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Hoje Macau 06 JULHO 2022 #5043

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HOJE MACAU DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

Os dias do cerco

Prestes a atingir o número redondo de 1000 casos, Macau viu ontem dois espaços de grandes dimensões serem atingidos pela covid-19. Four Seasons e Grand Lisboa fecharam portas após serem detectados vários casos positivos do novo coronavírus. A RAEM registava ontem 941 casos confirmados. PÁGINAS 4-5

QUARENTENA

AMOR DE PAI PÁGINAS 4-5

CHINA

IMOBILIÁRIO CRIATIVO PÁGINAS 10-11

UN PHOTO/MANUEL ELIAS

Nº 5044

MOP$10

ONU | MACAU

EXPLICAÇÕES PRECISAM-SE PÁGINA 6

OPINIÃO

GCS

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QUARTA-FEIRA 6-7-2022

ABORTO, OUTRA VEZ TÂNIA DOS SANTOS

LIVRO

COVID-19

QUO VADIS, MACAU? PUB PUB.

PUB

PÁGINAS 2-3

DANÇAR EM GOA EVENTOS


2 especial covid-19

6.7.2022 quarta-feira

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PANDEMIA

TESTES FREQUENTES NÃO RESULTAM COM ÓMICRON, APONTA EPIDEMIOLOGISTA

Manuel Carmo Gomes, epidemiologista e um dos principais rostos da análise da pandemia de covid-19 em Portugal, aponta que a realização de confinamentos e testes em massa frequentes não funcionam com a variante Ómicron, apontada como a mais comum nos casos registados em Macau. Os testes, defende, devem ser usados apenas como estratégia de diagnóstico e não de rastreio

TATIANA LAGES | LUSA

Por onde vais, A

v i d a dos residentes em Macau transformou-se num rodopio de marcação de testes PCR ou realização de auto-testes em casa desde que começou o mais recente surto de covid-19, a 19 de Junho, o mais grave desde o início da pandemia. As autoridades apostam na combinação de testes em massa à população e auto-testes para detectar casos de infecção, mas, ao HM, o epidemiologista português Manuel Carmo Gomes, um dos principais rostos na análise à situação pandémica em Portugal, critica esta abordagem dos Serviços de Saúde de Macau (SSM).

“Existem três estratégias possíveis para contrariar a propagação e a morbilidade causada [pelo novo coronavírus]: os confinamentos generalizados ou parciais, a testagem em massa frequente para fins de rastreio, acompanhada de medidas de isolamento dos casos confirmados, o rastreamento dos contactos dos casos e a testagem dos mesmos. Temos ainda a vacinação em massa com esquema primário, mais uma dose de reforço. A China parece estar a utilizar as duas primeiras opções”, descreveu. No entanto, o especialista é peremptório: “as duas primeiras estratégias não funcionam com a

O especialista aconselha critérios “mais inteligentes e eficazes” no combate à pandemia, tal como “adoptar medidas para conseguir administrar o esquema vacinal primário, de duas doses e mais uma de reforço, a pelo menos 90 por cento da população acima de 60 anos”

variante Ómicron”, além de terem “custos sócio-económicos muito elevados, sobretudo a primeira [confinamentos]”. Testar e confinar “funcionaram com as primeiras variantes do vírus, ou, pelo menos, funcionaram suficientemente bem para interromper as cadeias de transmissão e manter uma política de zero covid”. Manuel Carmo Gomes entende que a testagem deve ser usada de forma diferente, “não como rastreio, com testes indiscriminados para todos, mas sim como diagnóstico, apenas para identificar casos suspeitos em pessoas com sintomas ou contactos de casos”.


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Macau?

“Entendemos que a resposta inicial da China foi tentar suprimir as infecções ao máximo, mas essa estratégia não é sustentável e outros elementos precisam de ser amplificados.”

nistração das três doses continuar “atrasada” em Macau, sobretudo junto da população mais idosa. “Esta variante é ainda mais transmissível e, poucos meses após o último contacto com o antigénio (vacina ou infecção), consegue evadir aos anticorpos induzidos, quer por infeções anteriores, quer pela vacinação. Consequentemente, a generalidade dos países optou pela terceira estratégia, a da vacinação, acompanhada da tolerância à circulação do vírus e de grande enfoque na protecção dos grupos mais vulneráveis, como os idosos, imunocomprometidos ou doentes crónicos.” Actualmente, afirma, “não é possível travar a circulação da Ómicron”, uma vez que “mesmo que se consiga travar durante algumas semanas, com medidas como a testagem frequente ou confinamentos, logo que as medidas são aliviadas, a Ómicron regressa em força”. “É uma batalha perdida à partida”, adiantou o especialista.

MICHAEL RYAN DIRECTOR DE EMERGÊNCIAS DA OMS

A 30 de Junho foi anunciado que, dos novos casos de covid-19 registados no território, 19 por cento das pessoas não estavam vacinadas, enquanto que menos de metade tem as três doses. Leong Iek Hou, médica e coordenadora do Centro de Coordenação e de contingência do novo tipo de coronavírus, declarou que a taxa de vacinados continua a não ser “muito alta”. “Dos 572 casos [registados a 30 de Junho], 109 não foram vacinados - uma taxa muito alta - 23 receberam a primeira dose, 216 receberam as duas doses e 224 pessoas as três doses. Através destes números podemos ver que a taxa de não vacinados é muito alta, comparando com a taxa de vacinação de 90 por cento em Macau”, acrescentou. Foram já vacinadas 613.720 pessoas, sendo que 586.020 completaram duas ou mais doses, de um total de cerca de 680 mil habitantes. As autoridades têm feito apelos reiterados à população para que se vacine, sobretudo aos idosos - com uma taxa mais baixa de imunização - a quem foram oferecidos em Maio ‘vou-

A “forte” realidade

do que as autoridades reduziram o período de sete para cinco dias de isolamento. O epidemiologista entende que a vacinação continua a ser a forma mais eficaz no combate à covid-19, alertando para o facto de a admi-

“A realidade é demasiado forte para que as soluções fantasiosas prevaleçam muito tempo.” MANUEL CARMO GOMES EPIDEMIOLOGISTA

“Esta estratégia garantiu a saúde de 1,4 mil milhões de pessoas e protegeu grupos vulneráveis. Tornou a China num dos países que melhor conseguiram conter a covid-19.” ZHAO LIJIAN MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS CHINÊS REUTERS

CNN PORTUGAL

Estas pessoas devem ficar isoladas por um período de tempo nunca superior a sete dias, “caso os sintomas desapareçam”. De frisar que, em Portugal, por exemplo, os isolamentos dos casos covid-19 se fazem no domicílio do doente, sen-

A China, incluindo Macau e Hong Kong, parecem apostadas a manter-se nessa batalha. Manuel Carmo Gomes acredita, no entanto, que o país e as duas regiões administrativas especiais vão “inevitavelmente abandonar as duas primeiras estratégias em que, por enquanto, a insistem”. “A realidade é demasiado forte para que as soluções fantasiosas prevaleçam muito tempo”, acrescentou. O especialista aconselha critérios “mais inteligentes e eficazes” no combate à pandemia, tal como “adoptar medidas para conseguir administrar o esquema vacinal primário, de duas doses e mais uma de reforço, a pelo menos 90 por cento da população acima de 60 anos”. Deve ainda ser administrado um segundo reforço “antes do próximo Inverno”. Usando ainda a testagem como forma de diagnóstico, será possível “tolerar a circulação do vírus, contribuindo para a imunidade natural das pessoas que não têm risco de doença grave”. Ao mesmo tempo, “controlam-se os casos graves de doença”.

chers’ até um valor máximo de 250 patacas como forma de incentivo. Para esta semana, a população terá de testar novamente na quarta, quinta e sexta ronda de testes em massa, que terminam às 18h de sábado. Os bebés e as crianças nascidas após 1 de Julho de 2019 estão isentos desta medida.

