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SEXTA-FEIRA 25 DE AGOSTO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3883
AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006
hojemacau
SOFIA MARGARIDA MOTA
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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
FONG SOI KUN
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ESPECIAL TUFÃO | P.7
COMÉRCIO
A guerra do sistema PÁGINA 13
Calamidade
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CARLOS MORAIS JOSÉ EDITORIAL
ESPECIAL TUFÃO
h ANTÓNIO CABRITA
VANLOO CHARLES
Próxima vez
2 especial tufão O DIA DA DESTRUIÇÃO
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especial tufão 3 FOTOS RÓMULO SANTOS
SOFIA MARGARIDA MOTA
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Travessas do caos PORTO INTERIOR E BARRA COMERCIANTES COM PERDAS DE MILHÕES
Caminhar a partir da Rua dos Mercadores, no Porto Interior, até à zona da Barra é tropeçar em lixo e coisas que a água e o vento desarrumaram e destruíram. Muitos deles exigiram a presença de membros do Governo no local e questionaram a ausência do estado de calamidade
O
S pés, enfiados em chinelas, chapinham na lama que se formou de uma tempestade que ainda não se compreendeu de onde veio, mas que todos já sabem o que deixou. Os rostos são tristes com uns sorriso pelo meio porque, no fim de contas, o Porto Interior inunda todos os anos, porque todos os anos há um ou outro tufão. Há um estranho hábito de lavar e arrumar impregnado na pele de quem vive junto ao rio das pérolas. Com o tufão Hato tudo foi diferente, e agora olha-se para o futuro com mais matemática na cabeça. Há quem tenha perdido milhões de patacas em negócios acabados de criar, há outros a quem só resta limpar o lixo que ficou na loja de uma vida, porque não há outra hipótese de sobrevivência. Depois da tempestade, o senhor Lau limpa o seu espacinho de venda de carnes secas que fica mesmo ali na esquina da Rua dos Mercadores. A ajudá-lo está a mulher, enquanto vários comerciantes como ele vêm falar-lhe das últimas. Aquele que ficou com a água até ao pescoço porque foi salvar o arroz que tinha no armazém, o outro que ficou preso no parque de estacionamento.
O senhor Lau aponta para um pedaço de espelho e assegura: “a água chegou até aqui!”. “As pessoas não tinham tempo de fugir. Foi muito grave este tufão, todos ficaram com muitos prejuízos e ainda não sei quanto me vai custar tudo isto”, contou ao HM. “O maior problema foi a água da chuva, que subiu repentinamente”, disse ainda, apontando o dedo ao Executivo. “O Governo precisa de melhorar o sistema contra inundações aqui na zona.” Na Rua dos Mercadores cada um está por si. Todos os que ali moram ou trabalham se entre ajudam, mas não se vê nenhum membro das forças de protecção civil a dar uma ajuda nas limpezas. Há quem não queira contar a sua história da tempestade porque “não tem tempo”. Ali ao lado, no Louceiro Foc Iu Cheong, limpam-se os estragos ao mesmo tempo que se aproveita para ir vendendo umas coisas. O negócio existe há largas décadas e agora o senhor Foc, com mais de 80 anos, nem sequer sabe que contas fazer à vida. Ainda assim, defende que o Governo não tem culpa. “Isto não tem nada a ver com o Governo,
tudo aconteceu devido à natureza. Nunca aconteceu isto em Macau.” Naquela manhã, o senhor Foc ainda não tinha água na loja, nem luz. “Não consigo estimar os prejuízos e não sei se o Governo vai dar apoio.” O Executivo já anunciou apoios às pequenas e médias empresas, através da concessão de empréstimos sem juros acima das 600 mil patacas. Esta foi uma das primeiras medidas decretadas nas primeiras horas após a tragédia que já vitimou oito pessoas. No rescaldo dos acontecimentos, são ainda poucos os que têm conhecimento.
BECO DA BALBÚRDIA
Se entrarmos pelos becos adentro, o caos começa a adensar-se. Há papéis e coisas espalhadas, cheiros que se misturam, objectos amontoados em cima da lama. Os moradores da zona, sobretudo idosos, lavam as sapatilhas com água roubada das bocas de incêndio porque não há mais nada. Uns metros mais à frente, o senhor Cheong Kuok Veng, alfarrabista, assume: “nunca vi nada assim”. Lá dentro amontoam-se livros em chinês, mas muitos deles vão para o lixo. “Vamos continuar com a loja porque temos de sobreviver, não so-
mos funcionários públicos”, ironiza, chamando a atenção para o facto do dia ter acordado como se nada tivesse acontecido. “O Governo deveria ter declarado estado de calamidade. Tive água até ao peito nesta zona, e os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) deveriam ter içado o sinal 8 mais cedo, fizeram uma previsão muito incorrecta. Vamos levar uma semana até termos tudo arranjado”, disse. Pela Rua do Pagode abaixo, comenta-se a mesma história que tem vindo a partilhar-se nas redes sociais.
“O apoio que deviam dar era virem aqui. Vão conceder empréstimos sem juros? Com tanto dinheiro deveriam dar, já que dão a universidades chinesas que ninguém conhece” ANTÓNIO RODRIGUES PROPRIETÁRIO DA CASA DO PORCO PRETO
Uma família cujos filhos morreram porque quiseram salvar os bens e acabaram sugados pela água. Chao, que vende velharias na Rua das Estalagens, atira ao chão um monte de livros molhados, cujo destino é o lixo. O nível da água chegou até ao peito naquele pedaço de loja minúsculo. “Devo ter aqui cerca de 100 mil patacas de prejuízo, mas ainda não fiz bem as contas. Ainda não sei como é que vai ser o apoio do Governo, mas de certeza que vai ajudar alguma coisa.” Por ali vende-se roupa molhada por todo o lado e há calças de ganga de lojas penduradas para quem as quiser comprar. O número 80 da Rua das Estalagens, onde Sun Yat-Sen morou e instalou uma farmácia, parece ter ficado intacto, ainda que com uma ligeira inundação.
DANOS NA PORTUGUESE STREET
Pedro Evaristo abriu há poucos meses o espaço “Food Truck”, junto à chamada rua portuguesa, que trouxe para Macau a bifana tipicamente portuguesa. Agora o cenário é de vazio e destruição. “Quando aluguei isto perguntei se a água chegava aqui. Não sou
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novo em Macau e sei como são as coisas. Mas hoje, logo ali a partir da zona do Mercado de São domingos percebi logo. Fiz amizades com os chineses aqui da rua e só olhávamos uns para os outros. Toda a gente ficou prejudicada.” Pedro Evaristo estima ter perdido cerca de 250 mil patacas com os danos causados pelo tufão Hato. “Perdi tudo e não imaginava como isto ia estar. Quando cheguei aqui encontrei o caos. Não conseguia abrir a porta sequer. Estava tudo no chão.” O proprietário do espaço Food Truck lembra, contudo, que o espírito de entreajuda se fortaleceu com a tragédia. “O tufão fez com que as pessoas tenham ficado mais próximas umas das outras. Estamos a ajudar-nos.” Pela rua adentro, o cenário é semelhante. Onde antes estava água há agora um rasto de destruição. Todos os produtos das lojas estão amontoados cá fora. Limpa-se o que ficou, tenta-se encontrar um rumo.
RESTAURANTES DESTRUÍDOS
Na zona da Barra o trânsito é quase normal, não fossem as paragens de autocarro estarem cheias de objectos
caídos e árvores que roubam os passeios às pessoas. Não há um pedaço de rua que não tenha lixo ou água suja. Há caixas com garrafas espalhadas, usam-se mangueiras para apagar a destruição, enquanto várias pessoas almoçam onde podem.
“Vamos continuar com a loja porque temos de sobreviver, não somos funcionários públicos” CHEONG KUOK VENG ALFARRABISTA
António Rodrigues, alentejano, há 35 anos em Macau, nunca viu nada assim e está tão desesperado que assegura: “se tivesse aqui um fósforo pegava fogo a isto e quem viesse a seguir fazia tudo de novo, para não se aproveitarem do que fizemos aqui”. A Casa do Porco Preto foi um dos novos restaurantes que abriu na zona da Barra, bem perto do templo de A-Má, e nada restou. A água subiu muito e destruiu o negócio de uma vida.
António Rodrigues mostra-nos os seis lugares que lhe pertencem e que ficaram destruídos: o restaurante, a futura padaria, os armazéns e a carrinha que faz o abastecimento dos produtos que importa do Alentejo para Oriente. No total, estão ali mais de dois milhões de patacas perdidos. “É pena que em vez de virem aqui vocês, jornalistas, não venham representantes do Governo para ver como isto está. Estão fechados nos seus gabinetes. Tudo isto aconteceu porque há um problema com a drenagem das águas e não resolveram ainda”, disse. No chão pousam enchidos e queijos prontos a ir para o lixo, dezenas de garrafas de vinho molhadas pela água, frigoríficos que já não funcionam, papéis com dívidas acumuladas molhados. “Pergunta-me porque é que estamos aqui. Este é o sítio mais baratinho, os contentores chegam aqui é mais fácil fazer o desembarque”, explica.
