Mop$10
s e x ta - f e i r a 1 1 d e d e z e m b r o d e 2 0 1 5 • ANO X V • N º 3 4 7 2 pub
www.hojemacau.com.mo
Agência Comercial Pico • 28721006
gonçalo lobo pinheiro
Director carlos morais josé
antónio félix pontes
“
Macau já deveria ter um sistema de Segurança Social obrigatório para o sector privado
lei de terras
Revisão no horizonte? política página
4
Kaifeng
josé simões morais
Meios tempos Meios-tons
entrevista
anabela canas
hojemacau
h
hospital das ilhas
A grande incógnita
galgos cães da austrália entram ilegais na raem
Se quiser trazer o seu cão para Macau por via marítima é obrigatória a presença de um veterinário do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais que certifique a entrada legal do
opiniões de... andré ritchie isabel castro arnaldo gonçalves
animal. Para os galgos vindos da Austrália, o caso muda de figura: entram às dezenas todos os meses, sem documentação nem fiscalização. Onde pára o IACM?
página 9 pub
4
hoje macau
Bem-vindos ao matadouro
política página
capitol
Vendilhões em luta sociedade página
7
2
entrevista
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
António Félix Pontes ex-vogal da Autoridade Monetária de Macau
A desempenhar funções na presidência do Instituto de Formação Financeira, depois de 35 anos na AMCM, que deixou este ano, António Félix Pontes considera que Macau já deveria ter um sistema de segurança social obrigatório para o sector privado com a inclusão dos não-residentes. Algo que, acusa, o patronato tem impedido Disse em declarações recentes que o seu percurso profissional ficou marcado por dificuldades internas e externas. Pode exemplificar? Em qualquer percurso profissional ocorrem situações de maior ou menor dificuldades e o meu caso não constituiu excepção. Foram mais de 35 anos em que desempenhei funções de direcção ou de administração na Autoridade Monetária e Cambial de Macau (AMCM) e, em cargos de responsabilidade, em que se têm de tomar decisões, é normal surgirem “forças” apoiantes ou, pelo contrário, de bloqueio ou de “lobbying”. A trabalhar numa instituição pública, como decisor, coloquei sempre o interesse público e o primado da lei acima dessas “movimentações”, nunca tendo ficado preocupado com os “contestatários” de quaisquer acções que tenha tomado. Que análise faz à evolução do sistema financeiro de Macau, sobretudo em relação às “ferramentas” de fiscalização? O sector bancário registou uma
grande modernização, consubstanciada numa melhor, mais célere e mais extensa prestação de serviços, tendo aumentado, de forma exponencial, a sua capacidade financeira. No capítulo da supervisão dos operadores financeiros, a evolução é muito positiva, tendo a mesma sido reforçada e, hoje, não temos as perturbações surgidas nas décadas de 80 e 90 (Banco do Pacífico, Deak Perera e BCCI, entre outros), o que, por si só, constitui prova inequívoca de uma melhor eficiência da supervisão da AMCM na área bancária. Factor determinante dessa evolução foi o trabalho contínuo em termos de supervisão prudencial e comportamental prosseguidas pela AMCM. Emitiram-se orientações em matérias nucleares e efectuaram-se inspecções aos estabelecimentos bancários enquadradas em planos anual e plurianual, umas e outras que conduziram a um melhor funcionamento das entidades visadas. Mas há ainda melhorias que podem ser feitas? Na supervisão bancária, claro que há. Nada é perfeito e temos de continuar a aperfeiçoar os instrumentos de supervisão de que já dispomos para que não surjam situações indesejáveis no futuro. A revisão do quadro legal do sistema financeiro (que data de 1993) e a aprovação de um regime jurídico específico para a intermediação financeira devem constituir iniciativas legislativas a inscrever no leque de projectos importantes para o sistema financeiro de Macau. Penso, também, que a nossa lei “offshore” deve ser objecto de revisão global, pois não atingiu minimamente os objectivos para que foi promulgada. É imprescindível e urgente elaborar-se um estudo incidente sobre os factores que, de uma forma decisiva, contribuíram para o sucesso dos mais importantes centros financeiros “offshore” nas áreas do “leasing” de aeronaves e navios, das seguradoras cativas e dos “trusts”. Conheceu muitos Secretários da Economia e muitas políticas. O rumo de Macau foi traçado da melhor forma nas últimas décadas?
Gonçalo Lobo Pinheiro
“Lobbying das associações patronais é
Tive a oportunidade e a honra de conhecer e trabalhar com oito Secretários para as áreas da Economia e Finanças. Por vezes as nossas visões nem sempre foram coincidentes, ou melhor e, com toda a franqueza, até colidiam, mas houve sempre respeito mútuo e cada um fez o melhor que sabia e podia, no âmbito das suas competências. No passado, havia determinados constrangimentos de ordem política e económica que a alteração do estatuto político-administrativo de Macau permitiu resolver de uma forma natural. Em termos globais, considero adequado o rumo económico delineado para Macau, sendo indiscutível o progresso registado. No entanto, deveria ter havido outras preocupações, por exemplo, de natureza social, mas não
“A revisão do quadro legal do sistema financeiro (que data de 1993) e a aprovação de um regime jurídico específico para a intermediação financeira devem constituir iniciativas legislativas a inscrever no leque de projectos importantes para o sistema financeiro de Macau”
“A nossa lei “offshore” deve ser objecto de revisão global, pois não atingiu minimamente os objectivos para que foi promulgada” só. Já deveríamos ter implementado em Macau um sistema de segurança social obrigatório para a população activa do sector privado, quando a economia local tinha crescimento de dois dígitos. Infelizmente, o “lobbying” das associações patronais foi - e é - muito forte e continua a impedir a concretização desse projecto, mantendo-se, desta forma, a discriminação social dos trabalhadores do sector privado com os funcionários públicos. Claro que, com a situação actual e futura da economia de Macau, os obstáculos serão acrescidos no estabelecimento de qualquer sistema obrigatório para a segurança social. Mas o actual sistema de segurança social tem capacidade para se tornar sustentável, além das injecções de fundos por parte do Executivo? Não. Tem de haver uma plena responsabilização das entidades
patronais e dos trabalhadores, não na forma actual das contribuições mensais de 15 e 30 patacas, pagas trimestralmente, mas sim em termos de uma percentagem sobre os salários. Em Hong Kong, por exemplo, essa percentagem é de 5% para cada uma das duas partes. Devia esperar-se que, no século XXI, houvesse uma maior responsabilidade social dos empresários locais e das suas organizações corporativas. Macau, bem como Hong Kong, regista das mais altas esperanças de vida em todo o Mundo, facto este que, associado à baixa taxa de natalidade, determina que a percentagem de idosos com mais de 65 anos vai elevar-se, implicando que teremos cada vez menos trabalhadores a contribuírem para a segurança social. Esta tendência só será revertida se, entretanto, a população aumentar, sendo positiva a entrada em Macau de trabalhadores não-residentes que, a serem integrados no sistema
entrevista 3
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
muito forte”
de segurança social, constituirão, com as suas contribuições e as das suas entidades patronais, uma nova fonte de receitas. Assim sendo, os trabalhadores não-residentes já deveriam estar abrangidos por algum modelo de segurança social na RAEM. Sou contra qualquer tipo de discriminação que seja feita em relação a esses trabalhadores. Não compreendo a racionalidade, se é que existe, dos mesmos estarem excluídos do sistema de segurança social de Macau. Se são absolutamente necessários para desempenharem certas funções, dando o seu contributo para a economia local, deve-se sanar a omissão da sua exclusão do sistema de segurança social, até porque, as empresas, por sua própria iniciativa, têm inscrito os mesmos nos fundos privados de pensões, sendo o seu número já bastante razoável (cerca de 25 mil). Muitos deputados têm vindo a criticar a forma como o Governo tem investido a sua reserva financeira no exterior, considerando que existem baixas taxas de retorno.
O Executivo poderia pensar em alternativas? Criticar, como sempre, é fácil, mas apresentar alternativas credíveis e exequíveis já é mais difícil. Está em causa a gestão de dinheiros públicos e não se pode ser imprudente. A perfilhar-se essas críticas poderá haver a tentação em se efectuarem aplicações que, em princípio, podem proporcionar taxas de rendimento mais elevadas mas, em contrapartida, o risco é muito maior. A estratégia de investimento prosseguida para a reserva financeira, e que foi explicada recentemente pelo Governo na AL, está correcta, pois assenta em análises técnicas aprofundadas de diversas opções [onde] a relação “risco-retorno” esteve sempre presente.
Ao nível do sector segurador e sua supervisão, qual o seu desenvolvimento global? No sector segurador registou-se um bom desenvolvimento quantitativo (em 1982, o total de prémios era de cerca de dois milhões de patacas, enquanto que, no final de Setembro deste ano, o sector segurador auferiu quase 11 mil milhões de patacas) e qualitativo (em termos de modernização, prestação de serviços e capacidade financeira). O seu contributo é gigantesco, mas, muitas vezes, este aspecto é esquecido de forma leviana. As seguradoras autorizadas a exercer actividade em Macau têm desempenhado bem o seu papel e, no campo da respectiva supervisão, têm demonstrado a sua eficácia, sendo sintomático que nenhuma seguradora a operar em Macau tenha entrado em falência até ao momento. Há uma evolução a fazer? Quanto desenvolvimento do sector segurador local estou muito optimista. Quanto aos ramos gerais ou não-vida, por um lado, estão em curso grandes projectos de investimento público (novo hospital e o metro ligeiro) ou privado (hotéis inseridos em projectos de Jogo) e teremos alguns nichos de mercado derivados de novos seguros obrigatórios que poderão até atrair o interesse de seguradoras internacionais de topo que ainda não operam em Macau. Por sua vez, para o ramo vida, os cidadãos do continente continuam a revelar o seu “apetite” em adquirirem esses seguros em Macau, onde a oferta e sofisticação dos produtos de seguros é muito maior, havendo um grande potencial para uma evolução positiva consolidada. Há décadas que o Executivo tenta criar medidas para a diversificação económica. É possível atingir tal objectivo? Como é que as empresas podem responder a isso? Temos falhado na diversificação económica. Embora não tenha quaisquer dúvidas que o sector do Jogo continuará a ser preponderante na economia local, deveria ter sido feito um esforço muito maior e mais eficiente no estabelecimento de um plano estratégico de médio e longo prazo, em que a diversificação económica, nas suas diversas vertentes, deveria ter sido definida como objectivo primordial. Na realidade, quando se analisa o tema da diversificação económica, não devemos circunscrever o mesmo
“Temos falhado na diversificação económica. Embora não tenha quaisquer dúvidas que o sector do Jogo continuará a ser preponderante na economia local, deveria ter sido feito um esforço muito maior e mais eficiente no estabelecimento de um plano estratégico de médio e longo prazo”
à predominância do sector do jogo - que existe e continuará -, mas alargar aquela à concentração nos mercados exportadores e importadores, em que também é desejável uma menor dependência. Que sectores económicos podemos desenvolver de uma forma pragmática e não platónica? Não há hipóteses de se exportar para novos mercados? Qual a visão que se pretende para a nossa economia? Quais são esses sectores? Deixo a ideia de se apostar no turismo de saúde, através de unidades de saúde privadas ou públicas com médicos e outros profissionais da área da saúde qualificados. Em Macau temos 30 milhões de turistas por ano, não havendo necessidade de efectuar grande esforço orçamental em marketing para trazer mais turistas, parte deles potenciais clientes do turismo de saúde. Este novo segmento de turismo iria, por outro lado, acarretar novas receitas para os hospitais público e
do Jogo, estava moderadamente pessimista. Há uma tendência de decréscimo dessas receitas e o mês de Novembro evidencia essa evolução. Temos de ser realistas: a campanha anti-corrupção desencadeada na China vai continuar, há uma migração crescente de jogadores VIP para outras paragens e o segmento de massas não tem tido e muito dificilmente terá o efeito compensador que se desejava, além de que as receitas dos novos projectos das empresas dos casinos são frustrantes. Estamos, portanto, num ciclo económico de contracção e os factos têm vindo a consolidar cada vez mais a minha tese de que esta evolução recessiva vai continuar, pelo menos durante o próximo ano. O que deve, então, ser feito? É nestas fases menos favoráveis do desempenho da economia que devemos actuar rapidamente na tomada de medidas efectivas que sejam conducentes à criação de condições propícias ao seu relança-
“Já deveríamos ter implementado em Macau um sistema de segurança social obrigatório para a população activa do sector privado, quando a economia local tinha crescimento de dois dígitos” privados, que, face à concorrência, teriam, entretanto, de melhorar a qualidade na prestação de serviços. A curto-prazo considero que é imprescindível o estabelecimento de um regime de seguro de créditos para a importação, exportação e trânsito. Consciente desse facto, o Governo inscreveu, nas LAG para 2015 e 2016 o estudo e o lançamento do mecanismo do seguro de crédito. Não tenho dúvidas que a iniciativa, a concretizar-se em tempo útil, irá criar condições propícias para as Pequenas e Médias Empresas (PME) orientadas para a exportação se direccionarem para novos mercados e, para as empresas com outros objectivos comerciais, ampliarem a sua gama de produtos. Em paralelo, não só para os riscos comerciais mas também para os riscos de natureza política (para os quais é indispensável a RAEM prestar uma garantia financeira, através da AL), podia conceder-se linhas de crédito para determinados mercados. Caso isso aconteça, constituirá uma oportunidade excelente para os empresários locais, ao beneficiarem de condições excepcionais, em termos de cobertura e de juros, de chegarem a novos mercados. Depois de anos de crescimento económico, as receitas do Jogo estão em queda há um ano. A economia atingiu um ponto sem retorno? Terá obrigatoriamente de se reinventar? Recentemente numa entrevista afirmei que, em relação às receitas
mento. Se é certo que, para determinadas matérias, há necessidade de se elaborarem análises técnicas, neste momento deve-se privilegiar a acção em detrimento da multiplicidade dos estudos infindáveis. Macau irá conhecer um novo Chefe do Executivo em 2019. Até lá que mudanças sócio-económicas poderemos esperar? O ano de 2016 constituirá, de facto, o primeiro ano para a actuação do novo Governo e, nas respectivas LAG, consta um vasto leque de medidas de impacto relevante, as quais, a serem objecto de efectiva realização, traduzirão um bom desempenho. Quanto aos restantes anos até 2019, é difícil pronunciar-me sobre as mudanças, mas prefiro enunciar o que desejo para Macau: a continuação de uma cidade segura e menos poluída, mais centros e actividades para idosos, um sistema obrigatório e universal de segurança social com a integração dos TNR e uma rede de transportes públicos eficiente. Desejo ainda hospitais de qualidade superior e turismo de saúde, estabelecimentos de ensino de excelência, áreas recreativas e de diversão desenvolvidas pelas empresas do Jogo para as famílias, uma população com maiores conhecimentos em educação financeira e uma menor concentração em termos de sectores económicos e de mercados (exportadores e importadores). Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
política
E
m uníssono, vários deputados pediram ontem a Raimundo do Rosário que revisse a Lei de Terras. Da parte de Lau Veng Seng veio a sugestão de criar uma cláusula de período transitório. A ideia seria oferecer aos concessionários a
Pedida revisão da Lei de Terras para resolver problema do Pearl Horizon
Santa norma de transição
ve a vida aquática: “Se houver cem peixes num aquário e dois deles morrerem podem ter sido várias as causas, mas se todos morrerem, algo se estranho se passa com o aquário”, comentou durante a sessão de ontem. Fong Chi Keong disse ainda que os proprietários de casas naquele edifício estão “tristes” e querem ver a situação resolvida.
oportunidade de desenvolver os seus terrenos antes do fim do prazo de validade. Também Chan Meng Kam optou por usar da palavra para falar da necessidade de rever o referido regulamento. Para o deputado, tudo passa pela protecção do interesse público. Os pedidos surgiram na sequência do caso do Pearl Horizon, que se encontra agora em tribunal. Alguns deputados dizem que o caso é de interesse público. Foi o caso de Fong Chi Keong, que defende que a lei diz expressamente que é preciso proteger o interesse público.
A Fong Chi Keong, o Secretário para os Transportes e Obras Públicas respondeu que este polémico caso não está relacionado com a população num sentido directo. “Não se trata de interesse público”, disse Raimundo do Rosário sobre o Pearl Horizon. Raimundo do Rosário defendeu-se, explicando que a lei diz isso, sim, mas para pessoas que contribuam para a região. O deputado não concorda. “Estamos neste momento a tirar poder ao Chefe do Executivo”, acrescentou Fong Chi Keong, que optou por uma analogia que envol-
Leonel Alves diz-se “enganado” Leonel Alves fez uso da palavra na Assembleia Legislativa para explicar que, em mais de 30 anos como deputado e a trabalhar na Lei de Terras, houve sempre o cuidado de defender os proprietários, mas com o caso Pearl Horizon sente que foi “enganado”. O deputado recordou uma conversa com o antigo Secretário para os Transportes e Obras Públicas, em que lhe foi dito, em sede de Comissão, que seriam encontradas soluções para as concessões anteriores à entrada em vigor da actual legislação, cita a Rádio Macau. “Perguntei qual iria ser a solução. [Lau Si Io] disse que, na altura, seria encontrada uma solução.
N
ão se sabe nem quanto vai custar, nem quando estará pronto o novo Hospital das Ilhas. Tudo isto devido ao facto de ainda só ter sido entregue, à Direcção de Serviços dos Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), parte das plantas do projecto. Isso mesmo frisou o Secretário para as Obras Públicas e Transportes ontem, admitindo “não ter condições” para revelar estes dados. Raimundo do Rosário confirmou ainda a existência de atrasos na entrega dos projectos já em processo de aprovação. “Deviam ter sido entregues em Agosto, mas foram entregues mais tarde”, disse. “Os projectos de cinco dos seis edifícios da primeira fase deviam ter sido entregues até 1 de Agosto”, sublinhou.
Trabalho aqui há 31 anos, sempre segui o princípio da justiça. Quando os empréstimos são concedidos, creio que tem de haver uma solução razoável para isto. O Governo diz que, com base no artigo 48º [sobre a renovação de concessões provisórias], a porta está totalmente fechada. Fui enganado, pelo que tenho de pedir desculpa à população.” Leonel Alves disse ainda, segundo a rádio, que votou a favor da actual Lei de Terras porque entendeu que o bom senso iria prevalecer em casos em que os projectos e os empréstimos para o desenvolvimento das concessões estivessem já aprovados.