Confronto antigo

Os comentários de Manuel Carmo Gomes estão em linha com as declarações da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Maio deste ano: a política de zero casos covid-19 não é sustentável do ponto de vista económico. Tedros Adhanom Ghebreyesus, chefe da OMS, disse que hoje, dois anos depois do início da pandemia, “conhecemos melhor o vírus e temos melhores ferramentas, incluindo vacinas, por isso a gestão do vírus deve ser diferente do que o que foi feito no início da pandemia”, disse. O responsável acrescentou que o vírus mudou significativamente desde que foi identificado pela primeira vez, na cidade chinesa de Wuhan, no final de 2019. Além disso, o director de emergências da OMS, Michael Ryan, disse que a agência reconhece que a China enfrenta uma situação difícil e elogiou as autoridades por manter o número de mortes num nível muito baixo. “Entendemos que a resposta inicial da China foi tentar suprimir as infecções ao máximo, mas essa estratégia não é sustentável e outros elementos precisam de ser amplificados”, apontou. Ryan acrescentou que os esforços de vacinação devem continuar e enfatizou que uma “estratégia apenas de supressão não é uma forma sustentável de sair da pandemia para nenhum país”. A estratégia de zero casos covid-19 já levou ao confinamento inteiro de cidades, com Xangai a ser o caso mais grave e conhecido mundialmente, com a ocorrência de situações como falta de comida em muitas casas ou ausência de cuidados médicos. A China manteve-se sempre firme na sua posição. “Esta estratégia garantiu a saúde de 1,4 mil milhões de pessoas e protegeu grupos vulneráveis. Tornou a China num dos países que melhor conseguiram conter a covid-19. Esperamos que as pessoas envolvidas possam ver as políticas antiepidémicas da China de forma objectiva e racional. Eles precisam de conhecer melhor os factos e parar de fazer comentários irresponsáveis”, explicou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian. O HM contactou ainda outros epidemiologistas portugueses no sentido de obter mais comentários à política pandémica seguida em Macau, mas muitos deles optaram por não responder por desconhecerem a realidade do território. Andreia Sofia Silva


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FOUR SEASONS AUTORIDADES FECHAM APENAS PRIMEIRO PISO DE CENTRO COMERCIAL

FOTOS TDM

Morte lenta

Existem 40 casos de covid-19 associados ao primeiro andar do centro comercial do Four Seasons. As autoridades mandaram encerrar as lojas, mas mantêm o segundo piso a funcionar, por entenderem “que não há indício de contágio”. Grand Lisboa tem 13 casos positivos, mas encerramento não foi confirmado até ao fecho desta edição. No entanto, segundo a TDM, algumas zonas terão sido seladas

A

S autoridades decidiram encerrar as lojas do primeiro andar do centro comercial do empreendimento Four Seasons até domingo devido ao surgimento de 40 casos de covid-19. No entanto, o segundo andar vai permanecer aberto. “Achamos que há um risco elevado de contágio no primeiro piso. Já tínhamos pedido o encerramento das lojas, mas percebemos que algumas continuavam a funcionar. No segundo piso não há qualquer indício de contágio, pelo que não exigimos o encerramento”, disse Leong Iek Hou,

No Grand Lisboa há casos positivos num “grupo de 13 pessoas que trabalham em diferentes áreas” do casino e hotel

“Q

UERO matar-me”, diz entre risos Marco Canarelli, bem-humorado, sobre a circunstância complicada de estar em quarentena com o filho de um ano e meio. Apesar da boa disposição, o residente que vive em Macau há 12 anos enfrenta uma realidade deprimente e pondera abandonar de vez o território. “O meu filho está constantemente a chamar pela mãe, fico muito triste por não podermos estar juntos em casa, por não lhe ser permitido ir à escola ou ao parque”, conta ao HM. Tudo começou quando a esposa de Marco Canarelli recebeu uma chamada das autoridades a notifi-

Onde está a mamã? Diário de um pai em quarentena com bebé de um ano e meio

car para a necessidade de cumprir quarentena de oito dias devido ao “contacto próximo” com um caso positivo na cantina do local de trabalho. Esse contacto terá acontecido no dia 27 de Junho, segunda-feira, e a chamada que trocou às voltas à família foi feita no passado domingo, dia 3 de Julho. Como o pai e a criança foram considerados contactos secundários, a quarentena terá um período de 5 dias e a opção de juntar a família toda num

quarto do Hotel Sheraton foi posta de lado, para minorar o período de isolamento da criança. Quando chegaram ao hotel, o residente de origem italiana pediu uma banheira para bebés, desinfectantes e produtos para crianças pequenas. “Coisas que quando pedimos quando fizemos staycation e que nos deram, mas desta vez disseram-me que não podiam providenciar esse tipo de bens por não terem mais disponí-

veis. Também perguntei se tinham comida para bebés, porque o menu infantil não é adequado para crianças de um ano. Perguntaram-me se tinha leite em pó e se precisava que fossem comprar. Felizmente, trouxe de casa porque já estava a prever isto”, revelou o pai ao HM.

Dias atribulados

Na noite em que as autoridades levaram a esposa para quarentena, Marco Canarelli pediu para ser

conduzido ao isolamento na manhã seguinte. “Eram 22h e o meu filho já estava a dormir. Disse-lhes ‘não, desculpem, mas o meu filho acabou de adormecer e não o quero acordar’. Pedi para nos buscarem na manhã seguinte. Por volta das 23h vieram buscar a minha mulher. O meu filho acordou a meio da noite, não viu a mãe quando chamou por ela e começou a chorar”, conta. O dia seguinte começou com uma “boleia” para o Dome, onde pai e filho foram submetidos a um “agressivo” e “muito profundo” teste de ácido nucleico. Durante a manhã toda, entre as 8h30 e as 12h, o bebé chamou constantemente pela mãe. Sem a presença


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Perto de mil

O território contava ontem com 941 casos positivos confirmados, sendo que o paciente mais novo tem apenas três meses. O bebé não tem febre e “alimenta-se bem, tendo uma situação de saúde estável”. Situação diferente é a de um doente com 71 anos, com doença crónica e cujo estado de infecção evoluiu para pneumonia. “Neste momento o doente está ligado ao ventilador e não descartamos a possibilidade que a situação de saúde venha a piorar”, disse Leong Iek Hou. Além disso, há 21 profissionais de saúde infectados, número que se mantém estável. Neste momento registam-se 800 pessoas de contacto próximo, assintomáticas ou com sintomas leves a cumprir quarentena em hotéis. Seis pessoas que testaram positivo já deixaram o isolamento ou tiveram alta. Dos 941 casos, 559 são assintomáticos. Relativamente às nacionalidades, 766 casos são locais ou pessoas oriundas do interior da China,

Bancos Clientes esperam sete horas

HOJE MACAU

médica e coordenadora do Centro de Coordenação e de Contingência do novo tipo de coronavírus. Em relação ao Grand Lisboa, há casos positivos num “grupo de 13 pessoas que trabalham em diferentes áreas” do casino e hotel. Um jornalista da TDM disse ter na sua posse vídeos que comprovam o encerramento do Grand Lisboa, mas Leong Iek Hou nada confirmou. “Não vi esses vídeos e não sei como está a situação lá fora. Temos outros assuntos a serem decididos neste momento e se faço um anúncio aqui isso irá afectar os restantes trabalhos. Iremos anunciar mais tarde em nota de imprensa”, adiantou. No entanto, segundo o canal chinês da TDM, o edifício foi mesmo selado, tendo sido bloqueadas as zonas de entrada e saída, bem como o parque de estacionamento e locais de passagem dos funcionários. No local estavam ainda funcionários a usar roupas de protecção.

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A abertura parcial dos bancos, decretada a partir de segunda-feira, levou a que os clientes tenham esperado cerca de sete horas para serem atendidos, uma vez que o horário de funcionamento é apenas entre as 10h e as 16h. Segundo o Jornal do Cidadão, às 16h45 havia ainda dez clientes à espera para serem atendidos na sucursal do Banco da China na avenida Almeida Ribeiro, sendo que a maioria eram idosos. Residentes ouvidos pelo jornal confessaram que chegaram à porta do banco logo de manhã, tendo esperado grande parte do tempo de pé. Os clientes dizem compreender as medidas de prevenção da pandemia, mas alertam para o menor tempo de atendimento que leva a uma aglomeração de pessoas, o que envolve um maior risco de contágio.

Fronteira Turistas pedem regresso a casa existindo 53 casos do Nepal, 57 das Filipinas, 17 do Myanmar e 11 da Indonésia, existindo ainda outras nacionalidades. Uma vez que serão realizadas mais duas rondas de testes em massa nos próximos dias, as autoridades asseguram que só depois de analisados os resultados é que podem definir as próximas medidas a adoptar para travar a pandemia. “Prevemos que o número de infecções aumente com a realização da quarta ronda de testes. Temos de fazer uma avaliação e tomar

“Prevemos que o número de infecções aumente com a realização da quarta ronda de testes. Temos de fazer uma avaliação e tomar decisões na quinta e sexta ronda de testes.” LEONG IEK HOU MÉDICA materna, a possibilidade de ir ao parque ou estar em zonas de conforto, a criança busca incessantemente a atenção do pai, não brinca sozinho, nem se consegue distrair, encontrando tranquilidade temporária durante as vídeo-chamadas com a mãe. “É muito difícil manter uma criança fechada num quarto durante

decisões na quinta e sexta ronda de testes”, adiantou a responsável.

