Skip to main content

Hoje Macau 15 JUL 2019 # 4330

Page 1

MOP$10

SEGUNDA-FEIRA 15 DE JULHO DE 2019 • ANO XVIII • Nº 4330

LUSA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

Hong Kong | Agenda de protestos GRANDE PLANO E ÚLTIMA

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

hojemacau

h MONTANHAS DE GAO PAULO MAIA E CARMO

Crédito bem parado Macau não vai implementar o sistema de crédito social chinês. Quem o diz é Mi Jian, director dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional, acrescentando

que Macau tem condições para ter o seu próprio sistema. Sulu Sou perguntou ao Governo se pode garantir que até 2049 o sistema chinês não é implementado em Macau.

PÁGINA 5

UMA RESPIRAÇÃO RITA TABORDA DUARTE

CONFÚCIO E OS RITOS JOSÉ SIMÕES MORAIS

AINDA A VACINAÇÃO VALÉRIO ROMÃO

CHEFE DO EXECUTIVO

PROVA DOS NOVE PÁGINA 4

RUMORES EM PETIÇÃO PÁGINA 6

MEDICINA

SALÁRIOS ESPECIAIS PÁGINA 9


2 grande plano

Reforma democrática é o grande objectivo dos protestos que têm marcado a região vizinha, muito além do pedido de retirada da polémica lei da extradição. A próxima manifestação de grande escala está agendada para o próximo domingo

15.7.2019 segunda-feira

HONG KONG

A LUTA VAI CONTINUAR A PROTESTOS SÃO TAMBÉM POR DEMOCRACIA, REFERE ACTIVISTA BONNIE LEUNG

porta-voz da organização que tem liderado as manifestações em Hong Kong disse em entrevista à Lusa que os actuais protestos são contra a lei da extradição, mas também pela democracia que garanta o sufrágio universal. “Queremos também lutar por uma verdadeira democracia”, sublinhou Bonnie Leung, vice-coordenadora da Frente Civil de Direitos Humanos, que integra 15 organizações não-governamentais e movimentos políticos. “Precisamos mesmo de ter um sistema democrático: um homem, um voto: Temos de eleger o nosso Chefe de Executivo e os nossos legisladores”, porque “sem uma verdadeira democracia, coisas más podem sempre repetir-se”, defendeu. A activista ressalvou, contudo, que o foco continua a manter-se no combate à lei da extradição, que desde o dia 9 de Junho motivou manifestações na antiga colónia britânica.

REPRESENTAÇÕES COLATERAIS

“Precisamos mesmo de ter um sistema democrático: um homem, um voto: Temos de eleger o nosso Chefe de Executivo e os nossos legisladores.” BONNIE LEUNG VICE-COORDENADORA DA FRENTE CIVIL DE DIREITOS HUMANOS

Por outro lado, a mediatização dos protestos tem também permitido ao território representar Macau e Taiwan perante a ameaça de Pequim, acrescentou. “Acredito que muitos cidadãos de Macau e de Taiwan apoiam os mesmos valores. Ao alertar o mundo sobre o problema de Hong Kong, como que representamos também esses cidadãos de Macau e de Taiwan porque estamos a enfrentar o mesmo Governo chinês, estamos a enfrentar o mesmo tipo de perigos impostos por Pequim”, sublinhou Bonnie Leung. A activista admitiu desconhecer contactos directos estabeleci-

dos por grupos, mas confirmou a presença de manifestantes desses dois territórios nos protestos em Hong Kong. Bonnie Leung diferencia o caso de Taiwan do de Macau, dizendo que na Ilha Formosa se vive em democracia, mas que está a viver uma situação idêntica à de Hong Kong, “com muito dinheiro [chinês] a ser injectado na economia, a tentar comprar mais influência, sobretudo nos ‘media’”.

CONTRA A INFORMAÇÃO FALSA

Num momento em que passou mais de um mês após os primeiros protestos por causa da lei da extradição, os manifestantes adoptaram novas estratégias, na rua, junto da opinião pública e da comunidade internacional. “Tivemos de mudar as nossas tácticas porque o lado pró-Pequim já começou com uma campanha de falsa informação”, disse Bonnie Leung, admitindo que esta é também “uma batalha pela opinião pública”. “Acreditamos que liberdade, Estado de Direito e democracia são valores universais e podem fazer a sociedade e o mundo melhor. O que estamos a tentar fazer é transportar estes conceitos para a população da China”, explicou. Nas últimas semanas, grupos de voluntários têm-se deslocado para zonas de Hong Kong nas quais se regista um elevado fluxo de turistas chineses, com panfletos e cartazes. “Queremos partilhar as nossas ideias e explicar a estes turistas o que realmente está a acontecer em Hong Kong, em vez de receberem a informação através dos canais oficiais chineses”, e apesar de toda a censura de Pequim sobre esta

matéria, lembrou a porta-voz da organização.

TORCER O BRAÇO

No que diz respeito à invasão do Conselho Legislativo, a activista refere que essa situação aconteceu porque o Governo passou a ideia de que as manifestações pacíficas não resultam. “Há um graffiti no Conselho Legislativo que resume a razão pela qual os jovens fizeram o que fizeram: Foram vocês que nos ensinaram que as demonstrações pacíficas não resultam”, disse Bonnie Leung.

“Dois milhões [de pessoas] estiveram nas ruas pacificamente e nem um vidro foi partido e as nossas reivindicações não foram atendidas.” BONNIE LEUNG VICE-COORDENADORA DA FRENTE CIVIL DE DIREITOS HUMANOS

Recorde-se que dois dos protestos, a 12 de Junho e a 1 de Julho, foram marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, que chegou a usar balsas de borracha, gás pimenta e gás lacrimogéneo. A 1 de Julho, os manifestantes invadiram mesmo o parlamento de Hong Kong. “Obviamente, Pequim e o Governo de Hong Kong querem que a população da nossa cidade e no mundo acreditem que aqueles jovens manifestantes foram

indesculpavelmente violentos. Mas estou muito satisfeita e orgulhosa com o facto de que as pessoas de Hong Kong conseguirem descortinar essas táticas”, sustentou Leung. “Dois milhões [de pessoas] estiveram nas ruas pacificamente e nem um vidro foi partido e as nossas reivindicações não foram atendidas”, lembrou, referindo-se aos protestos de 16 de Junho. “O Governo não estava a ouvir”, acrescentou. Bonnie Leung disse compreender a razão pela qual “as pessoas podem não concordar com as acções dos jovens” e que o seu movimento também entende que não é necessário que estes coloquem em risco a sua própria segurança”. “Mas estamos solidários e preocupamo-nos com eles”, disse, reafirmando que não são jovens violentos, mas que, em desespero, frisou, destruíram objectos “que simbolizam a tirania do Governo de Hong Kong”, mas que se preocuparam em preservar documentos históricos, exemplificou. Há mais de um mês que Hong Kong é palco de protestos maciços. O mais concorrido, segundo a organização, aconteceu a 16 de Junho, quando cerca de dois milhões de pessoas (mais de um terço da população) saíram à rua para protestar contra a lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições com as quais não existem acordos prévios, como é o caso da China. A chefe do Governo, Carrie Lam, depois de pedir desculpa em duas ocasiões distintas, em Junho, chegou mesmo a afirmar já este mês que a lei estava “morta”.


grande plano 3

segunda-feira 15.7.2019

Uma declaração que não conseguiu convencer os líderes dos protestos, que continuam a promover pequenas acções e manifestações na cidade e a exigir que o Governo responda a cinco reivindicações: retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que os protestos de 12 de Junho e 1 de Julho não sejam identificados como motins, um inquérito independente à violência policial e a demissão da Chefe do Executivo, Carrie Lam. Já os defensores da polémica lei da extradição argumentam que, caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China,

tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais". Mas os manifestantes dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos.

NA AGENDA

De resto, uma nova grande manifestação contra a lei da extradição e a violência policial está agendada para 21 de Julho em Hong Kong, uma vez que as reivindicações feitas ao Governo não foram atendidas, segundo os manifestantes. “Como as nossas

cinco reivindicações não foram ainda atendidas, acreditamos que é muito importante que continuemos os protestos (…) e

“Neste momento, os cidadãos de Hong Kong não confiam no Governo, sobretudo não confiamos na nossa polícia, o que não é nada saudável.” BONNIE LEUNG VICE-COORDENADORA DA FRENTE CIVIL DE DIREITOS HUMANOS

temos uma obrigação de juntar as pessoas outra vez”, sublinhou a vice-coordenadora da Frente Civil de Direitos Humanos. “A 21 de Julho vamos ter uma manifestação para enfatizar as nossas cinco reivindicações e, especialmente, vamos dar destaque ao abuso de poder por parte da polícia e pedir um inquérito independente”, acrescentou. “Esse vai ser o nosso grande tema”, precisou a activista. “Neste momento, os cidadãos de Hong Kong não confiam no Governo, sobretudo não confiamos na nossa polícia, o que não é nada saudável”, afirmou. “Precisamos de colocar um ponto final a isto com um verda-

deiro inquérito independente para saber o que esteve na origem do que aconteceu a 12 de Junho, quem foi o comandante, quem tomou a decisão de disparar sobre os manifestantes e jornalistas”, disse referindo-se ao protesto que ficou marcado pelos actos de violência policial. “E ao saber esta informação e, provavelmente, ao existirem consequências legais sobre as pessoas que tomaram erradamente estas decisões ilegais acreditamos que só assim poderemos seguir em frente. É muito importante e será o nosso grande tema”, concluiu Bonnie Leung.


4 política

15.7.2019 segunda-feira

GCS

CHEFE DO EXECUTIVO SUBIU PARA NOVE O NÚMERO DE CANDIDATOS

Noves fora Entre os nove possíveis candidatos, apenas quatro tinham pedido até sexta-feira os contactos dos 400 membros do Colégio Eleitoral. Para participarem na eleição, os interessados precisam do apoio de 66 membros para poderem formalizar a candidatura

A

TÉ sexta-feira nove pessoas tinha levantado junto da Comissão de Assuntos Eleitorais do Chefe do Executivo (CAECE) os documentos necessários para apresentação de candidatura ao cargo de líder do Governo. A informação foi divulgada pela presidente da comis-

são, Song Man Lei. “Até este momento recebemos o pedido [de levantamento da papelada] de nove interessados, que manifestaram a intenção de candidatar-se ao cargo do Chefe do Executivo. O período de propositura é até 23 de Julho”, afirmou a também juíza. De acordo com os procedimentos, os candidatos têm

até 23 de Julho para reunir o apoio de, pelo menos, 66 dos 400 membros da comissão que elege o Chefe do Executivo, para poderem participar nas eleições. Para tal, a comissão disponibiliza os contactos dos 400 votantes. “Os interessados a candidatar-se à eleição têm de pedir as informações de contacto dos membros da PUB

comissão eleitoral e tentar ganhar o apoio desses membros. Há quatro membros que já vieram pedir essas informações de contacto”, revelou Song Man Lei. Entre os 9 candidatos, 7 são conhecidos. Ho Iat Seng, ex-presidente da Assembleia Legislativa, o empresário Leung Kuok Chao, o cônsul da Papua Nova Guiné, Steven Siu, o manifestante de amarelo Hong Voi Chong, Chan Weng Fu, que promete dar 200 mil patacas a cada residente para investir no Interior da China, e as mulheres e desempregadas Choi Teng Teng, que cumpriu pena de prisão, e Lei Oi Chi.

APURAR RESPONSABILIDADES

A presidente da CAECE foi igualmente questionada sobre a queixa apresentada por um residente, Chan Kuok Sam, em relação ao caso de 2014, quando a sua filha morreu na sequência de um erro médico no Hospital Conde São Januário. De acordo com a queixa, Ho Iat Seng, tido como o principal

candidato, terá falhado nas suas funções como presidente de Assembleia Legislativa, uma vez que não acedeu ao pedido de Chan Kuok Sam para abrir um inquérito e apurar responsabilidades. Song Man Lei recusou comentar o caso em particular: “De acordo com a lei eleitoral para o Chefe do Executivo, ele [Ho Iat Seng] é um candidato qualificado e

“De acordo com a lei eleitoral para o Chefe do Executivo, ele [Ho Iat Seng] é um candidato qualificado e vamos fazer a verificação de todos os candidatos.” SONG MAN LEI PRESIDENTE CAECE

nós vamos fazer a verificação de todos os candidatos que entregaram as inscrições. Fazemos a verificação da qualificação e não focamos apenas um determinado candidato”, clarificou. As eleições estão agendadas para 25 de Agosto e no dia 10 de Agosto começa a campanha eleitoral. Nesse dia, a CAECE revelou que vai ter uma reunião com os candidatos para esclarecer eventuais dúvidas. Quanto ao facto de alguns candidatos se multiplicarem em reuniões com associações e de terem expresso ideias políticas nesses encontros, Song Man Lei considerou que não são acções de campanha antecipada. “De acordo com a lei, não é permitida campanha antes do período para este efeito. Mas mencionar ou manifestar uma ideia ou convicção ou manifestar a intenção de candidatar-se a Chefe do Executivo é aceitável”, respondeu. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

AL KOU HOI IN DEVERÁ SUCEDER A HO IAT SENG

O

deputado Kou Hoi In está em boa posição para suceder a Ho Iat Seng enquanto presidente da Assembleia Legislativa (AL). As eleições para o próximo presidente da AL realizam-se esta quarta-feira, 17 de Julho, após a saída de Ho Iat Seng por renúncia ao mandato para concorrer ao lugar de Chefe do Executivo. A reunião plenária foi marcada na passada sexta-feira e irá acontecer antes do fim do prazo legal de 15 dias para a realização da eleição interna. Kou Hoi In é apontado como a escolha mais provável para a liderança da AL, segundo avançou na sexta-feira a Rádio Macau. Para tal contribui o facto de ser o deputado mais antigo

no hemiciclo, onde está desde 1991, assim como os cargos de representante do território na Assembleia Popular Nacional e presidente da Associação Comercial de Macau. Chui Sai Cheong deverá manter-se no cargo de vice-presidente, adiantou ainda a emissora, não se esperando que chegue à presidência por ser irmão do actual Chefe do Executivo, Chui Sai On. A deputada Chan Hong, eleita pelo sector dos serviços sociais e educação, deverá ser promovida a primeira secretária da Mesa. Para o lugar de segundo secretário fala-se no nome de Ho Ion Sang, deputado da União Geral das Associações dos Moradores.


política 5

segunda-feira 15.7.2019

CRÉDITO SOCIAL SISTEMA NÃO VAI SER IMPLEMENTADO EM MACAU, DIZ MI JIAN

Está tudo tranquilo

O director dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional, Mi Jian, esclareceu publicamente que o sistema de crédito social chinês não vai ser aplicado em Macau. Para o responsável, o território tem condições para criar um sistema próprio sustentado no sistema jurídico e nas políticas locais e não Macau”, lê-se. Por último, Mi Jian sublinha que, de acordo com as Linhas Gerais publicadas em Fevereiro de 2019, (…) é “necessária a apresentação de medidas políticas concretas por parte dos três governos regionais consoante a sua situação particular”, para que as acções possam prosseguir.

