MIMIHITAM
GCS
JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA
CONDECORAÇÕES
ESPECIAL RAEM 21 ANOS
PÁGINA 5
www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau
HOJE MACAU
MACAU FEITO POR MACAENSES
OS LOUROS DA TERRA
D2 | JAZZ
TRIBUTO A ARMANDINHO EVENTOS
hojemacau ANOS
‘‘
Macau está muito melhor Carson Fong nasceu no mesmo ano da RAEM. Com 21 anos e a frequentar o 3.º ano de Estudos Portugueses na UM, não tem dúvidas em afirmar que Macau vive uma situação muito mais confortável do que a que se fazia sentir aquando da transferência de soberania. “Estamos hoje mais ricos e mais prósperos.” Quanto à actualidade, deixa apenas um reparo. “Não é necessário forçar os jovens a aprenderem a amar o país.” RAEM 21 ANOS O olhar de Jorge Rangel
PUB
AMANHÃ
MOP$10
DOMINGO 20 DE DEZEMBRO DE 2020 • ANO XX • Nº4675
DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
ESPECIAL RAEM 21 ANOS
EDITORIAL
UM FUTURO MELHOR CARLOS MORAIS JOSÉ
2 publicidade
20.12.2020 domingo
domingo 20.12.2020
publicidade 3
4 publicidade
20.12.2020 domingo
política 5
domingo 20.12.2020
DISTINÇÕES FERNANDO CHUI SAI ON AGRACIADO COM MEDALHA DO GRANDE LÓTUS
Escrito nas estrelas
Tal como tem mandado a tradição, o ex-líder do Governo é agraciado com uma das distinções pelos serviços prestados. Também os ex-secretários Lionel Leong e Lau Si Io vão receber um medalha português da lista e vai receber a Medalha Lótus de Prata, a par da sucursal de Macau do Banco da China.
GCS
O
anterior Chefe do Executivo, Fernando Chui Sai On, e o médico Zhong Nanshan, especialista em doenças contagiosas, vão ser galardoados, por Ho Iat Seng, com a mais alta distinção da RAEM, a Medalha de Honra do Grande Lótus. A lista, revelada ontem, é dominada por entidades e funcionários públicos que fazem parte e deram a cara pelo mecanismo de resposta à pandemia. O juiz Viriato Lima é o único português na lista. Após ser anunciada a distinção, foi divulgada pelo Governo uma nota com a reacção de Chui Sai On. O ex-Chefe do Executivo afirmou “sentir-se muito honrado” com a medalha, agradeceu a Ho Iat Seng e considerou que a distinção pertence “a todos aqueles que contribuíram para a construção e estabilidade de Macau, incluindo o pessoal da Administração Pública e os diversos sectores da sociedade”. Chui Sai On agradeceu ainda ao Governo Central “por todo o apoio e confiança” desde que assumiu o cargo de secretário para os Assuntos Sociais e Cultura até ao final do mandato enquanto Chefe do Executivo, assim como deixou uma palavra aos residentes por “com o espírito amar a Pátria e amar Macau” apoiarem e colaborarem com os trabalhos do Governo. Além de Chui Sai On, foram ainda distinguidos dois ex-secretários, Lau Si Io e Lionel Leong, nestes casos com a Medalha Lótus de Ouro. A
MÉRITO DE SSM E MÉDICOS
Fernando Chui Sai On
mesma distinção foi ainda atribuída à Associação de Educação de Macau e ao ex-chefe dos Serviços de Polícia Unitários, Ma Io Kun. O juiz Viriato Lima, que se reformou no final de 2019 do Tribunal de Última Instância (TUI), é o único
O juiz Viriato Lima, que se reformou no final de 2019 do Tribunal de Última Instância (TUI), é o único português da lista
É nas medalhas de mérito que as entidades e funcionários públicos estão em maior destaque, principal os serviços e os profissionais de saúde. A direcção dos Serviços de Saúde vai ser distinguida com a medalha de Mérito Profissional, enquanto o director Lei Chin Ion vai receber a medalha de Mérito Altruístico. Alvis Lo, médico-adjunto da direcção do Hospital Conde São Januário, Lam Chong, director do Centro de Controlo de Prevenção da Doença, e Leong Iek Hou, coordenadora do Centro de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, vão receber a Medalha de Serviços Comunitários. Também as equipas de resgaste dos residentes de Macau retidos em Wuhan e no Cruzeiro Diamond Princess, no Japão constam na lista. Nestes casos vão receber o título honorífico de valor. A cerimónia para a entrega das medalhas e dos títulos honoríficos ainda não tem uma data marcada, mas segundo o comunicado do Governo vai decorrer na segunda quinzena de Janeiro. Segundo a tradição, as medalhas são entregues no Centro Cultural de Macau. João Santos Filipe Joaof@hojemacau.com
LISTA DE AGRACIADOS MEDALHAS DE HONRA • Grande Lótus Chui Sai On Fernando • Grande Lótus Zhong Nanshan • Lótus de Ouro Associação de Educação de Macau • Lótus de Ouro Lau Si Io • Lótus de Ouro Leong Vai Tac • Lótus de Ouro Ma Io Kun • Lótus de Prata Banco da China, Limitada, Sucursal de Macau • Lótus de Prata Viriato Manuel Pinheiro de Lima MEDALHAS DE MÉRITO • Mérito Profissional Serviços de Saúde • Mérito Industrial e Comercial Associação das Empresas Chinesas de Macau
União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau
• Mérito Turístico Associação das Agências de Turismo de Macau Associação das Agências de Viagens de Macau Associação de Indústria Turística de Macau • Mérito Cultural Livraria Seng Kwong, Limitada Kuan Kun Cheong Ng Wai Kin • Mérito Altruístico Lei Chin Ion
UE recomenda fim de restrições à RAEM Medida para de levantamento gradual vai depender de reciprocidade da RAEM
O
Conselho da União Europeia (UE) recomendou na quinta-feira aos Estados-membros que levantem gradualmente restrições de viagens a Macau e Hong Kong, mas apenas no caso de haver reciprocidade. Em comunicado, o Conselho informou ter actualizado a “lista de países [terceiros] para os quais as restrições de viagem devem ser retoma-
das”, como acordado pelos Estados-membros em Junho, quando foi adoptada uma recomendação sobre o levantamento gradual das restrições temporárias às viagens não essenciais para a UE em altura de pandemia de covid-19. Nesse âmbito, e “com base nos critérios e condições” estabelecidos nessa recomendação, a estrutura onde estão representados os países da União Europeia defendeu
que, a partir de quinta-feira, “os Estados-membros devem levantar gradualmente as restrições de viagem nas fronteiras externas” para oito países, nomeadamente para “as regiões administrativas especiais chinesas - Hong Kong e Macau -, sujeitas a confirmação de reciprocidade”. No que diz respeito a Macau, a entrada de pessoas com nacionalidade portuguesa, e sem o estatuto
de residente está proibida, como acontece com toda a gente, à excepção dos residentes com nacionalidade chinesa do Interior, Hong Kong e Taiwan.
OUTRAS ACTUALIZAÇÕES
Além da RAEM, é também nessa condição de reciprocidade que se mantém a China, ou seja, até o país asiático reabrir as suas fronteiras à UE. Incluindo a China,
são oito os países terceiros abrangidos, desde logo Austrália, Japão, Nova Zelândia, Ruanda, Singapura, Coreia do Sul e Tailândia. Face à lista anterior, divulgada no final de Outubro, o Conselho da UE deixa de fora o Uruguai, assim como países como Estados Unidos da América, Rússia, Índia e Brasil, assim como todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP)
MEDALHAS DE SERVIÇOS DISTINTOS • Medalha de Valor Centro de Prevenção e Controlo da Doença dos Serviços de Saúde Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Conde de São Januário dos Serviços de Saúde Gabinete de Gestão de Crises do Turismo Departamento de Fiscalização Alfandegária dos Postos Fronteiriços dos Serviços de Alfândega da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China Equipa de Ambulâncias para Doenças Infecciosas do Corpo de Bombeiros Departamento de Controlo Fronteiriço do Corpo de Polícia de Segurança Pública Departamento de Informações e Apoio da Polícia Judiciária • Medalha de Dedicação Departamento de Higiene Ambiental e Licenciamento do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) Departamento de Segurança Alimentar do Instituto para os Assuntos Municipais Fong Hou In • Medalha de Serviços Comunitários Lo Iek Long Lam Chong Leong Iek Hou TÍTULO HONORÍFICO DE VALOR • Equipa de missão de apoio no combate à pandemia em África • Equipa de resgate de residentes de Macau retidos na província de Hubei por meio de voo fretado a Wuhan • Equipa de resgate de residentes de Macau retidos no Cruzeiro “Diamond Princess” no Japão
e Timor-Leste, que aliás nunca fizeram parte desta ‘lista verde’, dada a situação epidemiológica. Para a elaboração desta lista de países terceiros aos quais é permitido que sejam retomadas as ligações para a Europa, foram determinados critérios como o número de casos de contágio nos últimos 14 dias - e por 100 mil habitantes - ser idêntico ou abaixo da média da UE, e haver estabilização ou redução de tendência de novos casos neste período em comparação com os 14 dias anteriores.