FORNECIMENTO ATRASADO
Os armazéns da empresa de António Rodrigues ficam ao lado dos armazéns da Nam Kwong, responsável pela distribuição dos
supermercados e mercados do território. À hora em que o HM visita o local, não há luz e ainda se arrasta a água com vassouras. Há caixotes por todo o lado com garrafas de refrigerantes que estão por chegar às prateleiras. Ninguém consegue estimar quando é que o fornecimento regressará ao normal. Questionado sobre o apoio que o Governo quer conceder às PME, António Rodrigues lança mais críticas. “O apoio que deviam dar era virem aqui. Vão conceder empréstimos sem juros? Com tanto dinheiro deveriam dar, já que dão a universidades chinesas que ninguém conhece”, defende. Para o empresário, “o senhor Fung Soi Kun (director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos) deveria demitir-se e não esperar para ser exonerado. O secretário Raimundo do Rosário também, porque já foi director das Obras Públicas e sabe muito bem que havia estudos para esta zona”. António Rodrigues critica também o facto do Executivo não ter decretado estado de calamidade. “Neste momento não há condições para Macau ter uma vida normal.
Está tudo cheio de lixo, deveriam ser garantidos apenas os serviços mínimos.”
LORCHA SEM LUZ
À porta do restaurante A Lorcha, do macaense Adriano Neves, há cadeiras espalhadas por todo o lado e empregados a comer Mcdonalds porque, lá dentro, o cenário é de escuridão. “Tudo o que conseguimos ver está aqui fora. Do resto ainda não sabemos porque não temos luz. Tudo o que estava dentro do frigorifico foi para o lixo. Não consigo fazer uma previsão. Só sei mais coisas quando me derem água e luz.” Adriano Neves também não compreende porque é que, até aquela hora, nenhuma autoridade se dirigiu à Barra para ver de perto os estragos. “Já passei por muitos tufões, mas este assim, tão violento, é o primeiro. O Governo devia vir ver in loco e não olhar para as notícias. Não vi aqui ninguém, nem um polícia apareceu aqui.” Andreia Sofia Silva (com Victor Ng) info@hojemacau.com.mo
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GCS
Óbitos Bandeiras a meia haste
O Governo anunciou ontem que todos os departamentos públicos, “inclusive os postos fronteiriços, terminais marítimos e delegações no exterior” vão colocar hoje a bandeira da RAEM a meia haste “como sinal de luto pelas oito vítimas mortais do tufão Hato e destruição avassaladora que atingiu Macau”.
Chuva de críticas
Deputados questionam mecanismo de resposta aos estragos
V
NOVO MACAU QUESTIONA A ACTUAÇÃO DO EXECUTIVO AO TUFÃO HATO
Um desatino total A Associação Novo Macau critíca a forma como o Governo respondeu ao desastre natural que varreu a cidade na passada quarta-feira. Desde a falta de sinalização de alertas dos serviços de meteorologia, passando pelos cortes de água e energia
O
S pró-democratas mostraram indignação contra as situações caóticas que a cidade viveu. O comunicado da Novo Macau critíca a forma como o Governo não dispõe de electricidade extra suficiente para dar resposta às necessidades energéticas do território. Como tal, os pró-democratas pediram responsabilidades ao Executivo e propostas de melhorias para serem avaliadas pela população. Outros dos agravos da Novo Macau prende-se com a falta de planos de prevenção para as inundações, verificando-se constantemente a mesma situação em caso de chuvas fortes ou tufões.
De acordo com os pró-democratas, é necessário proceder à melhoria das redes de drenagem de forma a evitar o sucedido na passada quarta-feira, como tal, pediram medidas concretas ao Executivo
Depois de prestar condolências às famílias das vítimas mortais, o comunicado da associação queixouse do timming com que foram emitidos os alertas da SMG
para dar resposta ao problema das inundações. Em termos de responsabilização, a Associação Novo Macau pergunta ao Governo que compensação será prestada aos comerciantes e donos de veículos afectados pela passagem do Hato.
DEPENDÊNCIA ENERGÉTICA
Fong Soi Kun, director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), vai passar à reforma depois de Macau ter sido violentamente fustigado pelo tufão Hato. Uma das associações que exigiu a responsabilização e demissão do responsável pelos serviços foi a Novo Macau, que emitiu
um comunicado onde teceu várias críticas às autoridades no tratamento do desastre natural. Depois de prestar condolências às famílias das vítimas mortais, o comunicado da associação queixou-se do timming com que foram emitidos os alertas da SMG. Em questão está a falta de decisão dos serviços em elevar o grau de alerta, que em apenas duas horas e meia chegou ao 10, o máximo para tufões. Os pró-democratas entendem que este curto lapso de tempo apanhou muitos residentes desprevenidos, nomeadamente para os moradores do Porto Interior e zonas baixas da cidade. Outra das queixas da Novo Macau prende-se com o abastecimento de electricidade, água e o fornecimento de telecomunicações que foram afectados pelo tufão. A associação entende que o Governo de Macau tem uma forte dependência da energia produzida no Interior da China e que essa é a principal razão para o corte de electricidade depois do tufão. É de salientar que uma das centrais de produção energética, situada em Zhuhai, que fornece a rede de Macau sofreu danos severos com a passagem do tufão. Vítor Ng
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ÁRIOS deputados reagiram de forma negativa à forma como foram accionados os mecanismos de resposta aos estragos causados pela passagem do tufão Hato. Ao Jornal do Cidadão, a deputada Ella Lei disse que o Governo não fez o suficiente nos trabalhos de alerta à população, sobretudo ao nível das inundações. “Será que existe algum problema com o sistema de alerta dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG)? Deve estar desactualizado. As previsões feitas por estes serviços já levaram a uma perda de confiança no sistema e é preciso fazer uma revisão”, apontou. Segundo o jornal Ou Mun, os deputados Mak Soi Kun e Zheng Anting dirigiram-se à zona da Praia do Manduco para perceber a situação dos cidadãos afectados. Zheng Anting também lamentou os atrasos na emissão dos alertas, o que fez com que a população não tenha tomado as devidas precauções. O deputado considera que o Executivo deve melhorar as avaliações que são feitas para cada tempestade. Para Mak Soi Kun, o Governo deveria enviar mais pessoal para ajudar nas limpezas dos espaços comerciais, até para ajudar a prevenir a transmissão de doenças como a febre da dengue. O deputado considera, por isso, que a limpeza das águas estagnadas na zona da Praia do Manduco deve ser uma prioridade. Mak Soi Kun criticou ainda o facto de não terem sido lançadas medidas de contingência, frisando que o Executivo poderá não ter um mecanismo de tratamento de respostas a este tipo de incidentes. Na porta de saída Horas antes de ter sido anunciada a demissão do director dos SMG, Fung Soi Kun, Lam U Tou, presidente da Associação Sinergia Macau, deu uma conferência onde exigiu a saída do governante. O presidente da Sinergia Macau pediu ainda que os SMG definam melhor as suas competências, e para que comecem a emitir os alertas de tempestade o mais cedo possível. Na visão de Lam U Tou, os SMG devem começar a utilizar as mesmas medidas usadas pela entidade congénere em Hong Kong de cálculo da velocidade média do vento, para que haja uma unificação dos padrões usados nas duas regiões. Lam U Tou disse ainda que está a promover uma petição online para a entrega de solicitações dos participantes junto do Chefe do Executivo. V.N.
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CALAMIDADE SÓ AO SINAL 8
No que respeita a um eventual estado de calamidade ou de emergência a ter lugar no território, no dia seguinte à passagem do tufão que atingiu o sinal 10 e que deixou o território num estado caótico, Chui Sai On limitou-se a referir que o estado de calamidade foi levantado ao içar do sinal oito, na quarta-feira, às nove da manhã. O espírito de entreajuda no território sensibilizou o Chefe do Executivo que garantiu “envidar esforços para que volte tudo ao normal”. O choque parece ter sido muito, mas as acções e planos em situação idêntica no futuro ainda não estão definidos, sendo que agora “é necessário fazer um balanço alargado do que se passou com a passagem do “Hato” pelo
encontro de ontem, garantiu que vão ser feitas inspecções de modo a “garantir a estabilidade”.