SEM SABER DE NADA

No final da semana passada, também o secretário para TIAGO ALCÂNTARA

M

ACAU não vai utilizar o sistema de crédito social chinês.Agarantia foi dada na sexta-feira pelo director dos Serviços de Estudo de Políticas e Desenvolvimento Regional (DSEPDR), Mi Jian. “Macau não implementará o sistema de avaliação de crédito social do Interior da China”, aponta o responsável de acordo com um comunicado. Porém, Mi Jian admite que o território tem condições para desenvolver um sistema de crédito social próprio. Por outro lado, o director, que tem estado na mira do Comissariado contra a Corrupção, refere que o crédito social em Macau já é garantido pelo próprio sistema. “Como Região Administrativa Especial da República Popular da China, Macau possui o seu próprio sistema de governação, nomeadamente no âmbito das leis, dos regulamentos e dos regimes, este sistema constitui uma garantia e um suporte de avaliação de crédito social, bem como revela de uma forma geral o conteúdo da avaliação de crédito social”, refere a mesma fonte. Tendo em conta o plano trienal de acção para a Grande Baía, divulgado no passado dia 5 pelo Governo de Guangdong e que prevê o desenvolvimento do mecanismo de crédito social na área de cooperação regional, Mi Jian sublinha que se trata de um plano apenas aplicável às nove cidades que se localizam naquela província do continente. “O Governo Popular da Província de Guangdong é o principal responsável pela elaboração do “Plano Trienal de Acção” e, no âmbito da concretização das medidas políticas ou projectos apresentados pelo mesmo Governo, para promover e concretizar as ‘Linhas Gerais’ abrange as nove cidades da Grande Baía da Província de Guangdong

a Segurança, Wong Sio Chak se pronunciou sobre a matéria, apontando que a sua tutela não tinha recebido qualquer informação para a execução de um sistema de crédito social chinês no território. “As autoridades de segurança não receberam informações sobre a implementação do sistema de avaliação de crédito social”, disse ao canal chinês da Rádio Macau. “Do meu conhecimento, não existe

um sistema de crédito social no sistema legal de Macau”, acrescentou. O governante esclareceu ainda que acredita que o “sistema próprio de crédito social de Macau” como descrito pelo DSEPDR é referente “a um sistema jurídico abrangente, às políticas e ao consenso social”. Entretanto, juristas e advogados referiram que o mecanismo de engenharia social, através da avalia-

PROMESSAS A DAR

O

deputado Sulu Sou questiona o Governo se pode garantir que até 2049 o sistema de crédito social chinês não será implementado em Macau. “O Governo pode prometer em absoluto que antes de 2049 não vai implementar nenhum sistema de crédito social do continente ao território?”, lê-se na interpelação escrita dirigida ao Executivo. Em causa está o facto de este sistema contrariar as orientações da Lei Básica, argumenta. “Qualquer forma de sistema de crédito social, é completamente incompatível com as regras, espírito e princípios fundamentais da política ‘Um País, Dois Sistemas’ e com a Lei Básica”, aponta. A interpelação surge após terem sido dadas a conhecer, no passado dia 5, as Linhas de Acção para a Grande Baía por parte do Governo de Guangdong que definiam o desenvolvimento do sistema de avaliação social chinês até 2020, dentro da zona de cooperação inter-regional. O Governo já avançou que o sistema de crédito social não vai ser implementado no território, mas Sulu Sou quer garantias a longo prazo.

ção da “credibilidade” dos cidadãos”, que está a ser utilizado no continente é contrário à Lei Básica local. Recorde-se que para o jurista António Katchi, “as autoridades de Macau também não poderiam nem aplicar directamente as normas do Interior da China respeitantes ao sistema de “crédito social”, dado que não vigoram em Macau nem criar normas semelhantes”. Tal deve-se à colisão “fron-

tal” das normas do continente com o princípio da continuidade no respeitante à manutenção da “maneira de viver” e com o princípio da igualdade, previsto na Lei Básica, apontou ao HM na semana passada. O advogado Sérgio de Almeida Correia disse que “esse tipo de recolha de dados não seria admissível face àquilo que nós temos na Lei Básica, porque os dados individuais e aquilo que é a reserva da intimidade dos residentes é protegida pela própria Lei Básica”. O advogado referia-se à recolha de dados pessoais que o sistema de avaliação implica.

“Macau possui o seu próprio sistema de governação, nomeadamente no âmbito das leis, dos regulamentos e dos regimes, este sistema constitui uma garantia e um suporte de avaliação de crédito social” MI JIAN DIRECTOR DA DSEPDR

Também o advogado Jorge Menezes, além de apontar a afronta à Lei Básica acrescenta que a implementação de um sistema como o de crédito social chinês em Macau, “teria o potencial para virar à nossa maneira de viver de pernas para o ar e de adiantar o relógio da história 30 anos”. Sofia Margarida Mota com J.C.N. info@hojemacau.com.mo


6 política

A associação pró-democrata diz que artigo que criminaliza “rumores” e “notícias tendenciosas” é demasiado polémico e que deveria sair da lei

15.7.2019 segunda-feira

PROTECÇÃO CIVIL NOVO MACAU LANÇOU PETIÇÃO CONTRA ARTIGO DOS RUMORES

Caça ao autógrafo

A

Associação Novo Macau lançou uma petição na sexta-feira para eliminar o artigo 25.º da Lei de Bases de Protecção Civil, que criminaliza rumores durante a passagem de tufões ou outras situações de emergência. “AAssociação Novo Macau lançou uma petição hoje [na sexta-feira], a apelar ao Governo que retire o artigo da proposta de lei e que considere este assunto apenas no futuro”, pode ler-se no comunicado da associação liderada por Kam Sut Leng.

Segundo a força pró-democracia, faz sentido questionar o contexto de uma lei que pode levar as pessoas à prisão por rumores que até podem não ter impacto para a sociedade. “Assim que a lei for aprovada, quando o

Governo declarar estado de emergência, ou de resposta face a incidentes de natureza pública, aqueles que alegadamente fabricarem ou disseminarem ‘rumores’ podem ser condenados com o pagamento de multas ou PUB

DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE TURISMO ANÚNCIO Torna-se público que, de acordo com o Despacho de 28 de Junho de 2019 do Ex.mo Senhor Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, se encontra aberto concurso público para adjudicação dos serviços de coordenação e produção das cerimónias para o 4.º “Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios‧Macau”. Desde a data da publicação do presente anúncio, nos dias úteis e durante o horário normal de expediente, os interessados podem examinar o Processo do Concurso na Direcção dos Serviços de Turismo, sita em Macau, na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, n.os 335-341, Edifício Hotline, 12.o andar, e ser levantadas cópias, incluindo o Programa do Concurso, o Caderno de Encargos e demais documentos suplementares, encontrando-se o referido processo igualmente patente no website da Direcção dos Serviços de Turismo (http://industry.macaotourism.gov.mo), podendo os concorrentes fazer “download” do mesmo. A Sessão de esclarecimento será realizada no Auditório da Direcção dos Serviços de Turismo, sito em Macau, na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, n.os 335-341, Edifício “Hotline”, 14.o andar pelas 11:00 horas do dia 12 de Julho de 2019. Os pedidos de esclarecimento devem ser feitos por escrita e apresentados até ao dia 26 de Julho de 2019 pelas 17:30 horas na área dos Avisos Públicos do website da Indústria Turística de Macau (http://industry.macaotourism.gov.mo), as respectivas respostas também serão publicadas no mesmo website. Preço base: MOP4.500.000,00 (quatro milhões e quinhentas mil patacas) Critérios de adjudicação e factores de ponderação: Factores de Critérios de adjudicação ponderação Preço 20% Contéudo do serviço: - Design do tema dos locais para as cerimónias de abertura, encerramento e entrega de prémios; - Design do tema das ceremónias e design da programação com os respectivos efeitos finais em desenhos (cerimónias 45% de abertura e passadeira vermelha, encerramento e entrega de prémios e passadeira vermelha); - Plano dos recursos humanos e respectiva distribuição dos trabalhos para a execução dos serviços a prestar, de acordo com os requisitos do nº 4.3 das “Cláusulas Técnicas, Gerais e Especiais” do “Caderno de Encargos” Maior garantia de segurança e eficiência na prestação do serviço: - Informações sobre os equipamentos a serem utilizados, de acordo com os requisitos do nº 4.2 das “Cláusulas Técnicas, Gerais e Especiais” do “Caderno de Encargos”; 25% - Desenhos e design de localização dos respectivos equipamentos e decorações (desenhos e plantas de localização); - Plano de produção dos materiais de decoração; - Plano de montagem e desmontagem. Experiência do concorrente 10% Os concorrentes deverão apresentar as propostas na Direcção dos Serviços de Turismo, sita em Macau, na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, n.os 335-341, Edifício “Hotline”, 12.o andar, durante o horário normal de expediente e até às 17:45 horas do dia 26 de Agosto de 2019, devendo as mesmas ser redigidas numa das línguas oficiais da RAEM ou, alternativamente, em inglês, prestar a caução provisória de MOP90.000,00 (noventa mil patacas), mediante: 1) depósito em numerário à ordem da Direcção dos Serviços de Turismo no Banco Nacional Ultramarino de Macau 2) garantia bancária 3) depósito nesta Direcção dos Serviços em numerário, em ordem de caixa ou em cheque visado, emitidos à ordem da Direcção dos Serviços de Turismo 4) por transferência bancária na conta do Fundo do Turismo do Banco Nacional Ultramarino de Macau. O acto público do concurso será realizado no Auditório da Direcção dos Serviços de Turismo, sito em Macau, na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, n.os 335-341, Edifício “Hotline”, 14.o andar pelas 10:00 horas do dia 27 de Agosto de 2019. Os representantes legais dos concorrentes deverão estar presentes no acto público de abertura das propostas para efeitos de apresentação de eventuais reclamações e/ou para esclarecimento de eventuais dúvidas dos documentos apresentados a concurso, nos termos do artigo 27.o do Decreto-Lei n.o 63/85/M, de 6 de Julho. Os representantes legais dos concorrentes poderão fazer-se representar por procurador devendo, neste caso, o procurador apresentar procuração notarial conferindo-lhe poderes para o acto público do concurso. Em caso de encerramento destes Serviços por causa de tempestade ou por motivo de força maior, o termo do prazo de entrega das propostas, a data e hora de sessão de esclarecimento e de abertura das propostas serão adiados para o primeiro dia útil imediatamente seguinte, à mesma hora. Direcção dos Serviços de Turismo, aos 3 de Julho de 2019. O Director dos Serviços, Subst.º Cheng Wai Tong

prisão, independentemente desses ‘rumores’ causarem qualquer impacto”, começa por ser apontado. A associação alerta ainda que será o Governo a ter o controlo sobre o que são rumores. “É necessário chamar a atenção do público para as controvérsias criadas pelo crime de ‘rumor’. A Novo Macau já mostrou que o Governo vai ser a única entidade com o poder para controlar a definição dos rumores. Por isso, existe a preocupação de que mesmo aqueles que se considerem inocentes, e com a razão do seu lado, não sejam capazes de evitar tornarem-se os próximos ‘criminosos dos rumores’, é acrescentado. Segundo a força política representada por Sulu Sou na Assembleia Legislativa, este novo crime vai fazer com que as pessoas

abdiquem da liberdade de expressão, ao mesmo tempo que evita o conhecimento da verdade dos factos. “Em tempos de catástrofes naturais, existe a expectativa que a sociedade civil se ajude mutuamente e que os órgãos de comunicação social revelem a verdade sobre os acontecimentos. Mas assim, as pessoas vão manter-se caladas com medo de serem consideradas culpadas”, é defendido. “O novo crime vai permitir

“As pessoas vão manter-se caladas com medo de serem consideradas culpadas.”

que o Governo mantenha a estabilidade, porque só a ameaça com pena de prisão por parte da polícia é suficiente para serenar os ânimos das pessoas de Macau”, é justificado.

RUMORES MORTAIS

Além dos argumentos sobre os efeitos práticos da lei de Wong Sio Chak, a Novo Macau acredita que o Governo não deveria apresentar uma proposta tão controversa numa altura em que está próximo de deixar o poder. A associação recorda que tanto especialistas em Direito como profissionais do sector da comunicação mostraram-se contra o artigo. “O Governo não deveria estar a dar passos no sentido de criar instabilidade”, é apontado. Segundo o polémico artigo 25.º da proposta de Lei, “quem, após a declaração do estado de prevenção imediata […], em benefício próprio ou de terceiro, ou por quaisquer outros motivos que possam perturbar a cessação ou o alívio do estado declarado ou a tranquilidade pública, elaborar, difundir ou transmitir notícias falas, infundadas ou tendenciosas relativas a riscos, ameaças e vulnerabilidades […] é punido com pena de prisão até 2 anos”. Sobre este aspecto, o secretário para a Segurança defende que os efeitos dos rumores são mais perigosos do que as catástrofes naturais. Aliás, o próprio Wong Sio Chak criticou anteriormente a Novo Macau sobre este assunto, por considerar que alguns comentários da associação foram “truncados”.

ASSOCIAÇÃO NOVO MACAU

João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

INTERCÂMBIO SÓNIA CHAN LEVA ESTUDANTES À PROVÍNCIA DE GUIZHOU

A

secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, e o subdirector do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central em Macau, Zhang Rongshun, acompanham um grupo de 100 alunos e jovens à Província de Guizhou, até quarta-feira, “com vista a reforçar os conhecimentos sobre a nação” e “o espírito de amar a Pátria”, lê-se num comunicado enviado pelo Governo da RAEM. Na qualidade de chefe da delegação, Sónia Chan lidera esta iniciativa de intercâmbio ao Oeste da China, inserida no programa de visitas “Caminhar juntos na Nova Era”, que prevê a deslocação à cidade de Guiyang, e distritos de

Congjiang e Pingtang, para conhecer o centro de mega-dados da Zona de Serviços de Alta Tecnologia, o Radiotelescópio Esférico de 500 Metros de Abertura (FAST), o Museu de Nan Rendong, o Museu da Província de Guizhou, a vila de Luan Li – da etnia Dong –, e a vila antiga de Qingyan. O programa, que conta com o apoio do Ministério de Educação do Estado e da Federação da Juventude da China, irá acolher 500 jovens em visitas que se vão prolongar até ao dia 25 do corrente mês. Em Agosto está prevista uma sessão, subordinada ao tema “Eu e a minha Pátria”, que se realiza em Macau.


sociedade 7

segunda-feira 15.7.2019

GLOBAL MEDIA MARCELO QUER “SOLUÇÕES” PARA DIFERENDO LABORAL

O

Presidente da República afirmou, junto do Sindicato dos Jornalistas (SJ) português, que “tem vindo a acompanhar toda a situação” do Grupo Global Media (GMG) “há já vários meses” e comprometeu-se, “dentro dos poderes que lhe estão atribuídos”, a fazer “todos os possíveis para encontrar soluções para os problemas”, divulgou na última quinta-feira o SJ na sua página web. O sindicato reuniu-se a 4 de Julho com Marcelo Rebelo de Sousa, voltando a alertar para a anunciada reestruturação e despedimentos de 100 a 200 pessoas, anunciados pelo GMG por alegada situação financeira deficitária, e nunca desmentidos. O SJ já tinha enviado carta ao Presidente a 25 de Fevereiro deste ano, após a alteração das datas de pagamento dos subsídios de Natal, em Novembro de 2018, e o recente atraso nos salários dos

trabalhadores desde o mês de Junho. O empresário local Kevin Ho é o accionista maioritário do GMG, através da empresa KNJ Investment, com 30 por cento do capital, sendo o restante da Olivemedia, Unipessoal, Lda., liderada por Daniel Proença de Carvalho com 19,25 por cento, o empresário português José Pedro Carvalho Reis Soeiro com outros 19,25 por cento, o Banco Comercial Português (BCP) e Novo Banco (NB), ambos com 10,5 por cento, e a empresa de comunicação Grandes Notícias, Lda. também com 10,5 por cento. O GMG possui diversas publicações e emissoras portuguesas, incluindo os jornais Diário de Notícias, Jornal de Notícias, Dinheiro Vivo e O Jogo, a rádio TSF, as revistas Evasões, Volta ao Mundo, Notícias Magazine ou Motor 24, sendo ainda accionista da agência noticiosa Lusa.

