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anuario2014

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ANU— —ÁRIO DO. INSTI— TUTO. DOS. AR—QUITE— TOS — DA PA—RAÍBA. 2014— 1—

anuário IAB.pb


anuário IAB.pb

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Sumá—rio Diretoria

Terminal de Integração de Mangabeira

David Barragán

6

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38

Entre a fotogenia e a necessidade de compromissos

Apresentação

34

Luís Saia

26 20 O IAB e a política habitacional brasileira

78 anuário IAB.pb

Timelapse IAB.pb

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46 Desenhando a Quadra Urbana

Santuário Nossa Senhora de Fátima

Centro Médico Empresarial

42

52

Brechó + Casa Fabio Rodrigues

60

56 66 5—

Urbanidades e discurso fotográfico

Ministério Público da Paraíba

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Dire— toria IAB.pb CONSELHO DIRETOR

CONSELHO FISCAL

FABIANO DE MELO DUARTE ROCHA

ANTONIO GONÇALVES DE FARIAS JUNIOR

PRESIDENTE

AÍDA PAULA PONTES DE AQUINO VICE-PRESIDENTA

EUDES RAONY SILVA TADEU DE BRITO MELO

PEDRO FREIRE DE OLIVEIRA ROSSI SECRETÁRIO GERAL

PAULA AUGUSTA ISMAEL DA COSTA

CONSELHO SUPERIOR

YURI DUARTE LOPES

LUCIANA ANDRADE DOS PASSOS

1ª SECRETÁRIA 2ª SECRETÁRIO

NATÁLIA AURÉLIO SÁ

MARCO ANTÔNIO FARIAS COUTINHO

1ª TESOUREIRA

MARCUS VINICIUS DANTAS DE QUEIROZ

CAMILA LEAL

MÉRCIA PARENTE ROCHA

2ª TESOUREIRA

PASCAL MACHADO RUI VANDERLEI ROCHA JUNIOR

anuário IAB.pb

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Apresen—tação É com grande satisfação que publicamos, em meio digital,

David Barragán, Nivaldo Andrade e Francisco Sales, juntamente

o Anuário IAB.pb 2014. As próximas páginas reúnem parte do

com o arquiteto colombiano Federico Mesa (Plan:B Arquitectos),

conjunto das ações que foram desenvolvidas no primeiro ano da

Haroldo Pinheiro (CAU/BR), Carlos Martins (IAU/USP) e Pedro

nossa gestão, em especial as atividades do projeto cultural

Nitsche (Nitsche Arquitetos) foram os palestrantes convidados

Conversas de Quinta. Ao longo do segundo semestre do ano, ge-

do Conversas de Quinta.

ralmente às quintas-feiras, um público de aproximadamente mil

A segunda parte apresenta uma pequena amostra da produ-

pessoas participou de palestras, debates, semanas de cinema,

ção recente da Paraíba, com trabalhos dos arquitetos Marco

lançamentos de livros e intercâmbios promovidos entre as ci-

Suassuna, Paulo César Lopes e Susana Montenegro e dos escri-

dades de João Pessoa, Campina Grande e Patos, entre a Paraíba,

tórios paraibanos 7S34W + A2 Arquitetos, Delima + Arquite-

o Brasil e a América Latina.

tura e Martins Lucena, bem como do binacional MAPA (Brasil/

Em meio a demandas, desafios e muitas dificuldades, umas das

Uruguai). Os projetos e obras foram selecionados por meio de

certezas que tínhamos era a necessidade de ampliar e forta-

edital público de palestras, a partir de comissão formada

lecer a discussão acerca do papel da Arquitetura e do Urba-

por profissionais majoritariamente externos e de reconhecidas

nismo para a sociedade, passando pela compreensão dos nossos

experiências: Fernando Atique (UNIFESP), Francisco Sales, Ge-

contextos. Diante de um novo cenário que se desenha a partir

orge Dantas (UFRN), Lucas Fehr (Mackenzie, Estúdio América),

dos grandes investimentos dos governos na infraestrutura dos

Mércia Parente (IAB.pb, MP Arquitetura e Urbanismo) e Nivaldo

municípios brasileiros, da expansão e interiorização das es-

Andrade. Abrindo o bloco, mais uma contribuição de Francisco

colas de Arquitetura pelo país, da criação do Conselho de

Sales, com um artigo que busca analisar e levantar questões

Arquitetura e Urbanismo e de cidadãos cada vez mais críticos

acerca dos trabalhos apresentados.

e que desejam participar das decisões de construção de suas

Na terceira parte, o ensaio Urbanidades revela o olhar de

cidades, o IAB.pb busca renovar o seu compromisso enquanto

fotógrafos profissionais e amadores sobre o tema na Paraíba.

entidade que almeja e trabalha rumo à conquista de espaços

As imagens foram selecionadas via edital, sob a curadoria do

melhores e socialmente mais justos.

fotógrafo Paulo Rossi. Ilustrando as últimas páginas, algumas

Assim, a primeira parte do Anuário traz a entrevista realizada por Heitor Andrade (CAUUFCG) e Alberto Burity (CAUUFCG)

com

o

arquiteto

equatoriano

David

fotografias do ano de 2014. Com a publicação em meio digital, esperamos alargar as

Barragán,

fronteiras do debate e contribuir com a reflexão crítica sobre

do escritório Al Borde. Na sequência, o artigo de Nivaldo

os caminhos da nossa profissão. E, mais uma vez, externamos os

Andrade (IAB/DN, UFBA, A&P) discute a relação entre o IAB

nossos agradecimentos a todos os patrocinadores e apoiadores

e as políticas públicas de habitação de interesse social

das ações do IAB.pb.

no Brasil. Finalizando esse bloco, temos o texto de Carlos Andrade (IAU/USP) e Francisco Sales (IAU/USP) sobre a obra do arquiteto paulista Luís Saia, sintetizando a exposição que ficou em cartaz no IAB.pb entre os meses de agosto e outubro.

Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Paraíba

O conteúdo dos trabalhos aqui apresentados é de total responsabilidade do(s) autor(es), e não reflete, necessariamente, a opinião da Comissão Organizadora do Conversas de Quinta ou do Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Paraíba.

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DAVID BAR—RAGÁN

(Al Bo POR

Heitor Andrade e Alberto Burity

Al Borde Arquitectos.

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FOTO: AL BORDE

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orde) TEMA 1 Origens, princípios e influências do Al Borde Em 2007, eu e Pascual Gangotena, desenvolvemos um projeto

diferentes, percebemos que poderíamos dialogar e gerar boas re-

juntos. Não havia intenção de constituir um escritório. Somos

flexões. Isso foi muito interessante no processo de formação da

de uma geração que viveu um momento de crise bastante complexo.

equipe. Como não tínhamos mais trabalho, tampouco muitas opções

No ano 2000, o Equador viveu a maior crise econômica que se tem

e interesse de trabalhar em um escritório para desenhar prédios

notícias. Perdemos a nossa moeda local (o Sucre) e passamos a

para vender em imobiliárias, seguimos desenvolvendo duas ou três

usar o dólar. Na universidade os jovens não tinham futuro, nem

casas, que não chegaram a ser construídas – por diferentes mo-

esperança. Surgiram alguns processos migratórios no país – na

tivos, entre eles os clientes desistiram dos projetos. Enquanto

ocasião, de uma população de aproximadamente 12 milhões de ha-

isso, continuamos na docência. Nós dois éramos professores na PUC

bitantes, dois ou três milhões estavam fora. De 1996 a 2007, ou

de Quito, quando fomos convidados por um professor para trabalhar

seja, em onze anos, tivemos catorze presidentes. A instabilidade

em um projeto de uma escola – que logo se chamaria Escuela Nueva

econômica, política e social tornava tudo muito difícil. Nesse

Esperanza. O projeto é construído. Percebemos uma compatibili-

contexto, em que não existiam referências locais, onde a produ-

dade muito forte e não nos interessava mais trabalhar sozinhos,

ção era escassa e onde a única opção era migrar, nos juntamos e

mas seguir em conjunto. Entramos em uma dinâmica de viajar muito

trabalhamos sem maiores expectativas e sem pensar se poderíamos

e fazer coisas fora do país – como, dirigir workshops interna-

chegar a ser um escritório. Fizemos o primeiro projeto (chamado

cionais. Então, vivemos um conflito, pois não tínhamos trabalho

Casa Entremuros). Antes Pascual Gangotena trabalhava dirigindo

no país e ficava muito difícil só viajar e manter um escritório.

uma fundação de habitações e eu em parceria com José MaríaSáez,

Tínhamos algumas opções. Fechar o escritório? Se manter de aulas

um arquiteto, mestre e grande amigo. Concluímos o projeto dessa

e viagens? Decidimos formar uma parceria com outros dois arqui-

casa e cada um seguiu o seu caminho. Eu tinha interesse de sair

tetos, Esteban Benavides e Marialuisa Borja, e passamos a ser

do país e de estudar fora, mas decidimos continuar trabalhando

um grupo de quatro profissionais. Essa nova formação nos motivou

juntos. Nós éramos muito amigos, desde que começamos os estudos

muito, pois víamos o quanto poderíamos crescer juntos, não como

universitários, e, embora as nossas personalidades fossem muito

um escritório, mas como parceiros. Isso nos interessava muito.

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Influências e referências Surgem muitas influências no caminho. A academia formal não nos deu as ferramentas que necessitávamos para enfrentar a nossa realidade. Tivemos que desaprender para encontrar respostas em outras áreas e produzir projetos como o da Escuela Nueva Esperanza, que de forma alguma as respostas vieram da academia. Quando a academia ensina a fazer projetos, não ensina a aplicar recursos, nem a construir participativamente. De outro modo, ensina um modelo elitista de projetar. Então o nosso processo de desaprendizagem fez com que nos afastássemos de todas as influências arquitetônicas per si. Rejeitamos o que nos diziam que era arquitetura. Rechaçamos a forma tradicional de entender a arquitetura. Deixamos de nos interessar por essa aprendizagem formal, essa arquitetura formal, porque nesse contexto não encontramos uma maneira de diálogo. Buscamos influências com profissionais de outras áreas, com quem começamos a trabalhar – antropólogos, engenheiros. Inclusive, toda a nossa equipe,

Casa em construção.

FOTO: CYRIL NOTTELET

todos que trabalham conosco, são underground, do lado obscuro das profissões. Nosso engenheiro estrutural é o único que calcula estrutura em terra na Colômbia. Nossa antropóloga é uma das poucas, no país, que trabalha diretamente com processos participativos. Desse modo, entre as nossas referências latino-americanas, destacamos o nosso mestre José MaríaSáez.

Formação humanista

Existem outros como Solano Benítez. Entendemos que essa lógica de trabalho com recursos es-

A nossa formação está diretamente relacionada com os nossos modos de vida,

cassos e que estão a mão começa a ter uma visi-

com os tipos de família de classe média de que fazemos parte. Sempre estivemos

bilidade global nos anos 2000. O interessante

envolvidos em um contexto de necessidades. Nunca tivemos projetos sem res-

dessa nova geração de arquitetos latino-ameri-

trições. Então, nós, basicamente, desenvolvemos um trabalho baseado no senso

canos – do Paraguai, do Brasil, da Argentina,

comum. Não é romantismo o uso de técnicas locais, provenientes da arquitetura

do Uruguai, do Chile – é que se começa a olhar

vernácula. Não tem nada a ver com isso. É simplesmente uma questão de resolver

para dentro, diferente do que aprendemos na

um problema, com condições muito claras. As técnicas locais nos ajudam a re-

escola, que explorava referências europeias,

solver esses problemas de maneira mais simples. Nos interessa construir com as

asiáticas e norte-americanas.

pessoas a partir dos seus processos.

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Escuela Nueva Esperanza.

FOTO: FRANCISCO SUÁREZ

Arquitetura conceitual

Éramos críticos para não utilizar sistemas construtivos locais com uma lógica antiga em um contexto contemporâneo. Entendemos que existe um modelo construtivo que é uma ferramenta para tra-

Nós entendemos a conceituação como um processo para poder

balharmos e temos que trazê-lo ao tempo que estamos.

organizar a nossa cabeça e as nossas ideias. Ela serve para entendermos as condições e variáveis do projeto e de uma ou outra maneira perceber qual é o verdadeiro problema a resolver. Sempre nos incomodou a ideia de que não é possível fazer

Inspiração

arquitetura contemporânea com materiais locais e, com base, em construções vernaculares. Mas, essa não foi uma aposta ini-

Não há um processo de inspiração ou criativo. Nós tra-

cial e consciente. Fomos nos dando conta disso com o tempo, a

balhamos com as necessidades e buscamos respostas fora de

partir das necessidades que nos deparamos em nossos projetos.

metodologias arquitetônicas. Trata-se de matemática. Algo

Temos materiais e soluções locais, temos que fazer arquitetura,

frio e calculado. Temos um problema para resolver, levanta-

temos que resolver problemas. É como um raciocínio matemáti-

mos as condições e identificamos os resultados. É pura lógi-

co. Com o tempo, percebemos que, em comunidades, esse modo de

ca. Não inserimos nossas buscas e problemas pessoais. Isso

trabalho gera significados, importância, vínculos, processos de

é uma coisa muito clara para nós. O que está inserto são as

permanência, orgulhos locais e eleva a autoestima das pessoas.

buscas sociais.

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Casa entre muros.