SOFIA MARGARIDA MOTA
O
director dos serviços de Meteorologia e Geofísica demitiu-se ontem. “O director pediu a demissão e eu aprovei”, referiu o Chefe do Executivo, no final do dia de ontem, em conferência de imprensa. Depois do silêncio, e ainda assim sem se dirigir à população, teve lugar um encontro com os jornalistas, que contou com a representação de todo o Governo e a presença de Chui Sai On. Quanto ao futuro do responsável pelo SMG, a probabilidade é que venha a reformar-se. A informação foi adiantada pela secretária para Administração e Justiça, Sónia Chan. Um processo disciplinar relativo ao um possível içar tardio do sinal 8, ainda não é certo, sendo que, afirmou a secretária, “este é um procedimento que só pode vir a ter lugar, ou não, após finalizado todo o processo relativo à demissão de Fong Soi Kun”. Chui Sai On fez ainda questão de referir que, não tendo visitado as áreas mais atingidas pelo “Hato”, esteve sempre em contacto com o Centro de Operações da Protecção Civil, e de alguma forma, “em contacto com todos”, pois, sublinhou, não discrimina ninguém na sociedade local. Já o secretário Alexis Tam deslocou-se ontem ao Bairro do Fai Chi Kei para visitar os idosos, os residentes do Bairro da Ilha Verde e o pessoal de acção social.
TRINTA EM RISCO
SMG CHUI SAI ON ACEITA DEMISSÃO DE FONG SOI KUN
Cadeira vazia
O “Hato” passou e arrasou. O director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), Fong Soi Kun, apresentou a demissão e Chui Sai On aprovou a decisão. O Chefe do Executivo considera que é altura de avaliar o sucedido e não adianta planos para situações idênticas futuras. Para já, há dinheiro para apoiar as vítimas e ajudar na recuperação dos estragos território”, disse o Chefe do Executivo. Sem grandes medidas para uma futura ocorrência, visto ser tempo de balanço, Chui Sai On adiantou que serão reforçados os mecanismos de alerta e de divulgação de notícias de modo a que
“É necessário fazer um balanço alargado do que se passou com a passagem do `Hato´ pelo território.” CHUI SAI ON CHEFE DO EXECUTIVO DA RAEM
no futuro exista um maior trabalho de prevenção”.
TOMA LÁ DINHEIRO
No total são cerca de 1,35 mil milhões de patacas que vão ser disponibilizadas pela Fundação Macau. O objectivo é apoiar as vítimas do tufão “Hato” em dois sentidos. Uma parte dos fundos é destinados a ajudar residentes e famílias das vítimas para que possam recuperar gradualmente dos danos sofridos. Para as famílias que ficaram sem os seus entes próximos, a Fundação Macau vai dar 300 mil patacas. Já os residentes, vão ter acesso a um súbsidio de duas mil patacas para ajudar nos gastos extra.
O montante será deduzido nas contas de água e de luz. Para as despesas com janelas partidas, a Fundação Macau vai disponibilizar até 30 mil patacas por arranjo. O objectivo, afirmou ontem o representante da Fundação Macau presente na conferência de imprensa, “é ajudar nas despesas extra que a população pode estar a ter”.
Para as famílias que ficaram sem os seus entes próximos, a Fundação Macau vai dar 300 mil patacas
Para os feridos, que já ultrapassam os 200, as despesas médicas serão cobertas pelo mesmo fundo. No total, e até ao fecho da edição, há oito mortos e 244 feridos. Por outro lado, a Fundação Macau, dada a escassez de água à venda no território e a falta de água em casa, está a fazer uma campanha junto da comunidade. “Já foram recolhidas cerca de 100 mil garrafas de água que podem ser distribuídas e esperamos que a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau consiga restabelecer o fornecimento o mais brevemente possível”, disse o responsável. Os residentes que reúnem as condições para solicitar os subsídios poderão formular o seu pedido pessoalmente no balcão de atendimento da Fundação Macau. Já a Direcção dos Serviços de Economia (DSE) vai apoiar as pequenas e médias empresas. Tal como a Fundação Macau, os apoios são dados em duas vertentes. Para as pequenas e médias empresas vão ser dados empréstimos de 600 mil patacas sem juros enquanto que vendilhões e titulares de veículos comerciais vão ter acesso a um subsídio. No total vai ser disponibilizado um montante de 2,3 mil milhões e patacas. Com os preços a inflaccionarem nos supermercados de Macau, o representante da DSE, presente no
Para já e em risco eminente, estão 30 construções. “Há 30 casos que têm de ser resolvidos imediatamente”, disse ontem o director das Obras Públicas, Li Cengfei. A informação é dada após terem sido feitas várias inspecções do estado dos edifícios danificados pelo “Hato”. Em causa estão as estruturas que apresentam risco de queda de objectos suspensos. A prioridade no tratamento destes casos vai ser definida em conjunto com o Centro de Protecção Civil. Já o director dos Serviços de Saúde, Lei Chin Ion, garantiu que a prestação dos cuidados mínimos não esteve em risco nos hospitais do território. No enatnto, e de acordo com o responsável, “houve falta de água em alguns centros de saúde, mas continuaram a manter serviços mínimos”, disse.
No total, e até ao fecho da edição, há a registar 8 mortos e 244 feridos Lei Chin Ion apelou ainda a uma maior preocupação com a higiene por parte da população apesar da falta de água no território. Para Lei Chin Ion, e de modo a prevenir o alastrar de doenças associadas ao lixo e à falta de higiene, as pessoas têm, mesmo sem água, de ter atenção aos cuidados de limpeza pessoal da melhor forma possível. O conselho, deixou, “é usar toalhetes quando não existir água”. Essa ainda não tem data para estar acessível à totalidade da população. Mais de metade do território é abastecido pela estação de tratamento da Ilha Verde que sofreu sérios danos com a passagem do “Hato”.Aresponsável pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Marítimos e da Água (DSAMA), Susana Wong, afirmou que os arranjos da estação poderiam estar concluidos na passada madrugada, por volta da meia-noite sendo que após estes reparos, o fornecimento de água vai ser retomado gradualmente em todo o território. Sofia Margarida Mota
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História pelos ares
ANÁLISE AS DEFICIÊNCIAS DE CONSTRUÇÃO DOS PRÉDIOS DE MACAU
Casas de papel
IC vai analisar quase duas dezenas de monumentos
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BIBLIOTECAS DANIFICADAS
As bibliotecas públicas estiveram ontem fechadas ao público devido à “realização de trabalhos de inspecção em detalhe e limpeza”, sendo que a “maioria” abre hoje portas. “Devido à influência do tufão, as bibliotecas do Patane, Mercado Vermelho, de Coloane e a biblioteca itinerante estão seriamente danificadas, sendo as suas datas de reabertura serão anunciadas posteriormente”, informa o IC. Encontram-se ainda encerradas ao público as bibliotecas localizadas nos parques, como é o caso das bibliotecas do Jardim Comendador Ho Yin, de Wong Ieng Kuan no Parque Dr. Sun Yat Sen e biblioteca de Wong Ieng Kuan no Jardim Luís de Camões. Os parques em questão também se encontram encerrados.
O tufão de quarta-feira colocou a nu problemas de base da construção de Macau. Apesar dos regulamentos exigentes, a precariedade foi visível e revelada pelos muitos apartamentos destruídos depois das janelas terem cedido à pressão provocada pelos ventos REUTERS
tufão Hato também causou estragos em alguns monumentos, tal como a Fortaleza da Guia, incluindo a capela e as galerias subterrâneas, o edifício da Rua das Estalagens dedicado a Sun Yat-sen, a Casa de Penhores na avenida Almeida Ribeiro ou o Centro Ecuménico Kun Iam, entre outros. Outros locais como o Armazém do Boi, que já sofria com a antiguidade das instalações, também foram afectados. No total, foram quase duas dezenas a ser danificados. Segundo o IC, estes espaços vão fechar portas por tempo indeterminado, sendo que “os detalhes da reabertura dos locais acima referidos será anunciada posteriormente”. Será “executada uma fiscalização e recuperação mais aprofundadas, sendo as mesmas reabertas o mais breve possível após a conclusão dos devidos trabalhos”. Hoje estão abertos ao público locais como a Casa do Mandarim, a Casa de Lou Kau, as Ruínas de São Paulo ou o Museu de Arte de Macau, entre outros espaços. “O Conservatório de Macau e as três escolas reentrarão em funcionamento normal”, sendo que “o Teatro Dom Pedro V abre ao público mas de forma limitada”, aponta o IC. O organismo vai ainda retirar “objectos indesejáveis” da Academia Jao Tsung-I e do Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania de Macau, pelo que estes espaços vão fechar portas hoje e amanhã.