Mistério do paciente zero

O território contava ontem com 941 casos positivos confirmados, sendo que o paciente mais novo tem apenas 3 meses

Um mistério que permanece é a origem do surto. “Há que compreender que é difícil encontrar o paciente zero de entre tantos países e regiões. Fizemos a sequência dos genes e todos são da mesma fonte, com o paciente zero que começa a espalhar em toda a comunidade de Macau”, disse Leong Iek Hou. Outra das novidades, prende-se com a obrigatoriedade dos trabalhadores das áreas da limpeza, segurança e gestão de condomínios terem de realizar um teste diário à covid-19 até sábado, por representarem “um maior risco de transmissão do vírus”. “Este teste terá um intervalo de 24 horas que será contabilizado para a testagem em massa, pelo que os trabalhadores não precisam de repetir os dois testes. Apelamos a que os empregadores deixem que os trabalhadores façam os testes no horário de trabalho. Os nossos serviços estão a contactar os sectores para uma melhor coordenação

e alguns postos vão prolongar os horários de funcionamento. Esta não é uma exigência para se apresentarem ao trabalho”, foi dito. Quanto às grávidas em isolamento, caso entrem em trabalho de parto e necessitem de uma cesariana, esta será realizada no Centro Hospitalar Conde de São Januário. “Recebemos vários pedidos de consulta. No Centro Clínico de Saúde Pública do Alto de Coloane não temos salas de operações. Se uma grávida necessitar de ter o seu filho, temos profissionais que assistirão ao parto no local, mas em caso de cesariana a grávida será enviada numa ambulância de pressão negativa para o São Januário”, disse Leong Iek Hou. Andreia Sofia Silva

tanto tempo. Se antes pensávamos ficar, agora estamos mais inclinados a sair de Macau, especialmente se esta situação se mantiver. Vamos em três anos de pandemia, muitos amigos já se foram embora e estamos a considerar que talvez seja a melhor opção. Não me parece que Macau volte a ser o que era”.

O residente revelou ainda que depois da primeira chamada das autoridades chegou a ponderar levar a família até ao aeroporto e apanhar o primeiro voo para o exterior, ideia que passou a fantasia depois de ver o seu código de saúde ficar amarelo e o da esposa vermelho. João Luz

Residentes do Interior que foram apanhados de surpresa pelo encerramento de fronteiras devido ao surto de covid-19 pediram, em declarações ao jornal do Cidadão, aos governos de Macau e Zhuhai uma solução para regressarem a casa. Um dos turistas revelou estar retido em Macau há quase duas semanas e que os bens de primeira necessidade começam a escassear. Outro turista, oriundo de Jiangmen, está retido em Macau desde o dia 19 de Junho e divide um quarto com outros visitantes nas mesmas circunstâncias. Como a família não o pode ajudar, declarou ao jornal do Cidadão que deseja que as autoridades de ambos os lados acordem uma solução que lhe permita regressar a casa. Além disso, como viu pessoas na rua sem máscaras, sugeriu que o Governo da RAEM imponha uma ordem de uso obrigatório de máscara.

Legumes e fruta Cerca de 426 toneladas entraram ontem

O Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) reportou a entrada de 290 toneladas de legumes e verduras ontem em Macau, segundo dados da Sociedade do Mercado Abastecedor de Macau Nam Yue. Além das verduras, deram entrada no território 136 toneladas de fruta, 449 suínos destinados ao mercado de consumo e cerca de 310 mil ovos.


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ONU DIREITOS DE MANIFESTAÇÃO E PARTICIPAÇÃO EM ELEIÇÕES LEVANTAM DÚVIDAS

Há um elefante na sala

A

exclusão do campo pró-democracia das eleições para a Assembleia Legislativa, a proibição de os trabalhadores não-residentes organizarem manifestações e a vaga de saídas no canal português da TDM na sequência de instruções “patrióticas” são algumas das preocupações levantadas pelo Grupo de Investigação sobre Macau junto da Organização das Nações Unidas (ONU). Apartir de quarta-feira da próxima semana, o Comité dos Direitos Humanos da ONU vai ouvir uma delegação da RAEM sobre a implementação do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Antes da sessão, a sociedade civil é convidada a enviar opiniões e preocupações, como fizeram diferentes partes, incluindo o Grupo de Investigação sobre Macau, que tem como representante Jason Chao, activista local radicado na Europa. Em relação ao processo eleitoral de 2021, o grupo destaca a exclusão de candidatos que tinham sido autorizados a participar nas eleições de 2017, sem que as leis da RAEM tenham sido alteradas. Por isso, o grupo aponta que o acto eleitoral do ano passado, que teve a participação mais baixa de sempre desde a criação da RAEM, violou os artigos 25.º e 26.º do pacto internacional.

Segundo o artigo 25.º, “todos os cidadãos gozarão” sem qualquer distinção e “sem restrições indevidas” de ser “eleitos em eleições periódicas, autênticas, realizadas por sufrágio universal, por voto secreto que garanta a livre expressão da vontade dos eleitores”. Por sua vez, o artigo 26.º proíbe qualquer discriminação com base em “opiniões políticas”. Neste sentido, é solicitado que o comité peça às autoridades locais para garantirem que todos os residentes podem participar nas eleições sem qualquer discriminação e que se garanta a liberdade de expressão. Entre os apelos consta que a revogação do artigo da lei eleitoral que estipula a exclusão de candidatos que não declarem a defesa da Lei Básica nem a fidelidade à RAEM.

Ruas de ninguém

O grupo destaca também os acontecimentos de Fevereiro de 2021, quando cidadãos oriundos do Myanmar tentaram organizar uma manifestação

O CPSP defendeu que o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos não se aplica directamente em Macau

FACEBOOK

Uma delegação da RAEM será ouvida na próxima semana pelo Comité dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. O Grupo de Investigação sobre Macau enviou as suas opiniões e pede esclarecimentos sobre a exclusão de candidatos do campo pró-democracia das eleições, as proibições de manifestações e as saídas de jornalistas da TDM

põem para o ordenamento jurídico da RAEM essas normas internacionais. Face à situação, é pedido ao comité da ONU que solicite às autoridades da RAEM o respeito do “direito à liberdade de manifestação dos trabalhadores não-residentes, independentemente do estatuto de residência ou nacionalidade”. A liberdade de manifestação é igualmente abordada por outro grupo, identificado como “As pessoas de Macau apoiam Hong Kong”. Este mostra-se preocupado com a proibição de organizar protestos de solidariedade com dissidentes da RAEHK e pede que seja esclarecido se os simpatizantes do movimento democrático de Hong Kong podem ser perseguidos criminalmente.

Liberdade de imprensa

Jason Chao

contra o golpe de Estado no país. A pretensão foi recusada, num episódio em que o Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) afirmou publicamente que os não-residentes não estão abrangidos pela lei que garante o direito de reunião e manifestação. Posteriormente, o CPSP defendeu que o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos “não se aplica directamente” em Macau, mas apenas através de leis locais que trans-

No que diz respeito à liberdade de imprensa, destaca-se o caso das instruções emitidas no canal português da TDM para excluir vozes críticas do Governo Central. O Grupo de Investigação sobre Macau pede ao comité que apele às autoridades da RAEM para que as instruções sejam retiradas, garantindo acesso a opiniões variadas aos meios de comunicação e que não se transforme a emissora pública num órgão que abafa opiniões divergentes. Sobre a liberdade de imprensa, o comité recebeu igualmente uma opinião do académico e ex-deputado Gabriel Tong, que considera necessário alterar as leis em vigor, para enquadrar legalmente os órgãos de comunicação online. De acordo com o especialista em direito, o objectivo da nova lei passaria por proteger a situação laboral dos trabalhadores destes órgãos e garantir o acesso à informação. João Santos Filipe

JOGO LANÇADO REGULAMENTO QUE ESTABELECE REGRAS PARA CONCURSO

O

Governo divulgou ontem o regulamento administrativo que estabelece as regras para o concurso às licenças de concessão, que entra hoje em vigor. Na avaliação das propostas, o Governo vai ter em conta, entre outros factores, “os planos de expansão dos mercados de clientes de países estrangeiros, o interesse para a Região Administrativa Especial de Macau dos investimentos em projectos relacionados e não relacionados com o jogo” e “as responsabilidades

sociais a assumir pelas concessionárias”, indicaram as autoridades em comunicado. A próxima etapa para a atribuição de licenças passa agora pelo lançamento do concurso público, sendo criada uma comissão constituída por três elementos que vão avaliar as propostas. No regulamento determina-se “a alteração dos requisitos relativos à proposta, dos documentos e elementos a apresentar para admissão a concurso”, assim como “disposições relativas

ao conteúdo das cláusulas contratuais que o contrato de concessão deve conter e dos critérios de adjudicação”, pode ler-se na mesma nota. O documento, publicado no Boletim Oficial, “regulamenta o concurso público para a atribuição de concessões para a exploração de jogos de fortuna ou azar em casino, o contrato de concessão e os requisitos de idoneidade e capacidade financeira das concorrentes e das concessionárias”.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