GIF Menos um terço de suspeitas de branqueamento de capitais

O Gabinete de Informação Financeira (GIF) anunciou na passada semana a diminuição acentuada do número de Relatórios de Transacções Suspeitas (ou STR, em inglês) submetidos, que correspondeu a menos 37,1 por cento dos casos reportados durante o primeiro semestre de 2018. Entre os meses de Janeiro e Junho de 2019, as autoridades receberam 1376 suspeitas de branqueamento de capitais ou de financiamento do terrorismo, contra as 2187 assinaladas em igual período do ano passado. As instituições financeiras e as companhias de seguros participaram 381 transacções suspeitas, menos 27,7 por cento do que os 617 STR no mesmo período do último ano. Na categoria de outras instituições, a queda foi ainda mais acentuada, com apenas 29 suspeitas, ou 2,1 por cento do total de STR, quando no ano transacto haviam sido registados 442 relatórios.

SUNCITY ALVIN CHAU NEGA ILEGALIDADES E LAMENTA IMPACTO NEGATIVO EM MACAU

O último dos lamentos

Alvin Chau voltou a negar a participação do grupo Suncity em actividades ilegais e lamenta que as suspeitas que vieram a público na semana passada tenham tido um impacto negativo no território

O

presidente executivo do Grupo Suncity negou qualquer envolvimento em actividades de apostas ilegais online e lamentou o impacto causado ao Governo de Macau e às concessionarias do território. “O Grupo Suncity lamenta profundamente todo este inconveniente causado ao Governo de Macau e o possível impacto negativo causado às concessionárias do território”, disse Alvin Chau durante uma conferência de imprensa. A empresa voltou a negar qualquer envolvimento em apostas online, ilegais na China continental e em Macau. “A empresa não operou qualquer plataforma online de jogos”, garantiu o presidente executivo do Grupo Suncity, rejeitando assim a notícia avançada na segunda-feira pelo Economic Information Daily, um jornal afiliado da agência de notícias oficial chinesa Xinhua, que noticiou que havia contactado cerca de “30 jogadores” que supostamente usavam serviços de jogos ‘online’ associados ao Grupo Suncity. O jornal alegou que o grupo, nos locais que explora em Macau, angariou jogadores do interior da China para uma aplicação de jogos ‘online’ disponível fora do território.

MUITO RESPEITINHO

“A empresa respeitou sempre as leis e as regulações de Macau”, disse o responsável máximo do Suncity, sublinhando que o grupo “nunca esteve envolvido em negócios que violassem as leis da República Popular da China e de Macau”. Apesar de negar de forma veemente a notícia avançada pelo Economic Information Daily, Alvin Chau adiantou

“A empresa respeitou sempre as leis e as regulações de Macau”, disse Alvin Chau, sublinhando que o grupo “nunca esteve envolvido em negócios que violassem as leis da República Popular da China e de Macau” que não vai processar “nenhum órgão de comunicação (…) por este incidente”. Representantes do Suncity foram já ouvidos pela Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos de Macau (DICJ) por alegada promoção ilegal do jogo ‘online’, indicou aquela entidade ao portal GGRAsia. Na quarta-feira, a DICJ de Macau exortou as operadoras a reforçarem a fiscalização sobre

a promoção do jogo ‘online’. “A exploração de qualquer actividade relacionada com jogos de fortuna ou azar na RAEM pode constituir um crime”, advertiu em comunicado a DICJ. A DICJ “exortou as concessionárias/subconcessionárias para a necessidade de uma fiscalização rigorosa dos promotores de jogo junto delas registados, por forma a prevenir aproveitamento indevido

dos casinos da RAEM para a promoção de jogos ‘online’ ou colocação de apostas via telefónica”. Em declarações à Lusa, em 21 de Maio, o director executivo do Suncity anunciou a pretensão do grupo em concorrer às concessões de novas licenças de jogo em Macau, em 2022. No entanto, depois das suspeitas levantadas sobre a execução de actividades ilegais, analistas consideram que a possibilidade de conseguir esta licença está ameaçada. “Penso que a possível violação do jogo ‘online’ poderá colocar em risco as suas possibilidades em termos de garantir uma licença em Macau”, assinalou Margaret Huang, analista do sector na Bloomberg. “Ainda assim, está a fazer progressos para corrigir a situação ao reunir-se com a DICJ, para esclarecer melhor como e se estavam de facto envolvidos”, acrescentou. Na quarta-feira da semana passada, o especialista em jogo Changbin Wang disse à Lusa não acreditar que o Grupo Suncity seja afastado da exploração de salas de casinos em Macau, mas admitiu danos na sua reputação. “Mesmo que se confirme que o Suncity opera [ilegalmente] jogos ‘online’, não creio que seja banido de Macau, pois o jogo ‘online’ é operado fora” do território, afirmou o director do Centro de Pesquisa e Ensino do Jogo do Instituto Politécnico de Macau (IPM). O Suncity é o maior angariador do mundo de jogadores de grandes apostas, com mais de 40 por cento do mercado VIP em Macau.


8 sociedade

15.7.2019 segunda-feira

HABITAÇÃO SOCIAL INFRACÇÕES LEVAM IH A INSTAURAR 53 PROCESSOS

A

S autoridades detectaram 10 casos de pessoas que não vivem de forma permanente na habitação social ou que colocaram outras pessoas a viver nestas casas, entre 1 de Janeiro e 30 de Junho deste ano. Os dados foram divulgados pelos Instituto de Habitação (IH), responsável pelas unidades, na passada sexta-feira. De acordo com os dados revelados, entre os 10 casos, em cinco as pessoas que assinaram os contratos devolveram voluntariamente a habitação social depois de terem sido notificadas. Os outros cinco casos vão seguir para tribunal, com o IH a reconhecer que só poderão ser tratados por essa via. Ao contrário das habitações económicas, as casas sociais apenas estão disponíveis para arrendaPUB

mento e servem para a parte da população com rendimentos mais baixos. Contudo, estas não foram as únicas infracções identificadas no primeiro semestre. Segundo os números apresentados, há 53 processos instaurados por suspeita de a administração das habitações sociais não estar dentro do que foi contratualizado com o Governo. Entre estes 53 processos, 11 foram instaurados ainda antes do início do ano. Ao mesmo tempo, nos primeiros seis meses do ano foram aplicadas 45 sanções por má gestão de habitações públicas, foram enviadas 8 cartas de aviso e aplicação de multas a arrendatários das fracções e ainda estão a ser acompanhados outros 8 processos a sociedades comerciais de administração.

Arranque em falso Julgamento de Wong Wai Man adiado sem data alternativa

O

julgamento do candidato às legislativas Wong Wai Man, conhecido pelas roupas do Partido Comunista chinês, e dos também candidatos às eleições de 2017 Lee Sio Kuan e Kee Kin Yun foi adiado. Inicialmente o caso que envolve a prática do crime de desobediência qualificada estava agendado para a manhã de hoje, pelas 09h45, mas o tribunal notificou

os envolvidos na sexta-feira do adiamento. A informação foi confirmada ao HM, mas ainda não há uma nova data para o arranque da primeira sessão do julgamento. As razões do adiamento não foram explicadas. Os factos que vão ser analisados neste processo reportam a 13 de Setembro de 2017, em plena campanha para as eleições legislativas, quando a lista Associação do Novo Progresso

de Macau, liderada pelo agora deputado Sulu Sou, agendou uma acção no cruzamento entre a Rua do Canal Novo e a Rua Nova da Areia Preta.

CONFUSÃO E GRITOS

Apesar de tudo estar a decorrer de forma pacífica, surgiu no local um grupo de pessoas que incluía Wong Wai Man, Lee Kin Yun, cabeça de lista da Ou Mun Kong I, e Lee Sio Kuan, número um na lista Início Democrático.

O candidato Wong liderava o grupo e, de altifalante na mão, começou a gritar contra a acção de campanha e a perturbar o desenrolar da campanha. Após este cenário, as autoridades foram chamadas ao local e pediram a Wong para deixar a área, para não perturbar a actividade política. No entanto, o candidato da “ajuda mútua Grassroots” terá recusado cumprir as ordens da polícia. Segundo declarações anteriores de Wong ao HM, a acusação envolve o crime de desobediência qualificada, que é punido com pena de prisão que pode chegar aos 2 anos de prisão ou 240 dias de multa. Os três arguidos do processo são representados pela advogada Kuok I Mei. O caso vai assim demorar um pouco mais a chegar ao tribunal, numa altura em que falta pouco mais de dois meses para se cumprirem dois anos dos acontecimentos. Entre os candidatos envolvidos nenhum conseguiu ser eleito, à excepção de Sulu Sou. João Santos Filipe joaof@hojemacau.com


sociedade 9

segunda-feira 15.7.2019

MEDICINA LICENCIADOS VÃO GANHAR 50 MIL NO CURSO DE ESPECIALIDADE

The special ones

O director dos Serviços de Saúde revelou que um licenciado em medicina que faça especialidade em Macau vai auferir um salário de cerca de 50 mil patacas mensais. As formações serão feitas nos hospitais do território e do exterior e terão um prazo de seis anos

F

O R A M revelados mais detalhes sobre as condições concedidas aos licenciados em medicina que vão fazer a sua especialidade em Macau, na nova Academia Médica de Macau. De acordo com o Jornal do Cidadão, o director dos Serviços de Saúde de Macau (SSM), Lei Chin Ion, garantiu que cada licenciado em medicina irá ganhar cerca de 50 mil patacas mensais durante o curso da especialidade, que terá uma duração de seis anos. Além disso, essa mesma especialidade será ministrada, em 90 por cento, nos hospitais de Macau e do exterior, tal como a China, Hong Kong ou Singapura, entre outros. Os formandos vão também ter aulas na Academia Médica, que ficará situada no edifício Centro Hotline, na zona do NAPE. A Academia Médica é formada por 12 colégios que se dividem em 40 secções. Lei Chin Ion disse ainda que o número de admissões

de licenciados, bem como o orçamento da entidade, vai depender das necessidades do sistema de saúde do território após os primeiros seis anos de funcionamento, bem como do ambiente de formação que os hospitais podem fornecer.

ESPECIALIDADE À ESPERA

Antes do estabelecimento da Academia Médica de

Macau, a formação de médicos tem sido feita pelo Centro Hospitalar Conde de São Januário e Hospital Kiang Wu, sem que haja um plano global pensado para todas as entidades hospitalares e profissionais de saúde do território. A Academia Médica vem, por isso, coordenar o acesso à especialidade e o regime de internatos médicos.

Os primeiros membros admitidos pela Academia Médica precisam estar capacitados com conhecimentos e qualificações que correspondam à categoria de médico especialista. Lei Chin Ion explicou que já foram recebidas mais de 700 candidaturas, 384 das quais já foram aprovadas. Cerca de 83 por cento dos candidatos fizeram especialidade em hospitais locais. Os membros aceites serão responsáveis pela orientação da formação dos licenciados no período de internato médico, além de serem júris na avaliação final desse mesmo internato. Como o regime legal de inscrição de médicos especialistas ainda não entrou em vigor, os finalistas dos cursos de especialidade administrados pela Academia Médica de Macau ficam, para já, com uma qualificação mais técnica, sem poderem exercer medicina na qualidade de especialistas, adiantou Lei Chin Ion. J.N.C./A.S.S.

Só mesmo para alguns

Macau Special Olympics contra inclusão de deficientes no salário mínimo

H

ETZER Siu, director-executivo da Macau Special Olympics e ex-candidato às eleições legislativas na lista de Angela Leong, defendeu, de acordo com o Jornal do Cidadão, que os portadores de deficiência não devem ser incluídos na lei do salário mínimo universal. “Se os deficientes também beneficiarem desta lei, ao terem acesso ao salário mínimo universal, podem ver as suas oportunidades limitadas, uma vez que não respondem aos requisitos necessários para arranjar um trabalho.” Para Hetzer Siu, “quando uma pessoa com deficiência tem suficiente capacidade de trabalho, deve receber um salário

na totalidade como manda a lei”. “No entanto, algumas pessoas não têm total capacidade de trabalho e não conseguem responder a cem por cento, e podem arranjar emprego recorrendo a outros mecanismos flexíveis”, acrescentou. O responsável lembrou que na Austrália é dado um subsídio aos portadores de deficiência que lhes permite atingir o nível do salário mínimo que é pago no país, enquanto que em Hong Kong existe um mecanismo de avaliação ocupacional das pessoas com deficiência.

UMA PROTECÇÃO

Celeste Vong, presidente do Instituto de Acção Social (IAS) também referiu ao

mesmo jornal que o Governo teve “uma boa intenção” ao excluir os portadores de deficiência do salário mínimo universal, uma vez que não existe um mecanismo de avaliação de capacidade de trabalho. Ainda assim, a presidente do IAS defende que as empresas devem ter mais confiança para contratar portadores de deficiência. O facto da lei não incluir este grupo de pessoas tem como objectivo protege-las em termos de oportunidades de emprego, uma vez que, enquanto não houver forma de avaliar a verdadeira capacidade dos deficientes, estes podem continuar a ser contratados com um salário, ainda que menor face ao que consta na lei. J.N.C. com A.S.S.