M
ACAU é desde quarta-feira uma cidade repleta de vidros partidos, muitos deles provenientes de janelas que não aguentaram a pressão dos ventos do tufão. Além de espalhar vidro pelas ruas, esta situação trouxe o Hato para dentro de muitas casas. Esta situação releva um problema estrutural de construção, que se verificou inclusive em prédios recentes como o One Oasis, onde os danos foram consideráveis. Algumas janelas estilhaçaram-se devido a detritos, mas uma grande parte cedeu com a pressão e força do vento. Quanto às razões para esta situação, Tiago Pereira, engenheiro civil, interpreta que “ou o vidro não era adequado, ou foi problema de armação, de caixilharia”.
Neste capítulo importa referir que as exigências da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes são mais dirigidas para as superestruturas dos edifícios, relegando a responsabilidade para o construtor de tudo quanto é acessório, onde se incluem as janelas. “É suposto as janelas resistirem a isto, não é suposto as pessoas terem de andar a colar fita-cola, é suposto que as janelas resistam a esta pressão do vento”, explica Tiago Pereira. Entre problemas de material ou de projecto, o facto é que muitos residentes de Macau ficaram com as suas casas num caos total. Na opinião dos especialistas ouvidos pelo HM, as caixilharias e o reforço com vidros duplos capazes de aguentar pressões
de ventos fortes fazem parte das respostas que deveriam ser dadas nos edifícios danificados.
SEGUROS CONTRA TODOS
Não é por falta de legislação ou regulamentos que a qualidade da construção em Macau é má. Aliás, as leis do território para combater
“É suposto as janelas resistirem a isto, não é suposto as pessoas terem de andar a colar fita-cola, é suposto que as janelas resistam a esta pressão do vento” TIAGO PEREIRA ENGENHEIRO
a acção do vento impõem exigências mais apertadas do que em Hong Kong. Porém, falta fazer cumprir a lei. Outra das questões que se impõe rever diz respeito aos seguros contra tufões. Neste domínio, as seguradoras protegem os seus interesses impondo valores incomportáveis. Em Portugal, por exemplo, a lei impõe a compra de um seguro contra sismos o que leva o construtor a cumprir critérios rigorosos de construção. Ora, por cá até assegurar um automóvel contra danos provocados por tufões sai caro. “Apesar de haver muitos tufões em Macau, quase nunca são tão graves como este, então as pessoas acabam por optar não contrair seguros contra tufões”, explica João Palla, arquitecto, acrescentando ainda que os escalões praticados “não são razoáveis”. Esta situação abre o problema complicado de saber quem tem responsabilidades por estes danos. Se o proprietários, ou o construtor. Quando se pede uma licença de obra é necessário juntar a declaração de responsabilidade do construtor e do director técnico da obra e seguro. O técnico da obra é responsável durante os primeiros cinco anos depois da licença de utilização. Além destes mecanismos, as janelas são calculadas, o fornecedor do material procede ao ensaio para certificar a resistência à pressão imposta pela legislação e, finalmente, são aprovadas. Estas regulações são cumpridas, pelo menos nos projectos do Governo, segundo fonte ouvida pelo HM. João Palla considera que em Macau “há uma situação de luxo aparente que não é proporcional à sua qualidade construtiva, principalmente quando comparamos com os padrões de qualidade de Hong Kong ou da Europa”. O arquitecto entende que “uma cidade como esta, vulnerável a tufões, com os códigos e regulamentos de construção e exigências normativas, tem de equipar os edifícios com melhores caixilharias, isolamento térmico, vidros e portas”. As consequências do Hato não foram uma surpresa para João Palla, que vê na catástrofe um possível momento de aprendizagem. Mas para isso algo tem de mudar. “Isto não pode ficar assim, isto tem de ser debatido, em termos de construção as coisas têm de andar para frente, porque ainda construímos como se construía há 30 anos atrás”, conta o arquitecto. João Luz
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SOFIA MARGARIDA MOTA
para transporte de pessoas em cadeiras de rodas que foram atingidos por árvores e detritos. Também a Santa Casa da Misericórdia sofreu danos, principalmente na loja social da Ilha Verde que ficou inundada tendo sido destruídos todos os cabazes alimentares que estavam prontos para ser distribuídos daqui a uma semana.
MAIS AJUDA
Dar a mão Caritas precisa de voluntários para apoiar famílias em necessidade
APOMAC lança colecta
em Macau desde que o Hato assolou o território. A Caritas, também a braços com os danos, tem estado na linha da frente a apoiar quem precisa. “Neste momento, estamos a contactar aqueles que recorrem aos nossos serviços, levando refeições, auxiliando pessoas isoladas e prestando apoio psicológico às vítimas”, conta Alan Oho da Caritas. A instituição ainda está a quantificar os danos que os seus equipamentos sofreram, mas houve veículos
A Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) vai dar início a uma colecta com o intuito de ajudar as famílias das vítimas e os que sofreram prejuízos com o tufão Hato. Para este fim, a associação liderada por Francisco Manhão abrirá duas contas bancárias, uma no Banco da China e outra no Banco Nacional Ultramarino.
ANTÓNIO FALCÃO
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A sequência dos cortes de energia, muitas pessoas ficaram presas em casa sem acesso a comida ou água. Na zona do Fai Chi Kei, o tufão deixou muitos idosos isolados. Um grupo de voluntários prestou-se a levar-lhe as primeiras duas refeições de ontem, sobrando apenas o jantar. Precisavam de seis centenas de refeições, pedido respondido por alguns empresários da restauração. Este exemplo ilustra um pouco do que se tem passado
Alan Oho, da Caritas, confessa que a instituição atravessa uma fase em que precisa de ajuda. “Estamos a tentar angariar voluntários que possam complementar o nosso pessoal para ajudar as famílias”. O funcionário da Caritas conta que um dos maiores problemas é fazer chegar a ajuda a pessoas com problemas de mobilidade que ficam presas em edifícios em elevadores, como o caso de um casal que usa cadeiras de rodas e vive num 21º andar. Uma das situações mais dramáticas que Alan Oho enfrentou na noite de quarta-feira foi a necessidade de ter de ir buscar três idosos ao hospital depois de feita a hemodiálise. “Passámos por áreas cheias de vidros e detritos, chapas de metal, pedaços de árvores, eu, que sou um condutor experiente, senti-me muito inseguro”, conta. Apesar da incerteza do que se lhes deparava pelo caminho, conseguiram transportar os idosos de regresso ao lar. A etapa seguinte foi transportá-los ao longo de seis lances de escadas. Se por um lado o Hato trouxe ao de cima alguma das melhores características das gentes de Macau, também houve o reverso. Com a água potável a escassear nas prateleiras dos supermercados, houve quem pusesse à venda duas garrafas de água pela módica quantia de 150 patacas. João Luz
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PEQUIM INVESTIGAÇÃO DE TRUMP É ATAQUE AO SISTEMA DE COMÉRCIO MUNDIAL
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Ministério do Comércio chinês criticou ontem a decisão dos Estados Unidos de lançar uma investigação sobre as práticas da China na área da “propriedade intelectual”, que considerou um ataque ao sistema de comércio mundial. Várias associações comerciais enalteceram a ordem do Presidente norte-americano, Donald Trump, para averiguar se Pequim exige indevidamente que as empresas estrangeiras transfiram tecnologia, em troca de acesso ao mercado chinês. O representante do Comércio Externo dos EUA anunciou esta semana formalmente a investigação. A acção emprega inapropriadamente a lei norte-americana e significa a “destruição do sistema de comércio internacional existente”, disse Gao Feng, porta-voz do Ministério do Comércio chinês. “Estamos profundamente insatisfeitos com esta prática unilateral e proteccionista e tomaremos todas as medidas necessárias para defender
firmemente os direitos e interesses legítimos das empresas chinesas”, disse.
REGRAS DO JOGO
Pequim exige que fabricantes de automóveis e empresas estrangeiras
“Estamos profundamente insatisfeitos com esta prática unilateral e proteccionista e tomaremos todas as medidas necessárias para defender firmemente os direitos e interesses legítimos das empresas chinesas.” GAO FENG PORTA-VOZ DO MINISTÉRIO DO COMÉRCIO CHINÊS
na China estabeleçam parcerias com firmas locais, normalmente grupos estatais. As entidades estrangeiras têm frequentemente que partilhar tecnologia com parceiros que talvez se venham a tornar concorrentes. Mais de 20% das 100 empresas norte-americanas que responderam a um inquérito do Conselho Comercial Estados Unidos-China, uma associação industrial, afirmaram ter sido pedida a transferência de tecnologia, nos últimos três anos, em troca de acesso ao mercado da segunda maior economia mundial. Em Abril, Trump disse que iria pôr de lado disputas sobre o acesso ao mercado e política cambial, enquanto Washington e Pequim trabalharem juntos para persuadir a Coreia do Norte a desistir do programa nuclear. Nas últimas semanas, a administração norte-americana voltou a adoptar uma posição mais dura em relação às questões comerciais. Em 2016, Pequim registou um excedente de 347 mil milhões de dólares no comércio com Washing-
AP/NG HAN GUAN
Os dias do descontentamento
ton. Trump culpa frequentemente a China pelo défice comercial norte-americano, apontando práticas de concorrência desleal de Pequim. Há várias décadas que as empresas estrangeiras acusam empresas chinesas de pirataria e roubo de tecnologia.