Dinheiro preso
Já Ella Lei preferiu puxar pelo facto de ali estarem presos milhões de patacas de várias famílias. “O que temos é que garantir os interesses da população e este caso envolve milhares de agregados familiares e acho que deve ser dispensado o concurso público. Há margem, na lei vigente, para adoptarmos outra solução, para que o Governo possa encontrar outra saída para estes pequenos proprietários”, disse Ella Lei. Também Tsui Wai Kwan veio a terreiro defender a revisão. “Já 12 deputados manifestaram vontade de rever a Lei [de Terras]”, disse acrescentando que “é a única maneira de ajudar os proprietários” do Pearl Horizon. “As concessões provisórias não podem ser renovadas, é simples”, continuou a insistir Raimundo do Rosário, sem mencionar a eventualidade de revisão do diploma. Recorde-se que a Lei de Terras se encontra em vigor desde 2013 e tem efeitos retroactivos. Isto significa que todos os terrenos concedidos a entidades privadas devem voltar para posse do Governo caso
tiago alcântara
Uma lei que regule a concessão de terrenos e ao mesmo tempo conceda um período transitório aos concessionários que, por alguma razão, não edificaram projectos nos locais que mantiveram durante 25 anos. É isso que alguns deputados pedem, para que se possa resolver “o problema do Pearl Horizon”
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
gcs
4
Ung Choi Kun admite falhas no debate O ex-deputado Ung Choi Kun, que foi secretário da Comissão Permanente da AL que discutiu a Lei de Terras na especialidade, alega que a matéria não foi debatida o suficiente. Foi no intervalo da sessão de ontem das Linhas de Acção Governativa que o ex-deputado responsabilizou a Comissão pela falta de um maior debate. Ung Choi Kun vem agora defender que os concessionários prestes a perder os seus terrenos deviam ser elegíveis para voltar a tê-lo. “Não era só eu, vários outros deputados estavam contra esta parte da legislação. Estavam lá Leonel Alves, Gabriel Tong e Vong Hin Fai e estavam só a discutir, não tinha ainda sido dada qualquer resposta de sim ou não”, admitiu o também presidente da Associação dos Empresários do Sector Imobiliário de Macau. A presidir a Comissão Permanente estava a deputada Kwan Tsui Hang. “Acho que devia ser revista”, frisou Ung Choi Kun aos média.
nada tenha lá sido construído. Vários deputados defendem agora a inclusão de uma cláusula que permita um período transitório no qual o concessionário é notificado, iniciado esse período, de que a sua concessão irá expirar dentro de determinado tempo.
Hospital das Ilhas Sem prazo e sem orçamento, diz Raimundo do Rosário
Fundações sem tecto “Tenho que receber 12 projectos e de um deles, que é o laboratório, ainda não recebi nem o projecto de fundação nem o da super-estrutura. Estes estão agora em diversas fases, mas ainda não foram aprovados”, continuou o Secretário. O hospital é constituído por duas fases e ainda muito poucos projectos da segunda parte foram entregues e aprovados. Para já, só o projecto das fundações seguiu em frente, com a obra já a acontecer. “Prevemos que fiquem prontas até Janeiro ou Fevereiro do próximo ano”, anunciou Raimundo do Rosário ontem.
No entanto, o funcionamento do hospital não deve acontecer nem em 2016 nem em 2017, uma vez que uma estrutura não funciona sem os seus edifícios. “Não posso dizer quando estará pronto nem o preço da obra”, admitiu. A razão, diz, é simples: não estão reunidas as condições. “Quase nenhuma planta das obras da super-estrutura foi ainda aprovada”, confessou ontem Raimundo do Rosário. A justificação reside no facto desta pasta ter adoptado um “novo plano sem precedentes” em matéria de obras públicas. Este modelo dita que
os projectos de arquitectura terão que passar pelas Obras Públicas para depois serem analisadas por “mais de dez entidades” do Governo.
Baralha e volta a dar
Recolhidas estas opiniões, o projecto tem então que voltar para as Obras Públicas para aprovação. No entanto, no caso de ser necessário fazer melhorias, o documento volta, com sugestões de alteração, para o arquitecto. Só depois de efectuadas e novamente entregue às Obras Públicas – passando por uma segunda ronda de recolha de opiniões – é que o projecto pode final-
mente ser aprovado. Ainda assim, é depois preciso avaliar questões de qualidade e orçamentar a obra baseada na lista de quantidades – documento que integra uma lista de todos os materiais e equipamentos necessários –, processo que pode ir até aos três meses. “É impossível saber quanto porque as medições ainda não estão feitas e também não se sabe quando porque tudo isso
Leonor Sá Machado
leonor.machado@hojemacau.com.mo
depende de quantas rondas terão que ser feitas até à aprovação do projecto”, explicou Raimundo do Rosário. “Já iniciámos as fundações de cinco edifícios, mas da super-estrutura não. O cliente responsabiliza-se pelas plantas, ou seja, esta é entregue a nós, que recolhemos opiniões de mais de dez entidades e, se tudo correr bem, é aprovada. Se não, temos que devolver ao cliente para que o arquitecto introduza as alterações. O arquitecto e o cliente têm, depois da aprovação, três meses para fazer a obra. Só depois de feitas as contas se pode abrir um concurso público”, explicou o Secretário. A primeira fase integra seis edifícios e um outro de 420 mil metros quadrados. Cinco deles estão já a ter as suas fundações edificadas. L.S.M.
política 5
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
O
Comité contra a Tortura da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) apresentou uma lista com duas dezenas de preocupações em relação a Macau, com destaque para o tráfico humano, violência policial e o acordo para a entrega de fugitivos. As conclusões foram apresentadas na semana passada em Genebra, na sequência da entrega do relatório periódico pelas autoridades de Macau e de grupos da sociedade civil e constam agora de um documento disponível na página da ONU. Uma das preocupações do Comité são os alegados casos de maus tratos por agentes de autoridade. No relatório são destacados os casos de tortura ou maus tratos policiais que a ONU lembra serem investigados “por membros da polícia, o que cria um claro conflito de interesses”. Das 87 queixas apresentadas entre 2006 e 2011 contra membros das forças de segurança, apenas três resultaram em multas (abrangendo cinco polícias). Entre 2013 e 2014, 79% das queixas de tortura foram descartadas. Para solucionar o problema, o Comité sugere a criação de “um mecanismo de queixas confidenciais em todos os locais de detenção para facilitar a apresentação de queixas por vítimas de tortura ou maus tratos, incluindo para obterem provas médicas para apoiar as suas acusações e garantir que os queixosos estão protegidos de represálias”. O Ministério Público é também aconselhado a entregar a investigação a profissionais independentes sem qualquer relação institucional ou hierárquica com os alegados atacantes, sendo proposto que os suspeitos sejam suspensos de funções durante a investigação. O relatório salienta também a falta de formação de profissionais de várias áreas para reconhecer vítimas de tortura e sugere que se reforce a preparação para profissionais de saúde, agentes envolvidos na investigação destes casos, todo o corpo policial, juízes, Ministério Público e funcionários dos serviços prisionais e de imigração.
ONU Comité apreensivo com extradição, tortura e violência
Dedos apontados
Acordos que assustam
Os acordos judiciários entre Macau, Hong Kong e China, os casos de tortura por agentes policiais e o tráfico humano continuam a ser preocupações da ONU, que diz que o território deve separar quem investiga casos e quem está neles envolvido
A ONU sublinha ainda que a definição de tortura, cuja legislação decorrente se encontra em revisão, deve estar em conformidade com a Convenção contra Tortura e “garantir que todos os dirigentes públicos ou qualquer pessoa com um cargo oficial possa ser acusada de actos de tortura”. Actualmente, esta definição só se aplica a quem cumpra determinadas funções relacionadas com a investigação
de infracções criminais ou disciplinares, execução de sanções ou protecção, guarda ou vigilância de uma pessoa detida ou presa, de acordo com o Código Penal.
Tráfico que preocupa
O Comité destaca ainda o tráfico humano como uma preocupação devido “ao número muito baixo de processos e condenações de autores de tráfico” e ao reduzido registo de
casos de “trabalho forçado, apesar do elevado número de queixas”. Além disso, “o Comité lamenta a falta de um programa específico para lidar com o problema do turismo sexual infantil, apesar do facto de mais de metade das vítimas identificadas durante o período em revisão terem menos de 18 anos”. É ainda manifestada apreensão por a “alternativa legal de atribuir residência por motivos humani-
Raimundo do Rosário fala em “nova cultura” no Governo
“N
ão sei se consigo fazer tudo aquilo que foi prometido pelo Governo da RAEM, tantas obras até 2019 – autocarros, habitação pública, táxis, gestão de terrenos, tenho de estudar e criar novos diplomas, aterros sanitários, a quarta ligação entre Macau e as ilhas, o terminal de Pac On, o complexo de cuidados de saúde com mais de 40 mil metros quadrados. Não sei consigo acabar os meus trabalhos até 2019.” Foi assim que Raimundo do Rosário anunciou ontem aos deputados ter já assumido “alguns riscos” ao avançar com datas para grandes projectos.
Numa intervenção durante a apresentação das LAG da sua tutela, o responsável fez questão de salientar, contudo, que há uma nova cultura no Governo. “Este plano de cinco anos deve ser entendido como uma primeira tentativa de o Governo da RAEM ter um plano. Não temos o hábito de planear, é verdade. Mas acho que há sempre um momento para começar e para experimentar. Eu próprio assumi aqui alguns riscos ao dizer que a obra do Pac On vai acabar, a obra do metro da Taipa vai acabar em 2019. Vamos criando uma nova cultura – aos poucos, mas vamos”, rematou.
tários a vítimas” não estar a ser utilizada. A entrega de criminosos em fuga, actualmente em negociação com a China e Hong Kong, é outro tema que preocupa a ONU: “O Comité lamenta a falta de informação sobre o conteúdo desses acordos. O Comité está preocupado que os criminosos transferidos possam ser expostos ao risco de tortura ou maus tratos enquanto detidos ou na prisão ao regressarem à China ou através de uma transferência indirecta via Hong Kong”. Neste ponto, o órgão sublinha que Macau “não deve transferir fugitivos para a China continental, onde há motivos substanciais para acreditar que estariam em perigo de ser sujeitos a tortura ao regressarem ou após uma transferência indirecta”. A violência doméstica é também mencionada pelo Comité, que insta Macau a abranger os casais do mesmo sexo na lei aprovada este ano.
O Comité destaca ainda o tráfico humano como uma preocupação devido “ao número muito baixo de processos e condenações de autores de tráfico” e ao reduzido registo de casos de “trabalho forçado, apesar do elevado número de queixas” Tal como outros comités da ONU, também este aconselhou Macau a criar uma instituição independente focada na defesa dos direitos humanos, uma ideia que o Governo já rejeitou por considerar que o Comissariado contra a Corrupção cumpre esse papel. LUSA/HM
Transportes Mais 350 licenças de táxi e 170 estacionamentos
O próximo ano deverá acabar com um total de 350 novas licenças de táxis atribuídas e mais 1750 lugares de estacionamento do que os actualmente existentes. Isso mesmo confirmou Raimundo do Rosário durante as LAG da sua área. “Prevemos a existência, no final de 2016, de 1600 táxis”, revelou o Secretário para os Transportes e Obras Públicas. Na mesma linha, o responsável fala ainda da criação de “mais ou menos 90 novos lugares de estacionamento para motociclos” em 2016.
6 publicidade
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
ANÚNCIO [N.º 86/2015]
ANÚNCIO [N.º 90/2015]
Para os devidos efeitos, vimos por este meio notificar os candidatos da lista com a ordenação dos candidatos abaixos mencionados:
Para os devidos efeitos, vimos por este meio notificar os candidatos da lista com a ordenação dos candidatos abaixos mencionados:
N.º do boletim de candidatura
Nome
N.º do boletim de candidatura
Nome
82201328110
HO KIM SENG
82201332059
82201318482
CHOI IOK WENG
82201302229
TANG WA KAN
N.º do boletim de candidatura
Nome
N.º do boletim de candidatura
Nome
82201318208
KAM CHEONG SAM
82201304126
WONG CHUN PEK
82201309481
CHEONG ION MUI
LAM WENG TIM
82201341128
CHOI SAO CHENG
82201300426
PUN CHU IONG
82201304931
CHU HAO CHENG
82201324905
WONG KENG SENG
82201302733
LAM POU IENG
82201300842
CHENG HON KEONG
82201323715
WONG UT IENG
82201339607
WONG KA KEI
82201308439
YANG POUL MUSHI
82201320948
CHEONG TIM HOU
82201314262
CHAN CHOI CHAN
82201304794
LEONG LAI KUN
82201311014
CHIO CHONG OI
82201342140
MA SIO MUI
82201302866
FUNG WAI KUEN
82201312687
LOI SAO KUN
82201302711
CHAN I MUI
82201302399
LONG SAO FAN
82201315689
LEI KIT KUAN
82201303250
NG WENG SONG
82201335576
YEUNG KAM YIN
82201303150
IEONG CHEONG TUN 82201335005
82201305235
MAK NGAN CHI
82201335855
CHAN CHAN CHEONG
82201322050
WONG SENG CHUN
82201313102
LAM WA U
82201326799
CHAN WAI
82201310346
NG WA
82201308699
KOT TENG KUOK
82201318793
LAO CHON WENG
82201306024
LEONG SAN IOK
82201310961
LEONG UT SONG
82201301173
SI SAO CHUN
82201331215
WONG KUN HEI
82201319414
WAI IOK LIN
82201313936
TANG IOK
82201301751
KAM SIO SAN
82201322455
HO SEAK LAM
82201325811
LAM CHI TIN
82201311532
CHEONG SAO HOI
82201302266
WONG KIN WA
82201307733
NG MARIA RITA
82201312124
NGAN SAO KAM
82201328794
CHAN LIN KIO
82201306543
WONG KUENG CHEONG
82201323781
KONG CHIU KAM
82201301611
WONG CHI CHOI
82201322929
CHAN IUT HA
82201314438
LEI UT MENG
82201316555
FONG HOI
82201309112
HONG KUAI TOU
82201308627
HO HIN KUAN
De acordo com os termos do artigo 26.º da Lei n.º 10/2011 (Lei da habitação económica), alterada pela Lei n.º 11/2015, o Instituto de Habitação (IH) informa os candidatos acima referidos, através de ofícios, para se dirigirem pessoalmente ao IH, sita na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau (perto da Escola Primária Luso-Chinesa do Bairro Norte), no dia 13 de Janeiro de 2016, às horas fixadas nos respectivos ofícios, para apresentarem os documentos (originais e cópias) indicados, no sentido de efectuar a verificação das informações declaradas nos boletins de candidatura apresentados. Nos termos das alíneas 1), 2) e 6) do n.º 1 do artigo 28.º da lei acima mencionada, caso verifique que os candidatos não reúnam os requisitos do acesso à compra das fracções, após a apreciação dos dados apresentados, ou não apresentem os documentos indicados, dentro do prazo fixado ou prestem falsas declarações ou usem de outro meio fraudulento no âmbito da candidatura, os adquirentes seleccionados serão excluídos do concurso. De acordo com o disposto no n.º 1 do artigo 50.º da lei acima mencionada, as falsas declarações são punidas nos termos da lei penal. Para mais informações poderão dirigir-se pessoalmente ao IH, nas horas de expediente ou consultar através do telefone n.o 2859 4875.
CHANG KUOK KIO
De acordo com os termos do artigo 26.º da Lei n.º 10/2011 (Lei da habitação económica), alterada pela Lei n.º 11/2015, o Instituto de Habitação (IH) informa os candidatos acima referidos, através de ofícios, para se dirigirem pessoalmente ao IH, sita na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau (perto da Escola Primária Luso-Chinesa do Bairro Norte), no dia 20 de Janeiro de 2016, às horas fixadas nos respectivos ofícios, para apresentarem os documentos (originais e cópias) indicados, no sentido de efectuar a verificação das informações declaradas nos boletins de candidatura apresentados. Nos termos das alíneas 1), 2) e 6) do n.º 1 do artigo 28.º da lei acima mencionada, caso verifique que os candidatos não reúnam os requisitos do acesso à compra das fracções, após a apreciação dos dados apresentados, ou não apresentem os documentos indicados, dentro do prazo fixado ou prestem falsas declarações ou usem de outro meio fraudulento no âmbito da candidatura, os adquirentes seleccionados serão excluídos do concurso. De acordo com o disposto no n.º 1 do artigo 50.º da lei acima mencionada, as falsas declarações são punidas nos termos da lei penal. Para mais informações poderão dirigir-se pessoalmente ao IH, nas horas de expediente ou consultar através do telefone n.º 2859 4875.
O Presidente,
O Presidente,
Ieong Kam Wa 10 de Dezembro de 2015
Ieong Kam Wa 10 de Dezembro de 2015
sociedade
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
7
Capitol Família de vendilhões luta pelo negócio e assegura ir a tribunal
Promete ser difícil o processo de renovação do centro comercial Teatro Capitol. Os comerciantes que ali estão desde 1998, e que detêm cinco bancas de venda, prometem não baixar os braços: dizem-se vítimas e, para já, apenas vão entregar um espaço ao proprietário, prometendo lutar pelos restantes
A
s lágrimas caem do rosto da senhora Leong assim que pedimos mais informações sobre as recentes notícias da renovação do centro comercial Teatro Capitol. Leong é a matriarca de uma família de quatro pessoas que sempre dependeu da venda de sumos e comida rápida no espaço há muito abandonado e que agora pode ficar sem forma de sobrevivência. Os avisos estão espalhados pelas paredes e oficialmente, até Janeiro, a família terá de abandonar o espaço. “Não sabíamos do projecto de renovação, até que vimos a notícia da TDM. Sofremos muitas ameaças depois de sabermos disso, muitas pessoas chegaram aqui e pediram-nos para sair do centro
hoje macau
“Ninguém discutiu a saída connosco”
comercial, pessoas que não se identificaram”, disse Leong ao HM. O projecto de renovação do centro comercial Teatro Capitol foi anunciado em Novembro, quando Tsui Meng Wa, presidente da Comissão de Gestão do centro comercial, avançou ao jornal Ou Mun a ideia do projecto, que será desenvolvido pelo empresário Kuan Vai Lam. Os vendilhões eram geridos pela empresa imobiliária Hang Kei Property Management, que passou a responsabilidade de administração à comissão de gestão gerida por Tsui Meng Wa. A senhora Leong garante que nunca tiveram conhecimento desta mudança. “Ninguém discutiu a saída ou possíveis compensações connosco. A empresa não apresentou nenhuma comissão quando fizemos negócio há 20 anos, nem nunca nos encontrámos com o proprietário do Capitol. Temos uma loja na Taipa, mas vamos fechá-la por causa da renda, que é cara. Esta loja vai ser a última.” A filha, também identificada como senhora Leong, garante que vai continuar a lutar pelo negócio de uma vida. “Fui acusada de di-
famação e não sei porquê. Perdi o meu bebé nesta altura, por causa destas acusações, e até falámos do nosso caso ao deputado Chan Meng Kam e ele apresentou um advogado para nos ajudar. A antiga empresa de gestão disse que transferiu as questões administrativas para a nova comissão, que nos acusou de ocupar os espaços públicos. A empresa não nos deu nenhuma informação, só sabemos que o proprietário do centro comercial é o empresário Kuan Vai Lam, vi na televisão.” William Kuan Vai Lam foi candidato a deputado em 2009 e em 2013 e prometeu, recentemente, voltar a concorrer em 2017. O também empresário do imobiliário está ligado à Companhia Predial Vitória e detém associações.
Situações diferentes
Para já, a cedência será feita apenas em relação a um espaço. Em relação aos restantes quatro locais de venda, a luta deverá ser feita no tribunal. “Já obtivemos mais informações do meu advogado, temos cinco bancas, vamos deixar uma, mas as outros quatro não deixamos”, disse a filha Leong.
PJ Furtos em residências diminuíram. Segurança aperta
O
número de processos de furtos em residências, durante os primeiros dez meses do presente ano, caiu 72%, quando comparado como período homólogo do ano passado. Segundo dados, tornados públicos ontem pela Polícia Judiciária (PJ), de Janeiro a Outubro foram instaurados 46 processos, em comparação aos 164 processos do ano passado. “Os dados mostram que as zonas da Taipa e Coloane tiveram mais ocorrências, e, nos últimos
anos, quanto aos crimes de furto em apartamento, estes casos deram-se sobretudo naqueles situados nos andares mais altos. Actualmente, os casos de furto residencial ocorrem principalmente em dois períodos: entre a meia-noite e as quatro da manhã e entre as quatro da tarde e as oito da noite”, indicou a PJ. Ainda assim é necessário, sugere, aumentar a segurança na administração dos edifícios através das tecnologias. Durante um
encontro, que aconteceu ontem e juntou várias entidades de segurança e associações de Macau, a PJ indicou que as empresas de gestão de propriedades devem instalar “novos equipamentos de vigilância, no sentido de monitorizarem em vários aspectos e em tempo real a segurança no edifício, de forma a impedir o acesso de estranhos e evitar a ocorrência de crimes, aliviando também o problema quanto à insuficiência do pessoal de gestão predial”. F.A.