SAÚDE 71 RESIDENTES DE MACAU ADERIRAM AO SEGURO DE ZHUHAI

A

Direcção dos Serviços de Saúde informou no passado sábado que, até ao dia 10 de Julho, 71 cidadãos de Macau tinham aderido ao projecto piloto do Seguro Básico de Saúde dos Residentes da Cidade de Zhuhai. O acesso dos residentes locais ao seguro de saúde de Zhuhai é possível desde o dia 1 de Julho, uma medida que permite estender o direito de cuidados médicos a cerca de 8 mil residentes da RAEM que vivem em Zhuhai. Em declarações aos meios de comunicação social, o director dos Serviços de Saúde, Lei Chin Ion, assinalou que foram tidos em conta “o espírito e os princípios dos cuidados médicos para grupos vulneráveis em Macau, sendo que estes grupos de pessoas também são objecto de apoio médico gratuito em Macau”. Os grupos mais vulneráveis que participam no seguro recebem um subsídio

de 410 patacas do Governo da RAEM. Contudo, o sistema de segurança médica implementado em Macau possui cobertura superior à do sistema de seguro médico no Interior da China. Os grupos vulneráveis, os pacientes de longo prazo e os portadores de doenças graves ou especiais são tratados gratuitamente no território. Os residentes, de modo geral, têm atendimento gratuito nos centros de saúde, gozando da redução de 30 por cento em despesas no hospital.

PUB HM • 1ª VEZ • 15-7-19

ANÚNCIO Proc. Execução Ordinária nº.

CV3-19-0026-CEO

3º Juízo Cível

EXEQUENTE: HOI MAN PAK, residente em Macau, na Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, n.º600E, Centro Comercial First International, 19º andar. ----------------------------------------------EXECUTADA: CHIANG ISABEL, ora ausente em parte incerta, com última residência conhecida em Macau, na Avenida Dr. Sun Yat Sen, nºs 17-49, Edifício Kingsville, LR/C, Taipa. -------*** FAZ-SE SABER que, pelo Tribunal, Juízo e processo acima referidos, correm ÉDITOS DE TRINTA (30) DIAS, a contar da data da segunda e última publicação dos respectivos anúncios, citando, a executada acima identificada para no prazo de VINTE (20) DIAS, decorridos que sejam os dos éditos, pagar ao exequente a quantia de MOP$34.015.592,73 (trinta e quatro milhões, quinze mil, quinhentas e noventa e duas patacas e setenta e três avos), e demais acréscimos legais, ou no mesmo prazo, deduzir oposição por embargos ou nomear bens à penhora, sob pena de não o fazer ser devolvido ao exequente o direito de nomeação de bens à penhora e seguindo o processo os ulteriores termos até final à sua revelia. --------------------------------------Consigna-se que é obrigatória a constituição de advogado, artº.74º. do citado diploma, caso sejam opostos embargos ou tenha lugar a qualquer outro procedimento que siga os termos do processo declarativo. -------------------------------------------------------------------------------------Tudo conforme melhor consta do duplicado da petição inicial que neste 3º Juízo Cível se encontra à sua disposição e que poderá ser levantado nesta Secretaria Judicial nas horas normais de expediente. -------------------------------------------------------------------------------------------------Caso a citanda pretenda beneficiar do regime geral de apoio judiciário, deverá dirigir-se ao balcão de atendimento da Comissão de Apoio Judiciário, sito na Alameda Dr. Carlos D’ Assumpção, nº 398, Edf. CNAC, 6º andar, Macau, para apresentar seu pedido, sendo que poderão pedir esclarecimentos através do telefone n.º 2853 3540 ou correio electrónico info@caj.gov. mo. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------Para o efeito, terá de comunicar ao processo a apresentação do pedido àquela Comissão, para beneficiar da interrupção do prazo processual que estiver em curso, nos termos do n.º 1, do art.º 20.º, da Lei 13/2012, de 10 de Setembro. -----------------------------------------------------------Macau, 25 de Junho de 2019 *** O Juiz,


10 eventos

15.7.2019 segunda-feira

Era u uma

ARTE CONTEMPORÂNEA MOCA TA

Chama-se “Once Upon a Time – Unfinished Progressive Past” e é a nova exposição que marca os 18 anos de existência do único museu de arte contemporânea da Ilha Formosa. Para marcar o aniversário do MOCA Taipei, está também a ser pensado um projecto de cinco anos que incide sobre a história e a sociedade de Taiwan

O

p r imeir o museu de arte contemporânea de Taiwan está de parabéns e, para recordar esse marco está programada a inauguração de uma nova exposição, no próximo dia 20 de Julho, que tem como nome “Once Upon a Time – Unfinished Progressive Past”, com curadoria de Kao Chien-Hui, um crítico de arte e curador que trabalha a partir de Chicago. A mostra estará patente no MOCA Taipei (Museu of Contemporary Art) até ao dia 31 de Outubro e contém trabalhos de 16 artistas que nasceram entre os anos de 1950 e 1980, tal como Leo Liu, Dean-E Mei, Chien-Chi Chang e Ruey-Shiann, entre outros. De acordo com um comunicado oficial do evento, a exposição pretende constituir “um ponto crucial da história cultural de Taiwan, quando a arte contemporânea da região começou a ganhar forma”. As obras que vão estar patentes ao público “exploram as vidas e as memórias culturais de três gerações do pós-guerra, entre 1950 e 1990, partilhando também o seu passado de repressão e revolta”, sendo que também espelham um sentimento de retrospecção. Isto porque as obras “revelam o impacto das memórias colectivas, bem como das suas aproximações estéticas”.

Desta forma, os artistas participantes nesta iniciativa “reexaminam as suas motivações, o contexto histórico e a sua transformação ao nível da linguagem artística, elementos que têm feito parte da emergente arte contemporânea de Taiwan”. “Once Upon a Time” mostra também ao público “a consciência, não só dos artistas, mas talvez de toda a sociedade, e uma resposta face à identidade da ilha e do território, sistema social, passado colonial e influência ocidental”. Desta forma, consegue-se traçar um mapa “do desenvolvimento cultural de Taiwan”.

OLHAR O FUTURO

Além da exposição, a direcção do MOCA Taipei está também a pensar noutros projectos que façam uma reflexão sobre o desenvolvimento da entidade local. Citada pelo mesmo comunicado, Yuki Pan, directora do museu, explica que “uma vez que celebramos 18 anos de existência, uma marca de entrada na idade adulta, estamos a lançar o nosso projecto a cinco anos na área da arte contemporânea”, o qual “traça uma retrospectiva do desenvolvimento da arte contemporânea na região e também olha para o futuro”. Com “Once Upon a Time”, o MOCA Taipei pretende “mostrar o contexto do nascimento da arte contemporânea em Taiwan e permitir que os visitantes explorem a relação entre arte e sociedade”, acrescentou Yuki Pan.

ANIM’ARTE NAM VAN INAUGURADA NOVA EXPOSIÇÃO DE GRAFFITI

F

OI inaugurada na passada sexta-feira uma nova exposição no espaço Anim’Arte Nam Van, intitulada “Lake Up Graffiti Jam”, que nasce de uma colaboração entre o Instituto Cultural (IC) e a Associação dos Artistas de Belas-Artes de Macau. Como tal, as entidades convidaram os artistas CEET e MCZ para decorar conjuntamente um mural, com o tema “Alegria para Todos”, que visa

“potenciar a atmosfera cultural e criativa do Anim’Arte Nam Van com uma nova exposição de graffiti”, aponta o IC, em comunicado. Neste trabalho, “os dois artistas procuram apresentar uma combinação de elementos diferentes, tais como um sorriso inocente, um duende de energia positiva e um guardião da felicidade, através da sua linguagem comum – o grafitti”.Além disso, os artistas

cooperaram com a Macau Association for Community Care Children, convidando quatro famílias para participar no processo criativo. CEET é um artista francês contemporâneo mundialmente reconhecido e considerado exímio na técnica tipográfica de “estilo selvagem”, prevalente no graffiti, transformando completamente as letras e produzindo um efeito impressionante através do forte

contraste de cores. O artista tem um particular interesse em partilhar os seus trabalhos com os outros, recorrendo a paredes, esculturas, design gráfico e pinturas a óleo para expressar a sua experiência de vida e a sua atitude em relação à vida. O IC aponta que CEET vive na China desde 2003, e que participou em várias exposições e projectos artísticos, onde se inclui o título de embaixador

artístico de uma série de marcas internacionalmente conhecidas. Já MCZ é um artista de grafitti natural de Macau, cujo estilo incorpora o conceito de autonomia, criando personagens ilustradas tais como o balão amarelo sorridente, esculturas e instalações, para transmitir alegria ao público através de obras artísticas que podem ser vistas em diferentes partes da cidade.

Estas obras artísticas “exploram as vidas e as memórias culturais de três gerações do pós-guerra, entre 1950 e 1990, partilhando também o seu passado de repressão e revolta”


eventos 11

segunda-feira 15.7.2019

uma vez ilha

AIPEI CELEBRA 18 ANOS COM NOVA EXPOSIÇÃO

Este projecto a cinco anos não é mais do que uma iniciativa que convida um curador a trabalhar na exposição que responde a cinco tópicos, tais como o desenvolvimento da arte contemporânea, a criação especial, a crítica do sistema social, a arte contemporânea em Taiwan e o lado multidisciplinar da arte contemporânea. Além destas iniciativas, o MOCA Taipei apresenta também, até ao dia 28 deste mês, uma exposição indivi-

dual do artista taiwanês Chu Chun Teng, intitulada “Rooftop”, que explora as dificuldades sentidas pelos residentes da Ilha Formosa na cidade transfronteiriça de Tengchong. O público poderá também ver a mostra “Why Did You Come to Taiwan?”, de 3 de Agosto a 29 de Setembro, com a curadoria de Cheng Shao-Hung. A.S.S.

Museu de Arte de Macau Escolhidos trabalhos para Exposição de Artistas de Macau

O Museu de Arte de Macau (MAM), em parceria com o Instituto Cultural (IC), deu por concluída a selecção das obras que vão estar presentes na Exposição de Artistas de Macau”, depois do processo de candidaturas que reuniu 148 artistas. De acordo com um comunicado, foram seleccionados três Prémios de Júri, sete Prémio de Excelência e 66 obras (conjuntos) finalistas. Da lista final constam trabalhos como “In the Mountain”, de Tam Chon Kit, “Walls III”, de Lam Un Mei e “Historical Memory” de Mak Kuong Weng, entre outros. Todos os trabalhos seleccionados serão enviados a Pequim onde serão incluídos na “Exposição de Artistas de Macau 2019”, a ter lugar no Museu Nacional de Arte da China. Em Novembro será a vez de o MAM receber a mostra “Beleza na Nova Era - Obras-primas da Colecção do Museu Nacional de Arte da China”, com o objectivo de promover o intercâmbio artístico entre Pequim e Macau.

PUB


12 china

15.7.2019 segunda-feira

XINJIANG 37 PAÍSES APOIAM DISCRIMINAÇÃO DE MINORIA

Quem é amigo

Trinta e sete países, incluindo Rússia e Síria, apoiaram a China junto da ONU, após 22 Estados, principalmente ocidentais, terem enviado uma carta à organização a condenar a actuação chinesa sobre as minorias na região de Xinjiang

O

grupo de 37 países, em que também constam a Arábia Saudita, a Coreia do Norte, o Qatar, a Argélia, a Nigéria e as Filipinas, escreveu igualmente uma missiva às Nações Unidos, documento esse que foi divulgado na passada sexta-feira pela China no último dia da 41.ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos, em Genebra (Suíça). Na missiva, endereçada ao presidente do Conselho,

Coly Seck, e à Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, os países signatários apoiantes de Pequim “congratulam a China pelas notáveis realizações em matéria de direitos humanos”. Segundo estes países, “o terrorismo, o separatismo e

o extremismo religioso têm provocado enormes prejuízos para todos os grupos étnicos em Xinjiang (no noroeste da China)”. “Perante o grave desafio do terrorismo e do extremismo, a China tomou uma série de medidas contra o terrorismo e a radicalização em Xinjiang,

Os países signatários apoiantes de Pequim “congratulam a China pelas notáveis realizações em matéria de direitos humanos”.

nomeadamente a criação de centros de educação e de formação profissional", prosseguiram os países signatários, realçando que “a segurança regressou” à região. O grupo de 37 países indicou ainda que a China convidou diplomatas e jornalistas a deslocarem-se a Xinjiang, defendendo que as recentes informações relativas à região “contradizem completamente aquilo que foi relatado nos ‘media’”.

Em tom de conclusão, os países pedem à comunidade internacional para não avançar com acusações com base em "informações não confirmadas antes de visitar Xinjiang”.

A OUTRA CARTA

Em Março, Michelle Bachelet disse que esperava ter “luz verde” de Pequim para ter “pleno acesso" a esta vasta região autónoma chinesa, que faz fronteira com o Paquistão e o Afeganistão.

Após vários atentados atribuídos a membros da minoria muçulmana turcófona Uigures, o Governo chinês impôs fortes medidas de segurança neste território. A China é suspeita de ter colocado cerca de um milhão de pessoas em espaços conhecidos como campos de reeducação. Pequim nega tais números e prefere falar em “centros de formação profissional" destinados a ensinar conhecimentos e a impulsionar a luta contra a radicalização islâmica. Na quarta-feira, 21 países ocidentais (como Reino Unido, Canadá, França ou Alemanha) e o Japão enviaram uma carta à ONU para expressar a sua preocupação perante “relatos credíveis que dão conta de detenções arbitrárias (…), bem como de uma vigilância e restrições generalizadas, visando particularmente os Uigures e outras minorias em Xinjiang, na China". Nessa carta, os países exortaram Pequim a permitir a liberdade de movimentos dos Uigures e de outras comunidades minoritárias.

PUB

EDITAL Edital n.º: Processo n.º: Assunto: Local:

45/E-BC/2019 534/BC/2017/F Início da audiência pela infracção às disposições do Regulamento de Segurança Contra Incêndios (RSCI) Beco do Seminário n.º 9, Edf. Hou Kin, parte do terraço sobrejacente às fracções 5.º andar C e 5.º andar D, Macau.

Li Canfeng, Director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, faz saber que fica notificado o dono da obra do local acima indicado, cuja identidade se desconhece, do seguinte: 1.

Na sequência da fiscalização realizada pela DSSOPT, apurou-se que no local acima indicado realizou-se a seguinte obra não autorizada: Obra 1.1 Construção de um compartimento com suporte metálico.

Infracção ao RSCI e motivo da demolição Infracção ao n.º 4 do artigo 10.º, obstrução do caminho de evacuação.

2.

Sendo as escadas, corredores comuns e terraço do edifício considerados caminhos de evacuação, devem os mesmos conservar-se permanentemente desobstruídos e desimpedidos, de acordo com o disposto no n.º 4 do artigo 10.º do RSCI, aprovado pelo DecretoLei n.º 24/95/M de 9 de Junho. As alterações introduzidas pelos infractores no referido espaço, descritas no ponto 1 do presente edital, contrariam a função desse espaço enquanto caminho de evacuação e compromete a segurança de pessoas e bens em caso de incêndio. Assim, a obra executada não é susceptível de legalização pelo que a DSSOPT terá necessariamente de determinar a sua demolição a fim de ser reintegrada a legalidade urbanística violada.

3.

Nos termos do n.º 3 do artigo 87.º do RSCI, a infracção ao disposto no n.º 4 do artigo 10.º é sancionável com multa de $4 000,00 a $40 000,00 patacas. Além disso, de acordo com o n.º 4 do mesmo artigo, em caso de pejamento dos caminhos de evacuação, será solidariamente responsável a entidade que presta os serviços de administração ou de segurança do edifício.

