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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nº 2322. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

h príncipe perfeito As derivações do

Kronos Quartet

&

A mitologia de sua excelência

o corvo


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Príncipe Perfeito Ao segundo imperador da dinastia Qing coube uma tarefa digna de um titã. Em primeiro lugar, teve de afastar na sua juventude conselheiros demasiado ambiciosos. Depois viu-se a braços com a unificação de um império onde focos de resistência Ming proliferavam. Seguidamente, talvez a título pessoal, fazer esquecer que se tratava de um estrangeiro, de um manchú, mas que tal facto não o impedia de apreciar a cultura Han e de nela encontrar os seus próprios fudamentos. Kangxi acarinhava para si mesmo o modelo dos míticos imperadores Yao e Shun, bem como o dos menos míticos Wen e Wu, fundadores da dinastia Zhou. A governação ideal era claramente um dos seus objectivos, tendo que para isso juntar a via da sabedoria à via da governação. Durante o seu reinado, iniciaram-se movimentos literários e filosóficos, sobretudo através da recuperação dos clássicos, cujo eco na história culural da China é, no mínimo, incontornável. Quando chegou ao trono, o jovem imperador deparou-se com a presença de estrangeiros na sua corte e um pouco por toda a China. Inteligentemente, não os hostilizou. Pelo contrário, exibindo um notável pragmatismo, procrou extrair de cada um deles os conhecimentos e as técnicas que poderiam servir ao seu país. O jesuíta português Tomás Pereira pôde desenvolver, sob a sua patronagem, um trabalho gigantesco de transcrição para a notação ocidental de milhares de canções e músicas chinesas clássicas, o que possibilitou a sua sobrevivência. Há quem diga que ele poderia ter sido o Constantino chinês, se o Cardeal Tournon o não tivesse exasperado com a sua intransigência. Mas quem ler os seus escritos com certeza concluirá que o imperador estava longe de crer em qualquer religião, mantendo, isso sim, um profundo respeito pelos cultos confucianos aos antepessados. Na base da sua governação, encontram-se as ideias do filósofo confuciano dos Song, Zhu Xi. Soa, pois, muito interessante que um imperador manchú adopte quase por completo o saber dos chineses e dele faça a estrutura sobre o qual assentou o seu reinado, fazendo também da sua aceitação pelos letrados chineses uma quase obsessão. Kanxi quis ser o príncipe perfeito e deve ter estado perto de o conseguir. Sessenta anos de próspero reinado e uma descendência criativa (Yonzhen e Qianlong) bem o atestam. Existe um episódio que liga Kangxi a Macau. Quando, já farto das incursões do general Coxinga, sediado em Taiwan, mandou encerrar todos os portos por toda a costa chinesa. Todos os portos, mesmo todos? Não... no seu édito foi aberta uma excepção para o porto de Macau, onde se encontravam instalados uns estrangeiros.

P.2 a P.7 textos de Carlos Morais José

Kangxi o imperador e a Primeira Globalização H

oje vivemos a era da Segunda Globalização, quando as tecnologias da comunicação como o telefone, o fax e a Internet tornam possível um contacto instântaneo entre praticamente todos os pontos do globo terrestre. Estamos mais perto uns dos outros, mais facilmente partilhamos emoções, interesses e afinidades. O mundo fala várias línguas, venera diversos deuses, conhece estilos de vida alternativos. Mas a globalização não é apenas fruto da tecnologia recente, inscreve-se na narrativa fascinante do génio humano e das suas descobertas. Foi no século XVII que, pela primeira vez na História do planeta Terra, se consolidou a Primeira Globalização, isto é, o mundo inteiro passava a ser conhecido ou, pelo menos, existiu desde então a possibilidade de estabelecer contacto com todos os cantos do mundo. A Terra revelava-se aos seus habitantes: as viagens provaram que o planeta era redondo e não plano, como durante tanto tempo

