Skip to main content

Hoje Macau 6 NOV 2014 #3208

Page 1

h

DANIEL ROCHA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

WWW.HOJEMACAU.COM.MO

MOP$10

Q U I N TA - F E I R A 6 D E N O V E M B R O D E 2 0 1 4 • A N O X I V • N º 3 2 0 8

JOSÉ GIL EM ENTREVISTA

“Ultrapassámos uma certa taxa de mentira própria do discurso político e fizemo-lo com um descaramento extraordinário”

VIDA MADRASTA FILHOS DE FAMÍLIAS MONOPARENTAIS E DE BAIXO RENDIMENTO Na opulenta sociedade de Macau há também quem sofra com a falta de recursos ou tenha de lidar com exemplos vindos de um lar desfeito. Até Setembro havia 5300 famílias de baixo rendimento a receber subsídios do IAS. Especialistas analisam as marcas deixadas no crescimento destas crianças e pedem um maior apoio do Governo. PUB

PÁGINAS 2 E 3

PUB

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

hojemacau

ESTUDO

Rua do Campo ou Field St.? SOCIEDADE PÁGINA

8

NOVA CITY

MORADORES ABSOLVIDOS O tribunal absolveu 37 arguidos da Comissão de Moradores, acusados pela empresa proprietária do edifício. Uma vitória agridoce para os visados que pretendiam a fiscalização das receitas das quotas dos condomínios.

SOCIEDADE PÁGINA

7


2

REPORTAGEM

CECÍLIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

“A

S famílias felizes são todas iguais. Mas cada família infeliz, é infeliz à sua própria maneira.” As palavras são de Leon Tolstói no seu romance ‘Anna Karenina’ mas, dois séculos depois, ainda se podem aplicar às sociedades. A sociedades como a de Macau, onde os problemas familiares e sócio-económicos aparentam não existir, mas existem e trazem problemas emocionais às crianças e jovens que fazem parte destas famílias. Infelicidades que os mais pequenos não conseguem evitar, desde o seu nascimento. Tony Kou, nome fictício, tem 12 anos e estuda numa escola primária na zona central. Já sofreu com o divórcio dos pais há dois anos e, apesar de admitir ao HM que já está habituado a ter “a família separada”, também nos confessa que está a viver com a avó e que preferia viver com a mãe. O pai de Tony trabalha como camionista e a mãe trabalha num casino. O rendimento da progenitora aumentou quando ela começou a trabalhar nesta indústria, mas o do pai mantém-se igual, quando este trabalha. É que, às vezes, o pai não consegue emprego. “Queria viver com a minha mãe, mas o tribunal entregou-me ao meu pai”, conta-nos o aluno do último ano da escola primária. Tony estudava numa escola da Associação Tong Sin Tong, mas como foi “sempre desobediente”, acabou por ser expulso e foi transferido para a escola actual. Mas, o caso de Tony Kou não é o único. Na escola onde o pré-adolescente anda, há mais alunos que passam por experiências infelizes no seio familiar. Ricky Tam, nome fictício, tem a mesma idade que Tony. Não perdeu os pais, mas mora num centro social

CRIANÇAS DE FAMÍLIAS MONOPARENTAIS E COM RENDIMENTOS BAIXOS

Marcados pelo destino

O Governo tem políticas de apoio e subsídios para as famílias monoparentais e de baixo rendimento. Contudo, o apoio mental é também importante para estes tipos de famílias, especialmente para o crescimento das crianças. É que, numa sociedade considerada rica como a de Macau, também há quem sofra

de apoio a crianças órfãs, porque também não vive com os progenitores. A mãe está no continente e o pai, condutor de táxi, “não tem tempo para cuidar” do filho. Ricky também é tido como desobediente na turma que frequenta, mas quando nos sentamos com ele, vemos uma criança sensível, que assegura que não maltrata os colegas de turma. No olhar, hoje, tem um brilho. Percebemos porquê. “O meu pai disse que hoje me vai levar para

jantar”, diz-nos num tom super contente. Contudo, até ao fim da tarde, não nos foi possível ver o pai aparecer na escola para ir buscar Ricky.

MONOPARENTAIS COMO CAOS

“A mãe do [Tony] Kou vem visitar o filho à escola sempre que pode”, conta-nos a professora Wong. “Como o casamento não acabou da melhor forma, a família do pai não deixa a mãe visitar o Tony em casa e, quando ela tem saudades do filho, HOJE MACAU

“Como o casamento não acabou da melhor forma, a família do pai não deixa a mãe visitar o Tony em casa e, quando ela tem saudades do filho, vem cá [à escola]. Dá-lhe alimentos e dinheiro, às vezes. Ele quer viver com a mãe, mas isso não passa de um desejo” JOANNA WONG Professora

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

“Muitas vezes, é difícil corrigir o que está errado nos alunos na escola, porque eles consideram os pais como os seus exemplos de vida” FREDDY SIO Conselheiro de uma escola

vem cá [à escola]. Dá-lhe alimentos e dinheiro, às vezes. Ele quer viver com a mãe, mas isso não passa de um desejo.” É a professora Wong quem lida com estas crianças diariamente e quem, diz-nos, consegue saber a situação familiar dos alunos pelas suas atitudes. Preocupa-se muito com eles, assegura-nos. “Às vezes, quando descubro problemas nos alunos ligo para os pais, mas alguns deles limitam-se a dizer que não têm tempo para ir à escola falar com a professora porque trabalham até durante a noite. Outros apenas consideram que a escola é um local tipo creche, que é

para ajudar os pais a cuidar dos seus filhos. Mas falta a consciência aos pais de que estes também têm que cooperar com a escola e os professores no desenvolvimento dos alunos”, queixa-se a professora ao HM. Quem fala connosco assegura que são muitos os casos de crianças e jovens que estão sob constante pressão emocional. Freddy Sio, conselheiro de uma escola há dois anos, é uma dessas pessoas. Conforme conta ao HM, é difícil haver comunicação sobre os problemas dos alunos, porque os pais têm sempre desculpas: ou é o trabalho ou a simples falta de atenção

para os problemas emocionais dos filhos. “O serviço de conselheiro escolar já está em execução há quatro anos e é uma operação iniciado pelo Governo, os Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) e organizações não-governamentais, como por exemplo os Kaifong (Moradores), a Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), a Cáritas Macau, a Special Olimpics e o Centro de Formação Juvenil Dom Bosco.” Segundo o profissional, através dos casos tratados vê-se que são as crianças ligadas às famílias monoparentais que ocupam a maior fatia dos casos que apresentam problemas emocionais. Mas esses problemas, vêm quase sempre acompanhados por outros. “O comportamento típico [destes alunos] não pode ser controlado. Eles não têm um local para aliviar as pressões, mas essas pressões também chegam devido à educação familiar. Por exemplo, se um pai bate sempre no filho, este vai considerar a violência como uma maneira para resolver os problemas”, diz-nos Sio, que nos dá mesmo um exemplo real: na escola, um pai descobriu que o seu filho deu uma bofetada noutra criança e acabou por bater no seu filho em frente a toda a gente. “O comportamento é igual entre pai e filho e os professores perceberam logo onde é que o aluno aprendeu este comportamento violento.” Freddy Sio não tem dúvidas: não são todos os pais que sabem educar os filhos, porque muitos pais não sabem como transmitir informações e comportamentos positivos. “Há sempre uma maneira correcta para a aliviar a pressão, mas o comportamento dos pais influencia muito os alunos. Muitas vezes, é difícil corrigir o que está errado nos alunos na escola, porque eles consideram os pais como os seus exemplos de vida”, frisa Freddy Sio.

PROBLEMAS EM DOMINÓ

Se para Freddy Sio, as crianças de famílias monoparentais são as que mostram ser propícias a mais casos deste tipo, para outra conselheira contactada pelo HM, Chris Chau, o facto da família ser composta por apenas um progenitor não é desculpa para os problemas emocionais. Pelo menos, não é a única. A profissional diz-nos que há alunos filhos de fa-


reportagem 3

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

SENHORA LEUNG

O DINHEIRO

Se para as famílias onde falta um outro parente as coisas são complicadas, para as famílias mais pobres – que, sim, existem em Macau – também se formam obstáculos. Com a pobreza, o crescimento das crianças é um desafio e, diz-nos quem sabe, os problemas emocionais também são muitos. “O meu filho tem 16 anos e sempre foi tímido”, começa por nos dizer a senhora Leong. “Não gosta de falar em público e nunca esteve satisfeito com a situação da casa, porque somos pobres.” Leong tem cerca de 40 anos e, além do filho ado-

lescente, tem uma outra filha de 20 anos, que está grávida, e um neto de cerca de dois anos nos braços. As “lutas” em casa devem-se principalmente à falta de dinheiro e ao facto de o jovem de 16 anos “querer mudar a situação de pobreza”. “Não é uma situação que se altere de imediato e, como ele quer sempre ver isto mudar, temos sempre [discussões].” A senhora Leong queixa-se ainda que o desenvolvimento econômico faz com que a situação de “casas como estas” ser ainda pior. “O meu filho quer sempre mudar de roupas e de equipamentos electrónicos, como os colegas, mas nunca consegue.” O professor do curso de Assistência Social do Instituto Politécnico de Macau, Leung Kai Yin, disse ao HM que durante as férias de Verão situações como a da senhora Leong podem ainda ser piores. “Quando alguns alunos saem de Macau e vão viajar para países estrangeiros, alguns só podem viajar pela China interior, uma comparação que é péssima para os alunos de famílias mais pobres, porque sentem que a sua vida é injusta e, pior, que não pode ser alterada depois de nascerem na família onde nasceram.”

“Temos de dar mais importância aos problemas emocionais antes do divórcio dos pais, porque acabar com um casamento é um período muito duro e cheio de lutas em casa” CHRIS CHAU Conselheira de uma escola

SOLUÇÕES MAIS APOIO DO GOVERNO E DAS ONG

Ensinar a viver D E Janeiro e Setembro deste ano, cerca de 5300 casas recebiam subsídios do Instituto de Acção Social por serem de famílias de baixo rendimento. Destas, 700 eram famílias monoparentais. Segundo dados lançados no ano passado, Macau já tem cerca de 15 mil famílias monoparentais, sendo que metade destas não tem trabalho a tempo inteiro e precisa de subsídios de habitação. O HM falou com a chefe do departamento do serviço familiar da Cáritas Macau, Joanna Wong, que nos disse que não são só as crianças das famílias com salários baixos ou monoparentais que têm problemas emocionais, ainda que sejam estas que HOJE MACAU

mílias monoparentais que são um exemplo positivo para a sociedade: crianças ou adolescentes podem ter mais motivação para os estudos e serem mais sensatos na vida. Mas alerta. “Temos de dar mais importância aos problemas emocionais antes do divórcio dos pais, porque acabar com um casamento é um período muito duro e cheio de lutas em casa. Este é o período no qual os filhos sofrem mais e há mais alunos que vêm até nós procurar ajuda.” Os problemas, neste caso, são como dominós. Pires Hun, outro conselheiro escolar, diz-nos que este período de separação dos pais pode mesmo influenciar a vida futura do aluno: para aliviar a pressão da separação dos pais, há crianças que se tornam agressivas, têm relações sexuais mais cedo e consideram, muitas vezes, que o casamento não é definitivo nunca. Macau tem destes casos, assegura-nos o profissional. “Às vezes, como não conseguem ter amor através de um progenitor, as adolescentes com idades entre 12 ou 14 anos procuram esse amor de maneira muito errada: têm sexo mais cedo para obter o amor que lhes falta na família. Isto pode causar mais problemas sociais, algo que também já estamos a promover nas escolas – a necessidade de educação sexual”, revela-nos, acrescentando que, ainda por cima, este é um assunto tabu na cultura chinesa.

casinos. O problema não é o trabalho em si, mas se ambos os pais não ficam em casa durante a noite, as crianças têm mais risco de contactar com [factores] negativos. Como sair à noite, frequentar estabelecimentos nocturnos, andar com amigos que são más-influências e até ter relações sexuais mais cedo do que o devido para procurar colmatar a solidão ou procurar o amor que falta em casa”, diz-nos. Pires Hun admite que “Macau já não é o que era”, que toda a gente tem emprego e que os pais dão menos atenção aos filhos, mas também explica que a culpa não pode ser sem-

HOJE MACAU

“Não gosta de falar em público [o filho] e nunca esteve satisfeito com a situação da casa, porque somos pobres”

E O TRABALHO

Mas, se o dinheiro realmente não é tudo, temos outra novidade: quem trabalha e ganha dinheiro, também enfrenta dificuldades. Numa cidade que nunca dorme, o problema do trabalho por turnos é outro dos fortes factores a fazer com que as crianças e adolescentes não tenham toda a atenção que precisam. Pires Hun, por exemplo, diz-nos que mais de metade dos problemas emocionais ligados aos alunos que têm ambos pais em casa se prende com o trabalho por turnos. “Falemos dos dados do ano lectivo de 2012/2013, porque ainda não saíram os dados de 2013/2014, 50% das crianças que ‘tratamos’ são de famílias onde os pais trabalham por turnos. Desses, 60% trabalham em

precisam de mais ajuda. A profissional aponta que é preciso haver cooperação entre as escolas, os pais e os alunos, porque só assim se consegue ajudar quem mais precisa. “O mais importante é acompanhamento. Às vezes os alunos são desobedientes porque lhes falta assistência do pai ou da mãe”, diz, sublinhando que o acompanhamento aos filhos não pode ser substituído por bens materiais. “Alguns pais consideram que dar prendas ou comprar iPhones é uma maneira para compensar o tempo que lhes faltam na sua vida, mas o dinheiro não consegue resolver todos os problemas e até causa mais, por vezes.” Actualmente, diz-nos Joanna Wong, o Governo coopera com organizações não-governamentais para promover um Serviço de Rede de Apoio Mútuo a Famílias Monoparentais.

CONTAS À VIDA

“Macau tem cada vez mais valores ligados ao capital e isso não é saudável” BOBO LO Estudante de Assistência Social e Psicologia

Através desse serviço, a Cáritas Macau já conseguiu tratar de 1700 famílias, sendo que quando há casas com ambas as situações – de salário baixo e monoparental - ainda pode ser pedido mais um subsídio ao IAS. “Mas a renda normalmente gasta a maioria do rendimento mensal da família e o subsídio de habitação também nunca é suficiente para as rendas das casas privadas. Sugeria também que o Governo controle melhor o preço dos produtos, porque as despesas com a alimentação ocupam uma parte significativa das receitas das famílias.” Bobo Lo, directora do Programa Teen Ching, um projecto de promoção de saúde mental, conseguiu reunir 55 crianças com idades entre os 12 e os 18 anos para ter um programa de desenvolvimento, através de uma poupança mensal de 150 a 200 patacas

pre atribuída aos pais. As crianças e adolescentes, diz, devem ser educados a pensar e a cuidar de si. Contudo, é sempre preciso saberem que têm apoio. “É óbvio que alguns dos pais também não podem deixar o emprego, porque só conseguem obter um trabalho com salário mais elevado nos casinos. Por isso, o trabalho de turnos não pode ser evitado, porque se desistirem desse trabalho, que lhes dá 15 mil a 18 mil patacas, apenas conseguem ganhar metade desse valor fora dos casinos. A sobrevivência ainda é uma parte importante para eles. Afinal, a vida faz-nos ser realistas.”

no banco, em cooperação com o IAS, de forma a criar o hábito de poupança nas crianças.