4.

Considerando a matéria referida nos pontos 2 e 3 do presente edital, podem os interessados, querendo, pronunciar-se por escrito sobre a mesma e demais questões objecto do procedimento, no prazo de 5 (cinco) dias contados a partir da data da publicação do presente edital, assim como requerer diligências complementares e oferecer os respectivos meios de prova, em conformidade com o disposto no n.º 1 do artigo 95.º do RSCI.

5.

O processo pode ser consultado durante as horas de expediente nas instalações da Divisão de Fiscalização do Departamento de Urbanização desta DSSOPT, situadas na Estrada de D. Maria II, n.º 33, 15.º andar, em Macau (telefones n.os 85977154 e 85977227).

RAEM, 8 de Julho de 2019 O Director de Serviços Li Canfeng

A

China anunciou que vai impor sanções às empresas norte-americanas envolvidas na venda de armamento a Taiwan “A venda de armas a Taiwan pelos Estados Unidos constitui uma grave violação das normas fundamentais do Direito Internacional e das relações internacionais", afirmou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Geng Shuang, dias depois do Departamento de Estado norte-americano ter anunciado um acordo de venda de armamento com aquele território insular na ordem dos 2,2 mil milhões de dólares (cerca de 1,9 mil milhões de euros). “A fim de proteger os interesses nacionais, a China vai impor sanções às empresas norte-americanas envolvidas nesta venda de armas a Taiwan", referiu o representante, citado num comunicado, mas sem especificar a abrangência das medidas.

Garras de fora

Sanções para empresas americanas envolvidas na venda de armas a Taiwan

Antes deste comunicado, o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, já tinha advertido que os Estados Unidos (EUA)

estavam “a brincar com o fogo” ao ter negociado com a ilha de Taiwan, afirmando que com esta política a administração

norte-americana estava a imiscuir-se num assunto interno da China. “Os separatistas de Taiwan actuam contra a História e contra o povo”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, após um encontro com o seu homólogo húngaro, Peter Szijjártó, em Budapeste, exigindo a Washington que respeite o princípio de uma só China. “Se os Estados Unidos gerarem novos problemas nas relações com a China, as suas acções irão voltar-se contra eles”, avisou Wang Yi, fazendo ainda referência à passagem da líder taiwanesa, Tsai Ing-wen, pela cidade norte-americana de Nova Iorque.

NA GRANDE MAÇÃ

Ainda em Budapeste, o ministro chinês defendeu que os Estados Unidos não deviam ter permitido esta visita e deviam suspender todos os contactos oficiais com a ilha. Tsai Ing-wen, do Partido Democrático

Progressista, pró-independência, realizou uma paragem de duas noites em Nova Iorque, a caminho das Caraíbas, onde irá visitar aliados de Taipé naquela região. Em declarações em Nova Iorque, a líder taiwanesa afirmou que o povo daquele território "nunca se sentirá intimidado". Embora Tsai Ing-wen tenha visitado os EUA em outras ocasiões, esta foi a sua primeira viagem como líder de Taiwan a Nova Iorque, onde o território insular mantém uma representação consular e comercial não oficial, próximo da sede das Nações Unidas. O itinerário de dois dias de Tsai Ing-wen em Nova Iorque, aprovado pela administração norte-americana, incluiu um encontro com representantes de empresas de Taiwan e um jantar com membros da comunidade taiwanesa radicada nos EUA.


china 13

segunda-feira 15.7.2019

Na lista negra Huawei ainda não viu benefícios de trégua na guerra comercial

O

presidente da Huawei, Liang Hua, disse que não "viu ainda mudanças", depois de o Presidente norte-americano, Donald Trump, ter prometido desbloquear a exportação de tecnologia chave para o grupo chinês das telecomunicações. A decisão "injusta" de colocar o maior fabricante de equipamentos de rede na lista negra do Departamento de Comércio norte-americano, restringindo as vendas ao grupo, está a prejudicar os fornecedores norte-americanos e clientes da Huawei em todo o mundo, afirmou Liang Hua, em conferência de imprensa. Washington tem pressionado vários países, incluindo Portugal, a excluírem a Huawei na construção de infraestruturas para redes de quinta geração (5G), a Internet do futuro, acusando a empresa de estar sujeita a cooperar com a espionagem chinesa. Em Maio passado, o Governo norte-americano emitiu uma ordem executiva que exige às empresas do país que obtenham licença para vender tecnologia crítica à Huawei, num golpe que se pode revelar fatal para o grupo. Após um encontro entre os líderes da China e EUA, Xi Jinping e Donald Trump, em Junho passado, os dois países anunciaram um período de tréguas, visando chegar a um acordo. Trump prometeu então levantar a interdição sobre as vendas à Huawei, mas Liang afirmou que "até à data", a empresa "não viu mudanças tangíveis". "Julgamos que a nossa empresa deve ser completamente retirada da lista negra", afirmou. O presidente da Huawei afirmou ainda que, apesar daquelas restrições, as receitas do grupo aumentaram no primeiro semestre do ano, sem detalhar números. As restrições nas vendas ao grupo constituem também um golpe para os fornecedores norte-americanos de chips e outras tecnologias, já que a Huawei

Considerando que não é possível notificar directamente os interessados, por ofício ou outras formas, para efeito dos artigos 10.° e 58.° do “Código do Procedimento Administrativo”, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, de 11 de Outubro, notifico, pela presente, de acordo com o n.º 2 do artigo 72.º e do artigo 94.º do mesmo Código, os interessados abaixo mencionados que, por haverem instalado material publicitário sem licença emitida pelo IAM, são suspeitos de terem violado o previsto no n.º 1 do artigo 19.º da Lei n.º 7/89/M. Nos termos da alínea d) do n.º 1 do artigo 27.º e alínea c) do artigo 31.º da mesma Lei, nada impede este Instituto de aplicar aos interessados decisões sancionatórias, cujas multas variam entre as duas mil (MOP 2.000,00) e as doze mil patacas (MOP 12.000,00) e de ordenar a remoção do material publicitário ilícito: Nome do interessado AO IEONG SAN CHAK CHAN HONG CHI LO KEUNG

宜來貿易有限公司

RESTAURANTE NOVO PALACIO , LIMITADA

é um dos maiores clientes. Liang disse que a Huawei está decidida a responder à possível perda de acesso ao sistema operacional Android, da norte-americana Google. O grupo desenvolveu o seu próprio sistema operacional, o Hongmeng, mas até agora não o utilizou em nenhum dos seus telemóveis. "O sistema operacional e o ecossistema Android ainda são a nossa primeira escolha", disse Liang. "É claro que, se os EUA não nos permitirem usá-los, poderemos, no futuro, desenvolver o nosso próprio Hongmeng como sistema operacional? Ainda não decidimos", apontou. A Huawei também está a desenvolver os seus próprios chips e outras tecnologias chave, o que reduziria as compras de componentes fabricados nos EUA e ajudaria a proteger a empresa contra possíveis retaliações de Washington.

ECONOMIA COMÉRCIO COM EUA RECUA EM JUNHO REFLECTINDO DISPUTAS

A

S importações da China oriundas dos Estados Unidos afundaram 31,4 por cento, enquanto as exportações para o mercado norte-americano caíram 7,8 por cento, no mês passado, em termos homólogos, numa altura de agravamento das disputas comerciais entre Pequim e Washington. Segundo os dados das alfandegas chinesas, divulgados na sexta-feira, no total, as exportações e importações da China caíram, 1,3 por cento e 7,3 por cento, respec-

Notificação n.º 21/DLA/DHAL/2019 Notificação de instauração de procedimento sancionatório administrativo

tivamente, face ao mesmo mês do ano passado. Depois de, em Maio passado, a balança comercial da China ter crescido ligeiramente, os dados deste mês revelam que as disputas com os EUAcomeçam a ter efeito no país asiático. "A disputa comercial entre a China e os EUA trouxe alguma pressão sobre o nosso comércio externo, mas que pode ser controlada", disse Li Kuiwen, porta-voz da administração das alfândegas, em conferência de imprensa. Julian

Evans Pritchard, economista sénior da Capital Economics na China, considerou num relatório que "a tendência negativa no comércio deve intensificar-se, nos próximos trimestres". Em causa está a política de Pequim para o sector tecnológico, que visa transformar as firmas estatais do país em importantes actores globais em sectores de alto valor agregado, como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros eléctricos.

LAI WENG LOK

太子物業有限公司

N.º do Bilhete de Identidade/Registo Comercial Bilhete de Identidade de Residente de Macau/7347XXX(X) Bilhete de Identidade de Residente de Macau/1326XXX(X) Bilhete de Identidade de Residente de Macau/5175XXX(X) Certidão de registo comercial (Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis)/ 42919 SO Certidão de registo comercial (Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis)/ 12457 SO Bilhete de Identidade de Residente de Macau /7404XXX(X) Certidão de registo comercial (Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis)/ 46766 SO

COMPANHIA DE Certidão de registo INVESTIMENTO (Conservatória INTERNACIONAL comercial dos Registos Comercial MACAU KAM e de Bens Móveis)/ WANG IEK, 29100 SO LIMITADA Bilhete de Identidade de WONG WAI HONG Residente de Macau /7382XXX(X) N.º do Bilhete de Nome do Identidade/Registo interessado Comercial Certidão de registo (Conservatória MODA LANDI comercial dos Registos Comercial MACAU, LDA e de Bens Móveis)/ 43411 SO COMPANHIA DE Certidão de registo INVESTIMENTO comercial (Conservatória INTERNACIONAL dos Registos Comercial MACAU KAM e de Bens Móveis)/ WANG IEK, 29100 SO LIMITADA

Denominação do estabelecimento

AO IEONG SAN 91/DFHAL/DHAL/2019 CHAK

Data do auto 14/01/2019

PERSONAGE WINERY

20/DFHAL/DHAL/2019

31/01/2019

天龍行魚欄

237/DFHAL/DHAL/2019

28/02/2019

宜來超級市場 334/DFHAL/DHAL/2019

18/03/2019

RESTAURANTE NOVO PALACIO 244/DFHAL/DHAL/2019 , LIMITADA

01/03/2019

MOVEIS YUEN 281/DFHAL/DHAL/2019 NGAI

01/03/2019

太子物業有限 公司

10/01/2019

3/DFHAL/DHAL/2019

FUNNEW SPOT 339/DFHAL/DHAL/2019

18/03/2019

KIN KA PROPERTIES

532/DFHAL/DHAL/2019

16/05/2019

Denominação do estabelecimento

N.º do auto de notícia

Data do auto

LANDI

402/DFHAL/DHAL/2019

09/04/2019

FUNNEW SPOT 229/DFHAL/DHAL/2019

27/02/2019

Bilhete de Identidade de MERCEARIA Residente de Macau WO CHEONG /5031XXX(X) Bilhete de Identidade de 帝寶物業 CHONG KIN PO Residente de Macau /5111XXX(X) Certidão de registo comercial (Conservatória MARKEN GRUPO dos Registos 野田屋 Comercial LIMITADA e de Bens Móveis)/ 65140 SO

LAM KUOK SANG

N.º do auto de notícia

377/DFHAL/DHAL/2019

03/04/2019

319/DFHAL/DHAL/2019

02/04/2019

565/DFHAL/DHAL/2019

30/05/2019

Os interessados supramencionados poderão apresentar a sua audiência por escrito, no prazo de 10 dias, contados a partir do dia seguinte ao da publicação da presente notificação, no Centro de Serviços e Centros de Prestação de Serviços ao Público do IAM. Para consulta e mais informações sobre os respectivos processos, os interessados poderão dirigir-se à Divisão de Licenciamento Administrativo do Departamento de Higiene Ambiental e Licenciamento, sita na Avenida da Praia Grande, n.os 762-804, Edifício China Plaza, 2.º andar, zona B do Centro de Serviços do IAM, Macau. Aos 5 de Julho de 2019. O Vice-Presidente do Conselho de Administração para os Assuntos Municipais Lei Wai Nong www. iam.gov.mo


14

h

Paulo Maia e Carmo texto e ilustração

15.7.2019 segunda-feira

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão

As montanhas de Gao Kegong, figuras da resistência

M

A Yuan (activo c. 1190-1225) foi um pintor pertencente a uma família de pintores que teria, em sucessivas gerações, trabalhado para a corte em Hangzhou porém, poucos elementos biográficos deles foram registados nem eles mesmos escreveram ensaios críticos, pelo que historiadores actuais deduzem um preconceito, associado a um relativo baixo estatuto social. O formato das obras dele que subsistem – rolos verticais ou páginas de álbuns, e não o mais privado e sofisticado rolo horizontal, habitualmente pintadas sobre seda e não em papel com utilização de cores, denuncia uma convenção corrente entre os pintores da corte da dinastia Song do Sul (1127-1279). Numa dessas páginas de álbum «Momentos da cerejeira em flor» (Colecção privada, foto: Yale University Art Gallery, New Haven, CT), uma curiosa coincidência desvela esse gosto. A pintura de cerejeiras em flor representava já, na literatura das classes altas da dinastia Song, tanto a beleza feminina como o carácter diletante do idealizado homem de cultura. A homofonia entre a expressão ying tao para designar a «cereja» e yin dao, «mostrar a Via ou o Caminho», «o que vai para a Imortalidade» poderia contribuir para esse jogo elegante de significados e coincidências entre os intelectuais ligados à corte. Um traço marcante dessa cultura que possuía já uma riqueza imaterial capaz de resistir a qualquer interferência exterior. Como se provaria. Gao Kegong (1248-1310) foi um dos pintores da transição dinástica Song para Yuan (1271-1368) que através do pincel e não da espada, conquistaram os conquistadores de uma dinastia estrangeira. Osvald Sirén anota como Dong Qichang, que estabeleceu a hierarquia convencional da pintura, de maneira espontânea vai escrevendo as suas observações sobre os pintores antigos, no que resulta que o lugar de Gao, ao contrário de Ma Yuan que é sempre referido do lado errado, no esquema dos valores vá variando: «por vezes coloca Gao Kegong acima de Nizan, mas outras vezes a ordem é invertida.» Mas uma mera referência por tão distinto autor foi suficiente para merecer a atenção dos vindouros. E o caso dele é ainda significativo por outros motivos. Nascido em Datong (actual Shanxi), numa presumível família islâmica, veio para a capital onde com outros, como Zhao Mengfu (12541322), viveu num estatuto ambíguo, quase superando a divisão entre profissionais e amadores. A pintura atribuída a Gao Kegong «Paisagem após a chuva» de c. 1300, num rolo vertical a tinta sobre papel (122,1 x 81,1 cm, National Palace Museum, Taipé), é exemplar das características habitualmente referidas sobre o seu trabalho. É uma pintura que quase se diria abstracta, tão poucos são os elementos que se distinguem por entre as nuvens, entre os quais altivo o cume de uma montanha, figura emocionante e orgulhosa de tantas resistências.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

