SULU SOU E OS ANIMAIS
Leis sem dentes
OMS desmente New York Times
hoje macau Nº 4710
QUARTA-FEIRA 17-2-2021 DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ
Liberdade para sentar
MYANMAR
CATÓLICOS CONTRA MILITARES GRANDE PLANO
PROCESSO CONTRA FILHAS DE AU KAM SAN ARQUIVADO O Ministério Público mandou arquivar o processo contra as filhas do deputado Au Kam San, instaurado pela polícia, que as acusava de “reunião ilegal” por estarem sentadas no Largo do Senado no dia 4 de Junho. PÁGINA 6 PROSTITUIÇÃO
Arquitectura Projecto de Siza Vieira distinguido na China
DEPUTADA DE DEDO EM RISTE
EVENTOS
PÁGINA 4
RELATÓRIO
EXTREMA-DIREITA CRESCE EM PORTUGAL ÚLTIMA
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1988 revisitado
MYANMAR COMUNIDADE CATÓLICA ASSOCIA-SE AOS PROTESTOS CONTRA OS MILITARES São católicos, muitos delesluso-descendentes, e nunca apoiaram um Governo liderado por militares. Desde o golpe de estado que levou à detenção de Aung San Suu Kyi que os membros da comunidade católica do Myanmar têm saído às ruas para lutar por uma verdadeira democracia. Ao HM, um fotógrafo, uma freira e um padre relatam o patrulhamento de várias cidades e os disparos perpetrados por soldados vestidos de polícias
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U A N D O , às cinco da manhã, o padre Dominican Koyin recebeu um telefonema a avisá-lo do golpe de estado perpetrado por militares, tudo pareceu desabar na sua cabeça. “Foi um momento completamente inesperado, o golpe militar e a detenção, a meio da noite [de Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado, e Wu Myint, Presidente em exercício]. Ligaram-me e perguntaram ‘Padre, já viu as notícias no Facebook? Tentei ir à internet mas tinham cortado a ligação. Senti-me mal e não sabia o que fazer, parecia que algo tinha acabado”, contou ao HM. Dominican Koyin, a residir em Yangon desde 2019, para onde voltou desde que terminou os estudos em religião em Roma e Macau, sentiu-se, acima de tudo, roubado. “Senti como se tudo aquilo tivesse sido um roubo, como se algo nos tivesse sido tirado.” Este padre é uma das vozes da comunidade católica do Myanmar que tem aderido aos protestos dos últimos dias contra o golpe de estado levado a cabo por militares. Trata-se de uma comunidade que
está no país desde o século XVI, cujos membros descendem, na sua grande maioria, de portugueses. Os católicos sempre se opuseram ao poder militar e agora lutam como nunca para o regresso dos líderes do partido Liga Nacional para a Democracia, vencedores das eleições de Novembro. Não foi só Dominican que se sentiu assustado com os acontecimentos do passado dia 1. “Foi chocante, numa primeira fase, porque o país estava pacífico, tranquilo. A 4 de Fevereiro um grupo de pessoas começou a fazer barulho contra os militares. Cresci com medo deles,
eu e a minha geração. Então não começamos de imediato a ir para as ruas, mas fizemos uma coisa muito simples, bater nas panelas das cozinhas. Para nós esta é uma forma tradicional para afastar os maus espíritos. Mais tarde os estudantes e as gerações mais jovens vieram para as ruas e começaram as manifestações”, contou. O padre revela que há pressões sobre a comunidade, o que faz com que muitos bispos e outros líderes espirituais optem por protestar na qualidade de cidadãos do Myanmar e não como católicos. Mas os jovens têm um espírito diferente e preferem
A DIFÍCIL OBTENÇÃO DE CIDADANIA Apesar de esta ser uma comunidade que está presente no país desde o século XVI, a verdade é que é difícil aos católicos a obtenção da cidadania do Myanmar. Dominican Koyin só fez o pedido aos 18 anos e levou dois anos para conseguir os seus documentos. “Os nossos antepassados são portugueses, e por isso é que tivemos de lutar para ter a nossa cidadania no Myanmar. No meu caso foi muito difícil obter a cidadania e muitos nunca conseguem. No período dos militares ninguém podia arranjar problemas, então quem estava nas aldeias morria nas aldeias.” Esta luta pela cidadania faz o padre sentir empatia e compreensão pela situação do grupo étnico Rohingya, perseguido pelas autoridades. Para ele, Aung San Suu Kyi sempre quis assegurar a harmonia entre comunidades. “Entendo a luta dos Rohingya mas a situação é diferente. Nós não somos perseguidos e já estamos no país desde o século XVI. Somos birmanesas há muitas gerações. Os Rohingya chegaram depois de nós.”
“Em Yangon e em muitas cidades colocaram os seus soldados e tanques, é assustador. No entanto, até hoje, as pessoas continuam a protestar.” DOMINICAN KOYIN PADRE
assumir a sua faceta religiosa. “Na verdade a pressão sempre existiu. A 1 de Fevereiro alguns militares visitaram os nossos jardineiros. Receberam-nos, porque tinham de o fazer, e provavelmente foram dados avisos. Os bispos não participam com a sua identidade católica mas como cidadãos. Mas os jovens acham que devemos participar como católicos, porque protestamos de uma forma pacífica. Os mais jovens têm diferentes opiniões e querem mostrar a sua identidade sem medo.”
A união faz a força
A freira Elizabeth Joseph é outro dos rostos que tem ido para as
ruas protestar contra um Governo corrupto e em prol de melhores sistemas de educação e saúde. A irmã assegura que o país sob liderança da Liga Nacional para a Democracia estava a registar progressos a vários níveis. “Notamos uma melhoria nos sistemas de educação, saúde e no emprego. A cidade tornou-se mais limpa, os transportes, a electricidade, tudo melhorou, mas há mais coisas para fazer. Estamos a recuperar de um Governo muito mau e todas as pessoas no Myanmar querem mesmo que os líderes continuem no Governo para que tenhamos liberdade e um verdadeiro desenvolvimento. Essa é a razão pela qual estamos contra os militares”, disse ao HM. Elizabeth Joseph assegura que os militares fizeram vários “estragos” ao país e que a luta pacífica é o único caminho, associada ao movimento de desobediência civil que está a ser levado a cabo pelos funcionários públicos. “Vamos para as ruas, rezamos e os jovens participam de uma forma obediente e pacífica. Acreditamos que a união pode
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mudar as coisas. Não sei se faremos a diferença mas sentimos que esta é a forma que temos de expressar a nossa solidariedade. As pessoas estão a tentar ao máximo que o movimento de desobediência civil fique mais forte e acreditamos que esta é a melhor forma de travar o avanço dos militares, porque se ninguém for trabalhar eles vão ter dificuldades”, adiantou.
Relatório enviado a Haia
Por estes dias, Yangon e outras cidades do país, como Mandalay, a indefinição tem sido a palavra de ordem. À noite, no período compreendido entre as 20h e as 4h, vigora a lei marcial em que ninguém pode sair à rua. No entanto, nas redes sociais são partilhados vídeos de tanques militares a percorrerem as ruas. “À noite os militares apanham pessoas na rua. Com a lei marcial ninguém pode sair à rua, mas à noite os militares fazem o que querem”, frisou Dominican, que fala também da escalada de violência. “Em Yangon e em muitas cidades colocaram os seus soldados e
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“As pessoas só querem um governo democraticamente eleito. Elegemos a nossa presidente e o nosso governo representativo, por isso rejeitamos a junta militar.” FREDDY LYNN FOTÓGRAFO
tanques, é assustador. No entanto, até hoje, as pessoas continuam a protestar. Os militares vestem-se com fardas de polícias e atiram armas de borracha e não só. Uma mulher foi baleada e não estava sequer na linha da frente dos protestos, estava atrás de uma paragem de autocarro. A bala entrou-lhe na cabeça e agora tem cinco por cento de hipóteses de sobrevivência.” “Eles [militares] atiram contra as pessoas e mais de 60 pessoas foram baleadas ontem [domingo] em Mandalay há também disparos, nem sempre sabemos se com balas
de borracha ou com balas verdadeiras”, descreveu ainda o padre. Prova disso é um relatório assinado pela Associação de Estudantes da Universidade de Medicina de Yangon, enviado ao Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, em Haia, Holanda, no passado dia 11 de Fevereiro, onde são descritos vários episódios deste género. “Neste momento, as leis do Myanmar não conseguem proteger os manifestantes ou qualquer outra pessoa que se oponha ao regime militar uma vez que o sistema judicial caiu sob o controlo da junta militar. Esta é a razão pela qual recorremos ao Tribunal Internacional de Crimes de Guerra como a nossa última oportunidade de levar os nossos opressores armados à justiça”, lê-se no relatório divulgado nas redes sociais por membros da comunidade católica. O relatório exige ainda uma investigação independente aos actos das autoridades. Elizabeth Joseph defende que, em apenas 15 dias após o golpe de estado, já ocorreram actos de corrupção no Governo. "Só passaram
“Acreditamos que a união pode mudar as coisas. Não sei se faremos a diferença mas sentimos que esta é a forma que temos de expressar a nossa solidariedade” ELIZABETH JOSEPH FREIRA
duas semanas e eles já destruíram muitas coisas, tiraram dinheiro do país, estão a fazer coisas perigosas para o país. E nós, o povo do Myanmar, necessitamos que os nossos líderes fiquem em liberdade para que continuem o seu trabalho.”
