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Hoje Macau 18 DEZ 2020 #4674

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MOP$10

SEXTA-FEIRA 18 DE DEZEMBRO DE 2020 • ANO XX • Nº 4674 INÊS OLIVEIRA

HOJE MACAU

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

hojemacau ANOS

ARIANA FURTADO

A ARMA DO CONHECIMENTO VOZ HUMANA

Não deixes o frio entrar

EDUCAÇÃO

EXCEPÇÕES À PÁGINA REGRA 5

TAIWAN

MACAU FILTRADO PÁGINA 8

ABUTRES

SARA F. COSTA

MULHERES DE ITÁLIA GONÇALO M. TAVARES

A VÉSPERA

h

ANTÓNIO DE CASTRO CAEIRO

UMA ALEGORIA PUB

VALÉRIO ROMÃO

As temperaturas descem e o Abrigo de Inverno da Ilha Verde abre portas. Com a pandemia, os utentes do espaço mudaram e se antes eram frequentes as visitas de habitantes de Hong Kong, agora são principalmente residentes locais, sem rendimentos e casa própria, que procuram um refúgio para escapar ao frio. PUB

GRANDE PLANO


2 grande plano

18.12.2020 sexta-feira

IAS

NOITES DE FRIO Quando as temperaturas descem, as portas do Centro de Abrigo de Inverno abrem. Se antes havia em média uma dezena de pessoas de Hong Kong, a pandemia e restrições fronteiriças mudaram o cenário, e agora são principalmente residentes de Macau a recorrer ao serviço. De quarta para quinta-feira o espaço acolheu pelo menos sete homens, um deles residente de Macau que chegou a dormir na bagageira de um autocarro

S

ÃO oito e meia da noite e na Avenida do Conselheiro Borja, na Ilha Verde, o símbolo do centro de acolhimento do Instituto de Acção Social (IAS) contrasta com o escuro da noite. Contornando o edifício, uma mensagem luminosa indica que “o Centro de Abrigo de Inverno, situado na Rua do Asilo da Ilha Verde, será aberto ao público quando a temperatura em Macau descer aos 12 graus”. Também aqui, a pandemia vai ditando medidas de prevenção: a temperatura corporal é medida, desinfectante

para as mãos disponibilizado, e exigido o uso de máscara dentro do edifício. Também nos quartos foram tomadas medidas, como o distanciamento social superior a um metro entre cada cama. Cortinas azuis escorrem do tecto a criar divisórias ondulantes entre os utentes, que se deitam em colchões dispersos pelo chão, e as paredes são brancas – à excepção de marcas da passagem do tempo e avisos ocasionais, como da proibição de fumar. Na noite de quarta para quinta-feira, pelo menos sete homens recorreram a este espaço para se escudarem do frio que invadiu a cidade.

Um deles foi o senhor Chan. Tem cabelo branco e gesticula com as mãos enquanto explica o que o levou ali. O residente de Macau chegou a alugar um apartamento na China Continental. No entanto, depois de vir trabalhar para Macau teve de encontrar uma alternativa: dormia num autocarro da empresa de transportes para a qual trabalhou. “Habitualmente, dormia no autocarro, porque era funcionário a tempo parcial nesta empresa ao longo dos anos. Mas agora não tenho trabalho devido à pandemia. Nunca assumi trabalho a tempo interno, por isso não podia obter o apoio pecuniário que o Governo concedeu a trabalhadores. Hoje (quarta-feira) está frio. Ouvi que o abrigo já abriu cinco noites, passei cá duas (incluindo esta noite)”, contou ao HM. A possibilidade de dormir no porta-bagagens do autocarro foi-lhe vedada, já que a porta do veículo foi trancada e Chan não tem a chave. Os seus pertences ainda lá estavam e não conseguiu entrar para as buscar. Mas o sorriso resistiu às dificuldades. “Aqui está muito quentinho, tem comida, é muito bom”, disse, referindo-se às condições do abrigo de Inverno. Não é a primeira vez que visita o espaço, onde já ficou em altura de tufão. Faltam dois anos para atingir os 63 anos, a idade da reforma. Até lá, mantém licença com validade para conduzir o veículo.

ESTENDER A MÃO

Nem todos os utentes passam várias noites, mas há presenças regulares – que chegam a recorrer ao serviço durante um ou dois anos. Além de ser garantida comida a quem procura esta forma de apoio, o abrigo é também dado a conhecer através de amigos. O espaço do IAS é gerido pela Caritas, sendo que as entidades se mantêm

FOTOS HOJE MACAU

ABRIGO DE INVERNO OFERECE PROTECÇÃO PARA QUEBRA DE TEMPERATURA

“Habitualmente, dormia no autocarro, porque era funcionário a tempo parcial nesta empresa ao longo dos anos. Mas agora não tenho trabalho devido à pandemia.” CHAN UTENTE DO ABRIGO

em contacto para ajustar a situação e perceber as necessidades a que importa acorrer. Para Ricardo Chan, assistente social da Caritas, o principal desafio “consiste no estabelecimento de uma relação com os utentes”. De acordo com a experiência do assistente social, há quem

fique no abrigo durante um ano ou meio ano e continue sem querer revelar a sua história, ou sequer o nome. O funcionário da Caritas indica de forma clara o valor do abrigo. “Acho que é importante, é uma maneira de manifestar carinho e solidariedade. Uma garrafa de água ou uma tigela de arroz já são um gesto de carinho para estas pessoas”, disse, acrescentando que “podem ser doentes mentais ou não ter família, por isso estes gestos podem ajudar a dar-lhes afectividade”. Em relação aos locais, cerca de metade dos indivíduos não tem vencimento. Angel Ng, chefia funcional substituta da equipa de coordenação de serviços do IAS, revelou ao HM que nem todas as pessoas que usam o abrigo querem pedir subsídios. Questionada se a existência de estigma ou discriminação

estará na base do fenómeno, respondeu que é difícil encontrar a razão. A representante do IAS apontou que a recusa em pedir subsídio, por vezes, é justificada pela assumida capacidade para trabalhar, enquanto outras

“Acho que é importante, é uma maneira de manifestar carinho e solidariedade. Uma garrafa de água ou uma tigela de arroz já são um gesto de carinho para estas pessoas.” RICARDO CHAN CARITAS


grande plano 3

sexta-feira 18.12.2020

O NA ILHA VERDE Um dos três residentes de Hong Kong que passou a noite no abrigo é desempregado e veio para Macau à procura de uma oportunidade de trabalho ainda antes da pandemia

vezes, motivados por dificuldades de relacionamento com familiares, as pessoas que recorrem ao abrigo preferem deixar a família e viver na rua ou outros locais. São também diversos os motivos que levam ao centro. Angel Ng dá como exemplos típicos a pobreza ou não ter casa própria. No seu entender, o local fornece “um ambiente muito bom”, tendo em conta o perigo que situações de calor ou frio muito intenso representam.

MUDANÇA DE PANORAMA

Dos indivíduos que passaram a noite, quatro eram de Macau e três de Hong Kong. Em anos anteriores observou-se que um volume elevado de quem recorria a este serviço era residente do território vizinho. As histórias mais comuns que levava residentes de Hong Kong a pernoitar no abrigo

está intimamente ligada à principal fonte de rendimentos de Macau. “É sobretudo por causa de situação familiar. A razão principal é que também são jogadores, por isso não voltam para Hong Kong”, explicou o assistente social. No entanto, em contexto de pandemia que motivou restrições fronteiriças, o tipo

de histórias dos que procuram abrigo mudou. “Agrande diferença consiste na diminuição do número de estrangeiros e [residentes] de Hong Kong. Agora, são principalmente pessoas de Macau. Antes vinham em média um ou dois estrangeiros, e depois cerca de uma dezena de pessoas de Hong Kong, mas agora está a cair o número”, esclareceu Ricardo Chan. Angel Ng apontou as restrições nas fronteiras como a principal explicação, apontando que é um entrave à vontade de entrar em Macau. Um dos três residentes de Hong Kong que passou a noite no abrigo é desempregado e veio para Macau à procura de uma oportunidade de trabalho ainda antes da pandemia. O contexto dos restantes não se conhece, porque foi a primeira vez que apareceram.

RISCO DE HIPOTERMIA

O

s Serviços de Saúde (SS) emitiram um comunicado a alertar para risco de hipotermia decorrente da descida de temperatura nos próximos dias. Informações recentes da Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos revelam que a temperatura deverá “baixar significativamente” para valores abaixo dos 10 graus, e prevê-se que o frio se mantenha até à próxima semana. “As principais vítimas são normalmente elementos do sexo masculino, com idade igual ou superior a 65 anos, que vivem em circunstâncias de exclusão social”, indica a nota. Outros factores de risco incluem infecção e consumo de álcool. Face a esta situação, os SS apelaram aos residentes – especialmente idosos e portadores de doenças crónicas para adoptarem medidas de prevenção. Entre as sugestões estão o uso de roupas adequadas contra o frio, alimentos e bebidas quentes ou exercício físico para manter a temperatura do corpo e melhorar a circulação.

Outra razão pela qual este ano menos residentes de Hong Kong recorrem ao abrigo pode ser o subsídio que o Governo PUB

de Carrie Lam atribuiu, na óptica de Ricardo Chan. “Nós já temos comparticipação pecuniária,

mas este ano Hong Kong também deu um cheque aos residentes no montante de 10 mil dólares de Hong Kong”, explicou, acrescentando algumas pessoas regressaram ao território vizinho para receber esse apoio. Também a necessidade de mostrar resultado negativo no teste de ácido nucleico na entrada dos casinos e o encerramento do terminal marítimo entre Hong Kong e Macau são razões que Ricardo Chan enumera para a diminuição do número residentes do território vizinho no abrigo. Salomé Fernandes e N.W.

info@hojemacau.com.mo


4 política

F

ORAM precisos 13 minutos para os deputados aprovarem ontem duas alterações legais, naquela que foi uma das reuniões plenárias mais rápidas da Assembleia Legislativa. Sem intervenções de deputados, além de um resumo da discussão em sede de especialidade nas comissões, os deputados aprovaram por unanimidade as alterações à Lei dos Serviços de Polícia Unitários e a à Lei de Bases da Segurança Interna da RAEM. No caso dos dois diplomas, as alterações eram essencialmente de ordem técnica e visavam harmonizar os textos legais a nível de funções e terminologias com a Lei de Bases de Protecção Civil, que reforçou os poderes do secretário para a Segurança e reorganizou no mecanismo de resposta a emergências. A reunião do plenário de ontem foi a continuação

RÓMULO SANTOS

Nos anos 60, a expressão “15 minutos à Benfica” ficou celebrizada devido à forma como o clube da Luz resolvia os jogos. Ontem, os deputados seguiram o exemplo e concluíram uma reunião plenária em 13 minutos

18.12.2020 sexta-feira

AL PLENÁRIO DEMOROU 15 MINUTOS E TERMINOU COM DESEJOS DE BOAS FESTAS

Depressa e bem da reunião de quarta-feira, pelo que não houve lugar a intervenções antes da ordem no dia. Também durante a discussão dos diplomas não houve deputados a intervirem, com todos a limitarem-se a votar artigo a artigo, por unanimidade, entre os 30 votantes. O presidente da AL, Kou Hoi In, não votou e Vitor Cheung não esteve presente. Por sua vez, o secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, também não utilizou

Renovação Urbana Mulheres defendem participação comunitária

Tina Ho, presidente da Associação Geral das Mulheres de Macau, considera essencial haver participação da comunidade no projecto de renovação do Bairro do Iao Hon. As afirmações foram feitas num encontro, ocorrido ontem, entre a associação e a empresa de capitais públicos Macau Renovação Urbana. Segundo a irmã do Chefe do Executivo, o envolvimento da população da zona é fundamental para perceber até que ponto o projecto de renovar os prédios mais antigos é viável. Por sua vez, Peter Lam, presidente da empresa, falou do projecto que está a ser desenvolvido no ex-lote do Pearl Horizon e diz que as habitações temporárias, que vão alojar as pessoas que vivem nos prédios renovados, começam a ser construídas no próximo ano, num trabalho que deve demorar cerca de três anos e meio.

a palavra, uma vez que não lhe foram pedidos esclarecimentos. No final da reunião, o presidente da AL limitou-se a dizer aos deputados que como a agenda tinha chegado ao fim que desejava boas festas aos presentes e que até ao final do ano não deveria haver mais sessões plenárias.