se acreditou; a ciência baseada na experiência afastava aos poucos a superstição. E, pelo simples facto de todos os povos se depararem com a existência de povos diferentes e de trocarem saberes, a humanidade saía de uma longa noite de crescimento isolado. Mercadorias e pessoas atravessavam lentamente os mares mas esse movimento ousado e difícil transportava, pouco a pouco, as ideias, hábitos e comportamentos que modificavam os quotidianos um pouco por toda a parte. Aprendeu-se que o comércio é mais vantajoso que a guerra, que a troca de ensinamentos é mais estimulante que a ignorância. A partir da Primeira Globalização, o mundo entrou num ritmo de crescimento económico, populacional, científico e tecnológico nunca antes alcançado. Nesse tempo, durante sessenta anos (16611722), reinou na China o imperador Kangxi, segundo soberano da dinastia Qing. A sua época incumbiu-lhe a tarefa de ordenar o seu próprio país, debilitado pelas guerras e pela mudança recente de dinastia. Ao mesmo

tempo, a China tinha de enfrentar a nova realidade global - iniciada há um século com as viagens de Zheng He pelo Oceano Índico e a chegada dos primeiros europeus: agora a China enfrentava a Primeira Globalização. O Império do Meio não estava mais sozinho: às suas fronteiras, sobretudo marítimas, chegavam representantes de Estados tributários e outros estrangeiros, trazendo consigo as mercadorias e as ideias que era preciso integrar e fazer funcionar no mundo chinês. Como respondeu o imperador a este e outros problemas que a sua época levantava? Qual o seu relacionamento de um imperador manchú com a cultura Han e os saberes europeus? Quais foram as suas estratégias para enfrentar questões internas e desafios externos? Seria Kangxi um homem diferente dos seus predecessores, um homem à medida deste mundo novo? A resposta foi dada por um homem que muitos consideram um dos melhores imperadores que se sentaram no trono do Dragão.

O Império do Meio não estava mais sozinho: às suas fronteiras, sobretudo marítimas, chegavam representantes de Estados tributários e outros estrangeiros, trazendo consigo as mercadorias e as ideias que era preciso integrar e fazer funcionar no mundo chinês.


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Quem são os manchús e como se organizaram para destronar os ming

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Os guerreiros que vieram do frio “Quase diariamente, levava os meus filhos a praticar tiro ao alvo com a minha guarda pessoal. Dizia-lhes que não perdessem as suas tradições Manchu mesmo em coisas como o vestir, a comida, os utensílios, que não se deixassem tingir demasiado pelos hábitos Chineses como sucedeu com os últimos governantes Jin e Yüan. Dizia-lhes que procurassem os seus prazeres numa vida em espaços abertos, que não se enclausurassem atrás de tabiques e em salas contíguas, como os Chineses consideram adequado”. Kangxi

