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Rute - Panorama Bíblico

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PANORAMA BÍBLICO ESTUDO Nº 9 – RUTE I.

INTRODUÇÃO

“Esta curta história composta de assuntos domésticos de uma família em particular, com muita propriedade dá seguimento ao livro dos Juízes (pois os eventos ali relatados se deram nos dias dos Juízes) e também com muita propriedade precede os livros de Samuel, porque seu final nos introduz Davi. Não há relato de leis, milagres, conflitos ou vitórias, nem das questões do Estado, mas primeiro a aflição e depois o conforto de Noemi; também a conversão e posterior exaltação de Rute. O propósito deste livro é: (1) Apontar para a Providência, nos mostrando que mesmo nossas questões diárias são contempladas por Deus – veja 1 Samuel 2:7,8; Salmo 113:7-9. (2) Apontar para Cristo, que descendeu de Rute, de Quem parte da genealogia é incluída neste livro, como vista em Mateus 1. Fala da conversão da moabita Rute e em sua introdução à ancestralidade do Salvador temos um tipo do chamamento aos Gentios, em devido tempo, à comunhão de Cristo Jesus, nosso Senhor. as aflições de Noemi e Rute são-nos apresentadas, capítulo 1; relatos de sua humildade de trabalho, capítulo 2; sua aliança com Boaz, capítulo 3; e sua felicidade final, capítulo 4. Lembremo-nos que o cenário desta história é Belém, a cidade onde nasceu nosso Redentor.” – (Comentário de Exposições com Observações Práticas de Matthew Henry, c. 1704) Autor: Não identificado, este autor favorece a posição de ser o profeta Natã. Ocasião: Durante o período do Juizado, muito provavelmente no mesmo período introdutório dos acontecimentos do final do livro dos Juízes; principalmente porque os Moabitas foram derrotados por Eúde, que foi o segundo dos juízes.

II.

ESQUEMA DO LIVRO

O Livro de Rute pode ser esquematizado de duas formas, a primeira, com relação à narrativa; a segunda, com relação à poesia. Consideremos, primeiro, a estrutura narrativa: 1. 2. 3. 4. 5.

A família de Elimeleque migra para Moabe, 1:1-5 A viúva e sua nora tomam momentosa decisão, 1:6-22 Rute rebusca os campos de Boaz, 2:1-23 Rute encontra um Redentor, 3:1-18 Boaz casa-se com Rute, 4:1-22

É importante notar que a história é literal e de fato aconteceu; há um elemento histórico e social muito forte nela; mas o autor (que consideramos ser Natã) a narrou com poesia.


Uma introdução à poesia hebraica: diferente de nosso estilo poético que é oriundo do período medieval e que consiste em ritmo e sonoridade, a poesia hebraica é caracterizada pelo jogo de palavras: oposições, sinônimos, metáforas e repetições. Isto está presente em vários livros da Bíblia, assim como no livro de Rute. Consideremos, então, a estrutura poética: (a) A Família (1:1-5) (b) A dor e a tristeza de Noemi (1:6-22) (c) O encontro do Redentor (2:1-23) (c1) Diálogo de NOEMI e RUTE (2:1,2) (c2) Diálogo de RUTE e BOAZ (2:3-17) (c3) Diálogo de RUTE e NOEMI (2:18-23) (c3) Diálogo de NOEMI e RUTE (3:1-5) (c2) Diálogo de BOAZ e RUTE (3:6-15) (c1) Diálogo de RUTE e NOEMI (3:16-18) Obs: Obviamente esta ordem não é uma mera coincidência, mas o estilo do autor que é caracteristicamente poético. (c) O Redentor redime (3:1-18) (b) A Alegria de Noemi (4:13-17) (a) A Família (4:18-22)

III.

VERDADES NA NARRATIVA

1. Planos humanos são frustráveis. Toda a história começa com um plano de um pai de família, Elimeleque (“Deus é Rei”) para cuidar da sua família. Ele age de maneira que nos parece ser impulsiva e pouco sábia, pois procura refúgio nos moabitas e abandona sua herança em Judá, se a história aconteceu, como entendemos, nos dias prévios a Eúde, temos ainda um exemplo de conduta mundana que não pode ser assimilada pelo povo de Deus, o misturar-se com aqueles que não temem o Senhor nem vivem a vida da Fé. Contudo, Elimeleque morreu, no que podemos ver a verdade do Salmo 146:3,4: “Não confieis em príncipes, nem em filho de homem, em quem não há salvação. Sai-lhe o espírito, volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos.”, bem como logo, ou algum tempo, depois, morreram seus filhos Malom (“doentio”) e Quiliom (“falho”). Esvaiu-se a segurança e o sustento de Noemi, a ser multiplicado pelo fator de ela estar numa terra estrangeira, onde hostilidade lhe poderia ser demonstrada, e, sobretudo, não tinha ninguém a quem recorrer. Os projetos humanos são intrinsecamente falhos. Mesmo aqueles que consideramos mais exatos podem se desfazer bem diante de nós; lembrando de Tiago 4:13-15: “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo.” Jamais devemos confiar mais em nossos planos, ou naquilo que compreendemos, do que no Senhor. Provérbios 3:5,6.

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2. Deus age por meio dos acontecimentos.O todo da história, e seu desenrolar, vão nos mostrar uma verdade que não era tão sentida na Bíblia até aqui (ainda que presente) e que nos faz amar o livro de Rute com tanto amor e fé: é o livro no qual Deus nos revela que não somente é INTERVENTOR, mas também que é CONDUTOR na história humana; concebermos a Deus somente como INTERVENTOR é afirmar uma ideia quase deísta, e, sobretudo, falha e contrária à Palavra. Deus está Se revelando aqui diante de nós não somente como Aquele que tem poder para interromper cursos de ação e intervir no caminho da maldade, mas também como o Deus Altíssimo que, em alto e sublime trono, age para Sua própria glória e para o bem daqueles que O amam. Teria sido por puro acaso (2:3) que Rute entrou no campo de Boaz, mas a mão soberana de Deus estava agindo e dirigindo seus passos. Por que Deus Se importa com pequenos acontecimentos? Primeiramente, porque não cabe a nós classificar o tamanho ou importância dos acontecimentos; somente Deus os vê em sua plenitude, desenvolvimento e consequências; sem dúvida Deus não é um Senhor dominador, mas um Pai que sabe melhor do que nós o que faz e por que o faz; e em segundo lugar, porque é da natureza todo-amorosa de Deus cuidar dos Seus; isso devenos fazer reconhecer a grandeza da inteligência e soberania do Senhor, porque os acontecimentos da vida cruzam-se e descruzam-se de forma, para nós, emaranhada; mas, para Deus, perfeitamente harmonizada e linear. 3. Deus é soberano sobre eventos, pessoas e fenômenos. A fome que abateu Israel nos primeiros acontecimentos do livro foi perfeitamente domina-da (e em certa medida creio que enviada, pois inserir citação deuteronômio) pela mão de Deus; não somente Ele estava a exercer juízo sobre a nação idólatra; isso é o grande; o minucioso foi a forma como Rute, uma moabita, foi incluída na história da salvação. A decisão de Elimeleque: por que não ir para o norte, onde havia campos verdes? Ou para Harã? Ou o reino dos Hititas? Por que ir para Moabe? (especialmente considerando que os moabitas em nada eram amigáveis aos filhos de Israel) – as decisões humanas são decisões autênticas, pelas quais cada um é responsável; mas são também contidas pela Vontade Maior, e, conquanto isto seja um mistério, é uma realidade bem palpável, assim no livro de Rute como qualquer um pode perceber, desde que sensível e capaz de notá-lo. É um livro que enaltece, portanto, a soberania do Senhor Deus, pois esta é a grande força que une histórias de vida, propósitos, ultrapassa tempo e distâncias, para que tudo convirja da forma que o próprio Deus determinou. A interrelação entre soberania divina e vontade humana é, em grande medida, um mistério; mas sabemos que Deus é soberano e que nós somos autênticos agentes, responsáveis, inclusive, pelas decorrências de nossas decisões. 4. A graça de Deus é uma força atuante na história. Convém à nossa fé esclarecer a interrelação que existe, e que esta história bem exempli-fica, entre soberania e graça. Muitos parecem ter uma concepção da graça somente como passiva, como a não-reação de Deus a nossos pecados; mas a graça de Deus é vista em cada expressão de amor de Sua soberania; vemos a graça de Deus dirigir a história para que Rute adentrasse a genealogia do Verbo Encarnado, não como “plano B”, mas como alvo por Deus determinado desde o princípio. Cristo Jesus é o centro da história, é o ponto principal do governo divino; nossas histórias pessoais, ainda que entretecidas de incontáveis detalhes, são parte da história principal em que se centram. Dessa maneira temos diante de nós a infinita sabedoria do Senhor Deus, vemos a força da Sua [3]


mão, porque Deus dirige os acontecimentos que compõem cada uma de inúmeras vidas, tecendo por todas elas, a grande história do Filho de Deus. A graça é uma força ativa, que planeja e conduz os caminhos da história.

IV.

EXEMPLOS MORAIS

1. Noemi: Coragem, Sinceridade, Fé, Humildade. A conduta de Noemi é um exemplo que devemos seguir nos tempos de nossas provações em nossa vida: ela demonstrou resignação, uma virtude que nem sempre encontramos. Enxergamos nela a história feminina de Jó, ambas histórias a nos ensinar que Deus cuida do Seu povo. Ela era mulher humilde, simples, sujeita ao Senhor Deus, tal como nós devemos ser, e a santificação esculpirá tais marcas santas em nosso caráter. 2. Rute: Conversão, Lealdade, Entrega, Dedicação. A moabita identificou-se com o povo de Israel por completo. Sabemos que Moabe tinha antagonismo a Israel, sabemos também que ela teria abrigo em sua família, em sua viuvez. Contudo, sua opção, diferente de Orfa, movida por uma auto-identificação e fé que somente provêm da conversão. Ao nascermos de novo, nossa identidade com outras vinculações é rompida, passamos a nos ver como povo do Senhor. Assim como Raabe, algumas décadas antes, Rute, uma gentia, foi incorporada ao povo de Deus pela sua conversão. A mesma lealdade, compromisso e dedicação devem ser vistos em nós como fruto de nossa salvação por Cristo. 3. Boaz: Alteridade, Compaixão, Graça, Sabedoria. Boaz, enfim, é um homem que todo jovem cristão, todo homem cristão, deve almejar seguir seus passos; que todos, homens e mulheres, devem se inspirar em sua sabedoria, disposição generosa, desprovido de egoísmo, sensível e altruísta. Não era compulsório a Boaz que resgatasse Noemi, contudo, o fez; nos planos de Deus, das duas sementes viria o Rei Davi, e, mais adiante, o Senhor. O que podemos aprender? Que nossos passos de hoje, dirigidos por Deus, visam a fruto lá na frente, que ainda não enxergamos, mas que o Todo-Poderoso já designou: “porque somos feitura Sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2:10).

V.

FIGURAS, TIPOS E ANALOGIAS

1. Rute é uma figura da Igreja. A Cristandade, ao longo dos séculos, sempre obteve esta leitura gloriosa deste livro: Rute é uma figura da Igreja: gentia, em miséria, vivendo de migalhas, resgatada e elevada a uma posição de honra e glória nos planos de Deus. Este livro poético, baseado numa história real, conta-nos em figura a história de cada alma que Cristo adquiriu para Si: amados apesar de nosso estado e origem estranha às alianças, elevados para muito acima do que jamais imaginaríamos. 2. Boaz é uma figura do Senhor. E como não seria? Paga o preço do resgate, honrado e verdadeiro acima de toda prova, de alma generosa e de inquestionável submissão a Deus. Boaz revela muitas marcas que vemos ainda ampliadas no Senhor Jesus. Mas sobretudo em que foi resgatador, ele é figura do Sumo Resgatador. A história é mais de resgate do que de romantismo. Seus valores são mais heroicos do que melancólicos. Suas verdades são mais concretas do que ilustrativas. Porém vemos que no sentido imediato houve uma grande ação de Deus de imensos resultados na história, e no sentido típico neste livro de quatro capítulos está escrita a história de nossa salvação. A Bíblia é um livro que conta esta história gloriosa. E glória ao Senhor que nos salva de maneira tão misericordiosa, que resgata a miseráveis tais quais nós, que nos regozijamos em tão grande resgate que tanta bênção nos traz! [4]


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Rute - Panorama Bíblico by Hugo Zica - Issuu