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Rita Santos

COMUNIDADES PORTUGUESAS REUNIÃO COM QUESTÕES CONSULARES NA AGENDA

D

ECORRE até hoje, em Lisboa, a reunião do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas, onde serão discutidos assuntos como “a elevação dos salários dos trabalhadores do Consulado de Macau, a simplificação dos procedimentos para obtenção da certificação do nascimento, renovações do cartão de cidadão e do passaporte”, informou ontem a comendadora Rita Santos, que representa o Conselho Regional da Ásia e Oceânia. Na agenda, Rita Santos pretende também debater “questões de clarificação e desburocratização dos processos de aquisição de nacionalidade por via do casamento e nascimento, incluindo relacionadas com o extravio de documentos de viagem e do cartão de cidadão”, assim como a “obtenção de vistos para chineses residentes não permanentes em Macau para turismo e investimentos em Portugal”. Além das reuniões do Conselho das Comunidades Portuguesas, Rita Santos tem encontros marcados com o Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos e Silva, a Comissão Parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e o Ministro dos Negócios Estrangeiros João Cravinho. J. L.


quarta-feira 6.7.2022

AMCM EMPRÉSTIMOS INTERNOS A PRIVADOS SUBIRAM 0,5% EM MAIO

A

Autoridade Monetária de Macau (AMCM) anunciou ontem que durante o mês de Maio os empréstimos internos ao sector privado cresceram 0,5 por cento em relação ao mês anterior, atingindo 557,1 mil milhões de patacas. No que toca aos empréstimos ao exterior, foi registado no mês em apreço uma subida de 1,1 por cento, correspondendo a um total de 778,2 mil milhões de patacas. Feitas as contas a ambos os segmentos, a AMCM indica que os empréstimos ao sector privado voltaram a crescer 0,9 por cento em relação ao mês anterior, totalizando um valor de 1.335,3 mil milhões de patacas. No campo dos depósitos feitos por residentes, Maio trouxe um crescimento de 0,2 por cento em relação ao mês anterior, para um total de 654,3 mil milhões de patacas. Já os depósitos de não-residentes, decresceram 3,6 por cento, atingindo 352,7 mil milhões de patacas. Por outro lado, os depósitos do sector público na actividade bancária cresceram para 261,4 mil milhões de patacas, um crescimento de 0,2 por cento. Como resultado, o total dos depósitos da actividade bancária diminuiu 0,9 por cento quando comparado com o mês anterior, totalizando 1.268,3 mil milhões de patacas.

sociedade 7

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CONSTRUÇÃO RENOVAÇÃO URBANA JUSTIFICA OMISSÃO DE ACIDENTE COM SURTO PANDÉMICO

Uma barra muito pesada

Após um acidente com seis feridos na construção de habitação temporária e para troca, na Areia Preta, a Macau Renovação Urbana não chamou ambulâncias e optou por transportar os feridos directamente para o hospital. A empresa de capitais públicos afirmou não querer sobrecarregar o pessoal médico

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empresa de capitais públicos Macau Renovação Urbana demorou cinco dias a divulgar a ocorrência de um acidente que resultou em seis feridos, para não sobrecarregar “o pessoal médico”. A explicação foi avançada ao jornal All About Macau, após o acidente na Areia Preta, onde estão a ser construídas habitações públicas temporárias e para troca, ter sido divulgado pelos órgãos de comunicação social. Segundo a empresa, as equipas de salvamento não foram chamadas ao local e os seis afectados foram transportados para os hospitais pelos próprios meios da Macau Renovação Urbana. “No dia do acidente, o médico do estaleiro verificou preliminarmente os trabalhadores, que apresentavam escoriações”, reconheceu a empresa. “Como não queríamos aumentar o stress do pessoal médico local, não utilizámos o serviço de ambulância e os feridos foram transportados para o hospital pelo empreiteiro”, foi acrescentado. Como a construtora não recorreu ao Corpo de Bombeiros para as operações de socorro, a informação nunca foi oficialmente comunicada aos órgãos de comunicação social, ao contrário do que acontece noutros acidentes de trabalho. Após ter sido questionada sobre o assunto, a Macau Renovação Urba-

Turismo Pedido prolongamento de “Passeios, gastronomia e estadia para residentes” O sector do turismo pediu o prolongamento, até ao final do ano, da iniciativa “Passeios, gastronomia e estadia para residentes de Macau”. Segundo o jornal Ou Mun, o evento foi originalmente alargado até 31 de Agosto deste ano. No entanto, com o impacto da pandemia e da política de zero casos, a iniciativa está suspensa há mais de duas semanas e assim deve permanecer até que o número de casos seja controlado. Neste sentido, o

na, detida pela RAEM, reconheceu que durante o processo de colocação de barras de ferro que uma das barras superiores se dobrou e atingiu seis trabalhadores. A companhia não explicou a razão de não ter comunicado a ocorrência publicamente, ao contrário do verificado noutras ocasiões e outros assuntos, que são divulgados através

do Gabinete de Comunicação Social. Porém, a empresa garante que informou os “serviços” competentes.

Pouco convencional

Sobre o facto de o empreiteiro ter transportado directamente os feridos para o hospital, a Macau Renovação Urbana reconhece a forma pouco convencional de actuar e que o esperado

Como a construtora não recorreu aos Bombeiros, a informação nunca foi oficialmente comunicada aos órgãos de comunicação social, ao contrário do que acontece noutros acidentes de trabalho

presidente da Associação de Indústria Turística de Macau, Wu Keng Kuong, deixou o desejo de que o evento possa ser prolongado e sugeriu que seja coordenado com o evento “Carnaval de consumo para toda a cidade”. Este vai ser realizado quando o surto estiver controlado, para impulsionar a procura interna e o consumo comunitário. O sector acredita que a conciliação dos dois eventos é uma boa forma de promover a recuperação económica.

pela população era o recurso às equipas médicas e ambulâncias da RAEM. Face ao procedimento pouco usual, a empresa prometeu “assimilar esta experiência para melhorar” e assegurar a qualidade e a transparência das obras. No melhoramento dos trabalhos foi ainda indicado que haverá uma unificação das técnicas de estabilização de barras de ferro, para evitar que se dobrem, e prevenir acidentes no futuro. Uma pergunta que ficou por responder diz respeito à responsabilidade do acidente. OAllAbout Macau indica ter colocado a questão à Macau Renovação Urbana, mas a empresa não respondeu. Nunu Wu (com J. S. F.)

CÂMARA DE COMÉRCIO EUROPEIA RUI PEDRO CUNHA ELEITO PARA A PRESIDÊNCIA

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UI Pedro Cunha foi eleito presidente da Direcção da Câmara de Comércio Europeia de Macau, de acordo com um comunicado da entidade. Num mandato que se prolonga até Outubro de 2023, Cunha traça como metas cooperar com as entidades locais para promover a integração de Macau na Grande Baía. “Aactual situação económica de Macau e do mundo continua a ser um desafio para as empresas locais e europeias, por isso, é mais importante do que nunca

promover uma boa comunicação e uma boa compreensão com benefícios mútuos”, afirmou Rui Pedro Cunha. “A Câmara de Comércio Europeia de Macau pode assumir um papel na cooperação entre as câmaras nacionais locais, na exploração de novas oportunidades em Hengqin, e na integração da Grande Baía, que é benéfica para Macau. Estou ansioso para começar a trocar ideias e trabalhar em conjunto para conseguirmos alcançar este objectivo”, acrescentou.

O novo presidente, filho do advogado Rui Cunha, vai suceder a Henry Brockman, que deixa o território. Na altura da saída deixou uma palavra de confiança para o novo presidente. “Tenho toda a confiança de que o Rui Pedro vai lidar com habilidade com todos os assuntos da Câmara do Comércio e encontrar novas formas de liderá-la de forma bem sucedida”, afirmou. Henry Brockman estava na liderança da instituição desde 2021.


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6.7.2022 quarta-feira

MÚSICA “A ÚLTIMA DANÇA EM GOA”, DE JOAQUIM CORREIA, EDITADO EM INGLÊS

Melodias de sempre

Joaquim Correia, advogado, professor e autor “Em Goa havia uma profusão de anúncios de música de influência portuguesa por todo o lado. Fiquei espantado com isso e resolvi escrever sobre a música de influência portuguesaem Goa até 1961.”