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uem eram, afinal, esses “estrangeiros” que conquistaram a China no século XVII? Não se tratavam propriamente de ilustres desconhecidos. Contactos entre Manchús e Han existiam, pelo menos, há mais de mil e quinhentos anos. A invasão dos Qing não abria um precedente; pelo contrário, confirmava o receio que os Han sempre mantiveram relativamente às tribos que habitavam o norte do império e que levara no passado à construção da Grande Muralha. Tungus Os Manchús descendem dos Tungus, uma etnia que ocupou a área conhecida por Manchúria, no nordeste da China, pelo menos desde o século III A.C., resultante da fusão de várias tribos locais como os Sushen e os Ilu, bem como de outros povos de origem turca e mongol. Essencialmente, dedicavam-se à caça, à pesca e à recolecção, tendo posteriormente desenvolvido formas primitivas de agricultura e pecuária. Em registos chineses da época são descritos como Tung-ihu (bárbaros de leste). A sua língua pertence a um ramo das línguas Altaicas, da família linguística Uralo-Altaica, e distinguia-se de linguagens vizinhas, por exemplo, pela peculiar distinção entre masculino e feminino através da utilização das vogais ‘a’ e ‘e’, como nas palavras ama ,‘pai’, que se torna eme ‘mãe’. Tal como em chinês, os verbos manchú não distinguem pessoa nem número. Os Ruzhen e a Dinastia Jin No século X, os historiadores chineses referemse a estas tribos como Nuzhi ou Juzhi, uma transliteração do termo nativo Ruzhen. Nesta altura estamos já longe de uma organização puramente tribal e desordenada. Os Ruzhen são senhores de um reino de alguma dimensão e importância. No século XII, mais concretamente em 1115, os Ruzhen afastam do poder os Liao (originariamente Kitan, de onde deriva o nome Cataio), cuja dinastia tinha, pela primeira vez, tornado Pequim (então Yenjing) na capital do império e que se diziam os verdadeiros sucessores da dinastia Tang (618-907). Vindos do norte da Manchúria, os Ruzhen fundam a dinastia Jin que duraria até 1234, quando foram depostos pelos Mongóis. Os Jin caracterizaram-se, numa primeira fase, pela rígida manutenção da sua estrutura social e militar, proibindo o uso da língua, dos nomes, do vestuário e dos costumes Han, pelo menos durante a prática do serviço militar, a que todos os Ruzhen eram obrigados. Neste sentido procuravam manter a sua superioridade militar, já que noutros campos eram claramente inferiores, nomeadamente no que concerne as técnicas agrícolas e a própria arte de governar. A sua sinificação era praticamente inevitável, até porque constituíam um

Reza a lenda que Sunzhi, por amor a uma bela consorte prematuramente falecida, terá entrado para um templo chan (zen), descuidando os assuntos de Estado. Anos mais tarde, o seu filho e sucessor Kangxi terá, debalde, tentado encontrá-lo. grupo minoritário numa região densamente povoada e que até então nunca tinha sido invadida por povos seminómadas. Um longo período de paz logicamente assegurou, em grande parte, a sua absorção pela maioria Han. Antes da invasão mongol, os governantes Jin tinham entrado em franca decadência preferindo os estudos confucianos e a poesia Han da dinastia Tang aos cuidados da arte da governar, para além de verem os seus recursos esgotados por uma guerra interminável com os seus rivais do Sul, os Sung. Por outro lado, Han e Kitan, pouco satisfeitos com o governo dos Jin, aliaram-se aos invasores mongóis, proporcionando-lhes os seus conhecimentos sobre o exército Jin e as características do terreno. Em 1211, os Mongóis lançaram os seus primeiros ataques, liderados pelo próprio Gengis Khan, efectuando pilhagens por onde passavam. Só em 1214 se propuseram conquistar Pequim. No entanto, a cidade encontrava-se extremamente bem fortificada e a paz acabou por ser assinada levando à retirada das tropas atacantes. No ano seguinte, Gengis Khan quebrou o armistício e acabou mesmo por conquistar a capital. O último imperador Jin viria a suicidar-se em 1234, quando o seu império já não existia e se encontrava cercado no Hunan. Os Ruzhen, na sua grande maioria, retiraramse para as suas terras de origem, no norte da Manchúria. Os Qing Os Mongóis acabariam por conquistar toda a China, em 1280, incluindo a Manchúria, que transformaram numa província a que deram o nome de Liaoyang, e estabeleceram a dinastia Yuan. No entanto, os Han nunca se conformaram com o domínio mongol tendo-se sucedido numerosas revoltas e rebeliões. Finalmente, os Yuan viriam a ser derrubados em 1380, sucedendo-lhes a dinastia Ming, que retomou o controlo chinês sobre a Manchúria. Nesta altura, os Ruzhen habitavam o norte da província e encontravam-se divididos em cinco clãs independentes, mas tributários do poder Ming. Em meados do século XVI os Mongóis tinham, de algum modo, recuperado parte do seu poderio militar e ameaçavam de novo as fronteiras do império chinês. Este facto provocou uma diminuição do controlo da Manchúria, levando a um aumento de poder por parte dos Ruzhen. Até então os chineses tinham seguido uma política de “dividir para reinar”, incentivando as escaramuças entre os clãs e mesmo no seu interior. Entre os Chien-chou Ruzhen nascera em 1559, Nurhachi que tomaria o poder no seu clã com cerca de vinte anos de idade, dando início a uma era nova para os Manchús. Em 1586 derrotou um adversário dentro da sua própria tribo, apoiado pelos Chineses, consolidando definitivamente o seu comando. Em seguida,