Pequim está a lançar um plano designado “Made in China 2025”, para transformar o país numa potência tecnológica, com capacidades nos sectores de alto valor agregado, incluindo inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros eléctricos.
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Presidente chinês, Xi Jinping, disse ontem estar disposto a fazer “esforços conjuntos” com o homólogo sul-coreano, Moon Jae-in, para “abordar adequadamente as divergências entre os dois países”. A agência noticiosa oficial Xinhua informou que Xi enviou uma mensagem a Moon,
por altura do 25.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. Na mensagem, Xi destacou que as relações entre a China e a Coreia do Sul têm “grande importância”, pelo que está disposto a unir esforços com Moon para “consolidar a confiança política mútua, abordar
adequadamente as diferenças e promover um desenvolvimento estável e saudável das relações bilaterais”. As relações entre Seul e Pequim têm-se deteriorado, desde que a Coreia do Sul concordou com a instalação do Sistema antimísseis norte-americano THAAD no seu território, numa resposta à ameaça que representa o programa nuclear e de armamento norte-coreano. O sistema foi concebido para interceptar projécteis lançados pela Coreia do Norte, mas Pequim considera que o sistema representa uma ameaça directa à segurança chinesa. O receio do Governo chinês está relacionado com o potente radar norte-americano do THAAD, que pode conseguir localizar os mísseis chineses, conferindo uma vantagem significativa aos Estados Unidos num hipotético conflito no Pacífico. A tensão levou a China a boicotar produtos sul-coreanos, sobretudo os supermercados Lotte, dona dos terrenos onde o THAAD foi construído.
Tradutores e escritores estrangeiros premiados
A China premiou na terça-feira 20 tradutores, escritores e editores estrangeiros pelas suas contribuições para apresentar a cultura chinesa ao mundo. O Prémio Especial de Livros da China foi concedido a 16 pessoas e outras quatro receberam o Prémio Especial de Livros para Acadêmicos Jovens. Entre os premiados estão o tradutor britânico Paul White, conhecido pelas obras de tradução para apresentar o socialismo com características chinesas, e o sinólogo Petko Hinov, que traduziu o Sonho do Pavilhão Vermelho para búlgaro. O Prémio Especial de Livros da China foi estabelecido em 2005. Um total de 88 pessoas de 40 países e regiões já recebeu o prémio. XINHUA
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XI JINPING QUER ABORDAR DIFERENÇAS COM SEUL
EDITAL
N.º 06/DSO/2017 Processo n.º 2810.01 Assunto: Notificação de despejo do terreno com a área de 30.35 m2, situado na península de Macau, junto do terreno onde outrora se encontrava construído o prédio n.º 11 da Travessa do Garfo, descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n.º 10 185. Li Canfeng, director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, nos termos do n.º 2 do artigo 72.º e do artigo 139.º do «Código do Procedimento Administrativo», aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, faz-se saber por este meio ao concessionário do terreno referido em epígrafe, CHIE CHEONG, seus herdeiros e demais interessados, o seguinte: 1. Por despacho do Chefe do Executivo, de 9 de Maio de 2017, foi declarada a caducidade da concessão do terreno em epígrafe, a que se refere o Processo n.º 5/2017 da Comissão de Terras, uma vez que tinha decorrido o prazo de arrendamento, nos termos e fundamentos do parecer do Secretário para os Transportes e Obras Públicas (STOP), de 10 de Abril de 2017, os quais fazem parte integrante do referido despacho. 2. A declaração de caducidade da concessão acima referida foi publicada, pelo Despacho do STOP n.º 33/2017, no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) n.º 23, II Série, de 07 de Junho de 2017, e foram notificados o concessionário CHIE CHEONG, os seus herdeiros e demais interessados pelo Edital n.º 003/DAT/2017 publicado nos jornais em línguas chinesa e portuguesa de 12 de Junho de 2017. 3. Nestas circunstâncias, nos termos do n.º 1 do artigo 179.º da Lei n.º 10/2013 (Lei de terras), por despacho do STOP, de 28 de Julho de 2017, são ordenados os destinatários acima referidos para a desocupação do terreno referido em epígrafe, devendo também demolir todas as construções e remover todos os bens móveis que se encontram no local. 4. Esta Direcção de Serviços deve ser notificada por escrito após a conclusão da desocupação acima referida, a fim de proceder à respectiva vistoria de recepção. 5. Em caso de incumprimento da ordem de que lhes é transmitida através do presente edital, nos termos do n.º 2 do artigo 179.º da Lei n.º 10/2013 e do artigo 56.º do Decreto-Lei n.º 79/85/M, de 21 de Agosto (Regulamento Geral da Construção Urbana), esta Direcção de Serviços, em conjunto com outros serviços públicos e com a colaboração das Forças de Segurança de Macau, procederá, a partir do termo do referido prazo de 60 dias, à execução coerciva dos referidos trabalhos de despejo, devendo as respectivas despesas ser de responsabilidade dos destinatários em epígrafe. 6. Os bens móveis abandonados no terreno serão tratados de acordo com o artigo 210.º da Lei n.º 10/2013. RAEM, aos 18 de Agosto de 2017. O Director de Serviços Li Canfeng
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25.8.2017 sexta-feira
Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho Fito a ponte pesada e calma Ângela Carvalho angela.cf.carvalho@gmail.com
O naufrágio em Camilo Pessanha* Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXIII, Porto, 2006 [2008], pp. 221-232 PARTE I
“[Para Schopenhauer] É certo que aquilo que o es- pectador vê é o próprio passado, na medida em que pôde tornar-se espectador e aprender a gostar da «sabedoria» da situação que se alheou da vida. Porém, o que ele vê encontra-se também no futuro à sua frente enquanto inevitabilidade que emerge da vida que é um mar cheio de recifes e remoinhos. Ele evita-os com cuidado e pru- dência, embora saiba que é justamente o sucesso de todo o esforço e arte de abrir caminho que o leva ao ponto em que o seu naufrágio é inevitável. Ele sabe que assim, com cada passo, ele aproxima-se do maior, total, inevi- tável e irremediável naufrágio, que navega exactamente em direcção a ele, em direcção à morte. Esta não é só o objectivo final da fadiga, ela é pior que todos os recifes que conseguimos evitar.” Hans Blumenberg, Naufrágio com Espectador (1979: 84-5)
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ONSIDERANDO a produção poética de Camilo Pessanha e reflectindo, em particular, sobre a mecânica do naufrágio enquanto evasão, este artigo apresenta um conjunto de hipóteses e, em alguns casos, conclusões sobre o tema. Utilizei como corpus de análise a Clepsydra na edição de António Barahona. Optei por esta edição, uma vez que respeita a de 1920, sobre a qual Camilo Pessanha se expressou do seguinte modo à sua editora Ana de Castro Osório: “não quero deixar de agradecer-lhe, penhoradissimo, a publicação da esquecida Clep- sydra e os cuidados da disposição (que é como eu proprio o faria) e da ortographia.” (1921: 83). Porque só poderá existir naufrágio onde haja viagem marítima, começo por considerar que a vida é apresentada enquanto viagem no “Soneto de Gelo” (1887: 94-5), desde que aceitemos que, na primeira estrofe, “berço” possa ser entendido como “barco”. Para essa interpre- tação abona o facto de encontrarmos ao longo do poema vocábulos que se relacionam com o tópico do marítimo (“farol”, “batel”, “lenho” e “afundir”). Esta metáfora já tinha sido dada a lume anteriormente, sendo que “na visão de Pascal [, a] metáfora do embarque contém a sugestão de que a vida significa que se está já no mar alto, onde, para além de salvação ou declínio, não há qualquer solução, não há qualquer reserva” (Blumenberg, 1979: 33). À semelhança de Pascal, também para Pessanha não há “salvação”, sendo o naufrágio a única realidade. Para o poeta, o naufrágio tanto pode ser desejado como indesejado, sendo ainda visto como simples inevitabilidade, como tentarei explicitar de seguida. No poema “Ao meu coração um peso de ferro” (1893: 50-1), a morte por afogamento surge como desejável nos três últimos versos (“E um lenço bordado… Esse hei-de o levar,/ Que é para o molhar na água salgada/ No dia em que enfim deixar de chorar…”) –, podendo até ser entendida como um projecto suicida. Essa ideia está presente já na primeira estrofe e nos vv. 7-8 da mesma composição poética: Ao meu coração um peso de ferro Eu hei-de prender na volta do mar. Ao meu coração um peso de ferro…
