

Entrevista
WAGNER VICTER
DEFENDE A NECESSIDADE DE EXPLORAÇÃO NA
MARGEM EQUATORIAL
Sustentabilidade
AVANÇO NAS PESQUISAS DE BIOCOMBUSTÍVEIS NACIONAIS


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Entrevista
WAGNER VICTER
DEFENDE A NECESSIDADE DE EXPLORAÇÃO NA
MARGEM EQUATORIAL
Sustentabilidade
AVANÇO NAS PESQUISAS DE BIOCOMBUSTÍVEIS NACIONAIS


Brasil precisa equilibrar investimento em energias renováveis e novas fronteiras de O&G para garantir independência energética



























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REVISTA ENGENHARIA
ISSN 0013-7707
Órgão oficial do Instituto de Engenharia

Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 CEP 04012-180 - São Paulo, SP Tel. (55 11) 3466-9200
AGOSTO – 2025 – ANO 84 – Nº 665
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Promover a engenharia em benefício do desenvolvimento e da qualidade de vida da sociedade. Realizar esta missão por meio da promoção do desenvolvimento e da valorização da engenharia; promoção da qualidade e credibilidade de seus profissionais; prestação de serviços à sociedade, por meio de fóruns e debates sobre problemas de interesse público, análise e manifestação de opiniões políticas, programas e ações governamentais, elaboração e estudo de pareceres técnicos e propostas para o poder público e para a iniciativa privada; e prestação de serviços para seus associados. Suas ações estão dirigidas para a comunidade em geral; os orgãos públicos e organizações não governamentais; as empresas do setor industrial, comercial e de serviços; as empresas de engenharia, os engenheiros e os profissionais de nível superior em geral; os institutos de pesquisas e escolas de engenharia; e os estudantes de engenharia.

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Reportagem: Heverton Nascimento, Juca
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Impressão e Acabamento: Melting Color
A edição nº 665 da REVISTA ENGENHARIA é uma publicação da Itacarambi Produções Ltda. CNPJ 67.977.249/0001-22aitacarambi@uol.com.br

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CURTAS
VISÃO
HOMENAGEM
ARTIGOS
Jonas Mattos e Luiz Martinsi
Gustavo Jose Tobias Camuzzi, Lafaiete Alves Augusto Corrêa, Julio Tan Chen e Alex Fabiano Bueno
Wagner Victer, CEO Advisor da Petrobras, alerta para a urgência de novas fronteiras de exploração de O&G no Brasil 12

Ex-secretário de Energia de SP, João Carlos Meirelles, defende planejamento estratégico da produção do gás, petróleo e renováveis para suprir a demanda de energia 22

Seminário do Instituto de Engenharia debate a exploração de novas bacias de petróleo, como a Margem Equatorial, e o papel da engenharia na expansão energética nacional 30

Brasil aposta no crescimento do gás natural na transição energética, combinando produção interna, importações e GNL para diversificar a matriz 40

Liderança em biocombustíveis e compromisso com ESG projetam o Brasil como referência em energia limpa 48

Osetor de óleo e gás brasileiro vive um momento decisivo. A Margem Equatorial, a Bacia de Pelotas e as novas descobertas na Bacia de Santos desenham um horizonte de oportunidades capaz de redefinir não apenas nossa matriz energética, mas também a posição do Brasil no cenário global da transição energética. O país se encontra diante de uma oportunidade de transformar potencial em prosperidade, equilibrando desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental.
A exploração desses recursos precisa ser pautada pela inovação tecnológica e pelo respeito à sustentabilidade. E, aqui, a engenharia brasileira assume papel central. Após anos em que sua importância estratégica esteve em segundo plano, é hora de revitalizar nossa engenharia básica. É pela força da nossa capacidade técnica que será possível reduzir impactos ambientais, desenvolver soluções inteligentes e transformar riquezas naturais em benefícios para a sociedade.
Não se trata apenas de explorar reservas, mas de construir um legado. O desafio é alinhar o crescimento econômico e a preservação ambiental. É utilizar petróleo e gás como energia de transição em investimentos para o futuro, para o fortalecimento da indústria nacional e geração de empregos qualificados.

Neste número da Revista Engenharia, vamos abrir mais um espaço para esse tema, que foi pauta, em junho, durante o evento “Horizonte de Oportunidades no Óleo e Gás Brasileiro”, quando recebemos, entre outros nomes importantes do setor, o engenheiro Wagner Victer, gerente executivo de Programas Estruturantes da Petrobras, que também foi entrevistado para esta edição.
Não poderíamos deixar de falar sobre a COP30, que acontece em novembro, em Belém, no Pará, e a importância dos biocombustíveis, da sustentabilidade e da capacidade brasileira na produção de energias renováveis e limpas.
Mais do que uma pauta econômica, estamos diante de uma agenda que prepara o Brasil para ser protagonista em um mundo que exige cada vez mais equilíbrio entre consumo e preservação. Essa é a oportunidade de fazer do nosso setor de óleo e gás não apenas um componente de produção, mas um exemplo de inovação responsável e desenvolvimento sustentável.
Boa leitura!
José Eduardo Frascá Poyares Jardim Presidente
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REVISTA ENGENHARIA
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DESENVOLVIMENTO DE INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA
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FERROVIAS
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NAVEGAÇÃO INTERIOR E PORTOS
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RODOVIAS
Coordenador: José Manoel de Oliveira Reis
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TRANSPORTES AÉREOS
Coordenador: Adalberto Febeliano
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DESENVOLVIMENTO URBANO E REGIONAL
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Vice-Diretor: Neuton Sigueki Karassawa
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ÁGUAS E SANEAMENTO
Coordenador: José Eduardo W. A. Cavalcanti
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MOBILIDADE E LOGÍSTICA URBANA
Coordenador: Ivan Metran Whately
Vice-Coordenador:
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URBANIZAÇÃO
Coordenador: Alberto Epifani
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MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE
Assessor Especial: José Manoel de Oliveira Reis
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TRÂNSITO
Coordenador: Vanderlei Coffani
Vice-Coordenador: Jaques Mendel Rechter
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BIBLIOTECA
BIBLIOTECÁRIA:
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DESENVOLVIMENTO DE PROJETO E SERVIÇOS DE INFRAESTRUTURA
Assessor Especial: Roberto Kochen
Diretor: Francisco José Pereira de Oliveira
Vice-Diretor: Habib Georges Jarrouge Neto
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ESTRUTURAS E CONTROLE TECNOLÓGICO
Assessor Especial: Natan Jacobsohn Levental
Coordenador: Douglas Couto
Vice-Coordenadora: Fernanda Albano H. Nurnberg
Secretário:
ARQUITETURA, PAISAGISMO E COMUNICAÇÃO VISUAL
Coordenadora: Taina Vieira Volcov
Vice-Coordenadora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi
Secretário:
SISTEMAS
Coordenador: Paulo Eduardo de Queirós Mattoso Barreto
Vice-Coordenador: Sérgio Kater
Secretário:
GEOTECNIA
Coordenador: Arthur Teixeira Askinis
Vice-Coordenador: Lucas Atanasio
Secretária: Fabiana Curtarello Sardella
CONFORTO AMBIENTAL E ACÚSTICA
Coordenador: Schaia Akkerman
Vice-Coordenadora: Maria Luiza Rocha Belderrain
Secretário: Ricardo Santos Siqueira
PROJETOS DE ENERGIA
Coordenador: Roberto Massaru Watanabe
Vice-Coordenador:
Secretário:
DESENVOLVIMENTO DE GESTÃO E OBJETIVOS
Diretora: Débora Sanches de A. Marinello
Vice-Diretor: Constanzio Facci Ticeu
Secretária: Eny Kaori Uono Sanchez
GEOMÁTICA
Coordenador: Aristeu Zensaburo Nakamura
Vice-Coordenadora: Fátima Alves Tostes
Secretário: Osiris Monteiro Blanco
GERENCIAMENTO DE EMPREENDIMENTOS
Coordenador: Sérgio Luiz Azevedo Resende
Vice-Coordenador:
Secretário:
AVALIAÇÕES E PERÍCIAS
Assessor Especial: José Fiker
Coordenador: Ricardo Henrique de A. Imamura
Vice-Coordenadora: Miriana Pereira Marques
Secretário: Evandro Henrique
ENGENHARIA DIAGNÓSTICA
Coordenadora: Stella Marys Della Flora
Vice Coordenadora: Débora Sanches de A. Marinello
Secretária:
ENGENHARIA DE INCÊNDIO
Coordenador: Carlos Cotta Rodrigues
Vice-Coordenador: José Félix Drigo
Secretário: Silvio Paulo Piga
PLANEJAMENTO E ENGENHARIA ECONÔMICA
Coordenador:
Vice-Coordenador:
Secretário:
SEGURANÇA DO TRABALHO
Coordenador: Jefferson Deodoro Teixeira da Costa
Vice-Coordenador:
Secretário: Sidney Esteves Peinado
COMPLIANCE
Coordenadora:
Vice-Coordenador: Ricardo Henrique de Araujo Imamura
Secretário: Wilson Abramovick Costa
TECNOLOGIAS DIGITAIS
Coordenador: Pedro Badra
Vice-Coordenador:
Secretário:
DIRETORA: TATIANA LOURENÇO MACHADO
VICE-DIRETOR: ROBERTO BARTOLOMEU BERKES
SECRETÁRIO:
PRODUÇÃO
DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIA, INDÚSTRIA, ENERGIA E TELECOMUNICAÇÕES
Diretor: Aléssio Bento Borelli
Vice-Diretora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi
Secretário: Antonio Lambertini
INOVAÇÃO PARA ECONOMIA DO CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO
Coordenador: José Roberto Cardoso
Vice-Coordenador: George Paulus Dias
ENERGIA
Coordenador: Antonio Pedro Timoszczuk
Vice-Coordenador: Luiz Sérgio Mendonça Coelho
Secretário:
INDÚSTRIA DE PETRÓLEO, GÁS, BIOENERGIA, MINERAÇÃO E DUTOVIAS
Assessor Especial: José Eduardo Frasca Poyares Jardim
Coordenador: José Jaime Sznelwar
Vice-Coordenador: João Carlos de Souza Meirelles
Secretário:
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, CONTROLE E AUTOMAÇÃO
Coordenadora: Aurea Lúcia Vendramin Georgi
Vice-Coordenador:
Secretário:
EQUIPAMENTOS AUTOMOTORES PARA SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO FERROVIÁRIA
Coordenador:
Vice-Coordenador:
Secretário:
INDÚSTRIA QUÍMICA, METALÚRGICA E AUTOMOTIVA
Coordenador: Miguel Tadeu Campos Morata
Vice-Coordenador: Rodrigo Terezinho Pires
Secretário: Fernando Duque Barros
INDÚSTRIA 4.0
Coordenador: Anthony Gaspar Talon
Vice-Coordenador: Elcio Kazuaki Niwa
Secretária: Flávia Bartkevicius Cruz
TECNOLOGIAS RENOVÁVEIS
Coordenadora: Simone Cotrufo França
Vice-Coordenadora: Maristhela Passoni Araújo Marin
Secretário:
DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO
Diretor: Marcio Lacerda Gonçalves
Vice-Diretor:
Secretário: Henrique José Boneti
AGRONEGÓCIO, EQUIPAMENTOS E AUTOMAÇÃO
Coordenador:
Vice-Coordenador: Henrique Dias de Faria
Secretário: Kleber Marins de Paulo
INDÚSTRIA DE ALIMENTOS E ABASTECIMENTO
Coordenador:
Vice-Coordenador: Secretário:

Programa inédito que conecta estudantes a desafios reais do sistema Confea-Crea
O Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo) e o Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança) deram início ao FuturoLab, programa inédito que conecta estudantes a desafios reais do sistema Confea-Crea. O primeiro módulo tem como objetivo desenvolver um protótipo de solução para detectar irregularidades na emissão de ARTs (Anotações de Responsabilidade Técnica), documento obrigatório que assegura a responsabilidade técnica em obras e serviços de engenharia, agronomia e geociências.
Para isso, os alunos terão acesso a uma base anonimizada de mais de 10 milhões de ARTs emitidas entre 2015 e 2025, além do suporte de mentores do Inteli e colaboradores do Crea-SP. O desafio prevê o uso de inteligência artificial para identificar padrões de inconformidade, prever o volume de ARTs por município e apontar o tipo de serviço registrado. A solução também integrará dados econômicos e sociais, como PIB (Produto Interno Bruto) municipal e investimentos em infraestrutura, para detectar distorções entre a atividade econômica e a emissão dos documentos.
“Com essa iniciativa pioneira, unimos experiências educacionais e profissionais ao aproximar, como nunca, as instituições de ensino das necessidades reais do setor”, destaca a presidente do Crea-SP, engenheira Lígia Mackey.
tomilho que elimina larvas do mosquito da
Pesquisadores da FEA-Unicamp (Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas) desenvolveram uma partícula biodegradável capaz de eliminar 100% das larvas do mosquito Aedes aegypti em até 48 horas. O dispositivo é formado por uma matriz de amido que encapsula óleo essencial de tomilho, substância conhecida por seu efeito larvicida.
A partícula funciona por liberação controlada: um único grão trata até 100 ml de água. Ao absorver o líquido, aumenta de volume e libera gradualmente o princípio ativo em um momento de maior vulnerabilidade das larvas. O processo de encapsulamento é feito por extrusão termoplástica, sem uso de solventes, o que garante segurança e viabilidade para produção em escala.
Testes em laboratório e em campo, realizados em parceria com a Universidade Federal de Sergipe e a prefeitura de Adamantina (SP), confirmaram a eficácia do produto.

Um único grão de partícula biodegradável trata até 100 ml de água
desenvolvido
Pesquisadores da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) desenvolveram um sensor de baixo custo capaz de monitorar com precisão a segurança de trens de carga e de passageiros. O dispositivo mede acelerações e estima forças envolvidas no deslocamento ferroviário, podendo ser instalado diretamente em vagões e locomotivas como alternativa acessível aos sistemas tradicionais da indústria, que costumam ser caros e de operação complexa.
O equipamento utiliza sensores micromecânicos, os mesmos presentes em celulares e veículos, para registrar acelerações translacionais e angulares. Os dados coletados são processados por um algoritmo de dinâmica inversa, que estima as forças atuantes no trem e permite avaliar a segurança da operação por meio de um índice que compara cargas laterais e verticais nas rodas. Forças laterais excessivas podem levar ao descarrilamento.
leva recémformados para atuar em obras públicas em 50 municípios

Lançado em junho deste ano, o programa Mais Engenharia vai levar 50 engenheiros civis recém-formados para atuar diretamente em obras públicas de municípios paranaenses. A iniciativa é fruto da parceria entre a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), o Crea-PR (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná) e a Itaipu Binacional. Durante dois anos, os profissionais participarão da especialização em Gestão Pública em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável, ofertada pela UEPG, e ao mesmo tempo desenvolverão projetos práticos de infraestrutura e sustentabilidade em prefeituras, com bolsas de estudo e supervisão de engenheiros municipais. Das 167 cidades inscritas, 50 foram selecionadas.

Alimentado por baterias, o sensor pode operar de forma autônoma durante vários dias e ser instalado em todos os vagões de um trem.
O sensor tem patente registrada pela USP e está pronto para uso em escala comercial.
Graduandos em engenharia mecânica do IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais), Campus Betim, assumiram o papel de monitores voluntários revisando conteúdos, esclarecendo dúvidas e reforçando conceitos fundamentais para a compreensão das disciplinas do curso técnico em mecânica.
A iniciativa é oferecida no âmbito do Programa Autonomia e Renda da Petrobras. Criada a partir da solicitação do coordenador do curso, professor André Félix, busca oferecer apoio extra a alunos que retomaram os estudos após anos afastados da sala de aula.
“O trabalho dos monitores representou um suporte essencial para a confiança dos estudantes e para o desempenho no curso”, afirmou Félix.

#PolíticaEnergética #Petrobras
#MargemEquatorial #Tecnologia
#Exploração #Desenvolvimento

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 18 MINUTOS
“Sem novas fronteiras, em menos de 10 anos voltaremos a ser importadores de petróleo”
COM TRAJETÓRIA MARCADA POR GRANDES PROJETOS DE ENGENHARIA, WAGNER VICTER, CEO ADVISOR DA PETROBRAS, DEFENDE URGÊNCIA NA EXPANSÃO DAS ÁREAS DE EXPLORAÇÃO DE O&G BRASILEIRAS
• Por Leandro Haberli e José Eduardo Jardim
Ahistória profissional de Wagner Victer se confunde com a própria evolução da engenharia no Brasil. Filho de uma pioneira da indústria química, Leda Granja Victer – uma das primeiras mulheres a atuar em fábricas na década de 1950 –, Victer carrega no sangue a influência da técnica, da disciplina e da inovação. Foi sua mãe quem o incentivou a seguir os passos da engenharia, inscrevendo-o ainda jovem no curso técnico da então Escola Técnica Federal Celso Suckow, hoje Cefet. De lá, seguiu para a graduação em engenharia mecânica na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ao mesmo tempo em que cursava administração
de empresas na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), num momento em que era possível frequentar duas universidades públicas de forma simultânea.
Seu primeiro emprego foi como trainee no Grupo Gerdau, onde teve contato direto com Jorge Gerdau, figura que considera um amigo e uma referência profissional, parceria que mais tarde resultaria em sua participação na criação do Movimento Brasil Competitivo. Mas foi na Petrobras, após passar em primeiro lugar no concurso da companhia, que Victer mergulhou de forma definitiva na engenharia de grande escala, integrando o time responsável pela implantação do Polo Nordeste, um projeto ousado, com sete plataformas sendo desenvolvidas simultaneamente, em um grau de complexidade inédito até mesmo para padrões internacionais.
Em um desses projetos, vivenciou uma situação extrema: uma obra em uma das plataformas sofreu um incêndio, exigindo a criação de um grupo de elite dentro da Petrobras para liderar a reconstrução da unidade. Victer foi escolhido para compor esse time, ao lado de grandes nomes da engenharia nacional. Essa e muitas outras experiências pavimentaram o caminho para que hoje ele exerça o cargo de CEO Advisor da Petrobras, no qual aproxima gerências e otimiza projetos para que investimentos sejam feitos conforme o planejado. Daí ele ser chamado informalmente de “supergerente” da empresa.
Nesta entrevista à Revista Engenharia, que contou com a colaboração do presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, concedida pessoalmente na sede da entidade, momentos antes do início do Seminário “Horizonte de Oportunidades no O&G Brasileiro”, Victer compartilha suas reflexões sobre os desafios e as oportunidades da expansão da fronteira exploratória de petróleo e gás no Brasil, com ênfase estratégica na Margem Equatorial e na Bacia de Pelotas, regiões promissoras que reacendem o protagonismo da engenharia brasileira na política energética do país.
HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE A ENGENHARIA DA PETROBRAS ERA A MAIS AVANÇADA DO BRASIL. POR FAVOR, FALE UM POUCO SOBRE ESSE PERÍODO E SOBRE SEU INÍCIO NA COMPANHIA.
Exatamente, éramos considerados um grupo de elite. Logo que entrei na Petrobras, no início dos anos 1990, trabalhei em projetos que tiveram muita visibilidade na companhia. Logo depois de integrar o time responsável pela implantação do Polo Nordeste, fui trabalhar num projeto que não tinha chance nenhu-
ma de sair, mas o Collor o adotou. E acabou sendo o maior poliduto da história brasileira, saindo aqui de São Paulo e indo até Brasília.
Atuei também no desenvolvimento das plataformas de Albacora (Bacia de Campos, RJ), já como chefe do setor de montagem. Depois, fui tocar o sistema de Barracuda-Caratinga. Lá, a gente adotou uma solução em que ninguém acreditava. Me refiro ao FPSO com Turret, que era um sistema flutuante. Já saímos batendo três recordes mundiais, foi um sucesso. A plataforma P34 serviu como base para um con-
junto de outras plataformas que a Petrobras fez com Turret, que é o modelo utilizado até hoje com sistemas FPSOs. Essa inovação permitiu sairmos da geração das semi-submersíveis. Isso foi em 1994.
COMO FOI A PRIMEIRA GRANDE TRANSIÇÃO, QUANDO A PETROBRAS SAIU DA PERFURAÇÃO APENAS EM TERRA E FOI PARA O MAR?
Você falou uma coisa muito interessante. Nós tínhamos uma dinâmica que parecia fazer com que a gente trabalhasse três anos em cada ano efetivamente trabalhado. Porque, primeiro, o engenheiro da Petrobras era multidisciplinar: ele entrava em tudo. Hoje, você compra uma plataforma em um sistema onde você contrata a plataforma. Na ocasião, você fazia um projeto básico, depois contratava o projeto executivo e o projeto de detalhamento. Em paralelo, você contratava cada módulo separadamente, fazia o projeto, comprava o material e, depois, fazia a integração de diversos projetos simultaneamente. Então, havia o projeto em que você estava vivenciando o projeto executivo. E tinha outro que você estava trabalhando na integração. Era uma engenharia forte, você tinha uma Promon, uma Montreal, uma Ultratec.
A dinâmica de aprendizado do engenheiro da Petrobras era altíssima. Não se usava a expressão conteúdo local, porque era algo natural. Essa expressão só surgiu em 1999. É uma ideia que trouxe da Noruega. Eu digo para a garotada hoje que a dinâmica era muito maior, porque você pegava o material que tinha no estoque e direcionava o projeto à mão para usar o material do estoque. Hoje, isso nunca seria feito. Pelos próprios critérios de integridade e governança, não seria permitido.
VOCÊ ESTUDOU EM HARVARD?
Sim, eu fui para Harvard fazer uma pós-graduação pela empresa. Após essa experiência, fui secretário de Energia e Petróleo do Rio de Janeiro. Uma semana antes de eu ser anun-