JUNTOS E A FALAR

Para Joanna Wong, actividades conjuntas são uma maneira de fortalecer a comunicação entre os pais e os filhos. “Às vezes, não sabem como comunicar e isso é que causa o conflito. Como vivem na pobreza, também não há mais tempo e dinheiro para fazer actividades extra”, defende. Bobo Lo, que estuda Assistência Social e Psicologia, explica que, também ensina os miúdos a comunicar através do seu programa de poupança de dinheiro. “Macau tem cada vez mais valores ligados ao capital e isso não é saudável. Na próxima fase vamos ajudar os alunos a decidir o que fazer com o dinheiro que está no banco.”

5300

famílias de baixo rendimento a receber subsídios do IAS até Setembro

Leung Kai Yin, professor do curso de Assistência Social, diz ao HM que juntar estas duas formas de ensino – poupança e comunicação – é o ideal, até porque é preciso que as crianças aprendem sobre o futuro. “A poupança não termina aí. Temos de pensar num período mais longo, como por exemplo, as despesas para a universidade. As famílias com dificuldades financeiras em Macau são mais propícias a encorajar os filhos a desistir dos estudos depois de escola secundária.” Pires Hun, conselheiro de uma escola, considera que as empresas privadas deveriam ter mais políticas em favor das famílias. E dá o exemplo dos casinos. “Já há casinos que permitem que o casal tenha o mesmo horário, ou para os pais que têm filhos sozinhos em casa permitem que trabalhem durante o dia. Isso é importante para o crescimento das crianças.”


POLÍTICA

A Associação Arco-Íris quer que o Governo inclua os casais do mesmo sexo na lei que vai proteger as vítimas de violência doméstica e defende que isso em nada está relacionado com o facto do casamento homossexual não ser permitido em Macau. Jason Chao ameaça levar a questão para a ONU

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA PELA REINTEGRAÇÃO DE CASAIS DO MESMO SEXO NA LEI

Todos diferentes, todos iguais Florinda Chan não pode recusar-se a agir a favor da comunidade LGBT por causa das suas crenças religiosas”

ARCO -ÍRIS

4

JASON CHAO Porta-voz da Associação Arco-Íris

está a dizer que pode haver pontos de equilíbrio, mas isso não é certo, porque implementar ‘zero tolerância’ significa assegurar um direito humano. Isto significa que as autoridades deverão ter o poder de intervir quando recebem e reúnem informações sobre um alegado caso de violência doméstica.”

CONFLITOS?

FILIPA ARAÚJO

filipa.araujo@hojemacau.com.mo

Os activistas decidiram entregar a carta ontem, porque dizem que “lhes foi dito que a Lei Contra a Violência Doméstica estaria quase concluída e seria subme-

A

AssociaçãoArco-Íris de Macau entregou ontem uma carta direccionada a Florinda Chan, Secretária para a Administração e Justiça, onde pede que a Lei de Combate à Violência Doméstica contemple também os membros da comunidade LBGT - lésbicas, gays, bissexuais e transexuais. O desejo não é novo, mas chega numa altura em que Macau está sob escrutínio da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) no que ao tratamento das mulheres diz respeito – a violência doméstica está a ser discutida. “O nosso objectivo é fazer com que os casais do mesmo sexo sejam reintegrados na Lei de Combate à Violência Doméstica”, começa por dizer Anthony Lam, presidente da

SEM QUEIXAS Questionado sobre o número de queixas de violência doméstica entre a comunidade LBGT, Anthony Lam, esclareceu que até hoje, não recebeu queixas sobre nenhum caso, mas também deixou o alerta: “ainda não temos capacidade para receber queixas, porque [a Arco-Íris] ainda é de pequena dimensão”. O presidente explica que, apesar de não existirem queixas, não implica que não existam. “Por exemplo, se um membro do casal não quiser fazer uma coisa, o outro pode ameaçar que vai falar do facto dele ser ‘gay’ publicamente. Vemos vários casos de agressões verbais na nossa comunidade, mas, até hoje, não recebemos dados sobre casos de violência física”.

tida ao Conselho Executivo em breve”. A Arco-Íris diz mesmo que, caso não seja satisfeito o seu pedido – que está previsto nas convenções internacionais que Macau assinou sobre direitos humanos, defende – então a Associação irá “submeter um apelo urgente à ONU”. De acordo com a rádio, Jason Chao disse mesmo que a falta de legislação que proteja o direito da comunidade LGBT é uma situação que pode estar relacionada com as convicções religiosas da Secretária Florinda Chan. “Numa reunião que tive no ano passado com Florinda Chan e com Chui Sai On, a Secretária disse que não podia apoiar a homossexualidade porque ela é católica. Mas ela sabe que a igualdade da comunidade LGBT tem sido um direito reconhecido internacionalmente e adoptado pelas Nações Unidas. Florinda Chan não pode recusar-se a agir a favor da comunidade LGBT por causa das suas crenças religiosas”, disse Chao, citado pela rádio.

POSTAIS PARA FLORINDA A Associação está também a organizar a campanha “Uma Pessoa, Um Postal”, para que a população, “principalmente os membros da comunidade LGBT”, possa exprimir a sua opinião sobre o assunto e enviá-la à Secretária Florinda Chan. O postal está disponível na página da internet da Associação de 6 a 30 de Novembro.

associação. “Listámos duas razões para justificar a nossa petição: Macau é parte das Nações Unidas e as políticas do Governo devem ir ao encontro dos regulamentos da ONU. Por isso mesmo é que submetemos um relatório à organização, cuja resposta chegou ao Governo e à população, referindo que deve haver uma lei contra a discriminação em Macau”, esclareceu, referindo-se às recomendações da ONU enviadas este ano a Macau. Anthony Lam adiantou ainda que a associação acredita que “à luz desta resposta, o Executivo deve reintroduzir os casais do mesmo sexo na lei, de forma a estarem igualmente protegidos”. Recorde-se que, na proposta de lei inicial apresentada pelo Governo, os casais do mesmo sexo estavam incluídos, tendo sido depois retirados.

SEGUIR EXEMPLOS

Anthony Lam e Jason Chao, activista que marcou também presença, dizem ainda ter falado

também com um responsável de um departamento legal do Governo, que os informou que a reintrodução desta medida “poderia não coexistir com a lógica do casamento em Macau”. Os activistas rejeitam essa hipótese, dando como exemplo o caso português. “Ao investigar a lei portuguesa, descobrimos que, quando Portugal fez a Lei Contra a Violência Doméstica – onde incluiu casais do mesmo sexo -, em 2007, o casamento homossexual ainda não era reconhecido ou legal, o que só aconteceu em 2010. Se não houve conflitos legais na lei portuguesa e Macau segue a legislação lusa, então não vemos motivos para que o mesmo não aconteça aqui”, argumentou Lam. Jason Chao, que é também porta-voz da associação, reforçou a posição da associação perante a violência doméstica. “Qualquer acto de violência dentro dos espaços do domicílio é considerado violência doméstica. O Governo


política 5

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

ENSINO DEPUTADA CRÍTICA ATRASOS NA REVISÃO DA LEI

Sofrimento Superior Nem dados, nem calendários. A revisão da Lei do Ensino Superior continua lenta e a deputada Chan Hong tece duras críticas ao Governo

UMAS SEM OUTRAS

FILIPA ARAÚJO

filipa.araujo@hojemacau.com.mo

P

ELA terceira vez no espaço de um ano, a deputada Chan Hong volta a interrogar o Governo relativamente à Lei do Ensino Superior. A deputada quer saber em que pé está a revisão do Regime que, diz,

já foi prometida desde a transição. “As instituições de ensino superior e os seus docentes estão insatisfeitos com o atraso da revisão da lei, o que não beneficia o desenvolvimento equilibrado das escolas e a formação de talentos”, começa por argumentar a deputada,

FLORA FONG

flora.fong@hojemacau.com.mo

O

referiu que o projecto de revisão já estava na fase final, mas a sociedade continua sem saber qual o conteúdo da nova lei”, atira Chan Hong, ligada ao sector da Educação. Em 2013, o Chefe do Executivo garantiu que as tarefas de revisão “já estavam na fase final”, mas “já decorreu quase um ano e ainda não se vê nenhuma calendarização sobre a implementação da lei, nem tão pouco as respectivas informações”, acusa Chan Hong, que diz ainda que sempre que recebe respostas do Executivo, estas são “sempre as mesmas”.

primeiro relatório de avaliação a titulares de cargos públicos deverá estar concluído até ao final deste ano, por forma a que “a sociedade saiba a eficiência dos trabalhos do Governo”. Isso mesmo prometeu José Chu, director dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP). Muito se tem criticado o facto de muitos departamentos públicos não serem eficientes, exigindo-se a criação de um regime de responsabilização para os titulares dos principais cargos. Ontem, o director referiu ao jornal Ou Mun que já foi criado um mecanismo de avaliação do desempenho de departamentos e dos seus directores e que essa avaliação seria dada a conhecer até Dezembro. José Chu disse ainda

numa interpelação escrita entregue à Assembleia Legislativa (AL) no final do mês passado. “Passados vários anos, as exigências para as instituições de ensino superior mudaram e a desactualização das leis afecta o desenvolvimento das escolas. O Governo

Foi precisamente numa dessas respostas, que o Governo garantiu que, caso a nova Lei do Ensino Superior fosse aprovada, iria iniciar “os trabalhados de produção legislativa de uma série de diplomas complementares, nomeadamente sobre o Fundo do Ensino Superior e o regulamento do ensino superior”, entre outros. Posto isto, a deputada questiona como é que o Executivo está a falar de diplomas se ainda não está definida sequer

GAES SOFRE REFORMUL AÇÃO Numa outra resposta à deputada, o Governo afirmou que será necessário “rever a estrutura orgânica e as funções do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior” (GAES). Reflectindo sobre as declarações do Executivo, Chan Hong questiona “qual o posicionamento e as principais matérias alvo de revisão” deste gabinete, liderado por Sou Chio Fai. Recorde-se que, tal como o HM noticiou, o GAES ainda não tem uma data concreta para a apresentação da nova lei, apesar do processo estar “na sua fase final” desde Janeiro do ano passado.
 Dependentes da nova lei estão os estatutos jurídicos das instituições públicas de ensino, que passarão por alterações. O Instituto Politécnico de Macau (IPM) confirmou ao HM que todas as mudanças dependem da nova lei, mas o GAES prefere não revelar datas exactas.

uma data de apresentação da revisão. “Se ainda não existe uma calendarização para a produção da referida lei, tão pouco se pode falar

“As instituições de ensino superior e os seus docentes estão insatisfeitos com o atraso da revisão da lei” CHAN HONG Deputada

da definição dos respectivos diplomas complementares”, defende. No documento, Chan Hong questiona o Governo se já existe uma data definida para submeter a proposta à Assembleia Legislativa e quais as vantagens desta nova lei. A deputada considera ainda que é importante que o Executivo diga quais as medidas que possui para definir os planos de produção legislativa e de desenvolvimento do ensino superior. É importante perceber também, segundo a deputada, como é que o Governo irá promover o desenvolvimento saudável dos estabelecimentos do ensino superior.

GOVERNO PRIMEIRA AVALIAÇÃO ATÉ DEZEMBRO

A promessa de José Chu que o sistema de avaliação tem como base a responsabilização. “O mecanismo inclui uma avaliação por semestre e outra avaliação, maior, por cada ano. Mas não se deve pedir a demissão dos titulares se os

resultados da avaliação não forem bons”, garantiu o director dos SAFP. O responsável disse ainda que o objectivo deste sistema é, pelo contrário, melhorar o desempenho de cada depar-

RECR UTAMENTO CENTRAL José Chu garantiu ainda ao jornal Ou Mun que o processo do Recrutamento Centralizado da Função Pública vai ser alvo de melhorias, estando previsto, por exemplo, a diminuição do tempo para a realização do exame. Questionado sobre o facto de só um candidato ter sido aprovado para o serviço de técnico jurídico, de entre 500 pessoas, José Chu salientou que os recursos humanos na área jurídica são sempre limitados no Governo e que não é a primeira vez que isso acontece. José Chu disse ainda que as perguntas poderão ser colocadas online, para que os candidatos possam saber mais sobre o modelo e conteúdos do exame. Mas adiantou que não é possível retirar conteúdos ou a diminuir a exigência do mesmo.

tamento. “Os departamentos devem entregar, a cada semestre, os balanços dos processos que estão a executar. Caso existam atrasos ou não consigam levá-los a cabo, é preciso encontrar as causas e as medidas para a devida recuperação”, confirmou José Chu. O director frisou ainda que não vão ser tornadas públicas as notas dadas aos titulares dos cargos, uma vez que não existe uma lei que regulamente esse aspecto. José Chu salientou que as punições dos funcionários públicos não são o objectivo principal da avaliação, mas sim a descoberta de “problemas e o aumento da capacidade de execução do Executivo”.

GIF Deloitte a cargo de análise dos riscos

Debora Ng, coordenadora do Gabinete de Informação Financeira (GIF) foi ontem autorizada pelo Secretário para a Economia e Finanças a assinar um novo contrato com a Deloitte Touche Tohmatsu – Sociedade de Auditores. A responsável do GIF vai, assim, encomendar a segunda fase do serviço de consultadoria na elaboração da análise dos riscos de Macau. Não se sabe ainda qual o valor do estudo, uma vez que em Boletim Oficial foi apenas publicado o despacho assinado por Francis Tam, que autoriza Debora Ng a assinar contrato com a Deloitte.


6 publicidade

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

Anúncio [N.º 201411-1]

AVISO COBRANÇA DA 2.ª PRESTAÇÃO DO IMPOSTO COMPLEMENTAR DE RENDIMENTOS 1. 2.

3.

4.

5.

6. 7.