6 política
20.12.2020 domingo
OBRAS VIÁRIAS ANGELA LEONG QUER MELHOR COOPERAÇÃO INTERDEPARTAMENTAL
A
ADMINISTRAÇÃO DSE E SERVIÇOS DE APOIO DA SEDE DO GOVERNO VÃO SER REESTRUTURADOS
Está tudo fundido
A partir de 1 de Fevereiro, a Direcção dos Serviços de Economia passa a Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, e os Serviços de Apoio da Sede do Governo vão ser fundidos com o Gabinete de Protocolo, Relações Públicas e Assuntos Externos. O Conselho Executivo terminou a discussão sobre os dois projectos
A
Direcção dos Serviços de Economia (DSE) vai ser reestruturada e a partir de 1 de Fevereiro do próximo ano passa a incluir competências sobre o desenvolvimento de inovação tecnológica. O Conselho Executivo acabou de discutir o projecto do regulamento administrativo sobre a organização e funcionamento da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT) – que vai passar a ser o novo nome da DSE. As funções actuais do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia de Macau (FDCT) vão manter-se, a fim de apoiar a investigação científica e tecnológica. Um dos focos da DSEDT e da FDCT será a industrialização e a comercialização dos resultados de investigação científica. Com a reestruturação, vai ser criado um Departamento de Tecnologia, com duas divisões, responsável
pela coordenação e promoção da área tecnológica. A par disto, vão ser ajustadas “as competências do Departamento da Propriedade Intelectual, reforçando a gestão das patentes e aumentando as competências relativas aos serviços no âmbito das patentes de empresas tecnológicas, no sentido de se articular com o futuro desenvolvimento tecnológico de Macau”, diz a nota. Os serviços da Transferência Electrónica de Dados - Macau EDI Van, S.A. (TEDMEV), vão ser integrados na DSEDT para “elevar a eficiência administrativa”. Com a mudança, o Conselho Executivo pretende
reforçar os trabalhos de promoção e melhorar o sistema de declaração aduaneira electrónica.
ESTRUTURA SIMPLIFICADA
Seguindo as Linhas de Acção Governativa, os Serviços de Apoio da Sede do Governo – que têm mais de 360 trabalhadores – vão ser fundidos com o Gabinete de Protocolo, Relações Públicas e Assuntos Externos – que conta com mais de 50 funcionários. A estrutura resultante da fusão assume a designação de Direcção dos Serviços para os Assuntos da Sede do Governo (DSASG), e será “mais simplificada”, com três departamentos e oito subunidades. O Conselho
A estrutura resultante da fusão assume a designação de Direcção dos Serviços para os Assuntos da Sede do Governo (DSASG), e será “mais simplificada”, com três departamentos e oito subunidades
Executivo aponta que a iniciativa melhora o “aproveitamento dos recursos” e a “elevação da eficiência” no funcionamento dos serviços. Após a entrada em vigor de diploma, “os trabalhadores que actualmente exercem funções (...) serão transitados para a DSASG com a forma original de vínculo, mantendo-se inalteradas a carreira, a categoria, a antiguidade, as regalias e as situações jurídicas funcionais actualmente existentes”, diz uma nota do Conselho Executivo. A directora do Gabinete de Comunicação Social, Inês Chan, vai assumir o cargo de porta-voz do Governo, em regime de acumulação por inerência não remunerada. Este regulamento administrativo entra também em vigor em Fevereiro, pelo que a duração do Gabinete de Protocolo vai ser prorrogada por mais um mês, até ao final de Janeiro. Salomé Fernandes
info@hojemacau.com.mo
deputada Angela Leong defendeu que as obras viárias não devem incomodar a população. Segundo o jornal Ou Mun, a deputada apelou ao Governo para melhorar a cooperação interdepartamental, regular a coordenação das obras e a sua supervisão. Além de obras repetidas que resultaram em engarrafamentos, recordou que um relatório do Comissariado da Auditoria denunciou lacunas na supervisão de obras de ruas, com a descoberta de que 11 projectos não cumpriram critérios, resultando em fendas ou falhas de nivelamento. Além disso, Angela Leong recordou que o volume de obras vai aumentar 20 por centos no próximo ano, facto preocupantes tendo em conta a já complicada fluidez do trânsito. Por outro lado, a deputada elogiou o lado positivo da criação de emprego, aumento do PIB e melhoria das infra-estruturas. Assim, confia que a população e a sociedade entendem e apoiam a intenção do Executivo. Note-se que de acordo com um comunicado do Gabinete de Comunicação Social, André Cheong disse na sexta-feira que a solução para os problemas de escavações repetidas nas vias “não depende apenas do reforço dos contactos entre serviços”. O secretário para a Administração e Justiça explicou que o Governo planeia criar regulamentos administrativos para escavação das vias. Entre os temas a definir estão “em que situações de emergência, pode uma escavação ser repetida e esclarecer a divisão de trabalho e coordenação entre serviços”. Prevê-se que a elaboração dos regulamentos esteja concluída no próximo ano. N.W. e S.F.
Veterinários Projecto de lei remetido para o futuro
O Governo pretende avançar com um projecto de lei sobre veterinários. No entanto, como é prevista a entrega de muitos diplomas no próximo ano – também com eleições legislativas – o diploma está, para já, fora dos planos. “No futuro, assim que houver condições será apresentada”, indica uma nota do Gabinete de Comunicação Social que explica que André Cheong, secretário para a Administração e Justiça, reiterou que “no que se refere à protecção dos animais, o objectivo do Governo e das associações é unânime na criação de mais condições”. Entre os dias 10 e 20 de Janeiro, o governante vai acompanhar os representantes do Instituto para os Assuntos Municipais, num encontro com os representantes das associações de protecção de animais.
sociedade 7
domingo 20.12.2020
disso, a venda de instalações e equipamentos que durante este período rendeu no ano passado 2,1 mil milhões, representou agora apenas 173 milhões de patacas. Para o orçamento do próximo ano, o Governo prevê receitas na ordem das 95 mil milhões de patacas, e o recurso a mais de 26 mil milhões da reserva extraordinária. Na nota justificativa, o Executivo antecipa que o impacto provocado pela pandemia leve a economia da RAEM a continuar “crítica”, estimando-se que o imposto especial sobre o jogo renda 45,5 mil milhões.
Ponte Nobre de Carvalho Homem resgatado após saltar para a água
Um homem saltou da Ponte Governador Nobre de Carvalho, no Sábado, e foi resgatado, com vida, por uma equipa de bombeiros e agentes da Alfândega. Segundo o jornal Ou Mun, o Corpo de Bombeiros recebeu um alerta às 16h05 que um jovem queria saltar da ponte, por isso foram enviadas para o local as equipas de salvamento. Quando as autoridades chegaram à ponte, o homem de 26 anos estava sentado no gradeamento. Após as equipas de salvamento terem falado com o jovem, este acabou por saltar, tendo sido retirado do mar momentos depois num estado de semiconsciência. Após o resgate, o residente foi levado para o hospital e, segundo um amigo próximo, na origem da acção terão estados problemas amorosos. Segundo as recomendações do Instituto de Acção Social, em caso de necessidade por problemas emocionais deve contactar a linha de aconselhamento, através do número 28261126.
Português Jornal Ou Mun e IPM com aplicação bilingue
O jornal Macao Daily News e o Instituto Politécnico de Macau lançaram uma aplicação móvel bilingue, em chinês e português, com notícias sobre as relações entre a China, Macau e os países lusófonos. A aplicação móvel “Aprenda com Notícias CH-PT” fornece também conteúdos de aprendizagem para estudantes de português em Macau, na China e em outros países, bem como para estudantes chineses em países de língua portuguesa, indicou o Macao Daily News, em língua chinesa. De acordo com o diário, a aplicação foi criada através da tecnologia de tradução automática, “combinada com a rica experiência do Instituto nos campos da língua chinesa e portuguesa e do ensino de tradução”.
Inflação Taxa fixa-se em 1,1 % em Novembro
A taxa de inflação em Macau fixou-se em 1,1 por cento nos 12 meses terminados em Novembro, relativamente a igual período no ano passado, indicam dados oficiais divulgados na sexta-feira. A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC) informou que a subida do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) geral médio deveu-se, sobretudo, aos preços da saúde (aumento de 4,19 por cento), da educação (3,93 por cento) e dos produtos alimentares e bebidas não alcoólicas (3,77 por cento). Em Outubro, o IPC desceu 0,88 por cento em relação ao mesmo mês de 2019, devido principalmente à descida dos preços “das excursões; dos serviços de telecomunicações; da electricidade; da gasolina; da carne de porco fresca, bem como do vestuário e calçado” indicou a DSEC, em comunicado.