FOTO: RAED GINDEYA

TEMA 2 Sobre a arquitetura produzida no Equador, no Brasil, na América Latina e no mundo. Na realidade, é um pouco complexo tratar desse tema. Esse é o tipo de assunto que, praticamente, não nos interessa. Nós fazemos coisas e respondemos a um contexto e a um entorno imediato. A uma necessidade primordial. Não intelectualizamos sobre o nosso trabalho. Para nós, menos interessa se temos referências latino-americanas ou se nos inserimos em uma discussão contemporânea; simplesmente, estamos metidos em um contexto continental, que apresenta muitas similaridades. Todos temos as mesmas desproporções, as mesmas desigualdades, tradições construtivas etc. Creio que estamos fazendo coisas e a América Latina tem sido o centro das atenções. Então, o nosso trabalho atrai atenções. Isso é diferente do que acontecia há dez anos, quando a produção arquitetônica da América Latina não despertava tanto interesse, no âmbito global, como agora, porque os olhares estavam voltados para a Europa, em que se produzia uma arquitetura cara. Os contextos locais da América Latina não interessavam. Agora, esses contextos locais são temas de parte dessa discussão contemporânea. Desse modo, o nosso interesse sempre foi resolver os problemas locais. Conhecemos muito gente na América Latina que trabalha dentro dessa lógica de escassez e de ética desde o lugar em que se está, fazendo uso de recursos locais e considerando as pessoas.

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TEMA 3 Sobre a prática profissional do arquiteto na contemporaneidade. Nós acreditamos que existe um contexto, um momento e fazemos as coisas nesse momento. Tudo o que consideramos válido, hoje, cremos que, amanhã, talvez não seja perLadrillos, bloques y otros elementos abandonados y parches.

tinente. Nós não somos dogmáticos, nós não FOTO: KARINA BARRAGÁN

cremos em um dogma, uma filosofia ou pensamento inabalável. Nós fomos sempre adogmáticos. Certa vez, em uma conferência, falávamos que não existe uma lei. Quando fizemos a Casa Entremuros fomos muito influenciados por uma geração de latino-americanos, mais velhos que a gente, que trabalhavam muito o tema da materialidade, da expressão, da estrutura e toda essa lógica. Isso era o que buscávamos no início, que a casa de terra fosse de terra, que os materiais fossem expostos, que os materiais falassem por si só, que a estrutura fosse muito clara e aparente. No entanto, isso tudo é algo que já não está dentro de nosso interesse. O tema da materialidade pela materialidade já não faz parte do nosso discurso. São coisas inerentes ao projeto. Se são pertinentes ao projeto, bom; do contrário, a vida segue. Preferimos seguir sem dogmas, contradizendo-nos através dos nossos projetos, porque assim cremos que estamos desafiando a nós mesmos. É bom quando um projeto vai empurrando nossos limites, vai empurrando os limites dos clientes e vai empurrando os próprios limites dos projetos. O importante é que criemos condições para que os nossos próprios parâmetros tendam a se modificar.

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TEMA 4 Sobre o ensino de arquitetura e a formação de arquitetos no Equador e na América Latina. Antes, numa perspectiva baseada em uma só realidade, se

mas são absorvidas por alguns poucos escritórios; e outro

dizia que apenas no Equador a formação do arquiteto era des-

sistema de construção habitacional, que também é perverso,

vinculada da sociedade, atribuindo-se isso aos fatos de ser-

os edifícios multifamiliares, que são absorvidos por meia

mos do Terceiro Mundo e sermos canônicos. Depois nos demos

dúzia de agentes imobiliários. Nesse contexto, todos os ar-

conta que o mesmo ocorre em toda a região Andina, em todo

quitetos que se guardam para essas demandas, vão terminar

o Mercosul, em toda a América Latina, em toda América, em

frustrados. É muito difícil se inserir nessas redes. Desse

toda Europa, enfim, que isso acontece em toda parte. As es-

modo, vemos que o ensino não está atacando um outro tipo

truturas acadêmicas são muito rígidas e não estão de acordo

de problema. Não digo trabalhar apenas em áreas sociais e

com o que se passa no mundo. Há muito tempo nos demos conta

marginais, onde há muito trabalho, mas começar a entender a

que, a formação dos arquitetos é extremamente parecida na

academia a partir de um outro ponto de vista. Esse enfoque

maioria das escolas do mundo e na maioria do país. O aporte

de projeto tem sido ensinado há cem anos. Não faz sentido. O

e a conexão com a sociedade são escassos porque sempre estão

mesmo sucede com o ensino de urbanismo, se ensina um plane-

preocupados com outras coisas que não a realidade imediata,

jamento e um projeto urbano que estão sendo feitos em outras

tampouco o que está se passando no mundo (das maiorias). Ao

latitudes. Em lugares que não apresentam os mesmos problemas

contrário, as preocupações se voltam para um mundo de pou-

que encontramos aqui. Isso não faz sentido. Em toda a Améri-

cos, uma elite que está completamente desvinculada de tudo

ca Latina o único lugar que começa a buscar outros modos de

o que está sucedendo. Nos preocupa muito essa desvinculação

trabalhar o urbanismo é Medelín, tratando de entender, desde

porque cremos que estamos formando, que as academias mais

outras áreas, como se faz o urbanismo para conseguir uma

formam, arquitetos frustrados, que esperam graduar-se e fa-

mudança e não estruturas que demoram muito tempo para serem

zer um centro cultural, um estádio, um museu, uma cidade

implantadas e nunca são executadas, porque o tempo passou.

para os jogos pan-americanos, uma cidade olímpica, quando

No âmbito acadêmico, na América Latina, a única escola que

esses projetos nunca vão chegar. Não importa que o Brasil

decidiu pensar, a sua sociedade, o seu entorno, é a Escuela

tenha sediado a Copa do Mundo. A maioria dos estádios não

de Talca [Universidad de Talca, Chile]. Não existe outra es-

foram desenhados por brasileiros. Não importa que o Rio seja

cola. Contudo, algumas escolas de arquitetura latino-ameri-

a cidade olímpica, porque os projetos são concebidos por

canas estão com medo de ficar fora de mão, porque reproduzem

empresas estrangeiras. Não importa que esse tipo de projeto

cânones ditados na Europa e Estados Unidos que não respondem

possam ser desenvolvidos nos escritórios de arquitetura na-

mais as demandas locais. Assim, se começa a romper esses câ-

cionais. O fato é que eles nunca chegam. Por exemplo, para o

nones e se buscar novas experiências e práticas educativas.

Rio 2016, quantos arquitetos brasileiros estão envolvidos?

Desse modo, começam a surgir outras escolas experimentando

Quem está fazendo esta arquitetura? A quem estão entregando

modelos educativos, oficinas (ateliês). Nós temos encontrado

estes projetos? Se nos referirmos a habitação o problema

muita gente fazendo com que os alunos entendam outras áreas

é ainda pior, porque toda energia se volta para um modelo

de desenvolvimento da profissão, mas ainda é uma minoria, são

elitista, que, basicamente, pode ser classificado em dois

casos isolados. São pessoas que estão buscando encontrar

tipos: casas de praia para ricos e novos ricos, inundando

outras maneiras de trabalhar, mas não em um nível de massa,

toda costa, que podem ser muito bonitas, muito fotogênicas,

o medo da mudança é sempre mais forte.

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Taller Invernadero.

FOTO: AL BORDE

Competências e habilidades Uma das falhas da maio-

discussões no meio acadêmi-

ajudado

nos

os nossos modelos de ges-

ria das escolas, que temos

co, não se estaria ensinando

permitimos entender o projeto

tão, trabalhando com gesto-

nos dado conta, é que se tem

apenas a produzir imagens e

a partir de outras perspec-

res sociais – antropólogos,

formado desenhistas de alto

a cortar maquetes em plote-

tivas. Já não é só um desenho

sociólogos – e buscar outras

nível, capazes de operar o

res. Temos visto que o grande

(produção de imagens), mas

maneiras de fazer as coisas

AutoCad o Revit ou qualquer

aprendizado que temos tirado

um desenho em que cada linha

tem sido muito importante.

outro programa, de renderi-

da prática é o de aprender a

representa uma ideia. O de-

Finalmente, o problema não

zar, de produzir belas ima-

construir com as nossas pró-

senho materializa uma lógi-

é que não existe trabalho,

gens, mas muito poucos estão

prias mãos. Estarmos imer-

ca econômica. Assim, quando

mas que não entendemos como

pensando. Isso é o que mais

sos em processos com “mãos

concluímos já temos o projeto

nos inserir a essas novas

nos preocupa quando ensina-

a obra” e entender como isso

compreendido. Esse conheci-

fontes de trabalho ou como

mos

palestramos

funciona – os materiais, os

mento da realidade econômica

promovê-las,

pelo mundo a fora. A ausên-

sistemas construtivos – per-

também nos tem ajudado muito

variáveis. Creio que se deve

cia do desenvolvimento de um

mitir

pensamento,

sobre o desenvolvimento de

ensinar sobre construção e

pensamento crítico nos alunos

mudar os nossos paradigmas e

novos pressupostos. E, outra

sobre

é a grande falha da maioria

nosso entendimento sobre as

variável que nos tem valido

são ferramentas poderosas. O

das escolas de arquitetura.

coisas. Acreditamos que esse

muito é nos envolver em temas

desenho surge como um recur-

Se esse fosse o enfoque das

“pensar com as mãos” nos tem

de gestão. Para nós, criar

so complementar.

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ou

quando

mudar

o

muito,

porque

desde

gestão.

Essas,

outras

sim,

anuário IAB.pb


O IAB E A POLÍTICA HABITACIONAL BRASILEIRA POR

Nivaldo Vieira de Andrade Junior 1

O tema da habitação social sempre esteve na agenda do Instituto

uma nova política habitacional, articulada à questão urbana

de Arquitetos do Brasil (IAB). Este tema já aparece, por exemplo,

e vinculada com as generosas perspectivas de transformações

na pauta do I Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em São

mais estruturais da sociedade brasileira, conhecidas como

Paulo no final de janeiro de 1945, inserido na discussão sobre “a

“Reformas de Base”. Neste contexto, [...] os arquitetos

função social dos arquitetos nas cidades e no campo onde existem

[...] introduziram temas, abordagens e propostas novas,

problemas cujas soluções interessam ao bem estar das coletivida-

de tendência claramente progressista, que colocaram pela

des”. No V Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado em Recife

primeira vez em pauta a reforma urbana como um elemento

entre 28 de julho e 05 de agosto de 1957, o tema da habitação

indispensável para enfrentar a grave crise de moradia que

social volta a aparecer.

afetava as cidades brasileiras no início dos anos 1960. O

É, contudo, a partir da realização do Seminário de Habitação e

momento eloqüente deste processo foi a realização do Semi-

Reforma Urbana (s.HRu), promovido pelo IAB em parceria com o Ins-

nário de Habitação e Reforma Urbana (SHRU), [...] que gerou

tituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPA-

várias propostas para uma nova política habitacional e ur-

SE) em julho de 1963, que o tema da habitação assume um papel de

bana. [...] O documento final do Seminário [...] demonstra

destaque na agenda da entidade dos arquitetos.

que as principais questões que até hoje estão presentes nas

O Seminário de Habitação e Reforma Urbana foi realizado em duas etapas, que contaram com um total de quase 200 participantes . Como 2

análises do problema urbano e habitacional já estavam identificadas no período [...] (BONDUKI & KOURY, 2010)

observam Nabil Bonduki e Ana Paula Koury, De fato, uma análise do conteúdo do documento final do “SemiDurante o governo João Goulart, os arquitetos tomaram a

nário do Quitandinha” – como ficou mais conhecido o s.HRu DE 1963

frente do debate e deram uma contribuição relevante para

– feita hoje, mais de meio século depois da sua publicação, demons-

Arquiteto e urbanista, Mestre e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor da Faculdade de Arquitetura e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Foi Presidente do Departamento da Bahia do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-BA) e Vice-Presidente Extraordinário da Direção Nacional do IAB. 1

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Mesa de abertura do Seminário “A Produção Atual de Habitação de Interesse Social na Bahia”, promovido pelo IAB-BA e pelo Grupo de Pesquisa “Lugar Comum”, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nos dias 18 e 19 de maio de 2012, no auditório da Faculdade de Arquitetura da UFBA. Da esquerda para a direita: a arquiteta Eleonora Mascia (Superintendente de Habitação do Governo do Estado da Bahia), o arquiteto Nivaldo Andrade (Presidente do IAB-BA), a professora e arquiteta Angela Gordilho (Faculdade de Arquitetura da UFBA), o engenheiro Carlos Alberto Vieira Lima (Presidente do Sinduscon-BA), o arquiteto Anderson Andrade (Caixa Econômica Federal) e a pedagoga Marli Carrara (Coordenadora Nacional da União Nacional por Moradia Popular). FOTO: EDSON FERNANDES

tra a sua indiscutível atualidade. Em sua maioria, suas considera-

conjunto de medidas estatais, visando à justa utilização do

ções e afirmações poderiam ser integralmente aplicadas à realidade

solo urbano, à ordenação e ao equipamento das aglomerações

brasileira das cinco décadas seguintes e, em sua maioria, ainda

urbanas e ao fornecimento de habitação condigna a tôdas as

se aplicam à situação atual. Nas considerações iniciais, por exem-

famílias (IAB, 1963, p. 19).

plo, o documento destaca que “o significativo número de habitações construídas [nos centros urbanos] tem se destinado quase exclusi-