“Ninguém discutiu a saída ou possíveis compensações connosco. A empresa não apresentou nenhuma comissão quando fizemos negócio há 20 anos, nem nunca nos encontrámos com o proprietário do Capitol”
A família proprietária das cinco banquinhas garantiu ao HM que só começaram a vender sumos, panquecas e comida rápida no espaço da Rua Pedro Nolasco da Silva porque não havia movimento de pessoas. “Aí a comissão dos proprietários decidiu arrendar os espaços públicos aos vendilhões e temos feito bem o negócio aqui. Há muitas pessoas que vêm aqui”, disse a mãe Leong. Apesar do braço de ferro existente entre os cinco vendilhões e o proprietário do espaço, as restantes lojas do centro comercial Teatro Capitol parecem estar imunes a esta polémica, por terem diferentes contratos de arrendamento. “Não fomos informados de nada, o proprietário da nossa loja é diferente”, disse ao HM Atef, do espaço Arabian Kebab. “Concordo com a renovação, mas acredito que eles não vão sair assim tão facilmente, porque já estão aqui há muitos anos. Talvez até o Governo lhes dê uma ajuda”, apontou. A senhora Leong, que está na loja de sushi ao lado, também não recebeu qualquer informação do seu senhorio. “Só soube que ia haver um projecto de renovação aqui pela TDM. O caso deles é diferente em relação ao nosso. Pago uma renda ao meu senhorio e não sei como vai ser no futuro, porque ninguém nos disse nada”, referiu. Segundo informações reveladas pelo jornal Ou Mun, e citadas no Jornal Tribuna de Macau, o montante do investimento deverá ser de 20 milhões de patacas. Esta semana a família entrevistada pelo HM publicou um anúncio no jornal Ou Mun onde afirma querer ser ouvida em todo este processo e diz que vai recorrer ao Tribunal Judicial de Base.
Senhora Leong Comerciante
Voos Acordo contra dupla tributação entre Macau e Taiwan
Andreia Sofia Silva
andreia.silva@hojemacau.com.mo
Tomás Chio
info@hojemacau.com.mo
Foi ontem assinado um acordo entre Macau e Taiwan para evitar a dupla tributação nas empresas de transporte aéreo. O Chefe do Gabinete de Cultura e Economia de Macau em Taiwan, Leong Kit Chi, indicou que este acordo vem terminar com o sistema de renovação anual previsto num memorando assinado em 1998 entre as regiões. O representante considera o plano vem trazer várias vantagens ao sector turístico de Macau e Taiwan, assim como proteger as companhias aéreas. Questionado sobre a taxa de sucesso deste acordo, Iong Kuok Io, director da Direcção dos Serviços de Finanças (DSF), defendeu acreditar que o controlo da dupla tributação pode “aumentar o número de voos e aproximar a comunicação dos povos das duas regiões, assim como promover o turismo”. O acordo vem reforçar o que anteriormente foi assinado entre as regiões: a deslocação dos cidadãos de ambos os territórios, aprofundando a cooperação e intercâmbio económico-cultural bilateral.
8 sociedade
Céu Azul Caritas já tem instalações prontas a receber alunos
Livros, lápis e escola nova A Escola da Cáritas vai ser a primeira a ter instalações novas, no âmbito do projecto Céu Azul. A direcção diz que não podia estar mais contente, até porque o novo espaço vem colmatar algumas falhas do antigo
A
s novas instalações educativas para a Escola da Cáritas de Macau já estão prontas, apesar de só estarem operacionais em Setembro de 2016. “As novas instalações que o Governo nos atribuiu no projecto Céu Azul estão prontas para nos receber já no próximo ano lectivo. Neste momento funcionam apenas como centro de adaptação a estudantes que por uma razão ou outra foram expulsos das suas escolas”, explicou ao HM Cheung Shek Chiu, director da escola da associação. Devido ao baixo número de alunos a ocupar as instalações a Direcção para
os Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) considerou ser “mais útil” atribuir estas instalações à escola, que precisa ainda de mais instalações sem barreiras. “Neste momento a única coisa que é preciso é aumentar o número de instalações adaptadas para os nossos alunos, que são todos alunos com necessi-
dades especiais”, explicou o responsável.
1, 2, 3, já
Dentro de um mês, conta, espera-se que tudo esteja pronto e o entusiasmo não podia ser maior. “Quando soubemos que éramos uma das escolas escolhidas pelo Governo ficámos todos muito sensibilizados”, disse Ao
“Temos ao todo 64 crianças em sete turmas e a falta de espaço é uma enorme batalha nossa. Até as crianças ficaram emocionadas por saber que vão ter um espaço com ar livre para estar” Cheung Shek Chiu Director da escola da associação
pub
EDITAL Edital n.º Processo n.º Assunto Local
:58/E-BC/2015 :879/BC/2011/F :Início do procedimento de audiência pela infracção às respectivas disposições do Regulamento de Segurança Contra Incêndios (RSCI) :Calçada Central de S. Lázaro n.º 15, Edf. Tim Cheung, terraço sobrejacente à fracção 4.º andar A (CRP:A4), Macau.
Cheong Ion Man, subdirector da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), no uso das competências delegadas pelo Despacho n.º 12/SOTDIR/2015, publicado no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) n.º 38, II Série, de 23 de Setembro de 2015, faz saber por este meio ao dono da obra e ao proprietário do local acima indicado, cujas identidades se desconhecem, o seguinte: 1.
O agente de fiscalização desta DSSOPT deslocou-se ao local acima indicado e verificou a realização de obra sem licença cuja descrição e situação é a seguinte: Obra Construção de um compartimento não autorizado 1.1 com cobertura em betão, janela de vidro, pala metálica, paredes em alvenaria de tijolo e escada metálica. Construção de suporte metálico, cobertura plástica e 1.2 gradeamento metálico sobrejacente ao compartimento referido no ponto 1.1.
Infracção ao RSCI e motivo da demolição Infracção ao n.º 4 do artigo 10.º, obstrução do caminho de evacuação. Infracção ao n.º 4 do artigo 10.º, obstrução do caminho de evacuação.
2. Sendo as escadas e corredores comuns e terraço do edifício considerados caminhos de evacuação, devem os mesmos conservar-se permanentemente desobstruídos e desimpedidos, de acordo com o disposto no n.º 4 do artigo 10.º do RSCI, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 24/95/M, de 9 de Junho. As alterações introduzidas pelo infractor nos referidos espaços, descritas no ponto 1 do presente edital, contrariam a função desses espaços enquanto caminhos de evacuação e comprometem a segurança de pessoas e bens em caso de incêndio. Assim, as obras executadas não são susceptíveis de legalização pelo que terá necessariamente de ser determinada pela DSSOPT a sua demolição a fim de ser reintegrada a legalidade urbanística violada. 3. Nos termos do n.º 3 do artigo 87.º do RSCI, a infracção ao disposto no n.º 4 do artigo 10.º é sancionável com multa de $4 000,00 a $40 000,00 patacas. Além disso, de acordo com o n.º 4 do mesmo artigo, em caso de pejamento dos caminhos de evacuação, será solidariamente responsável a entidade que presta os serviços de administração ou segurança do edifício. 4. Considerando a matéria referida nos pontos 2 e 3 do presente edital, podem os interessados, querendo, pronunciar-se por escrito sobre a mesma e demais questões objecto do procedimento, no prazo de 5 (cinco) dias contados a partir da data de publicação do presente edital, podendo requerer diligências complementares e oferecer os respectivos meios de prova, em conformidade com o disposto no n.º 1 do artigo 95.º do RSCI. 5.
O processo pode ser consultado durante as horas de expediente nas instalações da Divisão de Fiscalização do Departamento de Urbanização desta DSSOPT, situadas na Estrada de D. Maria II, n.º 33, 15o andar, Macau (telefones nos 85977154 e 85977227).
Aos 30 de Novembro de 2015
Pelo Director dos Serviços O Subdirector Cheong Ion Man
Ieong, professora de ensino especial. Actualmente, conta, a escola e os seus trabalhadores enfrentam muitas dificuldades. “Temos ao todo 64 crianças em sete turmas e a falta de espaço é uma enorme batalha nossa. Até as crianças ficaram emocionadas por saber que vão ter um espaço com ar livre para estar”, relatou. A contar com uma equipa de docentes e técnicos, como terapeutas da fala, fisioterapeutas e oferecendo ainda aulas de musicoterapia, a docente explica que a nova escola permitirá fazer evoluir o tipo de actividades disponíveis para os alunos.
Cáritas Macau
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Com instalações nos NAPE, a transferência para a Taipa é aplaudida. “Vamos finalmente sair da proximidade dos casinos, algo que é prejudicial para os alunos”, explica o director.
Tudo muito rápido
Alexis Tam, Secretário para osAssuntos Sociais e Cultura, indicou esta semana que, até ao momento, em todas as abordagens do seu gabinete às escolas – sem indicar quantas –, apenas uma escola recusou aderir ao projecto Céu Azul. “Não sei bem qual a situação da escola que recusou, mas não estranho que as pessoas – incluindo os directores dessa instituição – estejam a reagir assim. Temos de perceber que isto aconteceu tudo muito rápido, um dia o Secretário visitou uma
escola e lançou este plano. As coisas feitas de forma muito rápida podem causar estranheza. O efeito surpresa é muito grande, portanto é normal que as pessoas estejam a estranhar”, justificou Cheung Shek Chiu. Depois de sete mudanças de instalações, a Escola da Cáritas espera agora poder “pousar definitivamente”. “As altas rendas fizeram com que, ao longo dos anos, tivéssemos de mudar sempre de um lado para o outro. Neste momento estas instalações são muito pequenas para o número de crianças e, para piorar, temos de dividir o espaço com outra instituição aqui ao lado. Esta escola vem mudar isso, finalmente”, remata a docente. Filipa Araújo (com Flora Fong) Filipa.araujo@hojemacau.com.mo
Jogo Recebidos quase três mil pedidos de ajuda
Chamadas responsáveis O s serviços de linha aberta e de aconselhamento online de Jogo registaram quase três mil pedidos de ajuda ou consultas, sendo que mais de metade dos pedidos foram apresentados por trabalhadores do sector de Jogo, escreveu o jornal Ou Mun. O Coordenador dos Serviços Sociais, Sheng Kung Hui, apresentou esta quarta-feira os dados, que revelam que, desde a criação do serviço de 24 horas até Julho do ano passado, foram feitos 2911 pedidos de ajuda, sendo que 64% dizem respeito a residentes de Macau. Outros 55% dos pedidos referem-se a jovens e adultos que consultaram os serviços de aconselhamento e apoio emocional, enquanto que 53% dos pedidos foram feitos por funcionários do sector do Jogo. Os dados mostram ainda que os requerentes com menos de 30 anos preferem pedir ajuda através da internet, enquanto que os que têm mais de 40 anos optaram pela linha aberta. No que toca à situação
financeira, 86% dos requerentes contraíram dívidas, 29% fez dívidas de 50 mil patacas ou de valor inferior, enquanto que 17% endividou-se em mais de cem mil patacas. O chefe assistente do gabinete, Ng Wai Ip, disse que os serviços conseguem dar aconselhamento e apoio a pessoas que pensam estar viciadas no jogo e conseguem ainda utilizar as redes sociais para contactar os viciados e familiares que não querem dar a cara. “O vício do Jogo está ligado à vontade de ganhar
dinheiro, ou também porque [os jogadores] sentem que têm um trabalho aborrecido. O vício está também ligado às más relações familiares, preferindo os requerentes jogar no casino para aliviar a pressão”, disse Ng Wai Ip. Flora Fong
Flora.fong@hojemacau.com.mo
Mais materiais pedagógicos A Casa dos Trabalhadores dos Indústria de Jogo de Macau lançou na quartafeira um livro com materiais pedagógicos ligados ao Jogo Responsável. Segundo o jornal Ou Mun, o responsável pela Casa, Pak Kin Pong, referiu que nos últimos anos tem ocorrido a questão preocupante da perda de controlo de Jogo
por parte dos trabalhadores do sector, tendo dado como exemplo a ocorrência de crimes para o pagamento de dívidas de Jogo. Pak Kin Pong espera que, através do livro, os trabalhadores saibam mais sobre conceito de Jogo Responsável, diminuindo o risco do vício e aumentando o número de pedidos de ajuda.
sociedade 9
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
S
ão demasiado “lentos” para correr na Austrália e, por isso, estão a ser exportados para Macau. Um relatório do programa “7.30” da ABC mostra que dezenas de galgos estão a chegar a Macau sem documentação, e sem que o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) entre em acção. Fruto de uma investigação de meio ano, que contou com “provas” da associação Animals Australia em Macau, China e Vietname, o relatório aponta que há dezenas de treinadores e donos de cães a exportá-los para a Ásia. A actividade não é, por si, ilegal, mas é proibido enviar os animais sem que estes tenham um passaporte. Os animais estão, portanto, a entrar via marítima em Macau sem documentos que o IACM costuma exigir, de acordo com as leis de Macau. Do lado da Austrália, quem for apanhado a enviar os cães sem esse passaporte é punido. O país, recorde-se, baniu a emissão de passaportes para a exportação de galgos para Macau, devido à falta de condições da RAEM quer no tratamento dos animais, quer na quase ausência de um programa de adopção –
Canídromo Cães da Austrália entram de forma ilegal em Macau
Massacre contínuo Tiago Alcântara
Cães lentos não são desejados na Austrália e vêm parar a Macau. Chegam ao território sem documentação, ou seja de forma ilegal, mas a verdade é que entram aos 30 por mês. Resta saber qual o papel do IACM na situação
terá sido implementado um programa, mas desconhece-se ao certo se e quantos animais foram adoptados, sendo que activistas pró-animal dizem que o sistema é apenas uma fachada. Para a Animals Australia, o envio destes animais para o território é o mesmo que sentenciá-los à morte. “Para eles, não há dúvidas, é uma sentença de morte”, disse à ABC Lyn White, directora de campanha da associação. “As condições [no Canídromo] são péssimas, é tipo prisão,
e é, de facto, como se fossem exportados para outro país para irem para o corredor da morte.” As más condições oferecidas aos galgos não são novidade para os residentes de Macau, tanto que a ANIMA – Sociedade Protectora dos Animais e outras associações da área estão constantemente a fazer pedidos para que o espaço feche e para que os cães possam ser adoptados. Os animais chegam a Macau via Hong Kong e juntam-se aos cerca de 800
“Não se consegue perceber como é que Macau aceita animais que vêm da Austrália sem passaporte. Como é que o IACM aceita a entrada de animais em Macau sem ser com passaporte” Albano Martins Presidente da ANIMA
Pearl Horizon Retirada da concessão “afecta confiança” de investidores
O
sector imobiliário considera que a retirada da concessão do terreno do Pearl Horizon vai afectar a confiança de investidores e apela ao Tribunal Administrativo para dar prioridade ao processo do recurso apresentando pela empresa construtora, o Grupo Polytec. Segundo o jornal Ou Mun, Paul Tse, presidente da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau, defende que o
problema do Pearl Horizon já causou um grande choque junto da sociedade, principalmente porque, além desse projecto, muitas concessões de terrenos vão expirar no próximo ano. Paul Tse considera que “a maioria das concessões sofreu atrasos causados pelo atraso do planeamento do Governo, mas as empresas não conseguiram resolver [os problemas]”. O responsável acredita ainda que a maioria desses
cães que estão, diariamente, presos no Canídromo da Yat Yuen, que viu o seu contrato com o Governo, recentemente, ser prorrogado por mais um ano. A ABC fala em carregamentos de cerca de 30 cães por mês para “substituírem os galgos que são regularmente mortos no Canídromo”. Outros cães, diz ainda o programa, são “leiloados semanalmente a preços inflacionados” e comprados por investidores asiáticos. Numa entrevista feita de forma oculta pelo programa australiano ao veterinário-chefe do Canídromo, Wu Sung Hu, este explica que a Yat Yuen tem quatro fornecedores de cães na Austrália.
Deixar andar
O HM quis perceber junto do IACM como é que o instituto está a permitir a entrada destes cães sem documentação em Macau, mas até ao fecho desta edição não foi possível obter qualquer resposta. O HM sabe que quando os animais chegam ao território por via marítima um veterinário do IACM tem obrigatoriamente de estar presente para dar o aval para a entrada dos cães e verificar documentos. “Não se consegue perceber como é que Macau aceita concessionários vai apresentar processos judiciais em tribunal, o que vai influenciar a imagem e a reputação do sector empresarial de Macau. Paul Tse acha ainda que “muitos investidores estrangeiros já não têm vontade de investir em Macau”. A directora executiva da agência Ricacorp Properties, Liu Chi Ka, apontou que existem investidores provenientes de Hong Kong, Taiwan e do interior da China que acham inaceitável a retirada do terreno quando este já está em desenvolvimento. F.F.
animais que vêm da Austrália sem passaporte. Como é que o IACM aceita a entrada de animais em Macau sem ser com passaporte”, refere Albano Martins ao HM. O presidente da ANIMA assume que a sociedade está a cooperar com a Animals Australia sobre o caso e disse ainda que a ANIMAvai “escrever uma carta ao primeiro-ministro australiano para contar as más condições do Canídromo e para pedir a proibição de exportação de animais” para a RAEM. “Estamos fartos de pedir ao Governo [de Macau] para não autorizar mais a importação de animais, mas o Governo leva tempo a decidir.” De acordo com o presidente da ANIMA, vão entrar mais duas levas de animais este mês, sendo que as associações australianas estão a tentar bloquear esta exportação. De acordo com a ABC, a Greyhounds Australasia e a Animals Australia pediram ao Ministro da Agricultura Barnaby Joyce para impedir a exportação, mas este “ainda não agiu”. Os animais chegam a ser comprados por 19 mil dólares de Hong Kong em hasta pública. Joana Freitas
joana.freitas@hojemacau.com.mo
UM Professor consegue bolsa para IEEE
O académico da Universidade de Macau (UM) Ben U Seng Pan tornou-se o primeiro investigador com toda a formação feita em Macau a ganhar uma bolsa para o Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), para o próximo ano. O IEEE é uma entidade norte-americana sem fins lucrativos e a maior associação profissional do mundo.
SIDA Total de 43 mortes desde anos 80. Idosos preocupam
D
esde o registo dos primeiros casos de Vírus de Imunodeficiência Humana (VIH) em Macau, na década de 80, já morreram 43 residentes devido a complicações causada pelos vírus. De acordo com dados avançados ontem pela Comissão de Luta Contra a Sida, no cômputo geral, até Outubro, foram registados 600 casos de infecção no território - 217 dos quais relacionados com locais, avança a Rádio Macau. Apenas em relação a este ano, o secretário-geral da comissão, Lam Chong, adiantou que foram declarados 31 novos casos de Sida em Macau – 19 de residentes e 12 de não residentes, sendo a principal via de transmissão o acto sexual e outro a partilha de seringas. No âmbito da prevenção, a Comissão de Luta contra a Sida dará prioridade, em 2016, ao desenvolvimento dos trabalhos para a criação de uma base de dados, “com o objectivo de dar um melhor acompanhamento às pessoas infectadas”. A faixa etária das pessoas com mais de 60 anos é o grupo que mais preocupação, no momento, traz à Comissão, sendo que foi a detecção de seis casos de SIDA, entre 2014 e este ano, que chamou à atenção dos peritos.