segunda-feira 15.7.2019

Meu tão certo secretário Rita Taborda Duarte

A

ONDE ides nessa lesta ligeireza? Ainda agora aqui estáveis, mas em piscando os olhos, já vos ides? Vinde cá, meu tão certo secretário, que não vos faço testemunha de queixumes ou lamentos, outras penas, mas desta admiração franca que sempre aqui venho escrevendo. Vinde cá, papel, em que as minhas leituras desafogo, para que vos diga que o livro se chama «Um quarto em Atenas» e que o escreveu Tatiana Faia; sim, meu tão certo secretário: é bem a prova de que a poesia encarrilha em regras próprias, muito suas, nem sempre facilmente apreensíveis. Encarreira em percursos que nem sonhais, quando faz do «mapa do mundo» «a sua miniatura». Tal como se diz da personagem/mulher que habita um dos mais fortes e densos poemas do livro (e por que não dizer belo, se de impressões de leitura, somente, aqui se trata?) intitulado «Cinco Visões de Paraíso», torna-se, também, ao correr do livro, indistinta «a fronteira entre a mente e o corpo», quando nos poemas se anota, a cada verso, «a distância/ entre lacuna e entendimento». São estas as manhas da grande poesia: provocar tensão entre o nosso modo de reconhecimento e a percepção da linguagem do poema, dos mundos que ele resgata e recupera, num mapeamento de percursos, em profunda irrequietude. No final de «Um quarto em Atenas», num texto dedicado a agradecimentos que se tornam numa arte poética, breve, desinteressada, diz-nos Tatiana: «Nunca se sabe bem onde um poema começa, a barreira entre pensar sobre literatura e escrever é sem dúvida uma ténue parede através da qual se pode conversar.». Assim também ler: há certos poemas cuja leitura torna indivisa a barreira entre ler e pensar sobre que coisa é um poema; de que modo produz a poesia os seus significados, melhor, o seu assombramento: aquela força quase física de uma tensão que começa a balancear o texto e que abala o leitor, o perturba, desinquieta. É equilibrado na barreira ténue entre «lacuna e entendimento» que o leitor reconhece, estranhando, os espaços do poema (uns físicos, outros mentais), as referências, os autores convocados, poemas, filmes, pessoas, personagens, tempos que se perpassam. E, essencialmente, um ponto de vista: os sítios de onde se olha («esses lugares todos/onde para lá do acidente convergimos») para o lugar que se olha. Este é um livro feito de territórios, locais de vigia sobre o mundo: janelas, afinal, para outros lugares, que se observa, com a nostalgia irónica de quem analisa em distância e explode nas suas inquietações e nervosismos. Um processo em tudo similar ao que se diz do grito de Munch, que, afinal, não representa, simplesmente, um homem a gritar, mas «um homem a tentar conter/ como as barreiras de um rio/ o grito de tudo o que o rodeia». Será isto. A tensão do grito desta poesia resiste na busca de contenção de tudo o que a rodeia, também.Sim, meu tão certo secretário, tendes razão: estou a roubar versos, tão somente, para dizer dos poemas aquilo que quereria dizer; uma forma, eu sei, de os canibalizar. Mas canibalizar o verso alheio é o mínimo que podemos fazer a um poema, deformando-o, torcendo-o, até que ele nos diga aquilo, meu secretário, que gostaríamos de ter dito. Que mais podemos fazer com os poemas, se não isso: usar-lhes os versos, como um canivete suiço, para esventrarmos um pouco o caroço do nosso próprio pensamento de leitura? Nesse texto no final do livro, Tatiana diz que uma vez tentou «explicar a um crítico que [mantinha] o hábito questionável de usar pessoas que são parte da [sua] vida para escrever.». Enumera-as e são várias; assim como as diversas referências, modernas atravessando as clássicas, que

Uma respiração sustenta-se que nos pode salvar do orgulho de estar sós sem grande artifício há no coração desta bela cidade uma enorme praça de touros a ternura desarmante e sem dentes de todos os empregados de mesa um falo gigante num dos parques principais e a ruína esfomeada de tudo o que cresce ou não cresce à volta e o poeta que esta noite fechar a sua janela sobre o tejo sabe que só é preciso fechar os olhos a metade ou mesmo olhar para tudo com um olho a menos para poder continuar a amar em paz o resto

falam nestes poemas sempre longos, a desafiar a tensão que pode atingir a língua de um poema; escrever assim é canibalizar, incorporar, absorver pessoas, textos, vidas. Até os locais e datas (paratexto que acompanha muitos dos poemas) se tornam, no livro, itinerários, não dos lugares onde a autora esteve, e onde escreveu (isso pouco nos interessa), mas dos ângulos de onde se olha a parte do mundo em que não se está, sublinhando a errância -nostalgicamente irónica --, como um fio condutor destes poemas. Como se diz, a dado momento: «a mais absoluta nostalgia/tem determinado todos os poemas.». Duas referências assombram o livro, acima de todas as outras: Jorge de Sena e Ruy Belo assomam não só como autores citados, expressamente ou camuflados ou aglutinados, mas essencialmente como um ângulo de visão, um ponto de vista: o ponto de vista da distância, seja nas perspectivas sobre o tempo detergente (sempre o nosso), onde nunca foi possível o puro pássaro, seja pela ditosa pátria amada, em que ninguém merece ter nascido. O longo poema «Retorno, 2016», de que cito o final, é bem o exemplo desta errância de onde se olha, por exemplo, para o país: [...] « e um poeta com menos discernimento neste país tão europeu que se enche de painéis de publicidade em inglês como selvas se enchem de vegetação e certos quadros da renascença italiana se enchem de cabeças cortadas alinharia aqui os três fs e concluiria que não tem sido fácil calcular a distância certa

Este prima de onde se olha para a realidade, como se se estivesse à janela de um quarto distante também absorve a visão crítica e irónica sobre o acto de escrita e o papel (não tu, meu tão certo secretário, outro) tão amarrotado, já, do poeta, bem evidente em textos como «Como reconhecer o seu autor feliz», «O grande fardo de palha do poeta comprometido» ou «Literatura para Falcões», imenso poema. É de esguelha, de vários cantos, num percurso nómada, que se vê Europa como espaço e tempo e os seus horrores, presentes e passados (a perseguição acossada do nazismo é uma sombra do livro ainda, como uma memória de que se quer ainda sentir a culpa): «sábio/ deve ser só quem se consegue lembrar/depois de tudo roubado/do dever da própria memória», lê-se no poema, justamente intitulado « O filho de Saul». Ler «Um quarto em Atena» é tentar a decifração de espanto a cada verso; espécie de vertigem, que sente as palavras em tensão. Não é a língua, a história literária ou cultural que nos dá o melhor diapasão para avaliarmos um livro de poesia. Não, meu tão certo secretário. É como vos digo: as leis da física oferecem instrumentos bem mais adequados. Um bom poema é aquele que põe a língua, as certezas, os leitores, a lógica do discurso, as referências, o dizer, num equilíbrio tenso, em tensão: esta medida de grandeza que avalia a força de tracção a um objecto. Ou ele se quebra ou se deforma ou volta ao seu intacto estado inicial (quase nunca). Sim, meu tão certo secretário, é esta tensão, sem mais explicações, que parece definir a poesia de Tatiana Faia; a expectativa, o espanto, de ver algo a quebrar-se no poema, ou simplesmente ( e não é de somenos) assistir à força, à velocidade, à inquietação de sentir as palavras da poesia retomarem a forma original. No texto final de «Agradecimentos», a poeta lembra de passagem Ruy Belo, «autor de poemas longos e inesperados, [...] onde se pode sublinhar muitos versos». É o que se espera de um leitor perante um bom livro de poesia: que lhe sublinhe os versos, tomando-os para si, levando-os no bolso, que há-de surgir o dia em que esses versos nos possam valer. É, no fundo, meu tão certo secretário, esta certeza que fica da escrita de Tatiana Faia: «enquanto ela escrevinhar/uma respiração sustenta-se e é tudo». Tatiana Faia, Um quarto em Atenas, Lisboa, Tinta da China, 2019


16

h

15.7.2019 segunda-feira

´

Confúcio e a questão dos ritos José Simões Morais

O

jesuíta Matteo Ricci (15521610) numa primeira abordagem interpretou como supersticiosos os ritos chineses, mas para os compreender melhor estudou a doutrina de Confúcio, na qual se baseava a sociedade chinesa e o seu sistema político com os princípios de Ordem, Paz e Harmonia. O nome de Confúcio foi dado por Ricci a Kong Fu Zi (孔夫子, 551479 a.n.E.), mestre Kong (Kongzi), que nascera no Período Primavera-Outono (770-476 a.n.E.), havia dois mil anos. Viveu durante a Dinastia Zhou do Leste, quando centenas de pequenos reinos até então federados começaram a ser conquistados e grande instabilidade surgia pelas contínuas guerras entre os reinos cada vez maiores e mais fortes. Sem governantes capacitados para esse novo espaço de gestão estratégica, apareceram muitos ilustrados mestres, entre eles Kongzi, que ofereciam os seus conhecimentos, colocando-os ao serviço do rei para a governação. Kongzi reorganizou os conhecimentos antigos e sendo um grande educador transmitiu-os aos discípulos. Incutiu o respeito pelos Antepassados, como modo de vida propunha o aperfeiçoar da ética pela rectidão, benevolência e virtudes. Como filosofia, o caminho da sabedoria prática pela harmonia na vida social, na educação e na política, atribuindo grande importância à Paz, Harmonia e Ordem como princípio do bem governar e organizar o Estado. Após a sua morte em 479 a.n.E., os ensinamentos, apesar de no tempo terem passado à margem, tiveram seguidores confucionistas, administradores exímios e poderosos. Em 213 a.n.E. boa parte dos escritos foram destruídos pelo fogo, mas reproduzidos de memória perpetuaram-se na sociedade chinesa a partir da dinastia Han (206 a.n.E-220). Kongzi advogava o conceito de Harmonia: um Universo ordenado, em que o ser humano deve procurar manter as relações harmoniosas com a Natureza, consigo mesmo e com o próximo. Regulou as relações humanas, para as quais encontrou cinco fundamentais: soberano e súbditos, pais e filhos, marido e mulher, irmão mais velho e os mais novos e entre amigos. “Observados os deveres entre uns e outros há harmonia; de contrário, reina a desarmonia. A relação mais importante é a do pai e filho e a virtude central que a governa é a piedade filial (孝, hau). Sobre esta virtude e as que a acompanham – obediência, respeito e serviço – construiu-se a estrutura da so-

ciedade chinesa.” Entre aspas está o que creio ser do Padre Benjamim Videira Pires, mas poderá ter outro autor e por esta falta me penitencio e agradeço a quem corrija e nos desfaça tal dúvida. O artigo a partir daqui está estruturado sobre esse texto, de onde provêm as citações, pois creio merecer o assunto importância suficiente para ser publicado.

O KAU-TAU NOS RITOS

“A piedade filial não deve cessar com a morte dos pais; o filho deve continuar a servi-los como se vivessem, e este dever estende-se a todos os antepassados da família. Confúcio ao estender a piedade filial aos mortos fomentou essa virtude em vida”, levando as acções a serem realizadas como mostra de respeito aos antepassados e desejo de alcançar as suas perfeições com a ajuda do exemplo, imitando-os; - a melhor maneira de honrar a família.

Nesta cerimónia faziase “o kau-táu (bater cabeça), em que uma pessoa se ajoelha e inclina profundamente até tocar com a testa no solo

Em memória dos Antepassados realizavam-se rituais nas casas onde se encontravam as tabuletas em madeira inscritas com os nomes dos defuntos antepassados masculinos, pai, avô e bisavô, pois chegando a trisavô passava a tabuleta a ter direito a constar no Templo de Família, até entrar ao fim de algumas gerações no dos Ancestrais. Às tabuletas dirigiam-se expressões de reverência e respeito, num ambiente com flores, velas, incenso, pois a intenção é “arranjar um certo lugar ou termo para onde possam elevar as suas mentes; e para o qual, como para uma pintura, possam dirigir as costumadas honras, como se eles estivessem presentes.” Nesta cerimónia fazia-se “o kau-táu (bater cabeça), em que uma pessoa se ajoelha e inclina profundamente até tocar com a testa no solo. É o costume chinês do respeito: nove prostrações ao trono nas recepções imperiais; prostrações nos tribunais perante os magistrados e dos filhos perante os pais e sogros. Assim, nada há de religioso nas prostrações nos funerais diante do caixão e não se podia afirmar que se tratava de adoração dos mortos.” Tudo isto levou Ricci a modificar a primitiva opinião: “o que ao europeu parecia superstição e adoração, para o chinês era apenas uma expressão simbólica da piedade filial. O facto de usarem as mesmas cerimónias para os vivos levava a crer que não se tratava

de actos religiosos quando aplicados aos mortos. Tal era o caso da queima do incenso (...). As pessoas educadas costumavam receber os hóspedes com incenso, que era parte do cerimonial da etiqueta, que dava graça e harmonia às relações sociais, sendo um sinal de respeito. Não havia, pois, razão para lhe dar um significado religioso quando era usado nos funerais, perante as tabuletas ou nas salas de Confúcio.” Após longas discussões com os amigos chineses, Ricci concluiu nada haver de idólatra nos ritos ancestrais nem talvez de supersticioso e “submeteu estas opiniões a Valignano, que as discutiu com os seus consultores. A conclusão foi ser permitido participar nos ritos solenes em honra dos antepassados da família com a condição de não se queimar o papel-dinheiro, mas não era permitido tomar parte nas cerimónias solenes em honra de Confúcio com o sacrifício duma vítima, porque, segundo dizia Furtado, <cheiram fortemente a superstição> (Cit. por Dunne, Generation of Giants).” Em dias prescritos pelo ritual, com aparência de sacrifícios religiosos, oferecia-se aos antepassados um animal (imolado no local), vinho, seda..., seguindo um banquete familiar. Segundo os jesuítas, <Devia-se repudiar a ideia de os espíritos tomarem alimento da comida oferecida; e de não se fazer orações ou pedidos aos mortos>. Outras cerimónias os jesuítas permitiam e até observavam. “Por ocasião da morte de alguém, os amigos, que vinham dar os pêsames, envergavam, como luto, uma veste de seda branca; ao entrar no quarto, faziam quatro vezes o kau-t’au diante do defunto; os filhos do defunto repetiam então o mesmo gesto; o visitante, aproximando-se mais do caixão, voltava a fazer a mesma cerimónia. Os ritos em honra de Confúcio eram apenas praticados pelos letrados e não diferiam no essencial das cerimónias ancestrais,” sendo após a “passagem nos exames feitas prostrações perante a tabuleta de Confúcio numa sala dedicada ao mesmo. Iguais ritos, prostrações e queima de incenso eram observados pelos oficiais e letrados nos dias da lua nova e lua cheia.” O confucionismo baseia-se nos ensinamentos de Kong Fuzi, reformador que a partir dos ritos dos Zhou reorganizou a ordem da sociedade e estruturou na China o pensamento humano pelos conceitos de virtude, justiça, tolerância e generosidade. Para a sabedoria prática, a importância da Astronomia e na preparação do Calendário, pois qualquer incorrecção perturba o balanço entre o Céu e a Terra.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