Segundo o documento final do Seminário do Quitandinha, o ob-

vamente às classes mais favorecidas” e lamenta que “mesmo a popu-

jetivo da política habitacional deve ser “corrigir deficiências

lação que vive em habitações do tipo permanente, em sua maioria,

quantitativas e qualificativas de moradias e equipamentos sociais,

se debate com problemas decorrentes [...] da não complementação do

integrados num planejamento global, nos níveis nacional, regional,

acêrvo de moradias com o equipamento de utilização comum, cada vez

estadual e municipal” e que “todo plano habitacional deve esta-

mais imprescindível em virtude da crescente complexidade urbana”.

belecer metas de atendimento, através de critérios objetivos de

(IAB, 1963, p. 19)

prioridade, o que supõe a fixação de diretrizes que levem em conta”,

As afirmações contidas no documento final do Seminário do Quitan-

dentre outros aspectos, “o estabelecimento de tipos e dimensões de

dinha mostram-se igualmente atuais. A primeira delas é, inclusive,

moradias adequadas à realidade regional, econômica e demográfica;

marco fundamental na defesa da reforma urbana:

as relações entre moradia, o trabalho e os serviços e equipamentos urbanos; o custo dos serviços e equipamentos urbanos”. O documento

[...] dentre os direitos fundamentais do homem e da família,

afirma ainda “que é imprescindível a adoção de medidas que cerceiem

se inclui o da habitação e [...] sua plena realização, exi-

a especulação imobiliária, sempre anti-social, disciplinando o

gindo limitações no direito de propriedade e uso do solo,

investimento privado nesse setor” (IAB, 1963, p. 20).

se consubstancia numa reforma urbana, considerada como o

Segundo Bonduki e Koury,

A primeira etapa ocorreu de 24 a 26 de julho de 1963, no auditório do Ministério da Educação e Cultura (atual Palácio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro, e no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, onde foi elaborado um documento final desta etapa fluminense. A segunda etapa ocorreu nos dias 29 a 31 do mesmo mês, na sede do Departamento de São Paulo do IAB, onde o documento elaborado no Quitandinha foi debatido e analisado, recebendo algumas contribuições e resultando no documento final intitulado “Documento final do seminário”, aprovado na sessão de encerramento do evento, realizada no auditório da Universidade Presbiteriana Mackenzie, com a presença de representante do Ministério do Trabalho e Previdência Social, do Presidente do IPASE, de deputados federais e de representante do Governador de Pernambuco. 2

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anuário IAB.pb


As propostas apresentadas pelo SHRU anteciparam em vários

O desafio da produção de habitação social em áreas centrais,

aspectos o que se propôs após o golpe de 1964, [...] sobre-

com boa infraestrutura, em função da valorização do solo urbano,

tudo nos aspectos que não entravam em choque com o caráter

é novamente objeto da preocupação do IAB:

conservador do regime. [...] No entanto, boa parte das propostas do Seminário não prosperou na época. (BONDUKI &

A incidência do custo do terreno no preço global da moradia

KOURY, 2010)

atinge, em certos casos, índices tão altos que anulam as tentativas de barateamento da construção em si. Êsse fato

Três anos depois do Seminário do Quitandinha, o tema da habi-

leva a implantação das moradias em locais afastados, situa-

tação volta a aparecer com destaque na agenda do IAB, durante o VI

dos na periferia das cidades, em terrenos não completamente

Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado pelo Departamento

urbanizados, determinando, além da elevação do custo da

da Bahia do IAB em Salvador em setembro de 1966. Contando com a

infraestrutura dêsses conjuntos, a segregação compulsória

participação de 250 arquitetos e 450 estudantes da área, o VI Con-

dos seus moradores. (BATISTA, 1966, p. 9)

gresso abordou, em um de seus sete Grupos de Trabalho, o tema “O Ambiente Residencial” (BATISTA, 1966).

Por fim, a necessidade de que a construção das unidades habi-

O cenário político brasileiro havia mudado bastante nestes

tacionais seja acompanhada de toda a infraestrutura e dos equipa-

três anos. Em primeiro lugar, em 1964 um golpe havia instalado

mentos sociais fundamentais é ressaltada pelo IAB, que chega mesmo

uma ditadura militar no Brasil, que duraria mais de vinte anos. Em

a defender, de forma pioneira, a autoconstrução com assistência

segundo lugar, a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) e

técnica:

do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (Serfhau) pelo Governo Federal, e a elaboração do Plano Nacional de Habitação, em 1964,

Nas situações em que nenhuma outra solução seja possível,

haviam imprimido novos rumos à política habitacional brasileira,

os recursos e meios disponíveis à construção de moradias

porém de modo bastante distanciado do que havia sido preconizado

devem ser mobilizados para garantir a infraestrutura indis-

no Seminário do Quitandinha em 1963.

pensável (abastecimento de água, esgotos, luz elétrica, e um

O Relato final do Grupo de Trabalho “O Ambiente Residencial” do

equipamento social básico – escola e pôsto de saúde, entre

VI Congresso Brasileiro de Arquitetos apresentava severas críticas

outros) [...]. Nestas situações, a mobilização de recursos

à política habitacional que vinha sendo colocada em prática pelo

deverá considerar e favorecer a autoconstrução, pondo a

Governo Federal nos dois anos anteriores:

disposição das populações a serem atendidas [...] materiais de construção e assistência técnica. (BATISTA, 1966, p. 9)

O govêrno brasileiro ao decidir-se a enfrentar o problema da moradia, criou o Plano Nacional de Habitação e esta

Como se sabe, as propostas apresentadas pelo IAB em 1966 tam-

medida foi aplaudida pelos arquitetos que vinham, há longo

pouco foram incorporadas e o BNH continuou produzindo habitação de

tempo, batendo-se – através de seu órgão representativo,

interesse social nos mesmos moldes pelas décadas seguintes, salvo

o IAB – pelo estabelecimento de medidas que visassem o

raras exceções.

equacionamento do problema residencial. No entanto, essa

Com o processo de redemocratização, nos anos 1980, após quase

política cingiu-se, desde o início de sua implantação até

duas décadas de repressão militar, a discussão sobre a reforma

agora, à montagem de um sistema financeiro que servisse

urbana, fomentada pelo IAB em 1963, pôde enfim voltar à pauta, com o

de suporte à construção maciça de unidades residenciais,

Movimento Nacional pela Reforma Urbana. Este movimento, que envol-

relegando os demais aspectos envolvidos pelo problema ao

veria diversas entidades, organizações políticas e grupos sociais,

esquecimento ou a um plano de importância secundária.

teria como resultados, dentre outros, o Capítulo da Política Ur-

(BATISTA, 1966, p. 9)

bana da Constituição Federal de 1988 (artigos 182 e 183), além da defesa da “função social da propriedade”, que aparece listada

No mesmo documento, o IAB apresentava aquelas que, a seu ver,

entre as garantias fundamentais dos brasileiros e estrangeiros

eram as principais “medidas que impõem à preparação de condições

residentes no país no artigo 5º da nossa Carta Magna. Posterior-

para criação de um ambiente residencial e de um habitat adequados

mente, o Movimento Nacional pela Reforma Urbana resultaria, em

à vida humana”. Dentre elas, destacamos, pela sua atualidade, a

2001, no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257), que regulamentaria os

defesa da diversidade social, ao afirmar que

artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988, estabelecendo as diretrizes gerais da política urbana brasileira, e, em 2003, na

Na execução de programas habitacionais deve ser evitado o

criação do Ministério das Cidades.

princípio de agrupar os residentes por categorias profissio-

Em 2009, o Governo Federal lançou o Programa Minha Casa Minha

nais ou por níveis de renda, de maneira a impedir a cons-

Vida (MCMV), que, nas duas primeiras etapas, realizadas entre 2009

tituição de núcleos populacionais segregados, verdadeiros

e 2014, já entregou 1,7 milhão de unidades habitacionais e possui

guetos, cujo risco para o equilíbrio social da comunidade é

outro 1,7 milhão em construção, com um investimento total de R$

evidente. (BATISTA, 1966, p. 9)

234 bilhões. O programa possui uma escala inédita no país e está

anuário IAB.pb

— 22


O arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, apresenta seu projeto para o Programa Minha Casa Minha Vida, em palestra proferida durante o Seminário “A Produção Atual de Habitação de Interesse Social na Bahia”, no dia 19 de maio de 2012. FOTO: EDSON FERNANDES

A platéia presenta ao Seminário “A Produção Atual de Habitação de Interesse Social na Bahia”.

23 —

FOTO: NIVALDO ANDRADE

anuário IAB.pb


O então Presidentes Nacional do IAB, Gilson Paranhos, e outros representantes do IAB apresentam o documento “Propostas do IAB para a Política Habitacional Brasileira” aos assessores do Ministro Gilberto Carvalho, no Palácio do Planalto, no dia 25 de maio de 2012, durante a 139ª Reunião do Conselho Superior do IAB. FOTO: RAUL NOBRE MARTINS

realizando o sonho de milhões de famílias que, de outro modo, nunca

seminário realizado pelo IAB-BA que as famílias transferidas para

poderiam ter uma residência própria. Em breve, quando for atingida

lá encontram toda sorte de dificuldades: ausência de transporte

a meta de 3,4 milhões de unidades entregues, cerca de 7% da popula-

coletivo nas proximidades, dificultando o trajeto entre o trabalho

ção brasileira habitará um dos imóveis construídos pelo MCMV, que

e a residência; inexistência de estabelecimentos de saúde nas

terá, assim, construído, em apenas cinco anos, parte considerável

redondezas; e falta de vagas nas escolas públicas dos arredores,

do que serão as cidades brasileiras ao longo das próximas décadas.

quando estas existem.

Para avaliar o Programa MCMV, o IAB promoveu, em maio de 2012,

Muitas pessoas que moravam em ocupações nas áreas centrais e

um conjunto de seminários regionais intitulados “O Desenho da Casa

viviam de trabalhos informais dependentes dessa localização, como

Brasileira”. Após a realização de seminários em Salvador, Joinvil-

a venda de alimentos nos espaços públicos ou a reciclagem de pa-

le, São Paulo e Recife, com a participação de centenas de pessoas

pel, perdem sua única fonte de renda ao serem transferidas para

envolvidas no processo de produção habitacional pelo Programa –

locais distantes, onde essas atividades se tornam inviáveis. Ao

incluindo não só arquitetos projetistas e acadêmicos, mas também

mesmo tempo em que a renda dessas famílias decresce, aumentam seus

gestores públicos, beneficiários do Programa e representantes dos

gastos fixos mensais, pois passam a pagar o financiamento da casa

movimentos sociais e das construtoras responsáveis pela sua execu-

própria, além de energia elétrica, água encanada e transporte.

ção –, observou-se que os empreendimentos, invariavelmente, adotam

Enquanto isso, se constatou que existem milhares de metros qua-

soluções construtivas inadequadas e projetos arquitetônicos pa-

drados de imóveis sem utilização nas áreas centrais de Salvador e

dronizados, que não dão conta da diversidade cultural e ambiental

de outras cidades de maior porte. Evidentemente, a função social

brasileira, nem das diversas composições familiares existentes,

do solo urbano, preconizada pelo IAB desde 1963 e que passou a vi-

nem tampouco das constantes demandas por expansão da unidade habi-

gorar na legislação brasileira com a Constituição de 1988, não vem

tacional, em função da ampliação do número de membros da família

sendo cumprida. Uma pergunta que apareceu em todos os seminários

e do aumento seu poder aquisitivo. Além disso, os espaços de con-

foi: por que não adaptar esses vazios urbanos para abrigar essas

vívio existentes nos conjuntos executados pelo Programa MCMV são

famílias, que disporiam, assim, de condições de vida considera-

escassos e, muitas vezes, de péssima qualidade.

velmente melhores? O próprio custo para o Estado seria, a longo

Mais grave ainda é a questão da inserção no território: os

prazo, reduzido, uma vez que seriam minimizados os investimentos

empreendimentos do MCMV são quase sempre construídos em áreas

públicos que precisam ser feitos para dotar de infraestrutura as

remotas e com pouca ou nenhuma infraestrutura. Moradoras do Jar-

áreas remotas que vêm recebendo os empreendimentos do MCMV.

dim Cajazeiras e do Jardim das Margaridas – dois dos primeiros

Sintetizando as propostas do IAB para a qualificação do Programa

conjuntos do Programa a serem ocupados em Salvador – relataram no

MCMV, foi elaborado e aprovado, durante a 139ª Reunião do Conselho

anuário IAB.pb

— 24


Superior do IAB, realizada em Brasília de 23 a 25 de maio de 2012,

convivência como parte do empreendimento, conforto ambien-

o documento intitulado “Propostas do IAB para a Política Habi-

tal, dimensionamento e agenciamento espacial, diversidade

tacional Brasileira”, que foi formalmente entregue naquela mesma

tipológica e de usos e possibilidade de ampliação da unidade

ocasião no Palácio do Planalto à assessoria do Ministro-Chefe da

habitacional, dentre outros;

Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho,

que a política habitacional brasileira inclua programas

sendo endereçado à Presidenta Dilma Rousseff.

voltados à requalificação e adaptação de edificações deso-

É surpreendente observar as semelhanças entre este documento e aqueles que o precederam, quase cinquenta anos antes, não obstante

cupadas ou subutilizadas localizadas em áreas urbanas centrais. (IAB, 2012)

o desenvolvimento econômico testemunhado no Brasil neste período e, em particular, nas duas últimas décadas.