10
china
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Pequim levanta alerta vermelho devido à poluição
Hora de tirar a máscara
A
s autoridades de Pequim levantaram ontem aquele que foi o primeiro alerta vermelho por poluição que emitiram, 48 horas depois de medidas para controlar níveis de poluição inferiores aos de ocasiões anteriores. O alerta terminou formalmente às 12:00, mas já
desde madrugada uma frente fria com ventos ligeiros levou o manto de névoa e de poluição que desde o fim de semana cobria a capital chinesa. As autoridades chinesas anunciaram na segunda-feira que, pela primeira vez desde que se instaurou, em 2013, um sistema de alerta de quatro cores, a activação
do nível mais grave, o vermelho, a partir das 7:00 de terça-feira e até ao meio-dia de ontem. Durante esse período, Pequim pôs em marcha medidas como a circulação dos automóveis privados de acordo com o último número da matrícula – um dia pares, noutro ímpares – ou a proibição de saída para a estrada de veículos pesados. Além disso, também foram suspensas as obras e as fábricas reduziram ou pararam a produção, incluindo as de geração de energia, as siderurgias e as de cimento. O pacote de medidas aliviou o habitual denso tráfego de Pequim, também reduzido pela recomendação às escolas primárias e secundárias para que suspendessem as aulas e ao pedido de empresas e instituições oficiais para que fossem
permitidos horários flexíveis para os seus funcionários.
Vozes contra
Apesar de a medida ter sido aplaudida por organizações como a Greenpeace e a Organização Mundial da Saúde (OMS), que sublinhou que “as autoridades estão a levar a sério a qualidade do ar”, alguns moradores em Pequim consideraram-na excessiva e demasiado prolongada. Enquanto por estes dias os níveis de poluição rondaram picos de 400 microgramas por metro cúbico das partículas PM 2.5 – as mais prejudiciais à saúde –, na semana passada, quando se activou apenas o alerta laranja após vários dias da maior poluição de 2015 na capital, foram superados os 650 microgramas. A OMS estabelece em 25 microgramas o máximo recomendado para que não prejudique a saúde.
Autorizações de residência para milhões de não registados
A
China vai atribuir a milhões de cidadãos não registados - muitos nascidos em violação da política de filho único - documentos imprescindíveis ao acesso à educação e sistema nacional de saúde, informou ontem a imprensa estatal. Pelas contas do Governo chinês, 13 milhões de chineses, ou 1% da população do país, carece de uma autorização de residência (Hukou, em chinês), estando assim privada de múltiplos serviços públicos. O número real é, contudo, desconhecido, e, provavelmente, muito maior, devido às dificuldades inerentes ao cálculo da maior população do mundo. É também um efeito da política “um casal, um filho”, que vigorou na China durante mais de 30 anos. Segundo um estudo da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, 60% das pessoas não
registadas são filhos de famílias que não o fizeram para evitar pagar a multa imposta aos casais com mais de um filho. Conhecidas como “crianças ilegais”, muitas não têm acesso ao ensino ou empregos formais, e enfrentam dificuldades em viajar dentro das fronteiras do país. Outros casos envolvem crianças abandonadas ou nascidas fora do matrimónio. A decisão, que surge após o anúncio em Outubro da abolição da política “um casal, um filho”, foi tomada na quarta-feira após uma reunião convocada pelo presidente chinês, Xi Jinping, avançou a agência oficial chinesa Xinhua. “É um direito básico dos cidadãos obter o ‘hukou’”, escreveu a agência. “É também uma premissa para que participem de assuntos do interesse público, gozem de direitos e cumpram os seus deveres”.
pub
Hong Kong Polícia procura dois suspeitos por explosão no parlamento
Incendiários continuam à solta A
Anúncio HM 2ª vez 11-12-2015 Proc. ordinário de execução n.º
CV2-14-0131-CEO
2º Juízo Cível
Exequente: BANCO INDUSTRIAL E COMERCIAL DA CHINA (MACAU) S.A, / 中國工商銀行(澳門)股份有限公司 com sede em Macau, na Avenida da Amizade, n.º 555 – Macau Landmark, Torre ICBC, 18.º andar. Executada: U CHEOK PENG / 余芍冰, feminino, de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Rua Um de Ip Heng – Edifício “Ip Heng”, Bloco IX, 9.º andar G, Ilha de Coloane (Seac Pai Van), Macau. Faz-se saber que nos autos acima indicados são citados os credores desconhecidos da executada para, no prazo de quinze dias, que começa a correr depois de finda a dilação de vinte dias, contada da data da segunda e última publicação do anúncio, reclamar o pagamento dos seus créditos pelo produto do bem penhorado sobre que tenham garantia real e que é o seguinte: Direito penhorado Natureza: Direito resultante do Contrato Promessa de Compra e Venda celebrado em 26/02/2013, relativo à seguinte fracção autónoma (habitação económica). Denominação da fracção autónoma: G-9, 9º andar “G”. Situação: Em Macau, na Ilha de Coloane, na Estrada de Seac Pai Van, s/n, denominado Edifício Ip Heng (Bloco IX). Fim: Para habitação. Número de descrição na Conservatória do Registo Predial: nº. 23307-K. Aos 2 de Dezembro de 2015.
polícia de Hong Kong procura desde ontem por dois suspeitos de uma pequena explosão ocorrida, na passada noite, num caixote de lixo junto à entrada do Conselho Legislativo (LegCo, parlamento) da antiga colónia britânica. O incidente ocorreu cerca das 20:30 locais, quando um incêndio num caixote de lixo junto às portas do edifício causou uma pequena explosão. Uma botija de gás queimada foi encontrada perto do caixote depois da explosão, a qual não provocou feridos ou danos de maior. A polícia, após verificar as imagens das câmaras de segurança, indicou que dois homens aproximaram-se do lixo, atearam fogo a uma substância e atiraram-na para o caixote, que se incendiou e explodiu. O incidente ocorreu depois de se ter cancelado uma sessão plenária prevista para debater a nova lei de direitos de autor, devido à falta de quórum.
Uma hora e meia antes do arranque do debate no interior do complexo foi convocada uma manifestação à porta do parlamento contra a medida. O debate sobre a controversa “lei da Internet” foi cancelado por falta de quó-
rum, depois de os partidos da ala democrata – avessos à proposta de lei – terem optado por deixar os seus assentos vazios, forçando o atraso do debate em uma semana. O diploma, que tem por objectivo estender a
protecção dos direitos de autor à Internet, suscitou grande preocupação no seio da comunidade local, por eventualmente acarretar restrições ao direito à liberdade de expressão.
Contestação cresce
O sentimento de erosão das liberdades que Hong Kong tem vivido nos últimos anos, atribuído à acção de Pequim, tem vindo a ser contestado por via de significativos protestos populares e pela oposição, cada vez mais acérrima, dos grupos parlamentares do chamado campo democrático. O mais recente exemplo disso foi o pacote de reforma eleitoral desenhado para Hong Kong, por Pequim, em Agosto de 2014, o qual desencadeou os massivos protestos que se estenderam durante 79 dias nas ruas da antiga colónia britânica, conhecidos como “a revolução dos guarda-chuvas”. Essa proposta foi finalmente chumbada pelo Legco.
região
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
11
pub
Notificação Edital Chan Weng Hong, Presidente da Autoridade de Aviação Civil, faz saber que, tendo-se esgotado todas as tentativas de notificação pessoal, nos termos do n.º 2 do artigo 72.º do Código do Procedimento Administrativo (CPA), aprovado pelo Decreto-Lei n. º 57/99/M de 11 de Outubro, procede-se à notificação edital de (i) Wang Jinlong, portador do Passaporte n. º W474xxxxx, emitido na República Popular da China, residente em (中國浙江省寧波), (ii) Jiang Li portador do Passaporte n. º E257xxxxx, emitido na República Popular da China, residente em (中國江西省廣豐縣), (iii) Loo Kee Chuan portador do Passaporte n. º E316xxxxxx, emitido na Singapura, residente em Jurong West, Singapore, (iv) Whang Hoyoung portador do Passporte n. º M149xxxxx, emitido na Coreana, residente em (韓國 政治道松蘭市) e (v) Wu Kai portador do Passaporte n. º G318xxxxx, emitido na República Popular da China, residente em (中國中山市坦洲鎮) nos seguintes termos: - No processo instaurado a Wang Jinlong, foi-lhe aplicada por decisão do Presidente da Autoridade de Aviação Civil, datada de 20 de Janeiro de 2014, a multa no valor de doze mil Patacas (MOP12.000,00), pela prática da infracção prevista e punida na alínea n.º 2) do n.º 1 do artigo 4. º do Regulamento Administrativo n.º 31/2003, por ter ficado provado por meio de prova testemunhal que o infractor, no dia 7 de Janeiro de 2014, fumou a bordo da aeronave da companhia aérea Air Macau com a matrícula NX161, conforme confirmado pelo relatório da Polícia de Segurança Pública 101/SEADPI/2014P, datado de 15 de Janeiro de 2014, contendo em anexo o relatório da Polícia de Segurança Pública (Divisão do Aeroporto) Ref. 39/2014/DPA, datado de 7 de Janeiro de 2014.
Kim Jong-un afirma possuir bomba de hidrogénio
“Grande Sucessor” volta ao ataque O líder da Coreia do Norte afirmou pela primeira vez que o país tem a bomba de hidrogénio, noticiou ontem a agência oficial KCNA, embora vários peritos duvidem que Pyongyang tenha conseguido desenvolver esta arma. Kim Jong-un disse que a Coreia do Norte “se transformou num poderoso Estado, que possui armas nucleares, capaz de fazer detonar uma bomba atómica e também uma bomba H (de hidrogénio) para defender eficazmente a soberania e dignidade da nação”, de acordo com a KCNA. O “Grande Sucessor” proferiu esta afirmação durante uma visita ao sítio
de Phyongchon, na capital norte-coreana, onde foi construída a primeira fábrica de munições do país há seis décadas. O líder, de 32 anos, reafirmou em várias ocasiões que a Coreia do Norte possui armas nucleares e que este recurso é o principal pilar da defesa contra os alegados planos de invasão pelos Estados Unidos. De acordo com peritos sul-coreanos, esta é a primeira vez que o regime da Coreia do Norte assegura possuir a bomba de hidrogénio, um explosivo que pode multiplicar por milhares a potência de um míssil nuclear comum, como os que foram lançados sobre
Kim Jong-un disse que a Coreia do Norte “se transformou num poderoso Estado, que possui armas nucleares, capaz de fazer detonar uma bomba atómica e também uma bomba H para defender eficazmente a soberania e dignidade da nação”
as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Os serviços secretos sul-coreanos (NIS) afirmaram desconhecer que o regime de Kim Jong-un tenha desenvolvido a bomba de hidrogénio, indicou um dos responsáveis do NIS à agência noticiosa sul-coreana Yonhap, em Seul. “A Coreia do Norte não teve êxito na miniaturização das bombas nucleares, por isso não pode contar com a tecnologia para produzir uma bomba H”, acrescentou a mesma fonte, que considerou as declarações de Kim Jong-un de “simples retórica”. No caso das bombas nucleares comuns, a Coreia do Norte conseguiu um grande desenvolvimento tecnológico, tendo realizado três explosões em 2006, 2009 e 2013. Os especialistas desconhecem se Pyongyang é ou não capaz de miniaturizar os explosivos atómicos para serem instalados nas ogivas dos seus mísseis.
- No processo instaurado a Jiang Li, foi-lhe aplicada por decisão do Presidente da Autoridade de Aviação Civil, datada de 9 de Junho de 2014, a multa no valor de doze mil Patacas (MOP12.000,00), pela prática da infracção prevista e punida na alínea n.º 2) do n.º 1 do artigo 4. º do Regulamento Administrativo n.º 31/2003, por ter ficado provado por meio de prova testemunhal que o infractor, no dia 13 de Maio de 2014, fumou a bordo da aeronave da companhia aérea Jet Star com a matrícula BL686, conforme confirmado pelo relatório da Polícia de Segurança Pública Ref. 810/SEADPI/2014P, datado de 29 de Maio de 2014, contendo em anexo o relatório da Polícia de Segurança Pública (Divisão do Aeroporto) Ref. 843/2014/DPA, datado de 13 de Maio de 2014. - No processo instaurado a Loo Kee Chuan, foi-lhe aplicada por decisão do Presidente da Autoridade de Aviação Civil, datada de 4 de Dezembro de 2014, a multa no valor de doze mil Patacas (MOP12.000,00), pela prática da infracção prevista e punida na alínea n.º 2) do n.º 1 do artigo 4. º do Regulamento Administrativo n.º 31/2003, por ter ficado provado por meio de prova testemunhal que o infractor, no dia 24 de Novembro de 2014, fumou a bordo da aeronave da companhia aérea Tiger Air com a matrícula TR2902, conforme confirmado pelo relatório da Polícia de Segurança Pública Ref. 1999/SEADPI/2014P, datado de 2 de Dezembro de 2014, contendo em anexo o relatório da Polícia de Segurança Pública (Divisão do Aeroporto) Ref. 2227/2014/DPA, datado de 24 de Novembro de 2014. - No processo instaurado a Whang Hoyoung, foi-lhe aplicada por decisão do Presidente da Autoridade de Aviação Civil, datada de 11 de Junho de 2015, a multa no valor de doze mil Patacas (MOP12.000,00), pela prática da infracção prevista e punida na alínea n.º 2) do n.º 1 do artigo 4.º do Regulamento Administrativo n.º 31/2003, por ter ficado provado por meio de prova testemunhal que o infractor, no dia 25 de Maio de 2015, fumou a bordo da aeronave da companhia aérea Jin Air com a matrícula LJ121, conforme confirmado pelo relatório da Polícia de Segurança Pública Ref. 843/SEADPI/2015P, datado de 4 de Junho de 2015, contendo em anexo o relatório da Polícia de Segurança Pública (Divisão do Aeroporto) Ref. 1035/2015/DPA, datado de 26 de Maio de 2015. - No processo instaurado a Wu Kai, foi-lhe aplicada por decisão do Presidente da Autoridade de Aviação Civil, datada de 11 de Junho de 2015, a multa no valor de doze mil Patacas (MOP12.000,00), pela prática da infracção prevista e punida na alínea n.º 2) do n.º 1 do artigo 4. º do Regulamento Administrativo n.º 31/2003, por ter ficado provado por meio de prova testemunhal que o infractor, no dia 26 de Maio de 2015, fumou a bordo da aeronave da companhia aérea Air Macau com a matrícula NX881, conforme confirmado pelo relatório da Polícia de Segurança Pública Ref. 843/SEADPI/2015P, datado de 4 de Junho de 2015, contendo em anexo o relatório da Polícia de Segurança Pública (Divisão do Aeroporto) Ref. 1037/2015/DPA, datado de 26 de Maio de 2015. O pagamento das multas deverá ser efectuado nas instalações da Autoridade de Aviação Civil, sitas na Alameda Dr. Carlos D’Assumpção, 336-342, Centro Comercial Cheng Feng, 18º andar, em Macau, durante as horas normais de expediente, dentro do prazo de 30 dias a contar da data da publicação do presente edital. Nos casos em que foi prestada caução será a mesma declarada perdida a favor da Região Administrativa Especial de Macau caso o infractor não proceda ao pagamento voluntário da multa. Mais se notifica, que as decisões em causa são susceptíveis de recurso contencioso para o Tribunal Administrativo, no prazo de 60 dias dias a contar da publicação do presente edital. Notifica-se ainda que o pagamento não efectuado dentro do prazo legal dará lugar a execução imediata da multa. E para constar, se lavrou o presente edital que vai se fixado nos lugares de estilo e publicado em dois jornais mais lidos da Região Administrativa Especial de Macau, um em língua chinesa, outro em língua portuguesa. Autoridade de Aviação Civil de Macau, aos 11 de Dezembro de 2015 O Presidente, Chan Weng Hong
12
eventos
IC lança novo Mapa Cultural e Criativo de Macau
O
Instituto Cultural (IC) vai lançar uma nova versão do Mapa Cultural e Criativo de Macau. A revisão para o ano de 2016 tem como objectivo promover as indústrias culturais e criativas de Macau, a residentes e turistas, aumentando o seu conhecimento ao nível dos espaços culturais e criativos do território. O IC irá seleccionar membros de entidades da Base de Dados para as Indústrias Culturais e Criativas para que possam ser incluídos no mapa, sendo que todas as entidades do sector que ainda não estejam registadas na Base de Dados devem, se interessadas, fazer a sua inscrição para este efeito até ao dia 23 de Dezembro.
O mapa apresenta os espaços culturais e criativos de Macau através de texto e animações em simultâneo com informação sobre o Património Mundial, museus, itinerários turísticos e rotas de autocarros. A nova versão será distribuída em mais de 160 locais em Hong Kong e Macau, incluindo nos postos fronteiriços, museus, hotéis, agências de viagens e entidades culturais e criativas. Aaplicação móvel irá permitir aos utilizadores, diz o IC, explorar os espaços culturais e criativos ao longo das rotas e ficar a saber mais sobre produtos e actividades relacionados e assim experienciar as características multiculturais de Macau. F.A.
Projecto “Nourish the Children” cria recolha de donativos
Está a decorrer online o projecto “Nourish the Children”, em que cada pessoa poderá doar 360 patacas, o que dará alimentos a uma criança por um mês. O projecto visa doar alimentos a crianças malnutridas de países de terceiro mundo, estando prevista a realização de um evento em Hong Kong no próximo dia 13, por forma a captar a atenção do público para a iniciativa. O site www.nuskin. com tem mais informação sobre o assunto.
“Print Art Project” este sábado no Armazém do Boi
hoje macau sexta-
Terra de sonhos e realizac Cinema Documentários e filme de Macau em Espanha
C
inco películas made in Macau vão ser exibidas em Espanha, num evento de cinema que terá lugar em Granada. “Uma Ficção Inútil”, de Cheong Kin Man, é o único filme a ser mostrado, mas um documentários de dois portugueses radicados em Macau foi outra das escolhas. “Era uma vez em Ká-Hó”, da autoria de Hélder Beja e Filipa Queiroz, jornalistas, fala da antiga leprosaria que
Era uma vez em Ká-Hó
O processo de impressão em formato gravura será o destaque do próximo projecto cultural apresentado este sábado no Armazém do Boi. “Print Art Project” pretende mostrar ao público a visão de diversos artistas sobre esta arte, que, segundo um comunicado do Armazém do Boi, possui várias linguagens e cada vez com maiores possibilidades de inovação devido à tecnologia. Trabalhos como o de Robert Rauschenberg, um artista pop que combina impressão, pintura e instalação, ou da norteamericana Barbara Kruger, que critica a produção em massa e o consumo actual, são disso exemplo. Segundo o Armazém do Boi, em todos estes projectos “os artistas mostram as suas próprias reflexões sobre o processo de gravura através do processo de impressão, enquanto revela os conceitos artísticos em diferentes plataformas multimédia”. A curadora do projecto é Bianca Lei e na exposição participam seis artistas locais, incluindo alguns estudantes. A entrada é livre e o evento começa às 15h30.