Lançado em 2018, “A última dança em Goa - Música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa” traça o retrato da cultura da antiga colónia até 1961, ano em que Goa, Damão e Diu deixaram de estar sob administração portuguesa. O livro, editado recentemente em inglês, na Índia, traça um paralelismo entre o teatro tradicional de Goa e o teatro de Macau, em patuá


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NCE Upon a Time in Goa: Music and Dance in a Charming Region and its Diaspora” é o nome da versão em inglês, recentemente editada na Índia, do livro que Joaquim Correia lançou em 2018 sobre a cultura de influência portuguesa que existiu em Goa, antiga colónia portuguesa, até 1961, e que se intitula “A última dança em Goa - Música popular nos últimos anos do Estado da Índia Portuguesa”. Joaquim Correia, advogado, professor e autor, traça aqui um “retrato de Goa antes da transição de poder para a Índia”, sobretudo em matéria de música de influência portuguesa. Não são esquecidos os goeses que, em Portugal, contribuem para a preservação desta cultura. “Em Goa havia uma profusão de anúncios de música de influência portuguesa por todo o lado. Fiquei espantado com isso e resolvi escrever sobre a música de influência portuguesa em Goa até 1961. O livro em português foi editado em 2018, mas depois gerou muito interesse da parte de pessoas em Goa no sentido de editar uma versão em inglês, que saiu há cerca de dois meses. Não se trata de uma segunda edição do livro porque fiz muitas mudanças, embora haja um paralelismo”, contou Joaquim Correia ao HM. O leitor encontra, logo no primeiro capítulo, a descrição das várias bandas musicais que existiam na altura, bem como a história do aparecimento do rock em Goa. Surgem depois novos elementos sobre a cultura na diáspora, sem esquecer a influência do fado em Goa. No prefácio, Edgar Valles, antigo presidente da Casa de Goa em Lisboa, destaca que a música sempre esteve muito presente na comunidade, fazendo parte “do dia-a-dia dos goeses”. “Se é verdade que a música tradicional indiana é apelativa a muitas famílias, especialmente para a comunidade Hindu, existe uma forte influência ocidental, especialmente da língua inglesa. O inglês é a língua falada em Goa, por isso a disseminação da música é algo natural. Mas persiste a influência portuguesa”, pode ler-se.

Semelhanças com patuá

“Once Upon a Time in Goa: Music and Dance in a Charming Region and its Diaspora” descreve ainda a semelhança que existe entre o teatro tradicional em Goa, conhecido pelos termos “Teatr” ou “Tiatr” e feito no dialecto Konkani, com o teatro feito em patuá, actualmente preservado graças ao grupo Dóci Papiaçam di Macau. “Existem ligações porque ambos os teatros têm ligação à revista portuguesa, ambos são teatro de crítica social, têm uma linguagem crioula

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Uma polémica histórica Vedado sítio arqueológico no Marés Vivas em Gaia

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“Once Upon a Time in Goa: Music and Dance in a Charming Region and its Diaspora” descreve ainda a semelhança que existe entre o teatro tradicional em Goa, conhecido pelos termos “Teatr” ou “Tiatr” e feito no dialecto Konkani, com o teatro feito em patuá com influência portuguesa. O que é curioso é que esse teatro está, de novo, a ter muitos espectáculos”, disse Joaquim Correia.

Na obra, é descrito que “há muitas semelhanças com o teatro macaense em patuá”, que constitui “uma ligação emocional entre a comunidade macaense espalhada pelo mundo e Macau”. Nalini Elvino de Souza, uma das colaboradoras do livro, actualmente a fazer um doutoramento na área da cultura goesa na Universidade de Aveiro, descreve que há cerca de dez palavras em Konkani que são muito semelhantes ao português e que apresentam também alguma semelhança ao patuá, tal como mez (mesa) ou vistid (vestido). De frisar que Nalini Elvino de Souza faz, para este livro, um levantamento de todos os discos de 75 rotações de música tradicional goesa editados desde a década de 20 até 1961. Andreia Sofia Silva

Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) vedou e interditou o sítio arqueológico situado no interior do recinto onde vai realizar-se o Festival Marés Vivas, em Vila Nova de Gaia, local que será vigiado «em permanência» por seguranças. Em resposta enviada à agência Lusa, a DGPC conta que, “pese embora a tutela do património cultural não tenha emitido parecer prévio sobre a realização da iniciativa no local”, está a acompanhar a situação. Na mesma resposta, esta entidade conta que, “após alerta”, técnicos da Direção Regional de Cultura do Norte e do município de Gaia visitaram na sexta-feira o local “tendo sido determinada a vedação do sítio arqueológico com baias metálicas e sinalização de ‘interdita a passagem’”. “A área arqueológica encontra-se implantada junto ao muro do parque de campismo [da Madalena], numa área que não vai ser usada para o festival e onde irão estar seguranças em permanência, para evitar a transposição ilícita do muro e o acesso ao recinto do dos concertos”, lê-se na resposta. O MEO Marés Vivas, festival agendado para 15 a 17 de Julho com Bryan Adams, Maluma e Anita como cabeças de cartaz, vai realizar-se no antigo parque de campismo da Madalena, em Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto, local onde está identificada uma estação paleolítica com vestígios arqueológicos “com pelo menos mais de 300 mil anos”.

Palcos e antas

Na quinta-feira, véspera da visita dos

técnicos ao local, em declarações à agência Lusa, o professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e especialista em arqueologia pré-histórica Sérgio Monteiro Rodrigues pediu “máxima vigilância e preservação do espaço”. “O local está assinalado como sítio paleolítico e as intervenções [referindo-se ao festival, bem como a projectos futuros para o local] não são incompatíveis com o que lá existe, mas tem de haver vigilância. Não pode ser construído um palco em cima de uma anta. Tem de haver garantias de que o sítio é estudado primeiro”, disse Sérgio Monteiro Rodrigues. Em causa está a Estação Paleolítica do Cerro, na qual está identificada uma mamoa, bem como depósitos de formações marinhas, entre outros vestígios arqueológicos. O Marés Vivas vai realizar-se após dois anos de interregno devido à pandemia da covid-19. Este festival realiza-se desde 1999 em Vila Nova de Gaia, tendo passado já por várias localizações e enfrentado polémicas e críticas de associações ambientalistas. O espaço onde vai realizar-se este ano é, de acordo com um comunicado divulgado a 21 de Junho pela promotora do evento

a PEV Entertainment, cinco vezes maior do que o anterior recinto. Trata-se de um espaço que atualmente pertence ao Fundo Especial de Investimento Fechado Gaia Douro na freguesia da Madalena e para o qual está projetada a construção de um parque tecnológico. A proposta sobre a disponibilização do espaço para a realização do festival foi discutida e votada em reunião camarária a 20 de junho. Na quinta-feira, em resposta à Lusa, a Câmara de Vila Nova de Gaia confirmou a existência de uma estação paleolítica no local e garantiu que esta está “obviamente devidamente protegida e salvaguardada nos instrumentos de planeamento”. Referindo que o terreno em questão tem a área superior a 21 hectares, a autarquia disse que a estação paleolítica ocupa “uma pequena parte desse espaço”. “As eventuais escavações serão definidas pelos proprietários e pela tutela, estando a Câmara Municipal interessada em que as mesmas se realizem. Note-se que a estação paleolítica convive, há décadas, com um parque de campismo e auto-caravanismo, sem que alguma vez tenha sido posta em causa a estação”, lê-se na resposta escrita.