Como se vê, mesmo com todos os avanços econômicos, sociais,

O documento de 2012 defende, assim como o fizeram anteriormente

político-institucionais e tecnológicos conquistados no Brasil nos

os documentos de 1963 e de 1966, a diversidade de demandas habita-

últimos 50 anos, e mesmo contando hoje com um programa habitacio-

cionais, que devem ser atendidas em suas especificidades, e não a

nal que envolve recursos financeiros e números de unidades em uma

partir de projetos-padrão, como ocorre no Programa MCMV:

escala inédita, os problemas da produção habitacional de interesse social continuam sendo praticamente os mesmos, dentre os quais

O IAB entende [...] que há uma diversidade cultural, so-

podemos destacar:

cial, econômica, tecnológica, paisagística e climática no

a. a construção dos novos conjuntos em áreas periféricas e

território brasileiro, assim como múltiplas composições fa-

desprovidas de boa parte da infraestrutura necessária ao

miliares a serem atendidas pelo PMCMV, que inclui ainda a

adequado atendimento das demandas dos seus moradores;

habitação de interesse social nas zonas rurais, com suas

b. a homogeneização da produção habitacional de interesse

singularidades.

social, sem levar em consideração, por exemplo, os aspec-

[...] O IAB propõe [...] que a ação pública em habitação de

tos climáticos, as características culturais locais ou os

interesse social deve se dar de forma abrangente e diversi-

diferentes núcleos familiares que serão contemplados;

ficada, envolvendo formatos e possibilidades diferenciadas,

c. a preocupação com a produção em massa de unidades habi-

nos quais a pesquisa continuada, a inovação, a assistência

tacionais, desprovidas dos equipamentos sociais básicos e

técnica, o acompanhamento e o monitoramento de processos

dos espaços de sociabilidade.

tenham espaço garantido. (IAB, 2012).

Em julho de 2014, a Presidenta Dilma Rousseff anunciou a terceira etapa do MCMV, que deverá se iniciar em 2015 e tem como

Os problemas da construção de conjuntos residenciais em áreas

meta a construção de mais 3 milhões de unidades habitacionais.

periféricas, sem acesso a equipamentos sociais e desprovidos de

Esperamos que, nesta nova etapa, as contribuições dos arquitetos

áreas de convivência, com vem sendo promovido pelo Programa MCMV,

brasileiros, através do IAB, possam finalmente ser incorporadas,

associados à necessidade de superar o desafio da produção de habi-

qualificando a produção das casas e das cidades brasileiras.

tação social em áreas centrais já dotadas de infraestrutura, que já haviam sido destacados pelo IAB nos documentos dos anos 1960, são aspectos que reaparecem no documento de 2012: O IAB entende [...] que a política habitacional brasileira em vigor tem promovido a construção de empreendimentos sem

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

continuidade com a cidade existente e desprovidos de equipa-

BATISTA, Maurício Nogueira. VI Congresso Brasileiro de Arquitetos.

mentos comuns e espaços de convivência, comprometendo a so-

Arquitetura, Rio de Janeiro, n. 53, p. 05-12, nov 1966.

ciabilidade urbana e dificultando a vida dos seus moradores, que muitas vezes viviam, anteriormente, de trabalhos depen-

BONDUKI, Nabil; KOURY, Ana Paula. Das reformas de base ao BNH: as

dentes da dinâmica urbana inerente à cidade consolidada;

propostas do Seminário de Habitação e Reforma Urbana. Arquitextos,

Que, no caso dos empreendimentos implantados em áreas peri-

São Paulo, ano 10, n. 120.02, Vitruvius, maio 2010. <http://www.

féricas desprovidas de infraestrutura, caberá ao poder pú-

vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.120/3432>.

blico financiá-la, bem como prover os equipamentos públicos básicos, o que implica vultosos investimentos;

IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil. S.HRu – sem. de habitação

[...] O IAB propõe [...] que devem ser criados indicadores

e reforma urbana. Arquitetura, Rio de Janeiro, n. 15, p. 17-24,

de projeto que qualifiquem a produção habitacional de inte-

set 1963.

resse social no Brasil, através da avaliação de aspectos

25 —

como proximidade de equipamentos urbanos (escolas, saúde,

IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil. Propostas do IAB para a

lazer e comércio), acessibilidade e mobilidade, adequação

Política Habitacional Brasileira. Brasília, 25 de maio de 2012.

à topografia, oferta de equipamentos comuns e espaços de

<http://www.iabsp.org.br/minha_casa_minha_vida.pdf>.

anuário IAB.pb


LUÍS SAIA

memória e política, a exposição 1

Carlos Roberto Monteiro de Andrade e Francisco Sales Trajano Filho POR

“O artista deve viver a hora que passa e não a hora eterna. O artista não pode fazer concessões de espécie nenhuma, e muito menos concessões às formas mortas de vida.” LUÍS SAIA, 1944

anuário IAB.pb

Versão revisada de texto originalmente redigido para a apresentação do catálogo “luís saia: memória e política”, publicado pelo iphan em 2014. 1

— 26


A

exposição

“Luís

Saia:

exposição

Trindade (IPHAN/SP).

em 2006 pelo Serviço Social do

painéis

reimpressos

Comércio de São Paulo (SESC/

Em março de 2012 a expo-

cebida visando traçar um qua-

sição “Luís Saia: memória e

e em novo formato, na sede

SP), em conjunto com o Centro

dro panorâmico da trajetória

política”

do IPHAN em Brasília.

Cultural São Paulo, da Secre-

do engenheiro-arquiteto pau-

to ao Centro Cultural da USP

A concepção original da ex-

taria Municipal de Cultura da

lista Luís Saia, nascido na

em São Carlos, tendo depois

posição previa também a pro-

Prefeitura da Cidade de São

cidade de São Carlos, em 16

sido exposta junto ao Cen-

jeção periódica do documentá-

Paulo, em uma caixa com seis

de outubro de 1911, e falecido

tro de Preservação Cultural

rio

CDs e um livro.

na cidade de São Paulo em 15

da USP (abril/maio de 2012),

de uma cidade nova”, dirigido

Na versão da exposição que

de maio de 1975. O pretexto

localizado no Bexiga, na ci-

por Joaquim Pedro de Andrade

foi montada junto ao CPC/USP,

para

sua

montada

jun-

os

apresentada,

memória e política” foi con-

foi

com

foi

“Brasília:

contradições

montagem

incluímos, além dos

foi o centenário do

painéis, uma vitri-

nascimento de Saia,

ne

comemorado em outu-

originais,

bro de 2011, mas so-

cadernetas,

bretudo a importân-

e desenhos de Saia,

cia de sua atuação e

pertencentes

de suas concepções

acervo da Superin-

e

rela-

tendência do IPHAN

tivas à conservação

em São Paulo que,

do patrimônio.

junto com o IAU/USP

propostas

Articulada

com

documentos livros, fotos ao

as-

e a Fundação Pró-

sim às homenagens a

Memória da Prefei-

ele prestadas pelo

tura

Instituto

Pa-

São Carlos, viabi-

Histórico

lizaram com apoios

do

trimônio

Municipal

e Artístico Nacio-

diversos

nal (IPHAN) ao de-

zação da exposição

clarar de “Ano Luís

“Luís Saia: memória

Saia” o período de

Luís Saia em foto de Augusto Ramasco Pessoa.

FOTO: ACERVO PESSOAL

e

a

de

política”,

reali-

pelo

outubro de 2011 a

que

outubro

também em especial

de

2012,

agradecemos,e

organizada

dade de São Paulo, seguindo

e que teve Luís Saia e Jean-

à Sra. Gláucia Saia, sobri-

a partir do urbis: grupo de

no mês de setembro para o edi-

Claude Bernadet como co-ro-

nha-neta de Luís Saia, que

pesquisa em história da ci-

fício da FAU/USP, na Cidade

teiristas, e que havia tido

forneceu e permitiu o uso de

dade, arquitetura e paisagem,

Universitária,

ocupou

raríssimas projeções públicas

fotos da família Saia nos anos

sendo

concebida

transversalmente o Salão Ca-

desde quando foi realizado, em

1920 em São Carlos.

Carlos

Roberto

de

ramelo. De 19 de fevereiro a

1967. Também se pretendia que

Fruto do trabalho de um

Andrade (IAU-USP) e coordena-

16 de março deste ano a ex-

a exposição tivesse como fun-

coletivo de pesquisadores, a

da por este juntamente com o

posição foi montada junto ao

do musical as diversas músicas

exposição “Luís Saia – memó-

prof. Francisco Sales Trajano

Centro Histórico da Universi-

registradas por Saia e equipe

ria e política” só foi possí-

Filho (IAU-USP), prof. Pau-

dade Presbiteriana Mackenzie,

por ocasião da Missão de Pes-

vel ser elaborada a partir do

lo Roberto Masseran (Unesp/

também em São Paulo. Por fim,

quisas Folclóricas, em 1938.

material de acervos diversos,

Bauru)

nos meses de maio a agosto a

Essas músicas foram editadas

além daqueles já mencionados.

a

exposição

27 —

e

foi

pelo

prof.

Monteiro

Jaelson

Bitran

onde

anuário IAB.pb


Trata-se aqui de documentação da biblioteca do Instituto de

com interesse e atuação diversificados, do campo do restauro

Estudos Brasileiros da USP, onde encontramos cartas trocadas

ao urbanismo, passando pela história e teoria da arquitetura,

entre Saia e Mário de Andrade, mas também fotos de amigos co-

história urbana e projeto de arquitetura, ensino de planeja-

muns, desenhos e pinturas de Saia pertencentes ao acervo de

mento urbano e crítica de arquitetura, mas também escultura

Mário, além dos números da Revista “Panorama”, em cujo ter-

popular, desenho, cinema, associados a sua atuação política e

ceiro número encontramos o primeiro texto publicado por Saia,

junto à categoria profissional dos arquitetos. Com âmbitos tão

“Origens da Casa Brasileira”.

diversos de intervenção, foi sobretudo na defesa do patrimô-

Também a consulta ao acervo da Missão de Pesquisas Fol-

nio cultural, durante mais de três décadas, por sua atuação

clóricas, depositado junto à biblioteca do Centro Cultural

junto ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

São Paulo, foi fundamental para aprofundarmos a participação

(SPHAN, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico

de Saia na colheita realizada, bem como a importância dessa

Nacional IPHAN), e à reflexão e prática em torno do patrimônio

viagem em sua formação. Junto ao “Arquivo Histórico Wanda

e do restauro de bens arquitetônicos, que o percurso de Saia

Svevo”, da Fundação Bienal de São Paulo, encontramos docu-

mais se associou.

mentação relativa à I Bienal, em especial sobre o projeto

Consequência direta da constante dedicação de mais de três

do edifício que a abrigou, de autoria de Saia e do arquiteto

décadas a este órgão e suas atribuições em São Paulo, numa

Eduardo Kneese de Mello.

trajetória que o levou de auxiliar de Mário de Andrade a chefe

A pesquisa de base à exposição se valeu de inúmeras dis-

do 4º Distrito SPHAN em São Paulo. Nessa condição, Saia manteve

sertações e teses que saíram a lume nos últimos dez anos e que

uma atitude decisiva na defesa da memória de nossas cidades,

revelam a ampliação dos estudos sobre Saia e sua obra teórica

preocupado com os registros dos modos de produzir e viver da

e prática, particularmente no campo da preservação e do res-

sociedade ao longo da história.

tauro, mas também sobre sua formação e convívio estreito com

Estabelecer um panorama das abrangentes e diversas ativida-

Mário de Andrade, desde sua participação no Curso de Etnografia

des desempenhadas por Luís Saia em tantas frentes de trabalho

e Folclore patrocinado pelo Departamento de Cultura e minis-

e estudo foi a razão maior que motivou essa empreitada. Se

trado por Dinah Dreyfus, no primeiro semestre de 1936.

se configura como uma explícita homenagem, merecida, ainda que

O intento principal da exposição foi levar ao conhecimento

tardia, à sua figura profissional e obra, essa exposição preten-

de um público mais amplo e mesmo para aquele já iniciado em

de-se também como uma contribuição ao incremento da historio-

matéria de história da arquitetura, do urbanismo e do patri-

grafia da arquitetura e do urbanismo no Brasil que, por muito

mônio no Brasil aspectos da vida, dos percursos de formação

tempo, o deixou no esquecimento.

e das realizações, em múltiplas frentes de trabalho, de Luís

Recuperar a inserção, sempre combativa e crítica, de Luís

Saia. Certamente uma tarefa cuja amplitude não pretende esgo-

Saia como profissional, intelectual e cidadão no âmbito da ar-

tar, esperando antes servir para instigar análises mais que

quitetura e do urbanismo, da preservação do patrimônio e da

necessárias e urgentes deste personagem ainda tão escassamente

cultura brasileira, é tomar parte do resgate da memória, cul-

(re)conhecido.

tural e política, de nosso país. Memória, história e cultura

O perfil profissional de Saia foi o de um arquiteto integral,

anuário IAB.pb

pelas quais Saia tanto lutou ao longo de sua vida.

— 28


Charge de Luís Saia pelo cartunista Laerte Coutinho.