Avisa-se os Srs. contribuintes que a 2.ª prestação do referido Imposto, respeitante a 2013, é cobrada durante o mês de Novembro do ano corrente. No mês de pagamento, se os contribuintes não tiverem ainda recebido o conhecimento de cobrança, agradece-se que se dirijam ao NÚCLEO DE INFORMAÇÕES FISCAIS, situado no r/c do Edifício “Finanças”, ao Centro de Atendimento Taipa ou ao Centro de Serviços da RAEM, trazendo consigo o conhecimento de cobrança ou fotocópia do ano anterior, para efeitos de emissão de 2.ª via do conhecimento de cobrança. O pagamento pode ser efectuado, até ao último dia do mês de Novembro, nos seguintes locais: - Nas Recebedorias do Edifício “Finanças”, do Centro de Atendimento Taipa, do Centro de Serviços da RAEM ou do Edifício Long Cheng; Os impostos/contribuições poderão ser pagos por intermédio de cartão de crédito ou de débito emitidos pelo Banco da China ou pelo Banco Nacional Ultramarino (incluindo “Maestro” e “UnionPay”). O valor total de pagamento não pode ser superior a MOP$100.000,00 (cem mil patacas), sendo apenas permitido utilizar na operação um único cartão. Poderá também optar pelo pagamento através do cartão “Quick Pass” do Banco da China, sendo que o valor total de pagamento não pode ser superior a MOP$1.000,00 (mil patacas). - Nos balcões dos Bancos a seguir discriminados: Banco da China; Banco Comercial de Macau; Banco Delta Ásia; Banco Industrial e Comercial da China; Banco Luso Internacional; Banco Nacional Ultramarino; Banco Tai Fung e Banco OCBC Weng Hang. - Nas máquinas ATM da rede Jetco de Macau, assinaladas com a indicação <<Jet payment>>; - Por pagamento electrónico ( “banca-on-line” ), no Banco da China, no Banco Nacional Ultramarino, no Banco Tai Fung ou no Banco OCBC Weng Hang, através dos endereços: www.bocmacau.com , www.bnu. com.mo, www.taifungbank.com e www.ocbcwhmac, respectivamente; - Por pagamento telefónico “banca por telefone”, no Banco da China ou no Banco Tai Fung. Se o pagamento for efectuado por meio de cheque, a data de emissão não poderá ser anterior, em mais de três dias, à da sua entrega nas Recebedorias da DSF, devendo ser emitido a favor da <<Direcção dos Serviços de Finanças>>, nos termos das alíneas 2) e 3) do n.º 1 do Artigo 4.º do Regulamento Administrativo n.º 22/2008. Se o valor do cheque for igual ou superior a MOP$50 000,00, deverá o mesmo ser visado, nos termos da alínea 4) do Artigo 5.º do Regulamento Administrativo acima mencionado. Os contribuintes podem também efectuar o pagamento através do envio de ordem de caixa, cheque bancário ou cheque por correio registado para a Caixa Postal 3030. Note-se que não se pode enviar dinheiro, mas apenas ordem de caixa, cheque bancário ou cheque, devendo incluir-se um envelope devidamente selado e endereçado ao próprio contribuinte, a fim de se enviar posteriormente o respectivo conhecimento, comprovando o pagamento. Lembra-se que devem ser respeitadas as regras descritas no ponto 4, relativamente aos cheques. - O envio para a caixa postal deve ser feito 5 dias úteis antes do termo do prazo de pagamento indicado no conhecimento de cobrança. Nenhum dos métodos acima mencionados acarreta quaisquer encargos adicionais aos contribuintes pela prestação do serviço de cobrança. Para a sua comodidade, evite pagar os impostos nos últimos dias do prazo. Aos 30 de Outubro de 2014. A Directora dos Serviços, Vitória da Conceição

Torna-se público que, nos termos do artigo 29.º do Regulamento Administrativo n.º 5/2014 (Regulamentação da Lei do planeamento urbanístico), vai proceder-se à recolha de opiniões dos interessados e da população respeitantes aos projectos de Planta de Condições Urbanísticas (PCU) elaborados para os lotes abaixo indicados: ─ ─ ─ ─ ─

Processo N.º: 96A073, Rua Oeste do Mercado de S. Domingos no24 – Macau; Processo N.º: 2007A011, Rua dos Cavaleiros no22A – Macau; Processo N.º: 2009A067, Rua dos Ervanários no 5 e Rua de Nossa Senhora do Amparo no6 – Macau; Processo N.º: 2014A012, Avenida de Almeida Ribeiro nos 558-566 – Macau; Processo N.º: 2014A066, Terreno junto ao Caminho das Hortas(TN14a) – Taipa.

Para efeitos de referência, os projectos de PCU dos lotes supracitados já estão disponíveis para consulta no Departamento de Planeamento Urbanístico, situado na Estrada de D. Maria II n.º 33, 19º andar, Macau, e encontram-se afixados na Rede de Informação de Planeamento Urbanístico desta Direcção de Serviços (http://urbanplanning.dssopt.gov.mo). O período de recolha de opiniões tem a duração de 15 dias e decorre entre 10 de Novembro de 2014 e 24 de Novembro de 2014. Os interessados e a população poderão apresentar as suas opiniões sobre os projectos de PCU referidos, mediante o preenchimento do formulário O011, o qual pode ser descarregado nos websites http:// urbanplanning.dssopt.gov.mo ou www.dssopt.gov.mo, ou levantado nesta Direcção de Serviços (Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau), podendo submetê-lo no período de recolha de opiniões através dos seguintes meios: ─ Comparecendo pessoalmente: Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau, durante o horário de expediente nos dias úteis ─ Correio: Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau (o prazo limite de entrega é contado a partir da data de envio indicada no carimbo do correio) ─ Fax: 2834 0019 ─ Email: pcu@dssopt.gov.mo Para mais informações pode pesquisar o website http://urbanplanning.dssopt.gov.mo e para qualquer informação adicional queira contactar o Centro de Contacto desta Direcção de Serviços (8590 3800). Macau, aos 04 de Novembro de 2014

A Directora dos Serviços, Substituta Chan Pou Ha


SOCIEDADE

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

NOVA CITY TRIBUNAL ABSOLVE COMISSÃO DE MORADORES

ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

Vitória de sabor amargo

O

O tribunal deu razão à Comissão Instaladora de Condomínios dos Nova City e absolveu 37 pessoas de acusações feitas pela empresa proprietária do prédio. O objectivo era a fiscalização da prática dos proprietários dos edifícios com as receitas das quotas dos condomínios, mas a sentença não vai ter resultados efectivos, uma vez que a lei nada diz sobre a criação de associações de moradores uma vez que a lei não permite que comissões de moradores fiscalizem os promotores dos edifícios.

SEM LEI

“A lei de Macau está ultrapassada e quando tentámos criar a nossa

própria associação de moradores não conseguimos. A lei não é clara quanto a esse aspecto. E os proprietários têm muito poder, porque têm em sua posse entre mil a dois mil apartamentos e 200 lugares de estacionamento. Como é que vamos

fazer que estas pessoas concordem com alguma coisa? Não fazem nada, apenas especulação, não se preocupam com os problemas”, explicou Wing Huie, que diz ainda que nunca conseguiram qualquer diálogo com os promotores dos Nova City.

HOJE MACAU

Tribunal Judicial de Base (TJB) decidiu absolver 37 arguidos de acusações feitas pela Nova Taipa – Urbanizações Lda, empresa proprietária dos edifícios residenciais Nova City, junto ao hotel Altira. Os arguidos pertencem à Comissão Instaladora de Condomínios dos Nova City que estavam acusados de levarem a cabo iniciativas ilegais e de terem promovido uma assembleia-geral também ilegal. O TJB não conseguiu provar os factos, que remontam a 2010. Não se provou “a verdadeira tomada de decisões na assembleia efectivamente realizada no dia 13 de Novembro de 2010”, consideraram os juízes. “Na falta de factos afirmativos da realização efectiva da assembleia e deliberação que a [Nova Taipa – Urbanizações Lda] pretende impugnar, ou a acta que forma a deliberação, não podemos ter por realizada e verificada tal deliberação”, aponta ainda o acórdão.

“A lei de Macau está ultrapassada e quando tentámos criar a nossa própria associação de moradores não conseguimos. A lei não é clara quanto a esse aspecto” WING HUIE Presidente substituto da Comissão Instaladora de Condomínios

Caruso Fong e Wing Huie, secretário e presidente substituto da Comissão Instaladora de Condomínios, respectivamente, organizaram ontem uma conferência de imprensa para dizerem que, apesar da decisão favorável, pouco poderão fazer na prática,

FLORA FONG

flora.fong@hojemacau.com.mo

D

OIS especialistas na área do Ambiente defenderam ao jornal Exmoo News que não existem medidas avançadas para o tratamento de resíduos electrónicos em Macau e apelam à criação de um melhor sistema de reciclagem. As declarações foram feitas ao jornal de língua chinesa com base num estudo encomendado pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) à Uni-

O objectivo da realização de encontros era a fiscalização do que os proprietários dos edifícios estariam a fazer com as receitas das quotas dos condomínios. “Queríamos apenas supervisionar. O nosso dinheiro não podia ser usado sem a nossa aprovação. Queríamos também que nos mostrassem as despesas. Por exemplo, a entrada dos prédios tem câmaras de videovigilância, mas nos restantes andares não há. Não há protecção e queríamos mudar isso”, disse Wing Huie.

DINHEIRO DEITADO À RUA

O presidente substituto da Comissão Instaladora, que diz ter gasto do seu bolso cerca de 80 mil patacas com o processo, acredita que pouco ou nada vai mudar com a sentença. “Todo este processo não foi apenas para a comunidade dos edifícios Nova City, mas para toda a Macau. Queremos que o Governo saiba que esse problema existe há muito tempo e alertar todas as pessoas ou associações de condomínios para que digam ao Governo que não vão aceitar isto. Não apoiem os grandes empresários. Não sei o que podemos fazer. Temos isto, mas isso não significa nada. Se o Governo não nos ajudar, não podemos fazer nada. Gastei imenso dinheiro e sinto que apenas deitei o meu dinheiro fora”, apontou. Recorde-se que em 2011 foi entregue uma petição a pedir mudanças à actual legislação: pediam que a pessoa que compra uma casa deveria ser considerada a proprietária assim que pague o apartamento, podendo escolher quem administra o prédio. Nos Nova City, a Nova Taipa – Urbanizações Lda, nunca reconheceu os moradores das casas como proprietários, porque não existe uma escritura pública. Foi esse argumento utilizado pela empresa para levar a Comissão Instaladora a tribunal – os moradores não podem, no seu entender, convocar assembleias de condóminos, porque, na prática, ainda não serão donos a 100%.

AMBIENTE AUSÊNCIA DE MEDIDAS PARA RESÍDUOS ELECTRÓNICOS

Quase tudo ainda por fazer versidade de Tsinghua, em Pequim, com o nome “Técnicas e demonstração de gestão e controlo da poluição de resíduos electrónicos em Macau”. O trabalho foi feito em 2010, mas desde então que pouco ou nada tem sido feito nesse sentido. Wang Zhishi, participante no estudo e docente da Universidade de Macau

(UM), disse ao Exmoo News que, graças ao desenvolvimento tecnológico, existem cada vez mais resíduos, que são difíceis de ser tratados. “Não é adequado colocá-los em aterros porque contêm metais pesados, o que vai influenciar o solo e a água. Além disso, devido às altas temperaturas, os resíduos iriam emitir ele-

mentos com o perigo de serem cancerígenos, portanto também não é uma solução a longo prazo”, defendeu o engenheiro ambiental.

PASSIVIDADE

Wang Zhishi acusou ainda o Governo de ter uma atitude “passiva” em relação à criação de um sistema de tratamento de resíduos

7

electrónicos, o que faz com que não haja qualquer tipo de avanço. “Tentámos debater a viabilidade de criar uma fábrica de tratamento de resíduos electrónicos. No entanto, descobriu-se que como a população local é de pequena dimensão, seria impossível equilibrar as despesas e receitas com o sistema, pelo que a fábrica não ia

ter grandes lucros”, explicou o investigador da UM. Wang Zhishi defendeu ainda que Macau deveria implementar uma medida a longo prazo com base na ideia de “quem polui, paga”, ou seja, cobrando-se tarifas a quem deitasse fora os seus aparelhos tecnológicos. Ho Wai Tim, presidente da Associação de Ecologia de Macau, também disse que Macau tem falta de medidas nesta área, sugerindo a expansão de lixeiras a restos de alimentos e resíduos electrónicos.


8 sociedade

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

ESTUDO NOMES DAS RUAS DEVERIAM SER TRADUZIDOS EM INGLÊS

Beco da Cule ou “Dragon Meeting Point”? O académico Libo Yan defende que as ruas passem a ter uma designação em inglês e deixa a sugestão de que o Governo faça um trabalho de investigação que explique a história por detrás de cada rua

U

M estudo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) defende que o interesse dos visitantes pela cidade seria significativamente mais elevado se os nomes das ruas, actualmente em português e chinês, fossem traduzidos para inglês. Os benefícios, alega o académico Libo Yan, seriam não só ao nível da circulação dos turistas, mas também do seu conhecimento da história da cidade. “Há uma correlação relativamente forte entre o interesse [nos nomes das ruas] e o desejo de visitar [a cidade]. As descobertas

[deste estudo] sugerem que o entendimento dos nomes das ruas pode estimular o interesse e desejo de visitar”, indica o estudo, publicado no final de Outubro. Em declarações à agência Lusa, o académico lembrou que os nomes das ruas da cidade “reflectem a comunicação entre duas culturas”, a chinesa e a portuguesa. Até 1869, as ruas tinham apenas nomes numa língua, o que significava que algumas áreas da cidade estavam nomeadas em português, outras em chinês. Em 1969, o Governo avançou com as placas bilingues, apesar de não se tratarem sempre de traduções PUB

HM-2ª VEZ 6-11-14

CV2-13-0112-CEO

2º Juízo Cível

Exequente: MELCO CROWN (MACAU), S.A. (新濠博亞 (澳門) 股份有限 公司 ), com sede em Macau, Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, nº. 411-417, Edifício Dynasty Plaza, 15º. Andar O, P. Executado: TANG JIN QUAN (湯錦全), solteiro, maior, de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Avenida da Amizade, La Oceania, 5º. Andar “C”. Faz-se saber que nos autos acima indicados são citados os credores desconhecidos do executado para, no prazo de quinze dias, que começa a correr depois de finda a dilação de vinte dias, contada da data da segunda e última publicação do anúncio, reclamar o pagamento dos seus créditos pelo produto dos bens penhorados sobre que tenham garantia real e que são os seguintes: Bens Penhorados Verba nº 1 Deposito das contas bancárias do Banco Industrial e Comercial da China em nome do executado, no valor em total de MOP$561,469.56. Verba nº 2 Deposito da conta bancária do Banco da China em nome do executado, no valor em total de MOP$1,597.78. Verba nº 3 Deposito das contas bancárias do Banco Weng Hang em nome do executado, no valor em total de MOP$64,600.67. Verba nº 4 Deposito das contas bancárias do Banco Tai Fung em nome do executado, no valor em total de MOP$10,240.49. Aos 22 de Outubro de 2014. *****

“MISUNDERSTANDING”

A nomenclatura das ruas de Macau reflecte o passado e a evolução de cada bairro.