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IMOBILIÁRIAS DESCONTOS EM TROCA DE MELANCIAS OU ALHO

Toma lá, dá cá CLIMA REGISTADAS TEMPERATURA E NÍVEIS DE PRECIPITAÇÃO MAIS ALTOS DAS ÚLTIMAS DÉCADAS

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ESDE os picos nevados do Tibete à ilha tropical de Hainan, a China está a enfrentar a pior onda de calor das últimas décadas, enquanto a precipitação registou níveis recorde em Junho, segundo as autoridades. Neste mês, as províncias chinesas de Shandong, Jilin e Liaoning, no nordeste do país, registaram os níveis mensais de precipitação mais altos de sempre. A média nacional, de 112,1 milímetros, representou um aumento homólogo de 9,1 por cento, de acordo com a Administração Meteorológica da China. A temperatura média em todo o país atingiu 21,3 graus Celsius, em Junho, um aumento de 0,9 graus, em relação ao mesmo período do ano passado, e o maior desde 1961. As temperaturas e níveis de precipitação vão permanecer mais altas do que o normal, em grande parte do país, ao longo de Julho, disseram as autoridades. Na província de Henan, centro da China, as cidades de Xuchang e Dengfeng atingiram os 42,1 e 41,6 graus, respectivamente, em 24 de Junho. Foram os

dias mais quentes alguma vez registados na região, de acordo com Maximiliano Herrera, climatologista especializado em estatísticas climáticas e condições meteorológicas extremas. A China também tem registado inundações sazonais em várias partes do país, que causaram a retirada de centenas de milhares de pessoas, particularmente no sul e centro. Os cientistas dizem que isto é fruto das mudanças climáticas e que o clima vai continuar a aquecer neste século. No Japão, as autoridades alertaram para uma maior pressão na rede eléctrica e instaram os cidadãos a economizar energia. Na sexta-feira, as cidades de Tokamachi e Tsunan atingiram as temperaturas mais altas de sempre, enquanto várias outras cidades bateram recordes mensais. Parte significativa do Hemisfério Norte tem registado níveis de calor extremo, desde regiões no normalmente frio Ártico russo à América do Sul, com temperaturas e níveis de humidade excepcionalmente altos.

A crise do sector obriga a soluções imaginativas para aliviar os prejuízos

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MOBILIÁRIAS chinesas estão a aceitar melancias, trigo ou alho, em troca de descontos para compradores, informou ontem um jornal de Hong Kong, face à contracção no mercado e ao limite imposto pelas autoridades na redução dos preços. Segundo o jornal South China Morning Post, a Nanjing Seazen Holdings, empresa de construção do leste da China, oferece um desconto de 100 mil yuans em troca de cinco mil quilos de melancias. Isto significa que a construtora está a pagar cinco vezes mais pelo quilo de melancia do que o preço actual no mercado de vendas por grosso. Na cidade de Wuxi, também no leste da China, outra construtora está a aceitar pêssegos em troca de descontos até 188.888 yuans. Na província central de Henan, uma imobiliária baixou os preços em até 160 mil yuans em troca de trigo ou alho. A empresa acumulou 430 mil quilos de alho com a venda de 30 apartamentos, de acordo com o jornal. Como os governos locais puseram um limite no corte

dos preços dos imóveis, visando evitar o colapso do mercado e uma crise no sistema bancário, as construtoras têm que encontrar formas criativas de fazer descontos, explicou Zhang Dawei, analista da agência imobiliária Centaline, citado pelo SCMP. O sector foi um dos mais importantes motores de crescimento da economia chinesa nas últimas décadas. No ano passado, os reguladores chineses passaram a exigir às construtoras um tecto de 70 por cento na relação entre passivo e ativos e um limite de 100 por cento da dívida líquida sobre o património, suscitando uma crise de liquidez no sector, que foi agravada pelas medidas de combate à covid-19.

Várias construtoras chinesas entraram em incumprimento, nos últimos meses, suscitando a desconfiança dos potenciais compradores, o que se traduziu nas primeiras quedas homólogas dos preços da habitação nova no país em vários anos. “Em algumas cidades, se a redução dos preços não for bastante significativa, não vai haver compradores. Em algumas áreas, as vendas não são satisfatórias, então os compradores estão com pouca liquidez”, disse Andy Lee, CEO da Centaline. De acordo com o SCMP, entre Janeiro e Maio, as vendas conjuntas das cem maiores imobiliárias do país registaram uma queda homóloga de 50 por cento.

Entre Janeiro e Maio, as vendas conjuntas das cem maiores imobiliárias do país registaram uma queda homóloga de 50 por cento

No entanto, as autoridades de dezenas de cidades colocaram um “piso” nos preços dos imóveis, limitando os descontos que as construtoras podem fazer, para evitar uma “perturbação da ordem normal” do mercado imobiliário e do setor, cujo peso no PIB (Produto Interno Bruto) do país ronda os 30 por cento, segundo alguns analistas.

Mudança de paradigma

O Presidente chinês, Xi Jinping, insistiu em várias ocasiões que as casas “devem servir para habitação e não especulação”, mas a crise no imobiliário tem fortes implicações para a classe média e para a economia do país. Face a um mercado de capitais exíguo, o setor imobiliário concentra uma enorme parcela da riqueza das famílias chinesas - cerca de 70 por cento, segundo diferentes estimativas. Em entrevista à agência Lusa, Michael Pettis, professor de teoria financeira na Faculdade de Gestão Guanghua, da Universidade de Pequim, vê na contração do sector imobiliário um sinal de que a China se está a afastar do modelo de crescimento assente no investimento em activos não produtivos. “Há muito crescimento fictício na China”, notou Pettis. “O excesso de investimento em todo o tipo de projectos de construção inflaciona o crescimento da economia chinesa há vários anos”, descreveu.

MOÇAMBIQUE PEDIDO FINANCIAMENTO PARA RECONSTRUÇÃO DA PRINCIPAL ESTRADA DO PAÍS

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Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, manifestou segunda-feira o interesse de recorrer à China para a obtenção do financiamento para reabilitação da Estrada Nacional n.º 1, principal do país, e da construção da nova sede da Assembleia da República.

A intenção de Filipe Nyusi foi anunciada pela ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Verónica Macamo, em declarações após um encontro de cortesia entre o chefe de Estado moçambicano e o membro do ‘bureau’ político e director do gabinete da comissão dos Negócios Estrangeiros do Co-

mité Central do Partido Comunista da China, Yang Jiechi. “O Presidente falou da necessidade de apoio à reabilitação da Estrada Nacional n.º 1, que todos nós sabemos que liga o nosso país de lés a lés”, declarou Verónica Macamo. Na reunião, o chefe de Estado também abordou o interesse de

contar com o financiamento chinês para a construção da sede da Assembleia da República, acrescentou Macamo. Por outro lado, continuou, Filipe Nyusi elogiou a “liderança” do Presidente da China, Xi Jinping, no estreitamento das relações de cooperação e amizade entre os dois países.

As autoridades moçambicanas estimam em 750 milhões de dólares o montante necessário para a reabilitação e manutenção da Estrada Nacional n.º 1, que tem uma extensão de mais de 2.400 quilómetros e liga as três regiões do país, nomeadamente sul, centro e norte.


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Em Henan, uma imobiliária baixou os preços em até 160 mil yuans em troca de trigo ou alho. A empresa acumulou 430 mil quilos de alho com a venda de 30 apartamentos

As armas de Lee Hong Kong tem “dever constitucional” de promulgar nova lei de segurança

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Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, disse ontem que a região tem o “dever constitucional” de actualizar a legislação para acompanhar a lei de segurança nacional, imposta por Pequim em 2020 na sequência dos protestos pró-democracia. Na primeira conferência de imprensa como Chefe do Executivo da região administrativa especial, depois de tomar posse em 1 de Julho, Lee disse que a situação e os níveis de segurança da região vão ser avaliados antes da nova legislação ser promulgada. “Estamos muito confiantes que conseguiremos fazê-lo bem”, afirmou. Após os protestos de Hong Kong de 2019, que começaram com a contestação à aprovação de uma lei da extradição para a China continental, mas que evoluíram para a exigência popular de reformas democráticas, Pequim impôs uma lei sobre a segurança nacional, em 2020, que abafa qualquer acto de dissidência, e que prevê penas de prisão perpétua para casos de secessão, terrorismo ou conluio com forças estrangeiras, entre outros. Ainda durante a conferência de imprensa de ontem, John Lee revelou que vai trabalhar para aliviar as restrições impostas aos viajantes na sequência da situação pandémica.

Em busca de equilíbrio

Hong Kong, Macau e a China continental estão entre os poucos lugares do mundo que impõem quarentena à chegada para reduzir a propagação do vírus. No caso de Hong Kong, a maioria dos

viajantes é obrigada a cumprir um período de observação médica de sete dias num hotel designado pelas autoridades. Aos jornalistas, Lee disse que Hong Kong é uma “cidade internacional” e que entende a importância de que permaneça aberta ao mundo. “Mas também é importante que, ao mesmo tempo, abordemos os riscos, para que possamos manter um bom equilíbrio”, referiu, acrescentando que, neste momento, o secretário para a Saúde se encontra a avaliar a situação para determinar quais as condições para aliviar as quarentenas. John Lee, antigo chefe de segurança da cidade, foi eleito no início de Maio por uma comissão eleitoral de 1.463 membros, ao abrigo do novo sistema eleitoral, promovido pelo Governo central em 2021 para garantir que a região é governada exclusivamente por patriotas, leais ao regime chinês.