EXPECTATIVA E REALIDADE
Há um ano as receitas correntes ascendiam a 121 mil milhões de patacas, um número que desceu agora para cerca de 42,1 mil milhões
JOGO RECEITAS DE IMPOSTOS CAEM PARA 27 MIL MILHÕES DE PATACAS
Onze meses de azar As receitas correntes dos primeiros onze meses do ano desceram para cerca de 42,1 mil milhões, com os impostos do jogo a permitirem ao Governo arrecadar 27,18 mil milhões de patacas
A
TÉ Novembro, o Governo arrecadou 27,18 mil milhões de patacas com impostos sobre o jogo – menos 76,9 mil milhões em comparação com o mesmo período do ano passado. É
o que revelam os dados do relatório sobre a execução orçamental publicado pela Direcção dos Serviços de Finanças. Há um ano, as receitas correntes ascendiam a 121 mil milhões de patacas, um número que desceu agora
para cerca de 42,1 mil milhões. Além do sector do jogo, de entre outras fontes de receitas correntes, o Governo recolheu 9,5 mil milhões em impostos directos, cerca de um milhão em taxas ou multas, bem como 270 milhões em
concessões de serviços de utilidade pública. As receitas totais fixaram-se em 86,86 mil milhões. No entanto, é preciso recordar que o Governo precisou de recorrer a várias injecções de capital da reserva orçamental. Além
Em sentido inverso ao das receitas, as despesas correntes passaram de cerca de 57,9 mil milhões nos primeiros onze meses do ano passado, para 69,9 mil milhões de patacas em período idêntico neste ano. A mudança mais significativa deu-se ao nível das transferências, apoios e abonos, que ascenderam a 50,7 mil milhões. A taxa de execução das despesas correntes chegou a 75 por cento. No entanto, o Plano de Investimentos e Despesas da Administração (PIDDA), que estava orçamentado em 13,7 mil milhões até Novembro, teve uma execução de 57,1 por cento. Recorde-se que no mês passado, foi noticiado que 51 projectos de obras públicas estavam por concretizar devido à pandemia. Na altura, o presidente da Comissão de Acompanhamento dos Assuntos de Finanças Públicas da Assembleia Legislativa, Mak Soi Kun, disse que o Governo acreditava que ia recuperar o tempo perdido sem pagamentos adicionais pelos atrasos se deverem a “motivos de força maior”. Salomé Fernandes
info@hojemacau.com.mo
UNIVERSIDADE DE MACAU CRIADA PÁGINA DE PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS
A
Universidade de Macau (UM) anunciou na sexta-feira a criação de uma página na Internet para promover “a aprendizagem da língua portuguesa e as culturas chinesa e portuguesa”. “Os artigos publicados na página bilingue chinês-português não só acompanham de perto as actividades realizadas pelo CPC
[Centro de Ensino e Formação Bilingue Chinês-Português], mas também apresentarão, entre outras áreas, a cultura, a história e a arte da China e dos países de língua portuguesa através das publicações que abrangem temas e questões diversas como histórias clássicas chinesas e portuguesas, poetas chineses e portugueses, os
24 Períodos Solares Chineses, vinho do porto e chá chinês, azulejaria e porcelana, fado, Shi Jing (Clássico da Poesia), entre muitos outros”, pode ler-se no comunicado da Universidade de Macau. Para a UM, as publicações na página bilingue chinês-português constituem uma boa
base pedagógica para os alunos da licenciatura e dos cursos de pós-graduação desenvolverem competências nas línguas chinesa e portuguesa, nomeadamente nas áreas dos usos estéticos e lúdicos, que pressupõem, muito frequentemente, conhecimento de usos idiomáticos da língua e dos valores conotativos.
8 especial raem
20.12.2020 domingo
“Macau é um bom sítio Carson Fong, estudante do 3º ano da licenciatura de Estudos Portugueses da Universidade de Macau, nasceu no mesmo ano do estabelecimento da RAEM. Apesar de tratar Macau por “tu” e de considerar inegável a evolução desde a transição, aponta que, para os jovens, os tempos são de contenção devido à pandemia e que amar o país é uma matéria que não deve ser forçada A RAEM foi estabelecida em 1999. Como é ter 21 anos? Nasci em Macau, a 29 de Julho de 1999. Penso que ter 21 anos tem um grande significado, porque já sou adulto e Macau está muito melhor desde o dia da transferência de Portugal para a China, especialmente naquilo que é possível ver, ao nível da vida das pessoas, sinto isso também no meu dia-a-dia. Em termos económicos há uma grande diferença. Após a transferência, começaram a vir cada vez mais turistas a Macau passar férias e, por isso, o Governo foi enriquecendo ao longo dos anos e isso trouxe vantagens para os residentes. Inclusivamente, o Governo atribui anualmente um cheque de 10 mil patacas a todos os residentes, o que, na minha opinião, ajuda muito. Por isso, considero que a evolução é visível. Estamos hoje mais ricos e prósperos. Tal como um adulto de 21 anos, considera que Macau atingiu também a sua maioridade e segue hoje o seu próprio caminho? Definitivamente, Macau é um bom sítio para se viver, mas não acho que seja dona do seu destino porque após a transferência passou a responder ao Governo Central. É inevitável considerar que hoje, Macau é melhor em todos os aspectos mas, em termos de opinião e participação pública, e apesar de tudo isso existir e estar assegurado, a intervenção das pessoas é reduzida. Muitas vezes, considero que as pessoas não vocalizam opiniões negativas acerca do Governo e pensam muito antes de falar. Como exemplo disso, podemos olhar para a questão do Metro Ligeiro. Foi um projecto que custou muito dinheiro e com o qual muitas pessoas estão descontentes, mas pura e simplesmente é um assunto sobre
o qual não se atrevem a falar ou a mostrar desagrado. Como era Macau durante a sua infância? Nasci em Macau, mas, porque os meus pais decidiram ir para o Interior da China por motivos profissionais, a minha infância e os primeiros anos escolares, foram passados em Foshan, em Guangdong. Regressei a Macau com 12 anos e, nesse momento, a minha primeira impressão foi que Macau era uma cidade com uma mistura incrível de culturas, incluindo a portuguesa e a chinesa. Isso fez-me sentir que Macau era o melhor lugar para mim. Desde que voltei, já cá estou há 10 anos e considero Macau a minha casa.
“Muitas pessoas estão descontentes [com o Metro Ligeiro] mas (…) não se atrevem a falar ou a mostrar desagrado.” De que forma encara essa mistura de culturas? É muito fácil encontrar as marcas deixadas pelos portugueses em Macau, por exemplo, ao nível da arquitectura, da gastronomia ou da própria língua que está em todo o lado. Considero que a mistura de culturas que encontramos aqui contribui muito para a minha aprendizagem e para conhecer factos sobre Portugal que desconhecia totalmente, antes de voltar para Macau. Além disso, aprendi que gosto muito da comida portuguesa. Porque decidiu estudar português?
Quando era criança sempre me interessei em aprender outras línguas, como o inglês. E por isso, estando aqui, com todas as oportunidades inerentes a isso, decidi aprender português. A língua portuguesa é muito importante para Macau. Para além de ser um dos idiomas oficiais, se realmente formos capazes de falar português é possível ter uma carreira atraente a nível financeiro. Podemos ver isso com os tradutores e outras profissões que requerem a utilização do português. Além disso, também me interesso muito pela própria cultura e o português abre-me portas para o "mundo" dos países de língua portuguesa. Gostava muito de fazer uma viagem a todos eles.
HOJE MACAU
CARSON FONG RESIDENTE DE MACAU COM 21 ANOS
De que forma os seus pais descrevem Macau antes de 1999? Os meus pais contam-me que, antes da transferência, Macau era um território muito pobre, onde havia muito crime, e que o Governo da altura tinha poucos recursos e pouco controlo da situação. Antes da transferência havia muito mais portugueses em Macau, mas, na verdade, havia pouco contacto entre portugueses e chineses devido à barreira linguística. A ligação feita séculos antes entre o Ocidente e o Oriente através dos portugueses é muito importante. Portugal foi o primeiro país ocidental a chegar e a estabelecer contactos com o Oriente e trouxe consigo inúmeras aprendizagens, costumes e artefactos pioneiros na Ásia que, por sua vez, através de Portugal, conseguiu também transportar um pouco de si para o Ocidente. Considera que em Macau as pessoas têm uma vida fácil? Acho que sim. Além de ser fácil ter emprego, é possível obter facilmente muito dinheiro e apoios por parte do Governo e, no final, as pessoas acabam por ter dinheiro para fazer aquilo que gostam. Claro que este ano, as coisas mudaram devido à pandemia. Podemos ver que a taxa de desemprego, por exemplo, tem subido ao longo do ano. Muitas pessoas perderam o trabalho e, segundo as notícias, o número de suicídios também aumentou muito, devido aos efeitos colaterais da pandemia. Estamos a viver tempos difíceis. Mas falando também de mim próprio, para as pessoas que não precisam de trabalhar, como um estudante, esse dinheiro que obtemos do Governo contribui
também para nos tornarmos mais preguiçosos. Gastamos constantemente dinheiro em coisas caras que não precisamos, eu incluído. Por exemplo, gasto muito dinheiro em refeições. Acho que não é uma boa ideia, porque este ano é um ano muito duro e acho que devo poupar mais dinheiro, até porque a situação da pandemia ainda não está controlada e não sabemos como vai ser em 2021. Quando terminar os estudos receia ter dificuldades em encontrar trabalho? Na verdade, os meus pais insistem que eu continue a estudar após concluir a licenciatura e que vá inclusivamente para Portugal prosseguir os meus estudos. Eles não querem que eu comece já a trabalhar. Pes-
soalmente estou preocupado em aprender a falar bem português. Sente que a compra de casa é um problema para os jovens de Macau? Sim, os jovens de Macau estão preocupados com a possibilidade de não conseguirem comprar casa no futuro. Os preços são elevados e a maioria não tem capacidade financeira para suportar essa com-
“Gastamos constantemente dinheiro em coisas caras que não precisamos, eu incluído.”