Muitos nomes são referências às actividades comerciais da zona, a edifícios históricos ou religiosos, a personalidades locais importantes ou acontecimentos históricos. Há também nomes auspiciosos ou idiomáticos, como, por exemplo, “Pátio da Adivinhação”, “Rua da Barca”, “Pátio das Ilusões”, “Travessa do Garfo”, “Rua da Fonte da Inveja” e “Pátio da Eterna União”. O inquérito aos visitantes, levado a cabo entre 2 de Maio e 14 de Junho de 2012, indicou que os turistas que não dominam chinês ou português são mais críticos da ausência do inglês, mas essa preocupação foi também salientada pelos chineses do continente, que representam cerca de 90% dos turistas de Macau. Libo Yan lembra que, apesar de conseguirem ler o

“Os nomes das ruas em Macau são muito especiais e muitas vezes [os turistas] não conseguem perceber o significado porque são traduções do português” LIBO YAN Académico

SAÚDE SEIS CENTROS RECEBEM ACREDITAÇÃO AUSTRALIANA

ANÚNCIO

Proc. ordinário de execução nº

directas e antes traduções idiomáticas, com o objectivo de passar a mesma mensagem adaptada a cada cultura. Libo Yan dá como exemplo a rua ‘Julongli’ (originalmente escrita em caracteres), que significa “local de encontro dos dragões”. Em português o nome adoptado foi “Beco da Cule”, já que a palavra ‘dragão’ era usada como termo para os ‘cules’, os trabalhadores asiáticos vendidos ao estrangeiro no século XIX. Segundo o académico, o nome chinês “expressava a esperança dos trabalhadores para um futuro melhor, enquanto o português lembrava a realidade amarga da época”.

significado literal das ruas, estes turistas continuam a precisar de interpretação. “Os nomes das ruas em Macau são muito especiais e muitas vezes não conseguem perceber o significado porque são traduções do português”, indicou. É por este motivo que o académico sugere também, além das traduções em inglês, que o Governo invista num trabalho de interpretação, que conte a história por detrás de cada rua, não só a pensar nos visitantes, mas também nos residentes. “Às vezes, até os locais não percebem alguns nomes, quanto mais os turistas”, comentou. O académico defendeu que os nomes das ruas são “um nicho negligenciado” que deve ser tido em consideração, de modo a elevar o interesse dos visitantes na história da cidade. O uso do inglês vai também ao encontro do objectivo de tornar Macau num Centro Internacional de Turismo e Lazer, defendeu. - Lusa/HM

Três anos com carimbo O Conselho Australiano de Normas da Saúde (ACHS, na sigla inglesa) atribuiu seis acreditações a Centros de Saúde locais, anunciaram os Serviços de Saúde (SS). Um comunicado do organismo explica que apesar de terem havido “lacunas” nas instalações e serviços, os SS conseguiram obter a acreditação, após “os Centros de Saúde terem dado início a um conjunto de trabalhos de optimização”. No comunicado, os SS explicam que os Centros da Areia Preta, Fai Chi Kei, Tap Seac, São Lourenço , Porto interior e Taipa foram avaliados por peritos do ACHS quanto ao “nível de padronização dos Centros, no âmbito da qualidade dos serviços de assistência clínica e de instalações”, tendo conseguido “aprovação em todos os critérios e ultrapassando em muito a exigência básica para a acreditação”. Os SS não explicam que lacunas foram apontadas, mas asseguram que os Centros de Saúde conseguiram uma avaliação de “Realização Moderada”, tendo cumprido 26 critérios, quando só são necessários apenas 15 para passar. “Ultrapassa em muito a exigência bá-

sica de aprovação (...), deste modo foi atribuído [aos Centros] a acreditação total por um período de três anos”, escrevem os SS.

APRENDER LÁ FORA

Os SS asseguram ainda que a aposta no desenvolvimento da saúde está a acontecer “de acordo com a mudança populacional” de Macau e faz questão de referir que “representantes dos diferentes Centros de Saúde foram enviados a várias instituições de saúde fora do território para estudarem diferentes metodologias”. Mas, mais ainda, os SS asseguram ter recolhido opiniões de utentes, trabalhadores e

doentes sobre os serviços prestados em cada Centro de Saúde. Os SS dizem ainda ter criado um grupo de trabalho que vai controlar estes locais. No total, a avaliação feita pelo ACHS tem em conta factores, como a prestação de cuidados contínuos, a gestão de medicamentos, controlo das infecções, entre outros. O ACHS é uma organização australiana, sem fins lucrativos e que existe há 40 anos. Os seis Centros de Saúde da RAEM são os primeiros grupos de centros clínicos diurnos de Macau acreditados, depois do Centro Hospitalar Conde de São Januário.

O HM ERROU Na edição de 4 de Novembro, na

reproduzidas quando, na realidade, foi

notícia intitulada “Sem Perdão”,

Cheang Seng Ip, também responsável

sobre a multa aplicada à Melco Crown,

dos Serviços de Saúde, quem fez a

colocámos erradamente que Chan

declaração. Aos leitores e visados as

Wai Sin prestou as declarações ali

nossas desculpas.


sociedade 9

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

INDÚSTRIAS CULTURAIS TRABALHO REPARTIDO POR CINCO

LEONOR SÁ MACHADO

leonor.machado@hojemacau.com.mo

O

Conselho para as Indústrias Culturais vai passar a operar com cinco grupos de trabalho, cada um deles dedicado a uma área e tarefa específicas, como a estatística, investigação e tratamento de dados, a análise de políticas a implementar para o crescimento do sector, ou a recolha de dados sobre a arte e design criativo existentes na região. A cargo do último grupo fica a questão da venda e proliferação de produtos e marcas locais, de forma a possibilitar a sua comercialização e expansão. “O Governo já publicou o quadro de desenvolvimento das indústrias culturais há algum tempo e há que gerir os recursos e organização em grupos de trabalho especiais”, referiu José Chui Sai Peng, vice-presidente do Conselho. Aos já existentes três grupos juntam-se agora mais dois, assim completando o conjunto de colectivos responsáveis pela organização desta indústria. “Espero que possamos fazer um bom trabalho e transformar o sector [das indústrias criativas] em algo permanente para Macau”, acrescentou. Alguns dos grupos vão ser geridos por departamentos públicos, sendo que o grupo de Coordenação de Políticas vai ser gerido pelo próprio Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, directamente.

ÀS SUGESTÕES TANTAS

O anúncio da extensão dos grupos de trabalho foi feito ontem, durante a 2.ª reunião do Conselho. Alguns membros reflectiram as

FIC AVALIAÇÃO DAS ASSINATURAS Chui Sai Peng não adiantou pormenores sobre o Fundo para as Indústrias Culturais, apenas assegurando que o assunto está ainda a ser discutido e as “centenas” de candidaturas estão em revisão e avaliação. “Parece-me que é um assunto que está a ser tratado com muita seriedade e o facto de terem sido disponibilizados dois mil milhões de patacas para o Fundo, não quer dizer que tenhamos que despender tudo. Concordo com os membros quando dizem que é preciso analisar bem para saber como distribuir o dinheiro”, apontou.

Dividir para ganhar

O Conselho para as Indústrias Culturais passa agora a ter cinco grupos distintos de trabalho, cada um deles com uma tarefa e área específicas. Pouco ainda se sabe sobre o Fundo e os planos futuros

suas preocupações e deram sugestões para o desenvolvimento do sector. Para o presidente do Instituto Politécnico de Macau, Lei Heong Iok, o território tem “potencial na área dos recursos humanos”, mas poucas pessoas estão envolvidas nesta área, uma vez que muitos deles ainda não finalizaram os estudos ou estão a trabalhar noutros sectores profissionais. Já um dos vogais, Kong Mei Fan, considera que devia ser criado um Centro de Curtas-Metragens de forma a internacionalizar esta prática e mostrar Macau ao mundo. “Agora que o cinema é uma prática cada vez mais popular aqui, considero que já estão reunidas as condições para formar uma cultura cinematográfica”. Além disso, referiu, poderia ser criado um galardão específico para a região, à semelhança do que acontece com os Óscares, dos EUA, que premeiam os melhores filmes do mundo. Outro dos membros do Conselho, Ip Cheng Lun, referiu que devia ser dada mais informação aos artistas sobre as agências e galerias de venda, de forma a expandir a arte a nível internacional.

Joalharia Queda de receitas idêntica à do Jogo

A

S quedas nas receitas em Macau não estão apenas a afectar a indústria do Jogo. De acordo com comerciantes do sector da joalharia e da relojoaria a queda das receitas das vendas a retalho nesta área é semelhante à queda das receitas do Jogo, porque, dizem, existem menos clientes a comprar produtos de preços elevados. Segundo o Jornal Ou Mun, existem responsáveis da área da joalharia e relojoaria de Macau que referem que a queda nas vendas

acontece também há cinco meses, como as do jogo. Um responsável por uma joalharia afirmou que existe pressão nos negócios e que as pessoas estão a optar por comprar coisas mais baratas. É assim que o responsável justifica a queda de 20% na venda de produtos de luxo, especialmente nas lojas junto aos casinos.

Um outro responsável, entrevistado pelo jornal, afirmou que a venda de produtos de mais de cem mil patacas foi a que mais sofreu. “Ao observar a loja, o movimento de clientes não diminuiu, apenas existem menos clientes interessados em produtos de luxo”, afirmou. O empresário disse ainda que não prevê que este comportamento se altere, mantendo-se por isso em queda. “As empresas de grande dimensão podem suportar, mas as de tamanho médio podem ser obrigadas a fechar”, alerta ainda. -F.F.

“Espero que possamos fazer um bom trabalho e transformar o sector [das indústrias criativas] em algo permanente para Macau” JOSÉ CHUI SAI PENG Vice-presidente do Conselho para as Indústrias Culturais

Chong Chuo Lam, director da Associação dos Artistas de Macau e membro do Conselho disse que “o sector tem que ser internacionalizado” para ganhar a importância e relevância querida pelo Executivo. “O mercado local é limitado”, diz, acrescentando que é necessário levar a marca regional por esse mundo fora. A ideia passa pela criação, por exemplo, de um Centro de Intercâmbio do território noutros países, a título de representação nas regiões vizinhas como Hong Kong, Singapura ou Japão.

PUB

Tabaco Caso Melco Crown a ser tratado “por via jurídica”

O caso da violação da lei que proíbe o fumo nos casinos ligado ao City Of Dreams está a ser tratado por via jurídica. Isso mesmo disse o director dos Serviços de Saúde (SS), Lei Chin Ion, sobre o recente caso de quebra de normas por parte do grupo Melco Crown. O responsável dos SS referiu ainda que a operadora vai receber um aviso e só então poderá interpor um recurso. Entretanto, os SS estão a investigar a respectiva zona, uma vez que não foi autorizada qualquer obra para a construção daquela sala nem foram colocados sinais de proibição de fumar, o que representa uma ilegalidade por parte do grupo de Jogo. Lei acrescentou ainda que a emissão de uma declaração, por parte da Melco Crown, não resolveria o problema, podendo a operadora vir a pagar uma multa entre 10 mil a 100 mil patacas. “Quando as autoridades concluírem os processos e notificarem a Melco Crown, esta terá direito de recorrer através de recurso. Macau é uma sociedade de Direito”, acrescentou o director dos SS ao canal chinês da Rádio Macau.

Polícia Judiciária descobre base de mensagens ‘spam’

A polícia Judiciária (PJ) descobriu ontem uma estação de base falsa de emissão de mensagens ‘spam’ – publicidade indesejada. No edifício próximo das Portas do Cerco, as autoridades detiveram quatro homens residentes na China, simuladores de radiofrequência, computadores e antenas de transmissão. Segundo as autoridades, a estação de base falsa interferia com os telemóveis de quem entrava e saía pelo posto fronteiriço, provocando o envio de um número excessivo de mensagens que incluíam conteúdos relacionados com casinos online. Esta situação já havia sido fortemente criticada por vários deputados. A PJ acredita que as quatro pessoas foram contratados por um grupo criminoso e serão agora acusados de crime de interferência de funcionamento de computadores. As autoridades acreditam, no entanto, que há ainda outras pessoas envolvidas neste caso e que não foram detidas.


10

EVENTOS

hoje macau quinta

DEMO EXPOSIÇÃO DE GRUPO PORTUGUÊS NO CENTRO DE MAC

Caixas cheias de c

O colectivo artístico DEMO está em Macau a convite do e e do Festival Fringe para desenvolver o espectáculo UWA de um workshop com estudantes locais, pode ser visto pel e na Rua dos Mercadores ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

FAM IC recruta bailarinos locais até dia 13

O

XXVI Festival de Artes de Macau, organizado pelo Instituto Cultural (IC), juntamente com o Teatro Nacional e Sala de Concertos de Taipé, estão a recrutar bailarinos locais para a peça “Aerodinâmica”, encomendada à Companhia de Dança WC, de Taiwan. Os interessados devem candidatar-se, gratuitamente, até às 17h00 do dia 13 de Novembro.

A selecção dos candidatos decorrerá três dias depois, no dia 16, no Teatro Dom Pedro V. É importante mencionar que os participantes receberão formação pela companhia e terão oportunidade de marcar presença em actuações futuras. Os ensaios decorrerão desde Dezembro a Junho de 2015, em Taipé. As fichas de candidatura estão disponíveis no site do Festival ou podem ser

recolhidas nas instalações do IC, na Tap Seac. “Aerodinâmica” emprega a dança como uma metáfora para expressar o desejo humano de vencer a gravidade, viajando entre o espaço físico e o espaço psicológico e gerando uma imaginação infinita da dinâmica do corpo. A peça será apresentada, segundo a organização, em Macau e em Taipé em Maio e Junho do próximo ano, respectivamente.

AFA Organização da 5ª edição do Salão de Outono

A associação cultural Art For All (AFA) vai organizar a 5ª edição anual da exposição “Salão de Outono”, composta por obras de vários artistas locais com diferentes talentos e formações. A inauguração terá lugar na Casa Garden, às 18h30 horas de amanhã. Tal como em anos anteriores, o espaço da Fundação Oriente vai servir para expor os trabalhos de 21 artistas do território até dia 30 deste mês, estando a mostra aberta das 10 às 19 horas, diariamente. É já o quinto ano em que a AFA organiza esta mostra para dar a conhecer talentos locais. Em 2011, o “Salão de Outono” reuniu mais de 115 obras de 37 artistas, incluindo instalações, escultura, pintura, multimédia e fotografia. Este ano, conta com 56.

Venetian Grasshopper em Macau para concerto pop

A banda Grasshopper, de Hong Kong, aterra no Cotai Arena do Venetian para um concerto de pop, às 20h00 de dia 6 de Dezembro. O trio do território vizinho foi formado em 1985, contando já com vários êxitos no seu repertório. Composto pelos irmãos Calvin e Remus Choy e o “amigo” Edmond So, o colectivo planeia dar um concerto onde a coreografia, a indumentária e o design de luzes serão elementos básicos. Os bilhetes, que estão à venda desde ontem, custam entre 280 e 1280 patacas, dependendo do local escolhido.