À venda na Livraria Portuguesa
Rua de S. Domingos 16-18 • Tel: +853 28566442 | 28515915 • Fax: +853 28378014 • mail@livrariaportuguesa.net
Basta! • Camilo Lourenço
O Tchekista • Vladimír Zazúbrin
Depois de três bancarrotas em 34 anos, caso único na Europa, será que ainda não aprendemos a lição? “Há cerca de 20 anos li um artigo do The Wall Street Journal sobre o que os ex-países de Leste poderiam aprender com a experiência portuguesa (de abertura da economia). Longe estava eu de pensar que os anos seguintes ficariam marcados pelos piores disparates de política económica em Portugal. Disparates que nos estão a custar o futuro”, escreve o autor. Um livro esclarecedor, que ajuda a compreender o estado em que o país se encontra e, mais importante, aponta caminhos para evitar erros do passado e recuperar a prosperidade.
“O Tchekista” é um dos primeiros testemunhos literários sobre a natureza do poder soviético e um relato atroz de uma máquina de terror oleada pelo sangue humano. No rescaldo da guerra civil, Srúbov, um agente da Tcheka, cumpre o seu ofício de carrasco na Sibéria. Em nome da revolução, participa nos atrozes procedimentos quotidianos, em cruéis interrogatórios e em execuções sumárias. Porém, a sua consciência impede-o de desempenhar o seu ofício e o matadouro sangrento em que se move assola-o eternamente.
eventos 13
-feira 11.12.2015
se situava no espaço agora abandonado. Ao longo de 30 minutos, os autores quiseram mostrar aquilo que foi mais do que documentar e investigar uma história sobre a qual pouco se sabe e o estigma da lepra. “A experiência de conhecer de perto estas pessoas e esta realidade tão marginal e desconhecida de Macau foi um grande desafio. Uma experiência inesquecível. Macau e a história das suas gentes
hoje na chávena Paula Bicho
Naturopata e Fitoterapeuta • obichodabotica@gmail.com
Who Are Those Devils
estão a ficar dramaticamente submersas pela realidade do jogo e do desenvolvimento desenfreado do território por isso acho que é mesmo importante contar estas histórias”, explica no comunicado Filipa Queiroz, co-autora do documentário, cuja banda sonora ficou a cabo do músico português Noiserv. O documentário é apresentado no sábado, no Festival Internacional de Cinema “Otoño Antropológico”, em conjunto com “Who Are Those Devils”, de Penny Lam, e “As Fontes de Água de
s cões
Macau” realizado por Season Lao e produzido por Cheong Kin Man.
Com distinção
Ontem, foi a vez de “Uma Ficção Inútil” ser apresentada no festival de Granada, onde foi nomeada para o melhor filme experimental chinês. O filme já passou em dezenas de outros festivais, tendo sido merecedor de distinções. Desta vez, foi do agrado do público espanhol, sendo que Cheong Kin Man recebe, no domingo, a “Distinción Amarilla” na Corrala de Santiago da Universidade de Granada. “A cidade de Granada foi considerada pelo reputado cineasta José Val Del Omar como o ponto de encontro necessário entre o Ocidente e Oriente. Por isso, estes filmes de Macau vão ser apresentados ao público da cidade pelo jovem realizador Cheong Kin Man, que tomou por si próprio a iniciativa de promover a cultura da sua terra-natal”, descreve, em comunicado, o director do Festival, Manuel Polls Pelaz. O evento tem o apoio do Instituto Cultural. J.F.
Che ong Kin Ma n, a
uto rd
Hissopo Nome botânico: Hyssopus officinalis L. Família: Lamiaceae (Labiatae). Nomes populares: ERVA-SAGRADA; HISSOPO-DAS-FARMÁCIAS. Pequeno arbusto que cresce até cerca de 60 cm de altura, o Hissopo apresenta lindas flores azuis, bilabiadas, dispostas ao longo de uma espiga terminal; as folhas são pequenas e estreitas, com uma nervura saliente. Forma moitas densas e aromáticas muito atraentes para as abelhas. É nativo dos países mediterrânicos, principalmente Balcãs e Turquia, onde habita em locais secos e soalheiros, sendo ainda cultivado como planta ornamental. Considerado, no passado, uma panaceia enquanto planta medicinal, o Hissopo foi recomendado por Dioscórides para o tratamento da tosse crónica e expectoração, opressão no peito, asma e pleurisia. Foi ainda uma planta de referência na medicina popular para a asma, afecções brônquicas e pulmonares. Mas, além destes benefícios, foi também usado durante a Idade Média na prática de feitiçaria, pelos poderes maléficos que lhe eram atribuídos. Segundo algumas fontes, o Hissopo é uma planta bíblica, símbolo de pureza e citado numerosas vezes. No entanto, para outros autores não será esta a espécie apreciada pelo rei Salomão, uma vez que não habita na Palestina. As suas flores são muito referidas na literatura. Em fitoterapia são usadas as partes aéreas floridas, da planta fresca ou seca, e o óleo essencial.
aF Um e“
ã icç
o In ” ú t il
Composição Óleo essencial (alfa- e beta-pineno, alfa- e beta-tuiona, cânfora, pinocanfona; beta-cariofileno, germacreno D, nesolidol), flavonóides (glicósidos de diosmetina e de hesperidina), constituintes amargos (marubina), taninos, resina, hissopina, colina e enxofre. Aroma intenso e perfumado, picante. Acção terapêutica Com acção electiva sobre o tracto respiratório, o Hissopo fluidifica as mucosidades e favorece a sua expulsão, desinflama, combate bactérias e vírus, é sedativo e antiespasmódico; aumenta a sudação, contribuindo para baixar a febre. É recomendado na tosse e rouquidão, rinite, sinusite, constipação e gripe, infecções respiratórias acompanhadas de muco espesso, bronquite e asma, aliviando os sintomas e auxiliando a recuperação do organismo pela sua actividade tonificante. Pelo seu sabor agradável é uma boa opção para as crianças. Esta erva estimula as secreções digestivas e o apetite, tonifica o estômago, favorece
a digestão e facilita a eliminação de gases. Inapetência, digestões difíceis, distensão abdominal e cólicas são outras das suas indicações; pode ainda ser usado para expulsar os parasitas intestinais. É diurético e depurativo, sendo empregue em curas primaveris. Estimula a circulação e reduz a tensão arterial. Tem ainda efeitos tónicos sobre o sistema nervoso. Outras propriedades Externamente, o Hissopo é anti-séptico e adstringente, favorece a cura de feridas e contusões e resolve o edema dos tecidos inflamados, sendo útil nas amigdalites e dores de garganta, feridas, úlceras, queimaduras e contusões. Em cosmética, tonifica a pele e atenua as olheiras e “bolsas” das pálpebras. Como tomar • Uso interno Infusão das partes aéreas floridas: 1 colher de sobremesa por chávena de água fervente, 10 minutos de infusão. Tomar 3 ou 4 chávenas por dia. Nas afecções respiratórias, adoçar com mel e tomar quente. Em ampolas, xarope, gotas e rebuçados peitorais, o Hissopo integra várias fórmulas de plantas, indicadas especialmente para as afecções respiratórias, alergias e como tónico do organismo. As folhas e flores podem ser usadas para aromatizar saladas, legumes e estufados. Combina bem com saladas de Pimentos. É muito utilizado para aromatizar licores (chartreuse) e vermutes. • Uso externo Infusão das partes aéreas floridas: 50 a 60 gramas por litro de água fervente, 10 minutos de infusão. Em gargarejos, lavagens, compressas e como loção. Em gel, como tonificante da pele. Receita – Xarope de Hissopo Deitar 100 gramas de partes aéreas floridas de Hissopo em um litro de água fervente; deixar em infusão durante 10 minutos. Coar. Adicionar 1 kg de açúcar e levar ao lume; ferver até adquirir consistência xaroposa. Engarrafar. Tomar 2 a 4 colheres de sopa por dia. Na tosse. Precauções Nas doses terapêuticas, o Hissopo não apresenta efeitos adversos. Está contra-indicado durante a gravidez, pela sua acção tónica uterina. O óleo essencial, em doses elevadas, é convulsivante (pinocanfona). Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.
h
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
artes, letras e ideias
14
KAIFENG E DEZ METROS ABAIXO
S
ituada na província de Henan, setenta quilómetros a Leste da capital Zhengzhou, Kaifeng, a Sul do Rio Amarelo, tem uma longa História, encontrando-se no grupo das sete cidades que foram capitais da China. A chegada a Kaifeng é no mínimo estranha. Apanho um táxi, na parte Sul da cidade onde a estação dos caminhos-de-ferro e o terminal Sul dos autocarros se encontram. Perguntando a tarifa para chegar ao hotel que trago referenciado, o motorista responde seis yuan. Lá partimos e de facto, ao chegarmos é a quantia que marca no taxímetro. Pára e quando me preparo para pagar, diz-me que o hotel está fechado. O cordão que se encontra na porta giratória leva-me a pensar que é realmente verdade, mas fico intrigado porque é que não me tinha dito mais cedo. Depois, propõe-me um hotel que é da mesma categoria e para lá nos dirigimos, tendo o complemento da viagem custado apenas mais um yuan. Até aqui tudo normal; apenas poderia ter-me avisado antes que o hotel estava fechado. Em comparação ao hotel que eu tinha indicado, cuja fachada muito rococó continha altas colunas, este onde me hospedo, apesar de ser da mesma categoria e mais discreto, é ainda mais barato, tendo um quarto de banho do tamanho do quarto. Para mais, só o soube depois, encontra-se na rua onde à noite decorre um extenso mercado, com grande quantidade de cozinhas ambulantes, que cria um espectáculo a não perder. Mais tarde, volto a passar pelo anterior hotel e percebo que tinha sido enganado pois, quando por lá chegámos, encontrava-se ele apenas em limpezas. Enfim, tenho um quarto onde dormir e o assunto está arrumado, não fosse a tentativa que faço em perceber o porquê. Talvez o taxista tivesse comissão! No dia seguinte comprovo essa real conclusão quando, após um novo turista ser conduzido ao quarto, o taxista sai do carro e dirige-se à recepção onde recebe uma nota de dez yuan por ali colocar mais um hóspede. Kaifeng é uma cidade plana e por isso, interessante para ser explorada de bicicleta. A parte antiga encontra-se circundada pela muralha e espanta, pois não tem edifícios altos, sendo a maior parte das casas de dois andares. Ainda por cima as ruas e avenidas são largas, o que lhe dá um imenso Céu. Tal amplia a dimensão da sua luminosidade, o que permite à visão agarrar os edifícios escuros de madeira, que na maior parte
das cidades passam despercebidos pois, ficam escondidos pela força do labor humano, que absorve toda a atenção. Assim, a cidade com um ar lavado e fresco, tornou-se um lugar muito agradável nos dias que por aqui permaneço.
Memórias dos sabores Após percorrer para Norte metade da Rua Jiefang, com inúmeras lojas de antiguidades e livrarias, decido caminhar pelas travessas e seguir o quotidiano viver da cidade, em lugares que não se mostram aos turistas.
Abre-se Kaifeng nas suas provincianas características. O leiteiro percorre as ruas anunciado pela monocórdica sonoridade que vai repetidamente saindo de um primitivo aparelho colocado no guiador do triciclo. Na parte traseira deste, transporta as vasilhas de alumínio. É ver o rodopio das pessoas a sair apressadamente de casa, muitas vestidas como se acabassem de saltar da cama e com os jarros já cheios e o leite pago, espreitam para o fundo da travessa contígua para perscrutar se a senhora que vende o tofu se encontra por perto. Com uma imagem a lembrar as leiteiras que durante a
nossa infância se colocavam na esquina da rua com o mesmo tipo de vasilhame e aí esperavam os quotidianos clientes, recordamos só faltar o padeiro na sua distribuição de casa a casa, onde colocava o pão nas sacas dependuradas na porta. E não é que poucos metros a seguir, ao olhar pela vidraça vemos sair do forno de lenha uma fornada de bolos de arroz. O aspecto é exactamente como o que tenho do tempo de criança e que desapareceu com o querer requintá-lo para melhor atrair os clientes. Como há muito não provo aquela guloseima e ainda por cima, desde que estou em viagem pela China, pão fermentado e crocante, ou bolos, é algo que não ponho a vista em cima, logo radiosamente entro pelas portadas abertas de uma casa de madeira, sem nenhum placar a indicar ser ali uma loja. Quero um bolo para comer ali e outro para levar. Dizem-me para esperar. Estranho, pois basta entregar-me o bolo; ainda por cima quentinho, que contrabalança com o vento gelado que fora sopra. Volto a pedir para me darem já um para comer e é quando recebo a explicação que falta colocar-lhe a gema por cima. Alto aí, não me vão estragar o que colocou a salivar o meu imaginário de infância, para me trazer à realidade actual. Espantada, a senhora de meia-idade tenta de novo convencer-me que o bolo fica muito melhor com a gema mas, perante a minha sofreguidão em tê-lo nas mãos, logo, ainda contrariada me o entrega. É assim que consigo de novo provar, algo que há muitos anos não tenho acesso. Foi o melhor bolo de arroz que comi!
Os judeus de Kaifeng Sabemos estar a cidade referenciada como tendo uma população de judeus. Quando a dinastia Song do Norte (9601127) fez de Kaifeng a sua capital, havia aqui já uma comunidade de judeus com um rabi, que segundo se crê chegaram à China como mercadores durante a dinastia Tang. Em 1163 construíram uma sinagoga em terreno oferecido pelo Imperador Xiao Zong (Zhao Shen 116289) que ficou conhecida como Templo da Pureza e Verdade. Foi ela destruída durante as conquistas dos mongóis e voltou a ser reconstruída em 1279, tendo em 1421 sido reparada. O número destas famílias era de dezassete, como consta numa pedra gravada em 1489 que se encontra no museu da cidade e tinham como apelidos Ai, Jin, Lao, Li, Shi, Zhang e Zao. Se no século XIII
artes, letras e ideias 15
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
José Simões Morais texto e fotos
contavam com quatro mil pessoas, diminuíram para metade passados três séculos. O missionário jesuíta Mateus Ricci relatou que, quando vinha de viagem desde Beijing, tivera como companhia um judeu de Kaifeng, o que muito o admirou e por isso pediu a um seu, da Companhia de Jesus, que aí se deslocasse para averiguar. Muitos foram os judeus que ocuparam altos cargos no exército e se distinguiram como oficiais civis, estudiosos e físicos. Em 1642 o major Zhao Chengji foi um deles, que ao comando de tropas defendeu Kaifeng do exército de Li Zicheng. Nesse ano, Li tinha-se autoproclamado Rei de Xinshun e continuava a lutar contra a dinastia Ming. Em 1866, a comunidade não tinha rabi e as famílias judias eram muito pobres, tal como a sinagoga estava em ruínas, devido às constantes inundações. Pelos casamentos com chineses, dissolveram-se na comunidade e já no princípio do século XX tinham perdido as suas tradições e ligações religiosas. Agora, apesar de aproximadamente duzentos dos actuais habitantes ainda serem descendentes de judeus, mas não praticantes, são por vezes confundidos com muçulmanos e cristãos, que também existem em certa quantidade em Kaifeng. Na Rua Beitu, no lugar onde se encontrava a sinagoga, está hoje o Hospital do Povo número 4.
O Parque Tei Ta As muralhas, com que a parte antiga da cidade está cercada, foram construídas pela dinastia Song do Norte (9601127), que fez Kaifeng a sua capital. Se junto à parte Noroeste das muralhas encontro na borda do lago Xibei uma réplica da porta Tiannan de Beijing, onde não falta o retrato de Mao Zedong por cima da encerrada entrada, tudo com um ar muito abandonado, já no canto Nordeste visito o Parque do Pagode de Ferro (Tei Ta). Aí o Pavilhão Jieyin com a estátua em bronze do Buda do Futuro feita no século V e uma pedra de Taihu enquadram-se no cenário com o alto pagode, que em descampado domina a paisagem. Construído em 1049, com uma forma esguia e octogonal, tem cinquenta e cinco metros de altura e treze andares, apresentando-se feito em tijolo vidrado com uma cor de ferro e por isso, recebeu o nome de Pagode de Ferro. Já a sua decoração, feita toda com uma graciosa figuração variada em baixos-relevos nos tijolos, contraste com o interior do pagode. Extremamente difícil de subir e só até meio, dá acesso apenas a dois postigos abertos para o exterior, de onde se pode apenas ver uma pobre paisagem, que não vale o esforço.
Regresso para o centro da cidade e primeiro vou ao Templo taoista de Yanqing, que data de 1233 e tem o Pavilhão do Imperador do Jade com um invulgar estilo de arquitectura. Depois sigo para Leste e encontro o Templo do Primeiro-Ministro (Da Xiangguo), construído em 555 e que atingiu o seu apogeu durante a dinastia Song do Norte. Com a inundação ocorrida em 1642 ficou destruído pelas águas do Rio Amarelo e só foi reconstruído em 1766. No templo, a peça que mais surpreende encontra-se num
Kaifeng é uma cidade plana e por isso, interessante para ser explorada de bicicleta. A parte antiga encontra-se circundada pela muralha e espanta, pois não tem edifícios altos, sendo a maior parte das casas de dois andares. Ainda por cima as ruas e avenidas são largas, o que lhe dá um imenso Céu
pavilhão octogonal por detrás do salão principal e é uma enorme estátua dourada da Deusa Guanyin dos mil braços. Extenuado de um dia a percorrer a cidade, sigo para o hotel para tomar um banho e pelo caminho vou atento, para encontrar um restaurante que sorrisse aos meus olhos. Não sei se é pelo cansaço, ou não ter passado na rua certa, estou a chegar e nada registo. Ao virar para a rua do hotel, a grande animação de luzes a ocupá-la permite ver cozinhas ambulantes, umas a seguir às outras, com mesas e cadeiras onde, sentadas, muitas pessoas comem e bebem. Está encontrado o local para a refeição do dia! Após refrescado de um dia intenso, volto ao mercado nocturno de comida e percorro as várias tendas com rodas, escolhendo umas quantas espetadas de carneiro e um pão achatado com carne dentro. Para retirar a muita poeira da garganta, uma cerveja de produção local.
Enterrado pelas inundações Kaifeng, situada a alguns quilómetros da margem Sul do Rio Amarelo, durante a sua existência teve uma série de grandes e graves inundações. Tal le-
vou os governantes da dinastia Ming a construírem um sistema de diques para a proteger, o que teve resultados eficazes. Mas não foi somente a vontade da Natureza que as provocou. Em 1642, encontrando-se há seis meses a cidade cercada por tropas de camponesas revoltados e liderados por Li Zicheng, na esperança de conseguir afastar os sitiantes, o governador Ming de Kaifeng ordenou a destruição das secções dos diques que a resguardavam das cheias do Rio Amarelo. Como resultado, as tumultuosas águas rapidamente avançaram sobre a cidade e perto de um quarto dos 380 mil habitantes morreram. A cidade ficou abandonada e só passados vinte anos foi mandada reconstruir pelo Imperador Kangxi. O Rio Amarelo continuou a ser o grande problema de Kaifeng. Em 1849, a cidade, que fora capital da dinastia Song do Norte, ficou enterrada aproximadamente dez metros. Devido a isso, não existem altas construções pois, há o medo de destruir muitos dos vestígios dessa época. Apenas dois ou três edifícios públicos, como bancos e hospital, sobressaem do casario térreo. Após voltar a passear pela Rua das Livrarias, onde muitos edifícios da dinastia Qing existem e continuam a ser preservados, alguns ainda em madeira com paredes muito ornamentadas e onde se encontram lojas de antiguidades e umas tantas livrarias, deixo o interior da parte muralhada da cidade e sigo para Sudeste, à procura do pagode Po. Perguntando a sua localização, estranho em encontrar muitos habitantes que, apesar de não saberem falar inglês, sabem-no ler; e não são só jovens! Como a cidade foi constantemente destruída pelas inúmeras inundações, raros são os monumentos que sobreviveram, sendo o Pagode Po talvez o único que resta da antiga cidade. O nome do pagode vinha do apelido Po, que muita gente por aqui tinha e encontrava-se este inserido no templo Tianqing. Construído o pagode em 977, no período da dinastia Song do Norte, com uma forma octogonal teve nove andares e a altura de 73 metros. Mas o que venho encontrar é algo muito diferente. O pagode Fan, como aparece referenciado, colapsou no início da dinastia Yuan, talvez devido a mãos humanas. Está reduzido a três andares, encimado por um terraço com um pequeno pináculo, tendo as suas paredes completamente revestidas com tijolos e cada um dos quase nove mil, com uma diferente imagem budista em baixo-relevo. Daí sigo para a estação de comboio, que se encontra próximo.