21
domingo 20.12.2020
o para se viver”
pra. Por outro lado, é possível participar nos concursos de habitação pública do Governo para comprar uma casa mais barata. No entanto, penso que, mesmo aquelas pessoas que compravam casa para ter retorno com uma venda futura têm, hoje em dia, muito mais dificuldades em adquirir casas. Como encara a indústria do jogo em Macau? Vê com bons olhos que a cidade seja, muitas vezes, apenas reconhecida por isso? Acho que tem aspectos bons e maus. Do lado positivo, os casinos oferecem muitas oportunidades de trabalho para os residentes e, atingindo posições mais elevadas ao nível da gestão é possível ganhar muito dinheiro. Do ponto de vista negativo, as actividades relaciona-
das com o jogo são, muitas vezes fonte de vários crimes, mas também a razão pelas quais muitas pessoas acabam sem dinheiro. Há muitas pessoas que ficam sem nada depois de apostar tudo nos casinos. Por outro lado, lá está, eu mesmo cheguei a ter um trabalho temporário num casino, que me ajudou a ganhar algum dinheiro. Como será Macau daqui a 21 anos? Vão existir ainda mais casinos e as pessoas serão ainda mais prósperas. Os turistas continuarão a vir e as ligações culturais vão ser ainda maiores. Acho que vão existir mais oportunidades de negócio e de emprego devido à diversificação dos cargos existentes. Por outro lado, como disse antes, penso que o à vontade para dizer o que se
“Os jovens de Macau estão preocupados com a possibilidade de não conseguirem comprar casa.” pensa, sobretudo quando se trata de aspectos negativos, não será maior. O Governo oferece tanto dinheiro que as pessoas não se atrevem a dizer nada. Tem-se assistido nos últimos tempos, ao reforço do ensino patriótico. Na sua opinião como estudante, de que forma os jovens encaram esta questão? A China tem duas regiões administrativas especiais que são Macau e
anos 9
editorial CARLOS MORAIS JOSÉ
UM MELHOR FUTURO
Hong Kong e, como disse, muitas pessoas aqui não gostam de falar apesar de terem opinião sobre os assuntos. Alguns amigos meus não gostam do Governo, mas não o dizem abertamente, porque Macau é controlado pelo Governo Central e têm medo. Acho que toda a gente tem o direito de falar e dar a sua opinião. Na minha opinião não é necessário que o Governo force os jovens a aprender sobre estes temas, como amar o país. Se amamos o país é porque amamos o país. Porque nos forçam a amá-lo? Pedro Arede
pedro.arede.hojemacau@gmail.com
A RAEM faz hoje o seu vigésimo primeiro aniversário. 2020 foi um annus horribilis, devido ao aparecimento da pandemia, que paralisou Macau e a sua economia, porque esta cidade muito depende da livre circulação de pessoas. Por isso, o actual Chefe do Executivo, no seu primeiro ano, teve de se defrontar com este problema, ao invés de colocar em marcha as medidas que indiciariam os propósitos da sua governação. Também por esta razão, é com alguma expectativa que aguardamos pelo seu discurso de hoje. Todos compreendemos já que estamos perante um Governo que alterou, em muito, o estilo a que o anterior nos habituara. Por um lado, as mensagens passam muito mais claramente; por outro, mostrou-se decisivo na forma como nos protegeu da pandemia, apesar de tal ter afectado muitos dos interesses instalados e que nos habituáramos a ver sobrepostos ao próprio bem-estar da população. Macau conheceu nestas duas décadas um brutal crescimento económico. Mas, infelizmente, nem sempre esse movimento foi acompanhado por uma condicente distribuição da riqueza e, sobretudo, por um melhoramento significativo da qualidade de vida da população. A nossa cidade confronta-se com problemas de diversificação económica, habitação, trânsito, saúde, educação, cultura e meio ambiente. Estamos atrasados em relação a muitas outras cidades da República Popular da China, apesar de dispormos de um rendimento per capita muitíssimo superior. Logo, há que concluir que faltou alguma capacidade de liderança e de priorização do que realmente é importante, a saber, o bem-estar da população, sem excepções. O que não tem faltado a Macau é o apoio incondicional do Governo Central, fundamental para a manutenção da harmonia e da paz social, bem como para o fortalecimento económico da região. Tudo indica que, sob a liderança de Ho Iat Seng, poderá existir um desenvolvimento e aprofundamento do princípio “um país, dois sistemas”, que constitui a base do funcionamento da RAEM, em termos económicos, jurídicos, civis e políticos. Nesta fase, mais importante que as questões eleitorais, que entendemos poderem constituir uma ameaça real para o equilíbrio da RAEM, será a transparência democrática, uma justa distribuição da riqueza comum, o acesso às decisões que, definitivamente, deverão ser tomadas em favor dos interesses da maioria e não somente de alguns, cujo enriquecimento excessivo tem colocado entraves a um real desenvolvimento. É por isso que aguardamos com alguma expectativa o discurso de Ho Iat Seng, no sentido de nele recolhermos pistas que nos permitam compreender por que via seguirá Macau na próxima década. Ou seja, se realmente estamos perante um virar de página ou se ficaremos mais uma década a marcar passo, enquanto o mundo à nossa volta, nomeadamente o país do qual a RAEM faz parte, parece caminhar decisivamente na direcção de um melhor futuro.
10 especial raem
20.12.2020 domingo
“Quem fez Macau foram os macaenses” JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA JORNALISTA
e estamos perante um sucesso histórico assinalável. Houve, no entanto, muitas polémicas associadas à transição. A criação da Fundação Jorge Álvares foi uma delas. 21 anos depois, permanece ainda um mistério ou está tudo esclarecido? Acho que as coisas já são conhecidas no essencial. Os principais sujeitos históricos já escreveram as suas memórias, e sei que, neste momento, há outras biografias que estão a ser feitas. Há sempre pequenos pormenores e mistérios e alguns deles ficarão para todo o sempre. Mas devo dizer que a partir da transferência deixei de seguir Macau com a atenção com que anteriormente seguia.
Rocha Vieira foi um bom último Governador? Foi e não foi… Rocha Vieira foi nomeado para pôr ordem na casa. Os dois anteriores governadores, Pinto Machado e Carlos Melancia, não tinham conseguido gerir o território de uma forma pacífica e politicamente equilibrada, e ainda por cima com casos conhecidos na área da corrupção. Macau estava na ordem do dia pelas piores razões. O Presidente Mário Soares decidiu alterar a sua linha essencial em relação a Macau, que era, contrariando quase toda a tradição histórica, ter à frente do território governadores civis – no sentido de não militares. Rocha Vieira pôs “ordem” na casa, deixou de se falar de Macau na imprensa portuguesa e passou a gerir Macau de uma forma muito própria, centralizada e sem fugas de informação. Incluindo com alguns laivos de autoritarismo, e foi criticado por isso. Depois, havia que negociar com a China, e isso era naturalmente muito difícil. Tinha de ser uma negociação a uma só voz, sem grandes divergências da parte de Portugal, e Rocha Vieira conseguiu gerir internamente o território e externamente na sua relação com a China. Depois, na fase final,
“Acho que Macau caiu completamente no esquecimento... A opinião pública ignora o que acontece em Macau e, no essencial, o poder político também.”