C

ADA caixa de cartão construída a três dimensões tem uma ideia. Um grito de esperança, um conceito, um pedido à população de Macau. Foi este o objectivo do workshop protagonizado pelo colectivo artístico DEMO em Outubro, que teve lugar no Armazém do Boi. Parte do resultado desse projecto desenvolvido com estudantes de Macau pode ser agora visto pelo público na Praça Jorge Álvares e no parque junto à Rua dos Mercadores. A segunda parte desse projecto será depois a base de uma performance a decorrer no âmbito do Festival Fringe, que acontece já este sábado, dia 8. Ao HM, Cláudio Vidal, artista visual e um dos membros fundadores do DEMO, explica como surgiu o trabalho com os jovens de Macau. Tudo começou no dia 17 de Outubro e culminou com uma apresentação por vários espaços da cidade nos dias 1 e 2 deste mês. O restante material ficará exposto. “Alguns trabalhos ficaram de forma temporária na rua até a natureza tomar conta deles. Outros foram momentâneos e aconteceram nos dias 1 e 2. O Fringe contratou-nos para fazer uma performance, a UWAGA!, que envolve todo este processo de diálogo com pessoas da cidade. Tivemos

“Do contacto que tivemos com os nossos estudantes sentimos que estão constrangidos ou oprimidos pela vaga dos turistas, que são demasiados, mas também outros que querem dizer às pessoas de Macau para terem mais esperança” CLÁUDIO VIDAL Artista visual

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA

CIDADÃO DO MUNDO (UMA BIOGRAFIA CIENTÍFICA DO ABADE CORREIA DA SERRA) • Ana Simões, Maria Paula Diogo, Ana Carneiro Figura de relevo do Iluminismo português, o Abade Correia da Serra é, no pelas funções diplomáticas que desempenhou, nomeadamente as de emba Estados Unidos da América, no período turbulento que precedeu a independ contexto, chegou a desempenhar funções de agente científico que, por vezes, Mais tarde, com Thomas Jefferson, sonhou com a construção de dois h emancipados política e cientificamente da velha Europa. A procura incessan política e intelectualmente, condenou-o a ser um eterno peregrino.


eventos 11

a-feira 6.11.2014

CAU

consciência

espaço Armazém do Boi AGA!. Parte do projecto, que resulta lo público na Praça Jorge Álvares a trabalhar com estudantes, para saber o que eles queriam dizer a Macau”, explicou o artista visual.

ESPELHO REAL

As mensagens que ficaram guardadas nas caixas de cartão espelham muitos dos problemas sociais que Macau enfrenta nos dias de hoje.

“Do contacto que tivemos com os nossos estudantes sentimos que estão constrangidos ou oprimidos pela vaga dos turistas, que são demasiados, mas também outros que querem dizer às pessoas de Macau para terem mais esperança, para não terem medo e arriscarem, para terem coragem de sair, para terem outras esperanças e depois voltarem. Outros diziam para terem calma e respirarem. Falam da poluição, da questão dos transportes, do problema da corrupção”, explicou o artista. Cláudio Vidal garante que encontrou jovens com uma consciência cívica face à Macau actual. “Estamos a meio do projecto, mas para já o balanço é bastante positivo. Sentimos que existe uma juventude interessada, activa e consciente das mudanças que aconteceram rapidamente em Macau. Estão com vontade de ser conscientes, sem radicalismos, mas com noção do que se passa à volta e das necessidades. Há uma juventude interessada por outras culturas e outras maneiras de ver as coisas”, garantiu ao HM. Além do espectáculo, Cláudio Vidal explica que ainda vão existir mais intervenções na Rua dos Mercadores. “Foram deixados alguns objectos de cartão e vamos colocar mais objectos e tirar mais fotografias. Talvez façamos mais uma intervenção no domingo, mas ainda estamos a decidir”, disse ainda.

AGUARELA EXPOSIÇÃO DE SIO IN LEONG

Biblioteca Exposição sobre jesuíta polaco

N

O próximo dia 8, a biblioteca Sir Robert Ho Tung vai receber exposição “Entre a Ciência e a Arte: as Maravilhas da Ásia através dos Olhos do Jesuíta Polaco Michał Piotr Boym, SJ”, a qual estará patente até 18 de Janeiro de 2015. O evento conta com organização da Biblioteca Central de Macau, o Consulado Geral da República da Polónia em Hong Kong e o Instituto Mateus Ricci. No mesmo dia, antes da inauguração da exposição, entre as 15h00 e 17 horas, será realizado um seminário sobre a investigação que Boym desenvolveu sobre a China, que será levado a cabo por académicos da Polónia e Pequim. A entrada é livre, sendo que as marcações devem ser feitas junto do Instituto Cultural (IC) até hoje. Michał Piotr Boym, SJ (1612-1659) é conhecido como o “Marco Polo da Polónia” e é considerado o pioneiro da sinologia europeia. Foi um importante missionário, sinólogo e pintor do século XVII. “Nesta exposição serão exibidas várias reproduções de obras de Boym, incluindo ilustrações científicas sobre animais, plantas e a estrutura do corpo humano, que possuem um importante significado histórico e valor artístico. A exposição aproveita o jardim da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, apresentando animais desenhados por Boym de forma tridimensional, trazendo o mundo do missionário de há 400 anos atrás para a vida real”, explica um comunicado.

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

ormalmente, conhecido ixador de Portugal nos dência do Brasil. Neste , raiaram a espionagem. hemisférios americanos nte de uma pátria ideal,

O CERCO DE KRISHNAPUR • J.G. Farrell “Uma coisa é um romance ser espirituoso, outra é contar uma boa história, outra ainda é ser sério, mas juntar os três atributos é o bastante para criar uma obra-prima.” (New Statesman). “Um olhar inspirado, cómico mas em última instância trágico sobre o colonialismo britânico na Índia. Um livro com uma invulgar exuberância.” (The Independent on Sunday).

Sentir o Tibete A

exposição de pintura a aguarela de Sio In Leong – “Sentir o Tibete”, integrada no Projecto de Promoção de Artistas de Macau e organizada pela Fundação Macau, será inaugurada hoje, pelas 18H30, na Sala de Exposição do Centro UNESCO de Macau. A exposição reúne cerca de 30 obras seleccionadas do artista Sio In Leong, sendo que será lançada uma publicação sobre as obras exibidas na exposição com o mesmo título. Sio In Leong nasceu em Macau no ano de 1951 e é discípulo de Tam Chi Sang. No ano de 1985, foi

vencedor do Prémio de Distinção na Exposição de Obras de Belas-Artes dos Jovens de Macau e no ano de 1995 foi vencedor do Prémio de Distinção na Categoria “Pintura Ocidental” na Exposição Colectiva de Caligrafia e Pintura de Macau. Em 2005, uma das suas obras foi nomeada como uma das Dez Melhores Obras da Exposição Anual de Artes Visuais de Macau. Algumas obras da sua autoria fazem parte das colecções do Museu de Arte de Macau, da Galeria de Belas Artes da China, em Pequim, e do Instituto Cultural. Actualmente, o

artista trabalha neste local e é ainda Director da Associação de Artistas de Belas Artes de Macau.

DA PAIXÃO

“Sio In Leong tem uma paixão especial pelo Tibete, que já visitou quatro vezes e do qual guarda boas memórias recheadas de reflexões pessoais. Tirou fotografias aos tibetanos e, depois das viagens, pinta-os a aguarela. As pessoas do Tibete são os temas das suas criações artísticas e o álbum a ser publicado incluirá também fotografias das maravilhosas paisagens do Planalto”, explica a organização. A exposição estará patente ao público entre os dias de 6 e 16 de Novembro, todos os dias, das 10H00 às 19H00 e a entrada é gratuita.


12

CHINA

hoje macau quarta-feira 6.11.2014

PUB

Anúncio Prestação dos serviços de gestão de residência de estudantes do Instituto Politécnico de Macau, pelo período de 24 meses (01/01/2015-31/12/2016) CONCURSO PÚBLICO N.º 06/DOA/2014 1. Entidade que põe o serviço a concurso: Instituto Politécnico de Macau. 2. Modalidade de concurso: Concurso Público. 3. Objecto do Concurso: Prestação dos serviços de gestão de residência de estudantes do Instituto Politécnico de Macau, pelo período de 24 meses (01/01/201531/12/2016) 4. Período: 1 de Janeiro de 2015 a 31 de Dezembro de 2016. 5. Prazo de validade das propostas do concurso: As propostas do concurso são válidas até 90 dias contados da data de abertura das mesmas. 6. Garantia provisória: $234 200,00 (duzentas e trinta e quatro mil e duzentas patacas), através de depósito no Serviço de Contabilidade e Tesouraria do Instituto Politécnico de Macau ou mediante garantia bancária a favor do Instituto Politécnico de Macau, em Macau. 7. Garantia definitiva: 4 % do preço global da adjudicação (para garantia do contrato). 8. Condições de admissão: Entidades com sede ou delegação na RAEM cuja actividade total ou parcial se inscreva na área objecto deste concurso. 9. Local, data e hora de explicação: Local: Divisão de Obras e Aquisições do Instituto Politécnico de Macau, sita na Rua de Luís Gonzaga Gomes, em Macau. Data e Hora: 10 de Novembro de 2014, pelas 10H00. 10. Local, data e hora do limite da apresentação das propostas: Local: Divisão de Obras e Aquisições do Instituto Politécnico de Macau, sita na Rua de Luís Gonzaga Gomes, em Macau. Data e Hora: 20 de Novembro de 2014, antes das 17H45. 11. Local, data e hora da abertura do concurso: Local: Sala de A III do Edifício Chi Un do Instituto Politécnico de Macau, sita na Rua de Luís Gonzaga Gomes, em Macau. Data e Hora: 21 de Novembro de 2014, pelas 10H00. 12. A avaliação das propostas do concurso será feita de acordo com os seguintes critérios: - Preço Razoável (50%) - Qualidade do Serviço (50%); a) Propostas construtivas e aplicáveis à prestação dos serviços (30%) e inclui o seguinte: - Mapa da organização pessoal, condições da nomeação do pessoal, distribuição, gestão dos ordenados e projectos formativos, mapa de salário e subsídio a todos os trabalhadores, especialmente o salário e regalias da encarregada da residência é um factor importante a considerar; - Objectivos e padrão da gestão e o projecto concreto de funcionamento; - Os regulamentos de gestão, o processo dos trabalhos de gestão da residência, o mecanismo de casos de urgência, o projecto do controlo dos recursos públicos, tais como água e electricidade; - Matérias e equipamentos necessários para o trabalho de gestão. b) Experiências e comportamentos do concorrente demonstrada por semelhantes serviços prestados (só avalia os dados do ano 2012 até ao presente) (10%); c) Curriculum Vitae e competências do concorrente (5%); d) Esclarecimentos na reunião (questões profissionais sobre a “Prestação dos serviços de gestão de residência de estudantes do Instituto Politécnico de Macau, pelo período de 24 meses (01/01/2015-31/12/2016)” levantadas pelo Instituto Politécnico de Macau) (5%). 13. Local, hora e preço para exame do processo e obtenção da cópia do processo: Local de exame: Divisão de Obras e Aquisições do Instituto Politécnico de Macau, sita na Rua de Luís Gonzaga Gomes, em Macau Local de obtenção: Divisão de Obras e Aquisições do Instituto Politécnico de Macau, sita na Rua Luís Gonzaga Gomes, em Macau, mediante o pagamento de MOP100,00 (cem patacas). Hora: de 2ª feira a 5ª feira das 09H00 às 13H00 e das 14H30 às 17H45. 6ª feira das 9H00 às 13H00 e das 14H30 às 17H30. Telefone: 8599 6140, 8599 6153, 8599 6404 Macau, aos 28 de outubro de 2014 Presidente do Instituto, Lei Heong Iok

TAIWAN PORTUGUESES QUEREM DELEGAÇÃO COMERCIAL

Outra porta para a Ásia O presidente da AEP sublinha a necessidade de Portugal diversificar mercados para diminuir a excessiva dependência da União Europeia

O

presidente da AEP - Câmara de Comércio e Indústria, Paulo Nunes de Almeida, defendeu ontem, em declarações à agência Lusa, que Portugal tem a ganhar na abertura de uma representação comercial em Taiwan. Num contacto telefónico feito a partir de Macau, Paulo Nunes de Almeida, que está em Taiwan para

uma visita empresarial à frente de uma delegação portuguesa, sublinhou existir hoje “a consciência” do baixo valor do comércio entre aquele país e Portugal, ao mesmo tempo que sublinhou acreditar que as “características” de ambos os parceiros podem potenciar as trocas comerciais. Paulo Nunes de Almeida salientou a posição de Taiwan no mercado asiático e de Portugal na União Europeia e na ligação aos países de expressão portuguesa como mais-valias a explorar para que o “incremento comercial possa ser uma realidade a curto prazo”.

OUTROS MERCADOS

Por outro lado, acrescentou, Portugal também procura “cada vez mais diversificar mercados” e “reduzir a grande dependência em relação aos países da União Europeia”, sendo que nesse

objectivo, “Taiwan, pelo seu potencial, coloca-se nesse radar”. Nos contactos políticos e empresariais, Paulo Nunes de Almeida garantiu que há vontade (na Formosa) de acolher uma representação empresarial/comercial de Portugal em Taiwan e defendeu a ideia como “uma vantagem” para fomentar os negócios bilaterais. No entanto, disse, tal representação deve ser alvo de “sinergias” com várias entidades e ter uma abrangência sectorial multidisciplinar que seja vantajosa para os diversos sectores da economia. A delegação portuguesa inclui representantes do sector bancário, imobiliário, saúde, vinhos e outros sectores da actividade económica e vai permanecer em Taiwan até esta quinta-feira, numa deslocação que surgiu a convite da representação da Formosa em Lisboa.