tratou de construir um Estado Manchú, começando pela escrita e pela organização militar e administrativa. Para tal, em 1599, incumbiu o letrado Erdeni de criar um sistema de escrita, cuja origem se pode remeter ao sistema mongol, que deu origem a uma literatura nacional. Em 1601, criou o sistema dos estandartes, uma forma de organização militar que se desdobrava em administração e recolha de impostos. Esta imposição de Nurhachi foi determinante para transformar uma sociedade tribal num Estado organizado. Provavelmente, esta transformação dos clãs num burocracia militar terá sido inspirada na estrutura político-militar chinesa, em vigor nas fronteiras do império. Ao mesmo tempo, conseguiu dominar todos os clãs Ruzhen sob a sua bandeira. Em 1615, os originais quatro estandartes, que Nurhachi colocara sob um estrito controlo familiar, foram transformados em oito, igualmente entregues a familiares de confiança. Entretanto, Nurhachi tratou de conquistar os outros clãs Ruzhen e de os organizar, agora, segundo uma lógica totalmente diferente, formando um Estado consideravelmente poderoso. Este poder manchú viria a crescer desmesuradamente, também do ponto de vista económico, com o estabelecimento de vários monopólios, nomeadamente das minas, riquíssimas na região, e do tráfico de peles, pérolas e ginseng. Em 1616, Nurhachi proclamou-se “khan” (imperador), usando igualmente a expressão chinesa Tian Ming (Mandato Celestial), inaugurando uma dinastia a que chamou Jin, assumindo-se herdeiro da casa dinástica do mesmo nome que os Ruzhen tinham fundado no século XII. Quando se sentiu definitivamente preparado, em 1618, Nurhachi lançou o seu primeiro ataque contra a China, na cidade fronteiriça de Fushun, alegando que este acto se justificava, inclusivamente, porque os Chineses teriam estado por detrás do assassínio de seu pai e de seu avô. O êxito desta expedição ficou-se a dever ao facto do comandante da cidade se ter passado para o lado manchú. Facto que se veio a repetir posteriormente, porque os Chineses reconheciam que, mesmo sob o poder manchú, tinham acesso à administração e era até reconhecida a validade da manutenção das estruturas políticas e culturais chinesas. Em 1625, mudou a sua capital para Mukden, preparando-se para defrontar os exércitos chineses que guardavam a entrada da China propriamente dita. Contudo, no ano seguinte, perdeu a sua primeira batalha contra as forças Ming, em Ningyuan, vindo a falecer dos ferimentos, em 30 de Setembro de 1626. Sucedeu-lhe o seu oitavo filho Hung Taiji, que conseguiu eliminar os seus irmãos rivais, muito graças às suas capacidades de líder militar. No seu reinado os Manchús conquistaram a Mongólia Interior e a Coreia, aproveitando ao máximo as