16
h
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Meios tempos. Meios-tons e cinza no intervalo. A combinação perfeita. Porque amarelo é a cor que as crianças usam para pintar o sol. Elas lá sabem. Que da luz branca, completa, do sol, composta de todas as outras, não poderia resultar o neutro do branco puro. Branca é a luz do sol na teoria da cor. Branco é a cor que não é. Como o negro. Amarelo é o aproximado colorir do sol. Pura emoção, a da luz. A cor que seria a mais bela se não amasse as outras duas também. A do sol, a da luz. Real ou não. Que vive no azul do céu mesmo quando cinzento. Tão distantes, tão distantes entre si também, mas são irremediavelmente parte da etérea construção do mundo. Do visível e do invisível. E não há rigor possível na expressão. Com quanto mais perfecionismo o perseguir, mais se acentuam múltiplas as camadas de sentido. Não há rigor absoluto. Burilar uma frase até à exaustão e entender depois que pode ser lida de través. Como um sorriso de deslumbre pode ser confundido com troça, ironia, ou desdém, uma frase no plural pode ser lida como desabafo do próprio ou partilha de um crime de pensar ou sentir. De um crime ou de uma paixão. Se é que não podem ser uma mesma face de duas moedas. Depois há a qualidade, o som, o timbre, o colorido, com que se diz o que se diz. Querer encontrar, como uma tradução em tons aveludados e suaves, um tom particular para falar dessa imensa solidão que é ter a alma cheia de palavras, que nem sequer se quer proferir, senão a sós. Dizer de outra maneira e com outra cor. Queria aplainar cada fragmento de dizer até ao tom quente e dormente que entrasse como uma carícia na alma de quem lê para que lesse com amor. Se de amor se tratasse. Porque ler também deveria ser feito do mesmo ramo de cheiros, sabores e sentimentos com que se escreve. Senão para quê…uma e outra coisa. Quando o que se quer por vezes, é transmitir sem chegar a lado nenhum ou a ninguém. E tudo parecer contraditório, quando só o desconforto não o é. O desconforto de abrir a alma às palavras traiçoeiras. Ou, de outro modo, gostar de estender um tule de sensações, um perfume, um gesto, e ansiar que quem o colhe, sinta no rosto ao de leve uma onda cálida da ternura que só pode ser de uns, não de outros. Mas ninguém saber. E ser universal a possibilidade de amansar almas em turbulência de igual sinal. Que as há, e muitas. Mas somos tão selectivos que não é isso só e sempre o que queremos. Para cada um, uma camada diferente. Para musgo, tule e veludo, quanto da faca, a lâmina e o gume. Quanto de canela para o ácido do limão. Como a delicadeza. Nem sequer é das palavras mais belas, melhor do que o adjectivo, sim. Mas por oposição à vocação vulcânica e viciante que é a torrente da expressão. Por vezes uma lava que incinera sem retorno. Compulsiva. A estilizada, calma, controlada e codificada arte da conversação ou do chá. Perdidas para sempre. Um refúgio intemporal das agruras intempestivas de ser rigoroso na expressão do sentir e sem medida, por vezes dizer o que não deveria caber nas margens de subjectividade do texto. Às vezes vasculhar penosamente esta língua à procura das palavras mais doces, mais perfumadas, mais macias ou embala-
doras. E a luz não é macia senão ao entardecer. Ou à aurora. De resto é penetrante. Inquietante. Delicadeza. O que é a delicadeza num território de inseguranças e de idiossincrasias. Um porto seguro para dois. Quaisquer dois. Um conjunto de indicações. De regras que suavizam o caminhar como sapatos de bom corte. A uns e a outros. Será o tempo? Será o vento que afasta de uma delicada expressão de existência mutuamente observada, para o não tempo de inúmeras questões a que dar tempo… O que é a delicadeza senão menorizar o não querer emoções que seriam demais. O que é a falta dela é mais fácil de dizer e mais conhecido. É só o desleixo existencial ou o ego numa espécie de terapia de choque. Só falta de jeito, só deixar cair como se nada fosse. Isto num mundo de demasiada comunicação. Demasiadas vozes, metade delas por motivos insólitos silenciadas sem resposta. Ignoradas. Sabe-se lá porquê. Somos assim cada vez mais. Por vezes sem querer. Por vezes sem termos de comunicação. Por isso o território do excesso a querer derrama-se como uma higiene diária da alma. Mas, sinto por vezes, uma enorme agonia de toda esta necessidade de expressão. Deste afogamento em pensamentos repetitivos, sempre em formas ligeiramente diferentes, insistentes, embaraçosos, impúdicos até. Que se sucedem em camadas de tonalidades que vão variando na definição dos mesmos padrões. anabela canas
V
ermelho. Por alguma razão se lhe chama encarnado. Cor visceral. Turbulenta, apaixonada com violência bélica. Falar um pouco do prazer. Do prazer daquilo a que chamaria o registo. Como de um sismógrafo, o das sensações. Do prazer da cor. Puras sensações de prazer ilusório. A percepção é pouco fútil. Por muito que se desenvolva a capacidade de concentração, é atraída pelo que é dinâmico. O movimento atrai mais do que o prazer que uma forma estática. O ruído impõe-se à apreciação subtil do silêncio. Pedra, tesoura, papel. A cor. A cor é pura sensação, não tem forma, não tem volume, não representa nada em si que não a si própria, mas ela ilude, também ela, a nossa percepção pulsando ou retraindo-se, parecendo expansiva ou reentrante. Faz-se maior ou menor, que o puramente determinável. A exaltação. O corrupio do sangue a acelerar. O prazer da cor, das cores puras, saturadas e vibrantes. Quando muitas, são demais. Anulam-se. Mas em certos dias, a minha alma pede que todas sejam diluídas no branco. Amortecidas e suavizadas. Como as palavras. Escolher as palavras. Vasculhar no baú à procura daquelas…as palavras são tão importantes. No que dizem e no que não dizem. No que dizem sem dizer, e no que não dizem parecendo fazê-lo. No que dizem sem querer. Sem querer não dizer. Mas sobretudo no tom na cor, na qualidade do brilho. As pesadas e as leves. As que se enrolam na língua e tropeçam, e as que arrastam uma sensação tépida. Arredondadas, macias, aveludadas e suaves. A premência da expressão, é um inferno cansativo. Sinal de falta de habilidade para o diálogo com a existência, de necessidade de tempo, de reflexão. Sinal de caos e desassossego interior aos olhos ao sorriso e às mãos, dia após dia, reprimidos. A pulsão da morte, o desespero de finitude, o isolamento inerente à entidade do ser em si, o excesso de sentir, o deslumbre do ver, o êxtase do admirar, a dor de ser ferido, a solidão do amor, dia após dia. Haverá por ventura ego ou nem sempre, como certeza de relevância, no amor à escrita, à arte. Simplesmente solidão. Veloz e inultrapassável. Essencial. Demencial. Sem alvo definido. Sem reparação. Sem remédio. Não há restauro possível ao facto de sermos sós, cada um em si. Nos seus mistérios. Nas suas preces e nas suas loucuras. É cansativo entrar e sair permanentemente de uma concha. E mesmo esta é, como um búzio, amplificadora de sons. Ensurdecedores por vezes, mas confusos. Mesmo os silêncios com uma dominante contínua de um timbre particular. E depois o amor. Claro, o amor é um lugar de não solidão. O amor claro. O próprio privilégio de amar claramente alguém. Mesmo em segredo. Enche e acompanha a alma. A parte possível. Mesmo sem posse nem espera. Um paradigma. É eventualmente um sentir delicado como a luz da madrugada, com os seus altos e baixos sensitivos. Como uma luz de fim de tarde, momento de passagem e como tal angustiante, mas por um ínfimo intervalo de minutos serena e confortável. De uma beleza maior do que a da tórrida luz do meio-dia, impossível de olhar de frente. Que cega. Como a luz desse mesmo meio-dia, coada de uma folhagem leve, intermitências de calor e alívio, de brilho
artes, letras e ideias 17
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
de tudo e de nada
Saltos no vazio sem rede. Escritos e pensamentos secretos de um enorme rigor momentâneo e que me aterrorizam mesmo no seu recato privado. E é então que tenho enormes reservas de silêncio exterior. Aparente, só. Solitário silêncio que não se redime das enormes quantidades de palavras que continuam a fluir por detrás dele. E a desarrumar-se sempre nos eternos papéis e pastas em word. A precisar de arrumação para sempre. E para sempre a precisar de arrumação, porque se desmultiplicam sem piedade. E no dia em que eu tiver tempo para todas essas palavras, talvez já não lhes entenda e sinta o tom. Por demais inúteis. Como tudo o que é demais. E em ciclos regulares aquela disposição a tender para a paragem, o abrandamento, o retomar tudo num tom mais suave, mais delicado. Surdos rumores a substituir avalanches emotivas. O prazer de nada ser preciso explicar, o culto do indolor. Da ordem. Do vazio. Da ordem do vazio. Do atenuar sentidos trágicos com uma camada leve de meios-tons. Tons degradados com o branco. Suavizados e quase indiferenciados. Calmos, apaziguados. Por oposição ao tumulto de demasiadas camadas de realidade, demasiadas vidas a viver todos os dias, demasiadas dependências da alma a visitar e a arejar, a necessitar de expressão. E o constatar que, na realidade nada de essencial se altera por magia da comunicação. Deste paradigma de clarificação da alma. Se esta é clara nada mais há a fazer do que
viver. Por oposição a dizer. Talvez seja também isto que me situa em alguma da tristeza. A exaustão. O desalento de tudo parecer uma batalha sem quartel. A melancolia é um refúgio bom. No vermelho o fogo de uns dias, cinzas os outros. Gosto das plantas lentas. Como a orquídea. Leva anos até sentir-se em casa. Custa anos a desenvolver-se. Morre muito devagar. As flores, quando começam a insinuar-se, são meses de crescimento lento. Um dia de súbito, abrem no seu esplendor inacreditável a partir de um pequeno botão. E ficam ali por largas semanas, inalteradas na cor na textura no porte. Belas, estruturadas e rigorosas como o são muitas flores. Mas mais lentas. Entes não significantes. E o culto do chá. A estilização, o ritual, a delicadeza e o protocolo. Ou um outro culto, do estar, do permanecer do conversar fluido, sério. Do revelar. Do parar, do pensar como dizer. A arte do chá como a perdida arte da conversação. A codificação dos gestos ou a descodificação possível a partir do olhar, do medir, do interpretar escolas e mestres. Wenceslau de Moraes abordou pela tonalidade poética, a frescura lírica das coisas relacionadas com o chá no yo. Outras formas de tomar chá. Menos codificadas. À partida não codificadas. Menos significantes também. Mas esta, ainda por ora parece saída do tempo. Fora do tempo. Protegida em pavilhões edílicos, em recantos de jardim. Gosto de pensar na cerimónia estilizada do chá. O rigor até hoje no Japão. Os princípios da harmonia (wa), do respeito (kei), da pureza (Sei), e da tranquilidade (Jyaku). Os quatro princípios que estruturam o ritual. O caminho do chá, como é designada a cerimónia, e dos vários nomes, aquele de que mais gosto, ou encontro para o chá, ou ainda, quando mais formal e longo o encontro, assuntos do chá. Dominados todos por uma enorme simplicidade, depuração e elegância de gestos. Medidos, aprendidos, perfeitos, apurados até ao limite. As formas mais sofisticadas do ritual podem durar quatro horas, e envolver muitos gestos, muitos utensílios, muitas regras. Como tudo o que é complexo susceptível do erro. Mesmo o chá, não pode dizer-se existencialmente de uma temperatura ideal. Idealizada. Na cerimónia do chá, no entanto, esse é um dos parâmetros codificados. Parte de um ideal a cumprir para regozijo de convivas perfeccionistas. Uma cerimónia em que se busca a harmonia e a serenidade. Gosto de pensar numa síntese das fórmulas básicas deste cerimonial. Na beleza construída para tal e que o enquadra. A natureza em redor, a construção de uma ordem que a envolve também. Uma ordem total. E formas simples. Cores claras. A pureza das taças. Ruídos calculados. Gestos. Fórmulas de delicadeza. E face a este cenário de perfeição todo um outro quadro de emoções em permanente desajuste e reajuste, parece excessivo. E a violência crua da expressão. Como se fôssemos monstros que na intermitência dos dias levantam narinas fumegantes, fitam o olhar ígneo em redor, fincam garras num lado qualquer da vida e aí mesmo a incineram. E pensando bem, inútil. Ilusória sensação de comunicar e assim aproximar algo ou alguém a uma solidão indelével, pela magia da lingua-
Anabela Canas
gem. Sem se saber de que serve ser-se transparente. Aparentemente mais reconhecível. Mais claro. E por vezes, sem se querer, o tal monstro terrível por ser enorme e enorme por ser terrível. E mais nada. Mesmo aquém de um universo tão idealizado, a delicadeza é um conjunto de regras que atenua a dor. Que reserva e defende sem aproximação demasiada. Que não impõe. Que não oprime. Que no fundo deveria seguir os mesmos princípios definidos para o chá. Mas gosto de pensar em rotinas ainda mais depuradas e idealizadas. Com mais silêncio e mais solidão. A harmonia da solidão e dos gestos simples longe do olhar. Esta minha vida de partir todos os dias como um caixeiro-viajante com pedaços da vida na mala. Quando o que queria era estar aqui. Ficar por uns tempos num só lugar e numa só vida. Descer numa estação e ficar por uns tempos. E depois não ter nada para dizer. Como se fosse da inevitável imperfeição que se desenrolasse o discurso possível. O relato imparável. Tremendo engano. A solidão, aquela essencial, não passa de um comboio diário de que só nos apeamos pontualmente. Há uma reserva que todos os dias circula nele sem apelo. Talvez a mesma que faz extravasar emoções, incontidas tentativas de chegar a outros e de os trazer a nós. Excesso de vulnerabilidade, instabilidade, construção e destruição de modelos…Um colorido saturado, intenso e corrosivo. Ilusão de encontro. Cumes e baixios a percorrer alternadamente. Uma viagem imparável. Parar. Planear voltar a um lugar. O mesmo. A única diferença o tempo. Agora. E a quantidade de tempo. Temer que a meio algo se esvazie. Para além de uma mala cheia de vida para arrumar e cadernos a repensar. O mesmo lugar, o mesmo hotel a mesma varanda. E tempo. E ausência, e fim, e silêncio. Mas só uma paragem, um intervalo, aquele entretanto, entre dois tempos. Chegada a Saigão. O cansaço, a humidade, o sono subliminar e frustrado de muitas horas. O suor, o peso das malas. O choque do ar em fogo nos pulmões. A expectativa do reencontro com a saudade da viagem e de Saigão. Tudo envolvido numa toada de desconforto máximo. Por agora. O olhar fixo num ponto e num momento. Aquele preciso quarto de hotel. Aquele rigoroso momento depois de tudo entretanto, e do banho de todas as sensações dominantes por agora. E do banho que as lava e leva para o fundo do esquecimento. O momento de chegar à janela depois, fresca, apaziguada, perfumada no ar quente e sempre húmido, envolto em cheiros demasiado pesados, os tons lamacentos do rio, a sujidade. Momento perfeito de chegar à janela com uma chávena de chá. Recuar de novo para o cadeirão de rota por detrás do sombreado da persiana de vime. Sombreado com riscas muito juntas e que cobre de tons mais neutros ainda todo o exterior visível. E ouvir o bracejar lento e ineficaz da ventoinha no tecto. E sentir voltar a humidade na pele, de novo o calor imenso sem tréguas. Mas novo. Todas as outras sensações diluídas no banho demorado. Voltar ao momento da partida e chegar, enfim. Finalmente estar. Ali.
18
h
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Júlio Amoriom de Carvalho
Missiva Parisiense
Uma referência para o Ocidente: Vladimir Putin
P
aris, 3 de Dezembro, 11h30m. Acabo de assistir à transmissão, em directo, do discurso pronunciado por Vladimir Putin perante a assembleia parlamentar russa, reunião das duas câmaras legislativas. Não foi sem emoção que vi e ouvi e - através de tradução simultânea para francês - compreendi o Presidente da federação russa. Não posso, evidentemente, nesta rápida nota redigida alguns minutos depois de concluída a comunicação presidencial, analisar todos os temas tratados por Putrin que, contra a minha expectativa, insistiu sobretudo na política interna. Putin não deixou, no entanto - logo no início do discurso, - de claramente acusar a Turquia de se comportar como aliada da organização terrorista que se instalou no Médio Oriente, fornecendo- -lhe, esse país, apoio logístico e humano, facultando armamento e fazendo beneficiar aquela organização das enormes vantagens financeiras resultantes do negócio ilícito do petróleo sírio e iraquiano que o Estado turco compra aos terroristas - admitindo-se (acrescento eu) que esse país o revenda parcialmente a comparsas seus. Claro que o presidente Putin, ao evocar o «caos» criado no Médio Oriente, apontava, implicitamente, a criminosa responsabilidade dos países ocidentais (da União Europeia, da N.A.T.O., os Estados Unidos) na instalação, naquela região da Ásia, duma situação de terrorismo perfeitamente organizado, na medida em que esses países foram premeditadamente destruindo regimes de ordem (Iraque, Síria, e em espaços cultural e geograficamente próximos, Líbia e, indirectamente, Tunísia), e foram favorecendo sem vergonha as facções terroristas que nestes e a partir destes territórios passaram a agir impunemente. Mas o discurso de Vladimir Putin incidiu fundamentalmente sobre assuntos interiores: luta contra a corrupção, humanização da justiça, aumento demográfico e da esperança de vida, sistema de saúde (que mereceu vivos aplausos), apoio à primeira infância, educação em geral, formação científica e técnica das novas gerações, etc., etc. Sem esquecer as forças armadas - sobre as quais qualquer comentário laudatório é perfeitamente supérfluo, dada sua competência, eficácia e a tecnologia ultra-
-moderna que utiliza (o que tem ficado demonstrado em diversas situações), - o Presidente não se limitou a descrever o resultado do trabalho realizado sob a sua égide, os sucessos conseguidos em todos os domínios da política interna (citarei apenas a referência que ele fez à melhoria do sistema de saúde, ao aumento da esperança de vida que se avalia já em 71 um anos, às confortadoras perspectivas demográficas resultantes
tar da Rússia; e lembrou as imensas possibilidades oferecidas à exportação, nesse sector da economia nacional. Evocou a eventualidade da revisão do estatuto da propriedade para as terras que, tendo vocação rural, se encontrassem inexploradas - revisão essa que teria o objectivo de permitir que novos proprietários as valorizassem. E frisou que a Rússia poderá e deverá orientar-se para uma produção agrícola sã que - sublinhou,
da natalidade russa): Putin transmitiu às assembleias, nessa ocasião reunidas, e ao primeiro ministro Dmitri Medvedev, que estava presente, as orientações que umas e o outro deverão estudar, ou aplicar de imediato, na prossecução da política por ele inspirada, - não hesitando o presidente em, nalguns casos, estabelecer datas e pedir resultados concretos para breve prazo. O chefe do Estado, dirigiu-se, nesse sentido, e com as mesmas exigências, às administrações regionais da Federação, no que fosse, bem entendido, da competência destas últimas. Além dos temas de política interna já referidos, eu quero evocar dois outros sectores da acção governativa que me interessaram particularmente. Primeiramente, a agricultura. Como proprietário florestal que sou, numa região onde a política rural é um zero absoluto, não podia ficar insensível às considerações expressas pelo dirigente russo. Putin afirmou a actual auto-suficiência alimen-
muito pertinentemente, o presidente já desapareceu nos países ocidentais. Quero também chamar a atenção para o facto de Vladimir Putin insistir, mais uma vez, na necessidade de se dar a maior atenção ao Extremo Oriente russo (isto é, àquela extensa zona do continente asiático, aberta à expansão da nossa raça, que prolongando-se de Vladivostok para o norte, para lá do Amur, vai envolvendo o mar de Okhotsk e o fecha a leste pela península de Kamchatka e as Kurilhas). O Presidente notou a necessidade de vigoroso crescimento económico dessa região, particularmente pela modernização das infra-estruturas portuárias e da política alfandegária. A Rússia penetra directamente, por aí, no Pacífico. Que erro, o de 1867, quando o governo russo, com o objectivo de enfraquecer a Inglaterra, cedeu o Alaska aos Estados Unidos! Sem esse imperdoável erro, a nação russa beneficiaria, hoje, de um vasto espaço totalmente livre para o acesso ao grande Oceano.