Hong Kong Último governador admite falhas na promoção da democracia

O

último governador britânico de Hong Kong, Chris Patten, disse na terça-feira, durante um inquérito parlamentar, que o Governo britânico não fez um bom trabalho na introdução da democracia antes da transferência para a China. De acordo com o jornal South China Morning Post, Patten salientou que na década de 1990 o sentimento geral era que Hong Kong iria caminhar a passo seguro para uma democracia plena, e ninguém sentia que “o Exército de Libertação Popular podia vir com tanques para Hong Kong”. Patten falou perante a Comissão de Negócios Estrangeiros britânica, que lançou um inquérito para coincidir com o 30.º aniversário da Declaração Conjunta Sino-

-Britânica, que estabeleceu os termos da transferência de soberania de Hong Kong para a China. “Vou dizer isto de forma simpática: a nossa introdução à democracia não foi boa”, disse Patten, mostrando-se, ainda assim, satisfeito com o acordo conseguido para a Declaração Conjunta, que diz ter sido o melhor possível. Patten disse também desejar que o Governo de Hong Kong seja mais flexível e chegue a um acordo com os manifestantes. “O que se passa em Hong Kong é que há uma extraordinária falta de liderança. [O Governo] tem de entrar em verdadeiras negociações com os manifestantes”, apontou.


h

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

ARTES, LETRAS E IDEIAS

Carlos Morais José

13

INFO@HOJEMACAU.COM.MO

JOSÉ GIL, FILÓSOFO

“O DESCARAMENTO PASSOU A SER UMA DAS CARACTERÍSTICAS DO DISCURSO POLÍTICO” Desejo e medo, pensamento oriental, o mito do Império português ou ainda o papel do intelectual na realidade contemporânea, foram alguns dos temas abordados com o filósofo português na sua recente passagem por Macau Esta é a sua primeira visita a Macau, ao Oriente. O Umberto Eco, quando aqui veio, disse procurar um unicórnio, no sentido do imaginário que construímos em relação ao Oriente. O que vem à espera de encontrar? Vem à procura de algum unicórnio? Um unicórnio que possa fazer a ponte. Recentemente, comecei a interessar-me muito pelo pensamento chinês e japonês (o pensamento indiano já conhecia há bastante tempo). E muitas coisas me intrigam nesse pensamento. Venho um pouco para ver se, afinal de contas, o que se diz sobre o Oriente pode ser pensado de outra maneira, porque tenho uma outra ideia daquilo que leio sobre o Oriente. No fundo é isso: é entrar um pouco pelo entre-pensamento para ver se há pontes. Se, finalmente, nós pensamos, com uma expressividade diferente, a mesma coisa. Ou com uma metodologia diferente. Sim. Metodologias. Expressividades. Caminhos. Fala-se da imagem da recta por oposição à espiral. No Ocidente, pensaríamos de forma rectilínea, enquanto que no Oriente se pensará de forma mais circular, mas ascendente. No entanto, o Ocidente também está a mudar... Claro. A tal ponto que essa comparação e esse uso de metáforas para exprimir o trajecto do pensamento me parece que já não são válidos para o Ocidente. Nós descobrimos que não há linhas rectas, nem sequer linhas contínuas como Hegel queria. Temos linhas descontínuas, cada vez mais. E o nosso pensamento e Filosofia modernos descobriram que existem desconti-

nuidades enormes e que muita coisa se esconde nesses buracos que cortam as linhas. Não há já linha recta. Portanto está-me a falar da Filosofia moderna que nasceu do fim das meta-narrativas, o advento do pós-modernismo.

Não. É uma anterior já. Começou no século XIX, acentuou-se, sendo outra, como a Fenomenologia, onde há muitos ramos. Depois o que marcou esse campo de descontinuidade e interrogação foram as Ciências Humanas, que intervieram no campo da Filosofia e a Filosofia teve de as repensar.

Está a falar da Psicanálise, da Etnologia? A Psicanálise, Etnologia, Psicografia, Mitografia, estudos de muita coisa, como o Marxismo e a Sociologia. Um conjunto de Ciências Humanas que (Continua na página seguinte)


14

h

contribuíram para mostrar que havia sempre vários substratos por debaixo daquilo que a nossa consciência julga ter dito ou expresso. Mas esse advento do inconsciente no discurso parece não convencer, por existirem muitas correntes no discurso europeu e ocidental em geral que pretendem ignorar a crítica do desejo de verdade, a crítica do conhecimento. Está a tocar em questões essenciais e dificílimas. Isso é como a questão do mal, ou a questão pura e simples da estupidez. Porque é que a estupidez, a mediania, a pequenez e mediocridade, o mal, triunfam sempre? Porque é que não há uma sociedade em que maioritariamente, se não a totalidade, dos elementos são felizes, contentes, em que o mal é uma poeira que passa? A sua pergunta parece-me difícil de responder. Mas isso é uma condição humana ou social? É provocado pelas sociedades ou tem a ver com, digamos, uma eventual natureza humana? A própria noção de natureza humana é contestável. Sabemos que essa natureza hoje está simbolizada no genoma. E sabemos que o genoma não determina. O que modifica o que traz o genoma e que vem da cultura continua a ser a velha discussão, para a qual não há solução, mas que sabemos que há esse duplo contributo. Como se articula não sabemos, isso é certo. Mas não há solução para a sua questão. É um mal que está na civilização, digamos assim. É. Ou até se pode pôr a questão assim: se há uma natureza humana, porque é que produziu qualquer coisa que vai contra ela? Qualquer coisa aconteceu, do ponto de vista evolucionista, na passagem – e isto é metafórico – para a humanidade do Homem, que fez com que tudo descambasse. Não entra aí o político? Entra certamente o político, a questão do poder, que nós já vemos em experiências nos grandes símios, nas observações de coisas extraordinárias que se têm encontrado. Entra a questão da formação do Estado. Mas, fundamentalmente, a questão do poder. No pensamento tradicional chinês, a relação política funda-se no assentimento. O exemplo moral do líder faria com que a população se reconhecesse nele e aceitasse uma servidão

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

PORQUE É QUE A ESTUPIDEZ, A MEDIANIA, A PEQUENEZ E MEDIOCRIDADE, O MAL, TRIUNFAM SEMPRE? PORQUE É QUE NÃO HÁ UMA SOCIEDADE EM QUE MAIORITARIAMENTE, SE NÃO A TOTALIDADE, DOS ELEMENTOS SÃO FELIZES, CONTENTES, EM QUE O MAL É UMA POEIRA QUE PASSA? voluntária devido às práticas exemplares que reconhece do líder. É assim que poderá entender o aparecimento do Estado? Não. Aí vejo que leu alguma coisa do que escrevi sobre isso. Tenho uma outra ideia, que não pretende resolver o problema, porque o problema da origem do Estado está por resolver, mas que uma das primeiras etapas da formação do Estado tem a ver com realezas mágicas e, portanto, com os primeiros estados do poder do Estado na China, no Japão ou nas realezas mágicas de África. Ou da América Latina. Isso para mim é evidente, por várias razões. Utiliza muito o conceito de ‘desejo’. Como é que chegou à importância heurística desse conceito? Isso tem a ver com os ensinamentos de Deleuze, que começou a fazer a sua filosofia já há muito tempo, depois de Maio de 68. Ele publicou um livro, “Diferença e Repetição”, que era a sua tese, e começou a leccionar em 1969, em Vincennes. Os seus cursos eram experimentações e começou a experimentar o que viria a ser o AntiÉdipo (livro de Deleuze-Guattari), a ‘teoria do desejo’. O Anti-Édipo teve importância em França e depois no mundo. Naquela França atribulada que tinha quase abandonado o poder com o Maio de 68, com os ministros a queimarem os dossiers, o De Gaulle a fugir para a Alemanha, enfim, uma confusão. E a grande alegria, a alegria muito estranha do Maio de 68, que seria interessante analisar, aparece. Antes da destruição de todos os pensamentos que nos enchiam a cabeça até não poder mais, como a Fenomenologia na Sorbonne... havia Fenomenologia em toda a parte. Eu estava absolutamente farto da Fenomenologia. A coisa é tão verdadeira que grandes nomes, hoje da Psicanálise e da Etnologia, vieram da Filosofia. Abandonaram a Filosofia. Muitos filósofos e aprendizes emigraram para outras disciplinas. Tornaramse linguistas, psicanalistas. A Filosofia

já não respondia às exigências. E depois aparece um indivíduo, do Maio do 68, que nos reconcilia com a Filosofia, que é Gilles Deleuze, que traz a teoria do desejo. Que era bem concebida para ter o espírito do tempo. Estava a ser preciso. Sim, é isso. Mas não acha que o conceito de desejo também ganhou uma dimensão quase mítica, que contém em si mais do que uma mera força... Com certeza, mas é inevitável. O conceito de desejo é um conceito que, ao mesmo tempo que permite traçar uma quase totalidade - e esse “quase” é definitivo quer dizer há sempre uma abertura – é, ao mesmo tempo, suficientemente obscuro para que a sua investigação, a heurística do trabalho sobre o conceito, seja infindável na particularidade. É como o conceito de vida: é imenso. E, no entanto, não nos ficamos por aí, porque há exemplos de comportamentos que vão no sentido da vida. Porquê? Temos é de analisar o campo do porquê. Num certo sentido, como diriam os franceses, põe-se lá tudo. E, no entanto, o conceito do desejo, como disse na minha conferência, é um conceito extremamente obscuro. Vejam um bebé, uma criança. O desejo está em toda a parte. E é muito mais profícuo pensar o desejo em termos deleuzianos, como uma máquina desejante, uma tendência para a fabricação de conexões com outros desejos, do que defini-lo, segundo a Psicanálise, como uma falta. A concepção geral é que nós desejamos porque nos falta. O desejo deleuziano é muito mais interessante. A partir daí começam obscuridades extraordinárias. Disse que há conexões: o desejo quer conectar-se com. Mas o que significa isto? Articular-se? Não. Então o que é? Se for no mundo nietzchiano, é um confronto de desejos, de forças que se hierarquizam. Sim, mas não chega.

O CONCEITO DE DESEJO É UM CONCEITO QUE, AO MESMO TEMPO QUE PERMITE TRAÇAR UMA QUASE TOTALIDADE .(...) É COMO O CONCEITO DE VIDA: É IMENSO

Nesse sentido, não estamos a falar do desejo individual, não existirá um desejo individual. O desejo só existe em conexão. Isso mesmo. Não há um inconsciente que seja isolado, a metapsicologia, a utópica freudiana do superego, do ego, não existe por si, como num teatro. Existe a conexão, mas isso tornou-se uma banalidade vivida quase fenomenologicamente. Passo nas ruas, tenho uma série de pensamentos, um psicanalista clássico analisaria esses pensamentos reportando-os à metapsicologia. Hoje sabe-se perfeitamente que têm de se contar com outros campos: o campo social, mundial.

Que relações é que o medo pode entrelaçar com o desejo? Como vê as relações que podem resultar dessa parelha? Há uma ideia primeira que une os dois conceitos, que é a ideia de transgressão. Há um certo medo em certas condições que propulsiona ou desencadeia a pulsão do desejar para transgredir esse próprio medo. Isso é vivido e compreendido imediatamente e até foi um dos temas de grandes autores. Vamos então cingir-nos a isto: o medo tanto pode ser um obstáculo ao desejo, como um salto para um outro desejo, uma poderosa reactividade. É uma emoção ambígua, não é?


artes, letras e ideias 15

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

É uma emoção ambígua pelas razões que está a dar, porque pode encolher ou aniquilar o próprio desejo. E pode fazer com que ele, o desejo, aniquile o medo. Para dar uma espécie de força reactiva mais forte. Acho que aqui teríamos de analisar as relações de forças. Quando se fala de medo e desejo é uma relação de forças antinómica. A partir daí, acho que muitas combinações são possíveis. É um facto que o mais comum é que o medo apareça como obstáculo ao desejo. Parece-me que é isso o que se vive. A delimitação de território... A delimitação do território, a limitação de intensidade da pulsão. A limitação e mesmo o aniquilar, a morte do desejo. O desejo quer criar uma espécie de continuidade na sua intensidade e o medo é o que vai, pela própria pessoa que deseja ou por alguém do exterior, cortar essa linha contínua e o desejo. Por exemplo, o ciúme corta uma linha entre duas pessoas. Duas pessoas gostam uma da outra e vem uma terceira e ‘pum’, corta. Há um fluxo que é cortado, uma descontinuidade. E depois há combinações possíveis. Porque é que o medo e o desejo têm um tal parentesco? Possivelmente porque – e aí teria de se analisar muito bem o medo – no medo há desejo. Não será também porque o desejo nos leva constantemente a territórios desconhecidos e, por isso, ao aparecimento do medo? Claro. Mas porque é que o desconhecido motiva necessariamente o medo?

PORQUE É QUE OS PORTUGUESES DECIDIRAM SAIR? ESTÃO LÁ AS TEORIAS ECONÓMICAS, RELIGIOSAS. NADA DISSO CHEGA, SATISFAZ É pela mesma razão que faz com que os portugueses saiam. Mais que os outros. É por sentirem que podem, finalmente, ser máquinas desejantes, porque em Portugal... Isso é muito complexo. Isso tem a ver com o território e com a linha de fuga. E as linhas de fuga criam um território, um espaço onde se alimenta o desejo. Como quando os índios da América afirmam (e eu assisti a isso em Paris) que a força que eles têm para resistir ainda ao poder americano a vão buscar à terra dos seus antepassados e, aos seus desejos, a força para poderem lutar, apesar da degradação imensa de todas as etnias índias. A relação do desejo ao território é uma afirmação forte. Há duas possibilidades: a da relação com o território se fechar sobre ela própria, ou a de seguir aquilo que nós podemos por hipótese, por axioma quase, entender como inerente a essa relação. Que se produz para que o desejo prolifere e ao proliferar entre na sua vocação, que é a de sair do território. Criar uma linha de fuga e para quê? Para crescer. Para re-territorializar. Sim, eventualmente, e para crescer, para se agenciar, para continuar.

linhas de fuga enormes, sair do território, é uma realidade da vida. Teríamos de partir daí. Mas o que fez com que os portugueses, e não os belgas ou holandeses, saíssem primeiro? Como é que esse mito trabalha o inconsciente colectivo de Portugal? Não trabalha. Infelizmente fechou-se. Há essa ideia de “já fomos felizes no passado, já não vale a pena”? É isso mesmo. Mas já não trabalha, não temos linhas de fuga a partir desse mito. Não há. Há linhas de fuga que vão desnaturar a própria pulsão de desterritorialização. Vou-me desterritorializar criando um mundo ideal, pessoal, em que elaboro as minhas coisas. Aliás, foi a nossa história, a história do nosso Império, o dito Império que nunca existiu.

Ásia, não o Brasil, foi abandonado, até o Salazar querer reanimar qualquer coisa, que depois abandonou logo. Nesse contexto, como vê Macau? Tem uma ideia? Não tenho. José Augusto Seabra, numa das suas passagens por Macau, disse que Portugal teve duas grandes coisas no mundo: uma, o Brasil, no macro, e depois Macau, no micro, devido à impossibilidade teórica de prever uma situação como a de Macau. Macau é uma coisa quase contra a natureza: porque é que há um local no sul da China onde

Não existiu do ponto de vista do Estado, terá existido do ponto de vista do povo que o fez. É uma história que não está ser documentada como deve ser, os milhares de portugueses, pessoas ignotas, que se espalharam por este Oriente e que sobreviveram, se misturaram, deixaram marcas. É verdade. Isso, o que se dizia oralmente na boca do povo, que partia para Timor, Moçambique, Macau, Índia, chegaria para formar um mito do Império?

Teríamos de perguntar ao leão, porque isso acontece também no mundo animal, quando se afasta do seu centro/habitat, o medo produz uma micção, marca o território e volta para trás. Voltemos à primeira pergunta sobre a natureza do Homem. Se é um instinto de morte, não como é definido pela Psicanálise, mas pela Etologia. É um instinto de morte que está no genoma.