SEM CUSTO EXTRA

Ao contrário do que acontece com as reuniões das

comissões, as sessões do plenário não envolvem pagamento extra. É o que consta no Estatuto dos Deputados.

Ao contrário do que acontece com as reuniões das comissões, as sessões do plenário não envolvem um pagamento extra

Por esse motivo, a reunião de ontem não acresce qualquer pagamento extra ao salário base de 49.949 patacas. Caso a reunião tivesse sido em comissão, os deputados presentes tinham recebido cerca de 1.249 patacas. O pagamento para os presidentes de comissão é superior a esse montante, e aproxima-se de 2.500 patacas. Apesar de tecnicamente a reunião de ontem ser a continuação da sessão de quarta-feira, alguns deputa-

dos não deixaram de brincar com a situação, e falaram de um novo registo histórico. “Novo recorde: a reunião do plenário mais curta da História”, escreveu nas redes sociais a deputada Agnes Lam. “Bem, durou menos de 15 minutos”, acrescentou. Também Sulu Sou alinhou na brincadeira e afirmou que os 13 minutos nem chegaram para beber a água com limão. “O último plenário de 2020: Foram 13 minutos para aprovar duas leis consensuais”, realçou. “Nem deu tempo para beber a água com limão”, acrescentou. João Santos Filipe

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MEDICINA CHINESA HO IAT SENG PROMOVE COOPERAÇÃO COM JINAN

O

Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, encontrou-se ontem com o secretário do comité municipal de Jinan, Sun Licheng e com o membro do comité permanente da província de Shandong, cooperação na indústria de medicina tradicional chinesa. De acordo com um comunicado divulgado ontem, Ho Iat Seng apontou que Macau “tem-se empenhado no desenvolvimento da

diversificação económica e que a indústria da medicina tradicional chinesa representa um projecto-piloto de extrema importância” no território. O Chefe do Executivo afirmou ainda que o princípio

“Um País, Dois Sistemas” é uma vantagem no desenvolvimento do sector e na sua promoção “nos mercados dos países da língua portuguesa”. Por seu turno, Sun Licheng considera que o desenvolvimento da medicina tradicional chinesa em Macau é “prometedora” e que Jinan é “rica em recursos de ervas medicinais e formação de quadros qualificados no ensino superior”.

“As empresas do sector irão reforçar a ligação com as homólogas de Macau, contribuindo para a diversificação adequada da economia local”, lembrou o secretário do comité municipal de Jinan. O encontro contou ainda com a presença do secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong e o presidente do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, Lau Wai Meng. P.A.


política 5

sexta-feira 18.12.2020

Critérios à lupa

EDUCAÇÃO ESCOLAS PÚBLICAS PODEM RECORRER A NÃO DOCENTES

Pedidos pormenores sobre habitação para idosos em fórum da Aliança do Povo

O

S detalhes relativos à habitação para idosos ainda precisam de ser estudados, o tema foi discutido ontem num fórum realizado pela associação Aliança de Povo de Instituição de Macau. O analista político Larry So apontou que a ideia da habitação é boa em termos de bem-estar social, para que os idosos tenham serviços direccionados à sua faixa etária na sua terra natal, mas aponta que o foco deve estar nos destinatários da residência. Larry So defende que deve ser dada prioridade aos idosos com rendimentos baixos ou que pertencem a grupos vulneráveis. Além disso, o analista acrescentou que existe uma contradição no planeamento do projecto, apontando que a operação do espaço é semelhante à da indústria hoteleira, o que poderá tornar o custo elevado. Para Larry So, é necessário equilibrar o valor da renda, caso contrário será difícil quem tem rendimentos baixos encontrar oportunidade para aproveitar este tipo de alojamento. Assim, sugere que o Governo confirme os critérios para os destinatários quando as condições forem reguladas.

AJUDA À MOBILIDADE

Já o membro do Conselho Consultivo de Serviços Comunitários da Zona Norte, Hoi Long Tong, indicou que de momento são apenas conhecidos alguns factores a analisar nos candidatos, como o poder económico, morarem em prédios sem elevador e terem dificuldades de movimentação. O orador afirmou que muitos idosos mostraram vontade em viver nestas residências porque as vagas dos lares ou centro de idosos são muito limitadas, mas estão preocupados com a possibilidade de não corresponderem aos critérios exigidos. Hoi Long Tong quer que o Governo regule o processo de selecção de forma detalhada para evitar disputas, como por exemplo incluindo a definição para mobilidade reduzida. Além disso, sugere espaços para salas multifuncionais em que se possam realizar aulas para idosos. A vice-presidente de direcção da Aliança de Povo de Instituição de Macau, Chan Peng Peng deseja que o Executivo concretize o plano de acordo com o calendário previsto e que se preparem instalações complementares convenientes à deslocação dos idosos, como por exemplo corrimões. Espera ainda que seja importada tecnologia inteligente equipar as casas. Nunu Wu

joaof@hojemacau.com.mo

Quebrar em caso de emergência Em casos especiais, as escolas públicas vão poder contratar pessoal não docente para assumir funções dentro das salas de aula. Segundo o Governo, feito o pedido, a decisão final fica a cargo da tutela dos Assuntos Sociais e Cultura. Os auxiliares de ensino foram excluídos da proposta de alteração ao estatuto do pessoal docente

E

M casos especiais ou por motivos de interesse público, as escolas oficiais do ensino não superior vão poder contratar pessoal não docente para suprir necessidades do sistema educativo. Foi este o principal tema em debate durante a reunião da 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL), que

se encontra a analisar a proposta de alteração ao estatuto do pessoal docente. Numa reunião que contou com membros do Executivo, de acordo com Vong Hin Fai, que preside à comissão, vários deputados pediram explicações ao Governo sobre o artigo, que prevê a possibilidade de as escolas públicas contratarem pessoal não

docente para, em acumulação de funções de docente ou em comissão de serviço, exercer funções de docente. “Aqui o pressuposto é quando não é possível suprir as necessidades do sistema educativo (…), por exemplo, quando há falta e docentes numa escola oficial ou o motivo é repentino”, começou por dizer Vong Hin

Fai. “O Governo indicou que é só para casos especiais. Ou seja, quando, de repente, uma escola oficial tem falta de docentes, um docente não consegue dar aulas e por motivos de interesse público [este pessoal pode ser contratado]”, acrescentou. Sobre o procedimento a seguir para efectivar a contratação de não docentes em casos especiais, o Governo partilhou que, no caso de se tratar de exercício de funções em comissão de serviço, a pessoa escolhida “deve ter qualificação de docente” e que a necessidade da contratação é decidida, em última instância, pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura.

EXTENSÃO PÚBLICA

Outro ponto que gerou discussão na comissão, prende-se com o âmbito de aplicação do novo estatuto do pessoal docente, que prevê que a sua aplicação seja estendida a professores que exerçam funções “noutros serviços e organismos públicos”. Mais precisamente, os depiutados procuraram saber que organismos são esses.

“O Governo indicou que é só para casos especiais. Ou seja, quando, de repente, uma escola oficial tem falta de docentes, um docente não consegue dar aulas e por motivos de interesse público.” VONG HIN FAI

“O Governo respondeu que são os Serviços Correccionais, o Instituto Cultural [IC] e o Instituto de Acção Social [IAS], e que estes três serviços também contratam docentes”, partilhou Vong Hin Fai. Segundo o deputado, o Governo esclareceu ainda que no caso da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) “o caso é diferente”, pois os seus instructores são contratados de outra forma, como por exemplo “através da aquisição de serviços”. Durante a reunião foi ainda revelado que o novo estatuto do pessoal docente deixa de fora os auxiliares de ensino. Apesar de não ter avançado as razões para o Executivo ter decidido nesse sentido, Vong Hin Fai partilhou que a comissão questionou o Governo sobre quando serão criados os regulamentos administrativos complementares. Pedro Arede e Nunu Wu

pedro.arede.hojemacau@gmail.com


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18.12.2020 sexta-feira

Aviso

N.° 59/2020 Notificação Edital (Solicitação de Comparência de trabalhador) Nos termos das alíneas b) e c) do n.° 1 do artigo 6.° do Regulamento da Inspecção do Trabalho, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 60/89/M, de 18 de Setembro, conjugadas com o artigo 58.° e n.° 2 do artigo 72.° do “Código do Procedimento Administrativo”, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, fica dois trabalhadores Huang Fuping e Wang Baohua, notificados para no prazo de 15 (quinze) dias a contar do dia seguinte ao da publicação da presente notificação edital, comparecer no Departamento de Inspecção do Trabalho (DIT) da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, sito na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado, n.ºs 221 a 279, Edifício "Advance Plaza", 1.° andar, a fim de prestar declarações relativas ao processo n.° 1413/2019 que foi instaurado devido à queixa apresentada nestes Serviços pelos mesmos, em 10 de Junho de 2019, relativa às matérias de remunerações de trabalho extraordinário, salários, descanso semanal e feriados obrigatórios. A Chefe do Departamento Substituta, Cheok Sok Kuan 11 de Dezembro de 2020

De acordo com o Despacho do Chefe do Executivo n.° 109/2005, os requerimentos visando a renovação de licenças anuais, a emitir pelo Instituto para os Assuntos Municipais, devem ser tratados, anualmente, entre Janeiro e Fevereiro, salvo se outro prazo estiver fixado em disposição legal. Na falta de regime especial, a não renovação da licença anual no supramencionado prazo implica a cessação da actividade licenciada, salvo se o interessado proceder à respectiva regularização no prazo de 90 dias. Caso efectue o pedido de renovação da licença anual no período de regularização de 90 dias, fica sujeito a uma taxa adicional calculada nos seguintes termos: • • •

Dentro de 30 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 30% da taxa da licença em causa; Dentro de 60 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 60% da taxa da licença em causa; Dentro de 90 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 100% da taxa da licença em causa.

Para um melhor conhecimento dos titulares de licença, é apresentada a seguinte tabela descritiva com o tipo de licenças a renovar entre 1 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 2021

Tipos de Licença Licença para estabelecimento de venda a retalho (de carnes frescas/ refrigeradas/congeladas) Licença para estabelecimento de venda a retalho de vegetais Licença para estabelecimento de venda a retalho de pescado Licenciamento para animais de competição Licenciamento de outros animais – cavalos Licença para arrendamento de tendas ambulantes temporárias nos mercados Emissão de licença de vendilhão Licença de reclamos e tabuletas de carácter permanente Licença de reclamos em veículos Licença especial de pejamento de carácter permanente Licença de esplanada Os locais e as horas de expediente, para o tratamento de requerimentos de renovação de licenças, são os seguintes: Centro de Serviços do IAM Avenida da Praia Grande, n.° 762- 804, Edf .China Plaza, 2.°andar, Macau. Centro de Serviços da RAEM das Ilhas Rua de Coimbra N°225, 3.° andar , Taipa. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte Rua Nova da Areia Preta, n.º 52, Centro de Serviços da RAEM, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte - Posto de Toi San Avenida de Artur Tamagnini Barbosa n.º 127, Edf. D.ª Julieta Nobre de Carvalho, Bloco B, R/C , Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte - Posto de Fai Chi Kei Rua Nova do Patane, Habitação Social de Fai Chi Kei, Edf. Fai Tat, Bloco II, R/C, Lojas G e H, Macau

Assine-o TELEFONE 28752401 | FAX 28752405 E-MAIL info@hojemacau.com.mo

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Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Central Rotunda de Carlos da Maia, n.os 5 e 7 , Complexo da Rotunda de Carlos da Maia, 3.º andar, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Central - Posto de S. Lourenço Rua de João Lecaros, Complexo Municipal do Mercado de S. Lourenço, 4.°andar, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público das Ilhas Rua da Ponte Negra, Bairro Social da Taipa, n.º 75K, Taipa. Centro de Prestação de Serviços ao Público das Ilhas - Posto de Seac Pai Van Avenida de Vale das Borboletas, Complexo Comunitário de Seac Pai Van, 6.˚ andar, Coloane Horário de funcionamento: 2.ª a 6.ª feira, das 9:00 às 18:00 horas (aberto à hora de almoço). Os formulários de pedido de renovação das supramencionadas licenças (excepto para a Licença de Vendilhões) poderão ser obtidos no website do IAM (www.iam.gov.mo). Para mais informações, queira ligar para a Linha do Cidadão, através do telefone no 2833 7676. Macau, 30 de Novembro de 2020 Presidente do Conselho de Administração para os Asuuntos Municipais José Maria da Fonseca Tavares www. iam.gov.mo


sociedade 7

sexta-feira 18.12.2020

A Polícia Judiciária deteve 17 pessoas por suspeitas de ajudar, pelo menos, 100 cidadãos vietnamitas a prolongar a sua autorização de permanência ou a obter vistos para trabalhar em Macau. Os criminosos actuavam desde 2016 e são acusados de falsificação de documentos e associação criminosa. Em reacção, a DSAL mostrou “grande preocupação” e deixa um alerta aos empregadores

E

NTRE terça e quarta-feira, a Polícia Judiciária (PJ) deteve oito residentes locais e nove cidadãs vietnamitas nas instalações de uma agência de emprego e outras unidades residenciais. As detenções surgiram no seguimento de um pedido formalizado pelo Ministério Público (MP) por suspeitas do crime de falsificação de documentos por parte de três agências de emprego estrangeiras. Alegadamente, as

CRIME GRUPO AJUDOU 100 TNR A OBTER VISTOS ILEGAIS DESDE 2016

Carta branca

DEBAIXO DE OLHO

agências terão criado um grupo criminoso dedicado a ajudar empregadas domésticas entretanto despedidas, a prolongar os seus vistos de trabalho, através da obtenção de empregos falsos. O objectivo seria permitir que os trabalhadores não residentes (TNR) pudessem procurar trabalho, mesmo estando ilegais no território. Após investigar o caso, a PJ deu como provado que, entre 2016 e 2020, o grupo criminoso terá utilizado meios ilegais para ajudar,

SMG Novo serviço sobre temperatura no dia 28 No dia 28 deste mês, a Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) vai lançar um novo serviço na página electrónica que alerta para temperaturas altas e baixas. Tem como finalidade permitir à população tomar medidas de preparação contra riscos de saúde antecipadamente. Quando o tempo está muito quente ou muito frio, emite-se um alerta laranja, enquanto situações

Durante a investigação, a PJ apreendeu ainda mais de uma dúzia de documentos pertencentes a trabalhadoras ilegais que se encontravam a viver com uma das detidas envolvidas no caso. Segundo a polícia, a suspeita terá alegado estar na posse dos documentos a pedido de um trabalhador oriundo do Interior da China. Após ser levado para a esquadra, o homem foi incapaz de explicar a origem dos documentos, tendo sido aberta uma nova investigação. Os 17 detidos foram levados para MP por suspeitas da prática dos crimes de falsificação e documentos e associação criminosa, podendo ser punidos, respectivamente, com pena de prisão até 3 anos e pena de prisão entre 3 a 10 anos.

de apenas tempo quente ou frio vão assumir a cor amarela. “Com as intensas alterações climáticas globais, as altas ou baixas temperaturas podem facilmente afectar a saúde humana, especialmente de idosos, crianças, grávidas e de pessoas com doenças crónicas”, diz a nota. Para o fim de semana, esperam-se temperaturas mínimas de 10 a 12 graus, e máximas entre os 17 e os 18 graus.

pelo menos, 100 cidadãos vietnamitas, a requerer ou prolongar o seu visto de trabalho em Macau. No total, o grupo criminoso terá lucrado cerca de 500 mil patacas através dos serviços prestados ao longo dos anos. Além disso, alguns dos cabecilhas terão actuado mesmo como “falsos empregadores”, com o objectivo de providenciar candidaturas de emprego fictícias a, pelo menos, 19 trabalhadoras. Por seu turno, alguns membros chave do

Solidariedade MASDAW organiza amanhã angariação de fundos

A Associação para os Cães de Rua e o Bem-Estar Animal em Macau (MASDAW) organiza amanhã um convívio para recolha de fundos para promover adopção, acolhimento de cães por famílias temporárias e aumento da visibilidade da associação. O convívio, realizado na Casa Ricci, em Cheoc Van, entre 15h e 21h, intitula-se “Dogs for Dogs” e é descrito num comunicado da associação como destinado às famílias, amigos e animais de estimação (desde que registados e vacinados), onde não vão faltar cachorros-quentes vegetarianos. A MASDAW descreve o evento com uma “actividade sustentável, com desperdício mínimo e reciclagem máxima”. A entrada custa 150 patacas, preço que inclui uma bebida e um cachorro-quente. Menores de 12 anos pagam 100 patacas. Os lucros destinam-se a ajudar animais de rua e ao resgate de animais abandonados, auxílio à adopção, apoio à vacinação anual, desparasitação, licenças, esterilização, cirurgias, nutrição e outras despesas.

grupo terão sido responsáveis por ajudar os supostos empregadores falsos a submeter oficialmente as respectivas candidaturas de emprego.

No total, o grupo criminoso terá lucrado cerca de 500 mil patacas através dos serviços prestados

Reagindo ao caso, a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) emitiu ontem um comunicado, onde confirma que está a prestar máxima atenção ao assunto e apela aos residentes para confirmar a veracidade da documentação, aquando da contratação de TNR. “A DSAL manifesta grande preocupação sobre o alegado crime de falsificação de documentos por parte de agências de emprego de Macau, bem como sobre a suspeita de contratação ilegal de trabalhadores não residentes, através de meios ilícitos. Está em curso a comunicação e a coordenação com a PJ para acompanhar o caso”, pode ler-se na nota. O organismo aponta ainda que, caso sejam verificadas infracções durante os processos e contratação, a respectiva autorização será revogada e o caso será transferido para os serviços competentes. “Apelamos aos cidadãos que apresentem pedidos de contratação de trabalhadores não residentes domésticos, conforme as necessidades”, acrescenta a DSAL. Pedro Arede

pedro.arede.hojemacau@gmail.com

Grand Lisboa Festa de fim de ano cancelada

O hotel Grand Lisboa anunciou o cancelamento da contagem decrescente de ano novo, numa medida de prevenção contra a covid-19, apesar de o território não registar casos há mais de cinco meses. Esta decisão, explicou o grupo Sociedade de Jogos de Macau (SJM) foi tomada “de acordo com os esforços de controlo de doenças do Governo da RAEM [Região Administrativa Especial de Macau] para evitar grandes reuniões”. O evento costuma acolher milhares de pessoas e realiza-se no exterior do hotel. “Ao entrar em 2021, a SJM está solidária com o povo de Macau na salvaguarda da saúde e segurança da comunidade, e em acolher um novo ano brilhante”, de acordo com o comunicado.


8 sociedade

18.12.2020 sexta-feira

TAIWAN EMPRESAS DE MACAU VÃO TER RESTRIÇÕES DE INVESTIMENTO

Os novos normais

JUSTIÇA TUI CONFIRMA CADUCIDADE DE CONCESSÃO DE NOVE TERRENOS

O Conselho dos Assuntos para o Interior, do Governo de Taiwan, confirmou que está a trabalhar num documento para impedir que as empresas de Macau sejam utilizadas como ferramenta de infiltração política

O

Para Kevin Tsui, economista, as alterações não vão ter impacto nas empresas “verdadeiramente” de Hong Kong e Macau, cujos investidores são das RAEs

P

ARA evitar infiltrações do Interior que ameacem a segurança, o Governo de Taipé está a fazer uma revisão das leis que permite que empresas e empresários de Macau e Hong Kong invistam na Ilha Formosa. A notícia foi confirmada pelo Conselho

RÓMULO SANTOS

Tribunal de Última Instância (TUI) proferiu decisões sobre nove casos, confirmando a caducidade de concessão de nove terrenos declarada pelo Chefe do Executivo. Destes nove casos, seis foram respeitantes a terrenos situados na zona do Fecho da Baía da Praia Grande. O primeiro caso é referente a uma propriedade na península de Macau, designado por lote 5 da zona C, com a área de 501 m2. A Sociedade de Investimento Imobiliário Fu Keng Van, S.A. arrendou a propriedade por concessão válida por 25 anos, que terminou a 30 de Julho de 2016. O despacho que declarou a caducidade da concessão foi proferido a 3 de Maio de 2018, e o processo andou nos tribunais até agora. Também na zona C do Fecho da Baía da Praia Grande, o TUI confirmou a caducidade da concessão à Sociedade de Investimento Imobiliário Song Keng Van, S.A., com área de 3,212 m2. O despacho que declarou a caducidade da concessão foi assinado por Chui Sai On no mesmo dia. O TUI confirmou também o fim do arrendamento por concessão designado por lote 10 da zona C do Fecho da Baía da Praia Grande, com a área de 3,490 m2, do qual é concessionária a Sociedade de Investimento Imobiliário Pou Keng Van, S.A.. Outro lote, designado por 17, na zona C do Fecho da Baía da Praia Grande também foi alvo de uma decisão do TUI que acabou por decretar o fim da concessão. O lote, com área de 9,650 m2, estava arrendado à Sociedade de Investimento Imobiliário Un Keng Van, S.A.. O terreno com a maior dimensão cujo fim da concessão foi confirmado pelo TUI situa-se na Taipa, na Baía de Nossa Senhora da Esperança, e tem 19,245 m2 de área. A concessão do arrendamento à Companhia de Investimentos Chee Lee, Limitada foi declarada em despacho a despacho, em 30 de Setembro de 2015.

dos Assuntos para o Interior, entidade de Taiwan. Anteriormente, os órgãos de comunicação social da Formosa já haviam reportado que o Governo de Tsai Ing Wen iria fazer uma revisão da lei de modo a permitir que companhias de Macau e Hong Kong tenham um estatuto especial, face às

empresas do Interior, para investirem na ilha. As empresas afectadas pelas restrições seriam empresas do Interior que recorrem a companhias de Macau e Hong Kong para investir em Taiwan; residentes de Macau e Hong Kong que anteriormente tinham residência no Interior; e ainda empresas

consideradas influentes no Interior, ou cujas receitas sejam geradas maioritariamente no outro lado da fronteira. Segundo as primeiras notícias sobre este tema em Taiwan, as decisões teriam sido motivadas pela nova Lei de Segurança Nacional de Hong Kong, numa alteração legislativa

que foi encarada pelo Governo de Tsai como o final da RAEHK como Centro Financeiro Internacional. As notícias colocavam assim em causa o tratamento especial que Hong Kong, e até Macau, têm em Taiwan face ao Interior.

SEM IMPACTO PARA PME

No entanto, ontem, o Conselho dos Assuntos para o Interior esclareceu que apesar de estar a ser feito trabalho legislativo para impedir infiltrações políticas do Interior, através de investimentos feitos com companhias e pessoas em outras jurisdições, o estatuto de Hong Kong como praça internacional de capitais não está em causa. Assim, os investidores e as empresas de Hong Kong e Macau vão continuar a ter um estatuto especial, face ao Interior, quando investem em Taiwan. Após a notícia ter sido confirmada pelo Conselho dos Assuntos para o Interior, o jornal Apple Daily ouviu Kevin Tsui, professor-assistente de Economia na Universidade de Clemson, na Califórnia. De acordo com o académico, as alterações não vão ter impacto para as empresas “verdadeiramente” de Hong Kong e Macau, ou seja cujos investidores são das RAEs. Também segundo Kevin Tsui, as pequenas e médias empresas não devem ser afectadas, porque normalmente as companhias com ligações ao Interior são de maior dimensão. João Santos Filipe

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Emprego Operários questionam Governo sobre vagas deixadas por TNR O deputado Leong Sun Iok, ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), quer saber quantos residentes ficaram empregados devido à saída de trabalhadores não-residentes (TNR). Numa interpelação divulgada ontem, o legislador indica que as estatísticas oficiais mostram que

em Setembro deste ano havia menos 14.841 TNR que em Dezembro do ano passado. No entanto, não se sabe quantos locais foram beneficiados com um posto de trabalho devido à saída dos TNR. “Quantos trabalhadores locais ficaram empregados como resultado da saída de TNR?”, pergunta. No

mesmo documento, o deputado considera que o Governo tem ainda de estudar as razões que levam as empresas a recusar contratar trabalhadores residentes, e se na maior parte dos casos a culpa é das empresas que não os querem contratar ou se dos candidatos, que não aceitam os empregos.


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M grupo de associações de protecção de animais quer que o Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) investigue o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), devido ao alegado abate do cão com o nome “Blue”, que afinal teria dono. A carta com o pedido de investigação foi entregue ontem por várias pessoas, entre as quais, Chao Man I, presidente da associação Grande Coligação para Protecção dos Animais.Segundo a versão das autoridades, Blue é um cão preto com uma mancha branca que habitava junto do Canil Municipal e que continua desaparecido. Porém, várias associações acreditam que o cão, adoptado como parte do programa do IAM, foi abatido pelo canil municipal, apesar de ter dono. O IAM defende-se e diz que o cão abatido com características físicas semelhantes não tinha chip de identificação, ao contrário de todos os animais que são adoptados no âmbito do programa de adopções promovidas pelo Governo. Ao HM, Chao Man I explicou que houve uma queixa porque PUB

Cão preto, cão branco Grupos de protecção dos animais apresentam queixa contra o IAM no CCAC

acredita que uma veterinária de apelido Choi terá agido com negligência, ao prometer que o cão que se assemelhava ao Blue não seria abatido. Choi reconheceu

ainda que a pessoa que tinha o cão à sua guarda era diferente do dono do registo junto do IAM. “Já tínhamos notificado [a veterinária] de que o cão da cela número três estava reservado. Porque é que ela não esperou? Qual foi a pressa de abater o cão?”, questionou Chao Man I, afirmando que o IAM tinha sido avisado que seria contactado pelo dono. “Para nós, todo este procedimento significa que houve negligência. Não sabemos ainda se houve negligência por não terem inserido o chip no cão, ou se antes de o abaterem não conseguiram detectá-lo”, acrescentou. A presidente do grupo de animais deixou ainda no ar a possibilidade de a funcionária ter actuado por não gostar de cães pretos, como Blue. “A veterinária Choi odeia cães pretos, por isso é que houve necessidade de matar

o cão. Solicitamos as explicações da veterinária Choi”, atirou.

BRINCADEIRAS GRAVADAS

Os representantes dos grupos de protecção animal contestam ainda a versão do IAM, porque a pessoa com a guarda do animal que vivia na rua, terá brincado com o cão,

“O IAM trata os animais brutalmente. Porque é que o IAM alerta na televisão para não maltratar os animais, e os superiores maltratam e matam os animais?” CHAO MAN I ASSOCIAÇÃO GRANDE COLIGAÇÃO PARA PROTECÇÃO DOS ANIMAIS

quando este estava nas instalações do canil. “Achamos que é uma mentira pouco razoável, a pessoa que tinha o cão à guarda visitou e brincou com o animal. As imagens foram captadas pelo sistema de videovigilância”, sustentou. Chao Man I acusou ainda o IAM agir de forma incorrecta, porque pedir à população que trate bem os animais, enquanto é a entidade responsável pelo maior número de mortes. “O IAM trata os animais brutalmente. Porque é que o IAM alerta na televisão para não maltratar os animais, e os superiores maltratam e matam os animais?”, questionou. Finalmente, a presidente da Grande Coligação para Protecção dos Animais desabafou considerar que os avanços na defesa dos direitos dos animais dependerem mais dos voluntários do que do Executivo. “No início, estávamos contentes com a lei de protecção dos animais, porque achávamos que era um mecanismo para protegê-los. Mas, na realidade, só está a ser utilizada para reprimir os voluntários que tratam dos animais de rua”, concluiu. Nunu Wu com J.S.F

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ENTREVISTA Teresa Sobral FOTOS Inês Oliveira

Ariana Furtado tem 44 anos de idade, é professora e coordenadora da Escola Básica do Castelo em Lisboa. É uma mulher com um sorriso contagiante, ideias fortes e um enorme sentido de justiça Gostava que começasse por falar do projecto na sua escola “Com a mala na mão contra a discriminação”. Este projecto nasceu de muitas pessoas, sobretudo da Simone Andrade do Teatro da Voz. A Simone estava com uma oficina nesta turma de 4.º ano que se chamava «como ler os direitos humanos», onde todos faziam uma viagem pelos direitos humanos e como eram aplicados em vários países. Como é que as crianças olhavam para a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o que é que no dia a dia delas seria diferente se a levassem a sério. E numa das sessões estivemos analisar os manuais escolares que abordavam os «ditos» descobrimentos e... aquilo foi tão arrasador em termos de linguagem histórica que eu fiquei chocada. Eu que já sou professora há tantos anos, ao ver a forma como a Simone abordou o tema e a facilidade com que os meus alunos respondiam às perguntas que ela fazia - a uma nova visão que ela trouxe para dentro da sala de aula, e não a visão apresentada no livro de Estudo do Meio sobre a classificação dos povos ao longo da história, no mundo - olhei para a minha turma, com miúdos vindos de várias partes do mundo, uma turma absolutamente heterogénea com miúdos da Ásia, de África, do continente americano, e percebi que nós estamos a fazer praticamente tudo errado nas escolas. Se queremos educar crianças para a cidadania, para a intervenção, para a discussão de ideias, para serem capazes de emitir uma opinião, e os manuais escolares só apresentam uma visão - e temos de ser francos, o ensino em Portugal está muito assente nos manuais escolares - tem que ser por aí que nós temos de começar a desconstruir um pouco e a dar espaço para eles encontrarem formas de conseguir emitir opiniões, fazer perguntas. Está a dizer que os professores estão formatados para passar apenas informação? Eu não quero generalizar não é nada disso, mas nós passamos informação mas não construímos caminhos para

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A escola tem de servir para educar para a empatia que eles possam dialogar, conversar sobre as questões. Ora, é isso que faz com que nós enquanto civilização avancemos, discutir sobre o que estamos a aprender. Mas não há tempo nas escolas para a discussão. É tudo muito formatado e o que os manuais apresentam “é o que os manuais apresentam” mas se apresentam informação, ela tem que ser correcta. Os manuais que falam dos descobrimentos enaltecem apenas os feitos dos portugueses e nunca falam das diferentes culturas que já existiam nessas terras e a escravatura é apresentada como uma simples troca de produtos. Exactamente, os povos europeus chegaram e já lá estava vida, cultura, civilizações, diferentes formas de organização; algumas bem mais avançadas do que as europeias e que não foram valorizadas. Nos manuais escolares europeus não há acesso a essa informação. No manual de Estudo do Meio da minha turma, os escravos continuam a surgir como um produto, como disseste, e muitas vezes o que eu sinto é que nós professores não somos capazes de provocar a discussão e a dúvida no aluno, não se discute se é correcto em termos de direitos humanos, se na altura já era correcto ou se não era, e isso é muito importante. E surgiu assim o projecto. Sim, depois juntei-me a várias pessoas, algumas ligadas ao associativismo, com as quais ia partilhando estas ideias e criamos um conjunto de oficinas sobre o tema “as relações entre todos” na sala de aula, nos recreios, fora da escola, na vida. Como é que podemos olhar-nos e discutirmos ideias. Se determinada situação faz sentido - mais do que ser correcto ou não correcto se faz sentido ou se não faz sentido; se evoluímos, se não evoluímos; porque é que as coisas acontecem, porque é que as coisas não acontecem... e foi assim que este projecto começou. Quer fazer uma viagem rápida pelas oficinas?

“No manual de Estudo do Meio da minha turma, os escravos continuam a surgir como um produto e muitas vezes o que eu sinto é que nós professores não somos capazes de provocar a discussão e a dúvida no aluno.” Uma das oficinas era feita com “Role Plays”. Muitos destes alunos pertencem a famílias que estavam a passar grandes problemas, por exemplo ao nível do arrendamento das casas em Lisboa e assim criamos algumas situações em que eles tinham que dramatizar como é para uma família negra, uma família asiática ou cigana conseguir arrendar uma casa numa capital como esta. E fomos discutindo estas situações que levavam as crianças a pensar sobre “como é que vive o outro”, será que a vida é fácil para o outro? Também é uma forma de educar para a empatia e percebermos “será que sou só eu que vivo estas condições?”. Outra era “como é que eles olhavam - por exemplo - para os mapas?”. Porque nos nossos mapas nas escolas a Europa vem sempre destacada, a Europa que é dos continentes mais pequenos vem destacada com uma importância tal que quase que nos induz que é o maior continente do mundo. E não é. Estamos às vezes tão euro centrados e tão confortáveis, que não conseguimos sair desse sítio.

Já que falou na habitação, há uma tendência das sociedades em geral, para criar zonas de habitação específicas para as pessoas negras. Os discursos populistas e nacionalistas usam como arma de arremesso seres humanos que gostam de apresentar como símbolos de fraqueza, doença ou perigo. Os alvos são na sua maioria essas pessoas que já sofrem de discriminação. Assustam-na estes movimentos de ódio? Assusta muito, mas não me surpreende. (pausa) Quase que me custa dizer isto mas é um pouco a essência da natureza humana. (pausa) Eu sei que estou rodeada de pessoas - e quando falo da essência humana não quero ser ofensiva mas tenho que ser brutalmente directa - pessoas que convivem comigo, que falam comigo, que são capazes até de me elogiar diariamente, de me pedir ajuda mas que são pessoas cheias de preconceitos. Bom... como é que eu coloco isto... isto é um assunto muito delicado... a forma como este partido (Chega) que ninguém quer dizer o nome, habita neste terreno... é tocando nos mais vulneráveis, nas pessoas que estão mais expostas à fragilidade, e em todas elas tocando em termos de pele: nas pessoas brancas mais vulneráveis dizendo “olhem quem mora ao vosso lado e vos está a tirar regalias”... nós negros, ciganos, asiáticos, que moramos cá, que crescemos cá ou nascemos cá e não somos nunca reconhecidos como tal. Pode-se falar de crueldade. É mesmo a forma mais cruel de se aproveitar de uma situação... através de uma pessoa em dificuldade. Porque não tenhamos dúvidas, as pessoas que votam nesse partido - eu vou falando com muitas, mesmo muitas pessoas são pessoas que passam por muitas dificuldades financeiras e económicas. E em termos de estudos, têm o nível sócio cultural que se considera «aceitável» na sociedade hoje em dia - seja lá o que isso for - e são pessoas que acham que é «o outro» que lhes está a roubar espaço, que lhes está a roubar rendimentos e é

assim que estes partidos crescem, é assim que estes partidos ocupam espaço na sociedade. Aproveitam-se sempre de situações de crise. Porque as pessoas retraem-se, fecham-se sobre si próprias e tornam-se egoístas. (pausa) É humano, quase que me atrevo a dizer isso. E é por isso que a escola tem este papel tão importante para mim. Porque a escola também tem de servir para educar, para educar para a empatia, para mostrar que quando sofremos, às vezes, sofremos todos, não é só um determinado sector da sociedade ou uma determinada cor de pele ou uma determinada pessoa. Sofremos todos. Claro que quando um partido como este, que está na Assembleia da República e tem imensa visibilidade televisiva, diz que há pessoas que por terem determinada cor ou determinada etnia são mais prejudiciais à sociedade do que outras, há outras pessoas que tendencialmente vão achar que sim, que essa pessoa está a lutar pelo bem delas e isso... é quase... humano. E como é que se combate isso? É muito difícil, é muito duro. Há um estudo da European Social Survey que diz que em Portugal quase 50% da população continua a achar que as pessoas podem ser inferiores em função da cor da sua pele ou pela sua pertença étnico-racial ou cultural. Será herança do nosso passado colonial? É uma herança pois. E não nos podemos esquecer que nós estamos, enquanto país, com um atraso enorme a todos os níveis, porque vivemos tanto tempo fechados no medo... acho que a ditadura portuguesa fez um dos seus trabalhos mais profundos nas ditas colónias porque conseguiu até convencer uma grande parte das pessoas que viviam lá, que eram inferiores. Há muitos filhos que herdaram dos pais essa maneira de ver o outro? Até hoje é uma mentalidade que ainda perdura. Desculpam-se com frases


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do tipo “ai agora por tudo e por nada é tudo racismo?! Tenho imensos amigos negros e gosto de música cigana. Claro que se tiver de viver com uma família negra ao lado prefiro não viver.” E apresentam uma lista de razões. Tais como? São muito barulhentos... e os cheiros... a comida... as pessoas dizem-te isso assim. Já me disseram várias vezes, frontalmente, essas coisas. Há pes-

“A competição é enorme logo desde pequeninos, o que é péssimo. O estímulo para a competição é péssimo, é mau em todos os sentidos. Deve haver um estímulo à aprendizagem, à troca de ideias, à entreajuda, à empatia e o resto vem por si.”

soas que às vezes falam comigo como se não vissem a minha cor quando é aquilo que eu acho que de mais profundo tenho, e quando falo de cor é porque acho que a cor transporta muito daquilo que eu sou como pessoa. A minha pele fala por mim, sou muito transparente nisso. Mas às vezes há professoras minhas colegas que falam comigo como se eu não fosse negra e não tivesse nascido em Cabo Verde. Como se eu não tivesse crescido a viver também muitas dificuldades para poder continuar a estudar, conseguir entrar na faculdade e no mundo laboral. Dizem coisas como “oh pá os africanos têm isto e aquilo, gostam muito de dançar”, e eu pergunto “que africanos, mas estás a falar de que africanos (riso) mas quem são esses africanos de que falas?” Para as pessoas em geral, alguém negro é imediatamente africano, não é europeu ou americano? Sim. E as coisas que são ditas às vezes são muito agressivas. Faço questão de traduzir as diferentes formas de ser, numa mais valia para os meus alunos. Mas eles continuam a viver em sociedade e alguns têm famílias onde podem ouvir impropérios ou “já não suporto aquela preta” ou “aquele cigano não sei quê”. Isto só muda quando toda uma sociedade estiver aplicada de forma séria. Quando educarmos para o antirracismo. Quando esta questão for levada a sério e de forma transversal e para isso temos de implicar seriamente todos os profes-

sores, os pais e todos os adultos que estão com crianças, todos. O próprio Estado. O Próprio Estado que já devia ter começado - já vai muitíssimo atrasado. É preciso uma condução séria na forma como são abordadas estas questões com os alunos. Por exemplo, a questão do tratamento que é dado aos nomes dos alunos. Se nós recebemos um aluno africano ou asiático e estamos a falar para ele e para os pais e dizemos “ai eu não percebo nada do teu nome não sei como é que se pronuncia, é muito difícil”... não estou a dizer que isto é racismo, mas é uma forma de negar a diferença. É uma questão de respeito básico e nesse aspecto o colonialismo fez um excelente trabalho por nós. Conseguiu hierarquizar de forma muito vincada os povos. Há estudos que provam por exemplo, que 80% dos alunos dos PALOP são orientados para os cursos profissionais, e dos 20% que fazem outro trajecto apenas 3% podem chegar ao ensino superior. São desigualdades estruturais no acesso à educação que, por sua vez, têm implicação no acesso ao emprego qualificado. Como professora e coordenadora do pré-escolar e 1º ciclo, que tem a dizer sobre isto? As dificuldades ao longo do caminho são muitas, muitas e começam primeiro na escola. É preciso intervir muito cedo. Quando essa questão chega a um encaminhamento para as

vias profissionais, nas bases já esteve tudo mal. Logo no primeiro ciclo nós começamos a assistir - por exemplo a alunos que têm explicação de português, de matemática e a muitas famílias negras que não têm possibilidade de o fazer. Depois a competição é enorme logo desde pequeninos, o que é péssimo. O estímulo para a competição é péssimo, é mau em todos os sentidos. Deve haver um estímulo à aprendizagem, à troca de ideias, à entreajuda, à empatia e o resto vem por si. Se tivermos predispostos enquanto crianças a ajudar o outro, a acompanhar o outro na sala de aula a aprender com o outro estamos também a estimular o nosso colega. Para que avancemos juntos. Exacto, para que avancemos juntos como pares, e a autoestima deles sobe. E muitos desses pais, dessas famílias negras não têm - como já disse - possibilidade de pagar explicações, não têm como acompanhar os filhos nos trabalhos de casa, acompanhá-los nos inúmeros desafios que às vezes surgem na escola para serem feitos em casa, porque não têm tempo. Porque se levantam às cinco da manhã para trabalhar, porque acumulam 3 e 4 empregos por dia. E essas crianças quando voltam à escola e vêem que alguns colegas tiveram tempo para descansar, que tiveram tempo para fazer os trabalhos, para ler um livro, que alguém leu um livro com eles... é óbvio que isso já está a indicar um caminho; por isso é que a intervenção no primeiro ciclo tem de ser muito

importante a esse nível. Porque depois, vão-se somando dificuldades pelos ciclos fora, ao ponto em que o aluno chega ao 9º ano e já não se sente capaz. Sempre teve turmas muito heterogéneas? Alguma história que se destaque? Tive uma aluna, uma menina muito resistente; saiu do Congo com o pai e o irmão, conseguiram passaporte português através de uma ascendência dele e conseguiram chegar a Portugal. Notava-se nela uma maturidade muito diferente das outras crianças, tinha oito anos, mas uma maturidade muito diferente das crianças da idade dela. Tinha uma história de vida lhe deu uma necessidade... estas crianças olham para a escola como uma arma, ela sentia que a arma dela para sobreviver era o conhecimento. O conhecimento, era a arma para poder argumentar com o mundo. Para terminar, gostava que nos dissesse porque escolheu fazer esta entrevista no Teatro? Na procura para dar voz a todos os alunos considero que a arte e a cultura são importantes para o brotar da imaginação, da consciência crítica e libertação de tudo o que temos cá dentro. Procuro levar sempre os meus alunos ao teatro, ao museu, a distintas oficinas e o Teatro da Voz tem sido um parceiro incrível e de construção e desconstrução de tudo o que pensamos saber.


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BOLSA CÁPSULA CHINESA REGRESSA À TERRA COM ROCHAS LUNARES

AMÉRICA LATINA CHINA ESTÁ A SUPERAR UNIÃO EUROPEIA EM PROTAGONISMO

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Alto Representante para a Política Externa da União Europeia (UE) alertou ontem que se a UE não estabelecer “mais e melhores relações” com aAmérica Latina vai perder o protagonismo para a China naquela região. A entrevista à agência espanhola EFE ocorreu numa altura em que os vinte e sete países da UE e os quatro do Mercosul (Argentina,

Brasil, Paraguai e Uruguai) enfrentam dificuldades para ratificar um acordo comercial assinado em 2019, após vinte anos de negociações. Josep Borrell defendeu a importância em salvar o acordo. “Acredito numa solução política, porque se não estabelecermos mais e melhores relações com a América Latina seremos substituídos pela China”, apontou. “A China está a desembarcar na América Latina com mais força do que em África”, avisou Borrell. A aproximação do país asiático aos países latino-americanos, especialmente os da costa do Pacífico, é feita através de “investimentos, actividades culturais ou comércio”, explicou. Segundo Borrell, a China superou já a UE como o segundo maior parceiro comercial da América Latina. PUB

HM • 2ª VEZ • 18-12-20

ANÚNCIO Divisão de coisa comum n.º

CV2-17-0041-CPE

2º Juízo Cível

Autores: 1. CARLOS LEUNG ou LEUNG MENG KUONG CARLOS (梁明廣), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, no Beco da Ilha Verde n.º 7-79, 寶華工貿 大廈, 5.º andar D; e a sua mulher 2. HERINNA TONG LEUNG ou LEUNG TONG YOK KAN HERINNA (梁董 玉簡), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, no Beco da Ilha Verde n.º 7-79, 寶華工貿 大廈, 5.º andar D. Reus: 1. CHONG IOK TONG (鍾煜堂), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Travessa do Mata-Tigre n.º 10-10D, Edf. Seng Meng Kok, 4.º andar B; e a sua mulher 2. LAU IN VAN (劉燕雲), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Travessa do Mata-Tigre n.º 10-10D, Edf. Seng Meng Kok, 4.º andar B; 3. CHAN CHAN MENG ou CHIN KYIN MEIN (陳振明), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Estrada de Adolfo Loureiro n.º 3D, Ef. Va On, 5.º andar B; e a sua mulher 4. LAO UT HOU (劉月好), de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Estrada de Adolfo Loureiro n.º 3D, Edf. Va On, 5.º andar B. Nos autos supra identificados, foi designado o dia 19 de Janeiro de 2021, pelas 11:00 horas, neste Tribunal, para a venda por meio de propostas em carta fechada, o bem abaixo identificado. IMÓVEL A VENDER Denominação da fracção autónoma: FR/C, Rés-do-Chão “F”. Situação: Em Macau, nºs 6 a 10-A da Avenida do Almirante Lacerda, nºs 81 a 97 da Rua de João de Araujo e nºs 21 a 29 da Rua de S. João de Brito. Fim: Para Comércio. Número de matriz: n.º 073242. Número de descrição na Conservatória do Registo Predial: nº. 11907, a fls. 31V do Livro B32. O valor da base da venda: MOP$17.470.728,00 (Dezassete Milhões, Quatrocentas e Setenta Mil, Setecentas e Vinte e Oito Patacas). Os preços das propostas devem ser superiores ao valor da base da venda acima indicado. *** Os interessados na compra devem entregar a sua proposta em carta fechada, com indicação nos envelopes das propostas, a seguinte expressão “proposta em carta fechada”, “2º Juízo Cível” e o “Processo Número: CV2-17-0041-CPE”, na Secção Central deste Tribunal, até o dia 18 de Janeiro de 2021, até 17:45 horas, podendo os proponentes assistir ao acto da abertura das propostas. Quaisquer titulares de direito de preferência na alienação do imóvel supra referido, podem, querendo, exercerem o seu direito no próprio acto da abertura das propostas, se alguma proposta for aceite, nos termos do artº 787º do C.P.C.M. Macau, em 09 de Novembro de 2020. *****

As bases do saber

Mais de 40 anos após as últimas amostras trazidas da Lua por uma nave da antiga União Soviética, a sonda chinesa regressou ontem a casa com rochas que se estima serem milhares de milhões de anos mais recentes do que as anteriores e que poderão permitir dar importantes passos em frente no conhecimento da Lua e de outros corpos celestes

U

M A cápsula lunar enviada pela China regressou ontem à Terra com a primeira recolha de amostras de rocha e detritos da Lua em mais de 40 anos, noticiou a imprensa estatal. A cápsula da sonda Chang’e-5 pousou cerca das 02:00 no distrito de Siziwang, na região da Mongólia Interior. A cápsula separou-se do módulo orbital e projectou-se para embater contra a atmosfera da Terra, visando perder velocidade, antes de entrar e flutuar com um paraquedas rumo ao solo. Dois dos quatro módulos da Chang’e-5 pousaram na Lua, no início de Dezembro, e recolheram cerca de dois quilogramas de amostras, incluindo recolhas à superfície e a dois metros de profundidade na crosta lunar. As amostras foram depositadas num recipiente lacrado que foi levado por um veículo de volta ao módulo de regresso. A missão constituiu o mais recente avanço para o programa espacial da China, que prevê uma missão a Marte e planos para construir uma estação espacial. Em comunicado, lido a partir do Centro de Controlo Aeroespacial de Pequim, o Presidente chinês, Xi Jinping, considerou a missão

Brad Jolliff, Centro McDonnell para Ciências Espaciais, na Universidade de Washington “Tiro o chapéu aos nossos colegas chineses por realizarem uma missão muito difícil. Os avanços científicos que resultarão da análise das amostras devolvidas vão ser um legado que durará por muitos e muitos anos e, espero, envolverá a comunidade internacional de cientistas.”

uma grande conquista e um passo em frente para a indústria espacial da China, noticiou a agência oficial chinesa Xinhua. Xi disse esperar que os participantes na missão continuem a contribuir para transformar a China numa grande potência espacial, como parte da visão de rejuvenescimento da nação chinesa, acrescentou a agência. A equipa preparou helicópteros e veículos para identificar os sinais emitidos pela nave lunar e conseguir localizar a cápsula na escuridão que envolve a

vasta região coberta de neve no extremo norte da China.

NOVAS DESCOBERTAS

Esta foi a primeira vez que cientistas obtiveram amostras de rochas lunares desde uma missão enviada pela antiga União Soviética (URSS), em 1976. As rochas agora recolhidas deverão ser milhares de milhões de anos mais recentes do que as obtidas anteriormente pelos Estados Unidos e pela ex-URSS, proporcionando novas descobertas sobre a história da Lua e de outros corpos celestes.

Alibaba Criado programa de reconhecimento facial de uigures O gigante chinês do comércio eletrónico Alibaba desenvolveu um programa de computador capaz de identificar os uigures, a minoria étnica chinesa de origem muçulmana, através de reconhecimento facial, avançou ontem o jornal norte-americano New York Times. Um portal do

Alibaba explicou como usar um ‘software’ de reconhecimento facial para detectar uigures e outros membros de minorias étnicas em fotos e vídeos, explicou o New York Times. Os textos em questão foram, entretanto, retirados da Internet pela empresa chinesa. O Alibaba, grupo de

comércio ‘online’ líder na China, diversificou nos últimos anos para computação em nuvem, supermercados e até cinema. Na semana passada, também o grupo Huawei foi acusado de testar ‘software’ para reconhecimento facial dos uigures. A empresa negou as acusações.

As rochas vêm de uma parte da Lua conhecida como Oceanus Procellarum, perto de um local chamado Mons Rumker, que se acredita ter sido vulcânico outrora. Tal como aconteceu com os 382 quilogramas de amostras lunares trazidas pelos astronautas dos Estados Unidos, entre 1969 e 1972, as rochas serão estudadas e deverão ser partilhadas com outros países. A idade das amostras vai ajudar a preencher uma lacuna no conhecimento sobre a história da Lua, de entre cerca de mil milhões e três mil milhões de anos, indicou o director do Centro McDonnell para Ciências Espaciais, na Universidade de Washington, Brad Jolliff, citado pela agência de notícias norte-americana Associated Press. As amostras também poderão fornecer pistas sobre a disponibilidade de recursos economicamente úteis na Lua, como hidrogénio concentrado e oxigénio, disse Jolliff. “Tiro o chapéu aos nossos colegas chineses por realizarem uma missão muito difícil. Os avanços científicos que resultarão da análise das amostras devolvidas vão ser um legado que durará por muitos e muitos anos e, espero, envolverá a comunidade internacional de cientistas”, acrescentou.


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sexta-feira 18.12.2020

AUTOMOBILISMO LUCIANO LAMEIRAS TEM-SE AFIRMADO NAS CORRIDAS LOCAIS NA ÚLTIMA DÉCADA

Operação regresso ao pódio

Apesar de discreto, tanto dentro, como fora da pista, Luciano Castilho Lameiras tem sido um dos principais intervenientes nas corridas de carros de Turismo de Macau, tendo obtido resultados bastante interessantes nos últimos nove anos. Depois de ter subido ao pódio no 66.º Grande Prémio de Macau, o piloto de 32 anos tem como grande objectivo um dia lá regressar

A

O volante de um Mitsubishi Evo9, Luciano não conseguiu repetir o feito de 2019, onde inscrito na classe “1950cc e Acima” da Taça de Carros de Turismo de Macau, a exemplo deste ano, terminou na terceira posição da categoria. “Tive algumas contrariedades este ano. Na primeira sessão de treinos obtive a primeira posição, mas depois disso o carro teve alguns problemas”, revelou o piloto ao HM. “Este ano houve duas corridas, com a melhor volta das duas sessões de treinos livres e da qualificação a determinar a posição de partida. Portanto, no sábado ainda arranquei do terceiro lugar e mantive a posição durante três voltas. Depois disso, o motor começou a ter o problema de sobreaquecer e a única forma era abrandar o ritmo. O resultado de sábado não foi bom e tive de arrancar de trás para a corrida de domingo”.

Contudo, no domingo, a sorte voltou a não estar do seu lado, terminando na décima sétima posição, a duas voltas do carro vencedor, “pois tive um pequeno acidente e tive de vir às boxes para reparar o carro. Foi um ano infeliz, mas espero ter melhores resultados no próximo ano”. Mas o piloto da SpeedHeart Racing Team consegue tirar positivos do fim-de-semana desportivo mais importante da temporada: “O meu companheiro de equipa obteve um bom resultado e fiquei feliz por isso”, referindo-se ao triunfo à geral de Wong Wan Long.

LIMITES DA REALIDADE

Com o ano 2021 à porta, Luciano não tem planos para realizar muito mais provas do que aquelas que sejam necessárias para se qualificar para o maior evento desportivo de carácter anual da RAEM. E “dar uma perninha” no estrangeiro?

“Talvez não, desta vez, mas em 2021, as provas de qualificação do Grande Prémio de Macau serão num novo circuito na China, o Circuito Internacional de Zhuzhou”, o que, a concretizar-se, será uma novidade em relação ao tradicional binómio Circuito Internacional Zhuhai-Circuito Internacional de Guangdong. O objectivo para a próxima temporada, e para um futuro próximo, é “voltar a terminar numa posição do top-3 outra vez em Macau”. Ciente das suas limitações, Luciano não

O objectivo para a próxima temporada, e para um futuro próximo, é “voltar a terminar numa posição do top-3 outra vez em Macau”

sonha com participações futuras nas corridas de GT ou na Corrida da Guia. “Não há muito dinheiro disponível para trocar de carro. Nas corridas actuais, o nosso carro ainda está relativamente aperfeiçoado e tem uma vantagem larga”, esperando poder utilizar nas provas locais a sua actual viatura ainda “nos próximos três anos”.

BILHETE DE ENTRADA

A oportunidade de entrar no pequeno mundo das corridas de automóveis de Macau surgiu quando um amigo mais velho tinha um carro atractivo para venda, estávamos nós em 2012. “Ele tinha um Nissan Z33 Fairlady de corridas que nesse ano ninguém usou. Ele não queria desperdiçá-lo e por um preço muito baixo tentou apoiar-me. E assim comecei. Se não tivesse aparecido aquela oportunidade, talvez nunca tivesse a chance de correr no circuito de Macau”.

Tal como a grande parte dos iniciados nestas andanças, Luciano sofreu das mesmas e conhecidas dificuldades crónicas de quem opta por um desporto pouco acessível, enumerando por esta ordem os obstáculos que encontrou: “primeiro, dinheiro, segundo, a falta de experiência, e por fim, em terceiro, a falta de apoio de alguns membros da família”. Este último obstáculo já foi ultrapassado, reconhecendo o piloto que “habitualmente as pessoas pensam que as corridas de automóveis são muito perigosas”. Para além do automobilismo, Luciano também tem outra grande paixão. Como grande aficcionado da pesca desportiva, é um dos organizadores da Taça de Macau da pesca do robalo. Sérgio Fonseca

info@hojemacau.com.mo


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18.12.2020 sexta-feira

Senhores banqueiros sois a

Abutres

Expectoracão ´

Sara F. Costa

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IGHTCRAWLER foi um daqueles filmes que me marcou, não só pela excelente atuação de Jake Gyllenhaal e da direção de Dan Gilroy, ou a fotografia de Paul Thomas Anderson mas, sobretudo, devido ao facto de retratar algo tão identificável e sobre o qual nos cansamos de desaprovar por ter-se tornado tão banal. No caso do filme, eram noctívagos, neste, podem ser ambos. Os abutres a que me refiro não são necessariamente aves de grande envergadura, que planam em correntes de ar quente. No entanto, nutrem-se com o mesmo alimento destas criaturas: cadáveres. Refiro-me aos abutres noticiosos. Quando me deparei com a trágica notícia da morte da jovem cantora Sara Carreira, havia registos visuais do aparatoso acidente, sem edição. A jovem estava ainda dentro do carro, morta, coberta por um lençol. É nestes momento que não é possível esquecer a forma como a arte imita a realidade e a realidade imite a arte em Nightcrawler. O filme sobre um cameraman amador que descobre um nicho particular de negócio: estar no sítio certo à hora certa, isto é, estar no sítio certo à hora errada. Os acidentes de carro acontecem sobretudo durante a noite e assim se propicia um cenário mais tétrico. A personagem de Jake Gyllenhaal monta uma equipa de repórteres (ou “repórteres”) que acabam por ter ligações corruptas com as autoridades. Estas facultam de imediato os sítios onde os acidentes rodoviários estão a acontecer em tempo real de modo que as câmaras se possam mover convenientemente para o local do desfortúnio.

Desta forma, o repórter consegue captar a morbidez e o horror da aleatoriedade da morte dos outros com gráfico explícitos. Tenho a ligeira sensação de que isto não acontece só na Califórnia. Ver pessoas mortas em acidentes de carros pode ser um entretenimento em ascensão entre a população mundial que gosta das suas notícias bem apimentadas com calamidades fortuitas graficamente explícitas, mas quando a tragédia ocorre dentro de uma narrativa, ou seja, quando a vítima se conhece, estes repórteres não ganham só com a exploração da curiosidade sinistra dos olhares externos. Nestes casos, é possível explorar a representação simbólica da mitologia contemporânea edificada pelos media, encetar uma história romanesca cativante, com heróis e vilões e que irá captar diretamente o coração da audiência. Roland Barthes dizia que quando se recorre à semiótica para analisar a metodologia escondida nos me-

Os abutres a que me refiro não são necessariamente aves de grande envergadura, que planam em correntes de ar quente. No entanto, nutrem-se com o mesmo alimento destas criaturas: cadáveres

dia, esta mitologia é uma forma de entrar nas raízes da criação da realidade. Assim, temos todos os noticiários a abrir com a notícia da morte da jovem, filha de um herói nacional com o a sua descendência igualmente divina e orientada para o canto, vítima de um namorado que, possivelmente, circulava em excesso de velocidade, talvez sem o consentimento da jovem - possível sequela literária para alimentar os nossos criativos (imparciais, factuais) telejornais. O pai, herói nacional, intocável, com uma vida de fama e riqueza transforma-se, subitamente, num comum mortal como todos nós. Se antes não nos era possível identificar com a felicidade da sua fortuna e reputação, agora temos a oportunidade de identificar nele a dor semelhante à dor de uma pessoa comum, como nós. Alguém que tem tudo mas que tudo perde neste instante - o carro, o aparato, o cadáver coberto. Alguém me disse que, assim, através da simbologia mitológica, todos os pais que perderam filhos se identificam com esta dor. Será esta a notícia de que uma tragédia levou de nós uma jovem inocente que era penas um ser humano ou será, numa abordagem semiológica barthesiana, esta a notícia de que um ser humano morto não é notícia se não for transformado em mitologia? E, neste caso, serão os abutres os que produzem os conteúdos ou os que consomem o produto? Questões difíceis que deixo em aberto para reflexão individual, finalizando apenas com este pensamento: “Do not be scared much of death, but be scared of your inadequate life.” – Bertolt Brecht


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

sexta-feira 18.12.2020

cidade o vosso enfarte

entre oriente e ocidente

FICÇÃO, ENSAIO, POESIA, FRAGMENTO, DIÁRIO

Gonçalo M. Tavares

Mulheres de Itália (15) Daria está junto à janela e vê quatro homens que saem com um caixão às costas e debruça-se para a frente e pergunta lá para baixo: quem morreu? Deanna tem os pés frios e mesmo com os binóculos apontados para a casa do vizinho não consegue esquecer o frio que vem dos pés. Debora está a comer um gelado de morango. Degna vê um documentário sobre os Gulag com a namorada, Florina, há imagens terríveis e ela fecha os olhos, mas Florina está a mexer-lhe nas cuecas e ela não sabe se está a gostar ou se está a ficar irritada por Florina não prestar atenção nenhuma ao documentário. Delfina controla o pânico e com a vassoura tenta matar o rato. Delia está enjoada com o champagne que bebeu na festa e chama o seu amigo Abbondio e pergunta-lhe se ele a pode acompanhar à casa de banho. Delinda está a perguntar se Fabrizio gosta dela, mas Fabrizio gosta é da Lelia. Delizia dá imensos erros de ortografia e quando chega a casa o pai olha para o teste dela de português como se ela acabasse de cometer o pior dos pecados. Demetria vê-se reflectida no vidro e imagina o vidro ocupado por pessoas que a admiram muito e que lhe batem palmas, mas o vidro está sujo e Demetria tem preguiça de o limpar. Deodata tem debaixo da camisa dois pequenos enchumaços, mas está tudo tão bem feito que na festa os rapazes que não a conhecem olham muito para ela. Desdemona está no intervalo de almoço, a comer na mesa em frente a um colega de quem não sabe o nome. Desiderata sai da sala discretamente para deixar Emilia a sós com o professor porque sabe que há coisas que não se podem fazer com uma amiga presente. Devota sopra num clarinete e sai um som tão agudo e estridente que até a mãe tapa os ouvidos com as mãos e esboça um esgar de repulsa. Diamante diz o seu nome alto para todos ouvirem e já perdeu a vergonha de ser gorda e ter um nome tão bonito.

ILUSTRAÇÃO ANA JACINTO NUNES


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tonalidades António de Castro Caeiro

A

véspera não é nunca apenas “ontem”. Uma véspera é uma forma diferente de olhar para o dia de amanhã. Pode ser cheio de esperança e vivido com expectativa, entusiasmo e excitação. Pode ser desesperante, triste, vivido a querer que não chegue o dia de amanhã. Em ambos os casos testemunha-se com evidência a deposição no dia seguinte, por vir. Não podemos deixar de considerar que todos os dias anteriores são véspera dos dias seguintes que virão amanhã. Mas não esse o sentido que se sublinha com a “véspera”. Invoquemos algumas vésperas importantes. A véspera de ir de férias, a véspera do primeiro dia de aulas, a véspera de uma competição, a véspera de um exame académico ou médico, a véspera da chegada de alguém que vive longe, a véspera da partida para viver no estrangeiro, a véspera do primeiro dia de aulas, a véspera de um casamento e a véspera de um funeral. Todos os dias seguintes são marcados por uma importância significativa na nossa vida. Não aconteceram ainda, porque serão no dia seguinte, amanhã. E, contudo, estão já a implicar-nos neles. Envolvem-nos como uma atmosfera. Estão já a abrir avenidas para eles. Podemos reagir da mais variada forma: não dormimos ou dormimos. Há uma tensão que não nos deixa pensar noutro conteúdo senão no que virá com o dia seguinte. A véspera desses dias seguintes faz deles dias mais significantes do que dias anteriores. Não pensamos nisso, mas habitualmente estamos depostos sempre num futuro mais ou menos próximo que vivemos com maior ou menor tensão. De outro modo, não íamos fazer café, não subiríamos ou desceríamos escadas, não entrávamos para dentro do carro nem saíamos dele, não aquecíamos antes de treinar, não nos preparávamos mentalmente para o que quer que fosse. O mesmo se passa com o início da semana, do mês, do ano, do quer que seja. Já nem nos lembramos mas há um querer que se abre à possibilidade de sermos diferentes de como somos. Ou pelo menos há esse projecto: deixar-se de… e passar a ser de outro modo.

18.12.2020 sexta-feira

A véspera Deitar a “carga” navio fora para não naufragar ou então zarpar para outras paragens. A véspera abre também uma janela para o dia seguinte. A importância do dia de seguinte é definida pela véspera. Não há importância dada ao dia seguinte se a véspera não se perfilar no horizonte. Entre nós agora e nós no dia seguinte há a véspera. A véspera dá a importância ao dia. Faz do dia seguinte não um dia qualquer mas um dia importante. É o que acontece com a véspera de Natal. A véspera de um nascimento é a véspera de um acontecimento que não acaba com o dia, mas começa com esse dia. É o princípio de uma vida. Uma vida humana tem um “ser”, uma “actividade”, diferente dos outros seres. Ao começar, inicia-se um horizonte temporal, uma vida lúcida com expectativas, sonhos, aspirações, ambições, vontades e querer e lucidez. Na véspera de Natal espera-se o dia, não um dia qualquer por mais importância que sejam todos os dias. Não é apenas de Jesus, menino, que se está à espera, como de um filho de uma rainha. Nem é o que se espera pelo nascimento de uma menina ou de menino que nas nossas famílias ou do próprio tem uma importância tal que muda toda a nossa vida. A véspera de Natal é a véspera de uma outra vida, com um outro ser no tempo. Não se espera apenas um nascimento singularmente importante. Espera-se um nascimento que não terminará com a morte o percurso vital. Com o nascimento de Jesus todos sem excepção e sem nenhuma acepção pessoal seremos portadores da possibilidade que inscreve cada nova vida e cada instante dela na eternidade. É uma véspera “e peras”. E, contudo, lembramo-nos mais de natais passados do dos natais futuros. Talvez por isso os natais presentes sejam “mais um”. E não são, porque antecipam uma outra possibilidade. E a possibilidade de se perder essa possibilidade como véspera.

“O Horto das Oliveiras Ele levantou-se sob a folhagem cinzenta completamente cinzenta e solta no horto das Oliveiras E apoiou a fronte cheia de pó no fundo das suas mãos quentes feitas de pó. Depois de tudo:— ISTO. E ISTO era o fim. Agora eu tenho de ir, enquanto cego, e por que queres Tu que eu tenha de dizer que Tu existes, quando eu próprio já não Te encontro. Eu já não Te encontro. Não em mim, não. Não, nos outros. Não, nesta pedra. Eu já não Te encontro. Eu estou só. Eu estou só com toda a amargura dos homens que eu, através de Ti, comecei a aliviar, Tu que não existes. Oh! inominável vergonha… Mais tarde, conta-se, apareceu um anjoPorquê um anjo? Ah! veio a noite e folheou com indiferença as árvores. Os pequenos sossegavam nos sonhos. Porquê um anjo? Ah! veio a noite. A noite que veio não era uma qualquer; dessas que há às centenas. Ali dormem cães e há pedras. Ah! é uma noite triste, aquela em que se espera até que seja de novo madrugada. É que os anjos não se aproximam de tais camas, e as noites não são nunca tão longas como aquela. Os que se perderam a si largam tudo, e são abandonados pelos pais e excluídos do colo das mães.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

sexta-feira 18.12.2020

OFício dos ossos

Valério Romão

B

UKOWSKI correspondeu-se com Barbara Frye – a sua primeira mulher, pelo menos de papel passado – durante algum tempo antes de se conhecerem em pessoa. Ela era editora da revista de poesia Harlequin, sediada no Texas, uma das muitas publicações independentes, na América dos anos cinquenta e sessenta, cuja vocação principal era a descobrirem e dar voz aos poetas que de outro meio contavam apenas com edições de autor e um público especializado mas muito restrito – a maior parte estava nessa situação. Bukowski escapara à morte por um triz, em 1955, quando uma úlcera hemorrágica o atirou para as urgências dos desvalidos do Hospital de Los Angeles. Precisou de inúmeras transfusões de sangue e, como não tinha seguro, estava dependente de ter crédito de sangue no hospital; não tinha. Acabou por ser o crédito de que o seu pai dispunha que o salvou – tendo em conta o quanto odiava e desprezava o seu pai não deixa de ser uma cruel ironia ter sido ele a salvá-lo, mesmo que de forma mediada. Não tinha ainda publicado poesia. A sua primeira plaquete acaba por sair em 1960 com o título «Flower, Fist and Bestial Wail». Sem poder beber – como estava habituado a beber – atira-se a entupir as caixas de correio das dezenas de revistas especializadas em poesia nos Estados Unidos com poemas seus e, não raras vezes, longos lamentos acerca do seu génio não reconhecido. Numa das cartas, para um editor literário do Novo México, Judson Crews, escreve «ou publica estes poemas ou suicido-me». Judson for lesto a devolvê-los. Quando Barbara acede a publicar os seus poemas na Harlequin, tecendo-lhes e a Bukowski rasgados elogios – diz considerá-lo o maior poeta da língua inglesa desde William Blake –, estabelece-se imediatamente uma relação. Rapidamente o plano profissional dá lugar à troca de entusiasmos e queixumes. Ela lamenta-se repetidamente de poder nunca vir a casar, visto ter uma deformidade física que afasta os homens – faltavam-lhe duas vértebras no pescoço; além de não conseguir virar a cabeça, dava a sensação, a quem a via, de que ela estava sempre de ombros encolhidos. Cansado daquela ladainha, e de certo modo familiarizado com a noção ser preterido pelo aspecto, Bukowski certa noite escreve-lhe uma carta (provavelmente bêbedo) em que lhe garante não ser por meras duas vértebras a menos

Uma alegoria que Barbara iria ficar solteira. Ela era uma rapariga simpática e inteligente e, afiança, ele próprio casaria com ela se ela assim o quisesse – o equivalente dos anos cinquenta, hoje em dia, às mensagens de Facebook depois de uma noite de Incógnito. Passados uns dias e esquecido do conteúdo da missiva que enviara, recebe uma carta de Barbara na qual ela diz aceitar o seu pedido, assim como algumas fotografias dela própria. Aí sim, Bukowski assustou-se.

Quando a avista, pensa «olha, acho que é possível». Passado algum tempo, casam em Las Vegas. O casamento, repleto das atribulações típicas da vida de Bukowski, dura apenas dois anos. Barbara Frye morre em circunstâncias misteriosas, na Índia, em 1984 Ainda assim, combinam encontrar-se em Los Angeles; ele fica de esperá-la na estação rodoviária. Mas Bukowski tem um plano: coloca-se num sítio pouco visível de onde pode vê-la sair do autocarro à socapa. Acaso ela lhe pareça tão terrivelmente disforme como ele a antecipa, pisgar-se-á dali como se nunca tivesse lá estado. As desculpas ficarão para depois. Mais vale perder a oportunidade de publicar numa revista do que hipotecar o já de si precário futuro, pensa. Quando a avista, pensa «olha, acho que é possível». Passado algum tempo, casam em Las Vegas. O casamento, repleto das atribulações típicas da vida de Bukowski, dura apenas dois anos. Barbara Frye morre em circunstâncias misteriosas, na Índia, em 1984. 2020 é capaz de ser a Barbara Frye das nossas vidas.

Bukowski, 1956 (com Barbara Frye)


18 (f)utilidades TEMPO

MUITO

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NUBLADO

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PESADO BALANÇO

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HUM

55-80% ´

Os Estados Unidos registaram na quarta-feira um pesado balanço de mais de 3.700 mortos devido à covid-19 e mais de 250 mil casos, num só dia, indicou a contagem in-

•

EURO

9.77

BAHT

dependente da Universidade Johns Hopkins. O país está a confrontar-se há mais de um mês com um aumento dos casos da doença causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2

0.26

YUAN

1.22

e cerca de 113 mil pessoas estão actualmente hospitalizadas devido à covid-19, de acordo com dados do Ministério da Saúde norte-americano.

20

4 8 5 7 2 3 1 6 9

7 2 1 4 6 9 3 8 5

9 3 6 5 1 8 4 7 2

6 9 4 2 5 7 8 3 1

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S6 1U7 5D8 O K U 2 3 4 9 22

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5 7 2 1 3 8 4 8 9 1 6

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PROBLEMA 25

4 5 8 7 2 3 7 9 1 8

Cineteatro

C I N E M A SALA 3

SALA 1

THE MOVIE DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA MUGEN 26 TRAIN [C]

2

i WeirDO [B]

SALA 2

3

FIND YOUR VOICE [B]

THE RENTAL [C]

4 8 7 4

6 3

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Adrian Kwan Com: Andy Lau, Lowell Lo, MArk Lui, Hugo Ng 16.30, 19.30

Um filme de: Dave Franco Com: Dan Stevens, Alison Brie, Shiela Vand 14.30, 16.30. 19.30, 21.30

8 7 9 8 6 4 4 2 8 1

5 9

FALADO EM PUTONGHUA LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Liao Ming-yi Com: Austin Lin, Nikki Hsich 14.30, 21.30

1 4 9

FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Sotozaki Haruo 14.30, 16.45, 17.15, 21.30

6 2 3

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7 8 9 7 2 4 3 3 5 1 5 6

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3 1 5 1 6 8 2 9 7 2 4 6 7

2 7 2 3 1 9 6 8 9 4 5

5 9 4 3 2 6 8 6 1 8 7 2

1 6 8 9 4 8 7 5 9 3 2

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 24

6 27

28

5 1 3

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UM DISCO HOJE Hoje tenho o prazer de que vos escrever sobre um dos meus compositores preferidos com a difícil tarefa de escolher um disco. Tom Waits é um génio que atravessa géneros musicais, estilos vocais, trazendo à tona poesia da sarjeta, nódoas de whisky e sangue em blocos de notas dispersos. “Bone Machine” saiu em 1992 e reúne músicas que dariam para dois “greatest hits” de um artista menor. Nem me atrevo a destacar faixas deste disco, nem a classificá-lo entre os meus preferidos de Waits. Limito-me a dizer que é uma bela porta de entrada para o músico que tive o prazer de ver ao vivo num dos mais felizes dias da minha vida. João Luz

TOM WAITS I BONE MACHINE

8 4 9 3 6 7 1 4 Propriedade Fábrica de Notícias, 4 7 Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede; Salomé Fernandes Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; António de Castro Caeiro; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Emanuel Cameira; 2 Gonçalo M.Tavares; 6 Inês Oliveira; João Paulo Cotrim; José Simões Morais; Luis Carmelo; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Teresa Sobral; Valério Romão Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Jorge Rodrigues Simão; Olavo Rasquinho; Paul 7 www. 5Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de Chan Wai redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de hojemacau. 8com.mo 1 7 n.º 19, Centro 3 Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo Santo Agostinho, 8 9 1 THE RENTAL


opinião 19

sexta-feira 18.12.2020

confeitaria

JOÃO ROMÃO

RUBY ANEMIC, I NEED MORE

C

ORRE entre as inúmeras iniciativas da democracia peticionária em que vivemos uma “Carta aberta por um investimento urgente em Ciência em Portugal”, que subscrevi com mais 8000 pessoas, até à data. Os proponentes atiram à cabeça com os dramáticos números que evidenciam o problema: 92% de investigadores sem salário e 95% de equipas sem projectos, alvitrando propostas para o enfrentar: aumentar de imediato o pacote financeiro para financiamento de projectos, garantir a curto prazo pelo menos 15% de aprovação das candidaturas a bolsas e projectos de investigação (actualmente anda por metade ou menos) e a médio prazo um plano que garanta um investimento anual de 3% do PIB em ciência e tecnologia, uma ambição, aliás, enunciada desde os anos 1990 – há umas 3 décadas, portanto, ainda que continuemos nuns parcos e miseráveis 1,4%. Também nas áreas da cultura e das artes se alvitraram propostas, muitas e variadas, antes e durante a pandemia que vivemos actualmente. São igualmente actividades que vivem do trabalho intelectual e criativo e onde predominam a precariedade e a incerteza, a impossibilidade de se planearem trabalhos com a distância necessária e a estabilidade suficiente para que se desenvolvam ideias, consolidem equipas e redes de colaboração, promovam contactos regulares com os públicos interessados e por interessar. Também aqui há reivindicações orçamentais que se vão arrastando nos tempos: 1% para a cultura, que nem sequer é pedir muito. Nos tempos que correm, a ciência e a cultura têm aliás muito em comum com outras áreas menos criativas das políticas públicas nacionais: também na educação, na justiça, na habitação, na segurança, nas florestas, na saúde, estão por vislumbrar horizontes de esperança, ideias para uma transformação qualquer, caminhos possíveis para um futuro diferente. Não há nada, há um discurso triste e pobre, limitado à tentativa de ir resolvendo problemas antigos e novos que se vão criando, conformado ao triste fado das restrições orçamentais, que ano após ano vão servindo também como álibi para essa falta de perspectivas e soluções. Se é verdade, que a economia não dá grandes sinais de que possam ser muito diferentes os orçamentos públicos para os anos que aí vêm (na realidade, vão certamente diminuir),

Capital bronco

também é verdade que tem havido governos e governantes com muito mais criatividade e ideias do que outros. Retomo o foco na ciência, assunto que me diz directamente mais respeito, até porque boa parte da minha vida profissional se fez nestes caminhos e tenho no percurso um pleno de bolsas bastante improvável: uma bolsa de mestrado ainda no início dos anos 1990, quando o incipiente desenvolvimento científico do país ainda estava neste nível; voltei à academia no final dos anos 2000 e vim a obter uma bolsa de doutoramento; continuei a fazer investigação nos anos 2010, financiada por uma bolsa de pós-doutoramento. Parte bastante razoável destes trabalhos foi feita no estrangeiro e tive oportunidade de observar que a minha sorte (não há outra forma de definir o acaso de se ficar em 6º lugar num concurso e ter uma bolsa ou ficar em 7º e já não ter) era ainda assim de uma pobreza confrangedora se comparada com as condições de trabalho oferecidas como norma a investigadores noutras geografias. Por exemplo, na Holanda, onde passei grande parte do tempo em que fazia o doutoramento, qualquer investigador nesse nível era contratado pela Universidade com um salário que era o dobro do valor das bolsas em Portugal – um privilégio de uma minoria, já que na realidade a maior parte dos doutorados paga propinas e faz investigação nas horas livres dos seus empregos. Este problema é, ainda assim, pequeno em comparação com o que há-de vir. Os orçamentos públicos para financiar a investigação científica são curtos e não se vão alterar significativamente. A evolução demográfica não faz prever que o número de docentes universitários vá crescer significativamente. O sub-financiamento crónico e generalizado

das universidades limita, não só a contratação de novos docentes, como as oportunidades de progressão na carreira: há pessoas a dirigir centros de investigação, mestrados ou doutoramentos que ficam décadas na categoria de “professores auxiliares” até, eventualmente, atingirem o nível de “associados” (já o de “catedrático” começa a parecer um título do passado, inacessível para quem começa hoje a investigar). Só para comparar brevemente, o meu primeiro contrato permanente numa universidade japonesa foi logo com o professor associado, posição que certamente não atingiria até à reforma se por acaso tivesse tido alguma oportunidade de continuar a minha vida profissional em Portugal. Não haverá lugar para muito mais ou para muito melhores oportunidades para trabalhar em investigação e no ensino superior públicos mas continuará a aumentar o número de pessoas a fazer doutoramentos: são cada vez mais as que concluem licenciaturas e mestrados com qualificações e vontade para o fazer e é total a disponibilidade das universidades para as acolher, enquanto “estudantes” de doutoramento, toda uma categoria desqualificadora do seu trabalho, definida logo à partida: não são investigadores profissionais a quem se deve um salário, como é norma em países onde se olha para a ciência e para o conhecimento como parte importante e significativa da riqueza do país: são pessoas a investir no seu próprio processo educativo e que por isso devem pagar generosas propinas. Uma ínfima minoria terá a sorte de conseguir uma bolsa com a qual terá uma vida vagamente remediada. Esta falta de horizontes para quem quer viver da ciência terá alguma relação com as políticas públicas que a determinam mas também – ou sobretudo – com as dinâmicas

privadas da economia. Os recursos públicos a distribuir dependem sempre da capacidade de a economia gerar riqueza e o aumento dos orçamentos da ciência, da cultura, da habitação, da justiça, ou de qualquer outra urgência social e económica, dependerão sempre dos aumentos de produtividade, do reforço das capacidades tecnológicas, enfim, da possibilidade de se gerar mais valor com os recursos disponíveis. Não vai haver haver mudanças a curto prazo, portanto, que estes processos são lentos e os progressos, no nosso caso, quase inexistentes. Restaria a opção empresarial, solução relevante e óbvia noutras geografias, onde é frequente investigadores em doutoramento discutirem se preferem continuar as carreiras em universidades ou empresas. Em Portugal essa discussão não existe: as empresas não têm interesse nenhum nesta imprestável mão-de-obra, que no universo empresarial português só muito remotamente terá acesso a um posto de trabalho razoavelmente condizente com as suas qualificações. Há um dado que demonstra com evidência que nem a mão de obra altamente qualificada tem lugar na economia portuguesa, nem esta vai conseguir em breve gerar significativamente mais riqueza: em 1999, apenas 4% das exportações portuguesas era feita com produtos de alta intensidade tecnológica – um valor ridículo em comparação com os 20% registados para o conjunto dos 27 países que hoje constitui a União Europeia; passados 20 anos (2018), tudo continua mais ou menos na mesma – Portugal mantém os seus 4% e esse é o valor mais baixe entre os 27 países da UE, que agora tem ligeiramente menos (18%), face aos notáveis progressos da China. Produtos de alta intensidade tecnológica não requerem apenas máquinas sofisticadas: requerem também essa mão-de-obra altamente qualificada que a economia portuguesa sobranceiramente dispensa. Ou, na realidade, que o capital desperdiça: a economia é composta destes dois factores produtivos fundamentais, sem os quais não funciona – capital e trabalho. Nas últimas décadas, a classe trabalhadora em Portugal – com o suporte inevitável do Estado, aliás - fez um magnífico esforço de valorização e modernização, olhemos por onde olhemos os indicadores possíveis: além do crescimento contínuo e sistemático dos doutoramentos, tínhamos em 2019 20% da população com o ensino superior (7% em 2000) e 23% com o ensino secundário (11% em 2000). Quem trabalha, esteva à altura destas circunstâncias. O capital, onde está o poder de decisão sobre investimentos e processos produtivos, é que continua amarrado à sua histórica tacanhez. O mais bronco da União Europeia, sugerem os números.


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Hoje Macau 18 DEZ 2020 #4674 by Jornal Hoje Macau - Issuu