CONGRESSO DOS JORNALISTAS PORTUGUESES
Poucos jornalistas portugueses conhecem a Macau do período pré-1999 como José Pedro Castanheira. Repórter de investigação, escreveu vários livros sobre a história do território, sobretudo a partir do motim “1,2,3” e fez a cobertura da cerimónia da transferência de soberania. Ao HM, recorda a rapidez com que os símbolos portugueses foram apagados a seguir ao evento e as tensões entre Jorge Sampaio e Rocha Vieira
Como é que Macau surge na sua vida profissional? Já tinha ido a Macau várias vezes [antes da cerimónia da transferência de soberania]. Em 1999 fui com bastante mais tempo, estive cerca de quatro meses, para escrever um livro, “Os Últimos Cem Dias do Império”. A primeira vez que fui a Macau foi em representação do Sindicato dos Jornalistas nos anos 80. Estava no semanário O Jornal, que já não existe, e decidi ficar mais uns dias para escrever uma reportagem. A partir daí, passei a ir com alguma regularidade a Macau e sempre em serviço para o jornal. A partir de 1989 passou a ser o Expresso. Até que em 1996 fui para fazer uma reportagem na área em que já me estava a especializar, a área da investigação histórica, a propósito dos 30 anos do 1,2,3, e que depois seria transformada em livro. O 1,2,3 era um episódio completamente desconhecido e sobre o qual havia um silêncio enorme. Falei mesmo de um tabu, era um assunto tabu para as partes chinesa, portuguesa e macaense. Havia um consenso generalizado das três comunidades no sentido de não falar do caso. Como descreve o clima que se vivia nos anos anteriores à transição? Havia um sentimento de medo? Preferiria as palavras dúvida e receio. A transferência da Administração era um grande ponto de interrogação, sobretudo porque tinha havido há pouco tempo os acontecimentos de Tiananmen. Tinha havido a Revolução Cultural, que marcou muito as relações entre a China e o Ocidente, e em particular com Macau e Hong Kong. Havia um ambiente de muita dúvida. Claro que a transição de Macau foi decisivamente influenciada pela transição de Hong Kong, onde as coisas não correram muito bem. Mas, no essencial, o modelo foi transposto para Macau. As coisas acabaram por correr muito bem, muito melhor do que se esperaria,
quando houve uma mudança na presidência da República, com a eleição de Jorge Sampaio, as coisas mudaram bastante. Houve algumas desavenças entre Sampaio e Rocha Vieira. Jorge Sampaio teve uma forma de abordar a questão de Macau e o relacionamento com o Governador muito diferente de Mário
21
domingo 20.12.2020
Soares. Isso depois levou a alguma agitação, e isso é conhecido e escrevi longamente sobre isso na biografia de Sampaio. Houve alguns problemas e a Fundação Jorge Álvares foi um deles, mas houve outros problemas relacionados com a transição, em particular a questão da entrada das tropas chinesas em Macau, quando e onde entrariam. Isso provocou grande discussão. Mas isso ficou bem resolvido, e se há assunto do qual a diplomacia portuguesa se pode orgulhar é a forma como Macau passou para a República Popular da China. Mas escreveu no Expresso que Macau levou Sampaio ao hospital. Isso passou-se em 1996, logo após a eleição de Sampaio para a presidência. Uma das primeiras decisões de fundo que ele teve de tomar foi reconduzir, ou não, o Governador de Macau. Havia uma grande pressão no sentido de
“Uma coisa curiosa foi a rapidez com que o novo poder chinês decidiu remover todos os sinais da antiga soberania portuguesa.” o substituir, e essa pressão vinha de Macau e também de vários sectores políticos de Portugal, em particular do Partido Socialista que na altura estava no Governo. A primeira decisão de fundo que Sampaio tomou foi essa e manteve Rocha Vieira, mas com uma série de condições. Uma delas era que Rocha Vieira teria de apresentar de uma forma regular contas políticas ao Presidente da República sobre a sua gestão do território. E foi numa importante e tensa reunião em Belém que o Presidente Sampaio teve um problema do foro cardíaco que o
obrigou a ser operado mais tarde. Mas isso é revelador da tensão que o caso Macau suscitava na política portuguesa. O que acha mais fascinante na história de Macau, 21 anos depois? A importância crucial que teve, durante séculos, uma pequeníssima comunidade que é a macaense. Foi um grupo que se foi criando e na prática eram os intermediários entre portugueses e chineses, que viveram quase sempre de costas viradas uns para os outros. Os portugueses nunca aprenderam chinês e a China vice-versa – só mais tarde é que viria a apostar no português, não por causa de Portugal, mas sim da lusofonia. Essa comunidade foi ganhando a sua importância, mas é evidente que, hoje em dia, tem menos relevo porque os macaenses já não são tão necessários como foram. As especificidades de Macau foram muito importantes em alguns
“Os macaenses nunca foram devidamente valorizados, pelo menos do ponto de vista político.” momentos do século XX, em especial no pós II Guerra Mundial e na Guerra Civil chinesa, quando Macau passou a ser uma terra de refugiados. Acha que a comunidade macaense foi devidamente ouvida neste processo de transição? Não. Os macaenses nunca foram devidamente valorizados, pelo menos do ponto de vista político. Basta ver o número ridiculamente baixo de macaenses que foram membros dos vários governos de Macau, o número muito baixo de macaenses que foram deputados
anos 11
à Assembleia Legislativa, o número quase nulo de macaenses que foram magistrados. Infelizmente, não lhes foi dado o valor e a representação a que tinham direito. Macau só teria a ganhar se fosse dado mais espaço e valor aos macaenses. É lamentável que assim tenha sido. Sente que, 21 anos depois, Portugal dá atenção a Macau por causa da relação que tem com a China? Ou já teria caído no esquecimento? Acho que Macau caiu completamente no esquecimento. Mas Portugal ainda tem obrigações em relação a Macau. Sim, certamente que tem. Mas Macau é uma região autónoma da China. Macau cresceu e mudou muito, embora eu não tenha conhecimentos e informação suficientes para falar da Macau de hoje. Uma das coisas que mudou foi o interesse da opinião pública e do poder político portugueses. A opinião pública ignora o que acontece em Macau e, no essencial, o poder político também. É pena porque é um território com muita história, mas também com presente e futuro. Há muita coisa que poderia passar por Macau do ponto de vista económico. Macau poderia servir de porta de entrada para a China, e penso que não é. Isso acontece ou por falta de iniciativa empresarial, ou por ausência de motivação e empenho do poder político – ou pelas duas razões conjugadas. Recorda-se de algum percalço curioso da cerimónia da transição? Houve dois momentos muito diferentes. Houve a festa portuguesa, um espectáculo tipicamente português, a que assisti com muita emoção. Levei comigo a minha família e o meu filho mais velho até participou nessa festa. Horas depois foi a cerimónia oficial, com todas as características chinesas, e que foi completamente oposta à festa portuguesa. A frieza, a disciplina, o planeamento, a falta de alma… Depois, uma coisa curiosa foi a extrema rapidez com que o novo poder chinês decidiu remover todos os sinais da antiga soberania portuguesa. Bandeiras, emblemas, em poucas horas os símbolos portugueses foram apagados. Mas, felizmente, ficaram alguns monumentos que mostram que Macau não foi só chinesa e foi, sobretudo, uma terra de macaenses. Quem fez Macau foram, sobretudo, os macaenses. Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
12 publicidade
20.12.2020 domingo
domingo 20.12.2020
publicidade 13
14 eventos
20.12.2020 domingo
dele como um grande músico que sempre demonstrou ser”. “Todas as pessoas com quem falamos sobre o Armando têm um carinho muito especial e sabem quem ele é. Aliás, ele é inclusivamente um músico famoso fora de Macau e bastante conhecido em toda a Ásia”, acrescentou.
“O Armando, como é brasileiro, tem uma maneira de tocar que é diferente dos americanos ou dos europeus e isso faz com que a música tenha uma outra forma.” JOSÉ CHAN BAIXISTA
Rui Farinha aponta ainda a entrega “absolutamente fantástica” do artista em palco, lugar onde demonstrou sempre ser “afável” e “solidário”. “Lembro-me de o ver muitas vezes, no intervalo entre as músicas, a explicar um pouco o conceito das letras ou estilo que estava a tocar na bateria. Sempre teve este lado um bocadinho pedagógico”, sublinhou.
GINGA PECULIAR
1
, 2, 3, 4, 5 minutos de jazz ao ritmo das baquetas de Armandinho bastariam para apreciar o génio do “mestre do jazz” de Macau. Mas está para breve uma oportunidade para ter a experiência completa ao longo de uma noite inteira. No dia 26 de Dezembro, o espaço do D2 irá acolher, a partir das 22h um tributo ao lendário baterista Armando Araújo, mais conhecido por Armandinho. Para celebrar a carreira do baterista brasileiro radicado em Macau desde os anos 70, o evento irá contar com mais de 25 músicos locais, que entram em cena, logo após a actuação de abertura a cargo dos The Bridge, o grupo de Armandinho. “A abrir vamos ter a banda do Armandinho, que são os The Bridge, formação residente do Jazz Club de Macau, e depois vai haver uma espécie de ‘Jam Session’ com várias bandas locais que decidiram
JAZZ TRIBUTO A ARMANDINHO REÚNE MÚSICOS LOCAIS NO D2
Ginga de mestre
A carreira do “mestre do jazz” Armando Araújo, mais conhecido por Armandinho será celebrada no dia 26 de Dezembro no D2 e conta com a participação de mais de 25 artistas locais. José Chan, baixista dos The Bridge, considera que, independentemente da idade, o jeito inconfundível de Armandinho na bateria “continua lá” associar-se a esta celebração”, disse ao HM Rui Farinha, um dos organizadores do evento. Dos grupos que vão marcar presença no evento fazem parte os Groove Ensemble, os Hot Dog
Express, Groovy Ghosts e “outras bandas ad-hoc criadas especialmente para o efeito”, esclareceu o responsável. Afirmando que a ideia não é de agora, mas que “desta vez não
Fotografia Exposição sobre 21º aniversário da RAEM no Largo do Leal Senado A galeria do edifício Ritz, no Largo do Leal Senado, recebe uma exposição de fotografia sobre o 21º aniversário da RAEM, que vai estar aberta ao público até 27 de Dezembro, noticiou o canal chinês da Rádio Macau. O organizador, Yau Tin Kwai, apontou que se sente honrado por poder gravar e mostrar as fotografias his-
tóricas da transferência de soberania de Macau em 1999. O também fotógrafo do Gabinete de Coordenação da Cerimónia de Transferência considera que Macau apresenta grandes mudanças nas áreas social e económica antes e depois da transferência, com a sociedade a tornar-se mais “estável” e “harmoniosa”. Yau deseja que
a exposição estimule a memória de quem presenciou o momento e dê a conhecer aos jovens de Macau o seu significado. A mostra inclui 99 obras, incluindo a preparação do Edifício da Cerimónia de Transferência de Poderes por parte da então administração portuguesa, e as actividades cerimoniais de cada sector social.
havia desculpas” para não se fazer um tributo a Armando Araújo, Rui Farinha destaca a importância da celebração especialmente para o artista “se sentir querido” e comprovar “que as pessoas ainda se lembram
José Chan, baixista dos The Bridge, que se juntou a Armandinho no Jazz Club de Macau em 1988, faz questão de vincar que as origens do “mestre do jazz” conferem um toque único à música que o artista emana. “O Armando, como é brasileiro, tem uma maneira de tocar que é diferente dos americanos ou dos europeus e isso faz com que a música tenha uma outra forma. Apesar de ser jazz, tem um toque mais latino”, partilhou Chan. Apontando ser um tributo “mais que merecido” por ser se tratar de um marco da música de Macau, o baixista lembra a influência incontornável que Armandinho teve no panorama musical de Macau, especialmente ao nível da música brasileira que havia no território. Questionado sobre como é tocar ao lado de Armandinho, José Chan lembra a forma como artista influenciou toda a sua carreira musical e como, “apesar de já ter mais idade, o jeito de tocar continua lá”. Quanto ao trato, Chan destaca o facto de Armandinho ser “um cara muito bacana” e a abrangência que conquistou ao longo dos anos. “Como foi dos músicos que chegou a Macau há mais tempo, muita gente o conhece na comunidade chinesa, macaense ou portuguesa porque já está cá há mais de 40 anos. O Armandinho é abrangente nas pessoas que o conhecem e que reconhecem o seu talento”, remata. Pedro Arede
pedro.arede.hojemacau@gmail.com
china 15
domingo 20.12.2020
Está aberta a “caça às bruxas” Pequim quer cooperar com Biden mas alerta contra novo “macarthismo”
O
ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Wi, assegurou sexta-feira que Pequim está preparado para cooperar com o Presidente eleito do EUA, Joe Biden, sobre diversas prioridades, mas alertou Washington contra um “macarthismo” anti-China. Após meses de confrontação directa com o Governo do Presidente cessante Donald Trump, o responsável chinês disse aguardar um regresso ao diálogo e a um clima de “confiança mútua” entre as duas primeiras potências económicas mundiais após a tomada de posse de Biden em 20 de Janeiro. “É importante que a política americana face à China seja retomada logo que possível com objectividade e com razão”, disse Wang Li numa entrevista virtual perante a Asia Society, um círculo de reflexão de Nova Iorque. O dirigente chinês assegurou que a China considera existir uma “possibilidade de cooperação” com a futura administração da Casa Branca, em temas como o combate à pandemia, a crise económica e as alterações climáticas. “Esperamos poder alargar a cooperação e gerir as nossas divergências através do diálogo”, insistiu. A administração Trump acentuou nos últimos meses um braço de ferro generalizado com Pequim, comprometendo décadas de diálogo com a potência asiática. O chefe da diplomacia dos EUA, Mike Pompeo, um representante da linha dura neste confronto que fez re-
cordar o período da Guerra Fria, pôs termo aos programas culturais de intercâmbio financiados pela China e endureceu drasticamente as regras de atribuição de vistos aos chineses.
DESAFIOS GLOBAIS
Ao optar por acentos crescentemente ideológicos nas suas acusações contra o Partido Comunista Chinês, evocou um combate entre “liberdade” e “tirania”, e apelou às universidades norte-americanas para desconfiarem dos estudantes chineses. “Assistimos a um macarthismo que ressurge e coloca em perigo as trocas internacionais normais”, sublinhou Wang Yi, numa referência à “caça às bruxas” contra comunistas e intelectuais de esquerda nos Estados Unidos movida pelo senador republicano Joseph McCarthy após a Segunda Guerra Mundial. O ministro chinês acusou responsáveis norte-americanos, sem os designar, de praticarem uma “presunção de culpabilidade irresponsável” face à China. “Ignoram os nossos inúmeros interesses comuns e a margem de cooperação entre os nossos dois países, insistindo no facto de que a China representa uma grande ameaça”, assinalou. Joe Biden já prometeu firmeza face a Pequim, num reflexo de uma crescente hostilidade entre a classe dirigente norte-americana, mas também prometeu procurar pontos de cooperação face aos desafios planetários.
A
China vai continuar a vacinar grupos de risco de contrair a covid-19, como trabalhadores sanitários, alfandegários e dos transportes, antes de iniciar campanhas de inoculação em maior escala, anunciaram ontem as autoridades chinesas. “O objectivo é criar imunidade de grupo mediante um processo de vacinação em várias fases”, afirmou o subdirector da Comissão de Saúde da China, Zeng Yixin, em conferência de imprensa. O responsável salientou que, nesta fase, serão vacinados os grupos de maior risco de infecção no Inverno e na Primavera, incluindo “pessoal que trabalha na cadeia de frio e nos mercados de alimentos frescos, bem como trabalhadores alfandegários, dos transportes e da saúde. E quem sair para estudar ou trabalhar no estrangeiro”. Zeng sublinhou que a prioridade das autoridades chinesas é proteger estes grupos de risco para prevenir surtos, dado que a situação no país é “muito diferente” da de outros que registam centenas de casos diários de covid-19. “Vamos desenvolver os nossos planos de vacinação em função da situação da pandemia. Na China, a situação é, de um modo geral, estável, ao contrário de outros países. Estamos a fazer um muito bom trabalho de prevenção”, disse. Em 22 de julho, a China autorizou o uso de candidatas a vacinas contra a covid-19 no pessoal médico e funcionários para “casos de emergência”. Desde então, um milhão de pessoas já foi vacinada “sem que tenham sido registadas reacções adversas”, indicou o diretor do Departamento de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia daquela Comissão, Zheng Zhongwei, na mesma conferência de imprensa. Zheng afirmou que 60 mil pessoas que viajaram para o estrangeiro receberam a vacina para casos de alto risco e não ficaram infectadas. “Espera-se que as vacinas contra a covid protejam durante mais de meio ano, mas que essa protecção possa estender-se a períodos de cinco a dez anos, ou por toda a vida, ainda é incerto”, acrescentou.
OLHO NO CALENDÁRIO
O responsável indicou que três empresas chinesas, com “luz verde” nas inspecções de biossegurança, vão começar a produção em massa de vaci-
COVID-19 VACINAS PARA PESSOAL DE RISCO ANTES DE VACINAÇÃO MACIÇA
Prioridades assumidas
Zeng Yixin, subdirector da Comissão de Saúde da China “O objectivo é criar imunidade de grupo mediante um processo de vacinação em várias fases.”
nas “depois destas serem oficialmente aprovadas”. Pequim ainda não anunciou oficialmente a autorização para as vacinas do país que já concluíram a terceira fase dos testes clínicos. De acordo com o jornal de Hong Kong South China Morning Post, a China vai vacinar 50 milhões de
pessoas de grupos de alta prioridade para as férias do Ano Novo lunar, com início em 12 de Fevereiro próximo, para prevenir surtos durante a maior migração interna do planeta. A vacinação para a população chinesa, em geral, só deverá começar depois do Ano Novo lunar, indicou o diário.
EUA MAIS 77 EMPRESAS E INSTITUIÇÕES CHINESAS EM “LISTA NEGRA”
O
S Estados Unidos incluíram mais 77 instituições e empresas chinesas, incluindo o fabricante de ‘microchips’ SMIC e o de ‘drones’ DJI, na “lista negra” de empresas com as quais está proibida a exportação de tecnologia norte-americana. Em comunicado, divulgado na sexta-feira, o gabinete
de Indústria e Segurança do Departamento do Comércio norte-americano indicou que incluía a SMIC (Semiconductor Manufacturing International Corporation), na chamada “Lista de Entidades” “para proteger a segurança” dos Estados Unidos (EUA) e pelos alegados vínculos com o exército chinês.
“Não permitiremos que tecnologia avançada dos EUA ajude a construir as Forças Armadas de um adversário beligerante de forma crescente”, disse o secretário do Comércio norte-americano, Wilbur Ross. O Departamento do Comércio explicou ter acrescentado 77 entidades à lista por “acções contrárias
à segurança ou a interesses políticos externos dos EUA”. Washington também acrescentou à lista várias universidades em Pequim, Nanjing e Tianjin, que acusou de terem roubado segredos comerciais ou “adquirir e tentar conseguir artigos originais dos EUA para apoiar programas do Exército de Libertação Popular”.