ciado, eles criaram a Petrobras Venezuela e me nomearam presidente. Mas eu recusei para ser secretário.
QUAIS EXPERIÊNCIAS NO INÍCIO DA CARREIRA VOCÊ CONSIDERA FUNDAMENTAIS PARA TER CONSTRUÍDO A BASE DA SUA TRAJETÓRIA?
Outro dia escrevi o artigo “O jovem engenheiro e o primeiro Rock in Rio”. Nele, conto que eu estava na Light, e alguém falou que ia ter um festival de rock na Barra, e a Light teria que montar uma subestação. Ninguém queria ir para lá, porque era o fim do mundo. Me mandaram para o meio do nada. Eu fui com uma equipe e ajudei a fazer o primeiro Rock in Rio, 40 anos atrás. Montamos uma estação lá.
Eu digo que o jovem nunca pode fugir de um desafio, porque aquele desafio pode ser um grande ponto de aprendizado, uma grande experiência para contar. No caso do Rock in Rio, no final, eu estava no palco. A única desvantagem é que não tinha o celular para registrar os momentos. Eu assisti ao show do Ozzy Osbourne no palco, eu conheci o pessoal do Queen, nem imaginava que o Freddie Mercury seria o Freddie Mercury. Eu estava mais focado no James Taylor.
COMO É QUE VOCÊ SE TORNOU PRESIDENTE DA CEDAE? VOCÊ TINHA AFINIDADE COM A ÁREA DE SANEAMENTO?
Essa é uma história muito interessante. Eu estava há oito anos como secretário de Energia e Petróleo, do Garotinho e depois da Rosinha. Quando elegemos um novo governador, que era o Sérgio Cabral, ele queria que eu fosse o secretário de Infraestrutura do estado. Só que, no meio tempo, ele teve informações de que havia problemas fortes na Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro). Então, o Cabral me chamou um dia, junto com o vice-governador, que era o Pezão, e falou que eu ia assumir a Cedae, para limpar a empresa. Quando entrei, o governo do estado aportava R$ 30 milhões todo mês para ela. Era uma empresa dependente, que nunca tinha dado lucro, que não tinha balanço aprovado, com registro suspenso na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
E atendia mal ao estado. A partir do segundo ano sob minha gestão, tornou-se lucrativa pela primeira vez na história, começou a pagar dividendos que nunca tinham sido pagos, restabeleceu o registro na CVM, teve o balanço aprovado sem qualquer ressalva e alcançou duplo A no grau de investimento da Standard & Poor’s.
E COMO É QUE VOCÊ FOI PARAR NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO DE JANEIRO?
Eu já tinha passado pela Secretaria de Energia, pela Cedae. Fui para a área de educação. Peguei as escolas técnicas, a fundação, que é tipo a Fatec de São Paulo. Quando eu estava terminando a minha gestão na Secretaria de Educação, recebi um convite para ser presidente de duas estatais.
Uma era ligada à Petrobras, mas tinha uma missão que eu não gostaria, que era vender a empresa. Então, não aceitei. Também tinha sido chamado pelo governo Temer para assumir a Eletronuclear. E teve uma pessoa que me convidou para ser presidente da Casa da
Moeda. Eu falei que não entendia nada de Casa da Moeda, mas que, em dois meses, eu ia ser o maior especialista no tema. Daí, o André Ceciliano, que tinha sido prefeito de Paracambi quando eu era secretário, virou presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Ele quis que eu fosse o diretor de engenharia, porque havia um prédio na Alerj em obra. Mas ele acabou me convidando para ser o diretor-geral da Casa. Assumi e fiquei quatro anos. O prédio foi um sucesso, é onde está a sede nova da Alerj. Terminamos esse prédio com 6% de aditivo.
Você sabe o que é uma obra de restauração, de reforma, com 6% de aditivo somente? Fizemos um prédio, um plenário, um subsolo, restauramos o antigo banco, o Palácio Tiradentes, e implantamos o pregão eletrônico. Tivemos os quatro anos aprovados. Devolvemos, em média, de 30% a 40% do orçamento anual para o Tesouro.
VOCÊ TAMBÉM TEM EXPERIÊNCIA EM ENTIDADES REPRESENTATIVAS DE ENGENHEIROS E ATÉ COM JORNALISMO. COMO AVALIA A IMPORTÂNCIA DESSE TIPO DE ATIVIDADE?
Eu sempre militei no Clube de Engenharia, fui membro da Direção da Associação de Engenharia da Petrobras e tenho um projeto de voluntariado com jovens chamado Engenhando a Cidade. São três jovens que moravam na Ilha do Governador, um deles é meu filho, e montaram uma ONG há seis anos. Eles
Eu digo que o jovem nunca pode fugir de um desafio, porque aquele desafio pode ser um grande ponto de aprendizado
fazem memorial de engenharia para dar a órgãos públicos.
Tenho também o meu lado jornalístico. Eu faço rádio há 30 anos e, hoje, atuo numa das maiores rádios do Rio de Janeiro, a Tupi, apresentando um programa sobre sustentabilidade. Também trabalho na Nova Paradiso e sou o único colunista permanente da Brasil Energia. Além disso, continuo dando aula, na Fundação Getulio Vargas. Faço isso há mais de 20 anos.
QUAL SUA VISÃO DA SITUAÇÃO ATUAL DO MUNDO? COMO AS TENSÕES GEOPOLÍTICAS AFETAM O MERCADO GLOBAL DE PETRÓLEO E GÁS?
Somos engenheiros; normalmente, temos uma equação em que, se mexer em uma variável, você tem o resultado. Uma equação definida. Hoje, temos uma equação não linear. A gente não sabe o comportamento histórico de cada país em função de ser agredido ou não ser agredido.
Existe um princípio de que está em Sun Tzu, que escreveu “A Arte da Guerra”: você nunca leva o seu inimigo para um lugar onde ele nunca possa ter uma saída, porque, se você assim o fizer, ele ganha uma força imensa. O problema é que a gente está com um conjunto de eventos simultâneos, que estão gerando preocupação. Eu vejo as pessoas vibrarem quando um país vai lá e mata os cientistas do outro país. Não é
Não ter uma Petrobras, ou ter uma multiplicidade da Petrobras, nos levaria a uma fragilidade imensa diante de uma crise
matar o representante das Forças Armadas. E, sim, os cientistas. A gente não sabe como é o comportamento da reação. Todo mundo trabalha na lógica. Isso não tem lógica.
Na realidade, você importa dentro de um perfil mais adequado à sua capacidade de refino. Temos uma capacidade de refino que, nos últimos anos, ampliou muito e está ampliando, assim como a produção de diesel. Vamos ter uma produção muito grande do ponto de vista dos itens que importamos mais, que são o diesel e a gasolina, mas estamos adaptando o perfil das nossas refinarias ao nosso óleo mais produzido.
Então, normalmente, você tenta trazer um óleo mais adequado ao seu perfil de refino, que muda também ao longo do tempo. E você tem um óleo também mais adequado a um tipo de produto. Por exemplo, uma P53. Ela tem um óleo que favorece a produção de asfalto. Então, tem toda uma área adequada que, às vezes, é muito melhor fazer um swap.
Você exporta o teu óleo e importa, às vezes, um outro óleo para adequar à sua capacidade de refino. A Petrobras tem duas áreas muito importantes, tocadas por dois engenheiros de carreira. A área de logística, que é do Claudio Romeo Schlosser, que tem 38 anos de empresa. E a área industrial, que é do William França, também com 38 anos de carreira.
Eles estão permanentemente analisando esse processo. Então, o que eu posso afirmar é que é uma bênção ter uma empresa como a Petrobras, que é preocupada com o abastecimento brasileiro, especialmente em momentos de conflito. É uma bênção porque é uma empresa que pensa estrategicamente no abastecimento. Não ter uma Petrobras, ou ter uma multiplicidade da Petrobras, nos levaria a uma fragilidade imensa diante de uma crise. Diminuiria muito nosso grau de conforto.

Ao mesmo tempo, a gente tem petróleo, tecnologia, sabe como fazer e como processar.
COM TODO O RESPEITO QUE NÓS DEVEMOS E TEMOS PELO MEIO AMBIENTE, NA NOSSA OPINIÃO, DO INSTITUTO DE ENGENHARIA, É INDISPENSÁVEL A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO NA MARGEM EQUATORIAL. COMO É QUE A PETROBRAS ESTÁ ADMINISTRANDO ESSE CONTEXTO, RESPEITANDO O MEIO AMBIENTE, MAS MOSTRANDO AO PÚBLICO A NECESSIDADE DE SE EXPLORAR A MARGEM EQUATORIAL E PELOTAS?
Eu dou aula sobre esse tema na FGV. Uma das disciplinas é Gestão Ambiental para Implantação de Empreendimentos, desde a obtenção de licenciamento ambiental até a unidade operando. É nítido que há uma melhoria da qualidade técnica do pessoal do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Mas é nítido também que existem questões nas quais se busca protagonismo ideológico na questão de produzir ou não produzir na Margem Equatorial.
A decisão não é do Ministério do Meio Ambiente. É do CNPE (Conselho Nacional de Po-
lítica Energética), de acordo com a Lei 9.478, a Lei do Petróleo, e a lei de 1997, que estabelece o Conselho Nacional de Política Energética, presidido pelo presidente da República e secretariado pelo ministro de Minas e Energia, com a representação de todos os ministérios e mais um representante do Estado.
Fui conselheiro do CNPE quando a ministra Marina Silva era também conselheira. Foi no primeiro governo Lula, quando a Dilma era secretária. É no CNPE que essas discussões têm de que ser avaliadas, equilibradas e discutidas. Não existe protagonismo da área ambiental; há uma legislação que tem de ser observada. O licenciamento ambiental brasileiro é moderno, porém, são inaceitáveis certas práticas que estão acontecendo, associadas a elementos externos que não estão envolvidos no procedimento. Quando a gente fala em meio ambiente, todo mundo cita os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Pois, o ODS número 1 é justamente combater a miséria e a pobreza. E como se combate a pobreza? Gerando riqueza.
A riqueza, quando é gerada com boa engenharia – e aqui é a casa da engenharia –, não traz riscos ambientais que não sejam contornados. Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o Brasil, em menos de 10 anos, voltará a ser importador de petróleo. Isso é muito grave, porque o nosso petróleo não vai parar de ser consumido e nós vamos estar importando petróleo, gastando riqueza brasileira.
Não, nem se investe em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Ou seja, vamos gastar, deixando o recurso, deixando de gerar emprego, deixando de desenvolver a tecnologia, a universidade e o saneamento. Isso impacta a balança comercial. E não tem efeito em termos de emissões, porque as emissões são globais, não são localizadas. É também uma questão de segurança energética. Em
Considerando que o Brasil tem a Petrobras, tecnologia e infraestrutura, eu acho essa posição ambiental um desrespeito à engenharia nacional
name e Guiana, estão produzindo sem problemas maiores? Considerando que o Brasil tem a Petrobras, tecnologia e infraestrutura, eu acho essa posição ambiental um desrespeito à engenharia nacional. Quando a gente não tinha esse expertise todo desenvolvido, nós fizemos.
Hoje, temos poços sendo perfurados na Bacia de Santos, em frente a Copacabana e Ipanema. E ninguém fala nada. Nós estamos perfurando em um limite de terra-mar muito inferior ao que teremos lá na bacia da Foz do Amazonas, que na realidade fica a mais de 500 quilômetros da Foz do Amazonas e a mais de 160 quilômetros distante da costa.
algumas regiões do Brasil há limitações de energia. Temos um sistema de geração isolado, sem sequer uma linha de transmissão que faça o sistema interligado.
Também é preciso lembrar que o Brasil é responsável por pouco mais de 1% das emissões fósseis do mundo. Quais emitem mais? Estados Unidos, China, Índia, Rússia. Nenhum deles vai deixar de emitir. Ou seja, esse discurso não tem cabimento no Brasil, país que é recordista em geração de energia elétrica de base sustentável. Mais de 80% da nossa energia elétrica é de base sustentável, por meio das hidrelétricas, das eólicas e das solares.
A nossa matriz é espetacular. Quando ninguém falava em meio ambiente, nós criamos o Proálcool para enfrentar uma crise de energia na década de 70. Hoje, os biocombustíveis estão na nossa matriz, num nível em que os outros países não chegaram. A maioria dos nossos veículos é movida a biocombustíveis. A gasolina tem uma adição superior a 25% de álcool. Também temos o biodiesel. Ou seja, nós somos a grande referência em combustíveis de baixa emissão. Em termos de emissões, a contribuição brasileira se dá basicamente via queimadas irregulares. Precisamos de dinheiro para combater a queimada, fazer o florestamento.
A Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas são fundamentais nesse sentido. Qual é a lógica de você não produzir na Margem Equatorial, no Amapá, enquanto dois países vizinhos, Suri-
Esse aspecto parece que as pessoas não estão entendendo, porque você tem uma grande oportunidade de ficar cada vez menos dependente, garantir a segurança energética, gerar riqueza, gerar renda e emprego para a engenharia. Mesmo assim, estamos caindo num discurso fabricado. E a grande maioria das pessoas sequer entende esse discurso.
NÃO SERIA IMPORTANTE DIVULGAR PARA A POPULAÇÃO A SITUAÇÃO DAS NOSSAS RESERVAS, PARA QUE AS PESSOAS ENTENDAM A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DA INCORPORAÇÃO DE NOVAS FONTES DE ABASTECIMENTO DE PETRÓLEO E GÁS?
Nós temos uma reserva de produção da ordem de 12 anos e, logicamente, uma permanente incorporação de reservas. Só que há uma curva de produção que também cai. Você tem de botar novas unidades, continuar perfurando. Nós não vamos ter novos pré-sal. Na Margem Equatorial não tem, nem na Bacia de Pelotas. Quem dera.
Os dados da EPE, que é uma empresa com 20 anos, criada em função do apagão, são muito claros. Eles apontam que o Brasil entra em fragilidade a partir de 2033. Por isso, temos de desenvolver novos campos agora. Afinal, entre você perfurar, descobrir, leva um tempo. Na primeira campanha no Amapá, são seis ou oito poços que a gente deve perfurar.
Não quer dizer que a gente vai achar. Mas, se acharmos, leva anos para desenvolver o projeto, abrir novas fronteiras efetivamente. Também temos projetos para revitalizar a Bacia de Campos e uma série de outras fronteiras que a gente tem de trabalhar. Mas não obrigatoriamente a gente vai ter sucesso no prazo necessário. E quem está preocupado com o conhecimento brasileiro é a Petrobras.
PARECE QUE UM POUCO DA DESINFORMAÇÃO POR TRÁS DESSE TEMOR AMBIENTAL SE DEVE À NOMENCLATURA “FOZ DO AMAZONAS”. O SENHOR CONCORDA?
Essa questão da nomenclatura realmente atrapalhou na interpretação e na distorção. Sua colocação é muito oportuna, porque esse é um problema sério. E outra coisa, todos os estudos são calculados de pluma. É uma coisa impensável de acontecer, mas qualquer vazamento não caminharia para a terra. Todos os pontos de mapeamento de pluma de eventuais vazamentos não vão para a terra. E nessa mesma região passam centenas de navios movimentando petróleo, com risco muito maior de vazamento. Portanto, não é uma questão razoável; não tem razoabilidade técnica.
O SENHOR COMENTOU QUE NÃO TEREMOS UM NOVO PRÉ-SAL. MAS É POSSÍVEL
AFIRMAR QUE A MARGEM EQUATORIAL E A BACIA DE PELOTAS PODEM DESENCADEAR UMA NOVA ONDA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL SEMELHANTE À QUE O PRÉ-SAL OCASIONOU?
Sim. Na verdade, mais do que isso. Esses novos projetos permitem manter, inclusive, as indústrias que vão fabricar árvore de natal molhada (nota do editor: árvore de natal molhada, ou wet christmas tree, é um equipamento submarino que controla o fluxo de extração de petróleo e gás de um poço no fundo do mar). Essas indústrias estarão em São Paulo e no Rio.

A exploração dessas novas reservas também permitirá a instalação de grandes estaleiros em Santa Catarina e no Rio de Janeiro. Ou seja, você vai ter uma grande geração de empregos voltados a logística, suporte e fortalecimento das universidades. Mais do que gerar emprego em tecnologia, esses projetos permitirão que as empresas daqui tenham longevidade e resiliência para sobreviver ao futuro. Por exemplo, visitei a TechnipFMC, uma empresa global de serviços e tecnologias focada no setor de petróleo e gás. Eles estão exportando para a Margem Equatorial, para a Exxon. Ou seja, os projetos da Petrobras na Margem Equatorial vão permitir que grande parte da indústria, da engenharia brasileira, continue existindo. Inclusive empurrando para frente o chamado descomissionamento econômico e social em função da indústria do petróleo.
VOCÊ JÁ DESTACOU O PREPARO DA ENGENHARIA NACIONAL E NOSSA EXPERTISE PARA LIDAR COM ESSES DESAFIOS. MAS É POSSÍVEL FALAR SOBRE ALGO QUE ESTÁ FALTANDO E QUE AINDA PRECISAMOS DESENVOLVER PARA LIDAR COM ESSES PROJETOS?
Acho que, nessas fronteiras, a gente tem um desafio de qualificar mão de obra regional. Isso vai ser muito necessário, principalmente
A Petrobras está desenvolvendo um sistema chamado Hisep. É como se fosse um prédio que fica no fundo do mar, onde a gente separa o gás do petróleo já no fundo do mar
E COMO A PETROBRAS ESTÁ SE RELACIONANDO COM O ECOSSISTEMA DE STARTUPS QUE EXISTE NO BRASIL?
para atividades de logística e apoio offshore, com os barcos que devem ser desenvolvidos naquela região. O pessoal já começou discussões. Inclusive, tem discussão com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) local e com a própria Marinha.
Esse é o desafio que a gente tem em qualquer lugar. Mas, tecnologicamente, já temos imensa capacidade, o que vai permitir superar os desafios. Alguns deles já foram enfrentados na Bacia de Santos, na Bacia de Campos. Caso do elevado nível de CO2. É preciso separar o CO2 lá embaixo.
FALANDO SOBRE TECNOLOGIAS DIGITAIS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, QUAL O POTENCIAL DE INTEGRAÇÃO DA ENGENHARIA COM ESSAS NOVAS REALIDADES A PARTIR DA EXPLORAÇÃO DAS NOVAS FRONTEIRAS?
O potencial é fantástico. Há inúmeros casos. Por exemplo, a área sísmica. Hoje você entra lá com o node, que já te dá a sísmica 4D, com todo o comportamento do reservatório, da área de postos, da dinâmica. É outro mundo.
Na área de reservatório e de postos da Petrobras, a gente também está investindo muito nisso. Hoje, existe toda uma inteligência para fazer o fator de recuperação maior possível.
O maior centro de desenvolvimento de tecnologia aplicada no Brasil vem da Petrobras: é o Centro de Pesquisa Tecnológica da Petrobras. Um bom exemplo é o parque tecnológico da Ilha do Fundão, RJ. Existe também o Tanque Oceânico, um projeto desenvolvido em 2002, que faz a simulação de modelos matemáticos. Destaco também o centro tecnológico da TechnipFMC e uma série de soluções em tecnologia de energia da Baker Hughes. Hoje, a Petrobras destina muitas verbas para P&D. De todo o petróleo produzido aqui, temos que investir cerca de 1% em P&D. Logicamente, quando você produz mais petróleo e quando ele encarece, esse 1% fica maior em termos absolutos. A Petrobras está desenvolvendo um sistema chamado Hisep. É como se fosse um prédio que fica no fundo do mar, onde a gente separa o gás do petróleo já no fundo do mar, com um sistema de bombeamento, para reduzir o peso na plataforma e aumentar a recuperação de um campo. Esse sistema já está sendo executado. E agora a gente está estudando o Hisep 2, que, além de separar o gás, vai separar o CO2 do gás natural. Também estamos realizando pesquisas e testes relacionados a hidratos de gás.
APROVEITANDO SUA EXPERIÊNCIA COMO PROFESSOR, COMO VOCÊ AVALIA O PAPEL DO JOVEM ENGENHEIRO BRASILEIRO FRENTE A TODOS ESSES DESAFIOS IMPOSTOS PELAS NOVAS FRONTEIRAS DE EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS?
Eu sou um dos autores de uma série de livros voltada a jovens profissionais. Escrevi “Cartas ao Jovem Engenheiro”. “Cartas ao Jovem Médico” foi escrito pelo Adib Jatene; “Cartas ao Jovem Economista”, pelo Gustavo Franco; “Cartas ao Jovem Ator”, pela Marília Pêra, “Cartas ao Jovem Político”, pelo Fernan-

do Henrique Cardoso. Eu acho que o jovem engenheiro tem de ser despertado, especialmente pelo engenheiro mais sério.
Eu digo que o bom engenheiro é aquele que tem domínio tecnológico, mas é um engenheiro vintage, que ainda tem de conhecer o chão de fábrica. A gente formou uma geração de planilheiros, de muitos engenheiros que não conheciam a realidade do mercado. É preciso equilibrar no jovem uma percepção da engenharia, porque a engenharia tem de ter presença física.
A engenharia sem a visão física não extrai o básico do resultado. Por exemplo, amanhã meu filho, que é um jovem engenheiro, está indo com uma equipe visitar a usina de Lajes (RJ), da Light, porque ele é engenheiro de modelagem de sistemas elétricos. Mas ele tem de ver como funciona uma hidrelétrica. Não pode o engenheiro pensar em hidrelétrica e não conhecer in loco o sistema de bateria, os sistemas de armazenamento de energia nas cidades próximas.
Ou seja, ele tem de buscar o olhar do engenheiro, que muitas vezes não é despertado. Quando é despertado, aí vira um grande engenheiro. A gente forma muitos engenheiros hoje. Dizem que muito aquém da nossa neces-
sidade. Mas muitos que se formam não têm oportunidade de atuar como engenheiros.
Outro detalhe: muitas empresas querem engenheiros prontos, mas não querem ter o trabalho de fazer a passagem e formá-los, fazer a própria transferência interna.
Infelizmente, a grande maioria dos filhos dos meus amigos está estudando no exterior e não pretende voltar ao Brasil. Ou seja, estamos pegando talento brasileiro e dando para os Estados Unidos e outros países. O Brasil financia bolsas de doutorado no exterior para o estudante ir para fora e não voltar. Eu não consigo entender isso. A Petrobras, pelo contrário, tem isso de trazer esperança, de formar profissionais perfeitos, muito capacitados, no Brasil, para atuar no Brasil.
FALANDO COM O JOVEM ENGENHEIRO – OU ATÉ MESMO COM O ENGENHEIRO DE OUTRAS ÁREAS QUE NÃO A ENERGÉTICA – QUE NÃO ESTÁ ACOSTUMADO COM OS JARGÕES DO SETOR, EU GOSTARIA QUE O SENHOR DEFINISSE O CONCEITO DE ENGENHARIA BÁSICA NACIONAL NO CONTEXTO DA EXPLORAÇÃO E PRODUÇÃO DE ÓLEO E GÁS.
O conceito tradicional da engenharia básica é aquilo que lhe permite ir para um projeto com a certeza de que ele vai performar. A nossa engenharia básica, porém, foi um pouquinho além. O pessoal sempre definiu assim, projeto básico é aquilo que permite você orçar um projeto com mais ou menos 30% de erro. Já o projeto de detalhamento é aquele que vai de 5% a 15%. Agora, para fazer um projeto básico você tem de ter uma série de percepções. Eu vejo uma série de projetos que morrem porque eles são iniciados sem a total percepção.
O Brasil tem uma excelente capacidade de engenharia. Além disso, o povo brasileiro tem uma adaptabilidade muito grande, que faz parte do nosso DNA. Quando começamos a produzir petróleo, parecia impossível. Em pouco tempo, porém, nos tornamos recordistas mundiais em águas profundas.
#TransiçãoEnergética #Biomassa #Biogás #GestãoPública #Pré-Sal #PlanejamentoEnergético #COP30

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“
PARA JOÃO CARLOS DE SOUZA MEIRELLES, EX-SECRETÁRIO DE ENERGIA E MINERAÇÃO DE SÃO PAULO, O PRÉ-SAL AINDA TEM PAPEL ESTRATÉGICO DIANTE DA URGÊNCIA DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
• Por Leandro Haberli e Alexandra Itacarambi