29 —

FONTE: JORNAL OPINIÃO, N. 134, 30 DE MAIO DE 1975

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— 30


31 —

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— 32


33 —

anuário IAB.pb


Entre a fotogenia e a necessidade de compromissos POR

Francisco Sales Trajano Filho O trabalho de crítica de arquitetura – sem ser muito di-

ainda é vista como supérflua e, portanto, dispensável.

ferente o que se passa na literatura, nas artes plásticas e

Considerar a dimensão urbana – no largo sentido físico e

âmbitos afins, tende a ser caracterizado pela pretensão de pro-

social que a expressão carrega – implica em refletir para além

duzir análises de certa abrangência valendo-se muitas vezes,

do lote isolado, ainda que este seja o espaço ao qual a ação

como ponto de partida, de universos amostrais bem delimita-

da arquitetura com frequência se limita. Nesse sentido, é ins-

dos, portanto, restritos. O que faz com que essa tarefa seja

tigante a investigação em torno da “quadra híbrida”, conceito

uma tentativa, nem sempre certeira e por vezes equivocada, de

que atualiza os modos de ocupar e usar o espaço urbano com

compreender uma dada realidade apenas pelo que se consegue

base na convivência e proximidade de múltiplas funcionalidades

dela observar através de uma fresta, como se fosse possível

defendidas há décadas por críticos das lógicas excludentes

abarcar o mundo pelo que se vê de uma janela. Todavia, ainda

do zoneamento urbano moderno. Se, sem dúvida, tal proposta

que limitada, a mirada desde uma janela tem a peculiar quali-

revela-se bastante pertinente para problemas enfrentados em

dade de revelar mais quanto mais nos aproximamos dela, além de

certas áreas de uma cidade como João Pessoa, particularmente,

franquear a possibilidade de algumas olhadelas laterais muito

seu núcleo histórico, por outro lado, ela apenas conceitua

vantajosas quando se quer ver um pouco além. Digo isto por-

uma vivência urbana ainda vigente, arraigada nas práticas

que as observações que seguem consideram, prioritariamente,

cotidianas tradicionais. Tal constatação pode levar ao ques-

a janela propiciada pelo Conversas de Quinta sobre a produção

tionamento do objetivo da quadra híbrida nos termos em que foi

contemporânea de arquitetura na Paraíba.

proposto, sendo, talvez outro o alcance de sua aplicação caso

O que tal janela revela é diverso, situação que desacon-

seja considerado conjuntamente com a ideia de “fachada ativa”,

selha qualquer intento de uniformização ou identificação de um

motivada pela reaproximação entre edifício e demandas, usos

núcleo comum de questões que possa dar conta dessa variedade

e fluxos urbanos, reconectando mais diretamente, à escala da

que, por sua vez, é muito animadora e estimulante por indi-

rua, com a cidade.

ciar o dinamismo do campo arquitetônico local. No entanto,

A articulação objeto arquitetônico/fluxos urbanos é a va-

sem a pretensão de neutralizar as diferenças nem diluir as

riável norteadora do projeto do Terminal de Integração de

singularidades de cada projeto, é possível reconhecer certas

Mangabeira, pela óbvia inserção desse equipamento na dinâmica

transversalidades no conjunto.

da mobilidade urbana dessa região da zona sul da capital pa-

É louvável que a condição urbana do objeto arquitetônico

raibana. Tipologia muito frequentada pelos arquitetos recen-

compareça refletida em vários dos projetos apresentados. No

temente, evidência da centralidade que a questão do transporte

momento em que se reivindica o direito à cidade para além

em cidades de médio e grande porte tem adquirido, os terminais

dos interesses privados que agem sobre ela, conformando-a a

resolvem-se, grosso modo, a partir da relação entre soluções

despeito das demandas coletivas, pensar, e propor, o edifício

portantes e de cobertura, e é com esse par básico de elementos

como componente ativo na construção da cidade e sua dimensão

que têm sido trabalhados, com variações formais, materiais e

pública sinaliza uma estratégia através da qual a arquitetura

tecnológicas nem sempre justificadas mas antes produto, não

pode intervir positivamente nesse processo, recuperando parte

poucas vezes, do desejo de inovar que acomete os arquitetos

do sentido social que a qualifica. E talvez assim, contribuir

com muita frequência. E talvez esse seja o pecado em que in-

para revalidar sua importância e pertinência junto a uma so-

corre a solução desenvolvida pelos arquitetos Oliveira Júnior

ciedade para a qual, de forma quase absoluta, arquitetura

e Marcos Suassuna para o Terminal de Integração de Mangabeira.

anuário IAB.pb

— 34


Além da contínua exploração projetual, que de modo algum

a contrapartida em termos de qualidade paisagística e ambien-

pode ser objeto de restrição e censura, a arquitetura cons-

tal que, penso, projetos de grande porte deveriam propiciar à

titui-se também pela lenta deposição de soluções testadas e

cidade. Em ambos os casos, no Centro Médico em Campina Grande,

pelo acúmulo progressivo de práticas não escritas, porém re-

do Mapa Arquitetos, e na proposta formulada pela equipe de

comendáveis. Em se tratando da tipologia em questão, exemplos

arquitetos formada por Antonio Cláudio Massa, Kleimer Martins,

não faltam da validade de tais práticas, como evidenciam os

Márcio Lucena, Caio Leite Christopher Guerra, Thiago Bezer-

terminais de Pirituba e Pedro II, ambos em São Paulo, proje-

ra e Pedro Soares, no concurso para o complexo do Ministério

tos respectivamente do Una Arquitetura e de Paulo Mendes da

Público da Paraíba, em João Pessoa, o que se vê é o recurso a

Rocha. Esses casos, aos quais podemos acrescentar o Terminal

uma linguagem convencionada acerca de qual é a imagem arqui-

Lapa, também na capital paulista, projetado pelos arquitetos

tetônica contemporânea adequada em edifícios para fins insti-

Luciano Margotto, Marcelo Ursini e Sergio Salles, do Núcleo

tucionais, sejam públicos ou privados.

de Arquitetura, servem a contento como prova da amplitude de

Uma certa predileção pela polidez das superfícies, a ma-

possibilidades viabilizada a partir de uma mesma base comum

nipulação formal das envolventes à busca de efeitos visuais

de princípios, que não conduzem à mera repetição acrítica nem

atrativos, ao mesmo tempo em que se privilegia a essencia-

tampouco a uma perda de originalidade e interesse nos pro-

lidade das linhas e acabamentos, a transparência e a leveza

jetos. Nesses três exemplos, a opção estrutural por pilares

estrutural como que desmaterializando a solidez construtiva

dispostos linearmente e providos de altura suficiente para

do objeto arquitetônico, etc., são aspectos peculiares a essa

permitir a livre circulação de pessoas no espaço que lhes

espécie de imagem corporativa menos sisuda que comparece nes-

é imediato, sem que haja risco de choque na área adjacente

sas propostas, e que não destoa em seu perfil do que se faz

aos pontos de conexão dos pilares com a cobertura, algo que

mundo afora.

a solução em “pata invertida”, escolhida pelos arquitetos

Sendo basicamente tais os pontos em comum entre esses dois

paraibanos, não assegura ao trabalhar uma distribuição tridi-

exemplares, a forma como

se relacionam com a cidade e a ma-

mensional dos suportes que se erguem praticamente do nível do

neira com que lidam com as variáveis ambientais servem como

solo do terminal.

divisor de águas entre eles. Pautado em premissas de susten-

Se é evidente a qualidade do projeto em seus aspectos ge-

tabilidade e flexibilidade, aspectos ressaltados no discurso

rais, dotado de uma leveza sempre desejada para equipamentos

tecido pelos autores no memorial da proposta, percebe-se no

urbanos de grade porte, uma reflexão mais detida na definição

projeto para o concurso do Ministério Público um sólido empe-

tanto do desenho estrutural como da tecnologia construtiva

nho em dar resposta à questão das implicações climáticas sobre

contribuiria para acentuar os atributos do projeto, afinal, a

o conjunto edificado. Da generosa implantação em termos urba-

opção quase absoluta por estrutura metálica para uma obra pú-

nos, com o edifício em diagonal na faixa central do terreno

blica numa cidade tão sujeita à ação da corrosão marinha como

permitindo a criação de duas áreas verdes laterais, numa dis-

João Pessoa não parece a mais ajustada.

posição que procura o melhor rendimento climático em face da

Pela própria escala dos projetos, em duas outras situações

insolação e ventilação, ao recurso a elementos de quebra-sol

a relação edifício-cidade impõe-se, apresentando, no entan-

e outras soluções pontuais de amenização da incidência solar,

to, tratamentos e respostas distintas no que diz respeito ao

além das diretrizes de otimização dos recursos naturais, com

exercício de uma “gentileza urbana”, se assim pudermos chamar

dispositivos de captação e tratamento d’água, por exemplo,

35 —

anuário IAB.pb


o projeto evidencia em suas minúcias o modo responsável da

Rudolph acerca do caráter seletivo da arquitetura de Mies van

equipe de arquitetos na busca por uma resposta contemporânea

der Rohe que, segundo ele, só “realiza(va) edifícios maravi-

aos problemas estéticos tanto como funcionais e ambientais

lhosos simplesmente porque ignora(va) muitos aspectos de um

para uma arquitetura pública de qualidade em sintonia com as

edifício”.

demandas de seu tempo.

Com portes, finalidades e situações de inserção bastante

Como no Ministério Público, o projeto do Centro Médico Em-

particulares, o Brecho + Casa Fábio Rodrigues, projeto de

presarial de Campina Grande sobressaí em qualidade de desenho

Paulo César Lopes e Susana Montenegro, e o Santuário Nossa

e acabamento, com uma arquitetura que tende à essencialidade

Senhora de Fátima, de Davi de Lima e Lívia Loureiro, destoam

de gestos, mais ensimesmada, porém, se comparada ao exemplo

francamente das pretensões e retóricas mobilizadas pelas obras

anterior. No entanto, é como se tal refinamento só fosse pos-

anteriormente abordadas. E isso não significa demérito, afinal,

sível ser alcançado à custa da desconsideração daquelas preo-

falar bem nem sempre ou quase nunca implica em falar muito,

cupações ambientais e climáticas e da imposição, sem mais, do

mas o necessário, o apropriado. A sutileza pode muito bem so-

volume edificado na totalidade do espaço disponível da quadra

bressair em meio ao alarido das palavras.

que ocupa, com pouco espaço para um ato de gentileza urbana.

E sutileza é o mote da concepção do projeto do Brecho +

Mais do que cegueira ou descaso, é possível que essa deter-

Casa, intervenção que trata com respeito o casarão histórico

minação de ocupação massiva da área disponível venha imposta

já ocupado há mais de uma década pelo cliente, na área central

desde fora e esteja além do âmbito de responsabilidade do

da capital paraibana, no entorno da Praça Venâncio Neiva.

arquiteto. Afinal, no trato com o mercado, a figura do cliente

Face às restrições que as diretrizes patrimoniais impõem

é amiúde o agente final na definição de inúmeros aspectos do

nas edificações de interesse histórico da área, como é o caso

projeto e a maximização do potencial do imóvel é sempre uma

desse imóvel, classificado como de conservação parcial, a abor-

orientação constante nessa negociação. A despeito disso, para

dagem de projeto considera as determinações prescritas em

um edifício que deseja ser, conforme anuncia no memorial, um

termos de manutenção da volumetria e características formais

novo marco urbano – e sua escala por si já contribui para

e detalhes da estrutura existente e incorpora um novo corpo

acentuar essa pretensão – e, portanto, uma obra dotada de uma

edificado nos fundos do lote, ambas articuladas na fluidez es-

carga referencial capaz de gerar iniciativas similares, a

pacial que leva do antigo ao novo sem entraves.

forma como lida com a cidade incomoda.

O pequeno volume ao fundo reservado à residência é meticu-

É certo que a dimensão icônica de que pretende se imbuir

loso e engenhoso no uso do exíguo espaço disponível, possível

o projeto tem no arrojo estético muita da sua força. A base

de se estender quando preciso para a área adjacente do jardim

horizontal de acabamento minimalista como que acentua a per-

que o separa do casarão. Ressalte-se aí a combinação de uma

formance formal do volume vertical. Aqui, o contraponto entre

volumetria tradicional, ditada pelas normas patrimonias, com

lâminas horizontais das lajes e os marcos verticais dos ante-

o uso de um concreto rústico justaposto a esquadrias de ma-

paros para minimizar a incidência solar dotam as fachadas de

deira tipo camarão, capturadas à boa arquitetura residencial

um ritmo constante no seu desenho que se altera e se transfor-

corrente no Nordeste, num recurso certeiro ao que a prática

ma com a luminosidade cambiante ao longo do dia, ora levando à

avalizou como solução das mais ajustadas às peculiaridades

opacidade visual, ora à total permeabilidade do olhar, vazando

climáticas da região.

a torre. Difícil aferir se essa solução revela o empenho na

Este último aspecto do projeto faz pensar na validade e

lida com as particularidades de clima e lugar, ou é antes

pertinência da busca por conciliação entre o afã de se põr em

resultado de uma orientação ditada pela primazia estética. O

sintonia com os andamentos da cena arquitetônica contemporânea

que faz lembrar a observação do arquiteto norte-americano Paul

e a valorização de compromissos e respostas próprias a uma

anuário IAB.pb

— 36


prática desenvolvida em íntima relação com demandas locali-

assim procederem, os arquitetos dotam de um certo senso de ur-

zadas e específicas. O que remete em sua essência à relação

banidade o conjunto de volumes articulados entre si, tornando

sempre tensa e complexa entre o local e o universal, proble-

os espaços entre eles mais do que apenas áreas abertas, mas

matizada por inúmeros teóricos, a exemplo de Paul Ricouer.