Um movimento digital
Freddy Lynn é fotógrafo e é através da sua lente que tem sido retratada a presença dos católicos nas ruas contra os militares. “Não devemos ignorar os nossos direitos e a justiça para as futuras gerações”, defendeu. “Por isso é que temos de expressar as nossas
ideias, pois ficarmos em silêncio não está de acordo com a vontade de Deus.” Freddy, que também se encontra em Yangon, fala do importante papel das redes sociais e de como é fácil juntar as pessoas depois de vários anos de descontentamento. “A maior parte das pessoas do Myanmar, e da comunidade católica, sabe o que se passa e não precisamos de dizer muitas palavras, porque já sabemos o pior lado de uma ditadura militar. Não precisamos de falar muito para que as pessoas adiram ao movimento. A maior parte das pessoas protestam de forma pacífica, apenas caminhando nas ruas.” Nenhum dos amigos de Freddy Lynn foi, até agora, baleado. “Não temos medo de ir para as ruas e a nossa geração está a protestar de forma diferente, já não tem nada a ver com a revolução de 1988. Temos uma estratégia diferente, através das redes digitais. Há um movimento digital a acontecer, muitas pessoas podem não compreendê-lo, mas têm de aceitar. Protestamos em lugares específicos, como embaixadas ou os escritórios das Nações Unidas.” Como há este movimento digital os militares estão a impor restrições, como o corte da internet e a proposta de uma nova lei da cibersegurança, que levou várias câmaras de comércio com presença no país a assinarem um comunicado conjunto onde se expressa a “profunda preocupação colectiva” sobre a referida proposta. Ontem os militares restauraram a ligação à internet depois de um corte de oito horas. Também foi decretado o alargamento da prisão de Aung San Suu Kyi por mais dois dias. Questionado sobre a resposta da comunidade internacional, Dominican Koyin pede uma maior intervenção. “Isso também aconteceu em 1988. As pessoas não estão satisfeitas com as Nações Unidas e com a comunidade internacional porque pensam que vai acontecer o mesmo que antes, ou seja, que nada seja feito. As sanções não funcionam e na verdade não afectam os militares mas sim o povo.” Para Freddy Lynn, é difícil falar do futuro ou daquilo que poderá acontecer nas próximas semanas, mas a palavra de ordem é para continuar a lutar. "As pessoas só querem um governo democraticamente eleito. Elegemos a nossa presidente e o nosso governo representativo, por isso rejeitamos a junta militar. Mas é difícil falar da nossa situação, mas acredito que vamos vencer. Devemos lutar pela nossa democracia porque isto é para as próximas gerações”, rematou. Andreia Sofia Silva
4 política
No ano passado, as autoridades detiveram 29 indivíduos em 121 operações de combate à prostituição. Os números foram avançados em resposta a uma interpelação de Wong Kit Cheng, que lançou uma cruzada contra o fenómeno e aos panfletos pornográficos. A deputada pediu ainda a redefinição do conceito legal de pornografia
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CRUZADA GOVERNO PROMETE A WONG KIT CHENG COMBATE À PROSTITUIÇÃO
Fazer trabalho de campo uma grande perturbação para os moradores”, referiu a deputada.
O que é pornografia?
Outra das demandas da legisladora é a redefinição do conceito legal de pornografia. “Só a descrição de actos sexuais ou a exposição dos órgãos genitais é considerada como pornografia, por isso, não se pode recorrer a esta lei para sancionar a distribuição de panfletos pornográficos”, argumentou Wong Kit Cheng, em relação à falta de cobertura legal para proibir os panfletos que anunciam serviços de prostituição.
“Muitos encarregados de educação dizem que não sabem o que explicar aos filhos quando recebem panfletos pornográficos nas ruas, além disso, a prostituição nos bairros comunitários também constitui uma grande perturbação para os moradores.”
“N
A internet existem muitos websites e publicações com informações pornográficas, portanto, as autoridades devem seguir e recolher provas nestes websites e publicações, com vista a combater a prostituição em grupo e a evitar que os jovens acedam a essas informações através da internet. Já o fizeram?” A pergunta é de Wong Kit Cheng, numa interpelação em que apelou ao combate à prostituição e à distribuição de panfletos que denomina como pornográficos. A interpelação foi respondida pela chefe do gabinete do secretário para a Segurança, Cheong Ioc Ieng, que apontou que “desde o fim de 2018, a Polícia Judiciária faz inspecções online de combate ao recrutamento de menores para prostituição”. O responsável indica
que foram descobertos três anúncios de venda de substâncias usadas para dopar vítimas de abuso sexual, e que também foram investigadas publicações nas redes sociais a oferecer serviços de prostituição. A chefe de gabinete revelou que em 2020 foram detidas 29 pessoas na sequência de 121 operações de combate à prostituição, durante
as quais foram identificados 203 indivíduos. A resposta surge depois do apelo da deputada, que representa a Associação Geral das Mulheres de Macau na Assembleia Legislativa, no combate aos “problemas dos panfletos pornográficos e da prostituição nos bairros comunitários”. A imagem de Macau, enquanto
cidade turística, a segurança dos bairros e o pensamento dos jovens podem estar em risco, no óptica de Wong Kit Cheng. “Muitos encarregados de educação dizem que não sabem o que explicar aos filhos quando recebem panfletos pornográficos nas ruas, além disso, o problema da prostituição nos bairros comunitários também constitui
HO IAT SENG COMPROMETE-SE COM FIRMEZA NA RECUPERAÇÃO ECONÓMICA
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UMA mensagem de Ano Novo Lunar, o Chefe do Executivo garantiu que o Governo vai “trabalhar de mãos dadas” com os vários sectores da sociedade para “avançar nas adversidades”. “Vamos coordenar, com firmeza, as acções de prevenção e controlo da pandemia e as de recuperação económica e social, e envidar esforços na aceleração do desenvolvimento da diversificação adequada da economia”, disse Ho Iat Seng. O Chefe do Executivo prometeu também continuidade em
“elevar a capacidade de governação pública e de prestação de serviços”, com acções centradas no bem-estar da população.Além disso, deixou uma mensagem de agradecimento aos trabalhadores da linha da frente no combate à epidemia. O líder da RAEM descreveu que “a sociedade de Macau tem enfrentado, unida e solidária, as dificuldades, e a conjuntura socioeconómica mantém-se estável, em geral”. Por outro lado, Ho Iat Seng destacou as políticas de integração de Macau no desenvolvi-
mento do país e no sistema de governação nacional: o papel de plataforma da RAEM, a articulação com o Plano Quinquenal Nacional, a “dupla circulação” do país, bem como as estraté-
gias “Uma Faixa, Uma Rota” e a Grande Baía. O Chefe do Executivo afirmou que a implementação “firme e inabalável” dos princípios “um País, dois sistemas” e “Macau governado pelas suas gentes”, a par de um “alto grau de autonomia, solidariedade e espírito empreendedor”, ajudam a “vencer todas as dificuldades e desafios”. Para o Ano do Búfalo deixou ainda votos de “prosperidade e fortalecimento” à Pátria, e de “estabilidade e tranquilidade” S.F. à RAEM.
WONG KIG CHENG DEPUTADA
Cheong Ioc Ieng respondeu que tanto as alterações aos conceitos legais, como a reforma legislativa para punir penalmente a prostituição, carecem de consenso social, e que “as autoridades de segurança têm uma atitude de abertura” para as sugestões. João Luz com Nunu Wu
PME Chefe do Executivo visita estabelecimentos comerciais
O Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, visitou ontem vários estabelecimentos comerciais na península de Macau e na Taipa, nomeadamente junto às Ruínas de São Paulo, Rua Cinco de Outubro, Bairro Horta da Mitra e Rua do Cunha. Segundo o canal chinês da Rádio Macau, o governante visitou um restaurante situado no bairro Horta da Mitra, onde conversou com o proprietário e clientes, a fim de se inteirar da situação na zona e do ambiente de negócio. Em declarações aos jornalistas, Ho Iat Seng frisou que tem vindo a acompanhar a situação das pequenas e médias empresas (PME) em Macau, tendo os proprietários dos estabelecimentos comerciais transmitido que este está a ser um ano difícil para o negócio, depois da pandemia ter afectado todo o ano de 2020. A acompanhar o Chefe do Executivo estiveram o secretário para a Economia e Finanças, Lei Wai Nong, Tai Kin Ip, director dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico, e Helena de Senna Fernandes, directora dos Serviços de Turismo.
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A semana passada, foram encontrados mais três cadáveres de gatos no Iao Hon, aumentando para seis a contagem de animais encontrados mortos no bairro da zona norte da península numa semana. O presidente do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), José Tavares, garantiu que estes casos causam preocupação e que o Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) iniciou de imediato a investigação do caso. Sulu Sou pegou neste incidente para voltar a questionar a acção das autoridades e a eficácia punitiva da lei de protecção animal. Em interpelação escrita, divulgada ontem, aponta que apesar do CPSP ter revelado, no passado dia 11 de Fevereiro, ter encontrado suspeitas que justificaram abrir uma investigação, desde então não houve novidades. O deputado encontra neste caso um padrão de impunidade, face à falta de correspondência entre casos de abuso de animais revelados e condenações em tribunal. “Mais de quatro anos depois da entrada em vigor da Lei de Protecção dos Animais, a 1 de Setembro de 2016, além da necessidade de rever alguns aspectos do diploma, muitos casos de abandono e tratamento cruel não foram punidos. Os suspeitos de morte de animais acabam por não ser castigados, o que faz com que os cidadãos questionem e exijam maior eficácia e profissionalismo às autoridades na aplicação da lei”. O caso de um gato encontrado decapitado no ano passado, numa travessa perto do Hospital Kiang Wu, é mencionado na interpelação como exemplo de impunidade. O processo acabou por ser arquivado “porque as autoridades não conseguiram encontrar os responsáveis”. Como tal, o legislador pergunta que medidas específicas o IAM e o CPSP planeiam implementar para melhorar a eficácia da lei.