riquezas destes países. Graças aos soldados e cavalos mongóis e ao dinheiro e mantimentos que lhe vinham da Coreia, Hung Taiji aperfeiçoou o sistema dos Oito Estandartes organizando os primeiros raides para lá da Grande Muralha. Os Manchús ofereciam grandes privilégios aos Chineses que se lhes juntassem, o que provocou uma galopante influência chinesa na administração manchú. Este facto contribuiu decisivamente para a consolidação do poder administrativo e militar do descendente de Nurhachi. Sob este estímulo e a conselho dos seus conselheiros chineses, Hung Taiji resolveu, em 1636, mudar o nome da sua dinastia de Jin para Qing (Pura) e lançar-se definitivamente na conquista da China. Isto depois de conquistar parte da Mongólia e ter-se apoderado do Grande Selo do Khan, o que lhe conferiu simbolicamente o título de Filho do Céu. Morreu exactamente um ano antes das suas tropas entrarem em Pequim, em Junho de 1644. A sua morte lançou alguma confusão sobre a sucessão dinástica. Dorgon, o décimo quarto filho de Nurhachi, seria o mais provável e desejado sucessor, mas o príncipe recusou o cargo, nomeando para o lugar o filho de Hung Taiji, Fulin, de cinco anos de idade, que viria a chamar-se Shunzhi. Para si e para seu irmão Jirgalang reservou os lugares de regentes do império. Foi ele que, com a ajuda do general chinês Wu Sankuei, retirou Pequim das mãos dos rebeldes que tinham destronado o último imperador Ming. Mas se os Han pensavam que os Manchús retirariam depois da conquista da capital estavam bem enganados. Shunzhi foi levado para Pequim a 19 de Outubro de 1644 e onze dias mais tarde proclamado imperador. No mesmo ano, Dorgon conseguiu submeter as províncias de Shensi, Hunan e Shandong; no ano seguinte, seguiram-se Kiangnan, Jiangxi, Hebei e parte de Zheijiang; sendo as províncias de Sichuan e Fujian conquistadas em 1646. Com o tempo foi concentrando o poder nas suas mãos, relegando o seu irmão para a mera função de assistente do imperador. Quando morreu, em 1650, numa caçada perto da Grande Muralha, todo o norte da China tinha sido dominado. O imperador Shunzhi expandiu o império por toda a China, forçando as últimas tropas Ming a refugiarem-se em Taiwan, de onde expulsaram os Holandeses, em 1659. Encarado como uma pessoa extremamente afável, Shunzhi foi grandemente influenciado pelos eunucos da corte e pelos monges budistas. Faleceu muito novo, de varicela, aos 23 anos de idade. No entanto, existe uma outra versão: reza a lenda que, por amor a uma bela consorte prematuramente falecida, terá entrado para um templo chan (zen), descuidando os assuntos de Estado. Anos mais tarde, o seu filho e sucessor Kangxi terá, debalde, tentado encontrá-lo.


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“Dar e tirar a vida. São esses os poderes do imperador” Kangxi Os degraus do trono Feito imperador aos sete anos de idade, em 1661, só oito anos mais tarde Kangxi controlou, de facto, o trono do Império do Meio. Durante este período o governo foi exercido por quatro conselheiros manchús, herdados da corte de seu pai: Suoni, Sukeshaha, Ebilong e Aoboi. Estes homens, de tendência conservadora, demonstravam algum desdém pela crescente influência chinesa, que o imperador Shunzhi apadrinhara. Agora que se encontravam no poder iam tomar medidas drásticas para combater o que consideravam elementos perniciosos. E começaram logo pela instituição que mais os irritava: os Treze Ofícios que, constituída por eunucos, era responsável pela administração do Palácio Imperial. Tratava-se de uma tarefa de grande responsabilidade e influência, porque supervisionavam a administração doméstica e controlavam os pagamentos de todos os funcionários. Recuperada por Shunzhi, esta instituição de origem Ming horrorizava os manchús que a substituíram pelo Conselho de Administração do Palácio, formado apenas com elementos da sua etnia. A partir de 1667, Kangxi começou a interessar-se pelos assuntos de Estado. Já com treze anos, frequentava as audiências e participava nas reuniões, mas o poder encontrava-se ainda nas mãos dos seus ministros. Com a morte de Suoni, Aoboi tornou-se um virtual ditador, mandando matar Sukeshaha e dominando Elibong. Mas Kangxi estava precavido contra as suas intenções. Há já muito tempo que homens fiéis a Aoboi controlavam parte do Palácio Imperial e o informavam sobre os movimentos do imperador. O jovem imperador resolveu recrutar cem jovens guerreiros dos Estandartes, sob o pretexto de praticar com eles a arte marcial “buku”, de origem manchú. Na prática serviam-lhe de guarda-costas contra as eventuais conspirações de Aoboi. O clima entre ambos deteriorou-se progressivamente até ao dia em que Kangxi resolveu por um ponto final na situação. Aoboi recebeu um convite para uma bebida no Palácio. Quando o ministro chegou o imperador praticava artes marciais com os seus habituais companheiros e não lhe ligou importância. Somente deu ordens para lhe darem uma cadeira. Uma das pernas do móvel fora serrada e Aoboi deu por si esparramado no chão. Segundo as regras da corte imperial Qing, uma quebra de etiqueta por parte de um ministro diante do imperador era considerada um crime. Irado, Kangxi ordenou a sua prisão, imediatamente executada pelos seus jovens guerreiros. Aoboi foi julgado, considerado culpado de vários crimes e executado. Kangxi tinha, então, quinze anos. A primeira grande tarefa que se erguia diante do jovem imperador era a unificação e pacificação de todo o território chinês. Basicamente, dois problemas se levantavam: o rebelde Coxinga, que se refugiara em 1661 na ilha de Taiwan, expulsando os Holandeses e dominando com os seus barcos quase toda a costa da China; e a revolta dos três reinos vassalos do Sul, a Guerra San-fan.