Esta observação minha, serve de transição para outro aspecto importantíssimo da política russa e para a sua história futura e da Europa: é o Árctico. O Presidente Putin, no seu discurso, não tocou no assunto. E, no contexto actual, com razão. Pela sua primordial importância para a nação (na dupla perspectiva duma sempre mais vigorosa afirmação territorial russa nessa parte do globo e duma extensão projectada do espaço marítimo para a consequente exploração económica e preservação ecológica dessa zona geográfica) - a política do Estado russo no Árctico exigirá dos seus governantes - a meu ver - prudência extrema, e deverá ser estritamente orientada pelo chefe do Estado, dentro daquele critério que, no constitucionalismo francês, se tem denominado «domínio reservado». Tanto mais que a federação russa poderá vir a confrontar-se (também nesse espaço do extremo norte) com a viva impertinência ou até com a agressiva oposição dos Estados Unidos e de alguns dos seus vassalos ou Estados-satélites (como o Canadá, a Dinamarca e a autónoma Groenlândia, e a Noruega) que também afirmam pretensões para as zonas glaciais árticas. Defensor dos valores russos, valores culturais e especificamente religiosos (estes, aliás, bem representados pela presença de hierarcas religiosos na assistência), Vladimir Putin tem constantemente afirmado e afirmou de novo no discurso que acabamos de ouvir, a necessidade de manter a unidade do povo, num Estado forte, numa nação russa autónoma. A Rússia em primeiro lugar - proclamou ele. Já num artigo que intitulei Vladimir Putin o Restaurador, publicado no «Hoje Macau» em 29-5-2014, eu chamara a atenção para o papel desse homem superior que soube arrancar a sua pátria do pântano em que lamentavelmente se afundara - para a restaurar na sua dignidade, colocando-a em primeiro plano na defesa do direito internacional e da civilização europeia. Estadista da mais elevada estatura, restaurador dos valores espirituais e dos melhores valores culturais da sua nação, - há que considerar Vladimir Putin como verdadeiro homem-elite cuja acção e cujo pensamento político devem servir de referência a um eventual renascimento do ocidente europeu.
( F ) utilidades
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
tempo
muito
?
nublado
min
15
max
22
hum
70-90%
•
euro
8.73
baht
0.22
Cineteatro
O que fazer esta semana Hoje Conferência “O Design como variável” Universidade de São José, 18h30 Entrada livre Tertúlia com Jorge Morbey Livraria Portuguesa, 18h30 Entrada livre
yuan
19
1.24
Cinema
Point Break Sala 1
Point break [c]
Filme de: Ericson Core Com: Luke Bracey, Edgar Ramirez, Teresa Palmer 14.30, 16.30, 21.30
Point break [3D][c]
Filme de: Ericson Core Com: Luke Bracey, Edgar Ramirez, Teresa Palmer 19:30
Conferência com Victor Gama (This is My City) Universidade de São José, 18h30 Entrada livre
Sala 2
Keeper of Darkness [c] Falado em Cantonense Legendado em Chinês e Inglês Filme de: Nick Cheung
Amanhã
Com: Nick Cheung, Kuo Tsai Chieh, Louis Chueng, Sisley Choi 14.30, 16.30, 21.30 Sala 3
initiation Love [b]
Falado em japonês Legendado em Chinês e Inglês Filme de: Yukihiko Tsutsumi Com: Shota Matsuda, Atsuko 14:30, 16:30, 21:30
The Crow’s Egg [A]
Falado em Tamil Legendado em Chinês e Inglês Filme de: Manikandam M. Com: Ramesh, Vignesh 19.30
Workshop com Victor Gama (This is My City) Universidade de Macau, 15h00 Entrada livre Palestra “A Arte do Cinema: Teoria e Aplicação” Cinemateca Paixão, 15h00 Entrada livre mas com registo Concerto de Jazz “Winterplay” CCM, 20h00 Bilhetes entre as 150 e as 300 patacas
Aconteceu Hoje
Nasce Manoel de Oliveira
Concerto da banda Air Supply Venetian, 19h45 Bilhetes das 380 a 1080 patacas
Diariamente Exposição Casal Notável – artefactos de Sun Wan, segunda filha de Sun Yat Sen Museu de Macau Entrada livre Exposição “A Jornada de Um Mestre” Albergue SCM Entrada livre Exposição “Aguadas da Cidade Proibida” (até 07/2016) Museu de Arte de Macau (MAM) Entrada a cinco patacas Exposição “Salpicos” de Sofia Bobone Fundação Oriente, Casa Garden Entrada livre
11 de dezembro
U m l i v r o h o j e “The World According to Anna” (Jostein Gaarder, 2015) Anna tem 15 anos e não parece igual às outras adolescentes. A menina começa a receber mensagens de outro mundo na sua cabeça e os pais, preocupados, levam-na ao médico. Aqui não encontram nada de errado, sendo que até ele crê que o que Anna vê podem ser previsões que vão, de facto, tornar-se realidade. A menina está assombrada por visões de 2082 e, quanto mais vê, mais percebe que tem de impedir que as suas visões se tornem reais no futuro. Mas o que poderá ela fazer? Um livro de um autor norueguês que escreve de forma assombrosa mas emocionante e tem em conta a poluição e a forma de vida dos humanos no nosso planeta. Flora Fong
• A 11 de Dezembro de 1908, nasce o cineasta português Manoel de Oliveira. De nome Manoel Cândido Pinto de Oliveira, nasceu no Porto e era, à data da sua morte, o mais velho realizador do mundo em actividade e o mais velho de sempre com a mais longa carreira da história do cinema, com uns notáveis 88 anos ao seu serviço. É autor de trinta e duas longas-metragens. Frequentou um colégio de jesuítas. Admite ter sido sempre mau aluno. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto à vara e atleta do Sport Club do Porto, um clube de elite. Seguiu-se o automobilismo e a vida boémia no Café Diana, na Póvoa de Varzim, com os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, Luís Amaro de Oliveira, João Marques e outros. Cedo se interessou pelo cinema, o que o levaria a frequentar a escola do cineasta italiano Rino Lupo, quando este se radicou no Porto. Foi o único que assistiu à passagem do mudo ao sonoro e do preto e branco à cor no cinema. Tem a ideia de rodar uma curta-metragem sobre a faina no Rio Douro, o seu primeiro filme. “Douro, Faina Fluvial” (1931), estreado em Lisboa, suscita a admiração da crítica estrangeira e o desagrado da nacional. Seria o primeiro documentário de muitos que abordariam, de um ponto de vista etnográfico, o tema da vida marítima da costa de Portugal. Mantendo o gosto pela representação, participa como actor no segundo filme sonoro português, “A Canção de Lisboa” (1933), de Cottinelli Telmo. Diria mais tarde não se identificar com aquele estilo de cinema popular. Em 1942 aventura-se na ficção com a adaptação ao cinema do conto “Os Meninos Milionários”, de João Rodrigues de Freitas e filma “Aniki-Bobó” (1942), retrato de infância no ambiente cru e pobre da Ribeira do Porto. O filme é um fracasso comercial mas, com o tempo, dará que falar. Em 1982 Manoel de Oliveira faz um documentário auto-biográfico de confissões e memórias. O cenário é a casa onde viveu desde 1940. O filme só será exibido depois da sua morte. Insiste em dizer que só faz filmes pelo gozo de os fazer, indiferente às críticas mais negativas. Levou entretanto uma vida retirada, longe das luzes da ribalta. Morreu de paragem cardíaca em Abril deste ano.
fonte da inveja
Hoje o coração parou quando um abismo se sentou à nossa frente.
João Corvo
20
opinião
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
O colóquio
N
o fim-de-semana passado tive o prazer de participar no III Colóquio Sobre a Identidade Macaense organizado pela Associação dos Macaenses (ADM). Ao contrário do que muitos poderão pensar – sobretudo os ilustres que reagem logo com um “Epá, que seca! Outra vez essa treta da identidade macaense?..” – o evento foi bastante estimulante e foram colocadas questões pertinentes. Uma conterrânea nossa que esteve presente perguntou-me se ia falar do colóquio aqui na minha coluna. Respondi-lhe prontamente que “apenas se o colóquio correr mal, para poder má-linguã!” pois, caso contrário, para quê elogiar a iniciativa de quem trabalha em regime de voluntariado e sacrifica o seu tempo livre para preparar eventos que dão bastante trabalho organizar? (Caríssimo leitor, estou a ser irónico). Miguel de Senna Fernandes, na qualidade de moderador, fez lembrar por diversas vezes à assistência de que estávamos num debate para partir pedra e confrontar ideias sem cerimónias. Ora, numa interpretação mais directa da minha parte, estávamos ali “prá porrada”. Mas no fim não houve muita, pois da assistência, que interveio bastante, foram mais as questões lançadas do que as respostas dadas. Faço aqui um pequeno registo do que me pareceu mais interessante, aproveitando também para apresentar as minhas próprias observações. O inquérito Muitos foram os elogios dirigidos ao José Basto da Silva que apresentou os resultados do inquérito, da sua iniciativa, que foi lançado on-line. Foram mais de 500 os inquiridos e temos aqui uma ferramenta de trabalho muito útil. Trata-se de bom material para analisar a textura da comunidade macaense à luz de diversos critérios, permitindo aos interessados lançar estudos com base em dados estatísticos concretos. Portanto, podemos abandonar o “acho que”, “penso que”, “sinto que” e citar concretamente “de acordo com as respostas obtidas no inquérito do Bosco-chai”. E, já que estamos nisso, do inquérito conclui-se que os macaenses da faixa etária mais avançada falam mais português que chinês e são pessimistas em relação ao futuro da comunidade. E agora acrescento: porque cristalizam definições, são incapazes de aceitar uma realidade em constante mutação, estamos em 2015 e ainda não aceitaram a transferência de soberania e são campeões na invocação do artigo 9º da Lei Básica. (Este último a propósito da pequena tempestade no Facebook resultante de um chonto di gente que se sentiu incomodada porque o inquérito foi inicialmente lança-
do em inglês, em detrimento da língua de Camões. Haja paciência.) A próxima geração José Luís Pedruco Achiem, um dos oradores, sublinhou a necessidade de manter uma taxa de fertilidade acima dos 2.1% como condição absoluta para que a comunidade sobreviva. Muito bem, mas fazer filhos apenas não basta, certo? A verdadeira questão, obviamente, será como educar os nossos filhos garantindo que a chama da comunidade maquista se mantenha viva. Falou-se em tradições e gastronomia, mas para mim a chave da questão está no domínio das línguas. A língua não é apenas uma ferramenta de comunicação, é um universo cultural. E numa altura em que se assiste ao declínio do uso do português no seio da comunidade, é urgente que os pais macaenses programem a educação dos filhos para que sejam bilingues em pleno. Esqueça-se o inglês, língua que se aprende facilmente em dois tempos, e concentre-se no chinês e no português. E não se venha dizer que esta ou aquela língua foi descartada por causa do sistema de ensino que se decidiu seguir: caríssimo leitor, pode matricular o seu filho no Pui Cheng e falar português com ele em casa, uma coisa não impede a outra. E aqui falo com autoridade porque a minha taxa de fertilidade é de 2.0, aos 3 anos o meu filho já era trilingue e da minha menina de 2 meses não espero outra coisa. Sobre línguas não vou desenvolver mais pois este tema foi por mim abordado em detalhe no artigo “Noite de Natal no Karaoke”. (*) Rethinking the boundary Foi este o tema desenvolvido por Elisabela Larrea, a primeira oradora do colóquio. A nossa amochai apresentou o seu trabalho em inglês – ai os antigonços e os seus intestinos que devem estar a mexer, e de que maneira – e conseguiu transmitir o que para mim faz todo o sentido e sempre defendi: a riqueza do ser maquista reside precisamente na sua diversidade cultural, portanto porquê criar fronteiras redutoras? Tudo muda com o tempo: o mundo mudou, Macau também, portanto os parâmetros de definição da identidade Macaense têm, necessariamente, de mudar e evoluir. A Elisabela não falou do nada: segundo a sua pesquisa, a peça de Patuá “Olá Pisidénte”
sorrindo sempre
João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata, a última vez que vi macau
André Ritchie
(1993) continha 99% de palavras em Patuá e apenas 1% de Cantonense e Português, sendo que a audiência era maioritariamente macaense e portuguesa. Já a recente peça “Qui Pandalhada” (2011) apresentou apenas 61% de palavras em Patuá; e 26%, 10% e 2% em Inglês, Chinês e Português, respectivamente. Quanto à audiência, para além dos macaenses e portugueses, verificou-se o que já sabemos: uma presença significativa de chineses. Aceitar que ambas as peças são manifestação da cultura macaense é também aceitar, por conseguinte, que a definição do conceito de macaense é mutável. Descartemos os complexos: a nossa multiculturalidade deve ser celebrada em pleno. Aquela coisa do “no meu tempo” Foram vários os intervenientes que recordaram o Macau antigo e lamentaram a ausência dos lugares de convívio onde outrora socializavam com a malta, apontando essa situação como uma das ameaças à sobrevivência da comunidade.
“A riqueza do ser maquista reside precisamente na sua diversidade cultural, portanto porquê criar fronteiras redutoras? Tudo muda com o tempo: o mundo mudou, Macau também, portanto os parâmetros de definição da identidade Macaense têm, necessariamente, de mudar e evoluir”
Houve até quem dissesse que para muitos é preferível não estar em Macau “a assistir a essa destruição, sendo se calhar mais fácil estar nos Estados Unidos, ou num outro país qualquer, onde se sentem melhores”. Salvo o devido respeito, não posso concordar com essas afirmações. O discurso do “no meu tempo” arrepia-me. O nosso tempo é o nosso tempo, as coisas mudam de geração em geração. Aos fins-de-semana o meu filho de cinco anos diverte-se nos parques limpos, bem tratados e bem equipados do IACM, ou então nos indoor playgrounds dos novos empreendimentos. E divertimo-nos à brava. Quem sou eu para lhe dizer que no meu tempo as coisas eram melhores? Aliás, escrevo estas linhas depois de um agradável jantar com amigos do meu tempo, estivemos num restaurante formoso de um dos novos casinos, fomos servidos por um chef português nosso amigo. Boa comida, bom ambiente, bom convívio. “No meu tempo” não era necessariamente melhor ou pior, era diferente – e não temos forçosamente que ser pessimistas em relação ao futuro. O passado é bom, mas é morto. Considerações finais Não quero deixar de destacar a positiva participação de intervenientes em língua chinesa. Deu um colorido à coisa e sei que essa era uma das intenções da ADM – por essa razão todo o evento teve tradução simultânea. Aliás, qual o sentido de um colóquio
opinião 21
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Isabel Castro
isabelcorreiadecastro@gmail.com
contramão
Fong & friends
A
para debater a identidade macaense se for apenas entre nós, entre a malta? Se for para isso, mais vale combinarmos uma jantarada entre nós... Os meus parabéns à ADM pela iniciativa. Para o ano há mais, certo?