Então e o caso português? Que território é esse? Uma terra madrasta que não deixa o desejo... Não ouso aí entrar porque teria de apresentar uma nova teoria dos Descobrimentos. Da sua origem. Faz com certeza falta, não se começou sequer a elaborar e, possivelmente, terá como campo de primeira exploração isto que acabámos de dizer. Porque é que os portugueses decidiram sair? Estão lá as teorias económicas, religiosas. Nada disso chega, satisfaz. Vem o Deleuze e diz: “mas as lagostas fazem uma peregrinação debaixo do mar, percorrem mil e tal quilómetros, mas a migração das aves, dos homens”... quer dizer, a desterritorialização, criar

Focando mais na continuidade da sua obra, esse medo de que estamos a falar, é algo que detectou na cultura portuguesa ou na prática do povo português, sendo que, se isso parece ser algo constatável, quando vemos a cultura portuguesa sair para o mundo, parece que esse medo se esvai. Então porque é que esse medo é tão cristalizado e actuante em Portugal?

O QUE VEMOS, PELO MENOS NA EUROPA, É QUE O INTELECTUAL TEM CADA VEZ MENOS IMPORTÂNCIA, SE NÃO SEGUE O QUE SE CHAMA O PENSAMENTO ACEITE E ÚNICO QUE É TRANSMITIDO PELOS MÉDIA. OUVE-SE CADA VEZ MENOS. CADA VEZ MAIS O QUE TEM IMPORTÂNCIA É A ACÇÃO E NÃO AS IDEIAS

Não, até porque houve sempre grandes resistências, por exemplo o Velho do Restelo, o Auto da Índia, que já são, digamos, vectores para o medo, são formas de medo que se impõem. A própria figura do Adamastor. Desde o início que surgiram reacções à figura da desterritorialização. E depois há toda a História. A história do abandono real, do que se chamou ao princípio o Império e que se chamava o Império português, no século XVIII e XIX. Não sou historiador, mas sabíamos que o dito Império, a partir da África e

existiu, por consentimento dos locais, uma cidade portuguesa? Ele via nesse contexto um grande valor simbólico. Tem alguma ideia sobre isto? Não. E desconfio cada vez mais dos valores simbólicos. O simbolismo, com toda a inteligência que anda à sua volta, tem muita importância do que se fez, a acção mesmo. Tenho uma ideia da literalidade, que está bastante longe da ideia clássica, da origem da metáfora, do Aristóteles. Chegamos aí também à responsabilização do intelectual no mundo contemporâneo. Depois da discussão dos (Continua na página seguinte)


16

h

finais dos anos 60, dos marxistas, o papel do intelectual era revolucionário. E hoje, que pragmatismo pode ter o intelectual no mundo contemporâneo? Não sei. É impossível responder à sua questão. Primeiro há uma diversidade, depende da posição do intelectual. Há uma diversidade de contextos. Depois é quase impossível medir os efeitos e eficácia da palavra do intelectual, excepto por comparação aos anos 50, em que o intelectual tinha ainda uma força na Europa que hoje não tem. Os intelectuais eram quase uma casta, o que acabou com os novos filósofos. Lembro-me de assistir a uma sessão numa televisão americana em que Chomsky falou livremente durante uma hora sobre um dos temas que lhe é caro, que é a não liberdade de imprensa e como a imprensa faz, ela própria, um sistema. E eu pergunto: numa sociedade em que o intelectual conta tão pouco, como nos Estados Unidos, o que é que aquela hora de televisão - que é muito - em que o Chomsky foi absolutamente anti-sistema e capitalismo, teve como consequências e efeitos no povo americano? O que vemos, pelo menos na Europa, é que o intelectual tem cada vez menos importância, se não segue o que se chama o pensamento aceite e único que é transmitido pelos média. Ouve-se cada vez menos. Cada vez mais o que tem importância é a acção e não as ideias. Acha que há um perigo nisso? Claro que há. Há um perigo para as ideias feitas, porque neste momento poucas são as ideias que correspondem à acção e pensamento. Esse crash, conflito, vai obrigar as ideias a mudar e vai obrigar a que se pense a acção segundo uma outra maneira. Não acho que haja muitos pontos em que os intelectuais de hoje marquem e possam marcar uma realidade. Qual é o pensamento de hoje, quem são os autores? Não estamos numa fase socrática do pensamento. Mas isso não terá a ver com o facto de ter constantemente falhado. A Filosofia falhou, não explica nada, adapta-se às circunstâncias, serve o poder. E sobretudo quando foi aplicada, falhou. Estou de acordo. Acontece com os intelectuais o mesmo que acontece com a política: o descrédito (e estou a falar da Europa) em que caíram os políticos europeus e portugueses, e não só, é imenso. As percentagens de abstenção nos actos eleitorais são enormes. Porquê? Porque ultrapassámos aquilo que era normalmente admitido, uma certa taxa de men-

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

AS PERCENTAGENS DE ABSTENÇÃO NOS ACTOS ELEITORAIS SÃO ENORMES. PORQUÊ? PORQUE ULTRAPASSÁMOS AQUILO QUE ERA NORMALMENTE ADMITIDO, UMA CERTA TAXA DE MENTIRA, QUE É PRÓPRIA DO DISCURSO POLÍTICO. E ULTRAPASSÁMOS ISSO COM UM DESCARAMENTO EXTRAORDINÁRIO tira, que é própria do discurso político. E ultrapassámos isso com um descaramento extraordinário. O descaramento passou a ser uma das características do discurso político e em Portugal isso é extraordinário. O chico-espertismo português generalizou-se em Portugal. Isso faz com que a população se afaste cada vez mais e não acredite. O mesmo terá acontecido com os intelectuais, já não são as ideias que contam. Quando estava a estudar Filosofia em Paris éramos estudantes que íamos para o café discutir

Essa é a tal questão de não-sei-quantos-milhões-de-dólares.

ideias e estávamos convencidos que, da nossa discussão, dependiam os destinos do mundo, a guerra do Vietname, a independência da Tunísia. Está a ver a megalomania, a ilusão implicada?

cada vez mais, desde 2011, a Troika e a crise. A resposta seria: temos absolutamente de abrir o espaço público, ver nascer coisas aqui e ali dispersas. Depois há factores negativos. Dizemme que se não há reacção a qualquer coisa que é o medo... O Rui Zink escreveu um livro que diz que Portugal é uma sociedade de medo. Não li o livro...

A ausência disso é o deserto? É o deserto. A megalomania fazia pensar, isso é que é extraordinário. A ausência disso é o deserto e faz com que a máquina da acção política possa desenvolver-se cada vez com menos entraves. Como é que se pode perder o medo?

Platão diz, por exemplo, que é através da razão, que se pode controlar o medo. Isto foi dito há 2500 anos. Hoje, que mecanismos psicológicos ou sociais podem permitir a Portugal sair deste estado de medo e de descrença? Eu tenho uma ideia que é a de que, em Portugal, desde o 25 de Abril, o espaço público não se construiu. Agora, o espaço público democrático encolheu

Mas Al Berto escreveu um grande volume de poemas, O Medo. Mas era outra coisa.

ESTAMOS LONGE DE TERMOS COMPREENDIDO O PENSAMENTO DO ORIENTE, QUE HÁ NO PENSAMENTO DO ORIENTE UMA SÉRIE DE DISTÂNCIAS DIFERENCIAIS QUE IMPLICAM RELAÇÕES QUE NÃO ESTÃO EXPLORADAS E QUE TÊM DE O SER

Falou-me da reafirmação do espaço público. Parece-lhe que pode ganhar novas formas? Em todo o caso, a possibilidade de uma transformação de Portugal e das ideias que se têm e do que se publica passa pelo rasgar e alargar e construção de um novo espaço público. O espaço público português está a encolher e é cada vez mais submetido a constrangimentos de toda a espécie, mediáticos. Tenho a certeza que os jornalistas sentem isso cada vez mais e esse é um empobrecimento da democracia evidente e é um constrangimento para o nosso próprio desejo. Distinguem-se entre valores ocidentais e orientais, falando de algum individualismo e colectivismo. Sabemos que na China não existe uma democracia do ponto de vista ocidental. Se pensarmos em termos globais, há também quem diga que alguns valores orientais estão a ser importados pelo Ocidente. Mas no Oriente estão em erosão, no contacto com o capitalismo. Tem alguma ideia sobre esta troca possível entre Oriente e Ocidente, se ainda faz sentido no mundo global? O que posso dizer é que cada vez mais a parte do pensamento actual que avança mesmo – e estou a falar de uma tradição que vem da Fenomenologia, que passa por Foucault, Deleuze – precisa de analisar e metabolizar o pensamento oriental. Vou dar-lhe um exemplo simples: não tenho a mínima autoridade para dizer isto, mas o pouco que eu conheço é a noção de vazio, que tem uma importância enorme no Japão e no daoismo. A noção de vazio está a ser utilizada por um grande fenomenólogo, Henri Maldiné, na sua estética e isso traz um beneficio heurístico enorme para todos os que trabalham sobre Estética na Europa. Isso faz-me pensar que estamos longe de termos compreendido o pensamento do Oriente, que há no pensamento do Oriente uma série de distâncias diferenciais que implicam relações que não estão exploradas e que têm de o ser. A noção do vazio é de uma grande obscuridade. Para compreender o que os nossos artistas ocidentais fazem, sabendo que muitos têm um grande conhecimento do budismo, é preciso explorar essas ideias na arte, é fundamental para dar uma matéria de inspiração, uma palavra tão rejeitada. Novos caminhos... Conhecer novos caminhos...


( F ) UTILIDADES

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

TEMPO

PERÍODOS

DE

C H U VA

Cineteatro

CINEMA

MIN

22

MAX

26

HUM

65-95%

•

EURO

9.9

BAHT

0.2

Um filme de: Christopher Nolan Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain 14.30, 18.00, 21.00

(FALADO EM CANTONÊS, LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Lee Po Cheung Com: Anthony Wong, Charlene Choi, Wong Yau Nam 14.15, 16.00, 17.45, 21.30

INTERSTELLAR [B]

TEATRO PUXE (FRINGE 2014) Zona de Lazer da Rua dos Mercadores Entrada livre

GANGSTER PAY DAY [C]

SALA 2

KUNG FU JUNGLE [C]

• Amanhã

TEATRO O SILÊNCIO É DE OURO (FRINGE 2014) Teatro Hiu Kok 50 patacas

OUIJA [C]

(FALADO EM CANTONÊS, LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Teddy Chen Com: Donnie Yen, Charlie Young, Wang Bao-qiang 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

Um filme de: Stiles White Com: Olivia Cooke, Daren Kagasoff, Douglas Simth, Ana Coto 19.30

ACONTECEU HOJE

1.3

O QUE FAZER ESTA SEMANA

INTERSTELLAR SALA 3

?

YUAN

• Hoje

SALA 1

17

• Sábado “FALANDO SOBRE ÓPERA: O MUNDO DE LA TRAVIATA” COM FREDERICO RATO E SHEE VA Fundação Rui Cunha, 16h00 Entrada livre DANÇA E DRAMA Albergue SCM, 17h30 Entrada livre

6 DE NOVEMBRO

MÚSICA DE CÂMARA COM “EXPRESSIONISMO” Clube Militar, 20h00 Entrada livre

Nasce a poetisa Sophia de Mello Breyner • Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919, foi uma das mais importantes poetisas lusas do século XX e a primeira a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa: o Prémio Camões, em 1999. A escritora tem origem dinamarquesa e o bisavô desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou a região, tendo o seu filho comprado, em 1895, a Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Criada na velha aristocracia portuense, Sofia de Mello Breyner foi educada com valores tradicionais cristãos, tornando-se dirigente de movimentos universitários católicos, numa altura em que a poesia já fazia parte da sua vida. Viria a tornar-se num dos símbolos de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Em 1946, casa com Francisco Sousa Tavares, jornalista, político e advogado, sendo mãe de cinco filhos: uma professora universitária de Letras, um jornalista e escritor de renome (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e uma terapeuta. E foram precisamente os filhos que motivaram Sophia a escrever contos infantis. Recebe o Grande Prémio de Poesia, da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1964, pelo ‘Livro Sexto’. Mas Sophia de Mello Breyner Andresen manteve sempre uma actividade cívica intensa, que cruza a ditadura, até ao 25 de Abril. Com a Liberdade, é eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto. Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Distinguiu-se com contos e com diversos livros infantis: ‘A Menina do Mar’, ‘O Cavaleiro da Dinamarca’, ‘A Floresta’, ‘O Rapaz de Bronze’, ‘A Fada Oriana’, entre outros). Além do reconhecimento dos leitores, recebeu diversas distinções, das quais se destaca o Prémio Camões, em 1999, e o Prémio Rainha Sofia, quatro anos mais tarde. Sofia de Mello Breyner faleceu, aos 84 anos, a 2 de Julho de 2004, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Hoje, a sua memória é homenageada.

• Domingo RECITAL DA SOPRANO ANG MEI FOONG Teatro D. Pedro V, 20h00 Entrada livre

• Diariamente FESTIVAL DE GASTRONOMIA MACAENSE (ATÉ 5 DE NOVEMBRO) Hotel Four Seasons, Cotai 18h00 às 22h00 498 patacas por adulto, 249 para crianças até aos 12 anos

H O J E H Á F I L M E “RESERVOIR DOGS” (QUENTIN TARATINO, 1992) Não há cães neste filme, pelo menos em termos literais. Todas as personagens têm nomes de cores e movimentam-se num universo de crime e desgraça, bem ao estilo do bem conhecido realizador Quentin Tarantino. A trama gira em volta de um alegado roubo de diamantes para o qual se juntaram cinco homens sem qualquer ligação entre si e na qual participam Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen e Chris Penn. Entre ‘flashbacks’ e momentos presentes, “Reservoir Dogs” culmina na (quase) sempre mistura perfeita entre violência, drama e non-sense, já tão típico de Tarantino. No entanto, esta é uma das obras do realizador que mais fãs continua a reunir, mesmo 22 anos depois do seu lançamento. - Leonor Sá Machado

fonte da inveja

É na figura feminina que podemos vislumbrar

uma réstia de divindade.