Lançá-lo ao mar. (…) Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar. O desejo de morte equivale a um desejo de anulação, nomeada- mente das “penas do amor” que acompanham o sujeito poético no seu exílio. Embora em nenhum momento do poema seja dito que o enunciador está a vivenciar uma experiência de exílio, podemos adi- vinhá-lo com base na circunstância de o sujeito poético realizar uma viagem marítima e levar consigo as “penas do amor”. De acordo com o enunciador, o que distingue o exilado dos outros seres humanos é o facto de para aqueles as “penas do amor” serem nefastas, notando-se em alguns versos de Pessanha um mau presságio quanto às conse- quências que essas penas podem trazer: “Quem vai embarcar, que vai degredado…/ As penas do amor não queira levar…” (vv. 5-6). Nisto apoio a convicção de que o enunciador se encontra discursivamente em contexto de exílio, pois no caso do sujeito de “Ao meu coração um peso de ferro” percebemos que são precisamente essas penas que o conduzem ao desejo de morte – uma morte como evasão, como fuga à dor e à existência. Esta ideia é corroborada por duas passagens de cartas de Camilo Pessanha. A primeira é endereçada a Alberto Osório de Castro: “Sabe que eu tambem ando por esses mares fóra sempre a escolher o melhor logar da minha sepultura?// No fundo do mar?” (s/d: 48). A outra foi dirigida a Carlos Amaro e escrita a bordo do navio que levou o poeta de regresso a Macau em 1909: Sabe o que eu agora desejaria? Não chegar ao meu sítio nunca… Ir assim, a bordo de um navio, sem destino. Veja como o destino varia. Nos últimos dias de Lisboa, o terror que verdadeiramente me oprimia era este mar morto da viagem, entre dois abismos tão distantes um do outro, e no fundo de cada um dos quais a minha alma perpetuamente agoniza (cit. in Lencastre, 1984: 114). É o que Barbara Spaggiari já tinha observado, referindo que “Deste modo, nas suas poesias, ora deseja vaguear para sempre no mar sem uma meta, ora anseia, pelo contrário, por um naufrágio” (1982: 35). Nos anteriores períodos epistolares, vemos também reafirmada a ideia de que o sujeito de enunciação se encontra em exílio permanente. A morte figurada como indesejada está patente no “Soneto de Gelo”, onde o sujeito poético declara abertamente querer um “resto de batel”, um “lenho” que lhe permita não se “afundir”. Estas tábuas de salvação aparecem-nos como metáfora da fé, ausente porque de- sejada, inatingida porque procurada: Ingénuo sonhador – as crenças d’oiro Não as vás derruir, deixa o destino Levar-
de abismo, causa de todo o naufrágio e consequente ruína. Em “Singra o navio. Sob a água clara” esta profundidade de abismo é sondada, reconstruída, comparada. Devemos todavia recordar a advertência final do sujeito poético – “Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas” (1916: 72-3) –, como se nesse último poema quisesse extinguir algum vestígio de esperança que pudesse ter deixado em textos anteriores: “Abortos que pendeis as frontes cor de cidra, (…)// Cessai de cogitar, o abysmo não sondeis.// (…) Adormecei. Não sus- pireis. Não respireis.” (vv. 6; 10; 15). É a afirmação taxativa da ânsia de aniquilamento, já enunciada na composição poética com que abre
-te no teu berço de bambino, Porque podes perder esse tesoiro. Tens na crença um farol. Nem o procuras, Mas bem o vês luzir sobre o infinito!... E o homem que pensou, – foi um precito, Buscando a luz em vão – sempre às escuras. (Pessanha, 1887: 94-5, vv. 1-8) Este poema apresenta uma dicotomia entre a busca activa da fé e a quietude dos que já a possuem. No que diz respeito à primeira, conduzirá à perda de valiosas crenças, no caso de estas já existirem, ou à condenação ao não alcance das mesmas, no caso de estas ainda não existirem. A acção amaldiçoa também o homem que ousou pensar, “buscando a luz em vão – sempre às escuras”. Este sujeito, que deseja a fé que não tem, está condenado a naufragar, embora faça tudo para o evitar. A quietude dos que já possuem a fé é apresentada como única solução para não “perder esse tesoiro”. O “ingénuo sonhador” deverá unicamente deixar-se levar pelo destino, vida fora, se não quiser perder o farol que luz sobre o infinito. O “ingénuo sonhador” não procura essa luz e é por isso mesmo que a vê luzir. No poema “Singra o navio. Sob a água clara” (1899: 32-3), o nau- frágio surge como a constatação de um facto, analisado consciente e metodicamente, revelando-se como uma inevitabilidade. O sujeito poético distancia-se desde o início da imagem que observa: “– Impe- cável figura peregrina,/ A distância sem fim que nos separa!” (vv. 3-4). Essa “impecável figura peregrina” está “[funda], sob água plana” (v. 8), a uma “distância sem fim que [os] separa”, o que está de acordo com a observação de Ester Lemos, segundo a qual “O olhar de Pessanha não parece abranger a realidade em superfície, considerá-la de cima. O mar, de que tanto se fala na «Clepsidra», raramente é olhado na extensão: mais fácil é perscrutar-se-lhe o fundo.” (1956: 25). Esta ideia de olhar em profundidade surge-nos também no poema “Chorai arcadas” (1900: 60-1), na terceira estrofe: “Se se debruçam,/ Que sorvedouro!...” (vv. 14-5). Chegamos assim a uma outra ideia, a de sorvedouro,
Clepsydra e em que se manifesta claramente o desejo de evasão, silenciosa, por anulação: “Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme…” (1916: 9; vv. 3-4). Também no poema “Ao meu coração um peso de ferro” essa ideia tinha já sido anunciada, ainda que de forma mais atenuada. No fundo, trata-se da- quilo a que Barbara Spaggiari se referiu nestes termos: “O passado está «povoado de saudades», o futuro escorre lentamente «para o oceano do Aniquilamento». Tal condição existencial do homem não pode ser senão imutável” (1982: 45). A imagem observada, encerrada na profundidade da sepultura marítima, é uma imagem de ruínas da vivência humana (“Seixinhos da mais alva porcelana”) (v. 5), ruínas do mundo natural (“Conchinhas tenuemente cor de rosa”) (v. 6), que – à força da análise consciente do sujeito poético (“E a vista sonda, reconstrui, compara”) (v. 9) – se reve- lam uma imagem ilusória: “– Ó fúlgida visão, linda mentira!” (v.11). O sujeito poético desfaz o seu engano e com ele faz a macabra descoberta de que afinal estava perante vestígios humanos. A sua percepção traiu-o inicialmente, levando-o a confundir o cor-de-rosa das “unhinhas” com o das “conchinhas” e a brancura dos “dentinhos” com a dos “seixinhos”. Mas tê-lo-ia realmente traído a sua percepção ou estamos perante uma “ars inveniendi [arte da invenção]” (Benjamin, 1928: 194) por parte do sujeito poético? Vai também nesse sentido aquilo que Óscar Lopes refere em “Pessanha, o Quebrar dos Espelhos”: Pessanha sabe, de um saber técnico, operativo, oficinal, de poeta, que a poesia não se limita a exprimir uma realidade pre- viamente definida; pelo contrário, opõe-se às estruturas do senso comum, convidando-nos a um salto em direcção a novas estruturas de compreensão e valor. (1970: 130) (continua) * Trabalho realizado no âmbito da disciplina “Temas de Literatura Portuguesa”, do Curso de Especialização em Ensino do Português Língua Estrangeira (ano lectivo de 2006/2007), sob a orientação do Prof. Doutor Pedro Eiras.
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sexta-feira 25.8.2017
diários de próspero António Cabrita
Trabalho de casa 20/08/2017
Ia-se a banhos. Quando se vive nos trópicos isso deixa de fazer sentido. E então, por alternativa, vai-se a Macau. Será o meu caso. Eis-me (quase) de véspera. Inquieto por ir a Macau. A Marlene Dietrich já não deambula pelas imediações e dizem que quem viaja leva consigo as suas paisagens como dantes os viajantes costumavam levar consigo os seus penicos de porcelana. Falta-me o penico. Bom, há as sombras chinesas. Gosto de sombras, sobretudo ao vento. Ocorre-me um episódio que contou o John Cage. Na sua infância, houve um amigo do pai que, findo o jantar em família, à despedida lhe desarrumou o cabelo, enquanto lhe anunciava, Rapaz, falei com os teus pais e, como no próximo sábado vou à Grécia e não me apetece ir sozinho, levo-te. Mas os gregos detestam quem lá vai e está desinformado, tens uma semana, vê o que podes fazer. Cage correu para a biblioteca do bairro. Devorou o Homero, O Banquete e o Timeu do Platão, leu o Hesiodo e uma História da Grécia. No sábado acordou às cinco da manhã e fez a sua mala. Remoeu uma ode de Píndaro, que havia decorado, para o caso de lhe ser perguntado. Ainda hoje poderia esperar sentado. O amigo do pai não apareceu. Em casa ninguém pronunciou uma sílaba para abordar a banhada, o homem ou a viagem. Sentiu-se ludibriado. Ou pior, devastado. Porque entretanto tinha lido o Homero e nunca mais foi o mesmo. Isto é que é pedagogia! Pus-me eu também a ler sobre a estética Taoista. Estou tramado. Quando o Camilo Pessanha por lá se imiscuía - entre esteiras de ópio e a fala em papel de arroz de uma rapariga com nome de águia - Macau, como todas as províncias, devia ser madrasta, no sentido em que arruinava as liberdades. Há duas formas de arruinar a liberdade. Por coacção da lei e dos costumes, sob o ritmo dos não-ditos, ou quando se constata que executar o nosso livre arbítrio não muda nada, ou muito pouco. Aí, um tipo, como dizia o Pessoa, “liberta-se para dentro.” Foi, cheira-me, o caso de Pessanha. Libertou-se em primeiro lugar do corvo do tempo. O tempo é um corvo que bebe o nosso sangue e se alimenta das escórias que nos navegam as vísceras. E bica e bica até romper os tecidos. Porém, na China, Pessanha aprenderá que afinal a vida é consumação e retorno. Mudam-se as aparências mas não o miolo de que são feitas. Pelo que podemos candidatar-nos a beber igualmente nas veias do tempo, sugando-lhe o seu extremo vagar. Aí o tempo liberta-nos, vai incomodar outros. Não sei se é isso que irei fazer a Macau. Mas não falo cantonês e o meu inglês é a gaguez do hamster que encontrou o urso polar. E gostaria de lá ter ido com menos cabelos brancos e menos apegado à Circe. Macau, la petite, espera-me.
21/08/2017
Fazendo o trabalhinho de casa para aterrar em Macau com um olhar menos esbugalhado do que é costume vi-me embutido na paisagem que descrevo no soneto: A gorda ou o combate de estéticas: “Cada pernoca vale o velame de um iate / inflado em carne por ser nela o vento interior / aos tecidos. O tom de pele é mate. /É o namorado quem recheia // com chocolate o montanhoso pico /do sorvete, e, a avaliar p’lo entusiasmo /com que lhe enche de ideogramas/ a baunilha, aprecia. ‘Tico-Tico sardanico… ‘, //mimoseia o aventureiro. Não caberia/ esta imperiosa coxa num haiku japonês /escrito por sindico e que, delicado, só sugira… //Ou traria à liça embondeiros, tsunamis, /e a onda de Hokusai, que, pasma, mira/o prenhe refego do Índico? “
22/08/2017
A propósito de chegar aos lugares tarde, recordo outra história. A de Marcel Conche, o grande especialista francês dos pré-socráticos. Julgava-se o erudito aos setentas e muitos aposentado. E então começa a receber cartas de uma jovem de trinta, da
Sardenha, a Emily. As cartas eram atordoadoras, de prolixas e belas. Propunha-se a jovem a examinar com ele os subterrâneos vasos comunicantes entre os pré-socráticos, os sufis e os taoistas. E como não queria perder tempo aterrou em Paris. Foi uma ventania que fez soar todos os carrilhões adormecidos na líbido embalsamada de Marcel. Em dois meses viu-se o filósofo várias vezes nu (salvo seja) e arrastado pela lotaria do pensamento. A sageza foi à viola, tudo o que ele pensava comandar. Num ápice, intempestivamente como havia chegado ela partiu. Deixando o filósofo a nu (salvo seja) com as suas insuficiências. Oh pá, se o objecto do desejo se escapuliu entre os buracos da chuva há que fazer das tripas coração! Foi o que fez o pobre Marcel. A dobrar os oitenta foi aprender chinês e aos oitenta e cinco lançou uma tradução mais comentários ao Tao te King, de Lao Tse. Parece que o livro é notável.
Acho esta história um exemplo. Era esta a coragem que desejava para mim. Mas temo que o meu coração não passe de um fruto, não seja uma tripa.
23/08/2017
Transcrevo: “o confucionismo parte do pressuposto de que o homem é bom. Pelo contrário, no Ocidente, hoje, toda a organização social se baseia no pressuposto de que o homem é mau: homo homini lupus. Uma profecia que se autoconfirma. Quando as relações humanas se estabelecem pensando que o homem é mau, o homem acaba por sê-lo… “. Sou interrompido pela minha filha que há dois dias trauteia em voz alta, sem piedade (ensaia para algum Got Talent) , uma canção dos Abba. Infatigável. Calma, o homem é bom, não há tensões entre o homem e a sua incógnita.
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25.8.2017 sexta-feira
(f)utilidades 17
sexta-feira 25.8.2017
TEMPO
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AGUACEIROS
O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje
MÚSICA | UMA NOITE COM PIANO NA GALERIA Fundação Rui Cunha | 18h00
Sábado
MIN
25
MAX
30
HUM
80-95%
•
EURO
9.50
BAHT
Diariamente
EXPOSIÇÃO | “MY HANDS MOULD MY THOUGHTS” DE WU HIN LONG Macau Art Garden Até 27/8 EXPOSIÇÃO “A SIBÉRIA E O LAGO BAIKAL” DE ANDY LAO Find Art Macau
O CARTOON STEPH
EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11
SOLUÇÃO DO PROBLEMA 106
PROBLEMA 107
UM FILME HOJE C I N E M A
A DOG’S PURPOSE SALA 1
A DOG’S PURPOSE [B] Fime de: Lasse Hallstrom Com: Josh Gad (voice), Dennis Quaid, K.J. Apa, Britt Robertson 14.30, 19.30
THE ADVENTURES [B]
Com: Hwang Jung-Min, So Ji-Sub, Song Joong-Ki 19.00 SALA 3
DORAEMON THE MOVIE 2017: NOBITA’S GREAT ADVENTURE IN THE ANTARTIC KACHI KOCHI [A]
Fime de: Stephen Fung Com: Andy Lau, Shu Qi, Zhang Jingchu, Yo Yang, Jean Reno 16.30, 21.30
FALADO EM CANTONÊS Fime de: Atsushi Takahashi 14.30
SALA 2
FALADO EM CANTONÊS Fime de: Tony Leondis 14.30
HITMAN’S BODYGUARD [C] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Patrick Hughes Com: Ryan Reynolds, Samuel L.JAckson, Gary Oldman 14.30, 16.45, 21.30
THE BATTLESHIP ISLAND [C] FALADO EM COREANO/JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Ryoo Seung-Wan
SUDOKU
DE
EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08
Cineteatro
1.20
ONDE ESTÃO TODOS?
LANÇAMENTO DO LIVRO “THE PRESENT”, DE CHERRY HO Fundação Rui Cunha | Das 15h00 às 17h00
EXPOSIÇÃO “CONSTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10
YUAN
PÊLO DO CÃO
LANÇAMENTO DO ÁLBUM DO DUO “FASLANE” Che Che Café | Das 19h30 às 22h00
EXPOSIÇÃO “RESTLESS NATURE”: TONG CHONG Taipa Village Art Space | Até 6/9
0.24
Alguém viu o Governo por aí? Estou preocupado. Tirando um punhado de comunicados e desenlameadas conferências de imprensa, que mal servem como sinais de vida, ninguém lhes põe a vista em cima. Será que os talentos e as luminárias da autoridade foram todos levados pela fúria do Hato? Como não se declara estado de calamidade numa cidade arrasada pela natureza? Porque é que o Chefe do Executivo não fala directamente à população, sem os filtros polidos de discursos vazios e de mantras de envidados esforços? Porque não saem debaixo do esconderijo? Como é que a cidade inteligente se deixa resvalar para uma apatia reveladora de QI de dois dígitos? Como se corta a água canalizada, enquanto a engarrafada se esgota nos supermercados, e os Serviços de Saúde vêm a terreiro aconselhar o uso de água de confiança? De onde vem esta desconexão com a realidade? Será que a razoabilidade foi levada pelo vento? Polícia e bombeiros são nestes dias o melhor lado dos serviços públicos, a excepção que revela algum humanismo no meio da robótica falta de jeito para estas coisas de lidar com pessoas. Porque não falam dos construtores e empreiteiros trapaceiros e só os arrendatários levam porrada com esta adjectivação tola? Porque não se cai em cima de quem erige prédios com o descuido proporcional aos preços praticados? Em que toca se enfiaram os governantes? Será que alguém já lhe disse que vive aqui gente, que Macau é mais do que um enorme mealheiro? Onde estão todos? Assumam-se, mostrem a cara. João Luz
AFTER THE STORM | HIROKAZU KOREEDA
Adequado para ver nos dias que correm, “After the Storm” é um drama cuja narrativa gira em torno de uma tempestade que resulta como catalisador para a aproximação entre pai e filho. Ryota, o progenitor, leva uma vida desregrada, falhando às obrigações de pagar pensão de menores, é um pai desapegado da família. Até que uma tempestade o leva a reavaliar a sua vida e a encontrar um caminho para se relacionar com o filho. O filme do japonês Hirokazu Korreda é uma história de redenção e foi um dos nomeados para o Festival de Cannes do ano passado. João Luz
THE EMOJI MOVIE [A]
DANGAL [C] FALADO EM HINDI LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Nitesh Tiwari Com: Aamir Khan, Sakshi Tanwar, Fatima Sana Shaikh 16.30, 19.00, 21.30
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25.8.2017 sexta-feira
Poesia • Conferências Livros • Exposições
1-7 SETEMBRO 2017 Antigo Tribunal
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ANOS
opinião 19
sexta-feira 25.8.2017
editorial
CARLOS MORAIS JOSÉ
TEMPESTADE, VANLOO CHARLES
P
ODERÍAMOS estar a falar de um governo paternalista, na boa tradição confuciana, em que os pais/Estado impulsionam os filhos/ cidadãos no caminho de uma vida excelente. Mas não. Aqui o paternalismo traduz-se em dinheiro, como o pai que para não aturar os problemas do filho lhe dá do patacame para ele “ir ao cinema”. Ora isso significa que o Estado se esquiva a uma deriva educacional, preventiva, solidária, socialmente sustentável, para realizar o sonho de qualquer fanático ultraliberal: não intervir e ainda por cima dar dinheiro. Faz bem, faz mal? Ou antes pelo contrário? Perdoem-me os leitores, que isto não tem piada nenhuma, nem rabo de tufão por onde se lhe pegue. Uma catástrofe é uma coisa séria, que tem efeitos inesperados nos indivíduos e nas massas. Consideremos os aspectos positivos: uma catástrofe une as pessoas e motiva a acção. Nestes momentos, um governo precisa apenas de liderar, orientar, planificar, supervisionar, para que os esforços não se dupliquem, para maximizar a eficácia dos salvamentos e a celeridade das reconstruções. Um governo deve assegurar a continuidade dos serviços públicos com a rapidez que a sua importância justifica. Água, electricidade, telefones, internet, televisão, rádio, não podem permanecer inoperantes mais do que um breve espaço de tempo. E este é um trabalho do governo, junto com as concessionárias. Um governo tem de garantir a ordem e a normalidade nas ruas: não pode, por exemplo, assobiar para o lado quando táxis, mer-
A próxima vez
cearias ou hotéis se resolvem aproveitar da situação, demonstrando uma abjecta falta de solidariedade. Um executivo “normal” não faz ouvidos moucos a estas situações, não as ignora: protege o cidadão. No dia seguinte, um governo deve minimizar os efeitos perturbadores da catástrofes, ou seja, efectuar com rapidez a remoção de árvores caídas e de lixos diversos, reerguer as estruturas tombadas, garantir a circulação nas estradas e nas ruas, numa palavra, assegurar o regresso da ordem com a maior brevidade possível. Um governo que se defronta com uma situação deste tipo deita a mão a to-
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dos os recursos possíveis e a outros imaginários, perguntando-se, por exemplo, o que faz o destacamento do Exército da RPC no seu quartel e porque razão os garbosos soldados não aparecem a dar uma mãozinha. Como todos sabemos o governo da RAEM tem apenas 17 anos de experiência — em que, por exemplo, o actual Chefe do Executivo foi parte a tempo inteiro — e por isso não lhe podemos exigir que cumpra a sua responsabilidade com eficácia e determinação. Levantam-se dúvidas. Não há tempo para encomendar estudos? A população
rosna, os deputados agitam-se. Há uma crise no Gabinete de Ligação. O que fazer? Investir a sério na prevenção e na educação a propósito de tufões? Fazer cumprir a lei no caso da qualidade das janelas? Criar um serviço de meteorologia “normal”, que consiga içar os sinais atempadamente? Avisar seriamente população e turistas da seriedade do evento, evitando-se com isso o deslizar de pessoas nos braços do vento? Punir severamente todos os que abusaram ou pretenderam abusar da situação? Não. Isso é tudo muito complicado, complexo, intrincado, polémico. O melhor é... Olha, dá-se dinheiro. O que se viu durante este tufão foi dramático, desgraçadamente dramático. Havia gente escondida em esquinas, acocorada em portas, no momento em que a força do vento atingia o seu apogeu. Parece que ninguém lhes disse que vinha ali um momento perigoso para as suas vidas. Não tinham cara de aventureiros em busca de emoções fortes. Estavam transidas de medo, molhadas, algumas eram arrastadas pelo vento. Ninguém os avisou e retirou das ruas? Não existe um veículo preparado para esse efeito? A água alagou “normalmente” o Porto Interior. Até quando temos de viver com esta “normalidade”? Mas a coisa não é fácil, já nos disseram. Possível, mas complexo. São obras complicadas, percebe. E, provavelmente, o dinheiro é necessário para qualquer outra coisa. Resta-nos exprimir a nossa melhor compreensão. Na China Antiga, rei que não entendia a Natureza nem sabia cuidar dos seus cidadãos em necessidade, corria o risco de perder o Mandato do Céu. O governo de Macau não corre esse risco: o Céu está confuso e o dinheiro tudo lava. Menos as vidas perdidas e as que se vão perder da próxima vez.
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sexta-feira 25.8.2017
CASINOS CLOEE CHAO DIZ QUE SINAL 8 FOI IÇADO TARDE DEMAIS
Regras do jogo GCS
de que, caso não viessem trabalhar, iriam tratar o caso como se fosse uma falta ou dia de férias sem remuneração”, apontou.
OPERADORAS REAGEM
H
AVIA suspeitas, mas a verdade é que os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) só decretaram o sinal 8 de tempestade tropical às 9h00 de quarta-feira, o que fez com que muitos trabalhadores do jogo se apresentassem ao serviço. É esta a ideia de Cloee Chao, presidente da Associação Novo Macau para os Direitos dos Trabalhadores do Jogo. Ao HM, a responsável considera que o Governo reagiu de forma errada em resposta aos danos causados pelo tufão Hato, tendo adiantado que este não é caso único.
“O sinal 8 não é içado com base na realidade e na necessidade. Em vez disso, é içado segundo um tempo bem organizado em prol dos benefícios das operadoras de jogo”, defendeu Cloee Chao. Cloee Chao aproveitou ainda para divulgar a carta que enviou ontem à Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), onde se manifestou contra as regras adoptadas pelas operadoras de jogo em períodos de tufões. “Toda a gente sabia o que ia acontecer na quarta-feira, mas as operadoras de jogo alertaram os trabalhadores
Ciclone tropical vindo das Filipinas a caminho
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Um ciclone tropical vindo da zona leste das Filipinas chegará às áreas costeiras de Guangdong nas próximas 24 horas. Segundo a previsão dos Serviços de Meteorologia e Geofísicos, o ciclone chegará perto da província de Guangdong já neste fim-de-semana. São esperados ventos fortes de sábado a segunda-feira, mas os SMG garantem existir ainda “uma grande incerteza” quanto à rota do ciclone e à sua intensidade.
Entretanto, as operadoras de jogo MGM e Melco Crown já reagiram ao tufão Hato que levou ao inédito encerramento dos casinos. “As operações no Cotai continuam a decorrer normalmente”, aponta a Melco Crown, que lembra as dificuldades de acesso ao local de trabalho na manhã de quarta-feira. “Compreendemos que os nossos empregados passaram por dificuldades para chegar ao trabalho devido aos impactos do tufão. Para mostrarmos o nosso apoio, vamos ser flexíveis nos horários de entrada nos próximos dias.” Também a MGM afirma ter vindo a trabalhar com o Executivo para “restaurar as operações e proteger os nossos trabalhadores e hóspedes”. “Registamos alguns danos no edifício de pequena dimensão, mas acreditamos que não vai ter qualquer impacto no nosso regresso às operações”, apontou ainda a operadora. Entretanto, a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) disse estar “a prestar estreito acompanhamento sobre os assuntos de indemnizações [a trabalhadores], tendo mantido contactos com a Associação de Seguradoras de Macau”. A.S.S./V.N.