16 publicidade
20.12.2020 domingo
domingo 20.12.2020
publicidade 17
A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA FELICITA A REGIÃO ADMINISTRATIVA ESPECIAL DE MACAU PELA PASSAGEM DO SEU 21.º ANIVERSÁRIO E DESEJA A TODOS UM FELIZ NATAL
18
h
Xunzi
A
razão pela qual os humanos conseguem harmonizar-se com as estações, controlar a miríade de coisas e trazer benefício a tudo debaixo do Céu é precisamente por terem divisões sociais e yi [justiça]. A vida humana não pode ser sem comunidade. Se formarem comunidades sem divisões sociais lutarão entre si. Se lutarem, haverá caos. Havendo caos se separarão. Separando-se, serão fracos. Sendo fracos, não conseguirão dominar os animais. E, assim, não viverão em casas nem em palácios. Este é o sentido do dizer “não podemos esquecer ritual e yi nem por um momento”. Aquele que sabe usar disto para servir os seus pais é filial. Aquele que sabe usar isto para servir seu irmão mais velho é um bom irmão mais novo. Aquele que sabe usar isto para servir os seus superiores é obediente. Aquele que sabe aplicar isto aos seus subordinados é um senhor
20.12.2020 domingo
E dormem mil gestos
O Governo do Verdadeiro Rei
apropriado. O verdadeiro senhor é aquele que sabe formar uma comunidade1. Quando a formação de comunidade é praticada apropriadamente, a miríade de coisas terá o que lhe é apropriado, os seis animais domésticos crescerão apropriadamente e as todas as coisas vivas terão a longevidade apropriada. Assim, quando o sustento está de acordo com os tempos apropriados, os seis animais domésticos se multiplicarão. Ao obterem harmonia com os tempos apropriados, as ervas e árvores florescerão. Quando o governo comanda de acordo com os tempos apropriados, o povo comum estará unido e os homens meritórios se submeterão e obedecerão. São estes os regulamentos de um rei sage. Quando as ervas e árvores florescem e abundam, machados e machetes não devem penetrar montanhas e florestas, de modo a não abreviarem suas vidas e
Elementos de ética, visões do Caminho PARTE VI
interromper o seu crescimento. Quando as tartarugas e crocodilos, os peixes e enguias estão prenhes e a dar à luz, nem redes nem venenos devem penetrar suas águas. Lavra na primavera, limpa as daninhas no verão, colhe no outono e guarda no inverno. Estas quatro actividades não devem falhar seus tempos apropriados, pois então os cinco cereais nunca escassearão e o povo comum terá excedentes para comer. Sê vigilante das interdições sazonais respeitantes a lagos, rios e pântanos e as tartarugas e peixes serão bons e abundantes, dando ao povo comum um excedente para usar. Cortar e cuidar não devem falhar os seus tempos apropriados, e assim as montanhas e florestas nunca serão estéreis, dando ao povo comum um excedente de materiais. É assim que o verdadeiro rei opera: observa o Céu e aplica esse conhecimento à Terra. Organiza completamente tudo o
que há entre o Céu e a Terra e espalha beneficência sobre a miríade de coisas. As suas acções são subtis, mas são cintilantes. Apesar de serem breves, os seus efeitos são duradouros. O seu escopo é estreito, mas o seu impacto abrangente. Os seus poderes são como os do espírito no que se refere a inteligência, que é larga e vasta, mas funciona com a maior contenção. Por isso se diz que quem no mínimo gesto sempre faz o que é correcto pode ser chamado sábio.
1. Aqui, Xunzi joga com o facto das palavras “senhor” (jun 君) e comunidade (qún 群) serem semelhantes em termos de pronúncia e escrita. Adicionalmente, o termo qún, significa também “rebanho e “manada” (decompondo-se em dois caracteres: jun 君, “senhor; lorde” e yáng 羊, “ovelha; cabra”)
Tradução de Rui Cascais Xunzi (荀子, Mestre Xun; de seu nome Xun Kuang, 荀況) viveu no século III Antes da Era Comum (circa 310 ACE - 238 ACE). Filósofo confucionista, é considerado, juntamente com o próprio Confúcio e Mencius, como o terceiro expoente mais importante daquela corrente fundadora do pensamento e ética chineses. Todavia, como vários autores assinalam, Xunzi só muito recentemente obteve o devido reconhecimento no contexto do pensamento chinês, o que talvez se deva à sua rejeição da perspectiva de Mencius relativamente aos ensinamentos e doutrina de Mestre Kong. A versão agora apresentada baseia-se na tradução de Eric L. Hutton publicada pela Princeton University Press em 2016.
ARTES, LETRAS E IDEIAS 19
domingo 20.12.2020
Amélia Vieira
E
M toda a longa marcha a visão entra como forma de julgar e esculpir a Humanidade, quer como conceito subjectivo da noção de beleza, ou invólucro da substância do desejo, ela tem forjado um sistema dúbio, intenso, desagregador e ilusório no mais desperto sentido que se tem tornado sempre mais voraz. O ilusório exercício de quem vê, não será menor que o daquele que se mostra, e tudo se plasma em visualidade que exprime uma certa inocência. Mas existe um outro olhar, bem mais penetrante que todas as associações do espectro visual e que apenas olha obliquamente o drama dos expostos, esse melodrama comum de uma deidade infantil que descarrega enchentes de bloqueios para os outros sentidos com o gritante reflexo que lhes esconde: de que se reveste a intromissão desta lente cujo filtro se rompe ao captar o contemplado? De muitas coisas, e de um poder terrível! Górgone, lembra-nos sempre, e os gatos dizem-nos constantemente quando assumem a grande antipatia por quem os tenta deslindar, não gostando dessa devassa grosseira da observação intensa. Deus de Israel não permitiu que Moisés o contemplasse pois que este morreria, Eurídice desapareceu, e a mulher de Lot transformou-se em estátua de sal. O Olho Galáctico, ou o que Tudo Vê, aproxima-se deste conteúdo, gera o propósito do anunciar com as pálpebras fechadas quando a sua voz é tudo o que percepciono...! Deixei de ver por desventura de superabundância de imagem humana e quando o faço, sinto uma náusea tão estranha como um lamento macerado de perplexidade, um anzol com pinças nas pupilas puxado por ímanes agonizantes, ver tudo em compressão nesta fartura inexpressiva no rosto e nos corpos dos milhões que se expõem, é quase abismo e perdição. Uma crendice que se alonga nas amostras de todos os receituários e dá estampas de intolerável entretenimento, e é esta desolação sem nome que atrai o mau olhado que anda no mundo e poucos reparam como sendo a rara coisa viva. A vulnerabilidade dos expostos em suas anatomias gera o pânico, que o lamacento olhar a todos calcina, e sem nada que os segure de si mesmos, na mira do Olho que vê nas Trevas, passeiam-se sem condições, as criaturas. O que vemos é aquilo que querem que se veja, são armadilhadas, todas as imagens, lúgubre fachada que não escapa no entanto aos que as trespassam, e todos os sedentos da circunstância do visível acontece-lhes nunca serem a mariposa que desejam ver desabrochar em outros olhos incautos. Quem vê é quem cheira, e o que penetra, vê-se de tal forma por outros ângulos, que nada do que está em regime vigente no olhar pode causar a mais ínfima sensação. Fechamos os olhos dos mortos por delicadeza e respeito, olhamos a desordem com mágoa, desvia-
RENÉ MAGRITTE
nos meus dedos
O olhar que nos mata mos o olhar da densa combustão dos corpos, pois tudo o que não devemos ver se nos apresenta como um transtorno grave, pensamos deslindar as capacidades dos seres pela legenda das maceradas imagens e elas tornam-se rápido uma forma plana por onde correm alcateias de cegos sem sentidos. Um mundo fechado à janela do seu ver cria fantasmas que padecem. Muito ao contrário da pueril manifestação de «olhos nos olhos» os grandes apaixonados não têm essa prática, eles pressentem-se na névoa dos seus contornos, e quase deixam de ver quando ampliados pela substância de fortes e misteriosos intervenientes outros. O ver dos amantes não necessita de nenhuma imagem nem se congrega ao redor das
orientações visuais. Quando todos nos dermos conta do que se passa, ficarão apenas crateras vazias no lugar onde antes encaixaram as órbitas que tiveram das superfícies o reflexo dos loucos quando se põem a caminhar. Sem projecto, nem trajecto, os caminhos que percorrem são cegos, da volúpia, apenas os pés que não se cansam, e a natureza vagabunda de um desleixo sem causa. É onde parecemos andar neste plasma planeta, e pelos seus cantos vamos sentido como se esmagam as vontades e como os dons se esfumam quais Eurídices, pois que a certificação das presenças não passa de uma desconfiança que já não é consentida. Cegados de ver, a grande abóboda Galáxia se apaga pela manobra dos que