segunda-feira 15.7.2019

Ainda a vacinação, parte primeira OFício dos ossos

Valério Romão

D

O início do ano a 3 de Julho de 2019, 1.109 casos de sarampo foram diagnosticados em 28 estados dos EUA. Este é o valor mais alto de casos registados no país desde 1992. A doença foi considerada erradicada no ano 2000. Como é que uma doença de incidência basicamente residual se transforma num problema de saúde pública? Poderíamos recuar aos primórdios do movimento anti-vacinação que, não surpreendentemente, coincide com os primórdios da vacinação, neste caso na França do séc. XVIII. As primeiras vacinações eram, na verdade, inoculações com amostras “vivas” do vírus. Faziam-se incisões superficiais na pele do paciente nas quais era introduzido fluído de uma pústula de um doente infectado na esperança de que o receptor desenvolvesse uma versão moderada da doença e, ulteriormente, imunidade. O método ficou conhecido como “variolização” e tinha uma taxa de mortalidade reduzida: de 0,5% a 2% dos pacientes submetidos ao procedimento morriam, consideravelmente menos do

que os 20%-30% que faleciam em cada surto de varíola, uma percentagem que, nas crianças, era muito superior. Voltaire, que viveu em Inglaterra de 1726 a 1729, era um acérrimo defensor da variolização. O seu contacto com a realidade inglesa e com as vantagens da inoculação levava-o a pensar na questão de um ponto de vista matemático, uma equação cujos benefícios ultrapassavam largamente os custos. Perante a resistência dos franceses ao processo, Voltaire escreve, na Carta XI, “mas não gostam os franceses da vida?” O problema de fundo, argumentou com acuidade o médico italiano Angelo Gatti num livro da sua autoria, de 1767, assentava na perspectiva subjectiva do risco. Uma possibilidade de morte na profilaxia de uma doença, mesmo que

residual, era inadmissível para a maior parte dos franceses, que preferiam arriscar a sorte na lotaria do contágio. A variolização encontrou resistência em França até a implementação da vacina propriamente dita, preparada a partir da versão bovina do vírus da varíola, uma descoberta de Edward Jenner, médico inglês, em 1796, cujas observações o levaram a concluir que as mulheres encarregadas de ordenar as vacas não contraíam varíola por terem sido expostas à varíola bovina (daí o nome “vacina”, de “vaccinia”, cujo radical é o étimo latino para vaca, “vacca”). O último caso mortal de varíola remonta a 1978, quando um cientista foi infectado com o vírus num laboratório. O movimento anti-vacinação contemporâneo está umbilicalmente ligado

As primeiras vacinações eram, na verdade, inoculações com amostras “vivas” do vírus. Faziam-se incisões superficiais na pele do paciente nas quais era introduzido fluído de uma pústula de um doente infectado na esperança de que o receptor desenvolvesse uma versão moderada da doença e, ulteriormente, imunidade.

à taxa de incidência de autismo e muito especialmente a um artigo de Andrew Wakefield, médico inglês que em 1998 publicou um estudou no qual afirmava provar uma correlação entre a inoculação da vacina tríplice e o número de casos de autismo. Desmentido por dezenas de estudos posteriores, Wakefield vê a sua licença médica cassada e emigra para os Estados Unidos, onde continua a sua cruzada anti-vacinação. Apesar de ter sido formalmente acusado de fraude na elaboração do estudo referente à possível ligação entre vacinas e autismo e de terem sido publicados dezenas de estudos amplamente consensuais a refutá-lo, Wakefield continua a predar comunidades vulneráveis e a difundir a sua mensagem. No Minesota, circa 2007, a comunidade Somali, convencida de que apresenta uma taxa de autismo superior ao dos restantes grupos, vê-se de repente invadida por activistas anti-vacinas entre os quais, não surpreendentemente, se encontra o ex-doutor Wakefield. A taxa de vacinação, que rondava os 92% em 2004 baixa para 42% em 2014. A incidência de sarampo sobe na proporção inversa. Os números do autismo, malgrado os esforços anti-vacinação, mantém-se inalterados. A continuar.


37

18 (f)utilidades

O QUE FAZER ESTA SEMANA Diariamente EXPOSIÇÃO 37 | ”CORES DA ÁSIA” Casas Museu da Taipa | Até 22/09

MIN

9 4 2 5 1 0 7 6 3 8 1 4 7 3 3 7 6 0 8 2 9 1 5 4 EXPOSIÇÃO | “DE HOLLYWOOD AO MÓNACO”” Galaxy 1 Macau 3 7| Até 28/08 4 9 8 6 0 2 5 4 5 | “ENCONTRO 0 3 6INESPERADOS” 9 2 7 8 1 EXPOSIÇÃO City8of Dreams | Até 31/08 2 1 7 5 4 3 9 6 0 EXPOSIÇÃO 7 6 | EXPOSIÇÃO 4 8 “BELEZA 3 1 NA0NOVA5ERA:9 2 OBRAS-PRIMAS DA COLECÇÃO DO MUSEU NACIONAL 3 1 0 6 8 2 4 7 DE 5 ARTE 9 DA CHINA” MAM 2 1 5 6 7 3 4 8 0 9 ESPECTÁCULO 0 8 9| FUERZA 2 BRUTA 4 7WAYRA5 3 1 6 EXPOSIÇÃO | “CABEÇAS FELIZES” 6 Jorge 0 Álvares 8 9| Até215/085 Praça

MGM Theatre | Até 4 de Agosto

39 3 8 5 4 6 1 2 7 0 9

0 7 1 2 4 9 8 3 6 5

9 2 3 0 1 6 4 5 7 8

Cineteatro 41 1 2 6 5 9 7 8 0 4 3

7 3 0 2 8 5 4 1 6 9

8 9 4 3 6 1 5 2 0 7

6 9 8 5 0 7 1 2 3 4

7 5 4 3 2 8 9 6 1 0

4 1 7 6 8 5 3 0 9 2

8 0 9 7 3 2 5 1 4 6

2 3 0 9 7 4 6 8 5 1

5 6 2 1 9 0 7 4 8 3

1 4 6 8 5 3 0 9 2 7

C I N E M A

4 6 1 7 3 0 9 5 2 8

5 0 2 9 7 8 1 4 3 6

6 8 3 1 4 9 0 7 5 2

9 7 5 0 2 3 6 8 1 4

0 4 7 6 1 2 3 9 8 5

2 1 8 4 5 6 7 3 9 0

3 5 9 8 0 4 2 6 7 1

SPIDER-MAN: FAR FROM HOME SALA 1

TOY STORY 4 [A] FALADO EM CANTONENSE Um filme de: Josh Colley 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

SALA 3

28

MAX

38 0 4 8 6 5 3 1 2 9 7

7 3 1 2 6 9 4 5 8 0

5 9 7 1 8 0 3 4 2 6

2 8 4 5 7 6 0 1 3 9

NOTAS NA PAREDE 40 2 5 8 0 6 9 1 3 7 4

4 1 7 3 8 0 6 9 2 5

3 6 1 2 4 5 0 8 9 7

9 7 4 8 2 3 5 1 6 0

Um filme de: Jon Watts Com: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Jake Gyllenhaal, Zandaya 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

9 0 6 3 1 2 8 7 4 5 5 0 9 7 1 6 2 4 3 8

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 40

HUM

39

9 7 8 0 4 1 3 6

3 1 4 8 5 7 9 2

6 3 9 7 0 2 5 1

2 6 3 4 8 9 0 7

0 2 1 5 6 3 4 8

43

6 3 2 9 7 4 8 0 5 1

0 8 5 1 3 2 7 6 4 9

7 4 0 5 9 1 3 2 8 6

1 2 6 4 5 8 9 7 0 3

4 0 2 9 7 6 8 5

5 8 6 3 1 0 2 4

1 5 0 2 3 4 7 9

7 4 5 1 9 8 6 0

8 9 3 6 0 7 4 5 1 2 0 4 8 9 7 6 2 5 1 3

41

45

9 37 6 08 2 3 56 40 0 4 4 5 1

4 93 46 1 2 5 57 9 0 8

PROBLEMA 41

47 1 3 6 9 5 2 4 8 0 7

2 0 4 8 9 3 7 6 1 5

0 5 14 8 31 09 93 57 22 86 5 7 3 4 6 1 2 9 8 0

51 09 5 96 8 4 2 0 37 3 8 6 7 5 0 4 3 2 9 1

67 80 2 13 6 8 5 1 59 4 0 1 9 2 8 5 6 7 4 3

6 1 59 7 20 33 68 85 14 42 7 5 0 1 3 8 9 4 6 2

44

2

8 3

4 91 . 14 7 7 1 5 5 9 9 6 7 2 8

40artigo publicado recentemente num jornal Um português defendia que as pessoas em Macau têm “perspectivas de realização individual, nomeadamente a nível de aquisição de habitação particular”. Não conheço o autor em causa, mas fiquei contente por ele. Deve ter um belo salário e acredito genuinamente que o mereça. Mas, não sei que Macau frequenta. Suspeito que viva numa bolha e que as suas deslocações se limitem entre a Taipa e o Centro da cidade, com umas passagens por Hong Kong. Se calhar são muitos os anos sem passar pelo Iao Hon ou o Toi San. Mas podendo ser este o caso, basta olhar para as estatísticas da DSEC e DSF. A mediana do salário dos residentes é de 20 mil patacas. Segundo a DSF, em Junho, o metro quadrado custava em média 111.806 patacas e a área útil das casas vendidas era em média 57 metros, o que dá um preço médio de 6,37 milhões de patacas por casa. Claro que as pessoas pagam mais do que a área útil e ainda têm de assumir o custo 42 do empréstimo bancário. Porém, neste caso, se uma pessoa poupar metade das 20 mil patacas, precisa de 53 anos para pagar a casa. Mas alguém com um ordenado de 20 mil patacas consegue poupar assim tanto, com despesas como comida, renda, roupa, saúde, deslocações e, de vez em quando, férias ou deslocações a Hong Kong? Mesmo numa vida em casal, com rendimentos duplicados, basta as pessoas “darem-se ao luxo” de ter filhos para dizerem adeus à casa. Ao mesmo tempo, a maioria dos jovens de cultura chinesa paga uma “prestação” aos pais sobre o ordenado que recebem... Fazendo as contas muito por alto, para a maioria da população a casa não passa de uma miragem. Claro que há a habitação económica, mas mesmo essa é para os gananciosos dos Porsches e Mercedes que se “divorciam”, omitem rendimentos e aldrabam os concursos. João Santos Filipe

89 37 9 6 22 43 0 1 56 70

7 5 89 17 61 36 22 04 9 4

2 4 02 79 57 94 68 80 3 1

40 78 6 9 33 52 1 2 84 09

3 14 2 4 89 01 7 5 68 9

0 8 76 24 4 6 39 97 1 5

5 6 1 86 9 2 44 7 0 3

9 0 3 5 7 1 8 4 2 6

4 0 2 73 1 6 90 5 3 81

31 8 92 6 23 54 18 49 7 07

79 5 3 0 8 9 6 1 2 48

83 2 1 4 0 7 3 6 9 55

27 6 45 58 36 83 01 70 1 94

18 7 8 95 5 4 23 0 6 39

9 3 07 24 65 11 49 88 5 7

00 1 7 8 9 3 5 2 4 63

6 4 5 3 7 2 8 9 0 1

4 3 6 9 5 7 9 8 2 0 3 1 QUERIDO MUDEI A CASA | ANA CRISTINA ANTUNES (2004) 8 9 4 2 2 4 1 6 3 9 7 5 2 1 5 8 6 0 4 7 5 8 2 3 0 6 7 3 3 8 5 2 0 4 1 6 7 2 1 4 1 9 7 3 6 2 5 0 6 0 9 7 0 1 8 4 9 7 6 2 5 8 0 1 9 6 0 1 7 5 8 4 1 5 3 0 4 5 2 9 8 3 0 7 3 7 2 5 7 3 6 0 4 1 9 8 9 4 8 6 8 2 3 5 1 6 4 9

6 8 9 7 4 3 2 1 5 0

4 0 1 9 8 5 3 6 2 7

5 42 70 9 4 1 36 3 8 7

8 14 87 5 9 62 71 6 3 0

3 8 91 4 7 0 9 62 76 5

2 6 3 0 5 7 4 8 1 9

6 2 57 0 03 1 7 1 96 39 4 8

46

5 5 9 63 1 4 08 75 37 8 6 2

48

THE SECRET LIFE OF PETS 2 [A] FALADO EM CANTONENSE LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Chris Renaud 14.30, 19.30

ALADDIN [A] FALADO EM INGLÊS LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Guy Ritchie Com: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Cott, Marwan Kenzari 16.30, 21.30

www. hojemacau. com.mo

7 2

1 96 4 3 04 85 5 6 79 2

deixados por manifestantes na “Lennon Walls”, no exterior do Conselho Legislativo no dia seguinte à invasão do edifício.

5 6 4 1 9 3 7 8 2 UMA SÉRIE HOJE 2 0 8 5 7 1 9 6 3 Só vi o programa uma vez e realmente não vale a pena. Porém, faltou criatividade para mais. É o que acontece quando se passa demasiado tempo a jogar. Basicamente é uma equipa de produção que vai a casa de determinada pessoa e renova-lhe de “surpresa” o espaço. Na maior parte das vezes acaba em choro e emoção, sem que se perceba muito bem a razão. Tem como positivo a forma criativa como se alteram as coisas, mas de resto é a choradeira do costume que marca cada vez mais as televisões ocidentais, que se tornaram um “reality show” de 24 horas. João Santos Filipe

AO CENTRO

3 6 9 3 71 45 4 2 7 10 8 4 1 8 3 6 75 22 98 7 6 03 31 69 4 0 5 2 6 1 7 17 4 80 49 72 98 5 26 3 1 9 0 3 5 2 20 1 2 4 3 6 9 15 8 7 7 4 0 9 8 2 9 4 0 3 4 18 9 20 81 2 77 3 6 5 8 7 1 4 5 3 67 6 85 58 1 40 2 9 4 88 5 7 3 0 9 4 71 2 6 6 5 7 2 9 31 0 24 62 09 15 6 48 7 3 3 8 9 6 0 62 76 31 8 7 40 53 84 5 9 0 6 5 7 1 06 uma 24 parede 71 post-its 1Em 3Hong2Kong,8uma4trabalhadora9de limpezas 9 3 passa 5 por 7 forrada 8 0 com 2

42

SALA 2

SPIDER-MAN: FAR FROM HOME [B]

32

7 6 3 7 5 9 2 1 3 4 8 0 2 1 8 0 2 5 E6 U R9O 9 . 088 B A H T 0 . 2 6 8 Y7U A 1 N2 5 4 9 3 0 6 2 8 9 2 1 0 VIDA DE CÃO 0 8 2 7 4 6 3 4 9 8 3 DA TAIPA 2 1 0 6 5 1

S U D O K U

?