Engenheiro formado pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), João Carlos de Souza Meirelles ocupou quatro secretarias estaduais entre 1998 e 2018, em áreas estratégicas como agricultura, ciência e tecnologia e assuntos estratégicos. O ex-secretário de Energia e Mineração do estado de São Paulo foi responsável por projetos que mudaram a matriz energética paulista, como a expansão do uso da biomassa da cana, o estímulo ao biogás e a ampliação da rede de gás natural.
Nesta entrevista, com a participação do engenheiro José Jaime Sznelwar, Meirelles alerta que o crescimento da demanda elétrica, impulsionado por data centers e digitalização, exige uma matriz diversificada, que não pode prescindir do petróleo e do gás, enquanto as renováveis ganham escala.
Meirelles também fala sobre os gargalos do setor, a importância estratégica do pré-sal, os limites das energias renováveis e o papel que o Brasil deve assumir na COP30.
COMO A FORMAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL INFLUENCIOU SUA ATUAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA, ESPECIALMENTE EM TEMAS DE ENERGIA RENOVÁVEL E DESENVOLVIMENTO REGIONAL?
Eu sou engenheiro politécnico civil, com experiência em múltiplas áreas, inclusive em infraestrutura, passando por geração de energia e tudo mais.
Transitei no governo, em várias secretarias, exatamente com uma visão estratégica de desenvolvimento, que é a cartesiana da engenharia.
DURANTE A SUA GESTÃO NA SECRETARIA DE ENERGIA E MINERAÇÃO, QUAIS FORAM OS PRINCIPAIS PROJETOS DE INFRAESTRUTURA ENERGÉTICA NO MERCADO DE ÓLEO E GÁS CONDUZIDOS EM SÃO PAULO?
Foi exatamente a introdução de todo um modelo para ampliação do uso de renováveis a partir de cana-de-açúcar. Isso significa utilizar, cada vez mais, não só o etanol, mas, sobretudo, uma revisão da cadeia produtiva da cana, porque tem uma série de produtos derivados que não eram utilizados.
Antes, as usinas só faziam açúcar e queimavam o bagaço. Hoje é gerada energia elétrica com o bagaço da cana. O etanol, além do combustível, também tem condições de produzir gás a partir da vinhaça, que é um resíduo decorrente da sua produção. Hoje o governo do estado tem um programa de aproveitamento desse gás, que é um biogás. Quando ele sai do processo, você pode transformá-lo em biometano.
Esse foi um programa para facilitar, sobretudo, nas usinas de cana-de-açúcar do estado de São Paulo, um sistema de geração de energia elétrica integrada, oriundo da produção de todos esses derivados e, nessa mesma linha, a introdução do gás natural de petróleo como energia de transição.
Nós fizemos um grande programa com as três distribuidoras de gás em São Paulo para a expansão da rede de gás e a interligação com novas formas de energia, como uma das usinas de cana-de-açúcar que já produz gás para tubulação direta. Essa foi uma atividade da secretaria, de estimular, porque são as empresas privadas que fazem essa distribuição de gás em São Paulo.
Isso significa utilizar, cada vez mais, não só o etanol, mas, sobretudo, uma revisão da cadeia produtiva da cana
E, finalmente, nós estimulamos uma grande empresa de São Paulo a fazer um projeto de um novo gasoduto, que vem de mais de 300 quilômetros, do alto mar, de uma zona de exploração de petróleo na Bacia de Santos. Ele viria até a entrada do Porto de Santos, do Canal de Santos, e faria ali a interligação com um duto que sobe a serra.
A ROTA 4 ESTÁ PRONTA?
Não, ela não foi finalizada. Só foi feito um gasoduto. A parte terrestre, de Cubatão (SP), ligando a serra e interligando o sistema de distribuição de São Paulo, está pronta, mas a parte marítima, que seriam todos os dutos da chamada Rota 4, não foi implementada.
A Rota 1 foi a primeira finalizada, que entra por Caraguatatuba (SP) e está funcionando. A Rota 2 e a Rota 3 estão entrando pelo Rio de Janeiro e estão operando. Mas a Rota 4, não.
E QUAIS FORAM OS PROJETOS NA ÁREA DE ENERGIA RENOVÁVEL, TECNICAMENTE, MAIS DESAFIADORES PARA A SUA CARREIRA?
Todos eles foram muito desafiadores. O principal desafio neste momento é ter uma visão de engenharia das necessidades de energia porque, quando se fala em energia, normalmente, as pessoas pensam em energia elétrica, mas são várias energias.
O grande tema que hoje precisa ser discutido é como promover a descarbonização. O mundo todo está perseguindo isso, mas não podemos simplesmente dizer que não vamos mais usar o que provoca poluição de gás carbônico, como carvão e petróleo, até porque em vários lugares do mundo não tem outra energia.
Temos de falar de um programa de transição energética responsável e programado, para ter possibilidades de substituir aquilo que julgamos ser menos ambientalmente adequado.
O principal desafio neste
momento é ter uma visão de engenharia
das necessidades de energia porque, quando se fala em energia, normalmente, as pessoas pensam em energia elétrica, mas são várias energias
Eu sou especializado em energia de cana-de-açúcar, só que tem limitação. Não podemos, de repente, transformar o Brasil em um canavial inteiro. Na produção de etanol, temos metade etanol, metade açúcar. Podemos até aumentar um pouco mais a produção, já que o etanol passou de 27% para 30% em toda a gasolina comum no Brasil. Só esse incremento de 3% na mistura da gasolina comum passou a exigir 1,7 bilhão de litros de etanol a mais.
Por isso, é preciso programar as coisas. Hoje em dia, estamos falando muito de veículos elétricos, mas onde está sendo gerada essa energia elétrica? Vários países do mundo, que estão muito eufóricos com o carro elétrico, estão gerando energia a partir de óleo diesel. É um contrassenso. Fica muito bonitinho: “olha aqui, o carro elétrico”, mas o que é preciso para produzir esse carro elétrico? Onde estão e como são produzidos os minérios utilizados para isso? E como resolver o problema do descarte dessas baterias? Hoje
mede-se do poço à roda para calcular exatamente os efeitos ambientais e climáticos.
O SENHOR ACREDITA QUE O PLANEJAMENTO ENERGÉTICO ATUAL DO PAÍS É SUFICIENTE PARA ANTECIPAR E RESPONDER AO SALTO DE DEMANDA NOS PRÓXIMOS ANOS?
É preciso que a gente foque no Brasil, por exemplo, na nossa matriz energética. E isso inclui elétrica, mobilidade e térmica. A nossa matriz energética é a mais limpa do mundo. Temos quase 50% de renovável. Na matriz elétrica, nós temos mais de 87% renovável.
A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) fez uma análise prospectiva de demandas, apresentando um plano que mostra que haverá um crescimento vertiginoso da demanda de eletricidade nos próximos 10 anos.
Vocês não fazem ideia da demanda de eletricidade para a inteligência artificial. O mundo inteiro está correndo para tentar localizar data centers em vários lugares, inclusive, aqui em São Paulo, mas não se consegue instalar. Os data centers têm uma refrigeração monumental, com ar-condicionado. É um consumo concentrado de energia de altíssima qualidade. Como vamos conseguir produzir essa energia elétrica? Isso exige uma revisão, inclusive, da estrutura do que já está sendo produzido.
Hoje, a grande matriz elétrica brasileira é a hidrelétrica. Temos várias usinas que estão tendo progressivamente redução de geração devido à redução da disponibilidade de água. Por quê? As bacias onde estão essas hidrelétricas passaram a consumir água para os núcleos urbanos. Por exemplo, a cidade de São Paulo, na década de 1960, tinha menos de 4 milhões de habitantes. Hoje, tem 12 milhões de habitantes.
Tudo isso pode ser resolvido, mas precisa ser pensado. De Rondônia para São Paulo, só para se ter uma ideia, são 2.500 quilômetros de linha de transmissão. São quatro linhas

de transmissão de altíssima tensão, portanto 10.000 quilômetros de linha. Além disso, tem uma coisa que em engenharia se chama obsolescência. É preciso fazer reformas, pensando em meio ambiente e descarbonização.
No caso da energia solar, ela é intermitente. Você tem, evidentemente, energia durante 8, 10, 12 horas do dia, conforme a latitude em que você tem insolação.
Assim mesmo, ela pode ter diminuições conforme passam nuvens, dependendo das estações do ano. Não é possível abastecer um sistema total com energia solar, sem algum outro sistema complementar.
A energia eólica tem variações do vento durante o dia e à noite. Não é uniforme. Nas variações para cima, precisa ter outras fontes que estejam garantindo o abastecimento.
Então, hoje a matriz brasileira é estática em termos de hidroeletricidade, pois não temos mais disponibilidade de grandes reservatórios de água. Os que ainda estão disponíveis no país estão na Planície Amazônica, onde é absolutamente inviável fazer usinas.
É preciso ter clareza de que não haverá crescimento nos próximos 10 anos de ener-
gia hidrelétrica, segundo um estudo da EPE. A energia solar é a única que vai crescer expressivamente nesse período, mas será preciso ter energia na base para completar.
Não há aumento previsto de energia eólica, mas há uma discussão ainda governamental para verificar a viabilidade da construção de energia eólica offshore. Há estudos para essa possibilidade no Ceará e no Rio Grande do Norte. Com isso, as formas clássicas de energia não têm grande potencial para crescer.
Temos de atender as necessidades das demandas que estão aí, principalmente as de data centers, que são brutais.
Em São Paulo, tem meia dúzia de data centers projetados que não conseguem se instalar porque não há infraestrutura.
Como atender a tudo isso, se não tem mais hidrelétricas novas, se a solar é intermitente e a eólica está limitada? Temos de tratar esse tema de forma bastante clara e objetiva ou começar a reduzir o desenvolvimento nacional. Hoje, estamos tentando ampliar alguns desses insumos de mobilidade. O etanol não está sendo feito apenas de cana-de-açúcar. Passou-se a ser produzido de milho e estão surgindo outras alternativas. O Rio Grande do Sul vai inaugurar, até o fim do ano, uma usina de etanol de trigo. Ou seja, vamos aumentar a oferta de um combustível não poluente para motores a combustão.
Quando eu estava na secretaria, nós tivemos uma reunião em Brasília para resolver o problema da Rota 4, que ia trazer gás para São Paulo. Um dos membros da secretaria de Meio Ambiente disse que não tinha mais que explorar petróleo, mas como é que a matriz brasileira vai crescer? Como é que você carrega os caminhões com soja, com milho, com carne?
NA SUA OPINIÃO, A EXPLORAÇÃO DO PRÉ-SAL AINDA TEM PAPEL ESTRATÉGICO DIANTE DA URGÊNCIA DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA?

É absolutamente estratégico. Enquanto não tivermos um coeficiente de segurança muito elevado para garantir o suprimento das energias que o Brasil precisa, não podemos dispensar nenhuma.
Por exemplo, há sugestões para utilizar o gás natural de petróleo. Hoje, estamos consumindo 68 milhões de metros cúbicos por dia da área do pré-sal, mas estamos tirando dos poços 168 milhões de metros cúbicos por dia. Ou seja, estamos reinjetando 100 milhões de metros cúbicos por dia porque não temos dutos para trazer esse gás para a terra.
É imprescindível que se faça a exploração de petróleo, com regras ambientais, como está sendo feito, ou vai parar o país porque não há outra disponível.
A outra opção, que já está computada no Plano Energético Nacional, é o hidrogênio, que é uma forma de energia super limpa, retirado a partir da hidrólise.
E há uma outra forma, que o Brasil é campeão, a partir do etanol. Por quê? Porque enquanto a água tem duas moléculas de hidrogênio, o etanol tem seis. Existe um projeto do setor do sucroalcooleiro, que abastece o
automóvel com álcool e ele é movido a hidrogênio. É um sistema de transformação.
Tem um outro componente que gostaria de abordar, que é a justiça social. Ainda temos no país várias regiões sem eletricidade, usando inclusive energia a óleo diesel.
Eu acho que é preciso discutir todos os fatores de produção existentes e toda a articulação desse sistema.
É preciso ter uma matriz com prazo, cronograma, que você tem a obrigação de atender. Eu acho que essa é a grande missão.
COMO EQUILIBRAR O OLHAR TÉCNICO DA ENGENHARIA COM AS DEMANDAS POLÍTICAS E SOCIAIS?
Engenharia possui um diagnóstico absolutamente correto do que tem, qual é o potencial de produção e da demanda. Hoje o potencial da demanda está já, segundo a minha percepção, superior ao da sua capacidade de produzir.
Nós temos de discutir exatamente isso. Quais são as possíveis condições, matérias-primas, fatores de produção, tecnologia, custos de produção e viabilidade econômica. Se não, ninguém vai fazer. Porque o governo não vai fazer tudo isso, nem pode fazer.
QUAIS OS PRINCIPAIS GARGALOS QUE O SENHOR VÊ PARA A IMPLANTAÇÃO DE GRANDES PROJETOS DE INFRAESTRUTURA ENERGÉTICA NO BRASIL?
Dinheiro, porque são caríssimos. Um mega data center desses pode custar um bilhão de dólares.
EM QUANTOS ANOS O SENHOR IMAGINA QUE A HUMANIDADE VAI CONCLUIR UMA TRANSIÇÃO DESSA, SABENDO DE TODOS OS DESAFIOS DE UMA ENERGIA LIMPA?
Não existe transição em todos os lugares. Voltamos a produzir em alguns países euro-
peus a carvão, porque eles não conseguiram mais importar gás da Rússia, mas eu sou extremamente otimista enquanto engenheiro. Eu acho que até 2050, ou seja, em 25 anos, conseguiremos no Brasil, seguramente. No resto do mundo, provavelmente mais tarde, porque há países mais ricos, mais pobres e até aqueles que decretaram um retrocesso, como os Estados Unidos.
E acho que vamos continuar usando o petróleo, de alguma forma, para fins específicos. Você não consegue produzir lubrificantes com etanol.
A ENGENHARIA BRASILEIRA ESTÁ PREPARADA PARA LIDERAR ESSES GRANDES PROJETOS DE TRANSIÇÃO ENERGÉTICA?
Totalmente preparada. Não só a engenharia convencional brasileira, que está preparada para isso, como os nossos centros de pesqui-
Nós temos de discutir exatamente isso. Quais são as possíveis condições, matérias-primas, fatores de produção, tecnologia, custos de produção e viabilidade econômica.
Se não, ninguém vai fazer. Porque o governo não vai fazer tudo isso, nem pode fazer
Nós aumentamos a mistura de biodiesel no diesel, de 14% para 15%. Lembrando que o diesel no Brasil é vital. Não só para o transporte. A gigantesca agricultura brasileira é movida por tratores a diesel
sa. Hoje nós temos aqui na Escola Politécnica um núcleo de pesquisa energética em parceria com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) fazendo coisas absolutamente extraordinárias. Dentre elas, transformar o etanol em hidrogênio num motor diretamente. Nós temos engenheiros e engenharia. O que nós estamos precisando é retomar a valorização da engenharia, porque hoje os melhores engenheiros do país são funcionários de bancos.
E COM A COP30 SE APROXIMANDO, QUAL POSICIONAMENTO O BRASIL DEVERIA ASSUMIR EM RELAÇÃO À POLÍTICA ENERGÉTICA DE COMBUSTÍVEL E CLIMÁTICA GLOBAL?
Na matriz brasileira já foram tomadas providências neste ano. Nós aumentamos a mistura de biodiesel no diesel, de 14% para 15%. Lembrando que o diesel no Brasil é vital. Não só para o transporte. A gigantesca agricultura brasileira é movida por tratores a diesel. Todas as obras de engenharia dependem de máquinas pesadas que usam diesel. Então, hoje a mistura de 14% para 15% é extremamente importante; é um sinal ambiental rigoroso.
Não podemos deixar de usar o diesel, que é poluente de alguma forma mas já diminuímos isso com o uso do biodiesel. E o etanol, que eu mencionei, nós passamos de 27% para 30% a mistura em toda gasolina normal do país.
Essas coisas vão para a COP e a demonstração daquilo que eu mencionei, da matriz energética brasileira. A matriz elétrica brasileira é 87,5% renovável. A matriz energética, incluindo elétrica, transporte e térmica, é 47,5%.
Nós temos algumas iniciativas pontuais, que, somadas, são expressivas. O principal centro de carga e utilização de energia no Brasil é a cidade de São Paulo, onde temos uma contínua eletrificação dos meios de mobilidade, seja a construção de metrôs, que está bem acelerada, seja nos ônibus elétricos, que têm um investimento muito pesado em redes elétricas.
Além de outras medidas, como o rodízio e a diminuição de velocidade. Se você somar tudo isso, é uma atitude pró-clima bastante interessante.
Agora, num cenário mais amplo, está se caminhando para ter uma percepção, ainda incipiente, da população. O assunto de meio ambiente já virou moda. Os jovens de hoje querem alimentos orgânicos, o que não é poluente, não querem mais carro porque polui. Contudo, eles usam o Uber.
MAS COMO INTEGRAR ESSE CONCEITO DE ENGENHARIA SUSTENTÁVEL NOS GRANDES PROJETOS DE ENERGIA, TRANSPORTE E URBANIZAÇÃO?
Eles estão integrados, até porque hoje, para vários deles, você tem licenças ambientais. Hoje uma rodovia tem licenciamento ambiental; uma rede elétrica tem; a construção de grandes edifícios tem. Ou seja, hoje, basta que você seja sério, correto na aprovação desses projetos, que todos eles dependem disso. É muito interessante ler nos balanços das grandes empresas, que trazem essas evoluções e esses controles nos seus balanços.

Aqui em São Paulo, na B3, ao produzir etanol em uma usina qualquer, você chama uma auditoria, audita aquele etanol e registra um certificado chamado CBIO (Crédito de Descarbonização). Isso tem valor no mercado porque certifica o que a usina está produzindo. O certificado só é dado se toda a cadeia produtiva da usina estiver certificável.
Ou seja, você está estabelecendo mecanismos de mercado para fazer uma auditoria nesse processo de produção.
NO CASO DA INDÚSTRIA DE ÓLEO E GÁS, COMO O SENHOR AVALIA O ATUAL MOMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL E OS PRINCIPAIS DESAFIOS PARA MANTER A SUA COMPETITIVIDADE?
Acho que no caso de óleo e gás é uma coisa gigantesca. A primeira fase, da pesquisa, exploração, produção, está caminhando muito bem. Hoje a Petrobras tomou um nível de investimento muito grande. Nos últimos 15 anos, várias mega produtoras de petróleo do mundo vieram para cá, sozinhas ou associadas entre elas ou com a Petrobras.
Há também um esforço dessas mesmas empresas para resolver o problema do refino. O Brasil tem pouquíssimo refino. As duas mega
refinarias que estavam em curso foram interrompidas na Lava Jato, uma no Rio de Janeiro e outra em Pernambuco.
Ou seja, por essa deficiência de refino, hoje nós somos dependentes de importação de gasolina. A Petrobras, há alguns anos, pretendeu, inclusive, fazer a privatização de algumas refinarias e a única efetivamente privatizada foi na Bahia.
Na ponta desse processo, nós melhoramos muito a qualidade dos produtos refinados no Brasil: temos gasolina de alta octanagem refinada e melhoramos o enxofre no diesel.
No finalzinho disso, a ponta, que é a distribuição no Brasil, todo o sistema hoje é privado, e funciona bastante bem.
COMO GARANTIR QUE O PLANEJAMENTO ENERGÉTICO DO BRASIL TRANSCENDA OS CICLOS ELEITORAIS E TENHA UM HORIZONTE DE 20, 30 ANOS?
É inexorável. O governo Lula tem consciência para isso e prestigia a Petrobras. Outros que não prestigiaram criaram problemas. Mas as coisas vão caminhando, vão acontecer, evidentemente, com mais ou menos ênfase. É uma pena, porque, por exemplo, se já tivéssemos a Rota 4, nós estaríamos com mais 35 milhões de metros cúbicos de gás entrando aqui para São Paulo. Estamos falando de Rota 4 desde 2012. Quando nós lançamos isso, foi organizado para lançar em 2015. Então, já estamos com uma década de atraso.
E hoje está pronta uma estação de regaseificação, em Cubatão. O Brasil já tem algumas estações de regaseificação, que são navios especiais que ficam ancorados permanentemente em um porto.
O navio carregado de gás chega de algum lugar do mundo e ancora ao lado desse outro navio. A carga é então transferida para ele, que recebe o gás e, em seguida, vai liberando o produto pelos dutos conectados a ele.
Cobertura
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TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 23 MINUTOS
SEMINÁRIO “HORIZONTE DE OPORTUNIDADES NO SETOR O&G” DISCUTIU O PAPEL DAS NOVAS FRONTEIRAS DE EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NO BRASIL
• Por Rúbia Evangelinellis
Diante da necessidade de manter a segurança energética e sustentar o crescimento econômico nas próximas décadas, o Brasil volta seus esforços para ampliar a capacidade de produção nacional de petróleo. A aposta está em áreas ainda pouco exploradas, que podem garantir o abastecimento interno e posicionar o país de forma mais competitiva no cenário global. Esse panorama foi tema do seminário “Horizonte de Oportunidades no Setor O&G”, promovido pelo Instituto de Engenharia em parceria com a Invest SP, no dia 24 de junho.
Durante o evento, especialistas discutiram o papel das novas fronteiras de exploração, com destaque para a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas (RS), que são duas fontes exploratórias ricas e essenciais para que o país possa expandir a matriz energética e não tenha de, futuramente, lançar mão da importação de petróleo.
Um dos pontos centrais do evento, realizado de forma híbrida, foi a importância da engenharia básica para alicerçar planos de investimentos sustentáveis, eficientes e geradores de talentos.



José Eduardo Jardim faz a abertura do Seminário na sede do IE
Com um mapa de negócios possíveis, o mercado mostra-se rentável desde a exploração, passando pela produção, transporte, até chegar ao refino de petróleo e gás natural. Com esse portfólio, é de longe visto como fundamental na engrenagem da economia global, bem como para dar peso à riqueza nacional. Atraente aos olhos de diferentes ramos de atividades, vai além de exibir força como fonte geradora de energia, ao compor um leque de insumos para diferentes segmentos da indústria.
“Estamos diante de oportunidades que prometem não apenas impulsionar a economia, mas também fortalecer a engenharia básica do país, um pilar na realização de projetos sustentáveis e eficientes. Bacias como a Margem Equatorial, a de Pelotas (offshore e sedimentar da Costa Sul do Brasil) e as novas descobertas da Bacia de Santos (entre Espírito Santo e Rio de Janeiro) possuem reservas que podem transformar a matriz energética e patrocinar o desenvolvimento econômico duradouro”, disse o presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, na abertura.
Observou ainda o quanto é valorosa a exploração responsável dos recursos para garantir ao país a liderança
“Estamos
diante de oportunidades que prometem não apenas impulsionar a economia, mas também fortalecer a engenharia básica do país”, disse José Eduardo Jardim
na transição energética global, respeitando os princípios da sustentabilidade e da preservação ambiental. “Não podemos esquecer que a engenharia e suas várias áreas, especificamente de petróleo e gás, desempenham papel crucial e proporcionam soluções inovadoras. O fortalecimento da engenharia básica, que por tanto tempo esteve adormecida, é vital para que tenhamos novas tecnologias que minimizem os impactos ambientais e promovam o uso responsável dos recursos naturais”. Jardim também elogiou a engenharia desenvolvida pela Petrobras.
Foi a deixa para o gerente-executivo de Programas Estruturantes da Petrobras, Wagner Victer, apresentar o plano de negócios traçado para o período de 2025 a 2029 e o planejamento estratégico até 2050, revisto a cada 12 meses. “É um plano firme, agressivo, aplicado na íntegra e bastante relacionado ao tema óleo e gás, especialmente na questão de produzir projetos de engenharia.”
Ao voltar a performar o plano de negócios, a Petrobras, acrescentou, demonstra firmeza para planejar e executar, expondo publicamente as ações, com transparência, o que a faz ganhar governança e também a confiança do mercado fornecedor e dos acionistas.
A companhia indica forte interesse na exploração de novas fronteiras. A partir dessa premissa, a Petrobras, em parceria firmada com a ExxonMobil, arrematou dez dos 19 blocos de exploração de petróleo e gás natural na área da Foz do Amazonas, promissora bacia integrante da Margem Equatorial brasileira. O leilão da ANP (Associação Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) foi realizado em 17 de junho deste ano no Rio de Janeiro e gerou concessões para outras gigantes da área, como Chevron e China Petroleum, que arremataram outros nove blocos.
Segundo Victer, a empresa adquiriu blocos que lhe interessavam e está pronta, inclusive tecnicamente, para expandir a atuação. “Temos uma equipe com muita experiência e voltada para a atividade de exploração e produção. São pessoas formadas dentro da engenharia e da tecnologia brasileira.”
Lamentou, porém, o fato de a indústria de petróleo deixar de atrair grandes talentos em razão de “teses eurocentristas” que decretam um possível fim do petróleo




com a expansão de veículos elétricos. E, para mostrar a aposta firme no setor, Victer exibiu um dado do planejamento estratégico: 31% da oferta de energia primária (de recursos naturais) vem de petróleo e gás. Para 2050, o patamar de importância projetado mantém-se minimamente o mesmo (31% em valores absolutos) em um cenário de crescimento. A energia renovável aparece, sim, mas como complementar, com uma fatia entre 8% e 10%, derrubando a tese da substituição plena.
Para Victer, o Brasil ocupa a dianteira no quesito de buscar e oferecer alternativas na substituição energética que impeçam a emissão de gases que geram o efeito estufa. “Poucos sabem, mas o Brasil emite pouco mais de 1% de combustíveis fósseis do mundo. E se o eliminássemos, o que é impossível, praticamente não haveria impacto nenhum no resultado global.”
O país, acrescentou, tem mais de 85% da matriz energética voltada para a geração elétrica e conta com base renovável, a partir de hidrelétricas, energias solar, eólica e biomassa. “O Brasil é um grande exemplo de desenvolvimento de política energética e de geração de energia de baixo carbono.”
Do ponto de vista de produção de projetos para reposição ou recomposição de reservas, a estatal assume o desafio de investir tanto em novas fronteiras exploratórias quanto na ampliação da produção atual, como já faz nas bacias de Santos e de Campos. Com o olhar atento à crise atual e às curvas de produção nos campos de petróleo e plataformas, a companhia projeta o próximo pico para pouco antes de 2030. E, para evitar o estrangulamento do sistema, declínio da produção e ter de importar petróleo em menos de dez anos, traça planos para ampliar a capacidade produtiva. “A segurança energética brasileira está em total risco. E, se nada for feito, mesmo tendo reservas, teremos de importar petróleo com mais carbono associado, gerando empregos de engenheiros e tecnologia em outros países.”
O documento observa ainda que o declínio da produção exigirá novos planos de E&P (Exploração e Produção), que deverão ser resilientes dos pontos de vista econômico e ambiental. Para viabilizar os projetos de exploração e produção, a Petrobras tem como proposta de valor investir em um portfólio maximizado com ativos rentáveis, repor as reservas de petróleo e gás (aqui e no exterior); aumentar a oferta de gás natural e promover a descarbonização das operações com novos investimentos e tecnologia.

José Eduardo Jardim e Wagner Victer
“Poucos sabem, mas o Brasil emite pouco mais de 1% de combustíveis fósseis do mundo. E se o eliminássemos, o que é impossível, praticamente não haveria impacto nenhum no resultado global", explica Victer
A empresa planeja investir US$ 111 bilhões entre 2025 e 2029, sendo a maior parte (US$ 77 bilhões) destinada à exploração e produção; US$ 20 bilhões para refino, transportes e comercialização; US$ 11 bilhões em gás e energias de baixo carbono; e US$ 3 bilhões na área corporativa.
Com o propósito de apresentar um panorama do setor, para além da performance da Petrobras, o evento contou com a visão de especialistas avaliando pontos específicos. Henrique de Aragão, presidente do Conselho e diretor da Associação Brasileira de Consultores de Engenharia, falou sobre a importância da engenharia como suporte indispensável para o desenvolvimento. Optou por abordar o tema em âmbito geral, embora tenha no currículo vivência na gerência de plataformas de petróleo da estatal e na operação de expansão de postos da BR Distribuidora.
Tomando como base as transformações nos modelos de desenvolvimento e de inovação tecnológica, considerando, inclusive, o impacto da inteligência artificial, observou a importância de investir em equipes preparadas. “Efetivamente precisamos ser mais competentes na engenharia para alcançar resultados positivos, com qualidade e densidade”, resumiu.
Aragão analisa a situação tendo na lupa um mundo norteado por mudanças importantes, provocadas por diversos fatores, como transição energética, clima, descarbonização e inteligência artificial. E, no atual contexto, o Brasil, com base no informativo do Banco Mundial, se apresenta com problemas estruturais que impactam a economia nacional em seus diversos indicadores e o fazem patinar na necessidade de incrementar portos, estradas e logística.
O engenheiro é categórico ao afirmar que o país tem “enormes demandas” por recursos para chegar à infraestrutura desejada. E precisa dobrar o investimento até 2030 para atingir o patamar de desenvolvimento sustentável comprometido junto ao Banco Mundial. “Precisamos inclusive desenvolver projetos mais resilientes ao clima e lançar mão da inteligência artificial para agregar valor até para a gestão dos mesmos.”
O presidente do Conselho Óleo e Gás da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipa-

“Precisamos ser mais competentes na engenharia para alcançar resultados positivos, com qualidade e densidade”, disse Aragão
mentos) e diretor de Relações Institucionais da Tenaris (fornecedora de equipamentos e tubulações para O&G), Idarilho Nascimento, concordou com a necessidade exposta de atrair jovens para a engenharia, seja para o curso ou para processos na área industrial. O executivo garante que outros países também se ressentem da falta e oferta de mão de obra especializada. “Multinacionais, como a empresa em que atuo, presenciam as dificuldades de contratar engenheiros no exterior. Nós exportamos profissionais para os Estados Unidos, Canadá, Arábia Saudita, onde também temos operação. Mas são países ricos que passaram por processos de desindustrialização, como acontece na Alemanha, enquanto para nós o desafio é maior para atrair profissionais”, disse, referindo-se à condição econômica menos favorável do Brasil.
A Abimaq representa um segmento com 388 mil empregados, em sua maioria engenheiros, funcionários especializados e com salários acima da média. Em 2024, esse ramo industrial faturou US$ 51,5 bilhões, sendo US$ 13 bilhões oriundos da exportação. O índice de ocupação na produção foi de 74,6%, sinalizando um único turno de trabalho e a carência profissional para elevar a produção. Para reforçar a importância do papel da engenharia básica para alavancar os negócios de forma sustentável, principalmente na fase conceitual do projeto, Nascimento traça um paralelo entre o peso de decisões tomadas e os investimentos programados. “Conforme se avança no projeto, o poder de decisão diminui ao mesmo tempo, em que o dispêndio financeiro e monetário cresce proporcionalmente. Qualquer erro de engenharia, feito no início, vai custar caro.”
Entre os benefícios de contar com a disponibilidade da engenharia básica para impulsionar as operações estão a maximização da demanda local por bens e serviços, equipamentos adequados e modernos, redução da importação, desenvolvimento de projetos com inovação tecnológica e capacitação da indústria nacional.
Raio X do setor
Cynthia Silveira, diretora-geral da Onip (Organização Nacional da Indústria de Petróleo) e engenheira eletricista, apontou a importância de olhar o setor por dentro, avaliar a sua potencialidade e apresentar às empresas interessadas em atuar como fornecedoras possíveis portas

Idarilho Nascimento, presidente do Conselho Óleo e Gás da Abimaq e diretor de Relações Institucionais da Tenaris
“Multinacionais, como
a empresa que atuo, presenciam as dificuldades de contratar engenheiros no exterior. Nós exportamos profissionais para os Estados Unidos, Canadá, Arábia Saudita, onde também temos operação”, conta Nascimento
de entrada. Fundada em 1999, a Onip, segundo informou, tem como objetivo atuar para o fortalecimento das empresas fornecedoras de equipamentos e serviços em O&G (Óleo e Gás). Cynthia também expôs a preocupação com o longo tempo para o licenciamento ambiental e para o início dos poços exploratórios.
Martha Lahtermaher, consultora técnica da instituição e economista, citou duas iniciativas recentes adotadas para atender as empresas: o Conect Onip, ferramenta que permite o acesso de contratantes e fornecedores de bens e serviços (com direito a cadastramento voluntário), e o fortalecimento da atuação internacional, com a promoção de ambientes de engajamento em feiras e congressos.
Um estudo encomendado pela Organização Nacional da Indústria do Petróleo revela o cenário para companhias em busca de oportunidades de investimentos e de fornecimento no mercado de O&G. Apresentado em inglês durante a OTC (Offshore Technology Conference), em maio passado, nos EUA, mostra o leque de possibilidades de parcerias e demandas da indústria. Elenca ofertas de blocos exploratórios, projetos de infraestrutura, da Petrobras e em segmentos integrantes área, oportunidades no pré-sal, suporte tecnológico, de inovação, treinamento e apoio oferecido pelo Senai e outras informações.
A empresa Ensotec que elaborou o estudo sobre "Oportunidades de investimento e negócios na indústria brasileira de O&G", avalia que o material deve ser visto como guia para empresas brasileiras buscarem capacitação ou se preparem para buscar parcerias internacionais que elevem a produtividade e o patamar tecnológico. “É um compilado de informações relevantes de operações em andamento, planejadas para a indústria de bens e serviços entender o que existe no mercado”, reforça Ronaldo Martins, sócio-diretor.
Com expertise conquistada em décadas de atuação como engenheiro na área, inclusive a serviço da Petrobras, Martins alerta a cadeia de suprimentos de bens e serviços sobre a rigorosidade exigida na indústria de petróleo por diversas razões. “Uma falha ocorrida em uma plataforma com produção diária de 100 mil barris, cotada cada um a US$ 70, resultará num prejuízo de US$ 7 milhões, valor que nunca será recuperado”, exemplifica.
Por outro lado, a operação do setor movimenta uma cifra atraente, próxima dos US$ 111 bilhões em cinco anos, e necessita de produtos, serviços e agregar novas tecnologias.



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Pré-sal
O seminário contou ainda com a análise do engenheiro Claudio Makarovsky, consultor de projetos de O&G da InvestSP (Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade), cujo objetivo é atrair novos negócios para o estado de São Paulo. Ele comparou a produção nacional de petróleo no pré-sal, viabilizada com uma menor pegada de carbono – em torno de dez quilos por barril –, com a do Canadá, de 45 quilos por barril.
O engenheiro observou ainda que novos investimentos do pré-sal estão sendo endereçados para o sul da Bacia de Santos, favorecendo a região próxima ao litoral paulista para a instalação de apoio logístico offshore em oportunidades em andamento ou programadas para até 2029.
Segundo informou, o estado paulista concentra grandes fornecedores de equipamentos do mercado, como válvulas e aparelhos de instrumentação. “Em 2024, somente a Petronect, portal de compras da Petrobras, registrou 60 mil transações realizadas por empresas de São Paulo”, pontua.
Outro indicador da força motriz do segmento vem das páginas virtuais da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Apresenta 353 projetos ativos relacionados ao petróleo. Mas é possível ver ali propostas de inovação em áreas correlatas, como de biometano – gás renovável. “Em resumo, é o petróleo que ainda vai financiar o desenvolvimento da descarbonização na transição energética.”
Parceria firmada entre Shell do Brasil e Fapesp, por exemplo, vai bancar projetos de desenvolvimento e inovação tocados por mais de 250 pesquisadores no centro de engenharia naval da Escola Politécnica, na USP. Os participantes terão de apresentar peças físicas e para isso precisam de fornecedores. O Instituto de Engenharia, a Abimaq e a Onip se prontificaram para a coordenadoria da rodada de negócios.
Claudio Makarovsky citou ainda as oportunidades geradas com o gasoduto Rota 1, que liga a Plataforma de Mexilhão, na Bacia de Santos, à Unidade de Processamento de Gás Natural de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. O projeto de produção de gás natural e condensado desafia a engenharia a desenvolver mecanismos de conexão com outras plataformas.

Makarovsky, consultor de projetos de
O evento na íntegra está disponível no site do IE por meio do QR Code:

“É
o petróleo que ainda vai financiar o desenvolvimento da descarbonização na transição energética”, afirma Makarovsky

A plataforma da Petrobras P-74, que opera no pré-sal da Bacia de Santos, é uma das unidades que capturam e reinjetam CO2. A tecnologia pioneira, presente em plataformas do pré-sal da Bacia de Santos, reduz as emissões de CO2 e otimiza a recuperação de óleo.



TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 30 MINUTOS
• Por Heverton Nascimento
OBrasil assinou com a Bolívia, em 1993, o contrato para a criação do gasoduto Bolívia-Brasil. Conhecido como Gasbol, o projeto audacioso começou a operar em 1996, com um duto de 3.150 quilômetros ligando os dois países, trazendo o gás natural produzido nos campos da Bolívia para o Centro-Sul do país. Atravessando os estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o gasoduto também passou a gerar riqueza em forma de percentual no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) da importação do gás para alguns dos municípios por onde passa, onde há instalações de recebimento e processamento do gás.
Ao longo dos anos, porém, o cenário tem mudado. Outrora responsável por mais da metade do gás natural utilizado no país, o Gasbol, hoje em dia, entra com menos de um terço na quantidade de gás natural consumida no Brasil.
“O uso do gás natural é pensado em um contexto de transição energética. O petróleo sempre foi predominante na indústria mundial de produção de energia, por razões históricas, porque a relação custo-benefício é boa
e é ainda uma das maneiras mais eficientes e economicamente viáveis de produzir energia. Só que tem a questão ambiental. E é principalmente por causa disso que o mundo está, cada vez mais, em busca de outras alternativas. E embora o gás não seja uma fonte de energia renovável, ele já é bem menos poluente, por exemplo, do que o óleo”, conta Ricardo Cabral de Azevedo, professor do departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo).
A questão ambiental é mais um dos vários fatores que contam no momento em que um país faz escolhas sobre a matriz energética. Um dos muitos fatores, assim como a política, a vida útil de reservas e a capacidade de sustentabilidade. Essas decisões são como um verdadeiro jogo de xadrez. Daqueles profissionais, internacionais, entre campeões, sabe? Em que é preciso imaginar várias rodadas à frente, considerar todas – ou a maioria


das possibilidades – de rota das suas escolhas e avaliar o que o outro lado pode escolher no meio do caminho.
“Vários países vêm, há décadas, procurando aumentar a sua porcentagem de produção de energia a partir do gás. E o Brasil, inclusive, já entrou nisso atrasado. Vários outros países já tinham uma participação mais forte de gás natural em sua matriz energética, seja na indústria, seja nos veículos movido a gás, quando o Brasil, nos anos 1990, investiu no gasoduto Bolívia-Brasil, que ajudou bastante em um certo período”, explica. “Depois, quando a gente encontrou muito gás no pré-sal, muita gente até comentava que se tivéssemos sabido antes, nem teria sido preciso investir no Gasbol, porque esse gás encontrado no pré-sal já supriria a demanda brasileira”, finaliza o professor da Poli-USP.
Justamente por não ser possível prever o imponderável, os países costumam diversificar o fornecimento energético. O caso do Gasbol é um bom exemplo. “Hoje, o mercado avalia que, até 2030, a Bolívia não terá mais excedentes exportáveis, se não mudar a sua política de exploração e produção (E&P) para estimular mais investimentos e descobertas de hidrocarbonetos. Com isso, dado o elevado potencial de gás argentino e visando aproveitar a infraestrutura de dutos existentes

“Embora o gás não seja uma fonte de energia renovável, ele já é bem menos poluente, por exemplo, do que o óleo”, conta Azevedo
na Bolívia e o Gasbol, há interesse por parte do Brasil e da Argentina em concretizar importações firmes e de grande volume de gás argentino para o Brasil”, explica Sylvie D’Apote, diretora-executiva de Gás Natural do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás). “Algumas importações pontuais de gás argentino já foram realizadas”, conclui a executiva.
D’Apote ressalta que o mercado de gás natural no Brasil passa por um processo de transformação “impulsionado por uma estratégia de diversificação e aumento do número de agentes ao longo da cadeia”. “Entre as fontes de suprimento, a importação de gás natural da Bolívia e, mais recentemente, de GNL (gás natural liquefeito) tem sido importante para atender à demanda, completando a oferta doméstica e trazendo mais flexibilidade frente à grande variabilidade do consumo de gás no setor elétrico.”
A Bolívia vem reduzindo seus volumes de gás enviados ao Brasil nos últimos anos. Além de ter promovido instabilidade no cenário, com nacionalização dos ativos da Petrobras em 2006, também contam questões de insegurança jurídica e alta incidência de royalties e tributos sobre a exploração e produção de gás.
“Como resposta, e para dar maior segurança e flexibilidade ao seu abastecimento de gás, o Brasil começou a importar GNL em 2008. Nesse sentido, a Petrobras, por exemplo, construiu três terminais de regaseificação, aos quais se adicionaram mais quatro terminais de regaseificação privados nos últimos anos. Hoje, o Brasil importa GNL de uma variedade países, dentre os quais se destacam como maiores fornecedores, entre 2024 e 2025, os Estados Unidos, o Reino Unido e o Catar”, explica a executiva.
Em 2024, o consumo de gás natural no Brasil foi distribuído da seguinte forma (média diária em milhões de m³/ dia, conforme Boletim Mensal de Acompanhamento da Indústria de Gás Natural, MME, edição de dezembro 2024).




Indústria: ~40 milhões m³/dia – incluindo utilização em Refinarias e Fábricas de Fertilizante
Geração elétrica (termoelétricas a gás): ~20,0 milhões m³/dia – segmento de consumo variável, pois depende das necessidades do Sistema Elétrico Nacional
Automotivo (GNV): ~4,5milhões m³/dia
Cogeração, residencial, comercial e outros conjuntos: ~4 milhões m³/dia
Fonte: IBP
O GNL é o gás natural liquefeito resfriado até atingir o estado líquido. “Essa é uma coisa bem importante inventada há não muito tempo. Até então, para transportar o gás era preciso comprimi-lo. Mas isso sempre foi difícil, porque é preciso um bombeamento de muita pressão. E o gás, mesmo comprimido, ocupava muito espaço nos navios, de modo que muitas vezes não compensava financeiramente”, explica o professor da USP.
“Por isso que são construídos os gasodutos, mas eles não permitem o transporte do gás pelo oceano, por exemplo. Por essa limitação, que a Bolívia tinha de exportar o gás para países próximos e ficou, de certa maneira, refém do Brasil”, explica. “Eles tinham muito gás, mas não podiam exportar, por exemplo, para a China, antes da invenção do GNL”, finaliza.
Em contato com a temperatura ambiente o GNL volta a ser gás natural.
E para onde vai o gás?
No Brasil, o gás natural é utilizado principalmente pela indústria e na geração elétrica. A indústria o utiliza como fonte de energia e calor ou matéria-prima nos processos produtivos. As termoelétricas o consomem como combustível.
O gás também é usado em veículos leves (GNV), além de aplicações residenciais e comerciais em menor escala. “No início dos anos 2000, houve um autor que apontou as instabilidades políticas da Bolívia e cravou que se o país resolvesse ‘fechar a torneira’, ou seja, parar de fornecer esse gás para o Brasil, em questão de dois dias, São Paulo pararia de funcionar. Toda a indústria que depende do gás em São Paulo, por exemplo, iria parar”, explica o professor da Poli.
Gás no pré-sal
“As maiores fontes de gás natural no Brasil estão nas bacias aquáticas, do pré-sal, em

Campos, no Rio de Janeiro, e em Santos, em São Paulo. Cada uma dessas bacias é responsável por cerca de um terço do gás natural no Brasil, atualmente. E o terço complementar é conseguido com a importação, inclusive da Bolívia e de outros países”, explica João Ricardo Barusso Lafraia, sócio-fundador da Conasset (Consultoria em Gestão de Ativos), ex-presidente da Abraman (Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos), ex-Petrobras e associado do Instituto de Engenharia.
Na prática, dois terços do gás natural saem atualmente das reservas do pré-sal. “Temos um sistema de dutos que interliga, pelo litoral, do Nordeste até o Sul do Brasil. E a esse gás se soma ao que o Brasil importa como gás liquefeito, que é o que vem importado de outros países, como opção para abastecer pontualmente alguma demanda, mas essa opção é a mais cara que tem”, diz Lafraia. Como nem tudo são flores, o achado no pré-sal tem as suas dificuldades. A extração do gás e do próprio petróleo em altas profundidades é muito mais difícil e, consequentemente, mais cara. “O pré-sal é uma das fontes mais desafiadoras de extração, porque ela é muito profunda, está em alto-mar, muito longe da costa. É caro chegar lá para produzir. A lâmina d’água, como tecnicamente se chama a camada de água, chega a mais de 3.000 metros de profundidade. Depois tem outros 2.000 metros de solo e
rocha, até chegar ao petróleo”, explica Ricardo Cabral de Azevedo, da USP.
Além da profundidade, lembra o professor, há também uma questão bem peculiar com a rocha. “O nome pré-sal vem justamente do fato de estar depois de rochas salinas, que são rochas com presença de sal. E, apesar de não ser dura, justamente por ser muito mole, a rocha se deforma com facilidade”, explica Azevedo.
“Então tem o trabalho de perfuração e quase que imediatamente tem de ser feito o revestimento do poço, para que a deformação da rocha não feche”, acrescenta. Esse poço tem de estar ligado a um gasoduto, que vai levar o gás natural por mais de 300 km até a costa. Todo o trabalho é realizado com robôs, desenvolvidos para trabalhar, literalmente, sob pressão, já que a essas profundidades a pressão é absurda: o famigerado submarino de visita aos destroços do Titanic, segundo os laudos, teve as paredes colapsadas por conta dessa pressão das profundezas. Ele tentava descer a 4.000 metros, onde estão os destroços do famoso naufrágio.
“A gente tem um gasoduto submarino do tamanho do Gasbol, na Bacia de Santos, operando nessas plataformas de pré-sal. Tudo isso é operado por robôs. É tecnologia de exploração extraterrena”, diz Lafraia
Lafraia lembra que é justamente essa expertise que faz da Petrobras uma das grandes do mundo. “Esse tipo de operação precisa de muita engenharia. E o pessoal de fora vem ver e entender como esses submarinos são lançados, como são operados, como as plataformas são interligadas”, acrescenta. “A gente tem um gasoduto submarino do tamanho do Gasbol, na Bacia de Santos, operando nessas plataformas de pré-sal. Tudo isso é operado por robôs. É tecnologia de exploração extraterrena”, crava o engenheiro.
O Brasil é referência em tecnologias de exploração e produção offshore, principalmente no pré-sal, com expertise em perfuração profunda e ultraprofunda, fruto de décadas de desenvolvimento offshore. E quando se imagina parte dessa estrutura, é possível perceber que estamos falando de investimentos absurdos em uma cadeia que tem de ser completa, no sentido de levar o gás de onde ele é produzido até onde será utilizado. E aí fica mais fácil entender que o sistema, como um todo, tem de trabalhar com erro zero e contar com opções de diversificação.
Gás dos hermanos
Sem parar de investir, desenvolver e aprimorar a extração do gás do pré-sal é preciso pensar em outras rotas e outras necessidades. E essa é uma das razões pelas quais o Brasil acaba de assinar, com os governos da Argentina e do Paraguai, um memorando de entendimento para a construção do Gasoduto Bioceânico, para trazer o gás natural produzido em Vaca Muerta, na Patagônia argentina, para o mercado brasileiro, passando pelo Paraguai. O acordo foi firmado durante a 66ª Reunião Ordinária do Conselho do Mercado Comum e a Cúpula de Presidentes do Mercosul, em Buenos Aires, em 2025, mas as discussões começaram lá na primeira década dos anos 2000.
“Projetos internacionais de gasodutos, especialmente de longa distância, costumam
demandar muitos anos de negociação, estudos de viabilidade, licenciamento ambiental e coordenação entre países”, explica Sylvie D’Apote, do IBP.
“O Gasoduto Bioceânico, que pretende conectar a produção de gás natural na Argentina ao Brasil atravessando o Paraguai, enfrenta desafios técnicos, econômicos e regulatórios, e seu desenvolvimento depende de condições de mercado e acordos comerciais entre os países envolvidos. Longos prazos de discussão e planejamento são esperados em projetos dessa magnitude”, esclarece a executiva.
“Essa integração gasífera do Brasil com as reservas de gás argentino localizadas em Vaca Muerta, na Patagônia, entretanto, já vem sendo realizada usando a infraestrutura existente entre Argentina, Bolívia e Brasil, no Gasbol. Além disso, há rotas alternativas possíveis. Uma delas é direta entre Brasil e Argentina, por meio da conexão do município de Uruguaiana no Rio Grande do Sul ao último ponto do Gasbol, e estudos de conexão atravessando o Uruguai até o mesmo ponto no Gasbol, e sobre importação de gás natural liquefeito”, diz.
Como se vê, são muitas as opções, e cada passo é definido com muito critério. Lembra da história do jogo de xadrez? Não à toa, o Ministério das Minas e Energia é conservador ao comentar o tratado de intenção e destaca que não há nenhum acordo firmado para a construção do Gasoduto Bioceânico. “O projeto será analisado como uma possível rota para a importação de gás natural da Argentina. Essa análise ocorre no âmbito de um Grupo de Trabalho bilateral, estabelecido por um memorando de entendimento entre o Brasil e a Argentina para o desenvolvimento de infraestrutura e interconexão gasífera”, diz o MME.
“Deve-se enfatizar que esta proposta é uma alternativa ao lado de outras quatro rotas já especificadas no memorando, que também prevê a possibilidade de ‘qualquer outro
“De janeiro a abril de 2025, a produção nacional de gás natural atingiu uma média de 163 milhões de metros cúbicos por dia. Esse volume representa um aumento de 6% em comparação com o mesmo período de 2024, e coincidiu com uma redução de 25% na importação do insumo”, informa o MME
ponto de interligação’ a ser acordado entre os países”, informa a pasta, que não exclui a Bolívia dos planos futuros. “O cenário atual é de crescimento da produção interna e de integração com os países vizinhos, em especial com a Bolívia, se houver novas ofertas, e com a Argentina. De janeiro a abril de 2025, a produção nacional de gás natural atingiu uma média de 163 milhões de metros cúbicos por dia. Esse volume representa um aumento de 6% em comparação com o mesmo período de 2024, e coincidiu com uma redução de 25% na importação do insumo”, informa.
Combustível fóssil em pleno 2025?
O próprio Ministério das Minas e Energia responde categoricamente a essa pergunta. “Apesar de ser um combustível fóssil, o gás natural é considerado uma fonte de energia
“Sempre
que se pensa em alguma matriz
energética alternativa, ela tem problemas ambientais também.
Para ficar no exemplo da energia elétrica, temos os casos das baterias, metais pesados, risco de contaminação, problema de descarte das baterias e muitas outras questões", diz Azevedo
de transição por ser menos poluente que o carvão e o óleo. O seu uso é estratégico para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em curto e médio prazos, enquanto o Brasil avança na expansão de fontes 100% renováveis, como a solar, a eólica e os biocombustíveis”, declara a pasta, que complementa: “Além disso, o gás natural oferece flexibilidade e segurança ao sistema elétrico, atuando como um suporte essencial para a intermitência das fontes renováveis.”
Não só o Brasil, mas diversos países encaram o gás natural como uma ferramenta de
transição para a descarbonização. “A gente vê muita coisa na mídia e pessoas afirmando que o petróleo não vale mais à pena, que vai acabar o petróleo do mundo, mas há, na minha humilde opinião, um pouco de desconhecimento nesse tipo de discurso”, alerta Azevedo, da USP. “O Brasil, por exemplo, é um grande produtor de petróleo ainda, e justamente por isso não compensa financeiramente abrir mão desse combustível”, afirma. “Sempre que se pensa em alguma matriz energética alternativa, ela tem problemas ambientais também. Para ficar no exemplo da energia elétrica, temos os casos das baterias, metais pesados, risco de contaminação, problema de descarte das baterias e muitas outras questões, porque não existe solução perfeita. Mas o gás ainda é economicamente mais viável para um país ainda em desenvolvimento como o Brasil, para um país que tem tanta desigualdade social, e polui bem menos”, diz.
A executiva do IBP também reforça a importância do gás natural. “Considerando o contexto brasileiro, caracterizado por uma matriz energética já bastante diversificada se comparada à de outros países, o gás natural segue contribuindo estrategicamente para a segurança de abastecimento de energia elétrica frente à intermitência das fontes renováveis, ainda podendo também substituir combustíveis mais poluentes tanto na indústria quanto no transporte de carga”, diz. “Considerando que os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organizações das Nações Unidas) estimulam o uso de fontes mais limpas e a redução de gases de efeito estufa, não há restrições ao uso do gás natural, pelo contrário, há o incentivo para soluções que reduzam emissões e promovam segurança energética. Não por outra razão, a União Europeia, reconhecendo esse papel estratégico do gás natural na segurança energética e descarbonização, determinou que investimentos em gás natural são considerados como sustentáveis.”



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TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 28 MINUTOS
COM SOLUÇÕES MAIS LIMPAS E EFICIENTES, O PAÍS ASSUME PAPEL RELEVANTE NA COP30
• Por Juca Guimarães
Abusca por novas tecnologias e inovações nos processos tradicionais do setor energético se tornou um dos pontos centrais dos debates governamentais, tanto pelo viés da economia como pelo prisma da preservação ambiental e sustentabilidade global.
O século 20 passou o bastão da descarbonização das matrizes energéticas para o século 21, medida que se apresenta como fundamental na solução dos problemas causados pelas emergências climáticas, cada vez mais agudos nas últimas décadas em diversos continentes, afetando a vida de bilhões de pessoas.
O Brasil terá uma janela de destaque durante a COP30 (30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas) para apresentar uma robusta e eficiente trajetória de pesquisa e desenvolvimento de biocombustíveis, além de abrir caminho para ampliação de investimentos financeiros para novas fábricas e mais pesquisas sobre bioenergia.
De acordo com o embaixador André Aranha Corrêa do Lago, presidente da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025, tornou-se prioridade em todo o mundo o que ele chama de “governança climática”, uma série de protocolos para implantação ágil e coordenada de medidas institucionais de uma arquitetura financeira para o cumprimento do Acordo de Paris, assinado, em 2015, com o compromisso de 196 países em combater o aquecimento global.
“Além disso, aceleramos a transição energética global, triplicando a capacidade de energia renovável globalmente, duplicando a taxa média anual global de melhorias na eficiência energética e abandonando os combustíveis fósseis nos sistemas de energia, de maneira justa, organizada e equitativa”, afirmou Lago, durante evento pré-COP30 na sede da ONU.
Até 2027, segundo a IEA (Agência Internacional de Energia, na sigla em inglês), o consumo mundial de biocombustíveis deve aumentar em 22%. Em 2022, um balanço da
IEA apontou que foram produzidos 114,2 bilhões de litros de etanol no mundo, sendo que o segundo maior produtor foi o Brasil, com 35,6 bilhões de litros a partir da cana-de-açúcar, atrás apenas dos EUA, que produziram 57,5 bilhões de litros a partir do milho.
O foco da luta contra a emergência climática que o mundo enfrenta se encaixa com os caminhos trilhados pelo Brasil no setor de bioenergia, que trouxe grandes resultados na redução dos impactos causados pelos combustíveis fósseis.
Pioneiros há 50 anos
Voltando aos dados da IEA, o volume de etanol produzido no mundo evitou o consumo de 2 bilhões de barris de petróleo por dia ao longo de 2022. No Brasil, o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que impulsionou a primeira geração de etanol combustível, foi lançado em 1975. Nos dez primeiros anos do Proálcool, a produção do etanol no Brasil saltou de 580 milhões de litros/ano para 11,7 bilhões de litros/ano.
“O Brasil saiu na frente do resto do mundo e é um exportador de tecnologia de biocombustíveis há décadas. Muitas empresas brasileiras foram pioneiras em diversos processos e tecnologias de bioenergia, e hoje se destacam também os avanços quando se fala de biomassa, biogás, bioquerosene, entre muitos outros produtos de alto valor agregado”, disse o engenheiro George Paulus Dias, coordenador do GT de Bioeconomia Nacional do Instituto de Engenharia que, em 2024, divulgou um estudo com uma análise abrangente de estratégias inovadoras de incentivo à bioeconomia, com destaque para a biodiversidade, bioindustrialização e agricultura regenerativa.
O estudo foi apresentado aos ministérios do governo que fazem a gestão de temas estratégicos do Brasil e também debatido em diversos estados do país em eventos de economia, sustentabilidade, desenvolvimento e gestão, por representantes do Instituto de Engenharia.
“O nosso país pode liderar uma transformação global rumo a uma nova economia mais inclusiva e responsável com a vida no planeta. Para isso, é fundamental que haja amplo entendimento, e um compromisso persistente das lideranças políticas, da sociedade civil, do setor privado e da academia. É preciso coragem para rever estruturas, incluir vozes diversas e construir, coletivamente, as capacidades para o futuro a que aspiramos”, disse Dias.
Com muita tecnologia e inovação, o Brasil soube se consolidar em uma posição de destaque no campo da energia lim-

O etanol brasileiro, entre os diversos projetos de descarbonização que serão destaque na COP30, é o que apresenta maiores avanços tecnológicos com competitividade de mercado
pa e eficiente. Em 2024, o país atingiu a marca de 213 gigawatts de capacidade instalada de produção de energia renovável, o que garantiu o terceiro lugar no ranking global para o Brasil, superando potências econômicas como França (9º lugar), Espanha (8º), Japão (6º) e Alemanha (5º).
O etanol brasileiro, entre os diversos projetos de descarbonização que serão destaque na COP30, é o que apresenta maiores avanços tecnológicos com competitividade de mercado, por conta da redução e captura de carbono durante o processo de produção e uso em escala.
No Brasil, que tem uma população de 202 milhões de pessoas, foi aprovada a mistura de 30% de etanol na gasolina a partir de agosto deste ano. Na Índia, com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, o governo pretende adotar uma mistura de 20% de etanol na gasolina como parte do processo para atingir as metas de descarbonização.
“A utilização do etanol é um jeito simples, barato e rápido de transformar o meio ambiente, saindo do fóssil e vindo para a bioenergia. Isso nos dá protagonismo político e




Etanol de primeira geração: é produzido a partir da fermentação da sacarose da cana-de-açúcar

Etanol de segunda geração: é produzido a partir da biomassa dos resíduos da plantação da cana (palha e bagaço)
Fonte: IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)
geopolítico”, disse Evandro Gussi, presidente da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia), durante o evento oficial do anúncio do governo sobre a nova composição da gasolina.
Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, cerca de 3 milhões de toneladas de gás carbônico fóssil deixarão de ser emitidos para a atmosfera por ano, por conta do aumento de 27% para 30% na mistura de etanol na gasolina.
Escalada das pesquisas em biocombustíveis
Um avanço significativo do setor de biocombustível brasileiro para a transição energética foi a criação do etanol de segunda geração, produzido a partir da biomassa do resíduo da produção de cana-de-açúcar (bagaço e palha), conhecidos como materiais lignocelulósicos.
“Esse etanol de segunda geração tem uma pegada de carbono bem menor, que inova por aproveitar os resíduos da produção do etanol, que é feito a partir da sacarose da cana-de-açúcar. Ou seja, o aproveitamento da área cultivada é mais eficiente e gera um combustível renovável”, disse João Carlos Sá-

SAF: é o bioquerosene para aviação produzido a partir de fontes renováveis, como óleos vegetais, gorduras animais, biomassa e resíduos

Biometano: é produzido a partir da purificação do gás gerado na de composição anaeróbica (sem ar) de matéria orgânica (biomassa, lixo, esgoto, resíduo agrícola)
vio Cordeiro, diretor da unidade de energia do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).
Outro desafio dos cientistas na criação dos biocombustíveis renováveis é sua utilização em máquinas e motores que atualmente funcionam com a energia gerada por combustíveis fósseis.
“Os combustíveis do futuro são de uma complexidade muito grande de tecnologia. Nosso trabalho hoje é acelerar o que acontece no setor de desenvolvimento científico, alinhando esse processo com as necessidades e o movimento da indústria da transição energética”, disse Vittor Rodrigues Santos Alves, pesquisador da área de biocombustível e eficiência energética do IPT.
Segundo Alves, o segmento mais avançado é o que desenvolve pesquisas para o bioquerosene de avião (SAF).
“Esse combustível novo avançado precisa ter as mesmas propriedades para ser usado nos aviões sem nenhuma adaptação nos motores e sem perda de eficiência, ou seja, um combustível ‘drop in’, já pronto para ser usado no mercado da aviação. Uma das áreas de avanço é a rota que produz a SAF a partir do etanol, mas existem vários outros caminhos e
estudos sendo realizados no Brasil, inclusive usando o bagaço da cana”, disse Alves. Biogás
Na prática, o setor de pesquisa de combustíveis do futuro do Brasil atua em diversas frentes junto com o governo e o setor industrial com pesquisas, testes e validações de tecnologias para a descarbonização e também a utilização de resíduos orgânicos, como o que já acontece no desenvolvimento do biometano a partir do biogás, produto que vem do resíduo da produção agrícola e pecuária. Na lavoura de cana-de-açúcar, por exemplo, para cada litro de etanol produzido, são gerados cerca de 10 litros de vinhaça, que entram na produção do biogás.
“O biogás é produzido na decomposição anaeróbica [sem ar] de resíduos orgânicos, que gera um gás que tem 40% de gás metano e 60% de CO2. Daí, ele é filtrado para retirar o gás carbônico e transformado em biometano com as mesmas características e propriedades de uso do gás natural, que é o gás encanado que tem nas cidades. O teor de metano no biometano é acima de 95%”, disse Pedro Gonçalves, pesquisador do IPT e especialista em processos industriais.
Hidrogênio
Outra frente de pesquisa para o desenvolvimento de energia limpa no IPT é a produção de hidrogênio de baixo carbono, por meio da eletrólise, em uma fábrica da EMTU (Empresa Metropolitana de Transporte Urbano), na cidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, com o apoio do PIPE (Programa de Pesquisa Inovativa em Pequena Empresa), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
O processo consiste em aquecer a água e o etanol dentro de um reator a 750º C para quebrar as moléculas do etanol e produzir hidrogênio e monóxido de carbono biogênico. Após esse processo, o hidrogênio é purificado e armazenado em reservatórios com pressão de

Pedro Gonçalves, pesquisador do IPT e especialista em processos industriais
400 atmosferas. Nos testes, foram necessários sete litros de etanol para produzir um quilo de hidrogênio de baixo carbono. Um carro movido a hidrogênio de uma montadora japonesa tem autonomia para rodar até 120 quilômetros de distância com um quilo de hidrogênio.
Segundo um relatório do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de 2025, o governo brasileiro considera que o hidrogênio de baixo carbono é o combustível do futuro, capaz de substituir combustíveis fósseis, que emitem os gases do efeito estufa, principalmente em setores como o transporte, metalurgia e siderurgia.
Um programa de apoio ao desenvolvimento de pesquisas sobre o hidrogênio de baixo carbono foi lançado com previsão de R$ 18,2 bilhões em créditos fiscais até 2032 para o desenvolvimento do setor.
Durante a COP30, em Belém, será apresentado o sistema de geração de energia do primeiro barco a hidrogênio do Brasil, o Explorer H1, uma embarcação de 36 metros de largura movida a hidrogênio verde, projetada pelo Itaipu Parquetec em parceria com JAQ Apoio Marítimo, uma unidade da empresa do Grupo Náutica.
De acordo com os técnicos do Itaipu Parquetec, o Explorer H1 é capaz de navegar em águas muito rasas, com um sistema de hidrojatos, o que o qualifica como um barco ideal para navegação em rios e missões de exploração.

Explorer H1, primeiro barco a hidrogênio do Brasil
Em 2026, numa segunda fase do projeto, o Explorer H1, será adaptado para um sistema de motor híbrido com 20% de hidrogênio e 80% de óleo diesel, com redução de até 80% na emissão de gás carbônico durante a navegação.
A próxima fase do projeto é o Explorer H2, previsto para 2027, com capacidade de funcionar apenas com hidrogênio verde, zero emissão de poluentes e com inovações tecnológicas capazes de produzir hidrogênio a bordo e dessalinizar a água do mar.
Essa embarcação, de 50 metros de largura, será usada em apoio de operações de mergulho no mar com uso de ROVs (veículos marinhos operados remotamente para coleta de dados oceanográficos). O Itaipu Parquetec tem mais de uma década de experiência na produção de hidrogênio verde, com foco em pesquisas para a transição energética.
A JAQ Apoio Marítimo e o Itaipu Parquetec investiram R$ 150 milhões no projeto para a criação das embarcações a hidrogênio verde. Cerca de R$ 50 milhões – um terço dos recursos – vieram das duas empresas, e o restante foi investimento de patrocinadores.
“Esse projeto não é apenas sobre inovação tecnológica, mas também sobre criar um futuro de desenvolvimento da náutica, mais limpo e sustentável para o transporte marítimo. A intenção é mostrar ao planeta que esse tipo de solução existe e que estamos evoluindo. Queremos mostrar para o mundo que é viável navegar sem emitir carbono”, disse Ernani Paciornik, presidente da JAQ.
O hidrogênio feito a partir do etanol é mais eficiente do que a gasolina usada atualmente
Consumo
1 kg de hidrogênio de baixo carbono faz…

120 km
1 litro de gasolina faz…

De 10 a 15 km
Fonte: IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)
De acordo com a empresa, os dois barcos serão usados também como laboratórios flutuantes para ajudar no desenvolvimento de produtos e iniciativas que promovam educação ambiental e a preservação dos biomas marinhos e fluviais do Brasil.
Esses projetos de descarbonização na frota de embarcações, com o uso de hidrogênio verde, estão alinhados com os compromissos globais estabelecidos pelos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), da ONU, e com as ações da Década do Mar da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
A navegação marítima é responsável por cerca de 90% do comércio mundial e é também uma das principais fontes de emissões de gases de efeito estufa, contribuindo com quase 3% das emissões globais de dióxido de carbono, segundo a Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês).
No primeiro semestre deste ano, o Instituto de Engenharia perdeu duas referências importantes de sua história: os engenheiros e ex-presidentes Plínio Oswaldo Assmann e Antônio Hélio Guerra Vieira. Ambos deixaram contribuições notáveis para a engenharia nacional, seja no desenvolvimento do transporte público, seja na área acadêmica, com o projeto e a construção do primeiro computador brasileiro.
Nesta edição da revista Engenharia, prestamos homenagem aos nossos saudosos ex-presidentes, que tanto contribuíram para a perpetuação do Instituto de Engenharia, casa onde cultivaram amizades, compartilharam conhecimentos e doaram tempo e dedicação a uma causa em comum: a paixão pela engenharia.
Plínio Oswaldo Assmann, legado no metrô de São Paulo
Engenheiro mecânico-eletricista, formado pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), em 1956, e administrador de empresas, Plínio Assmann foi presidente do Instituto de Engenharia nos anos de 1983 e 1984. Foi também conselheiro e recebeu a outorga de Eminente Engenheiro do Ano 2015.
Nos 69 anos que foi associado ao Instituto de Engenharia, compartilhou conhecimento e entusiasmo imensos a respeito de transportes sobre trilhos, sendo o coordenador, junto com o engenheiro Camil Eid, do projeto
“Ocupação Sustentável do Território Nacional pela Ferrovia Associada ao Agronegócio”. Presidente da Companhia do Metrô de São Paulo, durante a construção e implantação da operação da primeira linha do estado, a Azul Norte-Sul, sempre nos presenteava com suas histórias de desafios daquela época.
Participou de várias frentes, como a fundação da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), a qual presidiu; assim como presidiu e foi conselheiro da Companhia do Metrô do Rio de Janeiro.
Foi também secretário de Transportes do governo de São Paulo, e presidente da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista), uma das principais indústrias de base do país à época, onde liderou esforços de modernização industrial, aumento de produtividade e integração tecnológica. No campo da pesquisa e inovação, atuou com destaque no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), promovendo a aplicação do conhecimento científico à solução de problemas reais da engenharia brasileira.
Dentre os feitos de sua trajetória, nunca escondeu o seu orgulho em ter liderado a construção da primeira linha do Metrô de São Paulo. Em dezembro de 2024, Plínio Assmann foi homenageado, pelo Instituto de Engenharia, com o Prêmio Engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, durante as celebrações do Dia do Engenheiro. Impos -


sibilitado de comparecer, o reconhecimento foi entregue ao seu filho e netas, em um momento de muita emoção, cercado também de seus amigos da Casa.
Respeitado por sua ética, clareza de ideias e compromisso com o interesse público, Assmann foi um mentor para diversas gerações de engenheiros, técnicos e gestores. Sua capacidade de unir conhecimento técnico, espírito público e visão estratégica tornou-se exemplo duradouro na história da engenharia nacional.
Antônio Hélio Guerra Vieira: educador e engenheiro
Graduado em engenharia mecânica (1953) pela Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), Antônio Hélio Guerra Vieira era associado ao Instituto de Engenharia desde 1978, chegando à presidência da Casa nos anos de 2001 e 2002.
Sua trajetória profissional passou pelos mundos acadêmico, técnico e institucional com a mesma seriedade, profundidade e espírito público.
Foi diretor da Poli-USP, onde liderou importantes processos de modernização curricular e institucional. Em 1982, assumiu o posto máximo, como reitor da Universidade de São Paulo, tornando-se uma das figuras mais respeitadas da educação superior brasileira. Sua
atuação foi marcada pela defesa da autonomia universitária, da pesquisa de ponta e do compromisso com a sociedade.
Criou, em 1968, o Laboratório de Sistemas Digitais da USP, onde, em 1972, fez parte do grupo que elaborou o projeto do primeiro computador brasileiro, o “Patinho Feio”.
A máquina, em uma caixa de um metro de altura por um metro de comprimento, havia sido fabricada ao longo do ano anterior por alunos de graduação e pós-graduação da universidade, que atuaram sob a liderança do professor Hélio Guerra.
Também presidiu a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), entre 1979 e 1985, e foi um dos criadores e presidente da FDTE (Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia).
Em 2023, esteve pela última vez no Instituto de Engenharia, quando houve um encontro com os ex-presidentes da Casa.
Mais do que suas conquistas profissionais, será lembrado pela generosidade com que compartilhou conhecimento, pela serenidade nos momentos difíceis e pela paixão com que defendeu causas públicas. Seu legado transcende obras e cargos; ele permanece vivo na inspiração que deixa para futuras gerações de engenheiros e para todos que acreditam em um Brasil melhor.
ALMEIDA, Edmar Fagundes; FERRARO, Marcelo Colomer
Indústria do gás natural –fundamentos técnicos e econômicos
Belo Horizonte – MG

Editora Synergia, 2013, 252p. O livro destaca que a indústria do gás natural, se comparada à do petróleo, ainda é recente, com cerca de 50 anos de expansão e consolidação na matriz energética mundial. A obra mostra como, ao longo das últimas décadas, o setor passou por transformações estruturais, tecnológicas, econômicas e regulatórias profundas, que foram decisivas para ampliar sua participação no mercado de energia e garantir sua continuidade em longo prazo. O texto também ressalta que as projeções globais apontam para um papel cada vez mais relevante do gás natural, além de evidenciar o conjunto de questões estratégicas e desafiadoras que cercam a indústria nos dias atuais.
ROCHA, Luis Alberto dos Santos; AZEVEDO, Cecília
Projeto de poços de petróleo
Rio de Janeiro – RJ

Editora Interciência, 2009, 562p.
Este livro foi desenvolvido para diversos tipos de leitores, desde aqueles interessados em aprender conceitos básicos de projeto de poços, até os que desejam aprofundar seus conhe-
cimentos em importantes áreas da engenharia de petróleo como a estimativa de geopressões.
Entre os temas: definições básicas utilizadas para as estimativas de geopressões; métodos para o cálculo do gradiente de sobrecarga ( overburden gradient ); mecanismos geradores de pressões de poços anormalmente altas e diversos métodos utilizados para suas estimativas; conceitos de mecânica das rochas; métodos para as estimativas dos gradientes de pressão de fratura e colapso; operações de início de poço, projetos típicos utilizados na indústria do petróleo e critérios para a escolha do equipamento de segurança de poço (BOP).
SACARENI, Pedro Paulo Transporte marítimo de petróleo e derivados
Rio de Janeiro – RJ

Editora Interciência, 2012, 154p.
A obra proporciona ao leitor uma visão abrangente dos fundamentos do transporte marítimo, permitindo também um estudo aprofundado de seu funcionamento na indústria de petróleo e derivados. Seu conteúdo vai além dos aspectos comerciais, operacionais e técnicos do setor de navegação e das diferentes modalidades de fretamento, abordando ainda temas como conhecimento de embarque, sobrestada e termos comerciais internacionais.
O livro é destinado a profissionais de logística e das áreas operacional e
comercial das indústrias de petróleo, gás e petroquímica, mas também a especialistas em exportação e importação e estudantes de áreas correlatas.
DUAILIBE, Allan Kardec
Combustíveis no Brasil:
Desafios e perspectivas
Belo Horizonte – MG

Editora Synergia, 2012, 220p. Organizada por Allan Kardec Duailibe, ex-diretor da ANP (Agência Nacional de Petróleo), a obra conta com a participação de representantes da cadeia de distribuição e comercialização de combustíveis. São 16 capítulos escritos por presidentes das entidades representativas do setor, professores, especialistas e agentes públicos, que fazem uma análise de cada segmento. Com esse projeto, Allan Kardec e os demais coautores se propõem a preencher uma lacuna do mercado editorial brasileiro, que tem publicado importantes obras sobre aspectos técnicos da exploração e produção de petróleo e gás natural, mas ainda se ressentia de uma visão de conjunto sobre as atividades do downstream e os aspectos regulatórios que envolvem essas operações.
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TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 35 MINUTOS
A importância da adaptação, da inovação e da flexibilidade nas organizações empresariais do início do século 21: uma indústria automobilística que prioriza o pensamento
• Por Jonas Mattos e Luiz Martins*
Neste artigo objetiva-se ressaltar a importância do conhecimento definido como capital intelectual, ou seja, capacidades, habilidades e experiências individuais dos colaboradores de uma organização. Para alcançar esse conhecimento, as organizações devem priorizar a adaptação, a inovação e a flexibilidade num ambiente de constante aprendizagem, fomentando processos de pensamento que busquem identificar a raiz dos problemas para solucioná-los.
Destacam-se os agentes do conhecimento que são descritos como indivíduos a serem inseridos em organizações empresariais facilitadoras de atividades em grupo, que criem e acumulem o conhecimento individual. Releva-se a criação de conceito por meio de um método inovador, tendo como paradigma uma indústria automobilística. Descreve-se a ação da criação por meio de um processo denominado espiral do conhecimento sendo detalhadas as condições necessárias ao desenvolvimento de tal conhecimento.
Como resultado, o artigo enfatiza a necessidade da identificação da raiz de um problema na busca de sua solução estruturada por meio de sete passos organizados em duas fases. Concluindo o artigo, foi estabelecida uma
relação entre a importância do conhecimento e a priorização da adaptação, da inovação e da flexibilidade em ambientes empresariais. Tal relação estimula processos de pensamento ilustrativos dos pressupostos da Ética dos Samurais, segundo a qual sempre há margem para melhorar.
O início do século 21 tem as mesmas características do final do século 20 quanto à real necessidade de atualização de produtos. Vai longe o tempo em que uma empresa podia fabricar bem um produto e explorá-lo durante anos com sua vantagem competitiva original.
A adaptação, a inovação e a flexibilidade derrubaram essa antiga abordagem empresarial de seu pedestal e se tornaram ações necessárias para a sobrevivência de uma empresa bem-sucedida. Sustentar esse compromisso organizacional exige um atributo essencial: a habilidade de aprender. De fato, o mais alto elogio que podemos fazer a uma empresa no atual ambiente de negócios é dizer que ela é uma verdadeira “organização de aprendizagem”.
Peter Senge (1990) popularizou esse conceito em seu livro “The Fifth Discipline”, no
qual definiu uma organização de aprendizagem como um lugar onde pessoas continuamente expandem sua capacidade de criar os resultados que realmente desejam, onde novos e extensos padrões de pensamento são alimentados, onde a aspiração coletiva é liberada e as pessoas estão constantemente aprendendo a aprender juntas.
Uma organização de aprendizagem, diz Senge, não só adota e desenvolve novas habilidades técnicas e empresariais; ela também estabelece um segundo nível de aprendizagem, como aprender novas habilidades, conhecimentos e capacidades. Para tornar-se uma verdadeira organização de aprendizagem, a capacidade da organização deve se desenvolver e crescer ao longo do tempo, à medida que ela ajuda seus membros a se adaptarem a um ambiente competitivo em contínua modificação.
Senge afirma que as cinco disciplinas que se mostram essenciais para a construção da organização que aprende são domínio pessoal, modelos mentais, construção de visão compartilhada, aprendizagem em equipe e pensamento sistêmico.
Drucker (1993), em sua obra “Sociedade Pós–Capitalista”, afirmou que uma das características fundamentais de nosso tempo foi o surgimento da sociedade do conhecimento ou sociedade pós-capitalista, que teve início logo após a Segunda Guerra Mundial e se caracterizou por significativas inovações, transformações e mudanças. Nela, a informação e o conhecimento passaram a ter fundamental importância.
De acordo com Davenport e Prusak (1998), “o conhecimento tornou-se um recurso econômico proeminente mais importante que a matéria-prima, mais importante, muitas vezes, que o dinheiro. O conhecimento tornou-se o principal ingrediente do que produzimos, compramos e vendemos. Resultado: administrá-lo, encontrar e estimular o capital intelectual, armazená-lo, vendê-lo e compartilhá-lo, tornou-se a tarefa econômica mais
importante dos indivíduos, das empresas e dos países”.
OS AGENTES DO CONHECIMENTO
Ao longo das duas últimas décadas, falava-se em capacidade intelectual humana, quando Toffler (1980), em sua obra “A terceira Onda”, relacionada à sociedade do conhecimento, destaca que o principal recurso econômico, a riqueza da sociedade, passa a ser o produto do conhecimento.
É o conhecimento o principal foco de atuação, explicação ou definição do que vem a ser capital intelectual, que tem sido alvo de diversos pensadores. Para Stewart (1998), o capital intelectual corresponde ao conjunto de conhecimento e informações encontrados nas organizações. Tal conjunto agrega valor ao produto ou serviço, por meio da aplicação da inteligência e não do capital monetário.
Para Edvinson e Malone (1998), o capital intelectual “é um capital não financeiro que representa a lacuna entre o valor de mercado
A adaptação, a inovação e a flexibilidade
derrubaram essa antiga abordagem empresarial de seu pedestal e se tornaram ações necessárias para a sobrevivência de uma empresa bem-sucedida
e o valor contábil. Sendo, portanto, a soma do capital humano e do capital estrutural”.
O postulado acima resulta na seguinte equação:
Capital intelectual = capital humano + capital estrutural
Para esses autores, o capital humano corresponde às capacidades de conhecimento, habilidades e experiências individuais dos colaboradores de uma organização para realizar as tarefas, enquanto o capital estrutural é formado pela infraestrutura que apoia o capital humano. Para Edvinson e Malone, os agentes do conhecimento são os indivíduos e a organização.
Para Nonaka e Takeuchi (1997), o capital intelectual (conhecimento) é um ativo disperso nas pessoas e que por meio de uma interação contínua produzirá o conhecimento organizacional.
O conhecimento organizacional é conseguido por meio do diálogo entre os conhecimentos tácito e explícito, pelo processo chamado espiral do conhecimento. Portanto, para Nonaka e Takeuchi, os agentes do conhecimento são os indivíduos, cabendo à organização, no processo de criação do conhecimento, fornecer um contexto capaz de facilitar as atividades em grupo, para a criação e a acumulação de conhecimento individual.
Segundo Nonaka e Takeuchi, na espiral do conhecimento, quando ocorre o diálogo en-
tre os componentes do campo ou matriz do corpo do conhecimento, há um compartilhamento que gera o conceito de um novo produto ou serviço.
O campo ou matriz do corpo do conhecimento pode ser compreendido no Quadro 1. Observa-se no Quadro 1 que as matrizes do conhecimento se equivalem. No entanto, o score da Honda é 18x13 sobre a Mazda, comparando-se na equipe multifuncional o departamento de P&D (pesquisa e desenvolvimento).
A inovação consiste em criar conceito por meio de um método, e a Toyota, como indústria paradigma entre as empresas automobilísticas japonesas, revela como ocorre esse método. Sempre que a Toyota define uma especificação, cria um conjunto de hipóteses para serem testadas buscando rigor científico. Esse tipo de experimentação (pesquisa experimental) é reconhecida como o marco de uma organização que aprende.
O método científico emergiu na empresa há mais de cinco décadas. Portanto, fazem parte da vida da Toyota as ações desenvolvidas pelos métodos Dedutivo (análise da informação, que nos leva a uma conclusão), Indutivo (tem como ponto de partida uma observação, para daí elaborar uma teoria), Hipotético-dedutivo (construção de conjecturas firmadas em hipóteses, que se confirmadas, serão também as conjecturas), Dialético (propõe que tudo está em constante mudança) e Metafórico (com-
Fonte: Nonaka (1990)
paração implícita entre dois elementos que apresentam uma ou mais características em comum).
Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), a criação e o acúmulo de conhecimento em nível organizacional ocorrem por meio de um processo por eles denominado espiral do conhecimento.
A espiral do conhecimento inicia-se pelo conhecimento tácito, que está no quadrante S. A essência estratégica está no desenvolvimento da capacidade organizacional de adquirir, criar, acumular e explorar o conhecimento.

No quadrante S (socialização), o conhecimento tácito é compartilhado gerando E (externalização), isto é, um conhecimento conceitual, que é combinado com outros conceitos no quadrante C (combinação), gerando um conhecimento sistêmico. No quadrante I ocorre a internalização do conhecimento em conhecimento tácito. Nesse ponto a espiral começa a girar.
Cabe ao campo:
• Criar conceito;
• Justificar o conceito;
• Desenvolver arquétipo: produto (protótipo) e serviço ou processo (modelo do mecanismo operacional).
A espiral do conhecimento inicia-se pelo conhecimento tácito, que está no quadrante S.
A essência estratégica está no desenvolvimento da capacidade organizacional de adquirir, criar, acumular e explorar o conhecimento
Cabe à organização:
• Difundir o conhecimento.
O CONHECIMENTO
A VISÃO DE NONAKA E TAKEUCHI
O conhecimento é criado por pessoas; portanto, uma organização necessita de gente para criar. Entretanto, é imprescindível que as empresas ofereçam um contexto apropriado para a geração do conhecimento, visto que nenhuma das modernas práticas de criação funcionará, a não ser que as organizações criem um clima favorável para tal.
No mundo moderno as organizações precisam de estruturas e estratégias que favoreçam o desenvolvimento de forma contínua. Para que isso ocorra, segundo Nonaka e Takeuchi, é importante que se promovam as cinco condições que irão desenvolver a espiral do conhecimento, são elas:
• Interação: Todo processo de fluxo e disseminação deve estar associado à intenção organizacional por meio de aspirações, metas e objetivos estratégicos;
• Autonomia: A autonomia possibilita que os indivíduos criem novos conhecimentos, pois eles próprios irão estabelecer limites às suas tarefas;
• Flutuação e caos criativo : Quando é introduzido um caos (crise real ou não), ele levará os membros da organização a enfrentar um colapso nas rotinas, hábitos e estruturas, fazendo surgir a oportunidade de reconsiderar o pensamento e perspectivas fundamentais. Esse processo contínuo de questionamento e reconsideração estimula a criação do conhecimento organizacional;
• Redundância: Superposição proposital de informação sobre as atividades da empresa, de forma que todos os membros da organização tomem conhecimento delas;
• Variedade de requisitos: A organização deve promover a interdisciplinaridade e multidisciplinaridade na resolução dos problemas e ainda garantir o acesso rápido a uma ampla gama de informação, com um reduzido número de etapas.
A condição para desenvolver conhecimento para a Toyota está centrada nos conceitos:
• Filosófico: A reflexão incansável – Hansei.
• Científico: A ação de melhoria contínua –Kaizen
A Toyota sustenta a crença de que se a organização focar no processo de melhoria contínua, os resultados financeiros almejados serão alcançados. Para tanto, os conceitos Hansei e Kaizen devem agir sobre os sistemas de pessoas, os processos e as tecnologias.
Conceituam-se como “sistemas” não o conjunto de informações, mas os processos de trabalho e os procedimentos para a realização de uma tarefa, com o mínimo de tempo e de esforço. Para isso, a tecnologia desenvolve a melhor qualidade.
O sistema de pessoas propiciará a inovação e a melhoria. Essas pessoas devem possuir
qualidades especiais, que se manifestam por meio de trabalho em equipe, persistência no trabalho (objetivo), flexibilidade para aprender novos conceitos, autorreflexão (análise crítica de seus erros) e responsabilidade individual (não está ligada à culpa e à punição, mas sim à aprendizagem e ao crescimento).
A chave para a aprendizagem e o crescimento, não só para a Toyota, mas na cultura japonesa, é o Hansei, que significa reflexão. Hansei é um pouco da cultura japonesa que a Toyota começou a difundir entre seus colaboradores de outros países. Para a Toyota, o referido conceito (de difícil aplicação) tornou-se um elemento da aprendizagem organizacional.
Ao utilizar o método científico em todos os níveis da força de trabalho, a Toyota garante que as pessoas participem da transformação do conhecimento tácito em explícito, sendo o referido método pedra basilar do seu sistema de produção, descrito por Spear e Bowen (1999) a partir dos seguintes princípios:
• Princípio 1: Todos os trabalhos devem ser específicos em termos de conteúdo, sequência, tempo e resultado.
• Princípio 2: Todas as conexões entre clientes e fornecedores devem ser diretas, formando um conjunto inequívoco de “sim” ou “não” para a formulação da solicitação e o recebimento das respostas.
• Princípio 3: Todos os fluxos dos produtos e serviços devem ser simples e diretos.
• Princípio 4: Todas as melhorias precisam ser feitas em conformidade com o método científico, sob a orientação de um professor e no nível hierárquico mais elementar da organização.
A aplicação do Sistema Toyota de Produção consiste em atividades, conexões e fluxos de produção extremamente padronizados, enquanto que as operações devem ser flexíveis e adaptáveis.
Tanto em relação às atividades quanto aos processos, os envolvidos são constantemente desafiados a alcançar um resultado melhor no desempenho, objetivando que a empresa continue a inovar e melhorar.
O modus operandi do sistema Toyota consiste em “identificar a raiz do problema e desenvolver soluções”.
Taiichi Ohno (1997) enfatiza que a verdadeira solução de um problema requer a identificação de sua “raiz” e não de uma “fonte”. A raiz do problema encontra-se oculta para além da fonte. Por exemplo, podemos descobrir que a fonte de um problema é um fornecedor ou um determinado centro de manufatura: o problema ocorre, mas qual é a raiz do problema? A resposta é dada pelo ex-vice presidente do Toyota Technical Center, Yuichi Okamoto: “Temos uma técnica muito sofisticada para desenvolver novos produtos.” Tal técnica é chamada de cinco porquês.
Diz Okamoto: “As pessoas ficam surpresas quando ministro palestra e explico que a Toyota não possui um programa seis sigma”. O seis sigma está fincado em complexas ferramentas de análise estatística. As pessoas querem saber como a Toyota chega a níveis tão altos de qualidade sem as ferramentas de seis sigma.
A maioria dos problemas não requer análises estatísticas complexas, mas sim uma solução detalhada e esmerada. Isso exige um nível de análise que não se encontra nas atividades diárias da maioria das empresas.
Em se tratando de soluções práticas para a resolução de problemas, destacamos a figura abaixo que demonstra sete passos inseridos em duas fases.
A solução prática para resolver problemas é estruturada por meio de sete passos, e tem início com as seguintes fases:

1º Passo – Percepção inicial do problema
Devemos ir ao encontro do problema (genchi genbutsu). Isso pode incluir a priorização de uma série de problemas diferentes pela análise de Pareto, citada por Gryna & Juran (2001).
Essa é a ferramenta de análise estatística mais usada na Toyota. É simples, mas poderosa.
2º Passo – Esclarecimento do problema
A compreensão do problema começa com uma observação e uma comparação com a situação padrão. Conclusão: Temos o “verdadeiro” problema.
3º Passo – Localização da área, ponto de causa
Onde o problema é observado?
Qual sua causa provável?
É a primeira tentativa para identificar o ponto de causa (PDC).
4º Passo – Investigação da raiz do problema
Essa ação leva às vizinhanças da raiz do problema.
Os “cinco porquês” aplicados num problema real
Nível do problema Nível correspondente de solução
Há uma poça de óleo no chão da fábrica. Limpar o óleo.
Por que a máquina está vazando? Consertar a máquina.
Por que a vedação está gasta? Substituir a vedação.
Por que compramos vedação de material inferior?
Por que conseguimos um bom negócio (preço) com essas vedações?
Por que o agente de compras é avaliado segundo a economia de custos a curto prazo?
Mudar as especificações das vedações.
Mudar as políticas de compra.
Mudar a política de avaliação dos agentes de compras.
As perguntas que compõem o método dos cinco porquês.
Fonte: Peter R. Scholter. The Leader`s Handbook, Mc Graw –Hill, 1998.
5º Passo – Solução
A análise dos cinco porquês tem o propósito básico de gerar uma solução.
6º Passo – Avaliação
Avaliar os resultados da solução após sua implementação permite concluir se a solução é eficiente.
Aprovada a solução, esta torna-se a padronização do novo processo.
Para a Toyota, a padronização e a aprendizagem andam de mãos dadas e são a base para a melhoria contínua dos processos de tal padronização.
A Toyota tem como prioridade pensar nos problemas e em suas soluções. Na Toyota, a solução de um problema é constituída de 20% de ferramentas e 80% de pensamento. Em contrapartida, outras empresas investem no uso de grandes, novas e sofisticadas ferramentas de análise, em que a solução de problemas pode constituir-se de 80% de ferramentas e de 20% de pensamento.
Para Yukio Mishima (1987), em “O Hagakure – A Ética dos Samurais e o Japão Moderno”, o conceito do Kaizen revela que há sempre margem para melhorar: “O treinamento do samurai dura a vida inteira, e há nela uma ordem adequada. Em nível superior há um reino extremo que transcende a habilidade dos mortais comuns. Aquele que penetra profundamente no Caminho (O Caminho do Samurai é a Morte) desse reino compreende que não há fim para o seu treinamento e que jamais virá o tempo em que estará satisfeito de seus trabalhos. Portanto, o samurai deve conhecer suas deficiências bem e passar a vida treinando sem jamais sentir que fez o bastante. É claro que não deve ter nunca uma confiança excessiva, mas também não se deve sentir inferior aos outros”.
Nos 200 anos de shogunato (período feudal no Japão), os samurais realizaram a transição de guerreiros para administradores e estrategistas, difundindo a filosofia do aprimoramento contínuo, fomentando assim processos de pensamento que buscam identificar a raiz dos problemas, para depois solucioná-los.
Nesse sentido, retomamos o objetivo deste artigo destacando a importância do capital in-
telectual da adaptação, da inovação e da flexibilidade num ambiente de constante aprendizagem que estimula processos de pensamento. Tais processos ilustram os pressupostos da ética dos samurais que ensina o preceito por meio do qual sempre há margem para melhorar.
DAVENPORT, T. H.; PRUSAK. L. Conhecimento empresarial. Rio de Janeiro: Campos, 1998.
DRUCKER, P. F. Sociedade Pós – capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993.
EDVINSON, L.; MALONE, M. Capital Intelectual: descobrindo o valor real de sua empresa pela identificação de seus valores internos. São Paulo: Makron Books, 1998.
GRYNA, F. M.; JURAN, J.M. Quality Planing and Analysis. McGraw-Hill, 2001.
MISHIMA, Y. O Hagakure - A Ética dos Samurais e o Japão Moderno. Rio de Janeiro: Rocco,1987.
*Jonas Mattos é engenheiro civil formado pela Faculdade de Engenharia São Paulo, tendo como áreas de atuação profissional: Engenharia Legal, Aprovação de Projetos Habitacionais e Parcelamento do Solo; e Luiz Martins possui graduação em engenharia química pelo instituto Mauá de Tecnologia e mestrado em Tecnologia Nuclear pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas e FIAM-FAAM.
NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. Criação do conhecimento na empresa. Rio de Janeiro: Campos, 1997.
OHNO, T. O sistema Toyota de produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Editora Bookman, 1997.
SENGE, P. M. A quinta disciplina – Arte e prática da organização que aprende. São Paulo: Best Seller, 2004.
SPEAR, S.; BOWEN, H. K. Decodificando o DNA do Sistema Toyota de Produção. USA: Harvard Business Review,1999.
STEWART, T. A Capital Intelectual: A nova vantagem competitiva das empresas. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
TOFFLER, A. A Terceira Onda. Rio de Janeiro: Record, 1980.

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TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 65 MINUTOS
• Por Gustavo Jose Tobias Camuzzi, Lafaiete Alves Augusto Corrêa, Julio Tan Chen e Alex Fabiano Bueno*
Os conversores CC-CC, especialmente os do tipo buck, desempenham papel fundamental ao fornecerem uma tensão contínua regulada a partir de fontes CC não reguladas. Este artigo aborda o desenvolvimento experimental de um protótipo, com ênfase na implementação de um controle para carregamento CC-CV em baterias de Li-Ion, utilizando a placa de aquisição myRIO-1900, em conjunto com a interface gráfica LabVIEW. Este projeto, elaborado como parte da disciplina de Projeto Especializado, integra o controlador ao LabVIEW, enviando o sinal de controle para um bloco PWM. O myRIO realiza a leitura da tensão de saída do conversor e aplica o sinal de controle recebido. Os resultados alcançados não apenas confirmaram as expectativas, mas também atenderam aos objetivos e parâmetros iniciais, proporcionando um acréscimo significativo ao conhecimento dos discentes.
Os smartphones desempenham papel crucial em diversas áreas, porém, a autonomia limitada da bateria representa um desafio constante para os usuários, o que torna prioritária a busca por fontes de energia rápidas e confiáveis.
Nesse contexto, um dos principais desafios no carregamento de dispositivos móveis é a variedade de fontes de energia disponíveis. Embora a energia seja frequentemente fornecida como corrente contínua (CC), a voltagem e a capacidade dessas fontes podem variar
consideravelmente. Além disso, as baterias dos dispositivos móveis operam em tensões padronizadas, geralmente em torno de 3,7 V para baterias de lítio, enquanto as fontes de energia podem apresentar voltagens substancialmente diferentes.
Para contornar essas disparidades, os conversores CC-CC se destacam como circuitos chaveados fundamentados em técnicas avançadas de comutação, tipicamente controladas por PWM (Pulse Width Modulation – modulação por largura de pulso, na sigla em inglês). Esses conversores têm aplicações diversas, incluindo o controle de motores de corrente contínua, fontes de alimentação em computadores e sistemas de tensão ininterrupta. Este trabalho explorará a técnica de controle CC-CV (Constant Current-Constant Voltage) para carregamento, abordando o controle de corrente seguido pelo controle de tensão da bateria. Além disso, será apresentada uma metodologia para o projeto de controladores, empregando Controladores Proporcional Integral Derivativo (PID) tanto para corrente quanto para tensão.
Foi utilizada a placa de aquisição myRIO-1900, destacando seu papel crucial na geração precisa do sinal PWM e no controle eficiente do sistema. Como ferramenta complementar, o LabVIEW, uma linguagem de programação gráfica, foi empregado para fornecer as ferramentas necessárias para a manipulação da placa de aquisição, ampliando assim as capacidades do estudo proposto.
Conversores buck, como ilustrado na Figura 1, são dispositivos eletrônicos projetados para converter uma tensão contínua (CC) em uma nova tensão contínua de valor inferior, visando proporcionar uma saída de tensão mais estável.
O buck é classificado como um conversor chaveado, no qual um transistor atua como um interruptor, operando nos estados completamente ligado ou completamente desligado. Estes estados correspondem, respectivamente, à saturação ou corte para um transistor de junção bipolar (TJB) ou triodo, e à região de corte para um transistor Mosfet. Ao abrir e fechar o interruptor em ciclos regulares, são gerados pulsos de tensão na saída, resultando em uma média de tensão inferior para o período em comparação com a tensão de entrada.

O controle dos intervalos nos quais o interruptor permanece aberto ou fechado é realizado por meio de um sinal modulado por largura de pulso (PWM). Esse sinal possui uma frequência de chaveamento em hertz (Hz), representada por fs, e uma forma de onda triangular que se repete a cada período Ts, conforme expresso pela Equação (1). Para o buck, a razão cíclica desse sinal é representada pela variável adimensional D, que indica a fração do período de chaveamento Ts durante a qual o interruptor permanece ligado (ton), como mostrado na equação (2). Da mesma forma, é possível deduzir que o período pelo qual o interruptor permanece desligado (toff ) é o com-
plemento fracionário do período, conforme indicado pela Equação (3).

A tensão de saída desse chaveamento pode ser obtida utilizando a análise de Fourier, na qual sabemos que a componente contínua (CC) de um sinal periódico corresponde à sua tensão média. Considerando o formato de onda demonstrado pela Figura 3 e realizando a análise de Fourier, podemos observar, pela Equação (4), que a tensão média de saída (Vo) dependerá de D e da tensão de entrada (Vs).
As baterias de íon de lítio (Li-Ion) têm se destacado no cenário de dispositivos portáteis devido à sua notável densidade energética, tornando-se especialmente adequadas para aparelhos com limitações de tamanho. Ao contrário de baterias mais antigas, como as de níquel-cádmio, que podem desenvolver o “efeito memória” ou vício de bateria, resultando em uma capacidade de carga reduzida ao longo do tempo se recarregadas sem os devidos cuidados, as Li-Ion eliminam esse problema.
Além disso, oferecem vantagens significativas, incluindo um ciclo de vida mais longo e baixa autodescarga. O caminho para a aceitação generalizada dessas baterias não foi isento de desafios históricos, como os relacionados à inflamabilidade e ao risco de explosão. Esses desafios foram superados por meio de avanços tecnológicos que garantiram a estabilidade comercial das Li-Ion. No entanto, a
necessidade de um controle de carregamento preciso persiste como uma consideração fundamental, uma vez que casos de instabilidade continuam a ocorrer, como evidenciado pelos incidentes de incêndio na Califórnia em 2018 [3]. Essa observação destaca a urgência de implementar medidas rigorosas para garantir a estabilidade operacional dessas baterias.
A metodologia predominante no processo de carregamento de baterias de íon de lítio é conhecida como CC-CV (Carregamento Corrente Constante-Tensão Constante), conforme explicado por Patnaik, Praneeth e Williamson [4] (2019). A ampla adoção do método CC-CV decorre de sua praticidade e simplicidade, destacando-se como um dos procedimentos mais eficientes. Esse método opera em dois estágios distintos de controle: o primeiro utiliza uma corrente constante. Quando um limiar de tensão próximo à carga máxima é alcançado, a transição para o segundo estágio ocorre. Neste, a tensão permanece constante, enquanto a corrente decresce até um limiar de fim de carga, indicando a conclusão do processo de carregamento. A Figura 2 ilustra visualmente esse procedimento.
O estágio de corrente constante (CC) é em-

Figura 2: Representação gráfica das curvas de corrente e tensão durante o carregamento CC-CV (HUANG et al., 2020).
pregado para acelerar o carregamento, aproximando rapidamente a tensão do seu valor máximo. No entanto, essa abordagem pode
ocasionar um aumento na temperatura das células. Para mitigar o estresse térmico causado pela sobretensão, algo que o modo CC não seria capaz de evitar, ocorre a transição para o estágio de tensão constante (CV). Este estágio assegura que a tensão permaneça dentro dos limites permitidos, prevenindo, assim, qualquer sobrecarga prejudicial à bateria [4]. Dada a instabilidade térmica comum em baterias de íon de lítio e o potencial aumento de temperatura durante o processo de carga, a maioria das baterias que implementam o controle CC-CV costuma incorporar mecanismos integrados para interromper o processo de recarga em caso de detecção de sobreaquecimento.
No desenvolvimento de conversores buck CC-CC, a utilização da placa de aquisição myRIO-1900 emerge como um componente-chave para a geração precisa do sinal PWM e controle eficiente do sistema. A myRIO-1900, uma plataforma de hardware versátil da National Instruments, oferece recursos robustos para aplicações de controle e aquisição de dados.

Figura 3: National Instruments, “myRIO-1900”, National Instruments, 2023
A geração precisa do sinal PWM é fundamental para controlar o ciclo de trabalho do conversor, determinando o tempo durante o qual o interruptor permanece ligado ou desligado. A myRIO-1900 é capaz de gerar sinais PWM com alta precisão, proporcionando uma
solução confiável para a modulação necessária no controle do conversor buck.
Além disso, a myRIO-1900 desempenha um papel essencial no controle global do sistema. Com sua capacidade de processamento integrada e Entradas/Saídas (E/S) programáveis, a myRIO-1900 permite a implementação de algoritmos de controle avançados. Essa capacidade é determinante para otimizar a eficiência e o desempenho do conversor buck, garantindo respostas em tempo real para ajustar dinamicamente o ciclo de trabalho do sinal PWM e manter as condições de operação desejadas.
Logo, a myRIO-1900 se destaca como uma escolha estratégica para aplicações envolvendo conversores buck CC-CC. Sua capacidade de geração precisa de sinal PWM e controle em tempo real posiciona essa placa de aquisição como um componente fundamenta para a implementação eficiente e precisa do controle necessário, contribuindo significativamente para otimizar o desempenho do conversor em diversas condições operacionais.
Esta seção aborda o desenvolvimento experimental do conversor buck, apresentando os dispositivos empregados nos circuitos de comando e potência, construção do indutor, montagem do conversor em placa de circuito impresso para análise dos resultados.
Para definir parâmetros de funcionamento para o conversor buck, o primeiro passo consiste em calcular a corrente no indutor, utilizando a Equação (5).

O conversor buck está sendo projetado para aplicações em baterias de 12V, sendo esta a tensão de entrada. Pelo mesmo motivo, a tensão de saída é 5V. É necessário utilizar uma alta frequência de chaveamento, levando em conta este fator, foi definida uma frequência de 50 KHz.
Com o valor médio da corrente no indutor e também sabendo a variação que essa corrente sofre quando o transistor está aberto ou fechado, então podem-se calcular as correntes máxima e mínima.

Entretanto, para garantir que o funcionamento esteja realmente estável, é necessário assegurar que a variação líquida de corrente no indutor sobre o período de comutação resulte igual a zero.

Com isso, fica evidenciado pela Equação (8) que a característica dinâmica da tensão na saída com o filtro LC permanece inalterada, em comparação com o que foi identificado anteriormente na Equação (4). Em outras palavras, dado que a taxa de operação D sempre assume valores entre 0 e 1, a tensão de saída será consistentemente menor ou igual à tensão de entrada, assegurando a redução da tensão.
Para validar as análises realizadas até o momento, é essencial assegurar a escolha adequada do valor da indutância. Isso é im-
portante para garantir a presença de corrente positiva ao longo de toda a operação, mantendo o sistema em modo de condução contínua. Para determinar o valor mínimo do indutor, é possível substituir o valor de Imin na Equação (7) por zero. Essa abordagem permite descobrir o valor mínimo necessário para evitar a ocorrência de correntes negativas. Assim, o valor mínimo do indutor pode ser expresso pela Equação (9):

Contudo, devido ao processo de chaveamento, há certos componentes harmônicos que não podem ser eliminados, resultando em uma tensão e corrente de ripple. Para assegurar a validade das aproximações realizadas e a linearidade da corrente, é essencial garantir que o ripple de corrente, representado por ∆iL, seja suficientemente reduzido, aproximadamente 10 vezes menor que a corrente média IL [2]. Assim, remanejando e retirando o termo 2ƒs I o e substituindo por ΔiLƒs, temos:

Devido a limitações físicas, é praticamente impossível obter uma tensão de saída totalmente constante, pois isso exigiria um capacitor com uma capacitância infinita. Logo, ao selecionar o valor do capacitor, é crucial considerar a ondulação mínima desejada na tensão de saída (∆v o), causada pela variação na carga (∆Q), conforme definido na Equação (11).

Ademais, é possível determinar a variação da carga. Ela possui relação direta com a corrente fluindo pelo capacitor, podendo ser calculada pela área em que a corrente é positiva [6].


Com isso, é possível substituir ∆Q na Equação (11) pela Equação (12), resultando em uma relação da ondulação de tensão com a ondulação de corrente, conforme demonstrado a seguir.

Assim, dimensionaram-se todos os componentes necessários para o projeto. A seguir, a Tabela 1 apresenta as especificações do conversor buck

O sistema de controle do conversor é responsável por supervisionar as chaves semicondutoras no circuito. O conversor buck é equipado com uma chave controlada (normalmente um Mosfet) e uma chave não controlada (geralmente um diodo). A chave controlada recebe os pulsos do PWM; sua operação (abertura e fechamento) é comandada pela largura desses pulsos. Por outro lado, a chave não controlada (diodo) proporciona o caminho de retorno para a corrente do indutor quando o Mosfet está desligado. Para acionar o Mosfet, utiliza-se um circuitogate driver, cuja função é receber o sinal PWM e enviá-lo à chave. Isso isola o circuito de controle do circuito de potência, adaptando os níveis de tensão e corrente da saída do modulador PWM para os níveis necessários ao acionamento do Mosfet.
O circuito de potência compreende os seguintes elementos: resistor, indutor e capacitor. O capacitor foi adicionado para filtrar as variações na tensão de saída, permitindo uma ondulação de corrente de até 2% do valor da tensão. O indutor foi incluído para fornecer corrente ao circuito quando a chave está aberta, mantendo assim o conversor operando em modo de condução contínua. Um indutor com núcleo de ferrite foi desenvolvido para esse fim.
A Figura 8 mostra o indutor construído em bancada e o circuito de potência montado em uma placa de circuito impresso.
O funcionamento ocorre em duas etapas com dois circuitos operando em tempos dis-
tintos, que se referem ao estado do transistor. No primeiro circuito (Figura 4), tem-se a chave fechada e o diodo inversamente polarizado, permitindo que a energia se transfira da fonte para a carga, carregando o capacitor.
Aplicando as leis de Kirchhoff no circuito da Figura 4 é possível obter as seguintes equações de estado:


No segundo circuito, Figura 5, a chave está aberta e o diodo polarizado diretamente, fazendo com que o capacitor forneça energia para o sistema. E suas respectivas equações de estados são:

Como o circuito é chaveado, cada etapa gera equações de estado distintas, tornando o sistema não-linear. Para linearizar o sistema utiliza-se o método do espaço de estados médio, em que as equações fornecidas pelo primeiro estágio são multiplicadas pela razão cíclica (D) e o segundo estágio é multiplicado por 1-D, sendo o complemento do período de chaveamento, em seguida, somam-se os dois espaços de estados.

Após esse passo, é feita a linearização por Jacobiano, onde se obtém o modelo no espaço de estados do sistema:

Com auxílio do software Matlab, obteve-se uma função transferência que relaciona o duty cicle com a tensão de saída (Vo/D) e outra que relaciona o duty cicle com a corrente de saída (Io/D):

A operação em malha fechada de conversores é muito importante, pois em malha aberta eles operam de forma estática, o que significa que o ciclo de trabalho (duty cicle) permanece constante. Então quando ocorre uma perturbação na tensão de entrada, a tensão de saída irá convergir para outro valor.
O método de projeto dos controladores utilizado foi a alocação de polos, onde os mesmos devem fazer o sistema seguir referência do tipo degrau, rejeitar perturbações, não se tornarem oscilatórios e sem sobressinal. Como os sistemas elétricos apresentam resposta muito rápida, definiu-se um tempo de acomodação de 3,88×10�4s, que corresponde a 90% do tempo de acomodação de malha aberta. O formato dos controladores adotados foi PID e R, apresentados a seguir:

Com os controladores projetos é possível chegar as seguintes respostas em malha fechada dos sistemas:

Ao analisar o diagrama de polos e zeros das malhas fechadas, nota-se que os zeros do sistema eram dominantes sobre os polos, o que poderia resultar em sobressinal. Para mitigar esse efeito, foi projetado um filtro de referência com o objetivo de cancelar esses zeros e, assim, garantir o cumprimento das especificações do projeto.
O LabVIEW, um software projetado para aplicações de teste, medição e controle, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do protótipo. Utilizado em conjunto com a placa de aquisição NI myRIO-1900, o LabVIEW oferece ferramentas eficientes para a aquisição e manipulação de dados.
A implementação gráfica concentrou-se na geração do sinal PWM para o circuito, incorporando o controle de corrente e tensão, além de obter dados essenciais para o fechamento da malha por meio da leitura da tensão na carga.
A Figura 7 ilustra o fluxo de controle no LabVIEW. A implementação requer o uso de um bloco condicional que abriga os controladores. Inicialmente, o bloco opera com o controlador de corrente. O estado do bloco é governado por um atributo booleano oriundo de um bloco de comparação.
Quando o valor da tensão na carga atinge 95% do setpoint, o bloco condicional inverte, passando a operar com o controlador de tensão. A saída do bloco condicional, correspondente ao output do bloco PID do controlador que está operando no momento, é conectada à entrada de duty cycle do bloco PWM, que opera na frequência de chaveamento definida previamente. Para fechar a malha do controlador de tensão, foi empregado um bloco de entrada para capturar a diferença de potencial na carga. Esse valor é então dividido pela resistência da carga para calcular a corrente, permitindo assim o fechamento efetivo da malha de controle de corrente.

Para fechar a malha do controlador de tensão, foi empregado um bloco de entrada para capturar a diferença de potencial na carga.
Esse valor é então dividido pela resistência da carga para calcular a corrente, permitindo assim o fechamento efetivo da malha de controle de corrente.
O propósito deste capítulo é apresentar os resultados decorrentes dos sistemas desenvolvidos, conforme detalhado nos capítulos anteriores. Utilizando o protótipo do conversor buck, destacado na Figura 8, foram conduzidas análises para validar o seu desempenho. Inicialmente, foram realizadas simulações para avaliar os cálculos teóricos dos controladores e compará-los ao comportamento observado no protótipo. A fim de facilitar a compreensão dos resultados, a abordagem foi segmentada em três etapas: primeiro, a avaliação do controle de tensão; em seguida, a análise do controle de corrente; e, por último, a implementação conjunta de ambos no modelo CC-CV.
O protótipo foi inicialmente montado em protoboard pela facilidade de manipulação dos componentes e praticidade, conforme mostrado na Figura 8. Posteriormente, foi projetada uma placa de circuito impresso para o conversor buck, de acordo com a Figura 9, para garantir um protótipo organizado e confiável para transporte.

Fig. 8: Conversor buck
em protoboard e myRIO- 1900

9: Conversor buck em placa de circuito impresso
Conforme explicado em Implementação do controle e do PWM no LabVIEW, utilizou-se o LabVIEW em conjunto com a placa de aquisição myRIO para implementar o controle no conversor buck. Foram utilizadas leituras da saída do conversor. Analisando apenas o controle de tensão, conforme mostra a Figura 10, ao ler a tensão pode-se verificar a ação abaixadora do conversor, reduzindo a tensão de entrada de 12V para 6V, conforme projetado.

Fig. 10: Tensão de saída do conversor Fonte: Autor
A fim de comprovar o comportamento da malha fechada no sistema, o conversor foi submetido a duas perturbações, que consistiram em variações abruptas na tensão de entrada. Como mostra a Figura 11, o sistema rejeita com êxito as perturbações em ambos os momentos.

Fig. 11: Resposta à p erturbação na t ensão de e ntrada
Fonte: Autor

Fig. 12: Tensão de saída do conversor com alterações de setpoint
Fonte: Autor
Para comprovar que o controlador segue a referência, foram adotados os valores de setpoint 0, 6, 8 e 4. Com base na Figura 12, pode-se afirmar que o sistema segue a referência para todos os valores analisados.

Fig. 13: Corrente na carga
Fonte: Autor
Analisando o controle de corrente, o objetivo é comprovar que o sistema segue a referência. Como mostrado na Figura 13, quando foi inserido um setpoint de 0,02, o sistema estabilizou em uma corrente de 0,02A, portanto está seguindo a referência de acordo com o objetivo. De maneira similar à análise de perturbação para o controle de tensão, foi feita para o controle de carga onde ocorreu uma pequena perturbação na fonte de entrada Conforme mostra a Figura 14, o sistema rejeitou a perturbação e começou a seguir a referência.

Fonte: Autor
Como último teste do controle de corrente, foram feitas alterações no setpoint da corrente, para comprovar que está seguindo a referência. Portanto, foram inseridos respectivamente 0,02, 0,01 e 0,025 no setpoint. Conforme a Figura 15, o sistema seguiu as referências inseridas.

Fonte: Autor
de setpoint
Após as análises bem-sucedidas dos controladores separados, realizou-se a última análise com o controlador duplo simulando o carregamento da bateria, onde o sistema começa com setpoint de 0,02. No instante inicial, o controlador de corrente atua; após 5 ms, foi ajustado para o controle de tensão passar a atuar. O protótipo apresentou o comportamento esperado, como mostra a Figura 17, que representa o gráfico de corrente na carga. O sistema atinge a corrente de 0,02A.

Fig. 16: Tensão na Carga Controle CC-CV
Fonte: Autor
Em seguida, no momento em que o controlador de tensão passa a atuar, o valor de corrente aumenta e passa a ter 0,025A, correspondendo ao valor de tensão na carga dividido pela carga. Este comportamento também pode ser validado pela Figura 16, que mostra o gráfico de tensão na carga no mesmo momento que a Figura 17. É notável que

Fig. 17: Corrente na Carga Controle CC-CV
Fonte: Autor
no momento em que o controle de corrente está ativo, a tensão de saída é de 6,5V; quando o controle de tensão passa a atuar, a tensão na carga passa a ser a mesma do setpoint
O conversor buck foi modelado e simulado no OpenModelica para avaliar seu desempenho em diversos cenários. Nesta seção, são apresentados os resultados das simulações, destacando a resposta do sistema sob controle CC-CV, sua capacidade de rejeição a perturbações e a eficácia no carregamento simulado de uma bateria de íon de lítio.
1. Controle CC-CV: Como mencionado anteriormente, o conversor buck foi projetado no OpenModelica e, com isso, foi possível realizar algumas análises como a representada pela Figura 18, que mostra a resposta do sistema com controle CC-CV, onde são inseridos dois setpoints de 12V e 5V, respectivamente. É possível comprovar que o sistema se comportou da maneira correta, pois com o primeiro setpoint, que corresponde ao valor máximo de tensão, a corrente também ficou no valor máximo. E, ao alterar o setpoint, a corrente diminui.

Tensão no resistor (V) corrente no resistor (A)
Fig. 18: Controle CC-CV
Fonte: Autor
2. Rejeição a perturbações na carga: A Figura 19 destaca a capacidade do sistema de rejeitar perturbações na carga sob o controle CC-CV. O código associado inclui elementos dinâmicos que garantem uma resposta estável, mesmo diante de perturbações abruptas na carga.
O projeto, montagem e controle do conversor buck CC-CC revelam resultados promissores, contribuindo para o avanço da tecnologia de carregamento de baterias de íon de lítio

Tensão na carga (V) Corrente na carga (A)
Fig. 19: Rejeição a Perturbação na Carga CC-CV - Simulação
Fonte: Autor
3. Carregamento simulado da bateria: A Figura 20 ilustra a simulação do processo de carregamento de uma bateria de íon de lítio. O código correspondente define as condi-
ções iniciais e equações que modelam o comportamento do sistema ao inserir uma bateria na carga. A mudança no setpoint é refletido no código, resultando em uma corrente constante de 15A e aumento gradual da tensão até atingir 4,0V.

Corrente na bateria (A) Tensão na bateria (V) Fig. 20: Carregamento da Bateria - Simulação
Fonte: Autor
Esses resultados indicam a robustez e eficácia do conversor buck CC-CC em diferentes cenários simulados, validando sua aplicação para o carregamento de baterias de íon de lítio.
A conclusão deste trabalho revela o sucesso alcançado no desenvolvimento e implementação de um conversor buck CC-CC destinado ao carregamento de baterias de íon de lítio. Este projeto abordou eficazmente os desafios do carregamento de baterias, oferecendo uma solução robusta e eficiente.
A utilização do LabVIEW em conjunto com a placa de aquisição myRIO permitiu um controle preciso do conversor, mantendo a tensão de saída dentro dos parâmetros desejados em diversas condições operacionais. As análises de desempenho para o controle de tensão e corrente validaram a eficácia do sis-
tema, evidenciando respostas rápidas e capacidade de rejeição a perturbações.
A simulação no OpenModelica complementou as conclusões experimentais, oferecendo uma visão abrangente do comportamento do sistema em diversas situações. A capacidade do conversor em operar de modo CC-CV, adequado ao carregamento de baterias de lítio, foi confirmada com sucesso, destacando uma resposta estável e eficiente diante das variações nos setpoints de tensão. Em resumo, o projeto, montagem e controle do conversor buck CC-CC revelam resultados promissores, contribuindo para o avanço da tecnologia de carregamento de baterias de íon de lítio. A combinação de abordagens práticas e simulações numéricas proporcionou uma compreensão abrangente do sistema, destacando seu potencial para aplicações futuras em áreas como sistemas de energia renovável, veículos elétricos e dispositivos portáteis.
*Gustavo Jose Tobias Camuzzi, Lafaiete Alves Augusto Corrêa, Julio Tan Chen e Alex Fabiano Bueno são alunos da engenharia de Controle e Automação, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Blumenau-SC, Brasil. E-mails: Gustavocamuzzi10@gmail.com, lafaitealves@ outlook.com, julio.tan.chen.ufsc@gmail.com
[1] AHMED, A. Eletrônica de Potência. 2000.
[2] BRATAWINATA, A. L. C. Projeto, montagem e controle de conversor CC-CC do tipo buck. 2020.
[3] WEISE, E. Cell phones thrown in the trash are exploding, causing 5-alarm fires in garbage trucks, 2018. Disponível em: <URL>. Acesso em: 20 out. 2023.
[4] PATNAIK, L.; PRANEETH, A. V. J. S.; WILLIAMSON, S. S. A closed-loop constant-temperature constant-voltage charging technique to reduce charge time of lithium-ion batteries. IEEE Transactions on Industrial Electronics, v. 66, n. 2, p. 1059–1067, 2019.
[5] HART, M. H. Eletrônica de Potência. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.
[6] MATTOS, C. A. P. Projeto de controlador de carga de bateria de Ion de lítio. 2019.
#Associação #Clube #Social
#EntidadeDeClasse #Tecnologia
#Atualização #Profissional

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 4 MINUTOS
• Por Luiz Felipe Proost de Souza*
Nos dias de hoje, com a evolução das mídias sociais, presenciamos um declínio dos tradicionais clubes sociais, culturais e esportivos. Muitos deles, encerrando suas atividades por falta de interesse da sociedade, entraram em choque comportamental com o novo perfil da nova geração. A prática dos esportes, da convivência social e cultural como conhecemos hoje teve sua origem no remo e no atletismo, nos idos do século 19, e seguiu até os anos 1950, no século 20.
Aquela geração vivia o amadorismo, algo das elites, como dito “elite do esporte”. Qual clube esportivo e social não possui em seu brasão um par de remos? Somente os mais recentes. Naqueles que já são centenários, esse símbolo está presente, patenteando uma época de ouro do amadorismo.
Suas sedes sempre estiveram próximas a corpos d’água – vejam os nossos rios Tietê e Pinheiros, quantos nasceram naquelas antigas várzeas. Tais como os esportivos e sociais surgiram, os clubes profissionais vieram depois, com o aumento dos profissionais liberais que, após a conclusão de seus cursos superiores, sentiram a necessidade de se unir, com o intuito de não só ter um convívio social para si e seus familiares, mas, principalmente, para a troca, o aprimoramento e o desenvolvimento de suas artes.
Sem esse contato, não haveria um espaço saudável e próspero para discutir e desen-
volver seus conhecimentos por meio da troca contínua com os seus colegas da práxis e tekhné. Trata-se também de atrair eméritos e profundos experts do conhecimento tecnológico e científico para palestras, cursos, simpósios e congressos, além de propor soluções aos governos, seus órgãos e autoridades constituídas, sempre em benefício da nação.
Assim, as associações e os clubes profissionais vão cumprindo suas funções, tanto para com a sociedade como um todo quanto para os seus governos. Não podemos deixar de mostrar, ainda nos bancos da faculdade, a importância dessas sociedades civis sem fins lucrativos, ressaltando que, após o término da fase de aprendizado acadêmico, cabe a elas dar continuidade à formação, agora com todas as responsabilidades profissionais.
A escola se apaga, fica na saudosa lembrança, e se acende um novo espaço para o profissional: a sua associação. É nela que a ética e o convívio harmonioso com seus pares devem ser os mais profícuos. Trata-se de um local onde o amor à arte, ao coleguismo e à fraternidade entre os pares deve prevalecer, assim como foram no passado as guildas dos antigos pedreiros da arte gótica. Pedreiros que construíram as grandes obras daquela época e que sobreviveram até os dias de hoje, demonstrando a força da sua união em torno de um ideal profissional que tudo pode realizar.
Não restam dúvidas de que esses órgãos privados são um patrimônio cultural e tecnológico da nação em que se inserem, espelham o que há de melhor na arte que representam, e são verdadeiras academias de aconselhamento público para a sociedade.
É óbvio que, com avanço da informática e da inteligência artificial, e do comportamento das novas gerações de profissionais, essas entidades têm de se reinventar para se adaptar à realidade. Não devemos jamais pensar em seu encerramento, mas em sua atualização, pois seria a morte da própria tecnologia que representam naquela sociedade em que estão inseridas.
Assim, questionamos: como deve ser uma associação profissional nos dias de hoje?
Entendemos que uma associação profissional deve ser estruturada para atender às necessidades de seus membros e promover a excelência na profissão que representa. Para ser bem-sucedida, podemos elencar as principais características:
Missão e objetivos claros
• Missão: Promover o desenvolvimento da profissão e representar os interesses dos associados.
• Objetivos: Estabelecer metas específicas, como educação continuada, certificação profissional, defesa de políticas públicas e networking.
Estrutura organizacional
• Diretoria: Eleita democraticamente pelos seus membros, devendo ser composta por profissionais experientes que possam liderar a associação.
• Conselhos: Podem incluir conselhos técnicos, de ética e consultivos.
• Comissão de grupos de trabalho: Voltados para áreas específicas, com eventos, regulamentação ou comunicação.
Serviços aos membros
• Educação e capacitação: Oferecer cursos, seminários e workshops.
• Certificação: Criar e manter programas de certificação que valorizem os profissionais.
• Networking: Promover eventos e fóruns para troca de conhecimentos.
• Benefícios: Proporcionar descontos em serviços, acesso a publicações exclusivas e oportunidades de carreira.
Código de ética e regulamentação
• Estabelecer e aplicar normas éticas e padrões de prática profissional.
• Proteger a reputação da profissão e zelar pela conduta dos membros.
Comunicação e engajamento
• Publicações: Oferecer boletins, revistas ou plataformas online com informações atualizadas.
• Redes sociais: Usar plataformas digitais para divulgar eventos e interagir com os membros.
Representação e advocacy
• Representação: Defender os interesses da profissão junto aos órgãos governamentais e reguladores.
• Advocacy: Promover políticas públicas que beneficiem a área de atuação.
Sustentabilidade financeira
• Taxas de associação: Cobrar anuidades justas e acessíveis.
• Patrocínios e parcerias: Buscar apoio de empresas e organizações alinhadas à missão da associação.
• Eventos pagos: Organizar eventos e conferências que gerem receita.
Inclusão e diversidade
• Incentivar a participação de todos os grupos sociais, promovendo igualdade e diversidade dentro da associação. Devemos ter em mente que uma associação bem estruturada será um espaço de crescimento profissional, fortalecimento da profissão e colaboração entre seus membros.
*Luiz Felipe Proost de Souza é engenheiro civil especializado em segurança do trabalho, administrador, mestre em saneamento ambiental, professor universitário, perito judicial, foi conselheiro do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo), é diretor da Proost Engenharia de Avaliações, membro dos Conselhos Deliberativo e Consultivo do IE (Instituto de Engenharia de São Paulo). Contato: lpkproost@uol.com.br
#Biogás #Sustentabilidade #CO2 #Combustível

• Por Simone Cotrufo França*
Obiometano, um gás resultante da purificação do biogás, produzido pela decomposição de resíduos orgânicos, como lixo urbano, esgoto e resíduos agrícolas, por meio da digestão anaeróbica, tem se destacado como uma solução renovável de grande relevância para a mobilidade sustentável. Este artigo explora seu uso crescente no transporte, destacando os desafios de infraestrutura e os benefícios ambientais e econômicos associados.
O futuro do biometano se mostra promissor, especialmente após a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, em outubro de 2024. O Brasil, com sua vasta riqueza em biomassa, consolida-se como um protagonista crucial na transição energética global, liderando o caminho rumo a um setor mais sustentável por meio do uso do biometano.
Atualmente, a tecnologia já permite a produção de biometano com especificações adequadas para uso veicular. Composto majoritariamente por CH4, assim como o GNV (gás natural veicular), o biometano é considerado um combustível neutro em carbono, uma vez que o carbono liberado durante sua combustão foi previamente absorvido pela biomassa que o originou. Dessa forma, ele surge como um substituto ideal para o GNV de origem fóssil, que emite CO2 durante a sua queima. O uso do biometano como combustível favorece a economia circular, visto que a agroindústria pode utilizar seus resíduos na fabricação do gás, que pode abastecer as frotas de carros, caminhões e tratores da agroindústria, os quais já estão disponíveis no mercado na-
cional. Além disso, sua produção gera fertilizantes como subproduto (o digestato), um biofertilizante que pode ser utilizado nas lavouras.
Veja, no gráfico abaixo, as vendas de caminhões a gás, no acumulado de janeiro a setembro em 2023 e 2024.
Emplacamento de caminhões a gás Acumulado janeiro a setembro 2023 x 2024


De acordo com dados de 2023 da Cibiogás, o Brasil conta com 1.365 plantas de biogás registradas, um aumento de 21% em relação a 2022, com capacidade instalada de 4,15 bilhões de Nm³/ano. O potencial teórico de curto prazo é de 10,8 bilhões de Nm³/ano. Para o biometano, o Biogásmap registrou 50 plantas em 2023, um aumento de 19% no volume de biometano em comparação a 2022, com capacidade de 580 milhões de Nm³/ano.
Políticas públicas e programas de incentivo do governo, como o RenovaBio e os de créditos de carbono, têm estimulado a produção de biometano.
Um dos principais desafios para a utilização desse biocombustível na frota veicular é a infraestrutura de abastecimento, que ainda está em fase inicial. Embora o biometano possa ser injetado em gasodutos, a malha existente é limitada e, muitas vezes, não conecta diretamente os produtores aos consumidores finais. No entanto, ele pode ser transportado por caminhões, o que oferece uma solução temporária enquanto a infraestrutura é desenvolvida.
Como caso de sucesso, podemos citar a parceria entre a Necta Gás e a Usina Cocal. O empreendimento conta com aproximadamente 65 km de rede de distribuição, ligando a Usina Cocal, em Narandiba (SP), ao mercado consumidor industrial em Presidente Prudente (SP). Outro exemplo de sucesso é o Grupo Solví, no Rio Grande do Sul, que processa resíduos para a geração de biometano.
Fora do Brasil, países como Espanha, Suíça, Alemanha e Itália utilizam o biometano em suas frotas. Já a Colômbia e o estado do Rio de Janeiro fazem uso do GNV em suas frotas, graças a incentivos governamentais. O biometano, portanto, pode substituir parcial ou totalmente o GNV, um combustível fóssil, contribuindo para a valorização e a descarbonização do setor de transportes.
Outro fator importante é a competição do biometano com a molécula de gás natural, que possui uma infraestrutura de distribuição mais consolidada e preços mais competitivos. Contudo, grandes empresas já estão promovendo a substituição de suas frotas movidas a diesel por combustíveis renováveis. Tanto associações como Abiogás e Cibiogás quanto empresas produtoras de biometano veem um futuro promissor para esse combustível. Em conclusão, o biometano surge como uma solução inovadora e poderosa para o futuro da mobilidade sustentável. Sua capacidade de transformar resíduos em energia limpa e renovável coloca o Brasil em uma posição de liderança na transição global para combustíveis mais ecológicos. Embora ainda existam desafios de infraestrutura, os avanços tecnológicos,
as políticas de incentivo e o crescente interesse das indústrias indicam que o biometano desempenhará um papel fundamental na descarbonização do setor de transportes. Com o aumento contínuo de investimentos e projetos pioneiros, podemos vislumbrar um futuro mais sustentável, no qual o biometano será um dos pilares centrais na construção de uma economia circular e na redução das emissões de carbono. O caminho está sendo pavimentado, e as perspectivas são promissoras para um Brasil mais verde e um planeta mais limpo.
O biometano é considerado um combustível neutro em carbono, que se baseia no conceito de ciclo do carbono. Para entender, é importante considerar os seguintes pontos:
Origem do biometano
O biometano é produzido a partir da decomposição de matéria orgânica, como resíduos agrícolas, dejetos animais, ou resíduos sólidos urbanos. Durante o crescimento da biomassa que deu origem a esses resíduos, o CO2 foi absorvido da atmosfera por meio da fotossíntese.
Quando o biometano é queimado como combustível, ele libera CO2 de volta à atmosfera. No entanto, esse carbono não é adicional; ele é o mesmo que foi retirado do ar pela biomassa durante seu crescimento.
Diferentemente dos combustíveis fósseis, que liberam CO2 adicional acumulado por milhões de anos, o biometano simplesmente recicla o carbono já presente no ambiente, mantendo o equilíbrio do ciclo do carbono. Por isso, dizemos que o biometano é neutro em carbono, pois sua queima não aumenta a quantidade líquida de CO2 na atmosfera. Em outras palavras, ele apenas devolve o que foi capturado previamente, sem contribuir para o efeito estufa de forma significativa.
*Simone Cotrufo França é coordenadora da Divisão Técnica de Tecnologias Renováveis do Instituto de Engenharia.
Trabalho colaborativo discutirá um “Projeto Brasil” visando a eleição presidencial

Em junho, diretoria, conselhos, corpo técnico do Instituto de Engenharia e convidados realizaram uma reunião com Rubens Barbosa, presidente do IRICE (Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior) e ex-embaixador em Londres e Washington; Shigeaki Ueki, ex-ministro de Minas e Energia; e Eduardo Pereira de Carvalho, economista e ex-secretário-geral do Ministério da Fazenda. Na ocasião, Rubens Barbosa apresentou uma proposta para fomentar um debate plural, técnico e apartidário, visando a criação do documento “Uma estratégia para o Brasil – o lugar do Brasil no mundo”, um registro da sociedade civil para ser entregue no próximo ano aos candidatos à presidência da República.
Após as boas-vindas do presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, o diretor da ConVisão CNC, Regis Gehlen Oliveira, explicou como será a estrutura do evento que, neste ano, contará com 15 seminários e terá, além do Prêmio Maiores e Melhores Obras, mais três troféus, entre eles, um dedicado aos estudantes de engenharia. “A ideia dessa premiação é que as universidades convidem os alunos a apresentarem um projeto ligado ao desenvolvimento de engenharia, mas que mostre o lado humano da profissão”, ressaltou Regis Gehlen.
A Semana Nacional da Engenharia acontecerá entre os dias 20 e 24 de outubro, na sede do Instituto de Engenharia.
Inscrições
Técnicas 2025. Inscrevase até 7 de novembro
Programação preliminar da Semana Nacional da Engenharia foi apresentada a entidades parceiras do IE

Os presidentes de diversas entidades parceiras do Instituto de Engenharia participaram de um café da manhã, em junho, na sede do IE, para conhecer a programação preliminar da segunda edição da Semana Nacional da Engenharia e propor sugestões de temas para a grade de atividades.

A Secretaria de Atividades Técnicas receberá, até o dia 7 de novembro, as inscrições dos trabalhos candidatos à premiação anual.
Conforme o Regimento das Divisões Técnicas, Departamento de Engenharia e Colegiado Técnico, cada Divisão poderá selecionar segundo os critérios pré-estabelecidos no citado Regimento, dois trabalhos para concorrer em cada uma das seguintes categorias:
– Melhor Trabalho Técnico do Ano;
– Melhor Trabalho do Ano analisando temas de interesse do setor público e
– Melhor Trabalho do Ano analisando temas ligados ao exercício da profissão.
Os trabalhos candidatos à premiação devem ser enca-
minhados ao vice-presidente de Atividades Técnicas, por e-mail (divtec@iengenharia.org.br). Caso sejam impressos, deverão ser entregues em três exemplares, acompanhados de cópias em meio eletrônico ou qualquer outro meio disponível, além do curriculum do(a) autor(a) em língua portuguesa.
Os concorrentes deverão ser associados do Instituto de Engenharia há pelo menos 90 dias.

A diretoria do Instituto de Engenharia e seus associados participaram, em junho, de uma visita técnica ao Aquático de São Paulo, primeiro sistema de transporte público hidroviário, que liga os terminais Cantinho do Céu e Parque Mar Paulista, na Represa Billings, Zona Sul da capital.
Segundo José Manuel de Oliveira Reis, gerente do Sistema Hidroviário da cidade de São Paulo, a ideia desse transporte vem da época em que o atual prefeito da cidade de São Paulo, Ricardo Nunes, era vereador. “Ele é dessa região e sempre quis utilizar o transporte hidroviário em virtude da existência da represa. Ele preparou um projeto piloto e a operação assistida foi implantada em maio de 2024, e vai da região de Pedreira ao parque Cantinho do Céu, que tem uma grande densidade demográfica”, explica.
Desde sua implantação, mais de 500 mil pessoas já foram transportadas, em mais de 28 mil viagens. “Temos seis embarcações que, em horário de pico, saem de 15 em 15 minutos e, fora desse período, de 30 em 30 minutos”, diz Reis. Ele ressalta que esse modal de transporte integra ônibus, metrô e embarcação. “O percurso que antes era feito em uma hora e meia, hoje leva em torno de 17 minutos na embarcação".
A primeira fase do projeto, até final de julho de 2025, foi gratuita. Após esse período o sistema se integra ao Bilhete Único.
Outras localidades estão sendo estudadas para a implantação de hidrovias: a região do Ponta do Apurá e Cocaia.

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Diretoria do IE fez visita técnica às obras da Linha

A diretoria do Instituto de Engenharia e conselheiros fizeram uma visita técnica, em maio, às obras da Linha 6-Laranja, do Metrô, que ligará o Pátio Morro Grande, no extremo noroeste da Capital Paulista, à estação São Joaquim, na região central.
O grupo foi recebido pela equipe da Acciona na área do Pátio Morro Grande, pelo diretor do projeto, Lúcio Matteucci, e pelo diretor de engenharia, Ivo Teixeira, que fizeram a apresentação institucional da empresa, destacando alguns projetos no Brasil, além de ações sociais e de inclusão. Com uma parceria público-privada, Matteucci destacou,
durante a apresentação da obra, que a Linha 6-Laranja é o maior projeto de infraestrutura em desenvolvimento na América Latina, expondo seus números atuais: mais de 75 mil toneladas de aço e mais de 567 mil m³ de concreto usados até o momento; mais de 2,7 km de túnel em NATM (Novo Método Austríaco de Tunelamento), 60% de avanço nas obras e 100% das frentes das obras em atividades.
Após a visita ao Pátio Morro Grande, o grupo seguiu para a futura estação Santa Marina, a mais avançada do trecho, com 75% das obras realizadas.
Os membros do IE também foram recebidos por Maria Carolina Castro, gerente de comunicação e marca Brasil, e Manola lens, gerente de comunicações do projeto.

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Diretoria e Conselho do IE se reuniram com o ministro João Parkinson

Em agosto, o presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, acompanhado de sua diretoria e conselho, recebeu em nossa sede o ministro da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores, João Carlos Parkinson.
Durante a reunião, foram discutidos assuntos sobre o tarifaço dos EUA ao Brasil e o cenário atual dos setores ferroviário e hidroviário no Brasil e no mundo. No fim do encontro, foram debatidas quais as melhores maneiras de o Instituto de Engenharia trabalhar esses temas em benefício da sociedade.

Ao centro, Alfredo Savelli, novo presidente do Conselho Consultivo do IE, ao lado de Rui Camargo (à dir.), que passa o cargo, e o então vice-presidente, Luiz Felipe Proost de Souza
Foram empossados, em maio, durante a reunião ordinária do Conselho Consultivo, os novos dirigentes do conselho para a gestão 2025/2026. São eles: Presidente do Conselho Consultivo – Alfredo Savelli Vice-presidente do Conselho Consultivo – Paulo Ferreira Secretário – João Ernesto Figueiredo
Presidente do IE foi homenageado pelo Exército Brasileiro

O presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, foi homenageado, em julho, durante a solenidade comemorativa dos 79 anos do CMSE (Comando Militar do Sudeste). A cerimônia aconteceu no Quartel-General do CMSE.
Na ocasião, o Ten R/2 Jardim recebeu um diploma de reconhecimento pelos serviços prestados ao Exército Brasileiro como combatente de artilharia.
A homenagem é concedida para os militares que possuem elevado conceito na classe e na comunidade a que pertencem, e tenham realizado ação destacada, ou algum serviço relevante, em prol dos interesses e do bom nome do Exército Brasileiro.
A homenagem teve a presença de familiares de Jardim, que foram prestigiá-lo.

Viabilização de tecnologia para motores lineares é discutida no IE

O presidente do Instituto de Engenharia, José Eduardo Jardim, acompanhado de sua diretoria e conselhos, recebeu na sede da entidade, em julho, Dario Rais Lopes, ex-secretário nacional de aviação civil do Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil e ex-secretário nacional de Transporte e Mobilidade Urbana, e Cyro Antonio Laurenza Filho, representante do iDESTRA (Instituto para o Desenvolvimento dos Sistemas de Transportes).
O encontro teve como objetivo discutir a viabilização do uso de motores lineares em novos traçados ferroviários. Atualmente, essa tecnologia ainda não é aplicada no Brasil, mas o iDESTRA dispõe do conhecimento técnico e de profissionais qualificados para sua implementação. Um dos pontos centrais da reunião foi a proposta de que o Instituto de Engenharia seja o articulador entre o iDESTRA e os governos federal e estadual para a introdução dessa inovação no país.
O presidente do Instituto de Engenharia participou, em junho, da “1ª Reunião Anual do Fórum da Engenharia Nacional – Engenharia para o desenvolvimento e a soberania”, no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro.
Com destaque para “a importância da engenharia”, na ocasião, Jardim ressaltou que a engenharia é fundamental para o país. “Há poucos meses, assinamos um convênio com a Associação Paulista de Medicina e, se olharmos a medicina moderna, ela tem 80% de engenharia.”
Jardim também destacou a qualidade da engenharia militar, e lembrou sobre o DTCA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial). “Tivemos a oportunidade de visitar o DTCA, em São José dos Campos (SP), e hoje a engenharia militar é de primeiríssima ordem, não devendo nada para a engenharia internacional. Acho que o fórum deveria convidar os militares para participar desse esforço de levantar e homenagear a engenharia nacional.”
Para encerrar, ele lembrou de grandes obras brasileiras e deu como exemplo o desafio que São Paulo terá com a construção do túnel Santos-Guarujá. “Será um grande desafio para as engenharias paulista e nacional, pois é a primeira vez que será construído um túnel submerso.”

Confira a agenda de eventos do IE


O secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, foi recebido, em maio, pela diretoria executiva e pelo conselho do IE. Durante o encontro, foram abordados temas como a falta de interesse dos jovens pela engenharia e o afastamento da engenharia da política.
Associado e conselheiro do Instituto de Engenharia e Eminente Engenheiro do Ano 2004, Agopyan enfatizou que a não escolha dos jovens pela carreira na engenharia é muito mais grave: “O nosso ensino básico não tem preparo nenhum. Ter um terço de analfabetos funcionais no país, eu diria que é assustador”.
Agopyan também mencionou a necessidade de conciliar a política com a visão da engenharia: “Quantos engenheiros temos no Congresso? Esse afastamento foi ruim para a
sociedade e diminuiu o efeito da engenharia”.
Sobre como o corpo técnico do Instituto de Engenharia pode ajudar nessa e em outras questões, Vahan explanou que, “o Instituto de Engenharia agrega as informações, discute e prepara orientações; orientações que os políticos podem utilizar a partir das políticas públicas; e que as empresas podem utilizar como orientação geral. Esse é o papel do Instituto. Não é tarefa dele (do Instituto) tentar montar um parque de inovação aqui dentro, mas tem a função de vislumbrar e, principalmente, projetar o futuro. O Instituto já vem fazendo esse papel bem feito, que vem atendendo aos anseios da sociedade, mas não pode perder essa visão. Como cidadão, satisfeito com o Instituto de Engenharia, e como profissional da área de gestão na política, eu acho que o Instituto é nosso referencial”.

Publicada desde 1942, a Revista Engenharia teve sua origem como uma publicação que divulgava estudos e reproduzia os debates técnicos travados nas reuniões regulares dos associados.
A fidelidade a essa responsabilidade dura até hoje, pois mesmo nos momentos mais difíceis da Nação, o Instituto de Engenharia nunca interrompeu a publicação do periódico.
Além de especialistas da nossa Casa, contamos com estudos técnicos produzidos por diversos profissionais com o objetivo de levar o conhecimento para todos.

Engenho & Arte
#Vinho #Valor #Qualidade #Petrus #Romanée-Conti
#ChâteauMargaux #Bordeaux #Famoso

TEMPO DE LEITURA ESTIMADO: 4 MINUTOS
• Por Eng° Ivan Carlos Regina
Uma das perguntas mais recorrentes feitas é a clássica: “Qual é o melhor vinho do mundo?” Parece uma pergunta simples, mas não é. É como perguntar qual é a obra de engenharia mais importante da história, ou qual foi a ponte mais bem construída pela humanidade.
O interessante é que essa pergunta tem pouco valor prático, pois os vinhos que são considerados os melhores têm logicamente seus preços muito elevados, estando, portanto, inacessíveis à grande maioria das pessoas, exceto se você for um milionário excêntrico.
Tenho uma brincadeira que sempre faço com os amigos.
Quando me pedem
conselhos sobre a aquisição de um vinho, eu sempre pergunto explicitamente: “Qual preço você deseja pagar?”
Quando eles pedem conselhos sobre a aquisição de um vinho, eu sempre pergunto explicitamente: “Qual preço você deseja pagar?”
O vinho é um produto alimentício que não pode ser dissociado de seu preço, pois, como sabemos, este varia absurdamente.
E, quando ouço a resposta “qualquer preço”, indico sempre o Château Petrus. Espero. Algum tempo depois, a resposta vem sempre irada ou constrangida: “Olha, este vinho que você indicou custa, na safra deste ano, a bagatela de 10.000 dólares”. E eu sempre respondo: “Eu lhe perguntei a faixa de preço que você queria pagar, e você disse qualquer uma”.
O Château Petrus é sempre indicado como um dos melhores vinhos do mundo. Ele é produzido na pequena comuna de Pomerol, na margem direita do Rio Garonne, que corta a região de Bordeaux.
Ele é produzido desde o século 18, mas ganhou fama mais recentemente, em função das safras de 1945, 1947 e 1982. É produzido totalmente com a variedade Merlot, que não tem fama de ser uma uva que produza vinhos muito longevos, mas no caso do Château Petrus é uma exceção, pois sempre envelhece muito bem, durando várias décadas.
Em seu rótulo está a efígie de São Pedro –Petrus em latim – portando as duas chaves do paraíso, dando a entender que esse líquido simbolicamente o conduzirá até lá.
Em novembro de 2019, uma garrafa da safra 2000 “viajou” para a Estação Espacial Internacional, por iniciativa da startup europeia Space Cargo Unlimited, e retornou após 14 meses de envelhecimento em órbita. Em outubro de 2021, ele atingiu a marca do vinho mais caro do mundo, sendo arrematado por US$ 1 milhão em um leilão promovido pela Christie’s.
Outro vinho que sempre está entre os mais caros do mundo é o famoso Romanée-Conti, produzido na Côte de Nuits, em Vosne Romanée, um Grand Cru da Borgonha francesa.
Sua produção é minúscula, com uma média de 6.000 garrafas em cada safra, em um terroir que tem menos de dois hectares de área plantada com a uva Pinot Noir, a cepa que domina a Borgonha vinícola.
A implantação do vinhedo remonta à Idade Média e faz parte das parcelas que foram plantadas pelos monges, durante a Idade das Trevas, para assegurar à Igreja Medieval o vinho sacramental.
É uma região onde todos os vinhos são muito caros, e seus vizinhos La Tâche, Le Richebourg, Romanée Saint Vivant, Echezeaux e Grand Echezeaux, todos vinhos tintos feitos com a uva Pinot Noir, e o Montrachet, vinho branco feito com a uva Chardonnay, também são muito disputados.
Esse vinho adquiriu muita fama também no século 20. Uma vez perguntaram a um jornalista o que achava do Romanée-Conti, e ele respondeu: “É o vinho mais caro do mundo; inclusive, em algumas safras é realmente o melhor”.
O Romanée-Conti também é muito requisitado por políticos, para comemorar eleições vencidas, ou por novos ricos e esbanjadores do mundo inteiro, que querem demonstrar o seu poder aquisitivo. Para comprar uma úni-




ca garrafa dele, é preciso adquirir uma caixa de outros vinhos, também muito caros, feitos pela mesma vinícola que o produz.
Até o momento estamos falando de vinhos correntes, ou seja, vinhos da última safra disponível. Não estamos falando de vinhos antigos, míticos, cujo valor, em função da raridade e da idade da safra, pode alcançar milhares de dólares em leilões especializados.
A safra de 1945 em Bordeaux está nessa categoria. Reza a história (ou a lenda, pois, no mundo dos vinhos, elas sempre se misturam), que os homens estavam em sua grande maioria, combatendo na Segunda Guerra Mundial, e foram as mulheres que colheram as uvas e vinificaram o vinho. O Château Margaux desta safra é um dos vinhos mais icônicos do mundo, existindo agora poucas garrafas disponíveis, e seu preço é astronômico.
Esses vinhos são também, logicamente, muito falsificados.
Recomendo o documentário "Sour Grapes", em que é narrada a história de Rudy Kurniawan, um indonésio, personagem carismático e apaixonado por vinhos raros e caros. No entanto, à medida que a trama se desenrola, você descobre que, na verdade, Rudy Kurniawan está no centro de uma das mais elaboradas fraudes da história do vinho.
O documentário, dirigido por Jerry Rothwell e Reuben Atlas, mergulha fundo na investigação que levou à descoberta das atividades fraudulentas de Kurniawan, até sua condenação em 2014, e como ele operava em um mundo de falsificação de rótulos e garrafas.
Ele pesquisava os rótulos, o material da rolha de cortiça, o vidro, ou seja, era um perfeccionista. Sua falsificação de um Château Margaux 1945 (apenas um exemplo) era preenchida com um Château Margaux 1982, ou seja, até os especialistas tinham dificuldade de identificar as fraudes, pois os vinhos eram semelhantes. Não é, como os leigos pensam, que o vinho falsificado era uma zurrapa qualquer.
Outra coisa a ser considerada são as famosas “listas” dos melhores vinhos do mundo, preparadas por revistas especializadas ou por jornalistas famosos.
Tente colocar na internet algo como “os cem livros mais importantes da história da humanidade” ou “as melhores músicas clássicas de

todos os tempos” e você verá que elas nunca coincidem.
No caso do vinho, pior ainda, pois essas indicações nem sempre são isentas de interesses comerciais, ou seja, há um claro viés comercial nas escolhas propostas.
Os grandes vinhos do mundo, sempre citados entre os melhores, não precisam participar de concursos, pois sua demanda é constante e alta, sempre superando a sua produção.
Outra coisa, normalmente, esses vinhos não valem o que custam, pois estão embutidos em seus preços o fator fama e moda.
Normalmente, esses vinhos não valem o que custam, pois estão embutidos em seus preços o fator fama e moda
Você consegue encontrar outros vinhos mais acessíveis, com o mesmo – ou quase o mesmo – patamar de qualidade, desde que estude e procure com afinco.
O que interessa nos vinhos não é a ostentação, mas o prazer que nos dão ao saboreá-los. Saúde!
*Ivan Carlos Regina é engenheiro do setor de transporte público, associado do Instituto de Engenharia e autor dos livros "Vinho, o Melhor Amigo do Homem" e "Harmonizando Vinho & Comida". E-mail: ivanregina@terra.com.br.



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