imbuindo-lhes do caráter de praças, com as quais os edifícios

Num dado trecho de seu clássico texto “Civilização universal

individuais mantêm contato físico e visual direto, podendo

e culturas nacionais” (1961), Ricouer aponta o que lhe parece

mesmo imaginá-los se desdobrando sobre elas quando preciso.

o problema crucial: “será que para entrar na rota da moder-

Viabilizando a relação fluída entre a paisagem e o santuá-

nização é necessário descartar o antigo passado cultural que

rio, assim como dos edifícios com os espaços internos abertos,

constituiu a raison d’être de uma nação (...)”?

uma envolvente metática polivalente articula e confere coesão

Por suposto que essa questão não é nova para nós. Longe

ao conjunto. Ora vedação e fechamento, ora guarda-corpo e dis-

disso, ela tem sido posta e reposta na ordem do dia do debate

positivo de minimização da incidência solar, essa estrutura

cultural brasileiro com alguma periodicidade desde o século

explora a superfície da arquitetura como instância expressiva

XIX, e das respostas formuladas em várias áreas talvez nenhuma

do projeto, tão cara, por exemplo, à obra da dupla Herzog &

outra seja tão eloquente quanto aquela elaborada pela nossa

De Meuron.

moderna arquitetura. Afinal, não somos reconhecidos desde os

Ao mesmo tempo que se aproxima dessa tônica contemporânea

anos 1950 por termos uma arquitetura ao mesmo tempo moderna e

que é a exploração das envolventes, o projeto do santuário

nacional, ou, como escreve Reyner Banham, por termos criado

atualiza uma longa prática da moderna arquitetura brasileira

“the first national style of modern architecture”?

de investigação funcional e plástica dos elementos de mediação

Mesmo que hoje pareça ultrapassada em face do desejo que

entre o interior e o exterior; aspecto ainda mais ressaltado

move boa parte da arquitetura brasileira em partilhar sem mais

simbolicamente quando os autores identificam esse elemento como

da mesma base conceitual e formal da produção internacional,

um brise. Com um único gesto, os arquitetos conferem unidade

a conciliação entre o andamento internacional e o recurso a

ao que de fato é diverso, vinculam-se ao momento que corre na

práticas geradas no enfrentamento de situações singulares e

cena arquitetônica internacional e revitalizam uma tradição

através de meios limitados tem raízes muito fundas na nossa

ainda em muito inexplorada mas que tem sido, com frequência,

cultura arquitetônica e é sempre instigante vê-la acontecer,

preterida por uma arquitetura fotogênica, perfeita em sua

atualizando-se a cada manifestação.

modelagem 3D via Revit e softwares afins, mas inconsistente e

Ao menos é isso que indicia o projeto para o Santuário

frágil na realidade mais comezinha.

Nossa Senhora de Fátima, dos arquitetos Davi de Lima e Lívia

Em um texto em que tentava divisar os paradigmas vigentes

Loureiro. As condições de partida para o projeto eram por si

na prática arquitetônica do final do século XX e como deste sé-

restritivas quanto aos recursos e meios de realização. Mais

culo, Rafael Moneo reconhecia duas grandes abordagens no trato

que uma opção, o uso de materiais e mão-de-obra locais era

com o objeto arquitetônico. Uma marcada pela gestualidade lar-

uma imposição. A princípio desvantajosa, tal base acabou por

ga e de alta performance e impacto, típica de um Frank Gehry,

orientar os caminhos da concepção projetual, determinando to-

e outra, em que a contenção formal dava o tom, ilustrada na

madas de decisão que são responsáveis por imbuir a proposta

própria obra do Moneo. O projeto do santuário mostra o quanto

de grandes qualidades.

a contenção gestual, intencional e justificada nas condições do

O abandono de um volume monolítico para dar conta do pro-

projeto, pode produzir um impacto poderoso sem o estardalhaço

grama e sua organização em blocos distintos aparece como

e o exibicionismo tão presentes nesse tão depauperado ofício

resposta ao contexto de inserção do santuário, uma área de

que é a arquitetura dos dias que correm.

transição entre o urbano e o rural. Conscientemente ou não, ao

37 —

anuário IAB.pb


termi—nal de integra—ção de manga—beira POR

7S34W + A2 Arquitetos

Apresentação O projeto apresentado neste memorial trata-se do Terminal de Mangabeira que faz parte de um conjunto arquitetônico envolvendo três terminais de integração urbana a serem implantados também nos bairros do Varadouro e do Cristo. O Terminal de Integração em questão está localizado na Avenida Hilton Souto Maior, no Bairro de Mangabeira – João Pessoa, PB, e em sua concepção, se subdivide em dois setores: Terminal A e Terminal B, que se comunicam através de uma passarela de ligação.

O

entorno urbano

O entorno é formado predominantemente pelo uso residencial de médio baixo padrão construtivo, gabarito de um pavimento com edifícios de quatro pavimentos (térreo + 3 pav.). Há também áreas ocupadas por construções de uso misto (residência + comércio) como também construções institucionais

públicas

como a CEHAP (Companhia Estadual de Habitação Popular), Escola Estadual Caic Damasio Franca, Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social (Ver figuras a seguir).

anuário IAB.pb

— 38


Referências, casos correlatos e definição do partido arquitetônico Na fase criativa algumas referências e casos correlatos nacionais e internacionais foram pesquisados e considerados na concepção arquitetônica e na definição do partido. Na sua maioria foi verificado que a expressão plástica dos apoios e a leveza ou movimento da coberta fazem parte fundamental da linguagem formal do equipamento, alcançando identidade e marcante presença na espacialidade. Outro aspecto diz respeito

A reflexão sobre o contexto programático do objeto de es-

à necessidade de vãos livres generosos para o fluxo permanente

tudo e as variáveis envolvidas para a solução da proposta

dos usuários, sobretudo nos horários de grande movimento de

arquitetônica nos levou a optar por um partido arquitetônico

pessoas, sendo a estrutura metálica a mais viável para res-

representado por uma grande cobertura que pudesse que pudesse

ponder a essa premissa funcional. Aliado a essa condição a

abrigar os usuários das intempéries e das elevadas

estrutura metálica favoreceu também na utilização de balanços

turas da nossa região. Devido a flexibilidade do aço a solução

na coberta do terminal e no bloco operacional, a ser escla-

tectônica permitiu a exploração de grandes vãos, o processo

recido posteriormente.

de racionalização da construção e a esbeltez estrutural. Em

tempera-

resumo, que este equipamento público pudesse ofertar a so-

Conceito e Diretrizes

ciedade um serviço da melhor qualidade, ao mesmo tempo que

Posteriormente às pesquisas de casos correlatos, visitas

qualificasse os espaços urbanos onde eles fossem inseridos.

nas áreas de intervenção e interpretação do programa de necessidades fornecido pela SEMOB foi iniciado o processo cria-

O

tivo. Inicialmente foram definidos o conceito geral do partido

Após as pesquisas de casos correlatos, visitas nas áreas

e as diretrizes projetuais a serem perseguidas, tais como:

anteprojeto

de intervenção e interpretação do programa de necessidades

- adoção de princípios arquitetônicos sustentáveis, baixo

fornecido pela SEMOB foi iniciado o processo criativo. Nesta

impacto urbano ambiental e maior

etapa, algumas soluções foram investigadas, e os croquis e

eficiência energética;

- tecnologia construtiva de rápida execução e baixo desperdício de materiais;

desenhos especulativos fizeram parte desse processo. No caso do terminal de Mangabeira, o terreno retangular

- economia estrutural, extensos vãos livres e flexibilidade

determinou a disposição das duas plataformas e as distribui-

de usos;

ções dos fluxos das linhas troncais e alimentadoras. O bloco

39 —

anuário IAB.pb


operacional e administrativo, responsável pelo controle de

ximadamente de 7.832,20m², área coberta de 2.970,00m² para

entrada e saída dos passageiros, foi localizado no pavimento

embarque e desembarque e bloco operacional constituído de

acima das plataformas. Visando a proteção da insolação leste/

térreo (96,19m² de área útil) e pavimento superior (370,27m²

oeste , foram usados na vedação brises com perfis metálicos

de área útil). O pavimento térreo do bloco operacional abriga

na vertical espaçados 3cm entre as peças, e com aberturas

cabines de compra de passagem e recarga de cartão, box de

tipo “camarão” quando da opção de abrir.

Esses brises são

informações, depósito para pertences de funcionários, caixa-

responsáveis também pela forma plástica do bloco operacional.

forte, cabines de pagfácil e bateria de banheiros públicos. O acesso ao pavimento superior é feito por meio de escada

Terminal A

ou plataforma elevatória (para PcD). Nele estão dispostos os

O Terminal A de Integração possui terreno com área apro-

ambientes do setor administrativo do terminal: administração

ximadamente de 10.131,41m², área coberta de 3.510,00m² para

com lavabo, almoxarifado, sala de reuniões, controle opera-

embarque e desembarque e bloco operacional constituído de

cional, depósito, sala de descanso para funcionários, bateria

térreo (96,19m² de área útil) e pavimento superior (370,27m²

de banheiros, vestiários, copa/refeitório e passarela técnica

de área útil). O pavimento térreo do bloco operacional abriga

para instalação de equipamentos de ar condicionado. A área

cabines de compra de passagem e recarga de cartão, box de

construída total do complexo é de 2.490,51m², implicando em

informações, depósito para pertences de funcionários, caixa-

ocupação de 23% e índice de aproveitamento de 0.31.

forte, cabines de pagfácil e bateria de banheiros públicos. O acesso ao pavimento superior é feito por meio de escada

Passarela de ligação (terminal A e terminal B)

ou plataforma elevatória (para PcD). Nele estão dispostos os

A passarela possui área de construção total de 808,42m² e

ambientes do setor administrativo do terminal: administração

é composta por duas caixas de acesso verticais (uma em cada

com lavabo, almoxarifado, sala de reuniões, controle opera-

terminal) com escadas rolantes, escadas e elevadores.

cional, depósito, sala de descanso para funcionários, bateria de banheiros, vestiários, copa/refeitório e passarela técnica

Técnica Construtiva Especificações de Materiais

para instalação de equipamentos de ar condicionado. A área

Racionalidade, rapidez na obra e possibilidade de reci-

construída total do complexo é de 3.101,63m², implicando em

clagem foram as premissas consideradas na escolha da técnica

ocupação de 23% e índice de aproveitamento de 0.30.

construtiva e dos materiais nos Terminais de integração em questão. Desta forma, tanto a estrutura metálica já mencio-

Terminal B

nada, quanto os materiais associados ao Stell

O Terminal B de Integração possui terreno com área apro-

melhor opção a adotada.

anuário IAB.pb

Frame foram a

— 40


Ficha Técnica Cliente

Colaboradores

Render

Projeto

Secretaria de Mobilidade

Camilas Sales, Jan Furtado,

Cicle Studio

2013

Urbana

Lúcio Ismael, Saskya Carvalho,

Consultoria Estrutural

Área total dos terrenos

Autores

Lara Carvalho, Matheus

Marcelo Franca

18.000m²

Oliveira Júnior e Marco

Quirino, Rafael Targa, Rodrigo

Local

Área total construída

Suassuna

Rathge

Município de João Pessoa – PB

6.500m²

41 —

anuário IAB.pb


POR

Marco Suassuna

dese—nhando a qua—dra urbana

anuário IAB.pb

— 42


Memorial Explicativo Este estudo investigativo na escala do bairro reflete sobre a importância da relação mais integrada entre o edifício e a rua, a partir de um desenho urbano da quadra aberta. Desenvolve o contraponto aos loteamentos convencionais cujo parcelamento do solo foi baseado na legislação oficial Lei no 6.766, de 19 de dezembro de 1979, com o paradigma da uniformização dos lotes fechados, hostilidade aos pedestres e negação com o espaço público. Busca demostrar os danos causados por esse modelo espacial em que a legislação que “desenha” a quadra hermética é a mesma que provoca, como consequência, a desertificação das calçadas e a ausência de diversidade de usos nos bairros.

Reconhece que a quadra urbana interfere na relação

dos espaços públicos e privados, na mobilidade urbana, na economia local, merecendo cuidado especial no planejamento urbano. Para promover então uma escala mais humana nos bairros é proposto eliminar as barreiras físicas (muros, cercas, grades), e prever a polifuncionalidade de atividades no térreo visando contribuir com as interações sócioespaciais cotidianas. Como mudança gradual, a proposta parte do remembramento de dois lotes de 10 x 20m (lotes típicos em bairros de baixa renda) como referência catalisadora de parcelamento alternativo do solo e da ordenação espacial. O estudo “piloto-investigativo” de uma quadra na zona sul da cidade de João Pessoa-PB, no bairro de Mangabeira, avalia, através de duas concepções espaciais de desenhos de quadras abertas, as relações dos pedestres com as calçadas, os usos, e a animação urbana no espaço público citadino.

Na escala privada dos apartamentos, a concepção

espacial da proposta prever a flexibilidade de layouts e a expansibilidade compatíveis com a heterogeneidade das famílias contemporâneas. As áreas dos apartamentos variam de 50,00m², 60,00m² podendo alcançar 82,00m² com até quatro dormitórios quando ampliados, favorecendo o planejamento familiar na medida em que é comum a família crescer ao longo dos anos.

Outro aspecto importante é que embora o bairro e

a quadra existentes, aqui objeto de estudo, tenham sido construídos nos anos de 1980 conforme os paradigmas massificados da época do Banco Nacional da Habitação-BNH, atualmente, depois de mais de 30 anos, obras financiadas pelo programa do Governo Federal, Minha Casa Minha Vida, ainda produzem conjuntos habitacionais impessoais e com baixa qualidade arquitetônica e urbanística, o que demonstra a necessidade de discussão nesta temática.

Entende-se, por fim, que para a transformação de

uma cidade para as pessoas e melhor qualidade espacial, é preciso rever suas legislações urbanísticas obsoletas, os estudos espaciais especulativos e comparativos na escala do bairro pode apoiar o debate neste sentido.

43 —

anuário IAB.pb


anuário IAB.pb

— 44


Ficha Técnica Autor

Colaboradores

Imagens virtuais

Ano do projeto

Marco Suassuna

Lúcio Ismael, Gabriel Cordeiro,

Danilo Paiva

2014

Izabelly Gouveia

45 —

anuário IAB.pb


san—tuário senhora de fá—tima

POR

nossa

Delima Arquitetura

Memorial Explicativo

espaço a ser construído e a

ter sempre a relação visual

vel a implementação da mão de

O terreno escolhido para

paisagem natural em seu en-

com a serra e o ambiente ex-

obra local ao processo cons-

implantar o santuário situa-

torno. Gostaríamos que o usu-

terno aos limites do lote.

trutivo.

se ao oeste da cidade de Sa-

ário tivesse a mesma sensação

Por se tratar de uma obra

As edificações se dividem em

pé-PB, em uma área periférica

do ambiente natural externo,

a ser construída com recur-

três elementos básicos: o piso

e de características rurais.

dentro dos limites do lote.

sos provenientes de doações,

horizontal e plano, a laje ho-

A proximidade entre o campo

Para isso, o programa de ne-

o projeto foi pensado de modo

rizontal e plana, com pilares

e a serra reforça a vocação

cessidades foi divido em três

que todas as edificações pudes-

de sustentação e os fechamentos

contemplativa do local.

edificações com usos específi-

sem ser construídas em etapas

verticais, através de brises

O ponto de partida para a

cos, mantendo generosos recuos

e de forma simples, rápida e

metálicos vazados, que fazem o

implantação do edifício foi a

entre si, para que ao caminhar

utilizando tecnologia e mate-

controle de acesso, da insola-

busca do equilíbrio entre o

entre elas, o usuário pudesse

riais locais, tornando possí-

ção e da ventilação natural,

anuário IAB.pb

— 46


através de um único elemento.

hora como horta para reali-

tação das águas provenientes

a função de ajudar no contro-

Com espaços flexíveis, os

zação de trabalhos comunitá-

das chuvas, com redireciona-

le da umidade nos meses mais

edifícios podem ser adapta-

rios. Com isso, além de haver

mento destas para cisternas

quentes

dos a diversos usos e a uma

um melhor controle da tempera-

espalhadas ao longo das edi-

seca, bem como no resfriamen-

grande variação de número de

tura no ambiente interno dos

ficações, tendo todo excedente

to da ventilação predominante

usuários, possibilitando que

edifícios através do uso da

conduzido para o grande espe-

sudeste, que atravessa todo o

diferentes

sejam

cobertura verde, a área útil

lho d’água central localizado

espelho d’água antes de ven-

realizadas ao mesmo tempo, in-

da edificação pode ser dupli-

entre os edifícios.

tilar a edificação destinada a

clusive a cobertura, que foi

cada sem que houvesse aumento

pensada para que pudesse ser

da área construída.

plenamente

atividades

utilizada,

hora

como praça de contemplação,

47 —

e

nos

períodos

de

O espelho d’água ao mes-

capela, espaço projetado para

mo tempo em que cria um vazio

receber uma maior concentra-

foi

estratégico livre de circula-

ção de pessoas por períodos

projetado um sistema de cap-

ção entre as edificações, tem

prolongados.

Para

o

teto

jardim

anuário IAB.pb


anuário IAB.pb

— 48


Ficha Técnica Autor

Ano do projeto

Localização

Delima + Arquitetura : Davi de

2013

Sapé - PB

Ano de conclusão da obra

Categoria

2020

Edificação institucional

Lima e Lívia Loureiro de Lima

49 —

anuário IAB.pb


anuário IAB.pb

— 50


51 —

anuário IAB.pb


cen—tro médico empresa—rial

POR

MAPA Um encargo de dupla escala

novo símbolo urbano que aposta na simplicidade como mensagem. A

CME constitui um novo marco em Campina Grande, cidade cuja

interface sóbria e de qualidade, constituída por brises verti-

normativa propicia o desenvolvimento de um singular caráter

cais de granito monocromático, configura fachadas homogéneas e

urbano: predominância de áreas verdes de baixa densidade com

ricas em transparência e jogo de luz, proporcionando uma leitu-

construções de baixa altura interrompidas por altos elementos

ra clara do edifício a partir de toda a cidade. Sua estrutura

verticais. Duas escalas antagônicas que não chegam a gerar uma

simples oferece uma flexibilidade de configurações internas que

identidade única da cidade como um todo.

o programa requer.

Neste contexto, CME trabalha em uma lógica de dupla escala:

CME contempla assim os requisitos de um edifício comercial

múltiplas aberturas e conexões em um embasamento no nível do

sem desatender a construção de uma imagem urbana da cidade e

pedestre; simplicidade e sobriedade na alta torre de escala

contribuindo para uma enriquecedora experiência da rua como

metropolitana.

espaço público.

O embasamento de dupla altura se acessa pela fachada frontal através de uma praça aberta que serve de conexão entre o passeio

A resposabilidade da dupla escala

comercial e o hall interior. A partir da fachada lateral, que se

O Centro Médico e Empresarial constitui um novo marco em

adapta à elevação da topografia, se acessa o Centro Cultural Dr.

Campina Grande, cidade do interior Paraibano com uma normativa

Severino Bezerra de Carvalho, conectado internamente ao hall, e

que propicia o desenvolvimento de um singular caráter urbano:

à área de serviços e estacionamento.

predominância de áreas consolidadas com baixa densidade e pouca

A torre, com 115 metros de altura, se apresenta como um

anuário IAB.pb

altura interrompidas por novos prédios de acentuada vertica-

— 52


lidade. Duas escalas antagônicas que não chegam a gerar uma e conectando-se à torre pela área de circulações. identidade da cidade como um todo.

A torre de 115 metros de altura revela-se como uma entidade

Neste contexto o projeto implementa uma lógica de dupla es- plena, contundente e sintética. A aproximação evidencia uma recala: o embasamento no nível do pedestre propõe uma nova relação alidade mais complexa e detalhada: as fachadas como interfaces com a escala da rua, permeando a cidade na galeria comercial e espessas, sóbrias e de qualidade, são constituídas por brises cultural; e a torre que atende a demanda do programa principal verticais de granito monocromático com acabamentos diferentes: com sobriedade e revela o prédio na escala metropolitana.

polido, levitado e apicoado. Projetados para otimizar a perfor-

No embasamento de nove metros de altura o edifício adquire mance climática no trópico, os brises exploram também os efeisua condição mais pública, permeando a rua pelas duas frentes tos que induzem na paisagem urbana. Eles provocam que esta alta da esquina. Torna-se passeio, cruzamento, praça, é o espaço que e desproporcionada entidade seja percebida como um corpo cinéintegra os acessos dos principais programas.

tico e cambiante, quase um objeto-paisagem que muda sua apa-

Na fachada frontal o acesso é induzido através de uma pra- rência conforme varia a distância, o ángulo, o clima, o tempo. ça aberta com grandes espelhos de agua e murais, que serve de

Em definitiva, CME tenta contemplar os estritos requisitos

conexão entre o passeio comercial e o hall interior. A partir de um edifício comercial de alta complexidade integrando a enda fachada lateral, que se adapta à elevação da topografia, se riquecedora experiência da rua como espaço público, sem perder ingressa no Centro Cultural, de planta livre e múltiples con- a oportunidade de incorporar uma nova realidade, complexa e figurações possíveis. Hacia o interior se encadenan os espaços consistente, na imagem urbana de uma cidade com alto potencial, que definem o grande hall de 40 metros, rematando no pátio aberto futuro promissório e presente escasso.

53 —

anuário IAB.pb


anuário IAB.pb

— 54


Ficha Técnica Sócios/Autores

Colaboradores

Renders

Data de Projeto

MAPA Arquitetos: Luciano

Pablo Courreges, Alexis

MAMMEDIA

2012 – 2014

Andrades, Matías Carballal,

Arbelo, Pamela Davyt, Camilla

Rochelle Castro, Andrés

Pereira, Jaqueline Lessa, Isabella

Local

Gobba, Mauricio López, Silvio

Madureira, Mauricio Müller, Emiliano

Campina Grande — PB

Machado.

Lago, Diego Morera, Guillermo Acosta, Aldo Lanzi.

55 —

anuário IAB.pb


—ministério pú—blico da paraíba

anuário IAB.pb

— 56


POR

Martins Lucena

possibilita o trânsito de pedestres a partir de das maiores frentes evidenciando assim o caráter receptivo da instituição. Por

A proposta para o Concurso Nacional de Arquitetura em questão,

fim, a implantação proposta desempenha o papel de potencializar a

ocorrido em 2013, referente à instalação do complexo do Ministério

conexão visual às áreas externas, tratadas no paisagismo, valori-

Público da Paraíba na cidade de João Pessoa, surge no contexto

zando os elementos de amenização ambiental (espelho d’água e fil-

atual das construções coerentes com as necessidades de otimização

tro vegetal). O volume construído, caracterizando-se inicialmente

de recursos e meios, incorporando os vários conceitos de flexibi-

pela junção de três prismas de base retangular, é verticalizado

lidade, economia energética e reduzido dano ambiental, tanto em

em escalonamento de 6, 8 e 10

seu processo de execução como de utilização.

aproveitada para criação de um terraço pergolado, que suporta os

pavimentos, sendo a última laje

equipamentos de geração de energia limpa e condicionamento de ar

O lote e contexto urbano

além de

O terreno disponibilizado é privilegiado por se encontrar num

apoio de copa e um mirante aberto para a cidade.

abrigar um ambiente para lazer e descontração, com um

trecho da malha urbana servido por duas grandes vias de circulação, próximo à área central da cidade e as praias, com seu entorno

Funcionalidade

caracterizado pelo predomínio do uso residencial, institucional

A dinâmica funcional da proposta objetiva a fluidez espacial

e serviços de bairro. Além disso, revela uma vantagem em relação

e a continuidade dos acessos. Partindo do nível da rua, locamos

aos demais lotes do seu entorno por estar localizado na cota mais

os estacionamentos públicos nas laterais da esquina (sudeste e

elevada da quadra com duas esquinas, sendo uma delas fronteira

sudoeste) e o estacionamento privado em um meio subsolo (lateral

a uma praça. Assim, viabiliza e valoriza a decisão projetual de

nordeste). O acesso público foi locado na esquina diagonal sul-

criar um espaço livre diante da edificação, conferindo ao seu en-

norte como uma pequena esplanada que cruza o jardim frontal e o

torno um qualitativo urbano.

hall de exposições até a praça de eventos no extremo da diagonal norte. O hall de exposições faz conexões com setor de atendimento

Macroclima

(leste) e o bloco de escadas/elevadores (oeste) este fazendo as

As condições bioclimáticas são determinantes na implantação do

ligações com os demais pavimentos tipo.

edifício no lote. Seu eixo longitudinal disposto no sentido Sul - Norte possibilita que todos os ambientes de longa permanência

Materiais e estrutura

tenham aberturas para a ventilação e visuais dominantes, ofereci-

A especificação adotada objetiva a otimização de recursos e a

das pela fachada leste de maior dimensão e permanente ventilação

padronização dos pavimentos com o uso essencial de materiais de

provinda tanto do sentido Sudeste como Nordeste, esta opção,

alto desempenho. Os pisos são em Porcelanato, Antiderrapante no

também respalda as estratégias de controle e aproveitamento da

exterior e tratado no interior, as poucas paredes de alvenaria

iluminação natural.

existentes recebem revestimento em massa hidrofugante texturizada, já os fechamentos em esquadrias/brises de alumínio e vidro

Partido arquitetônico

promovem proteção solar e controle térmico natural às áreas de

A opção de uma inserção escalonada de três prismas de bases re-

trabalho. Os tetos são compostos por painéis termoacústicos re-

tangulares no sentido da diagonal do terreno trapezoidal cria duas

movíveis que permitem acesso aos sistemas de instalações que

áreas livres opostas entre si, gerando a consequente conformação

permeiam todos os pavimentos proporcionando total flexibilidade de

de duas áreas verdes, destinadas ao convívio, lazer contemplativo

uso. O sistema estrutural adotado, com pilares modulados a cada

e a preservação de espécies nativas, além de estabelecer um dis-

8,00 m, apoia vigas e lajes steel deck que avançam lateralmente em

tanciamento entre a edificação e as ruas. A criação de um passeio

balanços de 2,00m para promover suporte ao sistema de jardineiras,

de aproximação através de uma esplanada de acesso que une as duas

esquadrias e brises que envolvem os ambientes de trabalho em todos

ruas passando através do pilotis (acesso principal do edifício),

os pavimentos tipo.