João Corvo

EXPOSIÇÃO “BEYOND PIXELS” DE VICTOR MARREIROS (ATÉ DIA 31/12) Signum Living Store, Rua Almirante Sérgio Entrada livre “VIAGEM À TERRA DOS SONHOS” DE SU JIAN LIANG (ATÉ DIA 23/10) Galeria da Fundação Rui Cunha Entrada livre “SABORES DO MUNDO”, MOSTRA DE CULINÁRIA DOS PLP (ATÉ DIA 7 DE NOVEMBRO) Restaurante Feast, Sheraton Macau, 12h00 – 15h00 e 18h00 – 22h00 FEIRA DE ARTESANATO DA CHINA E DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA Feira do Carmo, Taipa, 16h00 às 21h00 Entrada livre EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA “MAKING OF”, DE MARIA JOSÉ DE FREITAS E AETEC-MO Creative Macau Entrada livre


18

OPINIÃO

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

LEOCARDO

bairro do oriente

BORIS INGSTER, STRANGER ON THE THIRD FLOOR

Horror ao erro

C

ONTINUANDO esta semana pelos trilhos do desconhecido, na tentativa de compreender melhor certos aspectos culturais que fazem desse encontro entre Ocidente e Oriente uma mistura, senão explosiva, pelo menos efervescente e picante. Na semana passada dei o exemplo de um caso que testemunhei na juventude, talvez demasiado obscuro, mas hoje farei o mesmo exercício comparativo usando um outro mais recente, e muito mais mediático. Aconteceu há cerca de dois meses com um conhecido actor e apresentador da RTP, durante uma emissão em directo de um daqueles programas de Verão que primam pela banalidade. Cabia ao indivíduo em questão anunciar um sorteio que contemplaria um telespectador com um prémio de mil euros em dinheiro, que segundo ele “dá para comprar muita coisa; droga, por exemplo”, deixando isto bem claro, dizendo-o alto e bom som, enquanto se dirigia às câmaras. A ousadia teve algum impacto, tratando-se de um programa “familiar”, com uma audiência considerável e transmitido para todo o mundo lusófono. Bastou ao actor explicar que se tratou de uma brincadeira (o que não é difícil) e demonstrar algum arrependimento, e assim o incidente passou à história. Mais uma vez apliquemos a medida local

para este episódio - como seria se um actor fizesse uma “gracinha” destas em Macau? Aqui devíamos antes usar Hong Kong como exemplo, onde existe uma indústria do entretenimento, e neste caso tudo ia depender da popularidade do sujeito. Se fosse um iniciante bem podia dar por terminada aí a carreira, e se já tivesse um nome que as audiências reconhecessem, ficaria naquilo que chamam de “congelador” - afastado uns tempos, regressando gradualmente enquanto se sujeitava a tudo o que lhe pedissem para fazer. Mesmo um artista de topo teria que fazer um esforço suplementar para limpar a imagem, não se podendo dar ao luxo de esperar que um simples pedido de desculpas resolvesse o problema. Num âmbito mais alargado, tanto de um lado como do outro do Rio das Pérolas a forma como se encara o erro é a mesma: pânico, desespero, terror. Ao contrário do Ocidente, onde é encarado como parte do processo de aprendizagem, aqui é o prenúncio de mais erros, ou erros mais graves. Os chineses também aplicam a velha máxima do “só não erra quem não faz”, mas com um “twist”: se quanto mais se faz maior é a possibilidade de errar, então tenta-se fazer o menos possível. Com isto não quero dizer que não se trabalha, ou que existe preguiça endémica, mas é tudo uma questão de assumir responsabilidades, algo que é da competência dos que ocupam os lugares de

topo na pirâmide hierárquica. Mas nem isto é um dado adquirido, pois quem tem muitos degraus abaixo do seu pode delegar competências a um subordinado, e caso este esteja colocado no patamar imediatamente inferior, isto pode ser entendido como um sinal de confiança, o que é de louvar e acontece com relativa frequência - nunca foi a minha ideia pintar um “quadro negro” seja do que for. Mas quando não acontece, e a melhor opção é “fugir com o rabo a seringa”, opta-se por alguém dois ou mais degraus abaixo, com menos argumentos para recusar ou protestar. É possível que um ou mais leitores tenham deparado com uma situação que se verifica habitualmente nos balcões de atendimento; levanta-se uma dúvida, pede-se ajuda ao colega do lado, que esclarece

Estas são pessoas que não tendo outro talento, passatempo ou apoio afectivo, vêem o trabalho como a única coisa que têm na vida, e errar torna-se quase tão sério como a morte de um familiar

essa dúvida, e responde-se ao utente começando a frase com “ele disse” ou “o meu colega disse”. Isto no Ocidente pode ser entendido como incompetência ou falta de carácter, mas aqui é considerado a coisa mais normal do mundo, e chego a pensar que o outro ficaria ofendido se a afirmação não lhe fosse atribuída. É uma combinação interessante entre “passar a batata quente” com a lei dos direitos de autor. Outra curiosidade com que muitos já devem ter deparado é o zelo a toda a prova demonstrado por certos funcionários quando detectam algum lapso num requerimento, declaração ou formulário, e nos pedem para rubricar junto da parte emendada. Seja uma rasura mais evidente – o que nesse caso se justifica – ou uma simples perninha num “erre”, rubrica-se sempre. A impressão com que ficamos é que eles temem que a vida nos corra mal e os acusemos de ter posto uma pinta a mais em cima de algum “i”. Onde se nota mais esta “errofobia” é nos serviços onde o trabalho é sobretudo de pendor burocrático e não requer especialização ou habilitações acima das mínimas, ou seja, praticamente qualquer pessoa o pode fazer. Por essa mesma razão aqui deveria existir menos a pressão de errar, mas na falta de critérios de diferenciação variados, o erro reveste-se de uma importância extrema: tem mais mérito quem menos erra. Isto leva muitos vezes à lógica do “tiro ao boneco”, ou seja, entre aquele que dispara um tiro e deita abaixo um boneco, e outro que dispara dez e acerta em nove, ganha o primeiro, pois teve uma eficácia de 100%, enquanto o outro errou, e assim fica associado ao erro, condenado ao fracasso. Nos casos em que a distribuição de tarefas é igualitária, a regra é “cada macaco no seu galho”. Inicialmente arranja-se dois ou três colegas com quem se possa para esclarecer dúvidas, seguem-se as directivas à risca obedecendo cegamente aos superiores, faz-se o necessário e não mais do que isso, e sempre de olho no parceiro do lado, pois onde a meta é não errar, é mais que possível que os velhacos dos colegas montem armadilhas. Neste meio é possível encontrar um tipo de funcionário que encara todo o serviço, mesmo o mais simples, como se de neurocirurgia se tratasse. Correm para a máquina do fax, como se cinco segundos fizessem toda a diferença, falam em voz bem alta, não vá o receptor alegar que não ouviu, e assim ficam terceiros como testemunhas, e entram em “tilt” quando lhes surge um obstáculo mais difícil pela frente - se forem mulheres (e normalmente são) choram. Estas são pessoas que não tendo outro talento, passatempo ou apoio afectivo, vêem o trabalho como a única coisa que têm na vida, e errar torna-se quase tão sério como a morte de um familiar. Quer estes, quer todos os outros, fazem o que podem para errar o mínimo possível, e em caso de sucesso, podem no fim do dia concluir as orações com um “...e livrai-nos do erro, amén”.


DIÁRIO DE BORDO

hoje macau quinta-feira 6.11.2014

‘‘

19

POR CARLOS MORAIS JOSÉ

EPA/JASON SZENES

ontem macau

O NOVO Empire State Building, em Nova Iorque, foi inaugurado no dia 4, no mesmo dia em que as luzes do edifício se acenderam de vermelho para homenagear o partido republicano norte-americano, que conseguiu uma vitória sobre os democratas no Senado.

horah

“Estou preocupado, tenho vindo a perceber que cada vez mais a língua portuguesa perde lugar. E isso é muito mau” JAIME CARION • Ex-director das Obras Públicas

“Se este tipo de táxis [amarelos] não podem parar nas ruas estão a perder dinheiro comparativamente ao outro serviços de táxis. Por isso, acho que faria sentido esta taxa adicional” JOAQUIM ALVES • Residente e utilizador assíduo de táxis

“Há pessoas que moram nas casas sociais e têm medo de ver cancelado o seu contrato quando passam a receber um salário mais alto e chegam mesmo a rejeitar promoções no emprego” NG KUOK CHEONG • Deputado, sobre os requisitos para a habitações públicas

www. hojemacau. com.mo

“Muitas vezes, é difícil corrigir o que está errado nos alunos na escola, porque eles consideram os pais como os seus exemplos de vida” Freddy Sio, conselheiro escolar | Pgs. 2-3

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Joana Freitas; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Cecília Lin; Flora Fong (estagiária); Leonor Sá Machado Colaboradores António Falcão; António Graça de Abreu; Hugo Pinto; José Simões Morais; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Tiago Quadros Colunistas Agnes Lam; Arnaldo Gonçalves; Correia Marques; David Chan; Fernando Eloy ; Fernando Vinhais Guedes; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau Pineda; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau. com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo

L I G U E - S E • PA R T I L H E • V I C I E - S E

hojeglobal w w w. h o j e m a c a u . c o m . m o facebook/hojemacau twitter/hojemacau

édito

Promessas O QUE fazer com a vida? Procurar os passos dos que nos antecederam? Tentar encontrar novos caminhos? Submeter-se ao discurso vigente e ser tributável, financiável, um número nos números do Estado e das empresas? Ou, pelo contrário, procurar outros caminhos, os que nos afastam da “normalidade”, do já feito, do já vivido e já cantado? Esses caminhos que, como nas florestas (Heidegger) parecem não levar a parte nenhuma, a não ser a uma descoberta mais próxima do que realmente somos, independentemente da nossa cultura, da nossa família, dos amigos e do Estado? E o que será isto “o que realmente somos”? Será temos consciência completa de nós mesmos, das decisões que tomaremos, das promessas em que todos os dias nos empenhamos? Já Nietzsche dizia que o problema principal do homem era “como educar um ser capaz de fazer promessas”. De facto, tal capacidade distingue-nos dos animais (mais do que a nossa pretensa racionalidade) e contém em si mesma consequências terríveis. Vivemos nesse fio da navalha: as promessas dos outros. As promessas do nosso patrão (que nos vai pagar o ordenado), dos nossos governantes (que vão fazer o melhor possível para o interesse geral), dos nossos amigos (que connosco combinam horas e paciência), das pessoas que amamos (que nunca nos trairão). Claro que o ser humano, enquanto animal capaz de fazer promessas, é também o animal capaz de as trair, de mentir, de não cumprir. E todos nós somos esta espécie de animal. Um bicho que se compromete, não porque se queira comprometer, mas porque não existe outro horizonte de sobrevivência que não seja o outro e perante ele prometemos para garantir a nossa vida. Verifica-se assim que a vivemos em função do futuro (do que prometemos fazer), sob o peso do passado. Agora é o momento em que revive o que se passou e se anseia pelo que se há-de passar. Agora é o momento no qual nos comprometemos em relação a amanhã. Somos um produto do passado mas somos, sobretudo, o que prometemos ser no futuro. E essas são as nossas principais cadeias. Passado e futuro conjugam-se para que não tenhamos vida própria. Urge acordar e, com sentido do passado e nervuras do futuro, sermos aquilo que um deus adormecido sonhou: a consciência presente do mundo. É que não há outra e o universo, que nos deu o poder de o descrever, nunca nos perdoará se de outra maneira insistirmos ser.


hoje macau quinta-feira 6.11.2014

cartoon por Stephff

Express quer trazer “verdadeira pizza” a Macau

PILOTO

A cadeia britânica Pizza Express quer expandir para Macau, de acordo com notícia avançada pelo jornal Macau Business Daily. Justin Kennedy, manager da cadeia em Hong Kong, disse ao jornal que “Macau é um local lógico para a expansão”, mas que ainda não foi encontrado “o local ideal”. A expansão é parte do plano da Pizza Express em abrir mais de cem restaurantes na China, sendo que a cadeia tem já dez no continente e 13 em Hong Kong.

Cristiano Ronaldo Bota de Ouro pela terceira vez

HÓQUEI EM PATINS MUNDIAL NO URUGUAI EM MEADOS DO MÊS

Uruguai, Egipto e Áustria na rota da Flor de Lótus MAR CO CARVALHO info@hojemacau.com.mo

U

RUGUAI, Egipto e Áustria. São estes os obstáculos que os campeões asiáticos de hóquei em patins vão encontrar pelo caminho na 16ª edição do Mundial B da modalidade. A selecção orientada por Alberto Lisboa integra o grupo B da competição e estreia-se na prova a 16 de Novembro frente à formação anfitriã, o Uruguai. A exemplo do que sucedeu há dois anos, o certame volta a ter a localidade uruguaia de Canelones como palco, depois da federação holandesa de hóquei patinado ter abdicado da organização do certame. Um mês e meia depois de ter conquistado em Haining, na República Popular da China, o seu nono título continental de hóquei em patins, a selecção de Macau regressa aos rinques com ambições moderadas. Depois de esgrimir argumentos com o cinco uruguaio, o grupo de trabalho tutelado por Alberto Lisboa volta a entrar dentro de campo um dia depois, ao início da noite de segunda-feira, 17 de Novembro. Os campeões asiáticos encerram a participação na primeira fase do Mundial-B na terça-feira, 18 de Novembro,frente

aquele que será, à partida, o mais acessível dos adversários que vai ter pela frente no Uruguai, o Egipto. Disputada por oito formações, a 16ª edição do Campeonato do Mundo-B

Os campeões asiáticos de hóquei patinado apresentam-se em Canelones com o objectivo de fazer melhor do que o sexto lugar alcançado na 15ª edição da prova

viu o sorteio emparelhar no grupo A as formações dos Estados Unidos da América, da Costa Rica, da Holanda e da Inglaterra. A competição tem início a 15 de Novembro, com Uruguai e Egipto a assinarem o confronto inaugural do Mundial e termina uma semana depois, com a definição do nome do vencedor do certame. A selecção do território apresenta-se no certame com várias novidades, sendo a ausência de Ricardo Atraca uma das mais significativas. Do grupo que acompanha Alberto Lisboa à América do Sul fazem parte pelo menos três atletas que disputaram em Haining a 2ª edição do Campeonato Asiático de Juniores. Os campeões asiáticos de hóquei patinado apresentam-se em Canelones com o objectivo de fazer melhor do que o sexto lugar alcançado na 15ª edição da prova. As oito formações que disputam o Campeonato do Mundo do Uruguai vão jogar num regime de todos contra todos, ainda que divididas por dois grupos, subindo ao grupo A os três primeiros qualificados. Há dois anos, a prova foi ganha pela África do Sul, que levou a melhor sobre a Inglaterra e a Áustria na corrida pelo ouro.

O futebolista internacional português Cristiano Ronaldo recebeu ontem em Madrid a Bota de Ouro, a terceira da sua carreira, pelos 31 golos marcados durante a época passada no campeonato espanhol, ao serviço do Real Madrid. Cristiano Ronaldo, que já tinha conquistado o troféu que premeia o melhor marcador dos campeonatos europeus nas épocas 2007/08 e 2010/11, recebeu o troféu das mãos do presidente do clube espanhol, Florentino Pérez. O jogador do Real Madrid dividiu o prémio com o uruguaio Luis Suárez, que na época passada apontou 31 golos ao serviço dos ingleses do Liverpool. Cristiano Ronaldo tornou-se o único português com três botas de ouro, prémio que Fernando Gomes e Eusébio receberam em duas ocasiões.

PUB


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Hoje Macau 6 NOV 2014 #3208 by Jornal Hoje Macau - Issuu