TRIBUNAL DIPLOMATAS DO CANADÁ PROIBIDOS DE ASSISTIR A JULGAMENTO DE MAGNATA SINO-CANADIANO

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S autoridades chinesas recusaram o acesso de diplomatas do Canadá ao julgamento do magnata sino–canadiano Xiao Jianhua, que desapareceu de Hong Kong há cinco anos, disse ontem o Governo de Otava. Xiao, fundador do Tomorrow Group, desapareceu de um hotel de

Hong Kong em Janeiro de 2017, numa altura em que o órgão de disciplina do Partido Comunista Chinês lançou vários processos contra quadros do Partido e empresários chineses, acusados de suborno e outras más condutas. As autoridades chinesas nunca confirmaram se Xiao foi detido ou

divulgaram as acusações. O Governo do Canadá disse na segunda-feira que Xiao estava a ser julgado, mas não deu nenhuma indicação sobre o local ou as acusações. “O Canadá fez vários pedidos para comparecer ao processo de julgamento. A nossa presença foi negada pelas autoridades chine-

sas”, disse, em comunicado, o Governo canadiano. O desaparecimento de Xiao ocorreu também numa altura em que as autoridades chinesas intensificaram a pressão sobre suspeitos de corrupção radicados no exterior, para que voltassem ao país e fossem julgados.


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antropofobias

CARLOS MORAIS JOSÉ

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6.7.2022 quarta-feira

A utilidade do min tói “Não sei. Falta-me um sentido...”. E é com esta frase de Álvaro de Campos a martelar-me as têmporas que me afasto do tempo irreal dos cronómetros insensíveis à real passagem das horas. Tenho para mim que é inútil a reza fria e sem sabor nas papilas gastas e, por isso, pouco temerosas. A língua enrola as palavras, desdobradas em suspiros, sombras destacadas de paredes de quartos interiores. Ajoelho-me, contudo. Não para meditar que sou ossudo e pouco afoito à concentração. Menos ainda em súplicas ou lamentos, estranha disciplina de mulheres, arrojadas nos templos mas temíveis nas brigas. Ajoelho-me enquanto me dirijo a um sítio perfeitamente conhecido, não vá o sentido esvair-se também do próprio quotidiano. Faço-o em silêncio, enquanto gracejo para o lado. E reservo para mim, só para mim, essa “oscura noche”. E com que deleite me repito: “Não sei. Falta-me um sentido...”

VAGUEIO E SÓ ASSIM ADVÉM O ESQUECIMENTO, PELO CANSAÇO DOS MÚSCULOS E A ACÇÃO LENTA DO FRIO (“NÃO SEI. FALTA-ME UM SENTIDO...”), ATÉ ME RECOLHER NOS BRAÇOS TÉPIDOS DE ALGUM MIN TÓI Pagaria caro, neste momento, a menor ousadia, o corpo calibrado de medo, ajoelhado, vergado, verdascado e — porque não? — sangrento. Riome, contudo, dessa minha odisseia de atravessar ruas, calcorrear passeios, olhar para dentro de lojas afáveis, servir-me dos gestos alheios para compor um mundo. Só os outros me fazem o sentido, na certeza plena de cada gesto. Não pensam e são belos como os gatos, respiram e são pujantes ainda que a sua respiração seja roufenha, desde que não saibam que respiram e assim escapem à repugnância de duas frases articuladas e com sentido ainda que vago. Vagueio e só assim advém o esquecimento, pelo cansaço dos músculos e a acção lenta do frio (“Não sei. Falta-me um sentido...”), até me recolher nos braços tépidos de algum min tói.


quarta-feira 6.7.2022

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Sentido figurado AMÉLIA VIEIRA Parece ser, sim, o que suporta a narrativa quando falamos de realidade, longo epílogo de conclusões que se fecham sem que a atenção tenha de ir ao princípio retomar fôlego, que sem tempo para a origem, recriaremos frágeis originalidades, não estando nada acontecendo que não tenha acabado já. Este escalar de rupturas sucessivas reúne fragmentos que pode condicionar a tenacidade, derrubar a ternura e romper com ligações nervosas fundamentais para a transparência do ser. «Vocês, melhor aprenderem a ver, em vez de apenas arregalar os olhos, e a agir, em vez somente falar;... O ventre que gerou a coisa imunda continua». Bertolt Brechet no arrebatador Epílogo! Esta pressa de rematar nas várias formas de abordagem é contrária às leis da vida, e pode fazer que tudo se precipite para a tal “coisa imunda” que compõem as dissertações finais. A figuração é como a desfiguração, formas que se contraem e distendem à medida da ressonância do tempo, que também existe a transfiguração, essa capacidade que se tem em ser-se tocado por forças tais, que

redobra em outras maneiras, quase iluminadas, como Moisés descendo a Montanha todo repleto de luz pelo contacto com essa escrita ditada...aquelas coisas que os outros notam e alguns carregam... Em sentido figurado podemos falar de toques assustadores, mas carregados de esperança. A mente que pode ser de Fogo, é capaz de ir buscar a essência para nortear as aleatórias vidas que nem a alma quer, só para colocá-las no rumo da sua viagem. Parece-nos sempre que o fim nos inquieta, mas que há mesmo assim uma vontade arrebatadora de se chegar a uma conclusão, e como o mundo se encontra numa grande deriva, há essa necessidade de términus que pode bem apressar tal desafio [não andamos sobre brasas acesas] que essas atestam o pulsar de vida pela dor que infligem, mas muito mais numa órbita cansada por não entender o propósito do encantamento para o próprio suicídio. Talvez que o sentido fundamental já não esteja entre nós, e nem figuradamente o possamos reclamar nesta grande

epopeia das lutas finais. Não há «Epístolas aos Vindouros» que o significado da não “vinda” diz muito acerca de tudo aquilo que também já não esperamos, o que deixa remota saudade daqueles que acreditavam num futuro para além da sua circunstância. Somos um documentário em andamento forjado pelo peso das contemplações de todos os abismos, acresce que nos entendemos sem esperança renovada, nem capacidade de fazer mudanças que não sejam fugas, e nesta diáspora os sentimentos embrutecem. Tolhidos por todos os lados pela complexa rede que o capitalismo impõe para nos absorver toda a atenção para substâncias mais vastas, irrompem ainda alguns como cegos no meio de ilusões ditas pensantes: são os mais desgraçados, apenas por que não recriam a liberdade de ser de outra maneira. Não há plasma que embrulhe um negociante de artefactos numa dimensão que se veja ao longe! Ao embrutecer neste sentido figurado que se prende à

UMA FUMAÇA DE EGOS EM QUADRIGAS INCENDIÁRIAS FIZERAM REGREDIR TUDO ISTO PARA O TEMPO DE UM RELÓGIO CÓSMICO QUE DÁVAMOS POR CERTO TER SIDO ULTRAPASSADO

grande caricatura, esta frágil Humanidade já na orientação de outra qualquer coisa “imunda” requer atenção. Tanto garantismo volveu-a à estaca zero em face dos seus valores fundamentais, que nós somos humanos não por causa dos sentidos, mas por tudo aquilo que foi elaborado nitidamente, e de tal forma, que concebemos a noção do amor. Somos todos mais ou menos espectadores e directamente criámos o espaço certo para o discurso traumático que pode irromper dentro de momentos na orbe que nos une, pois tudo agora nos distancia se não for decretado, dado que deixámos de viver de maneira a saber impor as nossas leis de forma consciente, irrepetível e soberana. Somos o reduto das provas que os sonhos desejaram resgatar da insolvência a um sonho ainda maior que não se deu, e mesmo assim, achámo-nos dignos de valorosas atenções que tendíamos a não distribuir. Uma fumaça de egos em quadrigas incendiárias fizeram regredir tudo isto para o tempo de um relógio cósmico que dávamos por certo ter sido ultrapassado, mas todos os dias ele acelera um pouco mais, até a um tempo ulterior à frágil memória. Em sentido figurado, somos agora a coisa imunda.


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7 6 1 4 5 3 Zita Seabra,4ex-deputada, 5 3 revela 6 2aqui 7 a sua versão dos acontecimentos sobre o famoso caso 6 “Zita 1 Seabra” 2 3que4cul- 5 minou com a sua expulsão do Partido Comunista 5 Português 7 (PCP). 6 2Um livro 1 4 importante para perceber o palmilhar de um percurso de um7comunista 1 4 5 3no 2 período do Estado Novo, na clandestinidade, e depois 2 no3período 5 a1seguir7ao 6 25 de Abril de 1974, mas onde também se traça um3 olhar2ao funcionamento 4 7 6 e1 ideologias do histórico partido portu-

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guês.

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CINETEATRO

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FOI ASSIM | ZITA SEABRA | ALETHEIA EDITORES

SALA 1

LIGHTYEAR [B]

FALADO EM CANTONÊS Um filme de: Angus MacLane 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 2

TOP GUN: MAVERICK [B] Um filme de: Joseph Kosinski Com: Tom Cruise, Jennifer Connely, Val Kilmer, Miles Teller 14.00, 19.15

4 2 3 6 1 7 5

JURASSIC WORLD: DOMINION [B] Um filme de: Colin Trevorrow

Andreia Sofia Silva

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5 1 6 3 2 4 7

2 4 7 1 6 5 3

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Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Laura Dern, Jeff Goldblum 16.30, 21.45

THE LOST CITY [B]

Um filme de: Adam Nee, Aaron Nee Com: Sandra Bullock, Channing Tatum, Daniel Radcliffe, Brad Pitt 14.30, 16.30, 21.45 SALA 3

EVERYTHING EVERYWHERE ALL AT ONCE [C]

Um filme de: Daniel Kwan, Daniel Scheinert Com: Michelle Yeoh, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan, James Wong 19.00

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quarta-feira 6.7.2022

opinião 15

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sexanálise

Tânia dos Santos

ABORTO, OUTRA VEZ PAULO REGO

ACONTECEU O QUE muitos temiam. A terra dos livres tornou-se menos livre com a decisão do Supremo Tribunal ao reverter o direito constitucional do aborto. As implicações são muitas, e não são boas. Os ingénuos acreditam que é uma luta ganha pelos direitos dos bebés por nascer. A hipocrisia e incongruência é revoltante. Agora, muitas mulheres americanas não poderão tomar uma decisão consciente sobre os seus corpos. Ganham direitos as suas crias por nascer, que nem sempre têm direitos depois. Os mesmos que proclamam a procriação como sagrada são os mesmos que não quiseram garantir o acesso a fórmula para bebés quando houve uma falta grave no país. São os mesmos que se agarram ao liberalismo para deixar o apoio à natalidade à mercê da logica dos mercados. (In)congruências. Mas são todos pelos bebés e pela parentalidade. São os mesmos que assumem o conceito de família com base em repertórios performativos, sem reflexão, muito menos intimidade. Aqueles que se agarram ao conceito de mulher e homem e que os estancam na visão dicotómica do bem. A complexidade da vida humana não é contemplada uma única vez por estes decisores e os seus apoiantes, como se não fosse mais abrangente do que a existência de um embrião. Ignora-se que uma gravidez implica a vida das pessoas. Ignora-se que tirar o controlo das mulheres sobre os seus úteros é um atentado humano muito mais grave do que supostamente “devolver o direito aos bebés por nascer”. Ignora-se a violência sistemática a que as mulheres são sujeitas graças ao patriarcado que se infiltra no dia-a-dia e nas políticas. Ignora-se o trabalho de dissociar a representação da mulher da sua objectificação corpórea, sem a ver para além da sua função para copular, parir e tomar conta de filhos. Uma gravidez indesejada pode acontecer a qualquer uma, e ninguém acredite que o aborto é uma decisão simples e descomplicada. Mas ter acesso ao aborto seguro permite contemplar outras alternativas para além da maternidade naquele momento e naquelas circunstâncias. Vai abortar quem já tem filhos, quem está casada, quem ainda é adolescente, a trabalhadora do sexo, a trabalhadora do banco, a mulher ou a menina que foi violada. Uma escolha que a investigação mostra – e aliada com uma boa educação sexual – reduzir o número de gravidezes indesejadas e promover maior bem-estar em geral. O aborto é uma intervenção médica simples e a OMS defende o seu acesso seguro em qualquer lugar do mundo. Os abortos vão existir sempre, e quanto menos existirem condições para um aborto seguro, mais complicações virão daí. Desde trauma físico e psicológico à morte.

Os abortos vão existir sempre, e quanto menos existirem condições para um aborto seguro, mais complicações virão daí. Desde trauma físico e psicológico à morte

Confesso que ando tão desiludida com o mundo que me foi difícil reagir ao que aconteceu recentemente nos Estados Unidos da América. Prefiro evitar ou não ouvir, ficar no conforto que há outros locais onde ainda está tudo bem. Sonhar que eles existem. Sem deixar de estar com medo que a ficção da “Handmaid’s Tale” se torne numa profecia. A vontade de Deus (ou da natureza) é estrategicamente mobilizada para defender umas parvoíces, e não outras. Resta desconstruir e revelar a violência que ainda existe sobre as mulheres. É o momento para acreditar na força popular mais do que nunca e não desvalorizar – e até acompanhar – as pessoas que gritam nas ruas.


“A ignorância é a mãe das tradições.” PALAVRA DO DIA

GETTY IMAGES

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A BYD disse ter vendido 641.350 unidades, entre Janeiro e Junho deste ano, face a 154.579 vendidas no mesmo período do ano anterior, o que representa um aumento homólogo de 314 por cento

Pé no acelerador BYD ultrapassa Tesla nas vendas globais de veículos eléctricos

A

fabricante de automóveis chinesa BYD ultrapassou a Tesla nas vendas globais de veículos eléctricos, no primeiro semestre deste ano, atingindo as 641.350 unidades, face a 564.000 da constructora norte-americana. De acordo com um comunicado enviado à Bolsa de Valores de Hong Kong, onde está cotada, a BYD disse ter vendido 641.350 unidades, entre Janeiro e Junho deste ano, face a 154.579 vendidas no mesmo período do ano anterior, o que representa um aumento homólogo de 314 por cento. Embora não auditado e sujeito a alterações, este número contrasta com os veículos eléctricos disponibilizados pela Tesla, que anunciou a venda de 564.000 veículos, nos primeiros seis meses de 2022.

A empresa detida por Elon Musk justificou aquele número com as “interrupções na cadeia de fornecimento” e obstáculos nas operações na China, causados pelo bloqueio de Xangai, a “capital” económica do país asiático, devido às medidas de prevenção epidémica.

Carrega na bateria

O número ilustra a crescente capacidade exportadora dos fabricantes de automóveis chineses, segundo analistas citados pelo jornal Financial Times, que frisaram que a BYD está a tentar fabricar produtos que cobrem muitos sectores críticos do mercado. O vice-presidente executivo da empresa chinesa, Lian Yubo, assegurou em entrevista à televisão estatal chinesa CCTV que a empresa vai fornecer baterias de lítio - ferrofosfato

(LFP) “muito em breve”, precisamente à Tesla. A BYD, que produz baterias para os seus próprios veículos eléctricos e híbridos e está presente em mais de 200 países, lançou, em 2020, a sua bateria Blade, baseada na tecnologia LFP, garantindo que é mais segura do que outras alternativas do mercado, por apresentar menor tendência a sobreaquecer. Até à data, a gigante chinesa CATL é a única empresa que fornece baterias LFP para a Tesla, que as usa desde 2020 para os carros que fabrica na sua fábrica em Xangai. Segundo a Tesla, cerca de metade dos veículos produzidos no primeiro trimestre foram equipados com baterias LFP, mais baratas do que as baterias de níquel – cobalto, normalmente usadas no Ocidente.

EMPREGO TRABALHADORES DE MACAU EXIGEM LIMITAÇÃO DE FÉRIAS NÃO PAGAS

O

S trabalhadores locais exigem um limite para gozar dias de férias não pagos a pedido do empregador, tendo em conta a crise gerada pela pandemia. Segundo a imprensa chinesa, há quem defenda que os apoios económicos anunciados pelo Governo podem ajudar os que têm salários mais baixos, mas não resolvem o problema dos dias de férias não pagos e outras questões laborais. No caso da senhora Ho, empregada do ramo da hotelaria, a empre-

sa pediu-lhe para gozar quatro dias de férias por mês, mas até agora foi obrigada a tirar entre oito a dez dias mensais sem receber o vencimento correspondente, o que gerou uma quebra do salário em um terço. Já a senhora Cheong, que trabalha como secretária, o pedido do empregador para o gozo de férias chegou esta semana, depois de ter sido anunciado que todos os funcionários ficavam em regime de teletrabalho. No entanto, Cheong relata que os tra-

balhadores não residentes continuaram a trabalhar normalmente. Por sua vez, Wu, que também trabalha como secretária, com um vencimento de 20 mil patacas, vai ser obrigada a tirar dias de férias sem receber, sendo que, no seu caso, não tem direito ao apoio de 15 mil patacas anunciado pelo Executivo. Wu defende que as autoridades devem recorrer ao erário público para ajudar as empresas a pagarem ordenados, ao invés de conceder subsídios ou empréstimos.

Montesquieu

quarta-feira

6.7.2022


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Hoje Macau 06 JULHO 2022 #5043 by Jornal Hoje Macau - Issuu