Problema arrastado
Sulu Sou refere também que desde que entrou em vigor a lei de protecção animal o abandono não diminuiu, de acordo com os relatos de responsáveis de
“Os suspeitos de morte de animais acabam por não ser castigados, o que faz com que os cidadãos questionem e exijam mais eficácia e profissionalismo às autoridades na aplicação da lei.” SULU SOU DEPUTADO
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ANIMAIS SULU SOU PERGUNTA PORQUÊ ABUSOS E ABANDONO NÃO SÃO PUNIDOS
Lei que ladra não morde Depois das macabras e recentes descobertas de gatos mortos no Iao Hon, Sulu Sou quer saber porque os abusadores são raramente punidos. O deputado pede explicações para a aparente falta de eficácia na aplicação da lei de protecção animal e para as garras pouco afiadas das autoridades associações e voluntários, fenómeno que resulta na reprodução de animais de rua. Porque razão as condenações por abandono animal têm sido tão baixas desde a implementação da lei? O deputado pergunta também se as autoridades conseguem evitar o “abandono legal”, ou “disfarçado”, quando os donos recorrem ao IAM alegando falta de condições para alimentar ou abrigar, de acordo com a disposição legal que obriga os serviços municipais a receber os animais nessa situação. O site do IAM dá conta de apenas três violações da lei por abandono de animais desde 2019. Sulu Sou recorda ainda que durante 2018 e 2019 o IAM encontrou 507 carcaças de gatos e 75 de cães, um nível de mortandade que não pode excluir casos de tortura e morte resultante de violência. Números que não se reflectem em condenações. João Luz com Nunu Wu
DSAMA Empresas de transportes marítimos sob pressão
No programa Fórum Macau, Susana Wong, directora da Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA), afirmou que as companhias de transporte marítimo enfrentam maior pressão operativa e económica, apesar dos apoios do governo de Hong Kong, dado que sofreu com o impacto da pandemia. De acordo com o canal chinês da Rádio Macau, a responsável indicou que manteve a comunicação com estas empresas durante a pandemia, período em que a linha marítima entre Hong Kong e Macau não foi retomada. Susana Wong espera que as linhas de transporte marítimo de passageiros, do Delta do Rio das Pérolas ou da Grande Baía possam ter um melhor desenvolvimento no futuro, acreditando que a linha do porto Jiuzhou para Macau, recentemente aprovada, seja lançada em breve. Por outro lado, explicou que o Reservatório de Seac Pai Van pode gerar 520 mil metros cúbicos por dia e como actualmente o pico de consumo de água é de 300 mil metros cúbicos diários, a capacidade de geração de água de Macau consegue dar resposta à procura no futuro.
Do mal o menos
MINISTÉRIO PÚBLICO ARQUIVOU PROCESSO CONTRA FILHAS DE AU KAM SAN
Macau recebeu quase 63 mil visitantes durante o Ano Novo Lunar
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NTRE quinta-feira da semana passada e segunda-feira, Macau recebeu 62.984 visitantes, o que equivale a uma quebra anual de 71,6 por cento, indicam dados provisórios dos Serviços de Turismo. Mais de 90 por cento de quem visitou o território nos feriados do Ano Novo Lunar vieram do Interior da China. A diferença em comparação ao ano passado foi diminuindo à medida que os dias do Ano Novo Chinês foram passando. Na segunda-feira registaram-se 15.214 visitantes, menos 43,9 por cento em termos anuais. O dia que atraiu mais visitantes foi domingo, quando entraram mais de 17 mil pessoas na RAEM. Nesse dia – à semelhança dos restantes – a maioria dos turistas chegou pelas Portas do Cerco, seguindo-se o posto fronteiriço de Hengqin.
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Num contexto de restrições fronteiriças por causa da prevenção da pandemia de covid-19 e em que as autoridades chinesas desaconselharam viagens para o exterior, por enquanto, os números ficam abaixo da estimativa do Governo. Recorde-se que a directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, disse na semana passada que previa uma média diária entre 16 e 20 mil pessoas nos sete dias do ano novo, num máximo de 100 pessoas.
Mais de 660 dúvidas
Entre as 8h de segunda-feira e as 8h de ontem, o Centro de Coordenação de
Contingência do Novo Tipo de Coronavírus recebeu 170 pedidos de informação ou esclarecimentos, a maioria dos quais sobre o código de saúde, testes de ácido nucleico, medidas de isolamento, serviços médicos e vacinas. Desde a manhã de dia 11 deste mês, houve no total 663 pedidos de informação relacionados com a epidemia. Por outro lado, o Centro de Coordenação comunicou que a partir de segunda-feira foram canceladas as medidas de observação médicas e autogestão de saúde para os indivíduos que nos 14 dias anteriores à entrada em Macau tenham estado no subdistrito de Waitan, na Rua da Estrada Leste de Nanjing, na Vila de Youyilu ou no distrito de Angangxi. Salomé
Fernandes
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Sentar não é crime
O processo contra Cherry e Christy Au, suspeitas de reunião ilegal, foi arquivado pelo Ministério Público. O pai, o deputado Au Kam San, considera que a decisão foi “justa” mas indica que ainda não receberam confirmação oficial
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Ministério Público (MP) indicou ao HM que arquivou o processo contra as filhas do deputado Au Kam San, que estavam a ser investigadas por reunião ilegal.Apesar de o
deputado indicar que a família ainda não recebeu informação oficial deste desfecho, mostrou-se satisfeito. “A polícia acusou-as por crimes que não cometeram, é ridículo. O MP tomou a decisão justa porque confirmou a impossibilidade
de duas pessoas se sentarem e tirarem fotografias na zona da Igreja de São Domingos consistir numa reunião ilegal”, reagiu o deputado, em declarações ao HM. O caso remonta a 4 de Junho, data em que Cherry
IAM quer regulação sobre “take-away” este ano José Tavares, presidente do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), frisou que vai lutar para acabar a legislação que prevê a inscrição obrigatória de lojas de “take-away” dentro deste ano. Segundo o jornal Ou Mun, o responsável sugere a proibição de restaurantes “take-away”
de habitações e que se regulem as condições higiénicas dos espaços onde são instalados. Actualmente, Macau tem cerca de 2000 lojas de take-away e José Tavares apontou que a sua inspecção não difere da que é feita aos restaurantes regulares.
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“O MP tomou a decisão justa porque confirmou a impossibilidade de duas pessoas se sentarem e tirarem fotografias na zona da Igreja de São Domingos consistir numa reunião ilegal”
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AU KAM SAN DEPUTADO
pelas autoridades com as circunstâncias de controlo da propagação da covid-19, apesar de na altura já não registar qualquer infecção no território. Realizou-se apenas uma vigília dentro de portas, na sede da União para o Desenvolvimento para a Democracia (UDD), na qual marcaram presença cerca de nove pessoas, e que foi transmitida pela internet. Perto das 22h30, Cherry e Christy Au encontravam-se sentadas perto da Igreja de Santo Agostinho, com uma imagem de tanques alusiva a Tiananmen entre si, e duas velas electrónicas. Acabaram por ser levadas numa carrinha da polícia para uma esquadra, e por tornar-se suspeitas de reunião ilegal.
Caso estacionado
e Christy Au foram detidas quando estavam no Largo de São Domingos com duas velas electrónicas e uma imagem do ‘homem do tanque’. “Ainda não recebemos a notificação de arquiva-
mento, não sabemos se é verdadeira, só ouvimos boatos que alegam o arquivamento, sem provas. Segundo a prática correcta, quando o MP decide o arquivamento deve informar as partes”, declarou Au Kam
San. No entanto, o deputado admitiu a possibilidade de a comunicação ainda não ter ocorrido por causa dos feriados que se seguiram depois dos dias em que os jornalistas consultaram o Ministério Público.
O ano passado foi a primeira vez em que o 4 de Junho não foi assinalado em Macau, em 30 anos, dado que a habitual vigília em memória do massacre de Tiananmen foi proibida. A decisão foi justificada
O MP arquivou também o processo relativo a um autocarro que circulou pela cidade, em apoio à Lei da Segurança Nacional em Hong Kong. “Uma vez que não foram recolhidas evidências suficientes para as acusações relevantes na investigação, o Ministério Público arquivou os dois casos mencionados”, respondeu o MP. No dia seguinte, a 5 de Junho, um grupo de cerca de 50 pessoas deslocou-se de autocarro pela cidade, mostrando apoio à implementação da Lei da Segurança Nacional em Hong Kong. Depois de as autoridades terem chegado a declarar que o evento não era considerado uma manifestação mas sim uma actividade de natureza igual à de uma parada, o Corpo de Polícia de Segurança Pública acabou por entregar o caso ao Ministério Público por suspeitas de violação da Lei do direito de reunião e de manifestação. Em causa estava a falta de aviso prévio às autoridades. S.F. e N.W.
Maré vermelha em Hac Sá e Cheoc Van
A Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) comunicou que na tarde de ontem foi detectada uma maré vermelha nas praias de Hac Sá e Cheoc Van, tendo os cidadãos nos locais sido avisados para não entrarem na água. O organismo ergueu bandeiras vermelhas nas duas praias e notificou os Serviços de Protecção Ambiental e o Instituto de Assuntos Municipais.
Imigração Número de ilegais desceu
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%
Vong Man Chong, director-geral dos Serviços de Alfândega (SA), disse ontem no programa Fórum Macau, transmitido pelo canal chinês da Rádio Macau, que, em 2020, foram detectados 73 casos de imigração ilegal, o que representa uma quebra de 40 por cento face a 2019. O responsável falou da importância do sistema de videovigilância inteligente para o combate a este tipo de crime. Isto porque, desde Junho de 2020, data em que começou a ser utilizado, ajudou na detenção de 157 imigrantes ilegais só na segunda metade do ano, um aumento de 54 por cento face ao primeiro semestre de 2020. Vong Man Chong adiantou ainda que, em 2020, os SA realizaram 41 operações de combate ao crime de contrabando, tendo sido iniciados 310 processos. Foram confiscadas mercadorias no valor de 76 milhões de patacas.