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Kangxi Os primeiros anos

Os afazeres da Espada

Os dois guardas de pedra no cemitério de Confúcio, em Qufu, provícia de Shandong. Um segura uma espada, o outro agarra um livro. Fotografia de Edouard Chavannes, 1907

A Guerra San-Fan Quando da conquista do poder, os Qing contaram com o apoio de alguns generais Ming no domínio de territórios rebeldes no Sul. Estes homens permaneceram à frente dos governos das províncias submetidas, dotadas de um regime de larga autonomia em relação ao poder central de Pequim. Inclusivamente, beneficiavam de ajudas do governo para a manutenção do exército. O mais poderoso era o general Wu Sankuei, que participara na tomada de Pequim aos rebeldes, responsável pela derrota dos últimos aristocratas leais aos Ming, refugiados no Yunnan. Wu, agora “príncipe” e governador militar das províncias de Yunan e Kweichow, controlava também Hunan, Shensi e Gansu. Não desmantelara nunca o exército que lhe permitira controlar tão vastas regiões em 1661, quando Kangxi tinha apenas sete anos. Agora, dez anos mais tarde, o seu reino prosperara significativamente. Para além de Wu San-kuei, existiam também os governadores de Guangdong, Shan Ko-hsi, e de Fujian, KengChing-chung. Foi natural que estes três homens, graças ao seu poderio militar e

distância em relação à corte, começassem a ser considerados uma ameaça cada vez mais real por Kangxi. A questão resolveu-se quando, em 1673, Shang Ko-hsi, de Cantão, entregou o comando do seu exército ao governo central e de bom grado se retirou da vida pública. A corte reuniu em conselho para decidir se havia de exigir a mesma atitude aos seus outros reinos vassalos. A maior parte dos conselheiros mostrou temer o bem equipado e treinado exército de Wu San-kuei, mas o jovem Kangxi insistiu na ideia de tentar subtrair o exército ao general, argumentando que, cedo ou tarde, os reinos finalmente se revoltariam, sendo portanto mais avisado aproveitar a oportunidade para preveni-los da sua determinação. A guerra foi declarada. Mais tarde, apesar da vitória, vir-se-ia a arrepender da sua decisão e escreve: “Apesar do Conselho de Príncipes e Altos Oficiais não ter concordado comigo em 1673, decidira avançar. Parecera possível, se fossemos suficientemente exaustivos e mostrássemos as nossas boas intenções na transferência dos três príncipes do sul, que a sua única alternativa seria aceitar as nossas determina-