O que vemos é aquilo que querem que se veja, são armadilhadas, todas as imagens, lúgubre fachada que não escapa no entanto aos que as trespassam, e todos os sedentos da circunstância do visível acontece-lhes nunca serem a mariposa que desejam ver desabrochar em outros olhos incautos
a olhar se foram para sempre carregados de vasta escuridão. O caminho do meio não tem imagens e não derrete no quente deserto onde as periferias acordam fazer para o caminhante pequenos oásis, aí, na torreira, nem um disco brilhante no alto é visível como prolongamento do vazio, que a miragem prossegue e a sede cede. O caminhante está sempre ao nível do seu horizonte que não necessita ser lembrado porque são as estrelas que o guiam, e essa certeza é tudo o que se deseja para não sermos escravos da aparência e dos Infernos tenazes que fabricam os sonhos. Existe um vapor pornográfico nesta vertigem das amostras, uma domesticação dos instintos a catálogo, o que faz detonar os circuitos da insuportabilidade quando o estático se move. A indução do efeito visual pode levar a encantamentos colectivos que se tornam agora os mais ardentes responsáveis do perigo comum. A prestidigitação do núcleo orbital aponta uma larga pontaria em grande escala. Nós estamos todos na mira de um colapso. É o mau olhado! Quem olha para fora vê e quem olha para dentro acorda. Ditado Alquímico
20 (f)utilidades TEMPO
MUITO
20.12.2020 domingo
NUBLADO
MIN
9
MAX
CONSULADOS FECHADOS
S U D O K U 26
1 4 9 3
4 8 7 4 5 9
THE MOVIE DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA MUGEN TRAIN [C] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Sotozaki Haruo 14.30, 16.45, 17.15, 21.30
3
6 4 1 4 5 2 7 3
7
SALA 3
i WeirDO [B] FALADO EM PUTONGHUA LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Liao Ming-yi Com: Austin Lin, Nikki Hsich 14.30, 21.30
SALA 2
FIND YOUR VOICE [B]
Um filme de: Dave Franco Com: Dan Stevens, Alison Brie, Shiela Vand 14.30, 16.30. 19.30, 21.30
FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Adrian Kwan Com: Andy Lau, Lowell Lo, MArk Lui, Hugo Ng 16.30, 19.30
1 2 5 3 54 28 7 6 49 6 13 14 7 5 61 7 52 4 3 74 7 6 3 8
9 1
26
4 5 6 6 1 7 1 3 2 2 6 3 3 4 1 5www. 7 4 hojemacau. com.mo 7 2 5
4 5 - 7 5 %´ •
Washington vai fechar os dois consulados dos Estados Unidos na Rússia, segundo a CNN, enquanto o Presidente eleito Joe Biden se prepara para a transição no meio
6 2
4 3 7 5 7 6 1 1 3 3 2 5 3 2 677 4 4 6 4 32 1 5 6 7 8 5 11 2
28
8 7 9 8 6 4 4 2 8 1
HUM
C I N E M A
SALA 1
THE RENTAL [C]
6 3
SOLUÇÃO DO PROBLEMA 25
25
PROBLEMA 26
2
Cineteatro
16
EURO
9.78
de tensões com Moscovo, suspeito de estar na origem de um ciberataque. O departamento de Estado vai fechar o consulado em Vladivostok, no extremo Oriente russo, e sus-
UM DISCO HOJE No Verão de 2000 saiu “Rated R”, o segundo disco da banda que nasceu do projecto pessoal de Josh Homme, na ressaca do fim dos históricos Kyuss, para tomar de assalto o panorama musical independente dominado pela música electrónica, sem espaço para solos de guitarras. Depois da bomba que foi o disco inicial, com Homme a tocar quase todos os instrumentos, “Rated R” é a soma da colaboração com músicos como Mark Lanegan e Nick Oliveri. O resultado é uma sonoridade muito mais heterogénea, disparando indiscriminadamente riffs de peso e a empurrar o mundo para o século XXI. João Luz
31
BAHT
0.26
YUAN
1.22
penderá as actividades do de Ekaterinburg, informou a estação na sexta-feira, citando uma carta do departamento de Estado dirigida ao Congresso em 10 de Dezembro.
QUEENS OF THE STONE AGE I RATED R | 2000
32
1 3 7 2 7 2 3 4 1 6 5 3 4 5 1 2 5 4 2 3 3 1 6 7 2 5 4 2 1 7 4 3 7 6 4 5 1 5 4 2 7 3 6 1 5 6 3 4 4 5 1 7 6 7 5 3 4 2 1 6 2 1 7 5 Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede; Salomé 2 Fernandes 7 5Colaboradores 6 Anabela Canas; António 2 Cabrita; 3 António 1 de 6Castro Caeiro; 5 Ana4Jacinto7Nunes; Amélia Vieira; Duarte4Drumond 3 Braga;2Emanuel 6 Cameira; 7 Gonçalo M.Tavares; Inês Oliveira; João Paulo Cotrim; José Simões Morais; Luis Carmelo; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Teresa Sobral; Valério Romão Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Jorge Rodrigues Simão; Olavo Rasquinho; Paul 3 Wai2Chi; Paula6Bicho;1Tânia dos Santos Grafismo5Paulo4Borges,2Rómulo1Santos 6Agências7Lusa; 3 5 Lusa;7GCS; 3 2 6de Chan Xinhua Fotografia Hoje Macau; Xinhua Secretária redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo 6 1 3 4 4 6 7 5 3 1 2 7 6 4 5 1 THE RENTAL
7 6 2 4 5 1 3
6 5 7 3 1 4 2
opinião 21
domingo 20.12.2020
EDUARDO COUTO in Esquerda.net
E que tal acabar com o Dia da Defesa Nacional?
R
ECENTEMENTE, eu e milhares de jovens nascidos em 2002 ficámos a saber, através do site da Direcção-Geral de Recursos da Defesa Nacional, o dia em que teremos de nos apresentar ao Dia da Defesa Nacional. Não acredito na eficácia real desta iniciativa de carácter obrigatório, pelo menos nos moldes em que existe. Não me oponho a que haja sessões de esclarecimento sobre a natureza e o objectivo das Forças Armadas, nem muito menos que estas sejam plurais e abrangentes a todo o território nacional. Só não consigo concordar, sob nenhuma circunstância, que estas mesmas sessões sejam de carácter obrigatório. Concorde-se ou não com as forças militares do nosso país, com a sua visão ou até mesmo com a sua existência, não é aceitável que se obrigue todos os anos milhares e milhares de jovens a participar numa actividade que pode ou não ser do seu interesse, quando deve depender da vontade de cada pessoa participar ou não na mesma. O modelo que hoje existe, implementado por Paulo Portas em 2004, é arcaico e desactualizado. Pergunto-me: quantos jovens querem realmente estar ali, naquele dia? Se o jovem realmente quiser saber mais sobre as Forças Armadas, não terá mil e um meios ao seu dispor para obter respostas e esclarecimentos? E que motivos justificam a coacção de uma multa em caso de não-participação? Sabe-se que o Orçamento do Estado para 2019 e 2020 previa um total de três milhões de euros para esta iniciativa, e creio que os números para 2021 serão muito idênticos a estes. Duvido que uma das prioridades reais do país, especialmente no decorrer da profunda crise sanitária e económica que atravessamos, seja o Dia da Defesa Nacional … Há tantas outras prioridades para responder no país nas mais diversas áreas. Por isso, seria sensato avançar para uma suspensão da obrigatoriedade deste modelo e implementar um estudo que leve à minimização de custos. São muitos os relatos de comentários machistas e homofóbicos nestas sessões - que deveriam envergonhar qualquer nação -, da mesma forma que há jovens que denunciam atitudes, no mínimo, autoritárias por parte de quem dinamiza este dia. Exemplos disso são alguém perder a postura no hastear da bandeira e ser obrigado a lá voltar no dia
seguinte ou ser obrigado a cantar o hino Bloco de Esquerda pela suspensão do Dia nacional sob chuva torrencial, entre muitos da Defesa Nacional. Infelizmente só contou com os votos favoráveis do próprio Bloco e outros relatos. Podem-me dizer que existe o modelo de do PEV. É pena que o PCP, PS, PSD, CDSobjecção de consciência, mas é pena que haja -PP, IL, CH (através do vota contra) e o PAN (através da abstenção) sejam uma necessidade de existir este coniventes com algo que cria meio burocrático (que pouca O modelo que repúdio por parte de gerações gente conhece) para que alguém hoje existe, e gerações de jovens. não seja obrigado a estar onde Acho que está na hora de a não quer por sua própria vontade. implementado sociedade portuguesa ter esta Como também é uma autêntica por Paulo Portas conversa. Afinal, trata-se de aberração obrigar quem não queira comparecer ao Dia da em 2004, é arcaico uma questão de princípio de valores democráticos: o EstaDefesa Nacional a mostrar-se e desactualizado do não pode obrigar nenhum disponível a “cumprir o serviço cívico”, que é como quem diz: “Não vais? Tudo indivíduo a estar numa qualquer situação bem, mas serás punido por isso e terás de tra- contra a sua vontade, muito menos quando balhar gratuitamente de outra forma qualquer.” este já atingiu a maioridade. No fundo, deNo Orçamento do Estado para 2020 (e fendo uma posição muito simples. Queres em muitos outros), houve uma proposta do ir? Vai. Não queres? Não vás.
PUB
22 publicidade
20.12.2020 domingo
domingo 20.12.2020
publicidade 23