inda o que aconteceu na sexta-feira passada. Faz hoje oito dias, ficámos todos a perceber com clareza – se dúvidas ainda tivéssemos – de que massa é composta muita da gente que, directa ou indirectamente eleita, com a bênção do Chefe do Executivo ou sem ela, ocupa um lugar na Assembleia Legislativa. Na realidade, o tema vinha de véspera e foi Tsui Wai Kwan, um dos escolhidos de Chui Sai On, que deu o tiro de partida para um dos mais tristes espectáculos a que assisti em mais de dez anos de plenários. Resumindo, para depois concluir: há deputados que estão preocupados com o investimento que o Governo, através da tutela de Alexis Tam, está a fazer na saúde pública, no Centro Hospitalar Conde de São Januário e nos centros de saúde do território. Consideram que a intenção é boa, mas já chega, não é preciso ir mais longe. A razão para este travão político? A concorrência às clínicas privadas e ao Hospital Kiang Wu, essa instituição que dispensa apresentações e que todos nós sabemos como é financiada. Como é hábito naquele edifício ao qual se deu o nome de Assembleia Legislativa, há um deputado particularmente despudorado, conhecido pelos frequentes dislates, de seu nome Fong Chi Keong, que assumiu a defesa da causa: se o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura continuar nesta senda de tentar melhorar o serviço público de saúde, vai acontecer uma catástrofe. (Quem não conhecer o estilo da retórica fonguiana poderá porventura achar que me enganei na redacção da última frase. Não, não me enganei.) Vai daí, o douto tribuno deixou um conselho ao secretário, que “ainda é novo”: há que parar enquanto é tempo, que o Kiang Wu é para ser tratado com amor e carinho. Os deputados defensores do Kiang Wu – Fong Chi Keong é bom a fazer contas e
Há 10 anos atrás, quando trabalhava no Governo, conheci um caso em que um funcionário avançou, sem a devida autorização superior, com a execução de uma obra que implicou despesas do erário público. Quando, já intempestivamente, o funcionário submeteu a papelada para processar a coisa, superiormente foi exarado o seguinte despacho: “Aprovo com efeitos retroactivos e sanciono o técnico responsável pelo sucedido, sendo que o mesmo será tido em consideração aquando da renovação do seu contrato”. Tradução: “a m**** já está feita e vou aprovar a contar da data em que foi feita, mas estou lixado contigo e sou capaz de te pôr na rua.” Volvidos 10 anos, sou confrontado com o seguinte caso: alegando falta de espaço no pavilhão onde costuma organizar as suas Festas de Natal, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (DJCN) decidiu este ano alugar um espaço no exterior: o auditório do IPM. Alugar um espaço no exterior custa dinheiro. E das duas, três: ou (1) o DJCN não sabia, ou (2) sabia e fez mal as contas, ou então (3) sabia, fez bem as contas e apercebeu-se que precisava ainda do carcanhol dos encarregados de educação, mas por mera má gestão ou por motivos que sou incapaz de compreender, decidiu que estes deveriam ser informados apenas no último momento. Pois que com a Festa a realizar-se no dia 12 de Dezembro, o DJCN decide apenas enviar aos encarregados de educação, no dia 8 de Dezembro, um e-mail onde se lê: “(…) todas as despesas inerentes a esta deslocação representam um montante elevado que irá ser suportado pela escola. Ainda assim, torna-se indispensável que os Pais e Encarregados de Educação adquiram os respectivos bilhetes no valor de 75 MOP cada. (…)” Caríssimo leitor, não vou passar fome por ter de arrotar as 75 pataquitas. Mas incomoda-me saber que a DJCN toma decisões dessas sem consultar primeiramente os encarregados de educação, para depois enviar um e-mail assim, em cima do joelho, já com tudo decidido e o facto consumado, obrigando-nos a arrotar as tais 75 pataquitas. E, que eu saiba, em Macau nenhum jardim de infância pede aos pais que paguem para ver a actuação dos seus próprios filhos no Natal. O (a) responsável por essa borrada toda merece, indubitavelmente, um puxão de orelhas semelhante ao daquele despacho escrito. Sorrindo sempre? Não. (*) “Noite de Natal no Karaoke”, edição de 24.07.2015 do jornal Hoje Macau. http://hojemacau.com. mo/2015/07/24/noite-de-natal-no-karaoke/
James Whale, Frankenstein
Sorrindo Sempre
Alexis Tam é uma carta claramente fora do baralho governativo, mas não está só. Noutro registo, com um estilo completamente diferente, o secretário para os Transportes e Obras Públicas protagonizou esta semana mais um momento político nunca visto somou oito, ali todos sentadinhos – explicaram, ao longo de várias e entediantes horas, como é que o Governo, ao estar a melhorar um hospital que é de todos, prejudica o hospital de quem tem dinheiro para pagar contas: há médicos que estão a trocar o Kiang Wu pelo São Januário. Que indecência, que despautério, que grande tolice. E, claro está, se o hospital público um dia destes recupera a confiança da população, as contas mensais do Kiang Wu provavelmente vão ressentir-se. Que vã preocupação. O que tu queres sei eu, disse Alexis Tam a Fong Chi Keong, e disse muito bem, que todos sabemos o que ele quer: esta situação de concorrência desleal gerada pelo único governante que, até à data, veio defender que o São Januário não deve cair de podre, nem deve ser o hospital dos pobres e desvalidos, só pode ser resolvida com mais uns servicinhos encomendados ao Kiang Wu. Como se já não bastasse o dinheiro todo que, anualmente, entra por várias portas no hospital privado. Como se não bastasse. Para Alexis Tam, obviamente basta. Não será à toa que, apesar dos cortes orçamentais
deste ano, o secretário continua a ter dinheiro para investir, para contratar, para fazer. Apesar da oposição, continua, portanto, a ter apoio político para levar o seu projecto avante. Mesmo havendo um Kiang Wu na cidade. Mas a contestação à melhoria do que é público serve de explicação – queiram os deuses e restantes santos que não seja, de novo, premonitória – das dificuldades que se colocam a quem, de uma forma ou de outra, se atreve a tocar em vacas sagradas, mesmo que com jeitinho. Falta de vergonha dos deputados à parte, importa reflectir, para memória futura, na postura de Alexis Tam, que fez questão de encerrar os dois dias de debate com uma mensagem clara e inédita na política local: ele está no Governo para servir a população, não uma minoria da população. E espera que os deputados entendam que assim é e assim vai continuar a ser enquanto lá estiver. Este tipo de mensagem leva-me a pensar que, com o secretário, passa-se uma de duas coisas: sabe bem o que está a fazer, que terreno pisa, e por isso diz o que diz, porque segue um certo alinhamento nacional que não tem, nos dias que correm, o empresariado ganancioso e despudorado em grande conta; ou é simplesmente alguém que quer fazer, que quer cumprir o que promete, que quer ir mais além na vida política e poder continuar a defender o interesse público. Às tantas, são as duas coisas em simultâneo. Fong e amigos, parece que o mundo está a mudar, apesar do lento ritmo local da mudança. Alexis Tam é uma carta claramente fora do baralho governativo, mas não está só. Noutro registo, com um estilo completamente diferente, o secretário para os Transportes e Obras Públicas protagonizou esta semana mais um momento político nunca visto. Depois da ladainha de comentários e perguntas de uma dezena de deputados, Raimundo do Rosário, com a sua forma de responder sem rodeios, pouco ou nada virada para os novelos retóricos em que os deputados se emaranham, explicou que não pode responder a tudo, nem pode fazer tudo. Ficou sem 300 milhões e o que lhe falta em pessoal, em terrenos e em recursos, tem a mais em problemas, limitações e nós para desfazer que, à medida que os anos foram passando, se foram tornando cada vez mais apertados. É refrescante ouvir um governante desta terra não prometer estudos para resolver problemas há muito diagnosticados, mesmo que nos diga aquilo que não queremos ouvir. É refrescante ouvir um governante desta terra dizer que está aqui para me defender, a mim e aos outros todos que fazem parte da maioria que não sabe fazer contas com a quantidade de zeros da máquina de calcular de Fong Chi Keong. Talvez daqui a uns tempos chegue à conclusão de que estas formas de estar não me deram um melhor hospital ou um trânsito menos caótico. Por ora, sabe-me bem ouvir um discurso político de maior elevação.
22 opinião
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
Arnaldo Gonçalves
crepúsculo dos ídolos
Uma derrota, uma vitória Gillo Pontecorvo, La battaglia di Algeri
projectá-las no discurso político. Nacionalismo que ataca a erosão de identidade nacional e dos valores tradicionais que têm origem na língua, nos costumes, da ética social enraizada, na prática religiosa em favor de culturas alienígenas que optam pela não assimilação e resistem à lógica de integração e acomodação. O que coloca o velho problema dos limites da tolerância. O Estado de direito democrático não pode, sob pena de pôr em causa a sua própria sobrevivência, contemporizar com ataques sistemáticos à coesão social dos grupos, comunidades étnicas e concepções de vida e sociedade, que formam as comunidades políticas, na modernidade.
1. A derrota nas recentes eleições legislativas na Venezuela do governo chavista de Nicolàs Maduro e a conquista de uma maioria absoluta no Parlamento pelas forças de oposição ao regime, organizadas à volta do Movimento de Unidade Democrática(MUD) revela que não é inevitável uma alternância bipolar entre o esquerdismo guevarista e o conservadorismo musculado. Uma terceira via, liberal e moderna, faz o seu caminho com Júlio Borges e o MUD, Juan Manuel Santos na Colômbia, Maurício Macri na Argentina e Horácio Cortes no Paraguai. A iniciativa de ‘impeachement’ da presidente Dilma Rousseff do Brasil, já aceite pela Câmara de Deputados, conduzirá à criação de uma Comissão que avaliará as acusações que impendem sobre Dilma. Profundamente desacreditada perante o seu povo pelo desgoverno dos últimos anos, a antiga vice-presidente de Lula da Silva poderá, com alguma probabilidade, ver reduzido o tempo do seu segundo mandato. As forças da oposição creditam ter sido obtido por manipulação eleitoral, golpismo e alargada corrupção federal e a nível dos estados. A ser assim, o Brasil poderá ser o quarto país sul-americano a sair do bloco dos regimes de esquerda que aliam má-governação económica, corrupção generalizada, delapidação de recursos naturais e punição da classe média. O esquerdismo latino-americano agrupa para além da Venezuela e do Brasil o regime castrista de Cuba, o nativismo de Evo Morales na Bolívia, e os regimes autoritários de
Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua. 2. Na Europa, a vitória de Marina Le Pen nas eleições regionais francesas do passado fim-de-semana marcou o fecho de um ciclo de exclusão da direita nacionalista francesa do círculo de poder. Denota a identificação do eleitorado com as propostas da líder da Frente Nacional, quando se aproximam eleições presidenciais. Eleições que Marina Le Pen é uma das favoritas com o presidente da UMP, Nicolas Sarkozy. Rapidamente envilecida pelos órgãos de informação de esquerda e pelas redes sociais, a líder da Frente Nacional expressa o sentir de uma maioria crescente de eleitores que estão profundamente descontentes com o incompetente governo de François Hollande, na gestão da economia, na participação na União Europeia, e na defesa da segurança colectiva perante a ameaça permanente do terrorismo islamita. Em menos de um ano, os franceses foram flagelados por vários atentados e deram-se conta que a ameaça
(consumada) à sua segurança não é externa mas interna. Ela advém de células de jihadistas simpatizantes do chamado Estado Islâmico que têm estado dissimuladas nas comunidades muçulmanas de França. Não se trata, ao invés de uma opinião mil vezes multiplicada, de comunidades marginalizadas e socialmente desfavorecidas mas de elementos da classe média inteiramente integrados nas suas comunidades, dispondo de informação abundante e circulando abertamente, pelos favores de um sistema tolerante, entre Paris e os oásis terroristas no Médio Oriente. Núcleos reforçados por kamikazes que aportaram a França, no meio dos movimentos migratórios que passam pela Grécia e pelos países do Mediterrâneo, aproveitando uma política imprudente de ‘fronteiras abertas’. A vitória de Le Pen não é, contudo, um caso ‘clínico’que agitou as boas consciências dos eleitores franceses mas que passará. É o regresso em força de um nacionalismo europeu, populista, que sabe ler muito bem as premências mais graves dos cidadãos e
“O terrorismo tem prosperado em França por uma lógica de tolerância invertida. É por essa razão que os franceses dão agora a confiança política a Marina Le Pen, já que perceberam que ela poderá forçar a adopção de politicas clarificadores que outros acham desajustadas em nome de uma inclusão sem nexo”
3. Trata-se se puxarmos a discussão a um nível filosófico do debate do paradoxo da tolerância tratada pelo filósofo austríaco Karl Popper em ‘A Sociedade Aberta e os seus Inimigos’. A tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada aos que não são tolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra os assaltos daqueles que são intolerantes então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. Isso significa, sempre citando Popper, que não se deve impedir a expressão de filosofias intolerantes, desde que as possamos contrariar com argumentos racionais e tê-las sob vigilância da opinião pública, a sua supressão será pouco prudente. Mas devemos reivindicar, em nome da tolerância o direito de as suprimir se necessário com o uso da força. Pode bem suceder que não estejam abertas a argumentar connosco com base em argumentos racionais, mas denunciem todos os argumentos. Podem proibir os seus seguidores de ouvir o argumento racional, acusando-o de ser enganoso e ensiná-los a responder com os punhos e as armas. Devemos reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos afirmar que qualquer movimento que pregue a intolerância coloca-se à margem da lei e considerar crime o incitamento à intolerância e a perseguição, da mesma maneira que o fazemos quanto ao homicídio, sequestro e a reabilitação do tráfico de escravos. O endeusamento pela esquerda do valor cardinal da igualdade tem favorecido expressões de extremismo niilista em nome do princípio da diferença, ao procurar fazer que se tenha o terrorismo como um facto socialmente aceitável. Que não é, já que visa a destruição da sociedade que toma como alvo. O terrorismo tem prosperado em França por uma lógica de tolerância invertida. É por essa razão que os franceses dão agora a confiança política a Marina Le Pen, já que perceberam que ela poderá forçar a adopção de politicas clarificadores que outros acham desajustadas em nome de uma inclusão sem nexo.
perfil
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
23
Vanessa dos Santos, empresária na área de importação e distribuição
“Ser macaense é especial”
E
studou Gestão Empresarial, em Londres, com o “sonho desde pequena” de se tornar empresária como o pai. “Sou fã número um do meu pai e sinto-me orgulhosa em poder aprender e trocar umas ideias de negócios com ele”, frisa Vanessa dos Santos ao HM. Graduada com “muito boas notas”, a jovem empresária tinha apenas uma coisa em mente: “voltar para a terra” que a viu nascer e crescer - Macau. “Tenho muito orgulho por ser de Macau, adoro viver aqui e não quero sair. Nunca pensei nisso. Tenho aqui a minha família, o meu namorado, os meus irmãos e somos todos muito unidos. Tenho o meu trabalho. É um orgulho ser de Macau”, partilha com o HM, numa conversa entre brindes e com música natalícia como banda sonora. “Adoro isto, isto que os portugueses tanto gostam, conversar, jantar, conviver”, começa por dizer enquanto olha, um por um, os seus amigos à volta de uma mesa. As diferenças entre a cultura portuguesa e a chinesa são indiscutíveis para Vanessa e quem sabe, como a família da jovem soube, tirar partido disso, consegue garantir uma diversidade cultural “única”.
“Eu adoro a marca portuguesa existente em Macau, adoro a cultura portuguesa e a língua”, diz com um Português perfeito. “Na minha casa não se come só comida chinesa, nada disso. A minha família tem o hábito da tão típica sopa portuguesa, do incrível bacalhau. Esta época [Natal] é levada muito a sério, já não vamos à igreja porque os meus avós já estão velhinhos mas assistimos todos à missa na televisão. Assim como no Ano Novo Chinês vamos ao templo e seguimos todas as tradições. Não é óptimo conseguirmos juntar estas duas culturas?”, argumenta.
Ser macaense
Para a pergunta de um milhão de patacas - o que é ser macaense? -, Vanessa dos Santos permanece num silêncio hesitante. “É difícil, é difícil conseguirmos explicar o que é ser macaense. Há associações a tentar, há pouco tempo foi avançado um inquérito online – que todos nós preenchemos – mas é difícil de explicar”, apontou. “Ser macaense é especial, nós sentimos aqui”, disse, colocando a mão sobre o peito. Sem dúvidas, Vanessa dos Santos acredita que a marca portuguesa e a cultura macaense nunca irão desaparecer do terri-
tório. “Eu sei que agora Macau pertence à China, mas há muita gente, nós macaenses e não só, a lutar para que a nossa marca – e a portuguesa – não desapareça. Acredito que vamos todos conseguir”, afirmou, fazendo o brilho da esperança inundar a mesa cheia de amigos atentos ao desejo da empresária.
Vinho e futebol
Profissionalmente, Vanessa dos Santos está ligada ao mundo da importação e distribuição de vinhos e produtos alimentares. “Estamos a apostar mais na área dos produtos alimentares porque o sector do vinho, principalmente do português, está um bocado sufocado”, aponta. A receptividade é boa e o desenvolvimento do sector do Jogo, com a construção de mais casinos, permite uma “abertura do mercado” e, por isso, uma possibilidade de aumentar a sua carteira dos clientes. Com ou mais vendas, os negócios estão no sangue da família e a jovem empresária não podia estar mais feliz com o sonho de menina concretizado. “Eu adoro vinho, adoro apreciar um bom vinho e partilhar esse momento com amigos e família”, remata, entre sorrisos. “Adoro vinho e futebol”, acres-
centa. A apostar na carreira de vinhos, Vanessa dos Santos está a preparar-se para o quarto e último nível do curso de WSET em Hong Kong, um curso de vinhos e bebidas espirituais. E, diz, não quer deixar de evoluir como profissional. Desportista desde sempre, a jovem empresária sentiu-se condicionada por não existir abertura para uma equipa de futebol feminina. “Eu sempre gostei de jogar futebol, mas não ia jogar com os homens, até porque eles não têm muita paciência. Falei com algumas equipas e ninguém quis avançar com uma equipa de futebol feminina, os treinadores não pareciam estar muito convencidos. Até que os que menos dinheiro tinham foram o que apresentaram mais disponibilidade e criou-se o Show di Bola”, partilha. Sempre a marcar presença, Vanessa dos Santos leva o desporto muito a sério e estreia-se agora na equipa que representa a Selecção de Macau. “Está a correr muito bem, estou a adorar, espero dar o meu melhor”, termina, rematando a conversa com um brinde à família e aos amigos e, mais que isso, ao seu grande amor: Macau. Filipa Araújo
filipa.araujo@hojemacau.com.mo
Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Joana Freitas; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Filipa Araújo; Flora Fong; Leonor Sá Machado Colaboradores António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; José Simões Morais; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca Colunistas António Conceição Júnior; Arnaldo Gonçalves; André Ritchie; Aurelio Porfiri; David Chan; Fernando Eloy; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos; Thomas Lim Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau. com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo
hoje macau sexta-feira 11.12.2015
GP Internacional de Karting começou ontem
Motores já rugem em Coloane D esde ontem que os motores se ouvem com mais intensidade no Kartódromo de Coloane. Quinta-feira foi dia dos primeiros treinos-livres, antes das mangas de qualificação previstas para amanhã, sendo que as corridas irão animar o fim-de-semana. O regresso do Grande Prémio Internacional de Kart de Macau tem como cabeça de cartaz o Campeonato CIK FIA Ásia-Pacífico KZ. A prova tutelada pela Comissão Internacional de Kart da Federação Internacional de Automobilismo (CIK-FIA) contará com pilotos de quatro diferentes continentes e conseguiu reunir vinte e dois participantes. Contudo, esta prova só foi possível graças aos apoios colocados à disposição dos pilotos internacionais pela organização da prova a cabo da Associação Geral pub
como cinco quartos na Pousada Marina Infante e ajuda no transporte local do equipamento. A prova deste ano junta pilotos de várias idades, dos 16 anos até acima dos trinta, alguns com vasta experiência na condução de karts de 125cc de cilindrada com caixa de velocidade, outros estreantes.
Domínio italiano
Automóvel de Macau-China (AAMC). “As equipas que mostraram interesse no Campeonato Ásia-Pacífico em Macau não foram todas capazes de garantir um nú-
mero suficiente de pilotos quando chegou a altura de partirem de casa. A Associação Geral Automóvel de Macau-China fez todos os esforços para cobrir uma parte significativa dos
custos, principalmente a acomodação”, explicou a CIK-FIA em comunicado. O AAMC atribuiu um subsídio de três mil dólares norte-americanos aos participantes na prova, assim
Destaque para a presença dos italianos Lorenzo Camplese, que começou o fim-de-semana com o pé-direito ao dominar as três sessões de treinos-livres de ontem, e Francesco Celenta, profissionais das corridas de karting e que apostam no conjunto Parolin-TM Racing (chassis-motor) para vencer a prova rainha do karting asiático. O holandês Marijn Kremers (Ricciardo Kart-Parilla) e o jovem francês Hubert Petit (TB Kart-Modena Engines)
são outros dos favoritos que representam o “velho continente”. A Austrália tem em Macau um contingente de dez concorrentes, o maior entre os países participantes, liderado por Joshua Fife (CRG-TM Racing), Cody Gillis (CRGSPA-Maxter), Zane Morse (CRG-Maxter) e Jonathan Mangos (CRG-TM Racing). João Afonso (Gillard-TM Racing) representará novamente a RAEM na prova, tendo ontem sido 16º, 17º e 19º nas três sessões de treinos. Para além da prova rainha, quem se deslocar estes dias a Coloane poderá ver também em acção os participantes do Campeonato Open de Karting Asiático, Formula 125 Open Sénior, Júnior e Veteranos; Rotax Max Júnior e Sénior; Mini Rok; Rok Sénior; Fórmula Cadetes; Taça AAMC (X30 Sénior e Veteranos) e Taça Macau KZ. A prova principal está marcada para as 15h00 de domingo e a entrada no Kartódromo é livre. Sérgio Fonseca
info@hojemacau.com.mo