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ARQUITECTURA PROJECTO DE SIZA VIEIRA E CASTANHEIRA NA CHINA FINALISTA DOS PRÉMIOS ARCHDAILY
Distinção em Ningbo
O MoAE - Museu de Arte e Educação, projecto pelos arquitectos portugueses Álvaro Siza Vieira e Carlos Castanheira na cidade de Ningbo, China, inaugurado em Novembro, é um dos finalistas ao prémio Edifício do Ano 2021 da Archdaily
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M u s e u de Arte e Educação de Ningbo, na costa leste da China, do arquitecto Álvaro Siza Vieira com Carlos Castanheira, é um dos finalistas ao prémio Edifício do Ano 2021, anunciado pela Archdaily. O projecto encontra-se entre os cinco
nomeados na categoria Arquitectura Cultural, uma das 15 que compõem os prémios da plataforma internacional de arquitectura, e é o único de arquitectos portugueses entre os candidatos, nesta edição. Os vencedores serão escolhidos por votação dos membros registados na plataforma, até ao próximo
dia 18, e anunciados ‘online’ nesse mesmo dia. O museu, situado junto ao Lago Dongqian, tem cerca de seis mil metros quadrados e foi inaugurado no passado mês de Novembro. Em vez de escadas, o edifício, com uma altura de 25 metros, tem uma rampa sem barreiras a ligar os
cinco andares e é iluminado apenas por janelas situadas no rés-do-chão e no topo do museu. Numa entrevista concedida ao HM em Dezembro do ano passado, o arquitecto Carlos Castanheira explicou como arrancou este projecto. “Recebemos um convite para fazer cinco vilas. O
programa já existia, o senhor já tinha um outro museu no centro da cidade, onde tinha parte da sua colecção. Mas como ele está ligado à educação, pois tem uma série de colégios, queria que através da arte se fizesse educação, e daí o MoAE.” O MoAE acabou por ser um projecto semelhante a
um outro já feito por Siza Vieira no Brasil. “Neste caso era muito claro que o espaço existente era relativamente pequeno para o programa que o cliente pretendia, daí ser necessário colocá-lo em altura, com alguns pisos. Depois tivemos a sorte de ter uma colina com muita presença. Esse programa
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O fim do esquecimento
Inéditos de Marcel Proust editados em França a 18 de Março
A
S Edições Gallimard vão publicar, no dia 18 de Março, “Les Soixante-quinze feuillets”, inéditos de Marcel Proust, esquecidos durante meio século, que prefiguram a obra “Em busca do tempo perdido”. O editor Bernard de Fallois, que morreu em 2018, já em 1954 tinha anunciado os escritos no prefácio que redigiu para a obra de Proust “Jean Santeuil”, agora classificados pela Gallimard como “um Graal Proustiano”. Quase meio século depois de investigações, os manuscritos foram descobertos nos arquivos de Fallois. Entre os documentos apresentados por Suzy Mante-Proust em 1949, sobrinha de Marcel e filha de Robert Proust, figuravam igualmente “Le mystérieux correspondant et autres nouvelles inédites”, também de Proust e publicada pouco depois da morte de Fallois.
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era muito parecido com um outro que o Siza Vieira já tinha feito no Brasil, e foi possível usar algumas dessas experiências neste projecto. Mas este não é o mesmo do Brasil”, disse Carlos Castanheira.
Outros museus na corrida
O MoAE concorre ao lado de espaços culturais como o Museu Audemars Piguet, em Le Brassus, na Suíça, um projecto conjunto dos ateliês BIG, Bjarke Ingels Group, Brückner e CCHE, com o centro chinês de Arte de Qujiang, em Xi’an Shanxi, projetado pelo ateliê Gad, de Hangzhou, com o edifício Experimenta, em Heilbronn, na Alemanha, do ateliê Sauerbruch Hutton, de Berlim, e com o MEETT - Centro de Congressos e Exposições de Toulouse, projetado pelo gabinete OMA, de Rem Koolhaas, em Roterdão, que também concebeu o edifício da Casa da Música, no Porto. O museu, situado junto ao Lago Dongqian, tem
Em vez de escadas, o edifício, com uma altura de 25 metros, tem uma rampa sem barreiras a ligar os cinco andares e é iluminado apenas por janelas situadas no rés-do-chão e no topo do museu cerca de seis mil metros quadrados e é um projecto do grupo privado chinês Huamao Group. O presidente deste grupo, Xu Wanmao, convidou Álvaro Siza para a liderança da obra, depois de visitar o Museu de Serralves, que Prémio Pritzker desenhou, no Porto. Os prémios Edifício do Ano da Archdaily são atribuídos em categorias de comércio, cultura, desporto, educação, hotelaria, saúde e indústria, em arquitetura
de interiores, arquitectura paisagística e de espaços públicos, em edifícios de escritórios, de habitação, em moradias, edifícios religiosos e em projectos de pequena escala/pequenas instalações. É ainda distinguida a melhor aplicação de materiais. Os 75 finalistas - cinco em cada categoria -, para esta 12.ª edição, foram escolhidos por votação dos membros da ArchDaily, entre 26 de Janeiro e 10 de Fevereiro, a partir dos 4500 projectos submetidos e publicados na plataforma, ao longo de 2020. Os finalistas podem ser vistos em https://boty.archdaily.com/ us/2021. A ArchDaily - Plataforma, com base em Nova Iorque, foi criada em 2008, reúne profissionais das áreas da arquitectura, design, construção e meios de comunicação especializados, dos diferentes continentes. Andreia Sofia Silva com LUSA
Anteriores a “Contre Saint-Beuve”, “Les Soixante-quinze feuillets” formam um texto e podem ser lidos como um todo. Terão sido escritos em 1908 e configuram as primeiras recolhas de “Em busca do tempo perdido”. Alguns nomes de personagens encontrados nesta obra já aí eram mencionados.
Prefácio pelo biógrafo
O primeiro capítulo destes folhetins, ”Uma tarde no campo”, centra-se em torno da avó de um grande narrador e as primeiras frases dão o tom: “Tínhamos trazido as preciosas poltronas de vime para a varanda porque tinham começado a cair algumas gotas de chuva e depois
de terem lutado alguns segundos nas cadeiras de ferro os meus pais vieram sentar-se no abrigo. Mas a minha avó, com os seus cabelos grisalhos ao vento, continuava a sua caminhada rápida e solitária porque ela pensava que nós estávamos no campo para apanhar ar e era uma pena não o aproveitar”. O livro foi reunido por Nathalie Mauriac e tem prefácio do biógrafo de Proust, Jean-Yves Tadié. Bernard de Fallois foi também o responsável pela revelação de um romance inédito do escritor, redigido entre 1895 e 1899, “Jean Santeuil”, publicado pela Gallimard em 1952, assim como pela edição de “Against Sainte-Beuve”, em 1954. Este ano assinala-se os 150.º aniversário de Proust, estando prevista, para o outono de 2022, uma “grande exposição” na Biblioteca Nacional de França, para marcar o centenário da sua morte.
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17.2.2021 quarta-feira
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COVID-19 NEW YORK TIMES ACUSADO DE FALSIFICAR DECLARAÇÕES SOBRE ORIGEM DO VÍRUS
Jornal, mentiras e vírus
P
ROFISSIONAIS de uma equipa da Organização Mundial da Saúde (OMS), que concluíram sua missão de rastreamento da origem da COVID-19 na China, denunciaram o The New York Times por uma reportagem controversa, enfatizando que os seus colegas foram "selectivamente mal citados" e a história não é verdadeira. "Esta não foi a minha experiência na missão da OMS. Como líder do grupo de trabalho animal/ambiental, encontrei confiança e abertura nos meus colegas da China. Nós tivemos acesso a novos dados críticos durante todo o tempo e aumentámos a nossa compreensão dos caminhos prováveis de propagação", esclareceu Peter Daszak, membro da equipe da OMS, no Twitter depois de ser citado pelo The New York Times. O notícia acusou cientistas chineses de se recusarem a partilhar dados importantes sobre os primeiros dias da pandemia COVID-19, citando investigadores independentes da OMS. A equipa internacional, tendo terminado seu trabalho em Wuhan, na China, foi composta por especialistas da Austrália, Dinamarca, Alemanha, Japão, Holanda, Qatar, Rússia, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Vietnãame. A equipa também inclui especialistas da OMS e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura e da
Organização Mundial da Saúde Animal. No relatório, Daszak disse que sua viagem foi emocionalmente desgastante ao entenderem o trauma dos primeiros dias da pandemia. Thea K. Fischer, a epidemiologista dinamarquesa da equipa, também refutou imediatamente a reportagem, que acusou de "distorcer intencionalmente" as observações dos entrevistados e lançar "sombras sobre importantes trabalhos científicos". "Esta não foi a minha experiência nem no lado epidemiológico. Construímos um bom relacionamento na equipa epidemiológica chinesa/internacional. Permitir discussões acaloradas reflecte um profundo nível de empenhamento na sala", explicou no Twitter. Ecoando a raiva de Fischer, Daszak tuitou numa nota de resposta: "Ouça! Ouça! É decepcionante
passar tempo com jornalistas explicando as importantes descobertas do nosso exaustivo trabalho de um mês na China, para acabar vendo os nossos colegas, selectivamente mal citados, serem encaixados numa narrativa que foi prescrita antes do início do trabalho. Que vergonha @New York Times!" Outros especialistas em saúde também expressaram as suas opiniões sobre o incidente, pedindo confiança e respeito mútuos à cooperação internacional na pesquisa de COVID-19. "A colaboração é sobre confiança e respeito mútuos. Se não existe isso, ninguém vai partilhar dados. Como cientistas da EID, precisamos urgentemente descartar a porcaria política. Espero que haja boa vontade pessoal duradoura, suficiente para nós procedermos efetivamente..." tuitou Hume Field, um
conselheiro científico e político da EcoHealthAlliance em Nova Iorque. A equipa internacional apresentou as suas descobertas iniciais descartando a hipótese de que o vírus escapou de um laboratório. A equipa está a trabalhar num relatório resumido, previsto para ser publicado nesta semana, enquanto um relatório final completo será publicado nas próximas semanas, de acordo com Tedros Adhanom Ghebreyesus, director-geral da OMS. O chefe da OMS explicou que a missão alcançou uma melhor compreensão dos primeiros dias da pandemia, e identificou áreas para análise e pesquisa posteriores. "Sempre dissemos que, essa missão não encontraria todas as respostas, mas adicionou informações importantes que nos aproximam da compreensão das origens do vírus", acrescentou. O rastreamento da origem da COVID-19 é "uma questão científica complexa envolvendo muitos países e regiões", e deve ser realizada por cientistas globais com colaboração, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Wenbin, no início da semana passada. "O governo chinês tem dado forte apoio e assistência para a visita da missão da OMS à China, como parte da cooperação global de estudos de rastreamento de origens", observou ele, enfatizando que a China manterá abertura, transparência, estreita comunicação e cooperação com a OMS.
VACINAS PEQUIM DOA 200 MIL DOSES AO ZIMBABUÉ
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Zimbabué recebeu uma doação de 200.000 vacinas contra a covid-19, fabricadas pelo Sinopharm, propriedade do Estado chinês, tornando-se o terceiro país em África, depois do Egipto e da Guiné Equatorial, a adquirir o medicamento. “O primeiro lote de vacinas para o Zimbabué foi entregue com sucesso - começamos a vacinar os zimbabueanos esta semana”, disse o Presidente do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, numa mensagem publicada na sua conta da rede social Twitter. “Quanto mais depressa o nosso país estiver protegido contra este vírus, mais depressa a economia do Zimbabué pode florescer”, acrescentou Mnangagwa.
A televisão estatal acompanhou em directo a descarga das caixas contendo as vacinas Sinopharm, que chegarem ao aeroporto de Harare após um voo nocturno a partir de Pequim. O embaixador da China em Harare, Guo Shaochun, disse que a doação estava de acordo com a “amizade dedicada” dos dois países. O Zimbabué é um dos três países africanos, incluindo o Egipto e a Guiné Equatorial, que até agora beneficiaram de uma primeira vaga de doações de vacinas chinesas aos países em desenvolvimento. Os trabalhadores da saúde, funcionários da imigração e pessoal das casas funerárias estarão entre os primeiros zimbabueanos a serem vacinados.
O país quer vacinar pelo menos 10 milhões dos seus 15 milhões de pessoas para alcançar a chamada “imunidade de grupo”, embora ainda não sejam claros os pormenores sobre como atingir esse ambicioso objectivo. O ministro das Finanças do Zimbabué, Mthuli Ncube, disse que o país vai comprar pelo menos 1,8 milhão de vacinas à China. Harare também se inscreveu para receber mais de 1,1 milhão de vacinas através da Covax, uma iniciativa desenvolvida pela Coligação para a Inovação na Preparação contra Epidemias (CEPI), a Aliança Global para as Vacinas (GAVI) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) que trabalha para um acesso equitativo
à vacina em todo o mundo. Também espera obter mais três milhões de injecções através de uma plataforma da União Africana (UA). Os países africanos, com pouco músculo financeiro e dependentes de vacinas desenvolvidas fora do continente, são lentos a vacinar as suas populações e espera-se que as doses comecem a chegar em maiores quantidades em finais de 2020 e 2021. O Zimbabué, tal como outros países africanos, registou inicialmente um baixo número de casos de covid-19, mas recentemente sofreu um surto que começou a alarmar a elite política. No mês passado, o país perdeu os ministros dos Negócios Estrangeiros e dos Transportes devido à doença.
O pico das infeções foi atribuído ao regresso de milhares de trabalhadores migrantes zimbabueanos durante as férias de Natal da vizinha África do Sul, o epicentro da pandemia em África e também à luta contra uma variante local do vírus. Até domingo, o Zimbabué tinha contado pouco mais de 35.000 casos e 1.400 mortes causadas pelo coronavírus. África regista 3.750.266 infetados e 98.480 mortos devido à covid-19, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC).
Martin Lee
Hong Kong Activistas no banco dos réus por organizarem manifestação
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ÁRIOS activistas proeminentes da luta pró-democracia em Hong Kong compareceram em tribunal, acusados de organizar uma das maiores manifestações de 2019, em protesto contra a lei da extradição. Entre os nove arguidos, encontram-se algumas das personalidades mais respeitadas da antiga colónia britânica, incluindo o advogado Martin Lee, de 82 anos, que há décadas foi escolhido por Pequim para redigir a Lei Básica, o texto que serve de mini-constituição na região semi-autónoma. Também acusados estão a antiga deputada da oposição Margaret Ng, uma advogada de 73 anos, e o magnata dos media Jimmy Lai, que se encontra actualmente em prisão preventiva, por acusações separadas ao abrigo da lei da segurança nacional. Vários são figuras de destaque na Frente Civil pelos Direitos Humanos, a coligação que organizou as maiores manifestações em 2019, quando a cidade viveu a sua pior crise política desde a entrega em 1997, com ações e mobilizações quase diárias. Quando os arguidos entraram no tribunal, vários activistas fizeram a saudação com três dedos, um gesto que se tornou um símbolo da luta contra o autoritarismo na Ásia. O grupo, que enfrenta até cinco anos de prisão, é acusado de organizar em 18 de Agosto de 2019 a segunda maior manifestação em sete meses de protesto. Os organizadores tinham estimado uma participação de 1,7 milhões de manifestantes, que representariam quase um quarto da população de Hong Kong, um número que não pôde ser verificado de forma independente.
diário de um editor
JOÃO PAULO COTRIM
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SANTA ÂNCORA, LISBOA, UM DIA QUALQUER DE FEVEREIRO Não terá sido sonho, dos de acender vigílias, menos ainda pesadelo, dos de pesarem na respiração. Foi só vaga ideia, discutida ainda assim naquela base do tóxico «e se?», que logo tende a transformar-se em pueril «não és homem não és nada!». Passados tantos anos quase dói esta relembrança. Era para ser jornal impresso de distribuição gratuita sobre a internet, mais carta de navegação que outra coisa qualquer, um diagrama em progresso, quanto muito manual de instruções ou relato de viagens. Desvantagens de nativo da floresta de fibras do papel em caçada aos pixeis. Como fixar o movediço? Ou melhor, para quê? Desconfiança do imaterial, talvez. Fascínio por mapas, com certeza. Nestes dias de nojo habitável, se custa aguentar as jeremíadas dos clássicosmédios abrigados e alimentados e ligados pela tomada do umbigo, também se encontram nos territórios do entrelaçamento motivos de alegria. Entra aqui a banda sonora das próximas linhas, projecto velho de mais do que uma década. Tudo começa na pele do tambor. Kutiman, nome de guerra do israelita Ophir Kutiel, resolveu que se podia tocar com pessoas, mais do que instrumentos e sintetizadores e a panóplia completa do deejaying contemporâneo. Foi com uma batida que se atirou ao oceano imenso dos vídeos do youtube, o maior dos espelhos. O resultado foi este magnífico atravessamento das gentes e vozes próprias: http://www.thruyou-too.com/#!/ A improvável orquestra produz música dançável e até comovente, mas os cenários, as roupas, as situações, as origens, enfim, as partes em que queiramos partir a obra fazem do conjunto um dos mais brilhantes testemunhos da época. E inspiradores, que sacrifico com facilidade ao entusiasmo. A doença da pandemia vai tendo gravosas consequências, mas a criatividade ainda nos insufla. Será mais respiração boca-a-boca, mas ainda assim. O Lux Frágil (https://www. facebook.com/luxfragil), navio que soube sempre viajar atracado, foi dos pioneiros na reinvenção dos encontros. Mas nos últimos dias produz um dos inúmeros diários que infestam o éter. Nem me preocupei com a autoria, que acaba sendo o lugar. Portanto aquele que se assina, é o L. e produz as mais elegantes e bem humoradas piscadelas de olho ao humano sob quietude obrigatória. Os pés que dançavam agora arrastam-se. «Dia 409 de 2020. podes fazer um cocktail, podes fazer um molotof, não podes fazer um cocktail molotov; podes fumar e podes beber, podes fumar antes de beber, não podes fumar depois de beber; podes cruzar-te com o amor da tua vida sem sair de casa, não podes sair de casa à procura do amor. // a vossa casa é o vosso mundo. a minha voltará a ser.» A cada leitura estou na varanda de copo na mão em boa companhia. O aforismo desde tempos imemoriais que se vem fazendo meio de transporte. O Rui
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Cá dentro do lá fora
RUI VITORINO SANTOS
quarta-feira 17.2.2021
Vitorino Santos (https://www.facebook.com/ rui.v.santos.5) há meses que arranca páginas do seu caderno, mas que se tem revelado um bairro enorme, que digo, uma cidade. Anda na contrafacção de selfies de figuras diversas da urbanidade, que se dizem em pose. Cada corpo apresenta-se com apêndice, a fala como membro. Imagem a figura que diz: «Estou neste momento empenhada num projecto pessoal que conto lançar no dia do meu aniversário». (Outro exemplo na página). Mais melancólica que cómica, desenha-se por ali uma sociologia da afirmação, corpos quase sempre nus em entrega e encenação. O que queres ser quando continuares do mesmo tamanho?
A DOENÇA DA PANDEMIA VAI TENDO GRAVOSAS CONSEQUÊNCIAS, MAS A CRIATIVIDADE AINDA NOS INSUFLA O Filipe Homem Fonseca tem tido uma vida cheia e vertiginosa, donde estas «Memórias da Lua Lenta» (https://www.facebook. com/media/set/?vanity=fhfonseca&set =a.10157828636158208). Em hilariante delírio está sempre a cruzar-se no tempo e nos espaços
com estrelas desse lugar extraterrestre chamado pop. Extrema atenção à oralidade, a invocação do que está condenado a não existir para além do presente, um levantamento arqueológico que no fundo lá no fundo é de pesos pesados em ambiente sem gravidade. «O Rod Stewart lembrou-se de fazer uma caracolada no intervalo das gravações do videoclip do "Sailing" em Peniche, e o Paul McCartney, que estava lá de férias, desatinou porque achava um desperdício estar-se numa zona pesqueira a comer caracóis. Ligou-me a perguntar se eu podia passar com a carrinha pão de forma à porta da pensão onde ele estava hospedado para carregar dois quilos de petinga e ir ter com o Rod. No caminho, começou-me com a conversa de que o Everton tinha sido roubado pelo árbitro mas eu disselhe: "Eia, Paul, se é para falares de bola, ficas já aqui." Parei à beira de uma estrada de terra batida e ele foi-se embora, todo ofendidão. Mas deixou a petinga. / Fui ter com o Rod Stewart e estivemos a comer caracóis e a beber rosé até às tantas. Acabámos por adormecer todos, eu, o Rod, e a equipa de filmagens, nas traseiras da pão de forma. / Com a petinga fizemos omoletes na manhã seguinte, foi o nosso pequenoalmoço. Eram dois quilos, ainda se estragou peixe.» O culto da personalidade tem os dias contados. Aqui. (continua)
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XUNZI
De modo a poderem viver, as pessoas devem estar em comunidade. Se formarem comunidades, mas lhes faltarem divisões sociais, pelejarão entre si. Se pelejarem entre si, haverá caos e, se houver caos, encontrar-se-ão empobrecidas. Assim, a falta de divisões sociais é o pior dos males e a existência de divisões sociais é o benefício fundador do mundo. O senhor dos homens é o eixo e o ponto crucial do controlo das divisões sociais. Assim, venerá-las é venerar a raiz do mundo. Torná-las seguras é tornar segura a raiz do mundo. Honrá-las é honrar a raiz do mundo. Outrora, os antigos reis dividiram as pessoas e lhes atribuíram diferentes estatutos. Desse modo, fizeram com que alguns fossem elogiados e outros desprezados; com que alguns fossem fartamente providos e outros magramente providos; com que alguns vivessem em facilidade e lazer e outros em labor e esforço. Não fizeram isto para ganharem uma reputação de perversidade ou arrogância, nem para engrandecimento próprio. Fizeram-no de modo a tornar claras as formas apropriadas de ren [humanidade] e de modo a promover o funcionamento desimpedido de ren. Assim, criaram entalhes e embutidos, insígnias e padrões, tornando-os suficientes para distinguir nobres e plebeus. Não o fizeram para que dessem nas vistas. Criaram instrumentos de percussão, instrumentos de cordas e instrumentos de sopro. Fizeram-nos
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17.2.2021 quarta-feira
ELEMENTOS DE ÉTICA, VISÕES DO CAMINHO
O Enriquecimento do Estado
suficientes para distinguir o auspicioso do funesto, para juntar as pessoas em alegria e estabelecer harmonia. Não buscaram nisso qualquer outra coisa. Criaram palácios e casas, terraços e pavilhões. Fizeram-nos suficientes para abrigarem do calor e da chuva, para nutrir a virtude [dé 德 ]das pessoas e para distinguir os humildes dos eminentes. Não buscaram nisso qualquer outra coisa. As Odes dizem: Os seus emblemas são feitos de fino entalhe. Na sua feitura entram ouro e jade. Magnânimo, magnânimo é o meu Rei! E todo o mundo vai rectificando. Isto exprime o que quero dizer. Quanto a poder usar roupas de muitas cores, comer pratos de muitos sabores, controlar muitos recursos e bens e reunir a todos debaixo do Céu, sendo deles senhor – estas são coisas de que se dispõe não para se dedicar a perversidade e arrogância mas porque, na sua origem, estas coisas servem o propósito de se reinar como verdadeiro rei sobre todos quantos vivem debaixo do Céu. Na tentativa de trazer ordem à miríade de mutações, de usar a miríade de coisas, de nutrir a miríade de coisas e controlar todos debaixo do Céu, nada é melhor do que a bondade da pessoa que possui ren. Assim é porque a sua sabedoria e deliberações bastam para ordenar as pessoas, a
PARTE III
sua generosidade basta para as consolar e a sua reputação virtuosa basta para as transformar. Se o obtiverem, haverá ordem. Se o perderem, haverá caos. O povo comum deveras depende da sua sabedoria. E assim se guiam uns aos outros, esforçando-se laboriosamente para lhe proporcionarem aprazibilidade, de modo a que nutra a sua sabedoria. E deveras admira a sua generosidade. Assim, sairá a morrer para o poder proteger e salvar, de modo a que nutra a sua generosidade. E deveras admira a sua virtude. Assim, executará entalhes e embutidos, insígnias e padrões para o poder adornar, de modo a que nutra a sua virtude. Quando uma pessoa de ren serve na qualidade de superior, o povo comum o honra como a Shang Di, o ama como a seus próprios pais e alegremente sairá a morrer por ele. Não há outra razão para isto a não ser que aquilo que consideram louvável nele é deveras bom; que aquilo que dele obtêm é deveras excelente; que as formas em que dele beneficiam são deveras incontáveis. As Odes dizem: Aos ombros acartámos carga, com as mãos puxámos carroças, Enchemos vagões e com bois os puxámos. Como nosso trabalho aqui está feito, A nossas casas agora regressaremos. Isto exprime o que quero dizer.
Xunzi (荀子, Mestre Xun; de seu nome Xun Kuang, 荀況) viveu no século III Antes da Era Comum (circa 310 ACE - 238 ACE). Filósofo confucionista, é considerado, a par do próprio Confúcio e Mencius, como o terceiro expoente mais importante daquela corrente fundadora do pensamento e ética chineses. Todavia, como vários autores assinalam, Xunzi só muito recentemente obteve o devido reconhecimento no contexto do pensamento chinês, o que talvez se deva à sua rejeição da perspectiva de Mencius relativamente aos ensinamentos e doutrina de Mestre Kong. A versão agora apresentada baseia-se na tradução de Eric L. Hutton publicada pela Princeton University Press em 2016.
quarta-feira 17.2.2021
divina comédia
NUNO MIGUEL GUEDES
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ARTES, LETRAS E IDEIAS
É carnaval ou percebi mal ?
Olhem, amigos: está um dia doce, de um azul suave e uma daquelas temperaturas que parecem carícias ternas e castas. Da minha janela entrevejo uma nesga de rio, que como de costume corre indiferente às alegrias e angústias do mundo, seguindo o seu curso com a certeza de que ninguém o irá confinar. Está, portanto, um dia perfeito para a contemplação e para a agrafia serena, uma pausa merecida na batalha ininterrupta destes tempos. Para ser sincero, apetecia-me desfrutar o que se me oferece em silêncio, sem necessidade de tropeçar nas palavras que eu próprio tenho de alinhar. Oh, a doçura do ócio, a vertigem da tranquilidade, a…E foi nesta altura que alguém me lembrou que estávamos no Carnaval. Percebam: a irritação que tenho com esta quadra é já antiga e forte demais para a conseguir ignorar, até em numa época estranha como a que vivemos. Este “adeus à carne” (do latim tardio carne vale e que alegadamente é a etimologia da palavra) e que antecipa por excesso a austeridade da Quaresma nunca me interessou. A razão é simples: não consigo compreender uma selecção de dias em que a maior ambição da Humanidade é obrigar-se a estar alegre e mascarado de minhota. Mesmo em criança aderia à coisa de forma resignada para que os meus pares continuassem a considerar-me. Infelizmente as provas fotográficas desta afirmação ainda existem e foi sem surpresa que redescobri o Zorro mais melancólico de sempre ou o cowboy com o maior tédio a oeste de Pecos. Escusam de vir com explicações religiosas ou antropológicas do fenómeno: estou-me nas tintas mas aparentemente não o suficiente. Talvez se vivesse num país onde a tradição carnavalesca fosse forte e ansiada, como é o caso do Brasil. Mas não: vivo num país onde o Carnaval consiste em recriar o sambódromo sob temperaturas abaixo dos 10ºC, enquanto a genuína Escola de Samba Bota-Aí-NoCangaço da Bairrada de Baixo executa as suas tiritantes coreografias. Não me levem a mal: eu respeito quem gosta e pratica. Tenho muitos amigos (olá,Alcobaça!) que fazem desta data magníficas super-produções de disfarces e alegria durante dias sem dormir. Quase que tenho inveja. Mas não tenho. Este ano, pelas circunstâncias que sabemos, pensei que a coisa ficasse adiada. Mas ao que parece subestimei a tremenda força de vontade dos foliões e foi assim que soube, estupefacto, que o Carnaval iria ter uma variante online. A sério: pessoas que terão gasto horas preciosas das suas vidas a mascararem-se para em seguida se colocarem em frente a um computador. Foi assim em Torres Vedras mas suspeito que esta versão Zoom da folia teve seguidores um pouco por todo o lado. De repente, amigos, voltei a transformarme no Zorro triste que fui em criança. Continuo a não perceber. Apenas fiquei a ansiar ainda mais as penitências da Quaresma. Bem preciso.