AGUACEIROS

15.7.2019 segunda-feira

4

6 3 6 1 3 7 0 - 9 5 % 0• 2 6 4 3 2 8 9

JORGE SILVA | REUTERS

TEMPO

38

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota Colaboradores Amélia Vieira; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gisela Casimiro; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Navarro de Andrade; José Simões Morais; Luis Carmelo; Michel Reis; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rita Taborda Duarte; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; David Chan; João Romão; Jorge Morbey; Jorge Rodrigues Simão; Olavo Rasquinho; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


opinião 19

segunda-feira 15.7.2019

SLAVOJ ŽIŽEK

O

Uma comédia grega do absurdo

triste destino do Syriza é emblemático da nova situação da esquerda europeia. No capitalismo, tal como o conhecíamos, quando uma crise económica severa impossibilitava a reprodução normal do sistema, algum tipo de domínio autoritário (geralmente uma ditadura militar) era imposto por cerca de uma década até que a situação económica fosse re-normalizada o bastante para que um retorno à democracia pudesse novamente ser tolerado – lembro os casos do Chile, da Argentina, da Coreia do Sul… O papel único do Syriza é que lhe foi permitido desempenhar esse papel geralmente reservado à ditadura de direita: assumiu o poder num momento de profundo descontentamento social e crise, cumpriu sua tarefa de implementar medidas duras de austeridade, e agora deixa o palco para ser substituído por um partido chamado Nova Democracia – o mesmo que conduziu a Grécia à crise em primeiro lugar. Os feitos do governo do Syriza são mistos: fez algumas coisas boas (que também poderiam ter sido feitas por um governo racional de centro, como o acordo com a Macedónia sobre a mudança de seu nome), mas no geral o resultado é uma dupla catástrofe. Não apenas porque as medidas de austeridade foram implementadas – exactamente aquilo ao qual toda a campanha e o programa do partido haviam se oposto. O génio perverso dos burocratas da União Europeia foi permitir que justamente o Syriza o fizesse. Para eles, foi muito melhor que essa tarefa fosse realizada por um partido radical de esquerda porque assim os protestos contra a austeridade foram minimizados – dá para imaginar os protestos públicos organizados pelo Syriza se fosse um governo de direita impondo medidas de austeridade? Pior, ao implementar as medidas de austeridade, o Syriza de fato destruiu sua própria base social, a rica textura de grupos da sociedade civil da qual ele surgiu como partido político – agora o Syriza não passa de um partido político como qualquer outro… Quando o Syriza assumiu e passou a participar de negociações com a União Europeia, ficou claro que a partir do momento em que a única escolha era entre austeridade ou “Grexit” [saída da Grécia da zona do Euro], a batalha já estava perdida. Aceitar implementar medidas de austeridade significava trair o princípio básico de seu programa, e a saída da zona do Euro teria feito com que o padrão de vida dos gregos despencasse mais 30% e provocado um colapso da vida social (falta de remédios, de alimentos…), levando a um estado de emergência. Agora sabemos que o “Grexit” era algo bastante aceitável para a elite financeira europeia: Yanis Varoufakis relata que quando ele mencionou

a saída da zona do Euro como uma ameaça a Wolfgang Schauble (o então ministro das finanças alemão), este imediatamente ofereceu biliões para ajudar a Grécia a fazê-la. O que era intolerável para a elite da UE não era o “Grexit” mas sim a permanência da Grécia na UE e a construção de uma contra-ofensiva no seu interior. A ideia era clara: o colapso causado pela saída da zona do Euro teria servido como uma boa lição a todos os esquerdistas para que sequer ousassem brincar com medidas económicas radicais. O establishment gosta que uma esquerda mais radical assuma o poder a cada duas ou três décadas só para alertar o povo do tipo de perigo que esse tipo de caminho guarda. Então tudo dependia de se evitar essa escolha binária e encontrar uma terceira alternativa. Ingenuamente, nós que apoiamos o Syriza pensávamos que eles tinham um plano para esse terceiro caminho. Em todos

os debates que participei com eles, me foi garantido que eles sabiam o que estavam fazendo e que não era preciso se preocupar, pois o Syriza tinha uma equipa de sonho e vão ganhar. Até eu caí nessa por algum tempo porque, apesar de todas as críticas de esquerda à brutalidade da pressão exercida pela UE sobre a Grécia, não se pode dizer que a UE fez qualquer coisa de inesperado: os gestores de Bruxelas agiram precisamente conforme o esperado, não houve surpresas nesse sentido. Então como dar conta do duplo cavalo de pau dado pela crise grega em Julho de 2015? O que se sucedeu foi uma passagem não apenas da tragédia à comédia, mas de uma tragédia repleta de reversões cómicas, directamente a um teatro do absurdo – há outra forma de caracterizar a extraordinária reversão de um extremo no seu oposto que deixaria espantado até mesmo o filósofo hegeliano mais especulativo? Cansado das

Esse é o nosso mundo hoje, um mundo em que populistas de direita levam a cabo medidas de estado de bem-estar social e a esquerda radical cumpre o papel autoritário de impor austeridade. Será que uma nova esquerda conseguirá encontrar uma saída para esse impasse?

intermináveis negociações com os executivos da União Europeia, marcadas por humilhação atrás de humilhação, o Syriza decidiu convocar um referendo no domingo, dia 5 de Julho, perguntando ao povo grego se eles apoiavam ou rejeitavam a proposta da UE de novas medidas de austeridade. Embora o partido claramente afirmou que apoiava o “NÃO”, o resultado foi uma surpresa para o próprio governo: a esmagadora maioria de mais de 61% dos eleitores disseram “NÃO” à chantagem europeia. Começaram a circular boatos de que o resultado – vitória para o governo – era uma má notícia para o próprio Aléxis Tsipras, que secretamente esperava que o governo perdesse o referendo, para que uma derrota permitisse que ele resguardasse sua dignidade ao se render às demandas da UE (“respeitamos a voz dos eleitores…”). Contudo, literalmente na manhã seguinte, Tsipras anunciou que a Grécia estava pronta para retomar as negociações, e dias depois o país negociou uma proposta da UE que é basicamente idêntica à que os eleitores rejeitaram (até mais dura em alguns quesitos). Em suma, agiu como se o governo tivesse perdido, e não ganho, o referendo. Aqui chegamos à verdade do populismo: o seu fracasso de confrontar o Real do capital. O momento populista supremo (vitória do referendo) imediatamente reverteu-se em capitulação, em confissão de impotência no que diz respeito à ordem capitalista – não se trata de uma simples traição, mas da revelação de uma necessidade mais profunda. Esse para mim foi o momento de verdade daquele processo todo. É fácil demais falar em “traição” aqui – estamos diante de uma crise muito mais profunda da esquerda. Lembro-me de como, nos debates de 2015, alertei contra o perigo do fascínio diante de grandes acontecimentos públicos – todo aquele falatório sobre “um milhão de nós reunidos na praça Sintagma, batendo palmas e cantando juntos…” O que realmente importa é o que ocorre na manhã seguinte, quando passa o transe coletivo inicial e o entusiasmo precisa ser traduzido em medidas concretas. Eu frequentemente evoquei a imagem de um grupo de participantes que, uma vez ao ano, se encontram em um café no aniversário das manifestações do passado e relembram de forma sentimental aqueles momentos de unidade sublime… mas em seguida o telefone de um deles toca e eles precisam de correr de volta aos seus empregos enfadonhos. Podemos facilmente imaginar uma cena dessas hoje: membros do Syriza se encontram num café para relembrar, afectuosamente, o espírito único dos protestos de massa dos quais participaram em 2015, e em seguida um telefone toca, e eles precisam voltar a correr ao escritório para continuar a implementar a austeridade… Esse é o nosso mundo hoje, um mundo em que populistas de direita levam a cabo medidas de estado de bem-estar social e a esquerda radical cumpre o papel autoritário de impor austeridade. Será que uma nova esquerda conseguirá encontrar uma saída para esse impasse?


“O amor é o infinito ao alcance dos ‘caniches’.” Louis-Ferdinand Céline

AMBIENTE RESTAM 250 MIL CHIMPANZÉS EM ÁFRICA

A

PUB

PENAS 250 mil chimpanzés vivem actualmente no continente africano, repartidos por 21 Estados, quando há 10 anos eram cerca de dois milhões, em 25 países, assegurou à agência Efe a directora adjunta do Instituto Jane Goodall, Laia Dotras. Este “muito drástico” declive populacional é provocado “sobretudo pela perda do habitat”, devido à exploração de madeira e recursos minerais”, com destino a países ocidentais, segundo Dotras. Entre esses recursos figura um mineral usado na microelectrónica, telecomunicações e indústria aeroespacial, que nos últimos anos se converteu num material estratégico pela aplicação nestes fins. A estes riscos há que somar a caça furtiva, actividade que, de acordo com a especialista, pode considerar-se “uma das maiores crises de biodiversidade” da era actual. A situação, na sua opinião, é “crítica” e, se não forem tomadas medidas urgentes, estes animais “não tardarão a desaparecer”. Para evitar a extinção definitiva destes primatas é “essencial educar e fazer entender os problemas socioambientais locais” e poder, assim, trabalhar eficazmente na protecção do ambiente para “assegurar a sustentabilidade a longo prazo”, defendeu. “A pobreza e o desconhecimento induzem muitos africanos a usar os recursos do seu meio ambiente de forma insustentável”, asseverou Dotras. Assim acontece com o corte e queima de bosques, pelo que “muitas zonas ficam quase desertas e a terra já não se pode aproveitar para cultivar”. Daí a importância da formação e educação ambiental das populações africanas para a conservação do ambiente e, portanto, dos chimpanzés, sustentou.

PALAVRA DO DIA

Calor em Sha Tin Manifestantes voltam a exigir renúncia de Carrie Lam

P

ROTESTOS voltaram a encher ontem as ruas de uma cidade no norte de Hong Kong, exigindo a renúncia da Chefe do Executivo e uma investigação sobre as denúncias de violência policial, alargando as queixas contra os líderes do território. Muitos entre os mais de 10 mil manifestantes que marcharam em Sha Tin pediam eleições genuinamente democráticas, na antiga colónia britânica, enquanto um punhado também pediu independência. Os manifestantes exigiram uma investigação às queixas de violência policial em manifestações anteriores contra a lei de extradição. Alguns carregavam cartazes que diziam: “A polícia é mentirosa” ou “Defenda Hong Kong”. O protesto na cidade Sha

Tin, no norte de Hong Kong, foi pacífico durante a maior parte do dia, mas registaram-se confrontos ao anoitecer, quando agentes da polícia com capacetes e escudos começaram a limpar as ruas, noticia a Associated Press. Centenas de manifestantes, muitos com capacetes e máscaras cirúrgicas, como protecção contra o possível uso de ‘spray’ de gás pimenta ou gás lacrimogéneo pela polícia, retiraram-se para um centro comercial, onde alguns atiraram guarda-chuvas e garrafas de água sobre a polícia que os seguiu. Segundo a Associated Press, houve repórteres que assistiram aos confrontos em corredores de vários andares do complexo comercial, nos quais manifestantes e polícias se agrediam

com guardas-chuvas e agarravam nos capacetes uns dos outros. No sábado, a polícia usou bastões e gás lacrimogéneo para dispersar uma multidão de jovens manifestantes que pediam maior controlo sobre os empresários que visitam Hong Kong. Os críticos dizem que estão a prejudicar indevidamente as empresas locais. No passado dia 7 de Julho, um grupo de jornalistas de Hong Kong marchou até ao escritório de Lam para destacar as queixas sobre polícias que espancaram e obstruíram repórteres em manifestações anteriores. Os jornalistas entregaram uma carta endereçada ao comissário de polícia do território, a um funcionário. “Parece que atacaram deliberadamente os jornalistas”, disse Chris Yeung, presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong.

Os manifestantes exigiram uma investigação às queixas de violência policial. Alguns carregavam cartazes que diziam: “A polícia é mentirosa” ou “Defenda Hong Kong”

FRANÇA DETIDAS 152 PESSOAS NO DIA DA BASTILHA

A

polícia francesa deteve ontem 152 pessoas, em Paris, durante as cerimónias de celebração do Dia da Bastilha, feriado nacional, informaram fontes municipais. Segundo a agência espanhola EFE, que cita fontes da câmara municipal da capital francesa, a maioria foi detida por participar numa manifestação não autorizada, mas também houve detenções por actos violentos contra as autoridades, destruição de bens públicos e posse de armas.

Segundo a televisão CNews, dois dos detidos são Jérôme Rodrigues e Éric Drouet, destacadas figuras do movimento “coletes amarelos” que há meses contestam nas ruas as políticas de Macron. A situação foi especialmente tensa no início da parada militar, na avenida dos Campos Elíseos, quando os manifestantes apuparam o presidente Emmanuel Macron e, no final, entoaram cânticos contra o capitalismo e contra o lançamento de gás lacrimogéneo. “Quem

tentou impedir o desfile devia ter vergonha. Hoje é um dia em que a nação de une e julgo que o país deve ser respeitado”, afirmou o ministro do interior francês Christophe Castaner, aos jornalistas. O desfile contou com 67 aviões da Força Aérea francesa, 4.300 tropas a pé, 196 veículos militares, 237 tropas a cavalo e 40 helicópteros. Tal como todos os anos, desde 1980, o desfile começou no Arco do Triunfo e terminou na Praça da Concórdia.

segunda-feira 15.7.2019

Nepal Pelo menos 50 pessoas morreram devido a cheias

Pelo menos 50 pessoas morreram e mais 30 estão desaparecidas no seguimento das fortes chuvadas e deslizamentos de terra que se registaram no Nepal e também na Índia e Bangladesh nos últimos dias, anunciaram as autoridades. De acordo com o Centro Nacional de Operações de Emergência do Nepal, desde sexta-feira que a chuva não para de cair, o que levou à subida dos rios e à derrocada de lama das margens, causando destruição e tornando intransitáveis nove autoestradas do país. O mau tempo que se faz sentir impediu a descolagem dos helicópteros de socorro, com os funcionários dos serviços de emergência a tentarem reparar as torres de comunicação e a desimpedir as estradas. A época das monções afecta também outras partes da Ásia, como o Bangladesh, onde já morreram pelo menos 12 pessoas, ou a Índia, onde um milhão de pessoas foram já afectadas pelas cheias.

EUA Ex-embaixador britânico acusou Trump de “vandalismo político”

O ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos disse que o Presidente norte-americano, ao abandonar o acordo nuclear iraniano de 2015, cometeu um acto de “vandalismo político”, num telegrama divulgado por um jornal britânico. Num telegrama publicado ontem pelo Mail on Sunday (Sunday Mail), o ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, Kim Darroch, disse que o Presidente Donald Trump abandonou o acordo nuclear com o Irão como um acto de “vandalismo diplomático” para ofender o seu antecessor, o Presidente Barack Obama. Darroch renunciou na semana passada ao cargo, depois de o jornal publicar outros telegramas diplomáticos relacionados com os Estados Unidos. A Casa Branca respondeu recusando-se a lidar com o embaixador. A polícia do Reino Unido está à procura dos culpados pela divulgação pública de mensagens confidenciais, tendo alertado os jornalistas que a publicação dos documentos “também poderia constituir uma ofensa criminal”.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook