 2013, 200 p.

O livro analisa a posição do Brasil diante de países como Estados Unidos, Japão, China, Índia e nações europeias no que diz respeito à proteção da propriedade intelectual em biotecnologias. A obra traça a evolução histórica das biotecnologias, compara legislações de cada país e discute regulamentações que influenciam o desenvolvimento do setor, como normas de proteção à pesquisa em saúde e à biodiversidade.

Um destaque é o apêndice com tabela comparativa que indica quais matérias podem ser patenteadas

em cada país, oferecendo um panorama prático e estratégico para pesquisadores e empresas. O objetivo é fornecer uma visão clara do contexto brasileiro, de modo a aproveitar o potencial das biotecnologias de forma responsável e sustentável para as futuras gerações.

GOELLNER, Claud Ivan

Utilização de defensivos agrícolas no Brasil –Análise e seu impacto sobre o ambiente e a saúde humana

São Paulo – SP

Artgraph, 1993, 102 p.

O livro traça a trajetória do Brasil rumo à modernização da agropecuária, destacando como o país respondeu à crescente demanda global por alimentos, fibras e bioenergia. Desde os anos 1970, o desenvolvimento agrícola brasileiro acelerou com o uso de máquinas modernas, sementes geneticamente melhoradas, fertilizantes e defensivos agrícolas, conhecidos legalmente no país como agrotóxicos.

Conheça a biblioteca do Instituto de Engenharia

Endereço: Avenida Dr. Dante Pazzanese, 120, Ibirapuera, São Paulo, SP biblioteca@iengenharia.org.br

ABERTA DE SEGUNDA A SEXTA-FEIRA, DAS 9H ÀS 16H, FECHADO PARA ALMOÇO DAS 12H ÀS 13H

Eloísa Garcia

“Engenharia de alimentos é praticamente uma especialização da engenharia química e uma área realmente inovadora”, explica Eloísa Garcia, coordenadora do Ital – Apta (Instituto de Tecnologia de Alimentos, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo). “A área é muito bonita, porque estamos conservando e protegendo os alimentos, trabalhando para a segurança alimentar e para a segurança dos alimentos.”

Eloísa, reconhecida pela Forbes como uma das 100 Mulheres Poderosas do Agro (em 2021), é a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo do Ital. Fez carreira voltada para pesquisa dentro do Cetea (Centro de Tecnologia de Embalagem), considerado o melhor centro da América Latina para trabalhar com pesquisa, desenvolvimento e inovação na área de embalagem de qualquer tipo de material, contando com especialistas e infraestrutura analítica.

A engenheira defende que a diversidade de gênero e a cultura de inclusão são aspectos fundamentais para ter uma gestão inovadora e aberta ao futuro. “Cada vez mais somos desafiados a abrir a cabeça em relação a novas demandas e exigências do consumidor, então, quanto mais diverso é seu grupo e quanto mais voz você dá a cada um, mais fácil é entender a sociedade e desenvolver um trabalho que realmente faça a diferença como um todo.”

ESCOLA DE ENGENHARIA MACKENZIE

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