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Hoje Macau 21 AGO 2017 #3879

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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

REUTERS

HONG KONG

VOZ ACTIVA Desde Abril queixas mil

MATTHIAS STOM

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VALÉRIO ROMÃO

PEQUIM TRAVA QUARTA PONTE MACAU-TAIPA

Chumbos do meio O Governo central decidiu travar a marcha da construção da quarta ligação entre Macau e a Taipa. Questões de segurança estarão na origem da decisão de Pequim que pede mais

estudos sobre a matéria. Por outro lado, há quem desvalorize o eventual atraso na conclusão do projecto e não anteveja alterações drásticas ao modelo inicial.

PÁGINA 6

HONG WAI

Artista a tempo inteiro ENTREVISTA

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

h

Fazer um escritor FEMININE LANDSCAPE SERIES, 2016, HONG WAI (PORMENOR)

hojemacau

GRANDE PLANO

CCAC | ELEIÇÕES

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MOP$10

SEGUNDA-FEIRA 21 DE AGOSTO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3880


2 grande plano

HOJE MACAU

“Estas prisões vão trazer dois tipos de consequências. De certeza que vão afastar algumas pessoas e fazer com que se dê um passo atrás nestes movimentos.” SCOTT CHIANG PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NOVO MACAU

REUTERS

A prisão dos activistas Joshua Wong, Nathan Law e Alex Chow levou ontem cerca de dez mil pessoas às ruas de Hong Kong. Em Macau, Larry So diz que a pena foi demasiado pesada e que bastava uma condenação a trabalho comunitário. Scott Chiang, líder da Associação Novo Macau, defende que os activistas não podem perder a esperança

21.8.2017 segunda-feira

VOZES AO ALTO

HONG KONG PRISÃO DE ACTIVISTAS GERA NOVO PROTESTO E CRITICAS DE ONG

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S olhos do mundo estão de novo postos em Hong Kong após o Tribunal de Recurso da região vizinha ter condenado os activistas Joshua Wong (20 anos) a seis meses de prisão, Nathan Law (24 anos) a oito meses, e Alex Chow (26 anos) a sete meses. A condenação surgiu na sequência do pedido de agravamento das sentenças pelo Governo, já depois de, no ano passado, os activistas, ligados ao partido Demosisto, terem sido condenados a trabalho comunitário. Um painel de três juízes decidiu na quinta-feira agravar as sentenças conforme pedido de recurso pelo secretário para a Justiça, Rimsky Yuen. A decisão substitui as sentenças decretadas o ano passado, de 80 e 120 horas de serviço comunitário, para Joshua Wong

e Nathan Law, e pena suspensa de três semanas de prisão para o ex-dirigente da federação de estudantes Alex Chow. Os juízes disseram que era preciso dissuadir outros manifestantes de tais actos e condenaram à prisão os três jovens, depois de deduções de um mês nas sentenças de Wong e Law por serviço comunitário já cumprido. Entretanto, os três activistas vão recorrer da sentença, disse um líder estudantil dos protestos de 2014. As acusações de pressão política e tentativa de silenciamento dos movimentos pró-democracia na região vizinha surgiram de imediato. Ontem, segundo o órgão de media Hong Kong Free Press, cerca de dez mil pessoas terão estado na zona de Wanchai a protestar na intitulada “Marcha contra a Perseguição Política”.

Os juízes disseram que era preciso dissuadir outros manifestantes de tais actos e condenaram à prisão os três jovens

Segundo a reportagem em directo, transmitida nas redes sociais, membros do partido pró-democracia People Power lembraram que os três activistas presos têm menos de 30 anos e que, por isso, podem continuar a luta pela democracia quando saírem da prisão. “É o seu futuro”, disse um dos membros do partido. Raymond Chan Chi-chen, deputado do Conselho Legislativo (LegCo) pelo People Power, defendeu ao mesmo órgão de comunica-

ção que a decisão do tribunal não passa de uma perseguição política e que os grupos que lutam por um sistema político mais democrático “sofrem pressões neste momento”. Raymond Chan Chi-chen teceu ainda duras criticas ao posicionamento do secretário Rimsky Yuen em todo o processo.

PENA EXCESSIVA

Em Macau também se fala de uma tentativa de silenciamento e diminuição do poder que os movimentos pró-democracia têm obtido nos últimos anos. Ao HM, Larry So, politólogo, considerou que a pena decidida pelo tribunal foi “demasiado pesada”. “Seria suficiente aplicar-lhes uma pena de trabalho comunitário e não uma pena de prisão. É uma decisão com uma maior orientação política do que propriamente legal. Desse ponto de vista, penso que há


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segunda-feira 21.8.2017

Condenação geral ONG criticam decisão do tribunal

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com o que tem acontecido nos últimos tempos”, disse o politólogo. Scott Chiang, presidente da Associação Novo Macau (ANM), pede, sobretudo, que não se perca a esperança. “O que esperamos é que Joshua Wong e outros activistas não percam a esperança de lutar pelo seu destino”, disse ao HM. “Estas prisões vão trazer dois tipos de consequências. De certeza que vão afastar algumas pessoas e fazer com que se dê um passo atrás nestes movimentos. Diria que esta decisão do tribunal vai dividir um HOJE MACAU

uma tentativa de suprimir os jovens de virem à rua e protestarem contra o Governo”, apontou. Na visão do ex-docente do Instituto Politécnico de Macau, a decisão do Tribunal de Recurso “não é uma boa medida e é uma tentativa de silenciamento”. “É uma pena que o tribunal de Hong Kong tenha sentenciado estes jovens a penas de prisão”, acrescentou. No protesto de ontem em Wanchai questionou-se a continuação do trabalho do partido Demosisto, agora que os seus principais líderes estão atrás das grades. Para Larry So, pode de facto haver um retrocesso nos movimentos pró-democracia. “A curto prazo podemos sentir um efeito nesse sentido (uma redução dos protestos nas ruas), porque é um sinal claro junto da comunidade e uma tentativa de travar um pouco os jovens. É uma decisão que diz ‘Não tomem decisões radicais e não vão para a rua, pois podem ser presos’.” Em Macau, cujos movimentos pró-democracia têm registado uma expressão diminuta, haverá, segundo Larry So, poucas consequências destas prisões. “Macau ainda não atingiu essa fase em que os jovens assumem posições mais radicais. O território vive uma melhor situação económica. Não vejo acontecimentos destes no futuro de Macau, e penso que Macau deve olhar para Hong Kong e aprender algumas lições

“Seria suficiente aplicar-lhes uma pena de trabalho comunitário e não uma pena de prisão. É uma decisão com uma maior orientação política do que propriamente legal.” LARRY SO POLITÓLOGO

pouco a sociedade de Hong Kong”, acrescentou o presidente da ANM.

PROJECTOS ADIADOS

Tanto as condenações a penas de prisão efectivas como a de outros 13 activistas no início da semana passada, por um caso anterior ao movimento ‘Occupy’, aumentaram os receios de que o sistema judiciário independente de Hong Kong esteja sob ameaça por o Governo da cidade apoiado por Pequim alegadamente estar a usar os tribunais para reprimir a oposição e restringir a sua capacidade de protesto. Antes do julgamento, o Departamento de Justiça de Hong Kong disse que não havia “absolutamente nenhuma base para inferir qualquer motivo político” da sua parte em relação ao caso. No ano passado, Nathan Law, então com 23 anos, tornou-se o mais novo deputado a ser eleito em Hong Kong, mas, tal como outros cinco eleitos pela população, viria meses mais tarde a ser desqualificado por usar o seu juramento para protestar contra Pequim. Joshua Wong, de 20 anos, também falou de seu desejo de se candidatar, mas não pôde fazê-lo por não ter a idade mínima de 21 anos. Alex Chow, que na sexta-feira faz 27 anos, pretende fazer um doutoramento no estrangeiro, mas a sentença veio atrasar os seus planos. A.S.S. com Lusa

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RUPOS de direitos humanos e políticos norte-americanos já condenaram as penas de prisão efectiva aplicadas pelo Tribunal de Recurso de Hong Kong. A Amnistia Internacional disse que a busca “incansável” pelo Governo de penas de prisão para Joshua Wong, Nathan Law e Alex Chow foi um “ataque vingativo” à liberdade de expressão e reunião pacífica. “O verdadeiro perigo para os direitos de liberdade de expressão e reunião pacífica em Hong Kong é a continuada perseguição pelas autoridades de proeminentes activistas democratas. As acusações destinadas a dissuadir a participação em protestos pacíficos devem ser paradas”, disse a directora da Amnistia Internacional em Hong Kong Mabel Wu, citada pela Rádio e Televisão Pública de Hong Kong. A directora da organização Human Rights Watch para a China, Sophie Richardson, reagiu através da rede social Twitter. “A democracia em Hong Kong, que se posiciona como centro legal, de negócios e de liberdade de expressão foi gravemente prejudicada pelas sentenças de hoje”, escreveu. O académico da Universidade de Hong Kong Eric Cheung, que estava no tribunal em apoio aos jovens presos disse que estava triste que os três jovens fossem colocados atrás das gra-

des e destacou a sua dedicação e “grande potencial”. “O que eles fizeram (...) foi realmente por preocupação com Hong Kong”, disse Cheung.

CENSURA AMERICANA

Nos Estados Unidos, o senador Marco Rubio, que lidera uma comissão no Congresso sobre a China, também criticou as sentenças: “As acusações políticas e as novas sentenças destes jovens são uma vergonha e mais uma prova de que a estimada autonomia de Hong Kong está precipitadamente em erosão”. Rubio disse que as políticas dos EUA devem reflectir a realidade de que Pequim está a tentar esmagar a nova geração do movimento pró-democracia de Hong Kong e a minar o princípio “Um país, dois sistemas”, que entrou em vigor em 1997, com a passagem da soberania de Hong Kong da Grã-Bretanha para a China.Pequim prometeu deixar a cidade manter a sua ampla autonomia e direitos civis, como liberdade de expressão e manifestação, desconhecidos no interior da China. O congressista Chris Smith acrescentou que Hong Kong pode arriscar perder o seu estatuto especial perante as leis dos Estados Unidos se Pequim recusar seguir as promessas feitas na Declaração Conjunta sino-britânica.

Marco Rubio


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21.8.2017 segunda-feira

AL MAK SOI KUN E ZHENG ANTING FAZEM O BALANÇO DA LEGISLATURA

Interpelar até ao fim benefícios de forma a garantir que o nível de vida da população da terceira idade acompanha a taxa de inflação. Ainda neste capítulo, Zheng Anting lembra que propôs ao Governo o aumento do vale de saúde para pessoas com idade igual ou superior a 60 anos para um montante de 1000 patacas.

HOJE MACAU

Com o fim da legislatura chegou a altura de reflectir sobre os últimos quatro anos de trabalhos da Assembleia Legislativa. Os deputados Mak Soi Kun e Zheng Anting apresentaram mais de 400 interpelações, sendo que mais de metade não obteve resposta do Governo no prazo estabelecido

RESPOSTAS TARDIAS

E

STAMOS em plena época alta dos balanços de trabalhos. Aproveitando a onda, os deputados Mak Soi Kun e Zheng Anting deram uma conferência de imprensa onde se lançaram no exercício de fim de legislatura. Desde Outubro de 2013, ambos os deputados fizeram 364 interpelações escritas, 37 orais, 104 intervenções no período antes da ordem do dia. Além disso, foram proponentes de três debates levantados na Assembleia Legislativa (AL), relatou Mak Soi Kun. O deputado considera que teve uma boa prestação a cumprir as promessas feitas nas eleições passadas. Entre as lutas mais acérrimas que levou a cabo destaca as con-

A

Associação Novo Macau vai apresentar queixa criminal contra o autor do pedido ao Ministério Público para investigar um membro do maior grupo pró-democracia por alegada “associação aos casos de corrupção” que envolvem o antigo procurador. Em causa está um pedido de investigação entregue no Ministério Público (MP) contra o actual responsável do conselho fiscal e antigo vice-presidente da Novo Macau, Andrew Cheong, por Caruso Fong, presidente da Associação dos Assuntos Jurídicos e Sociais, que também diz ser membro da associação pró-democracia.

Mak Soi Kun (D) “De entre as mais de 300 interpelações escritas, só 45,58 por cento foram respondidas no prazo de 30 dias, ou seja, o Governo não respondeu a mais de metade no prazo definido”

dições de habitabilidade, o abuso no arrendamento, as garantias para idosos, habitação e os problemas do trânsito. Zheng Anting chamou atenção para o caso Pearl Horizon como

prelúdio para falar da questão das terras. O deputado lembrou o projecto de lei que entregou em Junho último, em parceria com Leonel Alves, para rever a legislação referente à lei de terras. Porém, lamenta que a legis-

latura tenha terminado sem que o Governo tivesse respondido. Zheng Anting destacou ainda o problema das pensões para idosos. O deputado recordou as várias vezes que sugeriu o aumento destes

Troca de galhardetes

Novo Macau apresenta queixa criminal contra Caruso Fong

Além de questionar a relação entre as empresas de Andrew Cheong e de Wong Kuok Wai que, na terça-feira, foi condenado a 14 anos de prisão num processo conexo ao do ex-procurador Ho Chio Meng, Caruso Fong acusou a direcção da Novo Macau de aceitar subornos de Andrew Cheong, em troca de uma alegada posição para o empresário na associação. “Em relação à conferência de imprensa, da semana passada, dada pela Associação dos Assuntos Jurídicos e Sociais e por Caruso Fong

no exterior do Ministério Público, a Associação Novo Macau considera que as acusações de suborno contra os actuais e antigos líderes da associação não têm qualquer fundamento, não são verdadeiras e fazem parte de uma campanha de difamação”, disse a associação. “Por conseguinte, a Associação Novo Macau vai apresentar uma queixa criminal sobre falsas acusações”, acrescentou. A Novo Macau tinha dito que ia reagir oficialmente ao pedido de investigação na

sexta-feira, mas acabou por divulgar um comunicado em chinês, através do Facebook. O documento é difundido em nome do actual presidente da Novo Macau, Scott Chiang, do vice-presidente Sulu Sou, de Andrew Cheong, e do antigo presidente Jason Chao.

DINHEIRO SUSPEITO

Em causa estarão contratos sobre a manutenção de detectores de metais subadjudicados a uma empresa de Andrew Cheong – a Artigos Eletrónicos Proton – para

Fazendo a retrospectiva dos trabalhos dos últimos quatro anos da AL, Mak Soi Kun divulgou ter recebido mais de 1200 pedidos de ajuda de cidadãos, quer da forma directa ou da indirecta. Deste universo de solicitações da população, 93 por cento destes pedidos foram já resolvidos, enquanto os restantes sete por cento ainda não tiveram conclusão. Por outro lado, Mak Soi Kun alerta para a insuficiência de certos serviços em termos de recursos humanos. “De entre as mais de 300 interpelações escritas, só 45,58 por cento foram respondidas no prazo de 30 dias, ou seja, o Governo não respondeu a mais de metade no prazo definido”, comenta. O deputado entende que esta situação demonstra uma eficiência insatisfatória em termos de poder de resposta das autoridades, o que revela alguma falta de competência ao nível do funcionalismo público. Mak Soi Kun vai mais longe ao depositar nos funcionários as culpas para a impossibilidade em resolver as questões dos cidadãos, algo que é motivo de vergonha para o deputado.

a prestação de serviços no Ministério Público durante oito anos. Caruso Fong colocou em causa a forma como a empresa de pequena dimensão de Andrew Cheong conseguia obter do MP contratos de milhões de patacas e disse que o empresário prestou falsas declarações quando foi ouvido no processo conexo ao do ex-procurador. Caruso Fong estimou o montante em 100 mil patacas e disse ter provas de que o dinheiro acabou por ser transferido em benefícios impróprios para membros da direcção da Associação Novo Macau. O Tribunal Judicial de Base deu, na passada terça-

Vítor Ng e João Luz

info@hojemacau.com.mo

-feira, como provado mais de mil crimes envolvendo a adjudicação de contratos de aquisição de bens e serviços do Ministério Público a empresas de fachada, incluindo crimes cometidos de forma continuada, em associação criminosa com o antigo procurador Ho Chio Meng, já condenado em Julho a 21 anos de prisão. Ho Chio Meng, que liderou o Ministério Público entre 1999 e 2014, foi condenado a 21 anos de prisão por mais de mil crimes, incluindo promoção ou fundação de associação criminosa, participação económica em negócio, branqueamento de capitais agravado, burla e peculato.


política 5

segunda-feira 21.8.2017

GCS

ELEIÇÕES CCAC RECEBEU 101 QUEIXAS DESDE ABRIL

Ter os ouvidos cheios

REGIÃO COOPERAÇÃO DOMINA ENCONTRO ENTRE LÍDERES DE HONG KONG E MACAU

A

cooperação bilateral no desenvolvimento de tecnologia inovadora, indústrias criativas e medicina tradicional chinesa dominaram o encontro do chefe do Executivo de Macau, Chui Sai On, com a homóloga de Hong Kong, Carrie Lam. Na primeira visita a Macau depois de ter assumido a chefia do Executivo de Hong Kong, a 1 de Julho passado, Carrie Lam destacou o empenho do seu Governo no desenvolvimento dos sectores de tecnologia inovadora e indústrias criativas, bem como a “enorme vontade” de conhecer “o desenvolvimento da indústria da medicina tradicional chinesa” em Macau, de acordo com um comunicado oficial divulgado na sexta-feira à noite. Os dois responsáveis lembraram a “boa cooperação” entre as duas Regiões Administrativas Especiais chinesas e a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, a construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e a entrada em funcionamen-

to, prevista no final do ano, da ponte Hong Kong – Zhuhai – Macau na criação de novas oportunidades de desenvolvimento. Chui Sai On defendeu que “os dois territórios podem impulsionar a cooperação em vários domínios, incluindo na tecnologia inovadora, na indústria criativa e na formação dos jovens, estando ainda disponível para trocar experiências com Hong Kong sobre o desenvolvimento da indústria da medicina tradicional chinesa”, indicou a mesma nota. Depois do encontro e antes de regressar a Hong Kong no final do dia, Carrie Lam visitou o espaço 10 Fantasia - Associação promotora de indústrias criativas, no bairro de São Lázaro, na cidade. A governante de Hong Kong não prestou declarações aos jornalistas. Primeira mulher a chefiar o Governo de Hong Kong , Carrie Lam foi eleita a 26 de Março passado por um colégio eleitoral de 1.194 membros, em representação de vários sectores de actividade da antiga colónia britânica.

Eleições à Assembleia Legislativa Listas de delegados a entregar até dia 28

Arrancou no sábado, com duração até à próxima segundafeira, dia 28, o prazo para a entrega das listas de delegados das candidaturas às eleições legislativas deste ano. Segundo um comunicado da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), cada candidatura tem o direito de designar um delegado efectivo e outro substituto para cada assembleia de voto. Cabe ao mandatário da candidatura entregar a lista de delegados ao director dos Serviços de Administração e Função Pública. A CAEAL determina que “os delegados designados pelas candidaturas para as diversas assembleias de voto são obrigados a votar nas assembleias de voto para as quais foram designados”.

“A

TÉ este momento recebemos 67 queixas (…) através da linha conjunta com a Comissão Eleitoral e 34 por via própria. No total são 101. A maior parte está relacionada com suspeita de corrupção eleitoral”, disse aos jornalistas, à margem de uma iniciativa do CCAC para promover “eleições limpas”. André Cheong não avançou detalhes sobre os progressos das investigações, quantas foram concluídas e se houve queixas que deram origem à entrega de processos ao Ministério Público para fazer acusação. Aprovada em 2016, a nova lei eleitoral impõe maiores restrições à propaganda eleitoral. Em Macau, muitas listas têm ‘organizações amigas’ que promovem todo o tipo de actividades e de presentes, desde banquetes a viagens à China. A lei não proíbe as associações apoiantes de listas candidatas de organizarem banquetes ou de oferecerem refeições gratuitas ou vales de compras em supermercados aos seus sócios, nem proíbe que uma sociedade organize viagens ao interior da China, recorda André Cheong. “O que a lei proíbe é fornecer esses interesses e ao mesmo tempo fazer propaganda eleitoral. Por exemplo, há banquetes gratuitos em que há propaganda. Antes de 2 de Setembro [data do início da campanha eleitoral], se houver propaganda antecipada vai ser qualificada como acto ilegal”, acrescenta. O comissário revelou que desde Abril até à data os fiscais do CCAC realizaram “mais de 2000 acções de vigilância”, das quais mais de 1500 a actividades que incluíam banquetes ou refeições gratuitas, tendo

TIAGO ALCÂNTARA

O Comissariado contra a Corrupção de Macau (CCAC) recebeu desde Abril um total de 101 queixas relacionadas com as eleições de Setembro à Assembleia Legislativa, disse o comissário André Cheong no fim-de-semana

André Cheong

também fiscalizado outro tipo de iniciativas, como a oferta de viagens.

COMER E PASSEAR

“Verificámos que existem essas actividades, mas em muito poucas ocorreram acções de propaganda de actos eleitorais. Segundo os

colegas que já trabalharam em várias eleições, essa é uma diferença em relação ao passado”, diz. “Não fiz a comparação se as viagens ou banquetes são mais ou menos, mas nesses mais de 2000 actos verificámos poucos casos de indícios de fornecimento

O comissário revelou que desde Abril até à data os fiscais do CCAC realizaram “mais de 2000 acções de vigilância”, das quais mais de 1500 a actividades que incluíam banquetes ou refeições gratuitas, tendo também fiscalizado outro tipo de iniciativas, como a oferta de viagens

de interesses e, ao mesmo tempo, de propaganda eleitoral”, afirma. Nas últimas eleições para a Assembleia Legislativa, há quatro anos, o CCAC diz ter recebido 213 queixas e denúncias relacionadas com as eleições legislativas, das quais 46 foram registadas no dia da votação (15 de Setembro de 2013). A Assembleia Legislativa é composta por 33 deputados, 14 eleitos por sufrágio universal e 12 por sufrágio indirecto (através de associações), além de sete posteriormente nomeados pelo chefe do Executivo. As eleições estão marcadas para 17 de Setembro. Lusa


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21.8.2017 segunda-feira

ANTÓNIO FALCÃO

Bolsos recheados

Gastos dos visitantes de Macau fora dos casinos sobem 17,5 por cento

O

GOVERNO CENTRAL MAIS ESTUDOS À QUARTA PONTE QUE LIGA MACAU À TAIPA

Outras margens

Questões de segurança justificaram a decisão do Governo Central em não autorizar a construção da quarta ponte. Não foi citada qualquer razão relacionada com a Ponte em Y. Um especialista ouvido pelo HM entende que o plano inicial de construção deve sofrer apenas ligeiras alterações

A

NTES de se começar a falar na quinta travessia, o Governo Central travou a construção da quarta ponte entre Macau e a Taipa. De acordo com declarações à TDM – Rádio Macau do coordenador do Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-Estruturas (DGI), Chao Vai Man, o chumbo de Pequim ficou a dever-se a razões de segurança. Em questão está a futura localização da ponte que atravessa uma via navegável de alta velocidade. Entretanto, o Executivo avançou com a adjudicação dos serviços de fiscalização, gestão do projecto e preços para a obra, que vai custar mais de 188 milhões de patacas. O contrato foi para a empresa Ove Arup & Partners Hong Kong Limited. Addy Chan, vice-presidente da Associação dos

Engenheiros de Macau, considera todo este processo normal. “Todas as construções ribeirinhas e de beira-mar precisam da aprovação do Governo Central, porque são obras que afectam a direcção e velocidade das águas”, comenta. Como tal, admite não ter ficado surpreendido. Para o engenheiro é necessário também avaliar o impacto deste tipo de obras nas cidades vizinhas.

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS

Apesar do projecto estar próximo da zona onde chega

a Ponte Hong Kong – Zhuhai – Macau, nem o coordenador do DGI, nem Addy Chan acham que possa haver qualquer incompatibilidade entre ambas as construções. “Não me parece que haja relação, pois essa ponte está praticamente em fase de conclusão”, explica o engenheiro. As decisões do Governo Central devem ter em consideração construções futuras, além de se aferir quais os impactos ambientais num sentido global na área envolvente. Nesse sentido, “a Ponte em Y já afecta um pou-

“Em relação ao trabalho que falta, Addy Chan não entende que seja “uma coisa assim tão complicada, sendo de esperar que os estudos finais não demorem muito a serem realizados.”

co”, considera o especialista. Há que ter em consideração que do lado continental, há mais um projecto de grande envergadura a ligar Shenzhen a Zhongshan. Em relação ao trabalho que falta, Addy Chan não entende que seja “uma coisa assim tão complicada, sendo de esperar que os estudos finais não demorem muito a serem realizados”. No que diz respeito ao projecto final da quarta ponte que liga Macau à Taipa, o vice-presidente da Associação dos Engenheiros de Macau diz que “não deve sofrer alterações drásticas de design, não deverá ser algo completamente novo”. João Luz

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S gastos dos visitantes de Macau, fora dos casinos, aumentaram 17,5 por cento no segundo trimestre deste ano, em relação ao período homólogo de 2016, indicam dados oficiais sexta-feira divulgados. De acordo com os Serviços de Estatística e Censos (DSEC), a despesa total dos visitantes efetuada fora dos casinos ascendeu a 13,75 mil milhões de patacas, traduzindo uma subida de 2,2 por cento relativamente aos primeiros três meses do ano. A despesa ‘per capita’ dos visitantes situou-se em 1787 patacas, reflectindo em linha com o comportamento global uma subida de 11,7 por cento em termos anuais homólogos e de 4,6 por cento em termos trimestrais. A maior despesa per capita foi efetuada pelos visitantes da China, o maior mercado emissor de Macau, que ascendeu a 2162 patacas entre Abril e Junho, mais 16,8 por cento face a igual período do ano passado. A despesa ‘per capita’ dos visitantes provenientes da Malásia aumentou 8,2 por cento, em termos anuais, ao passo que a dos visitantes de Singapura, de Hong Kong e de Taiwan diminuiu 3,9 por cento, 8,2 por cento e 6,9 por cento, respectivamente, de acordo com a DSEC. Em baixa esteve também a despesa ‘per capita’ dos visitantes da Austrália (menos 21,7 por cento) e a dos procedentes dos Estados Unidos (menos 0,6 por cento) e Reino Unido (menos 4,4 por cento).

ÀS COMPRAS

Segundo a DSEC, os visitantes gastaram essencialmente em compras (43 por cento), alojamento (25,6 por cento) e alimentação (23,1 por cento). A despesa ‘per capita’ em compras atingiu 768 patacas (81,1 euros), mais

10,7 por cento em termos anuais, destacando-se no ‘cabaz’ os alimentos/ doces (229 patacas), cosméticos/perfumes (191 patacas), produtos em que os gastos aumentaram 17,8 por cento e 18,6 por cento, respectivamente. Os resultados do inquérito às despesas dos visitantes indicaram ainda que o principal motivo da vinda a Macau foi para passar férias (49,7 por cento do total), mas que foram os que vieram participar em convenções/exposições que gastaram mais, com uma despesa ‘per capita’ de 3304 patacas, apesar de representarem só 0,7 por cento dos visitantes. De acordo com os mesmos dados, 17,6 por cento utilizaram o território apenas como ponto de passagem, enquanto 8,4 por cento dos inquiridos foram atraídos pelas compras e 8 por cento pelo jogo. Visitar familiares e amigos e tratar de negócios e assuntos profissionais foram outras das motivações dos que escolheram deslocar-se a Macau entreAbril e Junho. No segundo trimestre do ano, Macau recebeu 7,69 milhões de visitantes, um aumento de 5,3 por cento em termos anuais homólogos, segundo dados oficiais divulgados anteriormente. No ano passado, a despesa total, excluindo o jogo, dos visitantes, atingiu 52,66 mil milhões de patacas, aumentando 3 por cento face a 2015, ano em que os gastos dos visitantes de Macau caíram pela primeira vez desde 2010, ou seja, desde que existe registo. O visitante refere-se a qualquer pessoa que tenha viajado para Macau por um período inferior a um ano, um termo que se divide em turista (aquele que passa pelo menos uma noite) e excursionista (aquele que não pernoita). Lusa


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segunda-feira 21.8.2017

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S Serviços de Saúde de Macau registaram, no sábado, o sexto caso local de febre de dengue, na mesma zona onde foram assinalados os outros cinco. Este sexto caso foi detectado numa mulher com 36 anos, moradora na zona da Praia do Manduco, onde moram ou estiveram os cinco casos confirmados anteriormente. Os Serviços de Saúde consideram que o caso é local, apesar de a mulher se ter deslocado à China no dia 9 de Agosto. Os primeiros sintomas - febre, dores articulares e musculares - surgiram no dia 12, tendo sido aliviados após uma ida ao hospital. No entanto, no dia 18 a doente apresentou uma erupção cutânea em todo o corpo e decidiu recorrer novamente ao hospital, tendo sido confirmado o resultado positivo do teste ao tipo II do vírus da febre de dengue. “Apesar da deslocação ao Interior da China, a doente não viajou para outras regiões durante os 14 dias antes da manifestação de sintomas”, indicam os Serviços de Saúde, em comunicado. “De acordo com a análise epidemiológica, o caso foi classificado como o sexto caso local da febre de dengue registado na Região Administrativa Especial de Macau este ano”, informa o mesmo comunicado. O estado de saúde da doente melhorou e os seus familiares não apresentam sintomas de febre de dengue. Além dos seis casos locais, as autoridades registaram até agora outros seis casos de febre de dengue importados, o último dos quais confirmado na quarta-feira, numa mulher que chegou recentemente das Filipinas para visitar a família em Macau. No ano passado, foram registados 11 casos de febre de dengue, todos importados.

Burlas Estudantes universitários são mais vulneráveis

Cerca de 30 por cento das vítimas de burla telefónica no território são estudantes do ensino superior. Estes são os resultados da análise das denúncias apresentadas à Polícia Judiciária entre 20 de Julho e 9 de Agosto. De acordo com os dados apresentados em comunicado das autoridades, esta faixa da população mostra não estar sensibilizada para as situações de burla, pelo que é necessário chamar uma maior atenção dos jovens. De acordo com o mesmo comunicado, e “com o objectivo de sensibilizar os estudantes do ensino superior a tomarem medidas preventivas contra burlas e não caírem em armadilhas, a PJ teve uma reunião urgente com o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) e várias instituições do ensino superior, para discutir a realização de campanhas de sensibilização e prevenção de burlas telefónica nas instalações académicas”.

HABITAÇÃO REVISÃO DE REGIME DEVE INCLUIR ESTABILIDADE NAS LISTAS DE ESPERA

A manta está curta

Alterar o regime de admissão à habitação pública sem garantir a estabilidade das listas de espera não faz sentido para alguns dos membros da Associação Novo Macau. Para Sulu Sou e Paul Chan Wai Chi esta matéria merece uma intervenção urgente

A

Associação Novo Macau não está satisfeita com as declarações do secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, no que respeita a soluções para a falta de habitação social no território. O secretário anunciou, na semana passada, que o regime para admissão de candidaturas a habitação económica irá ser alterado e, com as mudanças, vai ser retomado o sistema de pontuação. No entanto, mais pormenores só quando o diploma for à Assembleia Legislativa. Ontem, em conferência de imprensa, Sulu Sou e Paul Chan Wai Chi, membros da Associação Novo Macau revelaram o seu descontentamento com as declarações de Raimundo do Rosário. Depois de terem participado num programa da TDM em que manifestaram as suas opiniões relativamente à habitação económica, Sou Ka Hou, vice-presidente da Novo Macau, afirmou que a resposta do secretário sobre a estabilidade das listas de espera é insuficiente. “A situação parece um pato manco” contou aos jornalistas. A razão, apontou o responsável, tem que ver com a falta de garantias na estabilidade das listas considerando que não é útil que se apaguem os seus dados sempre que se sabe de resultados das candidaturas.

ALTERAÇÕES INÚTEIS

Sulu Sou salientou ainda que, caso não venham a existir listas de espera permanentes, a alteração à lei de habitação económica não terá grandes efeitos positivos. “Vai ser mantida a situação que existe actualmente em

Sulu Sou, vice-presidente da Novo Macau, afirmou que a resposta do secretário é insuficiente no que respeita à estabilidade das listas de espera

HOJE MACAU

DENGUE REGISTADO SEXTO CASO EM MACAU

que os candidatos que não pertençam a um agregado família nuclear vão continuar a acompanhar na corrida”, disse. Já Paul Chan Wai Chi acrescentou que com a falta de listas de espera estáveis os serviços públicos têm muito mais trabalho a fazer, sem esquecer que, com o aumento da instabilidade do mercado imobiliário, pode ter consequências para a sociedade local em geral.

Ip Kin Wa, criticou a utilização de dinheiros públicos para facilitar a compra de casas económicas e considera que Macau não deve desenvolver este sector O também antigo deputado acha ainda que a manutenção das listas é uma medida que pode dar à comunidade uma previsão do tempo que tem de aguardar para ter acesso a uma casa económica e, desta forma, poderem planear a vida. Os responsáveis estavam de saída do programa da TDM, “Fórum Macau” em que o membro do Conselho para os Assuntos de Habitação Pública, Ip Kin Wa, criticou a utilização de dinheiros públicos para facilitar a compra de casas económicas e considera que Macau não deve desenvolver este sector. O subcoordenador do Conselho para os Assuntos Sociais dos Kaifong, Ho Weng Hong, destacou a importância da divulgação de dados sobre as necessidades de habitação pública em Macau e lamenta que o Governo não tenha as informações necessárias. Ho Weng Hong espera que seja criada uma base de dados com estas informações. Vitor Ng com Sofia Margarida Mota info@hojemacau.com.mo


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HONG WAI

ENTREVISTA

ARTISTA PLÁSTICA

Foi para Paris para fazer um mestrado em arte e não voltou. A artista local Hong Wai usa as técnicas mais tradicionais chinesas para representar a beleza da mulher emancipada e os seus trabalhos andam um pouco por todo o mundo

“Trago a mulher contemporânea em tinta-da-china”

FEMININE LANDSCAPE SERIES, 2016, HONG WAI

-primas da paisagem pertencem à Colecção Oficial de Arte da China Imperial das Cinco Dinastias e vai até os tempos modernos. Eu, em vez de representar a virtude através da arte ou da moda tradicional chinesa, prefiro expressar e ilustrar a feminilidade com imagens contemporâneas e não convencionais. As minhas paisagens com montanhas e rios transformam-se em lingerie entrelaçada. A ode ao céu e à terra torna-se uma ode ao “yin” sensual, oculto e incontornável.

Como é que apareceu a criação artística? Sempre gostei de desenhar. Do que me lembro, já desenhava muito quando andava no infantário. No ensino primário passava os meus tempos livres a pintar e os meus colegas começaram a pedir-me alguns trabalhos. Queriam que lhes pintasse os cães, que desenhasse bonecas. Mas as aulas de desenho não me atraiam, eram muito monótonas. Aos 14 anos experimentei ter uma aula de pintura tradicional chinesa e gostei muito. Neste tipo de pintura é preciso conjugar vários factores. Há a incerteza da tinta no papel e os próprios gestos que se fazem com o pincel demonstram a energia e as emoções do artista durante o processo de criação. É uma pintura muito especial. Também tive uma excelente orientação dada pelo professor Ieong Deang Sang. Foi quem me ensinou os princípios da pintura chinesa: a relação entre a tinta e a água, entre o espaço cheio e vazio, entre a parte da luz e da escuridão no desenho. São princípios também filosóficos e que têm que ver com o Livro das Mutações. Fui

aprendendo e tive a minha primeira exposição individual em Macau, aos 17 anos. Fui a artista mais nova no território a ter uma exposição individual o que significou muito para mim e acabou por me levar a ganhar confiança no meu talento. Acabei por mudar de opção académica de biologia para arte. Saí do território depois do liceu quando fui para a Universidade Nacional de Taiwan e acabei por seguir os estudos com o mestrado em arte em Paris onde vivo até agora. No início da minha carreira tive algumas pequenas exposições. Em 2013 criei a série “Secret de Boudoir” que foi uma alavanca para o reconhecimento do meu trabalho e foram muitas as galerias interessadas. Foi com esta cooperação com as galerias que acabei por participar em várias feiras de arte internacionais como a “Arte Stage Singapore”, a “Art Taipei” e a “Art Central Hong Kong”. Os meus trabalhos têm também passado por Nova Iorque e por Miami. Depois de “Secret de Boudoir” criei “Feminine Landscape” e “Lumière Nocturne - La Foret”. Neste momento coopero também com várias

É tratada pela crítica como a “Fille Mysterieuse” que dá sentido, de alguma forma, ao Taoismo. Na minha última criação “Feminine Landscapes” o corpo feminino é tratado como se fosse uma paisagem com as suas diferentes camadas. A crítica de arte Myriam Dao classificou este trabalho como “de mulher misteriosa” em que o Taoismo ganha uma forma contemporânea. Penso que Myriam Dao integrou o Taoismo no meu trabalho por causa das imagens femininas desta filosofia. A figura da deusa é uma das personagens principais em muitas histórias taoistas. A diferença mais óbvia entre um deus e uma figura comum está na imortalidade. Os deuses conseguem sempre manter a vida e a juventude. A beleza e juventude são, nos contos taoistas, a grande tentação. Tal como eu, os contos taoistas gastam muita tinta na descrição da beleza imortal das deusas.

galerias em Miami, Taiwan, Macao, Paris e posso dizer que sou artista a tempo inteiro. Estudou arte tradicional e caligrafia. O seu trabalho é conhecido pela mistura que faz destas áreas com o que se pode chamar de arte contemporânea. O que é que vai buscar a cada género? Na minha abordagem artística, o uso e a interpretação da tinta-da-china é uma jornada diária. Procuro criar novas fronteiras usando técnicas tradicionais antes reservadas aos letrados, à classe intelectual oficial (cuja teoria deriva da dinastia Song), com a minha forma pessoal, feminina e misteriosa. Através do uso de tinta e papel chineses, e de imagens que sugerem fortemente o mundo feminino, questiono o poder masculino. Tradicionalmente, a tinta-da-china era um campo exclusivamente de homens. Foi a classe letrada chinesa que decidiu os temas da pintura com montanhas, rios e paisagens, como representação filosófica da harmonia entre a natureza e o homem. Através da arte, pretendiam ilustrar o país imperial. Estas obras-

“Através do uso de tinta e papel chineses, e de imagens que sugerem fortemente o mundo feminino, questiono o poder masculino.”

É conhecida pela sua abordagem feminista. Como é que a descreve? A minha perspectiva feminista está próxima do “Lipstick” no século XX. O chamado feminismo do batom é uma variedade de feminismo de terceira geração que procura abraçar conceitos tradicionais de feminilidade, incluindo o poder sexual das mulheres. Ao contrário das primeiras campanhas feministas que se concentraram nos direitos fundamentais das mulheres, e que começaram pela exigência do direi-


9 segunda-feira 21.8.2017 www.hojemacau.com.mo

to ao voto, o feminismo do batom procura perceber se as mulheres podem ser feministas sem ignorar ou negar a sua feminilidade, nomeadamente no que respeita à sexualidade. Durante a segunda geração de feminismo, as activistas concentraram-se unicamente na igualdade jurídica e social das mulheres e recusaram-se a “abraçar” a sua sexualidade. Algumas mulheres abominavam a ideia da sua feminilidade e muitas vezes assumiam características físicas masculinas. Queriam distanciar-se da imagem da mulher tida como normal e acabaram por criar uma série de estereótipos associados à imagem do que seria uma feminista. O feminismo do batom, por outro lado, dá importância os conceitos de feminilidade, sexualidade feminina emitida pelo corpo de uma mulher e à necessidade de assumir o sexo. O feminismo do batom também procura recuperar algumas palavras depreciativas e transformá-las em ferramentas de poder feminino. É o caso da palavra “vagabunda” no movimento “SlutWalk”. Esta é PUB

uma ideia que se desenvolveu como resposta às ideologias mais radicais do feminismo de segunda geração que deram relevo à “feminista feia” ou “feminista anti-sexo”. No fundo esta terceira geração de feminismo veio adoptar o que a segunda tinha condenado. O que é que as mulheres escondem, que a Hong Wai revela? Tradicionalmente, a pintura com tinta da China era apenas reservado aos homens, como já disse. O que tento fazer é “dobrar” esta ideologia masculina neste tipo de pintura. Quero trazer a imagem estereotipada para uma nova fronteira, a mais feminina e escondida. Por exemplo, na pintura tradicional chinesa, “Maids of honour”, está representada a virtude. No meu trabalho “Secret de Boudoir”, não desenho sequer as mulheres não pretendo descrever as virtudes de uma mulher (que de si transporta já para a prestação de um serviço, normalmente a homens), o que faço é um retorno à própria mulher, à sua vida privada, aos seus bens. Faço

isso com todo o detalhe, tanto na lingerie, como nos saltos altos, nos perfumes, etc. Trago a mulher contemporânea em tinta-da-china, uma técnica confinada durante séculos aos homens. Considera-se provocadora? Sim, e por isso que que o meu trabalho é divertido e tem significado. O que acha da arte feita em Macau? Temos bons artistas em Macau que têm de trabalhar muito para viverem das suas criações. Muitos deles estudaram na China Continental e trazem consigo muita energia e surpresa.

“Quero trazer a imagem estereotipada para uma nova fronteira, a mais feminina e escondida.”

Na sua opinião, o que poderia ser feito em Macau para promover mais os artistas locais? Os artistas precisam de duas coisas: um lugar para trabalhar onde possam criar e que seja acessível e estável e de galerias e colecionadores que promovam e vendam o trabalho feito. Para promover mais os artistas locais, primeiro há que ajudar os criadores a terem um local

de trabalho em que não se tenham de preocupar com o aumento das rendas. Em França, por exemplo, há uma lei que protege o inquilino e o aluguer só pode aumentar até cinco por cento por ano durante o contrato. Depois há que promover mais galerias profissionais que tenham as suas redes de coleccionadores que comprem arte local. Considera que o mundo ocidental está cada vez mais interessado no que é feito no oriente? Porquê? Sim, sinto o mundo ocidental cada vez mais interessado em arte oriental e o contrário também acontece. Esta era, a da globalização, gera a interdependência das actividades económicas e culturais do mundo. O extremo oriente já não é tão longe, o mundo ocidental quer entender cada vez mais o que lá se passa e a melhor maneira é através da sua arte e cultura. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com


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SCMP/XIAOMEI CHEN

AP

21.8.2017 segunda-feira

Hong Kong Reabertas praias afectadas por derrame de óleo

Ministério dos Negócios Estrangeiro chinês “Gostaríamos de cooperar com Espanha e outros membros da comunidade internacional, para reforçar a luta contra o terrorismo.”

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China condenou sexta-feira os atentados em Barcelona e Cambrils, endereçou as suas condolências às vítimas e familiares e ofereceu ajuda a Espanha e ao resto da comunidade internacional na luta contra o terrorismo. “A China condena fortemente os ataques”, destacou em conferência de imprensa, em Pequim, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiro chinês, Hua Chunying. Hua informou que o Presidente chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro, Li Keqiang, enviaram mensagens de condolências ao rei Felipe VI de Espanha e ao Presidente do Governo, Mariano Rajoy. O Governo chinês “opõe-se a todas as formas de terrorismo e apoia os esforços de Espanha para

ESPANHA | ATAQUES PEQUIM CONDENA ATENTADOS E OFERECE AJUDA

Combate global combatê-lo e salvaguardar a sua segurança e estabilidade”, disse Hua. “Gostaríamos de cooperar com Espanha e outros membros da comunidade internacional, para reforçar a luta contra o terrorismo”, acrescentou. A mesma fonte informou que o turista de Hong Kong que sofreu ferimentos ligeiros na sequência dos atentados já recebeu alta, após receber tratamento. Dois cidadãos de Taiwan, que sofreram ferimentos graves, continuam internados, e diplomatas chineses visitaram-nos

no hospital. De Macau chega a informação de que o gabinete de crises está também a acompanhar o caso.

MORTE NAS RAMBLAS

O atentado terrorista em Barcelona, na tarde de quinta-feira, provocou 13 mortos e cerca de uma centena de feridos, após uma furgoneta ter galgado um passeio e atropelado dezenas de pessoas, nas Ramblas, no centro da cidade. O ataque ocorreu pela 17:00 e foi já reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico, atra-

vés dos seus canais oficiais de comunicação. A polícia catalã deteve três suspeitos de envolvimento no ataque e um outro suposto autor do atentado foi encontrado morto em Sant Just Desvern, em Baix Llobregat, a 12 quilómetros de Barcelona, depois de uma troca de tiros com a polícia catalã, após ter forçado a passagem de um controlo policial e ter atropelado uma polícia.

HABITAÇÃO MERCADO IMOBILIÁRIO CONTINUOU A ABRANDAR EM JULHO

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mercado imobiliário chinês continuou a mostrar sinais de abrandamento, em Julho, com os preços da habitação a cair em 15 das 70 maiores cidades do país, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. Segundo a agência noticiosa oficial Xinhua, a desaceleração deve-se às “duras restrições à compra” de casa, impostas pelo Governo chinês nos últimos meses, visando combater a ‘bolha’ no sector. De acordo com dados oficiais, o preço das novas casas, em Julho, caiu ou permaneceu igual em 14 cidades, comparado ao mês anterior. Em Junho, e comparado a Maio, os preços caíram ou mantiveram-se em 10 cidades.

Em Pequim, Nanjing e Shenzhen, os preços da habitação residencial nova caiu em Julho, face ao mês anterior, enquanto em Xangai e Hangzhou mantiveram-se estáveis. Face ao mesmo período do ano passado, os preços das casas em Pequim e Xangai subiram 8,9% e 7,3%, em Julho, respectivamente. Segundo Liu Jiawei, analista do Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, “os dados demonstram uma notável estabilização dos preços, devido às políticas de controlo adoptadas pelo Governo”. A subida dos preços da habitação, especialmente nas principais cidades, gerou preocupação sobre uma ‘bolha’ no sector. No final do ano passado, dezenas de governos

locais adoptaram medidas para restringir a compra, como o aumento do valor do pagamento inicial na aquisição de um imóvel. Os empréstimos para habitação tornaram-se também mais difíceis de obter e as taxas de juro mais elevadas. As autoridades chinesas não publicam os preços médios do mercado imobiliário no conjunto do país, nem a percentagem global das oscilações, mas divulgam as variações dos preços para o mês e ano anteriores nas 70 maiores cidades do país. Os analistas consideram que continua a existir um desequilíbrio no sector imobiliário chinês, com uma forte procura nas principais cidades e um excesso de oferta nas de menor dimensão.

Todas as praias, afectadas no início do mês por um derrame de óleo de palma em Hong Kong, estão agora reabertas, depois de as autoridades terem levantado sexta-feira a interdição das duas praias que permaneciam encerradas. As autoridades declararam as praias de Hung Shing Yeh e Lo So Shing, na ilha de Lamma, seguras para uso público. No total tinham sido interditadas 13 praias depois de óleo de palma semissólido ter dado à costa em Hong Kong, na sequência da colisão entre dois navios, um dos quais transportava nove mil toneladas desse óleo, no estuário do Rio das Pérolas. Na sequência da colisão, foram derramadas nas águas cerca de mil toneladas de óleo de palma. As autoridades disseram que a qualidade da água nas praias de Lamma está adequada para banhos, mas advertiram que ainda há vestígios de óleo de palma na areia.

Brasil Investigação antidumping a frango importado

O ministério chinês do Comércio anunciou sextafeira em comunicado o inicio das investigações por possível dumping (venda abaixo do preço de custo) nas importações de frango para assar do Brasil. A investigação vai durar pelo menos um ano, com a possibilidade de ser prorrogada por mais 12 meses, assinala o comunicado. A China é o maior consumidor do frango brasileiro - 85% das importações chineses daquele tipo de carne são oriundas do Brasil. O Brasil substituiu os Estados Unidos como o maior fornecedor de frango à China, depois de o país asiático impor taxas antidumping contras as importações de frango norte-americano, em 2010.


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segunda-feira 21.8.2017

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APANHADO DE SURPRESA

Em Março, após concluir o ano lectivo, já resignado e de malas feitas, foi surpreendido: “Dois dias antes de sairmos de Taiwan fomos informados de que iriamos para a China”, conta. “Nada estava previsto”. Por detrás da reviravolta na vida do jovem são-tomense surge o agudizar das relações entre Taipé

BLUFF DE TRUMP ATIRA JOVEM SÃO-TOMENSE DE TAIPÉ PARA PEQUIM

Efeito borboleta REUTERS

OS 21 anos, o são-tomense Reginaldo Trindade foi apanhado pelo efeito borboleta: um bluff do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou-o de Taipé para Pequim, arrastado pelas correntes da geopolítica mundial. “Foi tudo da noite para o dia”, recorda à agência Lusa Trindade, que até Março passado estudava numa universidade de Taiwan, com uma bolsa de estudo oferecida pelo governo local. Taiwan, a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de o Partido Comunista (PCC) tomar o poder no continente, em 1949, assume-se como República da China, mas Pequim considera-a uma província chinesa e ameaça usar a força caso declare independência. São Tomé e Príncipe era um dos poucos países que mantinha relações diplomáticas com o território, mas em Dezembro passado anunciou o reconhecimento da República Popular da China, rompendo com Taiwan. Reginaldo Trindade, e dezenas de outros jovens são-tomenses que estudavam em Taiwan, foram imediatamente notificados de que as suas bolsas seriam canceladas. “O pânico instalou-se”, recorda. “Ligávamos para São Tomé e ninguém sabia dizer nada”. Reginaldo tinha aterrado em Taiwan dois anos e meio antes e era ali que via o seu futuro: “Já tinha a minha vida ali. Universidade, amigos, namorada.” No início, pensou em ficar. Mas, se o fizesse, “teria que contar com a ajuda da família. E isso era algo que queria evitar”.

Mas a audácia de Tsai teria de ser punida e Pequim jogou então com o seu peso económico para atrair São Tomé, num “óbvio castigo” para a líder taiwanesa, como referiu então um jornal do PCC.

FINAL FELIZ

Reginaldo aprendeu depressa que a política está em todo o lado, mas no seu caso garante que foi para o lado melhor. “Oportunidades é o que não falta na China”, conta. “Sinto que estou no lugar certo, na altura certa”.

Em Março, após concluir o ano lectivo, já resignado e de malas feitas, foi surpreendido: “Dois dias antes de sairmos de Taiwan fomos informados de que iriamos para a China. Nada estava previsto.”

e Pequim, em torno de um bluff do então Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Dezoito dias antes de São Tomé cortar relações diplomáticas com Taipé, a presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, telefonou a Trump a felicitá-lo pela vitória nas eleições, assumindo assim o estatuto de chefe de Estado, à revelia de Pequim, que não considera Taiwan uma entidade política soberana.

A chamada durou pouco mais de dez minutos, mas quebrou com um protocolo de quase 40 anos e gerou expectativas em Taipé de uma maior cooperação com Washington. Pequim protestou, mas Trump parecia decidido a fazer da questão de Taiwan uma moeda de troca para travar o que considera serem práticas comerciais injustas por parte da China.

Em entrevista à Fox News, poucos dias depois da conversa com Tsai, Trump afirmou: “Não sei porque temos de estar limitados à política `Uma só China` a menos que façamos um acordo com a China sobre outras coisas, incluindo o comércio”. Após assumir o cargo, contudo, o novo inquilino da Casa Branca voltou atrás e reafirmou o seu compromisso com aquela política, não voltando a tocar no assunto.

Antes de aterrar em Pequim, no entanto, o jovem são-tomense vinha receoso, imaginando o país como um lugar poluído e governado por um Estado repressivo, onde “a polícia andava sempre na rua a apanhar pessoas e fazer perguntas”. “Estava completamente enganado”, admite. E se alguém lhe perguntar hoje se deve ir para a China, responde: “Vem, não penses muito, é o lugar certo para vir”. Quanto ao que sente mais falta em Pequim, Reginaldo aponta sem hesitar: “Família, praia e comida”. Apesar de a capital chinesa ser “boa para ganhar dinheiro, falta qualidade de vida”, admite. “A população em São Tomé chega a ser quase o equivalente a um bairro em Pequim”, diz. “Em São Tomé vivia a dez minutos da praia. Aqui, acordo, abro a janela e vejo prédios e prédios”. Lusa

A

viúva do prémio Nobel chinês Liu Xiaobo, que morreu no mês passado, reapareceu num vídeo publicado na Internet, naquele que foi o seu primeiro sinal de vida após semanas em que era desconhecido o seu paradeiro. Liu Xia, de 56 anos, tinha sido vista pela última vez em imagens divulgadas a 15 de Julho pelas autoridades chinesas, que a mostravam

a assistir ao funeral do dissidente, que morreu dois dias antes. “Estou em convalescença no campo, fora de Pequim. Peço-vos que me dêem tempo para fazer o meu luto”, disse Liu no vídeo de um minuto publicado na sexta-feira no YouTube. Nas imagens, Liu Xia, que veste uma t-shirt e umas calças pretas, está sentada num sofá ao lado de uma

mesa baixa e tem um cigarro aceso na mão. “Voltarei a ver-vos um dia em melhor forma. Quando Xiaobo estava doente, os médicos fizeram tudo que podiam. Xiaobo via a vida e a morte de forma simples. Tenho de dar o meu melhor para me reajustar. No futuro, quando tiver melhorado em todos os aspectos, estarei novamente convosco”, afirma.

Liu Xiaobo morreu de cancro no dia 13 de Julho, aos 61 anos, num hospital chinês, semanas depois de ter sido colocado em liberdade condicional por motivos de saúde. Liu tinha sido condenado em 2009 a 11 anos de prisão por “subversão” por ter apelado a reformas democráticas na China. Após o funeral do marido, Liu Xia “foi mantida em isolamento pelas auto-

AP

VIÚVA DO NOBEL LIU XIAOBO REAPARECE NUM VÍDEO ridades chinesas num local desconhecido”, afirmou o advogado norte-americano do casal, Jared Genser, numa denúncia apresentada à ONU. As autoridades chinesas nunca reconheceram que ela estivesse privada de liberdade. Liu Xia esteve em prisão domiciliária no seu apartamento em Pequim desde que o marido obteve o Prémio Nobel da Paz em 2010.


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Puseram-me uma tampa – Todo o céu. Puseram-me uma tampa.

ZHANG GENG

Paulo Maia e Carmo tradução e ilustração

«Pushan Lunhua»

Tratado de Pintura do Junco das Montanhas

Passado algum tempo perceber-se-á porque é que se deve estar de acordo com a natureza, e depois de mais um tempo ainda, compreender-se-á o porquê das coisas serem como são. Quando isto for entendido, estar-se-á em condições de introduzir transformações, as variações individuais. E então, quando se dominarem essas transformações, embora continuem a existir montanhas, pedras, rios e árvores, ao olharem para elas os connoisseurs dirão: «Isto é arte, isto pertence ao Dao». O sucesso será completo. Porém estudantes actuais, logo que se iniciam na arte do pincel, pretendem ter alcançado o extraordinário. Não posso compreender este género de conversa. Iniciar-se Numa Escola de Pintura. As pessoas são diferentes no que se refere às suas disposições naturais, umas serão espertas e algumas são estúpidas, mas o modo como iniciam e o modo como vivem é o mesmo. O que é que se passa nas vidas destas pessoas que são obtusas e que não está certo? É a tendência de formar maus hábitos e de não ser simples1. De modo que aqueles que se iniciam numa escola não podem deixar de proceder com a maior cautela; se por uma vez perderem o pé, os maus hábitos penetrarão no tutano dos seus ossos. Eles até podem entender isso depois e tentar libertar-se desses hábitos, mas isso é realmente muito difícil. Cada diferente localidade tem as suas próprias tradições.

1 - Shitao (1642-1707), que ainda foi seu contemporâneo, escreve logo no início do seu tratado Huayulu, cuja edição mais antiga está datada de 1728: «Quando se distingue a Simplicidade Suprema, a regra estabelecese.» (Cap. I, O traço único do pincel) Trata-se da repetida premissa filosófica fundamental do Daoísmo, essa consciência da origem

primeira que os antigos demonstram nas suas obras. Laozi: «…Eu controlo (os dez mil seres) por meio da simplicidade elementar do Inominado. Na simplicidade elementar do Inominado não há lugar para os desejos; nessa ausência de desejo, tudo é paz, e o Universo desenrola-se sozinho na Rectidão.» (Cap. 37)


ARTES, LETRAS E IDEIAS 13

segunda-feira 21.8.2017

MATTHIAS STOM, YOUNG MAN READING BY CANDLELIGHT (PORMENOR)

O ofício dos ossos Valério Romão

Como fazer um escritor

C

“

OMO é que escreve” é uma das clássicas perguntas que fazem a um escritor. Com isso querem saber, por exemplo, se o sujeito escreve de roupão, como Balzac, ou se a inspiração acontece ao modo de uma possessão espírita pela qual um tipo revira os olhos e desata numa fúria criadora até que, acabando por sacudir a presença alheia, descobre ter escrito um conto. Ninguém ou quase ninguém pergunta “porque é que escreve?”, temendo porventura que o carácter aparentemente óbvio da pergunta desmotive o entrevistado. Na realidade, e ater-me-ei à minha experiência, a escrita começa pela leitura. E a leitura acontece porque uma criança sente uma perplexidade inexplicável perante o mundo e os elementos que o compõem. Os adultos, na maior parte das vezes incapazes de fazerem as perguntas que as crianças fazem, quanto mais as responderem, fingem não ouvir e, em surdina, confortam-se uns aos outros com a ideia de aquela curiosidade desconcertante ser apenas uma fase tardia da idade dos porquês.

As outras crianças não estão nem aí para as crises existenciais alheias e o pequeno, em défice de competências sociais desde sempre, ora é ignorado ora é alvo de chacota por parte dos seus colegas. É insultado nos corredores, fazem-no tropeçar quando se dirige para uma mesa solitária onde possa comer o almoço em paz e é, invariavelmente, o último a ser escolhido para qualquer tipo de actividade de grupo que envolva a criação de equipas. Na escola primária, é mais fácil ser gordo que geek. De certo modo, ser ignorado é reconfortante. Escusa-se travar diariamente

a luta pela aceitação. Os livros são compreensivos, pacientes, inteligíveis, ao contrário dos humanos, e têm a vantagem incomparável de os podermos interromper quando quisermos. Não se zangam, não pedem explicações. Estão ali, disponíveis e generosos, repletos de mundos muito maiores do que o mundo. São seguros. E salvam. Os livros salvam as crianças solitárias e estranhas. Quando as crianças crescem e desaguam aos berros na puberdade, os códigos sociais, por via da sexualidade e da sua gramática específica, complicam-se ainda

Os livros são compreensivos, pacientes, inteligíveis, ao contrário dos humanos, e têm a vantagem incomparável de os podermos interromper quando quisermos. Não se zangam, não pedem explicações. Estão ali, disponíveis e generosos, repletos de mundos muito maiores do que o mundo. São seguros. E salvam. Os livros salvam as crianças solitárias e estranhas

mais. O geek, com muita sorte, passa na maior parte das vezes despercebido. Se for bafejado por uma qualquer lotaria cósmica, é capaz de conhecer algumas miúdas e alguns miúdos introvertidos e socialmente incompetentes e com eles constituir um grupinho silencioso através do qual se evita, pelo menos, almoçar sempre sozinho. A literatura, como a maior parte das obsessões, germina não raramente de uma falha, de uma tangente com a sociedade. De um refúgio numa zona de conforto onde não existem as distrações da convivência. Mais do que uma escolha ditada por qualquer tipo de talento inato – sem com isso colocar em causa a existência do talento, embora seja assunto para outra vindima – a literatura aparece na vida para redimir a própria vida. Para lhe dar um sentido, algo que as pessoas e as suas convenções são incapazes de prover. Depois torna-se um vício e, quando um sujeito dá por si, já muito mais tarde, já se esqueceu de como e porque começou a escrever, já está mais ou menos instalado na vida, constituiu e desfez família, tem dois filhos que vê fim-de-semana sim, fim-de-semana não e dá entrevistas nas quais sublinha a sua precoce predisposição para as letras. O sujeito esqueceu-se de que só entrou naquelas águas porque fugia de um fogo e, mesmo assim e involuntariamente, continua a escrever livros que podem vir a salvar crianças solitárias e estranhas.


14 (f)utilidades TEMPO

POUCO

21.8.2017 segunda-feira

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje BLUE MONDAY JAZZ The windsor | 21h30

Diariamente

?

NUBLADO

MIN

28

MAX

34

HUM

60-90%

•

EURO

9.47

BAHT

EXPOSIÇÃO “RESTLESS NATURE”: TONG CHONG Taipa Village Art Space | Até 6/9 EXPOSIÇÃO “NEW ART PEOPLE PROJECT 2017: BOUNDLESS 4” Armazém do Boi | Até 13/8

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 103

C I N E M A

HITMAN’S BODYGUARD SALA 1

DORAEMON THE MOVIE 2017: NOBITA’S GREAT ADVENTURE IN THE ANTARTIC KACHI KOCHI [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Atsushi Takahashi 14.30

GINTAMA [B] FALADO EM JAPONÊS Fime de: Fukuda Yuuichi Com: Oguri Shun, Tsuyoshi Domoto, Suda Masaki 16.30, 19.00, 21.30 SALA 2

HITMAN’S BODYGUARD [C] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Patrick Hughes

Com: Ryan Reynolds, Samuel L.JAckson, Gary Oldman 14.30, 16.45, 19.15, 21.30

PROBLEMA 104

UM DOCUMENTÁRIO HOJE

SUDOKU

DE

EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8

Cineteatro

1.20

SEIS DA MANHÃ

EXPOSIÇÃO “A SIBÉRIA E O LAGO BAIKAL” DE ANDY LAO Find Art Macau

EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08

YUAN

PÊLO DO CÃO

EXPOSIÇÃO | “MY HANDS MOULD MY THOUGHTS” DE WU HIN LONG Macau Art Garden Até 27/8

EXPOSIÇÃO “CONSTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10

0.24

Devia ser proibido por lei acordar tão cedo. Estou-me nas tintas para metabolismos e ciclos de vida que se orientam pelo sol. Não venero Rá, não sou um girassol, sou uma pessoa. Tenho uma cama, almofada e vivo no reino da electricidade e das coisas para fazer à noite. Não preciso seguir a escravidão solar de viver de acordo com a luminosidade do céu. Quando me acontece acordar a estas obscenas horas, como hoje, sei que o dia que tenho pela frente se desenrolará surreal como um filme, como o sonho que me faltava ter. Prevejo momentos de paralisia total, lapsos de tempo em que resvalo para lugares onde não há raciocínio, ou estímulos sensoriais, onde flutuo num vácuo longíquo. Este será um dia submerso, cada passo terá de vencer atrito adicional, a gravidade será cruel e imperdoável, o sol um assassino indiferente os meus óculos escuros.Anseio por horizontalidade e a reposição das horas de cama perdidas, por um resto de dia dominado pela preguiça. Até lá, suspiros, cafeína e concentração arrancada a ferros. Seis da manhã é mais apropriado para ir para a cama, depois de se ver o sol nascer e antecipar a morte de uma manhã. Seis da manhã adequa-se a uma vida campestre, liderada pelo metabolismo da natureza, orientada pelas bucólicas tabelas do Borda d’Água. Eu começo três horas mais tarde, na melhor das hipóteses. João Luz

COMO SER WARREN BUFFETT | BRIAN OAKES E PETER KUNHARDT | 2017

Este é um documentário sobre o empresário que já foi o homem mais rico do mundo mas que continua a tomar o seu pequeno-almoço no Mcdonalds e a viver em Omaha, Nebraska, na casa que adquiriu quando começou a construir o seu império. Buffett, um dos grandes amigos de Bill Gates, fala da sua vida como empresário, da sua visão sobre o investimento e de como gosta de estar isolado a ler jornais e a pensar em números, sem esquecer os que mais precisam. Andreia Sofia Silva

SALA 3

THE EMOJI MOVIE [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Tony Leondis 14.30

THE BATTLESHIP ISLAND [C] FALADO EM COREANO E JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Ryoo Seung-Wan Com: Hwang Jung-Min So Ji-Sub Song Joong-Ki 16.30, 19.00, 21.30

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opinião 15

segunda-feira 21.8.2017

reencarnações JOÃO LUZ

KANGXI EMPEROR'S SOUTHERN INSPECTION TOUR, WUXI TO SUZHOU (PORMENOR)

P

ENSAM que não vejo o vosso ar de enfado? Os suspiros que se levantam do fundo da vossa altivez? O carregado desdém com que me olham? Esta também é a minha terra, ou pensam que esta bolha está isolada do mundo, a flutuar acima do planeta. Macau é o último calhau na enorme montanha chinesa, o parque temático plantado para o meu divertimento no delta da pérola. Entretenham-me na minha curta estadia, tragam-me iguarias, quimeras e mulheres. Será demais pedir um pouco de humildade hospitaleira no grande centro de turismo e lazer? Grande! Como o ego incha neste quarteirão minúsculo de território. Reconheçam-me por um instante. Eu sou o fundo das vossas raízes, aquele que vos sustenta e agarra ao solo, o pão na vossa mesa. Ando pelas ruas vagarosamente, liderando pelotões de turistas conduzidos pela autoridade de uma bandeira erguida. Sou todos vós há duas gerações atrás, a confirmação desconfortável de quem são, revelação e memória, génese e ser. Em cada espasmo cosmopolita vejo uma barriga a querer saltar da vestimenta para saudar o sol com afagos e carícias. A minha pança é a proa que rasga caminho, o Sol no centro do meu sistema planetário de entranhas a irradiar esperança, é prosperidade e sorte ao jeito de Buda. Como se tivesse um amuleto dentro de mim, uma jóia no meu cerne. Também as minhas secreções representam o que tenho para partilhar de mais íntimo. Ostento produção de muco sem me importar, ao contrário de ti, Macau, que escondes a tua natureza em gestos medidos, em polidez sobranceira que não engana ninguém, nem a ti própria. Podes mascarar a barbárie

Turista chinês

que te funda à vontade, eu sei, conheço-a, encarno-a, consigo ver nitidamente o ponto onde a crueza se disfarça de nobreza. Nos vossos passos lestos e elegantes prevejo a violência de um escarro que se quer impor aos trejeitos da teatral superioridade. Sou matéria combustível nesta fogueira de vaidades, ofereço-vos excedente orçamental, alicerces para uma vida desafogada, sou a fertilidade na vossa carteira, Bona Dea,

Sou o canteiro onde o ténue lótus está plantado, forneço a água e os nutrientes enlameados que o sustentam. Sou a vossa vida e poderia ser a vossa morte, se para aí estivesse virado

Ísis e Vénus. Este simulacro de cidade é alimentado por mim, pela perseguição que faço à ilusão da riqueza, pela esperança que despejo em mesas de fatalismo. Grito para que me ouçam em bom som, para que o volume assertivo se entranhe na vossa charada identitária. Marcho indolente pelas estreitas ruas de Macau como um soldado do exército Koi Kei. A minha mulher veste-se, aos 49 anos, com rendas cor-de-rosa e uma omnipresente Hello Kitty. Não se deixem enganar pela infantilidade da vestimenta, pois ela é um panzer de carne e nervo, uma fera na protecção do núcleo familiar. Ainda não tenho o gosto consumista limado pelo ocidente na vossa escala, mas esperem um pouco que eu chego lá porque quero chegar lá. Sou o representante de uma das grandes civilizações ancestrais e do país mais populoso do mundo, sou lenda e futuro avassalador, sou a conquista ponderada ao longo de séculos de paciência. Mas agora quero o meu rolex e o meu Jaguar, mereço-os inteiramente. Sou descendente de sucessivos impérios, o filho da derradeira revolução cultural, o último mandarim, a pluralidade que engole o mundo. Carrego às costas a determinação de um povo que anseia sair das trevas directamente para o trono, sou a conquista vindoura alicerçada em números, a maré alta que irá engolir o globo. Sou o canteiro onde o ténue lótus está plantado, forneço a água e os nutrientes enlameados que o sustentam. Sou a vossa vida e poderia ser a vossa morte, se para aí estivesse virado. Macau é a pequena e indefesa criança que embalo nos braços e à qual nada nego, que gatinha a meus pés, sempre sedenta a erigir birras exigentes. Sossega no meu regaço, Macau. Mas não me menosprezes, não te aches superior, não retires mais ilações das minhas vestes e maneiras sociais, não te percas demasiado na quimérica miragem do segundo sistema que te concedemos com misericórdia, por magnificência. Vem a mim e sente o terno abraço que te dou, sou o teu igual, farinha do mesmo saco, reencarnação cultural, o teu reflexo e tu és uma extensão de mim.

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CAMILO 150 PESSANHA ANOS

Poesia • Conferências Livros • Exposições

1-7 SETEMBRO 2017 Antigo Tribunal

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Hoje Macau 21 AGO 2017 #3879 by Jornal Hoje Macau - Issuu