57 —

anuário IAB.pb


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— 58


Ficha Técnica Autores

Consultores

Colaboradores

Local

Antônio Cláudio Massa, Kleimer

José Carlos Borges e Maura

Felipe Cavalcante, Kellington

João Pessoa — PB

Martins, Márcio Lucena, Caio

Michaela Araújo

Dantas, Tamáris Brasileiro, Rodrigo

Leite, Christopher Guerra e Thiago Bezerra

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Medeiros e Pedro Soares

Data de Projeto 2013

anuário IAB.pb


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bre–chó + ca—sa Fabio Rodri—gues POR

Paulo César Lopes e Susana Montenegro O Casarão 54 localiza-se no centro de João Pessoa, em frente

formação espacial mais próxima da original, entretanto adaptando

à Praça Venâncio Neiva, onde atualmente funciona o Brechó Fábio

os ambientes ao uso atual e melhorando suas as condições de con-

Rodrigues e a residência do proprietário. Esta edificação do final

forto ambiental. Para isso será necessária à demolição de algumas

do século XIX está circunscrita na Área de preservação rigorosa

ampliações que o casarão sofreu ao longo do tempo, que o descarac-

do Centro Histórico de João Pessoa sobre proteção do Instituto do

terizam, e que hoje totaliza uma ocupação de 75,9% do lote. A fa-

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Instituto

chada principal do imóvel será recomposta através da recuperação

do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP),

de seus elementos formais, e do redesenho das esquadrias com base

que normatizam as propostas de intervenções nos imóveis localiza-

em fotos e resquícios encontrados no casarão vizinho (geminado).

dos dentro do perímetro de tombamento.

Dentre as diretrizes exigidas para a intervenção neste imóvel,

A proposta para residência do proprietário é de construir uma

que é classificado como de Conservação Parcial, destaca-se a pre-

nova edificação ao fundo do lote, com uma clareza na distinção en-

servação das cobertas originais, com o uso de telhas coloniais;

tre o antigo e o novo edifício, através da escolha dos materiais e

Taxa de ocupação de no máximo 70% do lote; Reparação ou adaptação

das técnicas construtivas. E para atender a novos padrões de uso

da distribuição espacial interna e da coberta estritamente ne-

do espaço e suprir todo o programa de necessidades, foi necessária

cessária à melhoria das condições de estabilidade, salubridade e

a construção de um primeiro pavimento.

habitabilidade dos mesmos.

O andar térreo foi setorizado para atender o uso coletivo,

O proprietário foi contemplado em junho de 2014, pelo edital

com sala, cozinha e banheiro, e no primeiro pavimento, se dispôs

público de seleção de propostas, para fins de obtenção de financia-

a área mais íntima, com uma suíte e escritório. Com a solução

mento, para a recuperação de imóveis privados na área histórica

estrutural adotada, onde o bloco superior é apoiado sobre os mu-

de João Pessoa, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2)

ros laterais, permitiu que os ambientes do térreo se integrassem

- Cidades Históricas.

com o exterior da casa, garantidas também pela transparência e

A proposta de intervenção consiste em manter os dois

usos presentes, porém separando-os em edificações distintas.

aberturas das esquadrias. No pavimento superior foram utilizadas

O

esquadrias de madeira do tipo camarão, que permite uma abertura

uso comercial continuará instalado no casarão, respeitando as

total, e controle da iluminação e ventilação natural, quando fe-

pré-existências de relevância histórica e artística, com uma con-

chadas, através dos tabiques móveis de pivô.

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anuário IAB.pb


PLANTA DE COBERTA ATUAL

PLANTA BAIXA TERREA ATUAL

anuário IAB.pb

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PLANTA DE REFORMA PROPOSTA

PLANTA BAIXA TERREA PROPOSTA

PLANTA BAIXA SUPERIOR PROPOSTA

PLANTA DE COBERTA PROPOSTA

Ficha Técnica Autores

Local

Data de Projeto

Paulo Cesar Lopes e Susana

João Pessoa — PB

2014

Montenegro

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anuário IAB.pb


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anuário IAB.pb


Urbanidades e discurso fotográfico POR

Paulo Rossi

anuário IAB.pb

— 66


A partir da segunda metade do século XIX, a vida cotidiana

rece com um formato triangular cuja base se volta para a mata

ganha as lentes dos fotógrafos do mundo todo: o dia-a-dia e o

sugerindo força e movimento, como se estivesse empurrando a

espaço urbano na era moderna se fundem constituindo uma nova

natureza para trás. Neste ponto reside, a meu ver, a graça e a

paisagem urbana. Fotógrafos como Eugène Atget, Robert Dois-

força da obra de Diego Nóbrega: a trama do discurso fotográfico

neau, William Eggleston, Manuel Álvarez Bravo, Alice Brill,

se estabelece na intricada relação entre ficção e realidade,

Hildegard Rosenthal, Cristiano Mascaro, Hudson Azevedo, Gus-

fantasia e mundo real.

tavo Moura (estes dois últimos, paraibanos), produziram en-

Na história da fotografia, tradicionalmente os discursos

saios sobre o cotidiano das cidades, sobre sua dinâmica, sua

fotográficos tiveram o filme e o papel fotográfico como suporte.

arquitetura, seus espaços públicos, sua paisagem, enfim, sobre

No mundo contemporâneo a fotografia fílmica acabou no mercado

a sua urbanidade.

profissional, seu uso ficou restrito à produção de ensaios auto-

Os

ensaios

selecionados

para

compor

o

Anuário

2015

rais, sendo que alguns fotógrafos convergem os dois processos

do IAB.pb e a exposição Urbanidade: arquitetura, urbanis-

em sua produção. A transposição da imagem analógica para o for-

mo e paisagem cultural na Paraíba, se juntam a esta vasta

mato digital pressupõe a atualização de procedimentos tecnoló-

produção fotográfica.

gicos. O cruzamento de procedimentos amplia as possibilidades

No ensaio Cidade baixa, a fotógrafa Dayse Euzébio mobili-

plásticas, e abre novos campos para a construção de discursos.

zou geometria, cores vivas, frontalidade na documentação de

O fotógrafo Christinan Azevedo resgata fotografias realizadas

fachadas envelhecidas e malcuidadas de imóveis antigos num

há pelo menos uma década, ainda em película, e as ressignifica

canto histórico de João Pessoa. A beleza plástica das imagens

técnica e esteticamente. Para a construção do ensaio Olho do

não escondem, entretanto, os traços de degradação física da

tempo, o autor lança mão do alto contraste, da granularidade

arquitetura local. A ausência da figura humana nas fotografias

excessiva e do baixo grau de precisão de detalhes para gerar

de Dayse traz para a superfície o paradoxo da verossimilhan-

novos sentidos e atualizar sua percepção sobre o espaço urbano

ça: a aparente exatidão das coisas fotografadas e a “crença”

de anos atrás.

na verdade dos traços gravados no suporte fotossensível. Se

Cruzar processos e ressignificar fotografias criadas no pas-

por um lado a ausência de pessoas sugere momentos de tranqui-

sado foi também o percurso percorrido por Nazareno Andrade

lidade absoluta de um ponto movimentado da cidade, causando

para a elaboração de Jaguaribes, catolés. Aqui a ressignifica-

assim uma possível estranheza naquele espectador que conhece

ção acontece menos na alteração drástica dos aspectos técnicos

o lugar, por outro induz aquele que não conhece o dia-a-dia

da fotografia, e mais na tessitura da trama de imagens cujo foco

da região a imaginar um aparente esvaziamento e abandono do

são “espécies de espaços”1 urbanos.

espaço urbano documentado.

Em Formas urbanas, de Helder Lopes, uma fotografia merece

Se isolarmos a única fotografia em formato panorâmico do

destaque, aquela na qual aparece uma escultura triangular.

ensaio Margens de Areia, de Diego Nóbrega, veremos que cidade

Esta imagem propõe a existência de um objeto concreto, a es-

de Areia é apresentada em plena harmonia com natureza exube-

cultura fincada no chão, firme e perene, e de um objeto volátil

rante, tendo o efeito que se espera do tradicional uso social

e instável, a sombra dura da escultura. Esta instabilidade

do cartão postal. Mas se a confrontarmos com qualquer um dos

funciona aqui como uma metáfora do espectador: nenhuma obra

dípticos que conformam o conjunto da obra, sua leitura passa

fotográfica, e nenhuma forma de arte garante a mesma interpre-

a produzir um efeito menos bucólico, e mais ácido a respeito

tação do que está sendo visto. Nada é perene neste sentido, por

da dinâmica social e econômica da cidade. O modo como os ele-

melhor que seja protegida das intempéries do tempo, a fotogra-

mentos informativos aparecem organizados no espaço plástico da

fia nunca será a mesma aos olhos de um mesmo leitor. Sob esta

fotografia panorâmica sugerem o crescimento urbano invadindo

ótica, todos os ensaios apresentados neste anuário sofrem, por

– e, consequentemente, devastando - a natureza: a cidade apa-

assim dizer, de uma espécie de síndrome de Doryan Gray.

67 —

“Espécies de espaços” foi uma das possibilidades de título do ensaio sugerida pelo próprio Nazareno. 1

anuário IAB.pb


CIDA— DE BAI XA POR

anuário IAB.pb

Dayse Euzébio

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anuário IAB.pb


MAR— GENS DE— AREIA POR

Diego Nóbrega

anuário IAB.pb

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71 —

anuário IAB.pb


O moderno.

2003

OLHO D—O TEMPO

Olho do tempo.

POR

Christian Azevedo

2002

anuário IAB.pb

— 72


Rio pra não chorar.

73 —

2005

anuário IAB.pb


JA— GUA RIBES, CATO —LÉS POR

Nazareno Andrade

anuário IAB.pb

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75 —

anuário IAB.pb


FOR— MAS DA CIDA -DE POR

anuário IAB.pb

Helder Lopes

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77 —

anuário IAB.pb


TI ME LA PSE

Reunião de trabalho na sede do IAB.pb

IAB.pb se reúne com o CACAU/UFPB

IAB.pb participa do 7º Fórum Urbano Mundial, em Medellín / Colômbia

Reunião do COSU/IAB, em Fortaleza

Reunião de trabalho na sede do IAB.pb

Debate sobre as impressões do 7º Fórum Urbano Mundial e a cidade de Medellín, na UFCG

1ª Assembleia Geral IAB.pb 2014

anuário IAB.pb

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Conversas de Quinta com Oliveira Junior, do escritório 7S34W

Abertura do Conversas de Quinta

Conversas de Quinta com Francisco Sales Trajano Filho (IAU/USP)

Conversas de Quinta + Aula Inaugural PPGAU/UFPB com Carlos Martins (IAU/USP)

Conversas de Quinta com Marco Suassuna

Exposição Luis Saia, Memória e Política. Fotos: Francisco Sales

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anuário IAB.pb


Conversas de Quinta com Haroldo Pinheiro, presidente do CAU/BR

Conversas de Quinta com Nivaldo Andrade (IAB/DN, UFBA, A&P)

Conversas de Quinta com Paulo César Lopes e Susana Montenegro

Público do Conversas de Quinta na cidade de Patos, com o escritório Martins Lucena

Conversas de Quinta em Campina Grande, com Federico Mesa, do Plan:B Arquitectos (Medellín, Colômbia). O evento foi no Parque da Criança, ao ar livre, e reuniu mais de 300 pessoas. Fotos: Pedro Henrique

Em Campina Grande, Conversas de Quinta com Pedro Nitsche, do Nitsche Arquitetos. Fotos: Pedro Henrique

anuário IAB.pb

Em João Pessoa, Conversas de Quinta + ArqDoc com Pedro Nitsche, do Nitsche Arquitetos. Fotos: ArqDoc

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Veja mais fotos e acompanhe as ações do IAB. pb através do nosso site e redes sociais! Site: www.iabpb.org.br/ Fanpage: fb.me/iabpb Twitter: @IAB.pb Instagram: @IAB.pb Youtube: Canal IAB.pb Livestream: Canal IAB.pb Em Patos, Conversas de Quinta com Luciano Andrades, do escritório MAPA (Brasil/Uruguai). Fotos: Pedro Henrique

Conversas de Quinta com David Barragán, do escritório equatoriano Al Borde. O evento foi realizado no Largo de São Frei Pedro Gonçalves, Centro Histórico de João Pessoa, em frente à sede do IAB.pb. O ciclo de palestras foi encerrado com show da banda Manu Lima e Sensualidade Nagô. Fotos: Eudes Raony

Semana de Cinema IAB.pb Campina Grande. Fotos: Pedro Henrique

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anuário IAB.pb


Ex—pediente Organizadores do Anuário IAB.pb 2014 Marcus Vinicius Dantas de Queiroz Camila Leal Natália Aurélio de Sá Pedro Freire de Oliveira Rossi Tadeu de Brito Melo Projeto Gráfico Imaginária – João Faissal IAB.pb Largo de São Frei Pedro Gonçalves, 02 Varadouro, João Pessoa, Paraíba Telefone: (83) 3222 1975 http://www.iabpb.org.br

ANUÁRIO IAB.pb 2014 Queiroz, Marcus Vinicius Dantas de... [et al.] ; João Pessoa : IAB.pb, 2014. e-book, 84 p.: il.; 245 x 340 mm. ISBN 1. Arquitetura e Urbanismo. 2. Paraíba. 3. IAB.

anuário IAB.pb

imaginária Essa obra é realizada em parceria com o projeto de adoção da Imaginária, onde boas propostas ganham um carinho e um cuidado em sua comunicação visual. Envie sua proposta: www.imaginaria.cc/adocao

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anuário IAB.pb


—UNA OIRÁ— —ITSNI .OD .SOD .OTUT —ETIUQ—RA AD — SOT .ABÍAR—AP —4102 anuário IAB.pb

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