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7 3 9 1 5 0 6 8 0 5 2 7 9 4 4 6 1 7 3 8 2 14 2 4[f]3utilidades 0 1 6 9 1 9 0 3 8 4 5 6 2 8 5 4 3 7 9 5 7 6 0 2 1 5 7 2 9 6 1 8 T0E M I T O3 8 P6O 4 M2U 5 3 1 4 8 9 7 0
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SOLUÇÃO DO PROBLEMA 30
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PROBLEMA 31
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CINETEATRO
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4 8 0 1 5 2 1 ASSASSIN 6 3 IN 8 4 0 0 RED [C]3 4 FALADO EM PUTONGHUA 54 LEGENDADO 23 7 EM9CHINÊS6 3 E INGLÊS Yang 1 95 Um46filme6de: Lu 2 72 Com: Lei Jianyin, Dong Zijian, Yang Mi 8 14.15, 3 16.45, 1 19.15, 7 21.4500 4 61 77 4 53 84 98 09 90 2 66 32 17 2 0 5 3 99 8 37 18 8 4 7 50 70 51 9 0 2 6 9 7 3
NEW GODS: NEZHA REBORN [B]
SALA 2
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C I N E M A
3EM PUTONGHUA 7 6 9 FALADO32 LEGENDADO EM 2 5CHINÊS9E INGLÊS 7 Um filme de: Ji Zhao 5 6 2 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 4 1 8 0 DETECTIVE 07 CHINATOWN 8 3 35[B] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO 6 EM9CHINÊS 7 5 2 12 09 25 3 51 48 74 8 7 63 4 1 93 2 0 6 8 3 1 4 0 1 5 SALA 1
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Um filme de: Sicheng Chen 14.30, 16.45, 19.15, 21.45 SALA 3
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2 1 9 8 0 3 7 6 •4 5
8 9 0 4 3 7 5 6 4 3 5 2 1 7 6 9 0 5 2 4 8 7 8 1 0E U1R O 3 6 2 9
7 3 4 0 6 5 8 1 2 17.2.2021 quarta-feira 1 0 9 3 4 8 6 2 7 5 9 1 9 5 0 29 .86 96 B A H T 0 . 2 6 Y U A N 1 . 2 3 4 7 3
34 DISCO HOJE UM 7 3 5 0 1 8 4 8 2 1 5 3 6 9 “Wowee Zowee”, terceiro 0 9dos 6norte-americanos 4 2 7 5 disco Pavement, surgiu a con4 6 0 1 como 7 3 8 firmação do estatuto da banda 7 4 do9indie 6 rock 0 dos 2 no3panorama anos 1990. Este disco da banda 5 1 2 8 9 4 0 liderada por Stephen Malkmus 9 6 5 2prin3 é1 algo8esquizofrénico, cipalmente tendo em conta 2 5 3 7 4 9 1 a firme coesão dos restantes, 9 uma 0 delícia 7 2repleta 8 de 5 mo6 mas mentos ouro0pop-rock. 6 4de puro 8 3 1 7 Músicas como “Rattled by the Rush”, “Grounded”, “Extradition” 36 e “Grave Architecture” são alguns dos momentos 6 de 1 “Wowee 8 9 3Zowee”. 4 0 altos Um belíssimo disco de 5 4 2 6 7 1uma 8 das mais importantes bandas 0 rock 3 4 5 7 do9indie que 2antecipou grupos como Deerhunter 7 9 5 1 8 3 ou 6 Vampire Weekend. João Luz
9 7 8 2 1 6 4 0 3 5
6 4 3 9 5 7 0 8 1 2
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WOWEE ZOWEE | PAVEMENT
7 9 4 1 8 2 0 6 3 2 5 7 0 8 35 90 51 78 64 29 4 1 9 3 0 2 5 9 4 4 1 2 6 3 0 8 5 7 9 6 1 8 0 2 7 1 6 2 4 0 9 3 7 1 5 8 0 2 4 THE MOVIE DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA MUGEN TRAIN 4 6 9 5 3 9 0 2 4 5 1 7 8 6 1 7 6 2 9 0 5 8 4 3 3 4 1 8 1 6 7 5 8 9 3 4 2 0 3 8 0 7 1 2 4 5 9 6 5 2 6 3 7 5 8 1 Propriedade 6 2 0Fábrica 9 de3Notícias, 4 Lda Director Carlos 0 Morais 2 4José5Editores 6 João 8 Luz; 3 José 1 C. 7Mendes 9 Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede; Salomé Fernandes Colaboradores 1 8 0 7 Anabela Canas; António Cabrita; António de Castro Caeiro; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Emanuel Cameira; 9 3 1 7 Gonçalo 2 6 M.Tavares; 4 8 Gonçalo 0 5Waddington; Inês Oliveira; 4 3João1Paulo0Cotrim; 5 José 6 Simões 9 7Morais; 8 Luis2Carmelo; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Paulo Maia e 2 4 9Rosa Coutinho Cabral;6Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Teresa Sobral; Valério Romão Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Jorge Rodrigues Simão; www. Carmo; 2 4 6 8 Olavo 0 1Rasquinho; 5 3Paul9Chan7Wai Chi; Paula Bicho;8 Tânia 5 dos9Santos 3 Grafismo 0 7 Paulo 2 Borges, 4 6Rómulo 1 Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; hojemacau. 0 2 GCS; Xinhua 6 1 8 0 5 3 Welfare 7 4 9Secretária 6 da 1de redacção 2 e Publicidade 2 Madalena 6 7da Silva 8 (publicidade@hojemacau.com.mo) 4 9 1 3 0 5 Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia com.mo 8 3 0 1Morada 7 Pátio 5 Sé, n.º22, Edf. Tak Fok, R/C-B, Macau; Telefone 28752401 Fax 28752405; e-mail info@hojemacau.com.mo; Sítio www.hojemacau.com.mo 36
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quarta-feira 17.2.2021
Esquerda.net
Francisco Louçã
LIBERAIS SEMPRE DE MÃO ESTENDIDA HÁ UM hospital vazio em Miranda do Corvo, o Hospital Compaixão. Um candidato presidencial, Tiago Mayan, visitou-o em campanha e saiu a ferver de indignação, querem lá ver que o polvo do Estado recusa salvar os doentes por puro preconceito ideológico contra a iniciativa privada. Ora bem, a história merece ser contada e é um retrato do liberalismo no nosso país. O hospital foi construído pela Fundação Assistência para o Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP), uma instituição que inclui várias unidades de saúde na região centro e cujo presidente é um dinossauro do PSD, Jaime Ramos, que foi deputado, vice-presidente da bancada, governador civil de Coimbra e presidente da Câmara de Miranda do Corvo em sucessivos mandatos. Este Hospital Compaixão é o seu principal investimento, mas, para surpresa dos inocentes, nunca abriu portas. Não tem porteiro, nem telefonista, nem administrativos, nem um único profissional de saúde. É um edifício vazio. Chegadas as eleições presidenciais e encontrado um porta-voz voluntarioso, o “escândalo” chegou à praça pública: temos aqui estas camas e salas cirúrgicas, tudo pronto, e o Estado recusa-se a enviar doentes. Como disse o candidato noutro dos seus melhores momentos, a ministra da saúde é responsável por dez mil mortes (só?), é assim uma espécie de
opinião 15
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Pol Pot em versão lusíada. Ora, perguntadas pela imprensa, as autoridades de saúde manifestaram perplexidade: como é que vamos mandar doentes covid, ou outros, para um hospital que está fechado e não tem nem um enfermeiro nem uma médica? O dr. Ramos explicou então candidamente numa reportagem da SIC que o que queria, precisamente, era que o Estado lhe garantisse o pagamento dos profissionais que ainda não contratou e que lhe despachasse os clientes que ainda não tem. Ou seja, a iniciativa privada quer que o sector público lhe pague as despesas e lhe proteja o negócio. Não pretende somente convenções, quer uma garantia de cobertura dos custos e uma salvaguarda das receitas. Sem isso, continua amuado e não contrata ninguém. Só abre portas se o Estado lhe assegurar a tesouraria e os proveitos. A mais atrevida das imaginações não conseguiria conceber um retrato tão fiel sobre o liberalismo português. Com direito a fanfarra eleitoral, um operador político estende o chapéu ao Estado, não para que o ajude a singrar ou para colaborar numa urgência sanitária, mas para que os dinheiros públicos lhe prometam a caixa registadora. Como bem explicou outro destacado prosélito liberal, o dr. Mesquita Nunes, quem critica esta fé são os que “não percebem nada de economia”.
In Global Times
Wang Wenwen
QUE MAIS FARÁ BIDEN PARA EVITAR O RETORNO DE TRUMP? A DECISÃO do Senado dos EUA de absolver o ex-presidente Donald Trump no seu segundo julgamento de destituição é claramente uma vitória para o ex-presidente e o seu Partido Republicano, mas um fracasso maior para o tão proclamado sistema político e democracia dos EUA. Aqui ficam algumas pistas. Em primeiro lugar, a absolvição é uma decisão partidária que reflecte cada vez mais a polarização da política dos EUA e a divisão do povo americano. Sete senadores republicanos juntaram-se a 50 democratas para condenar Trump por incitar o motim de 6 de Janeiro no Capitólio, ficando aquém dos 67 votos necessários. O resultado não foi uma surpresa para o mundo, já que uma votação bipartidária significativa era difícil de realizar porque Trump, embora destronado da Casa Branca, ainda tem grande influência nos EUA. Os democratas devem ter esperado obter uma condenação para responsabilizar Trump pelo cerco ao Capitólio, e o julgamento de destituição foi uma tentativa do governo Biden e dos democratas de manter Trump e seus seguidores à distância. No fim, apenas sete republicanos romperam com a posição do partido. Em segundo lugar, Trump ainda possui muitos apoiantes incondicionais no Senado e na Câmara dos Representantes que valorizam o poder político e a política partidária mais do que os princípios e a democracia constitucional. Os 43 senadores republicanos que absolveram Trump devem ter esquecido como fugiram dos seus aposentos no dia 6 de Janeiro, quando Trump instou os seus apoiantes de extrema direita a “lutarem como um inferno” para reverter os resultados de
uma eleição justa e livre em que perdeu para Joe Biden. Trump aparentemente envolveu-se em actos antidemocráticos, difíceis de imaginar aos olhos do mundo, mas a maioria dos membros republicanos do Congresso decidiu apoiá-lo. A relutância dos senadores republicanos em condenar Trump foi uma falha de responsabilidade cívica e, como políticos eleitos, colocaram os seus próprios ganhos políticos acima do destino do seu país. Terceiro, os EUA estão a renunciar à sua autoridade moral. O julgamento contra Trump foi sobre lei e justiça, os próprios ideais que foram esmagados pelos republicanos. O ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton foi julgado pela então Câmara dos Representantes, controlada por republicanos, em 1998, sob a alegação de perjúrio a um grande júri por seu caso de adultério com uma estagiária da Casa Branca. Os republicanos estavam determinados a humilhar Clinton e a sua família. Trump, primeiro acusado de ameaçar o governo da Ucrânia para investigar Biden e o seu filho, e depois acusado de incitação à insurreição para invadir o Capitólio, um crime muito mais grave em comparação com a contra-
venção de Clinton, escapou com duas absolvições. Por último, reconstruir a liderança global dos EUA continua a ser a ambição do presidente Biden. Mas ele enfrenta uma estrada difícil à medida que os EUA continuam profundamente atolados no legado tóxico de Trump. O próprio Biden lamentou que a democracia americana é frágil. Trump entrará na história como um presidente em desgraça que escapou da condenação após um julgamento que provou que ameaçava o seu país de todas as maneiras possíveis. No entanto, é irónico numa sociedade tão dividida como os Estados Unidos que a sua popularidade permaneça intacta, apesar da sua desgraça. Uma pesquisa da CNBC, conduzida dias antes do julgamento de destituição, revela que uma grande parte dos republicanos querem que ele continue à frente do partido. Os danos de Trump aos valores democráticos universais preconizados pelos EUA, bem como à reputação global dos EUA, ultrapassam qualquer medida. Embora o primeiro amor de Biden seja a política externa, ele pode descobrir que os infortúnios em solo dos EUA irão dificultar em grande parte a realização dos seus objectivos de política externa e a sua intenção de salvar a posição internacional empobrecida dos EUA nos próximos quatro anos. Num comunicado após o julgamento, o absolvido e encorajado Trump disse aos seus apoiantes que “o nosso histórico, patriótico e belo movimento para Tornar a América Grande Novamente apenas começou”. A absolvição deixa-o livre para concorrer ao cargo em 2024. Se o fizer, talvez o mundo tenha de se preparar para outro episódio de farsa democrática no auto-proclamado farol da democracia.
“Onde está a identidade que não se consegue definir senão de dentro?” PALAVRA DO DIA
Terras raras China estuda limitar envio para EUA
A China está a estudar limitar a exportação para os Estados Unidos de terras raras, minerais vitais para a indústria tecnológica, o que poderá prejudicar o sector da Defesa norte-americano, noticia hoje o jornal britânico Financial Times (FT). Segundo o periódico, que cita fontes que participam em consultas governamentais, o Ministério da Indústria e de Tecnologias da Informação chinês propôs em Janeiro passado um maior controlo na produção e exportação de 17 destes minerais, mercado que a China controla em cerca de 80%. O FT salienta que a China está, assim, a analisar se essas restrições poderão afectar empresas europeias e norte-americanas e, em especial, se terão impacto nas tecnologias vitais para a produção de armamento sofisticado, incluindo o avião de combate “F-35’ da Força Aérea dos Estados Unidos. Os “F-35” dependem desses minerais para alimentar o sistema de energia eléctrica, assegura aquele diário económico, que acrescenta que, num relatório do Congresso norte-americano, cada aparelho necessita de 417 quilogramas desses minerais. Estas eventuais medidas de Pequim, ressalta o FT, correspondem à deterioração faz relações entre a China e os Estados Unidos, agravadas com o surgimento de uma guerra tecnológica entre os dois países.
Cecília Jorge
Angola Relatório fala de dirigentes investigados
PUB PUB.
Um relatório da consultora Pangea Risk diz que vários dirigentes angolanos, incluindo o Presidente da República, João Lourenço, estão a ser investigados nos Estados Unidos, o que pode comprometer o financiamento multilateral e restruturação da dívida do país lusófono. O documento indica que o novo Presidente dos EUA, Joe Biden, vai dar novo fôlego às investigações, que envolvem João Lourenço, a mulher, Ana Dias Lourenço, e vários parceiros de negócios e empresas. Desde que chegou ao poder, em 2017, João Lourenço lançou uma intensa campanha anticorrupção que muitos consideram visar essencialmente a família do seu antecessor, José Eduardo dos Santos, sobretudo a filha, Isabel dos Santos, alvo de vários processos que correm os seus trâmites em Portugal e Angola. A consultora adianta que este posicionamento ajudou Angola a beneficiar de um reforço do programa de assistência do Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como facilidades de crédito e apoio de vários parceiros internacionais. “Esta boa vontade, que tem sido demonstrada pelos parceiros internacionais de Angola, os últimos três anos, pode desvanecer-se rapidamente à medida que forem sendo divulgadas novas alegações de corrupção estatal e fraude envolvendo o actual governo”, refere o documento.
17.2.2021
O ovo da serpente
Relatório alerta para risco de “radicalização” da extrema-direita em Portugal
Marcelo reconduz chefias
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reconduziu ontem, por proposta do Governo, os almirantes Silva Ribeiro como chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) e Mendes Calado como chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA). Estas reconduções foram divulgadas através de uma nota no portal da Presidência da República na Internet. “O Presidente da Republica aceitou a proposta do Governo e reconduziu hoje o almirante António Silva Ribeiro e o almirante António Mendes Calado, respectivamente como chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) e como chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA)”, lê-se na nota. Na quinta-feira passada, em Conselho de Ministros, o Governo decidiu propor a prorrogação por dois anos dos mandatos dos almirantes António Silva Ribeiro e António Mendes Calado nos respectivos cargos, que terminavam em 01 de março deste ano.
quarta-feira
U
M relatório, ontem divulgado, assinala a “normalização” política do Chega em 2020 e alerta para a “possibilidade de radicalização das formas de protesto da extrema-direita portuguesa”. “A infiltração de extrema-direita nos protestos por melhores condições de vida, como é o caso dos pequenos e médios empresários, deverá continuar. E não se pode, neste caso, com o agravamento da crise social e económica, excluir a possibilidade de radicalização nas formas de protesto da extrema-direita portuguesa”, alerta o relatório “Estado de ódio – o extremismo de direita na Europa”.
A parte portuguesa deste relatório avisa para o risco de a extrema-direita tentar “tirar vantagem da insatisfação, frustração e ressentimento da crise socioeconómica causada pelas medidas para conter a pandemia covid-19”. A exemplo, defendem, do que já começou a acontecer em 2020, ano em que o país viveu a crise devido à pandemia de covid-19, quando o Chega, por exemplo, organizou uma manifestação contra a pedofilia, o que “abriu a porta à mobilização da extrema-direita”, organizada por movimentos “pela verdade” de negacionistas. “Os protestos começaram com algumas dezenas de participantes, mas já conseguem
QANON ACUSA COSTA DE “INSTAURAR DITADURA DE EXTREMA-ESQUERDA” Os portugueses apoiantes do QAnon, dos Estados Unidos, adaptaram o “universo conspirativo” do movimento à realidade portuguesa para acusar o Governo do PS de “instaurar uma ditadura de extrema-esquerda no país”. O movimento de teóricos da conspiração QAnon, inspirado por um anónimo do Governo norte-americano, que assina “Q”, garante que o ex-presidente Donald Trump é o protector da sociedade americana contra judeus e pedófilos e associa os democratas ao tráfico de crianças, canibalismo e rituais satânicos. De acordo com a revista Sábado e semanário Expresso, em 2020 havia pelo menos 250 portugueses identificados nas redes sociais e que difundem nas redes sociais as mensagens racistas e de ódio deste grupo associado à extrema-direita. “O universo da conspiração foi adaptado à realidade portuguesa: o governo do Partido Socialista é acusado de instaurar uma ditadura de extrema esquerda no país, Bill Gates é o responsável pela pandemia, a rede 5G está relacionada com o coronavírus e as vacinas são falsas e produto de uma conspiração global”, lê-se no texto.
juntar algumas centenas de pessoas”, assinala-se no texto. Em Portugal, são identificados seis grupos ligados à extrema-direita. O Chega é identificado como populista radical de direita, o Ergue-te (ex-PNR) de extrema-direita, os grupos Escudo Indentitário e Associação Portugueses Primeiro são considerados identitários, Hammer Skin neo-nazis e o Movimento Zero, movimento não orgânico nas polícias, é definido como populistas de extrema-direita. Assinala-se ainda a criação de novos grupos como a Resistência Nacional, “responsável por uma concentração em frente à sede do SOS Racismo”, em que os manifestantes envergaram máscaras e usaram tochas, e o movimento Defender Portugal. Depois de o Chega eleger um deputado nas legislativas de 2019, o relatório assinala, este ano, que houve uma “normalização” política do partido de André Ventura, assinalando-se o acordo com o PSD e outros partidos de direita para formar Governo na região autónoma dosAçores. Este acordo, segundo o texto, “foi visto como um primeiro passo para um acordo parlamentar ou de Governo a nível nacional”, contribuindo “mais para legitimar o Chega”. O documento destaca que o racismo em Portugal foi evidente numa série de actos violentos, como a agressão de uma mulher num autocarro, pela polícia, por o filho não ter bilhete ou ainda pela morte, nas ruas num subúrbio de Lisboa, de um actor, Bruno Candé, por um homem que o mandou “para a senzala”, um termo que remete para o passado do esclavagismo em África. O Chega, segundo o relatório, fez elevar as “narrativas-chave” de extrema-direita “a níveis nunca vistos na política” portuguesa desde o fim do Estado Novo, dando como exemplo que 15% dos delegados ao último congresso votaram a favor de uma resolução que propunha que fossem retirados os ovários às mulheres que praticassem aborto.
Adeus Carmen Dolores
A atriz Carmen Dolores morreu, esta terça-feira, aos 96 anos, confirmou o encenador Carlos Avillez. “É verdade, morreu a Carmen Dolores. Além de uma grande actriz, era uma grande senhora”, disse Carlos Avillez à revista Flash, adiantando estar “destroçado”. O também encenador Jorge Silva Melo foi outra das figuras que já partilhou nas redes sociais uma fotografia a preto e branco da actriz. Carmen Dolores, também co-fundadora da Casa do Artista, nasceu em Lisboa, a 22 de abril de 1924 e a sua carreira com mais de 60 anos ficou marcada pela rádio e pela declamação de poesia, além dos trabalhos no teatro, televisão e cinema.
Congresso investiga invasão do Capitólio
A Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi, anunciou que o Congresso vai criar uma comissão independente, semelhante à criada para o 11 de Setembro, para investigar a invasão do Capitólio. Esta comissão vai “investigar e relatar os factos e causas relacionados com a ataque de terrorismo doméstico de 6 de Janeiro de 2021 contra o Capitólio e em relação à interferência na transição pacífica de poder”. A criação de uma comissão independente semelhante à que foi criada depois do atentado de 11 de Setembro está a tornar-se relativamente consensual entre democratas e republicanos, depois da absolvição do antigo Presidente dos Estados Unidos, o republicano Donald Trump, no segundo processo de destituição.
Hamas exige tutor para viagens de solteiros
Homens e mulheres solteiros na Faixa de Gaza deixam de poder viajar sem permissão de um tutor, segundo uma decisão judicial do movimento islâmico Hamas, que está no poder no território palestiniano. “Um pai ou avô pode proibir um rapaz maior de 18 anos de viajar, se a viagem lhe for prejudicial, iniciando um processo no tribunal competente”, disseram as autoridades judiciais palestinianas na noite de domingo, sem dar pormenores sobre o que é considerado “prejudicial”. “Fica proibido à mulher solteira, virgem ou não, viajar sem autorização de um tutor que a pode recusar em caso de preconceito”, continua o texto da decisão assinada pelo Presidente do Conselho Supremo, Sharia (segundo a lei corânica), Hassan al-Joujou, e que tem efeito imediato. A linguagem da decisão denota que também uma mulher casada poderá ter problemas em viajar sem a aprovação do marido. A medida, de impedimento a homens e mulheres, tem fortes semelhanças com as chamadas “leis de tutela” que existem há muitos anos na ultraconservadora Arábia Saudita. A decisão do Hamas, que ocorre num momento de eleições internas dentro do movimento e antecede as eleições legislativas palestinianas, marcadas para maio próximo, está a gerar fortes críticas na região. Nas redes sociais, são muitos os que acusam o Hamas de reverter os direitos das mulheres, mesmo quando a Arábia Saudita está a reduzir as suas restrições, nomeadamente permitindo que as mulheres tirem a carta de condução automóvel. A Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP, de esquerda) pediu às autoridades, num comunicado, para reverter o que considera ser uma “violação da lei palestiniana e da Declaração Universal dos Direitos Humanos”.