ções”. E vai mais longe na demonstração dos seus erros: “Uma audiência da corte tem a importante função de reduzir a arrogância. (...) A existência de audiências regulares é crucial com os militares, especialmente quando detêm o poder há muito tempo. A rebelião podia não ter acontecido se Wu San-kuei, Keng Ching e Shang Chih-hsin tivessem sido convocados para audiências regulares e devidamente atemorizados. Os oficiais da fronteiras tendem a obedecer apenas aos seus próprios comandantes, reconhecendo-os como quem governa. A guerra durará até 1681, mesmo para além da morte de Wu San-kuei, que ocorreu em 1678. Só depois de liquidadas todas as erupções de autonomia a sul do Yangtse, se pode falar de um regime Qing, centralizado, equilibrado, que dará origem a um longo período de estabilidade interna. A conquista de Taiwan Para completar o puzzle – sobretudo para controlar a costa chinesa infestada de piratas – urgia conquistar Taiwan ao rebelde Coxinga. Empurrado para fora do continente chinês em 1661, Coxinga atacou os Holandeses em Taiwan, com uma armada


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de novecentos barcos e vinte cinco mil homens, ocupando a ilha e expulsando os estrangeiros. A partir daí desenvolveu as suas actividades, controlando recursos importantes. A mistura explosiva de pirataria e comércio ao longo da costa chinesa atingiu tais proporções que levou a corte a decretar, em 1662, o encerramento de todas as actividades costeiras de Shandong a Guangdong. Os habitantes deviam ser evacuados, à força se necessário, o que provocou grande consternação. Pensavam assim diminuir o poder de Coxinga e cortar-lhe as principais fontes de rendimento. O rebelde morreu em 1662, mas o filho que lhe sucedeu no trono imediatamente apoiou a revolta do governador de Fujian, quando da Guerra San-fan, continuando a criar problemas nas orlas costeiras. Finalmente, depois da vitória na Guerra San-fan, havia disponibilidade para pensar em Taiwan. Vale a pena ouvir o próprio imperador sobre os dilemas da expedição de 1683: “De novo me avisaram a não nomear o Almirante Shih Lang para liderar a campanha contra Taiwan por ter servido antes a Dinastia Ming e também a soldo do rebelde Coxinga e, logo, poder revoltar-se ele próprio se lhe desse navios e tropas. Mas uma vez que os restantes almirantes Chineses asseguravam que Taiwan nunca seria tomada, chamei Shih Lang para uma audiência e disse-lhe pessoalmente: ‘Na corte dizem que vos revoltarás quando chegares a Taiwan. É minha opinião que enquanto não fores enviado a Taiwan a ilha não será pacificada. Não te revoltarás, garanto-te.’ Shih Lang capturou Taiwan num ápice e provou ser um oficial leal. Mesmo desprovido de instrução e arrogante, compensam-no as suas ferozes capacidades militares e os seus dois filhos têm-me servido com distinção”. O fim dos conflitos As guerras terminavam e havia tempo para construir a paz mas, curiosamente, o imperador continuava a interrogar-se e a sentir-se culpado pela sua decisão abrupta, que precipitara o conflito: “Tinham decorrido oito anos de amarga guerra e, apesar da paz ter chegado, as feridas estavam por cicatrizar. Eu recusei, e continuei a recusar, todos os pedidos para que me fossem atribuídos novos títulos honoríficos de vencedor porque esta guerra resultara dos meus próprios erros de cálculo e a responsabilidade pelo sucedido – por tudo o que sucedeu – era minha. Nunca esperei que Wu San-kuei se revoltasse em 1673 quando aceitei os seus pedidos de reforma. Nunca esperei que tantos seguissem Wu quando de facto se revoltou.” O jovem Kangxi aprendia sobre os trabalhos da Espada, sobre a sua acção terrível ou sobre o seu poder regenerador. A Espada tanto mata na Guerra como cura na Paz. Como o grande rei Wu, da dinastia Zhou, parecia ter o Mandato do Céu para usar a força e a estratégia militar para dominar as revoltas internas e expandir as fronteiras do império. Agora a tarefa parecia terminada. Unificado o território, a atenção do imperador recai na administração do Estado. Seguem-se os trabalhos do Livro.

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Kangxi a construção do governante ideal

Os Trabalhos do Livro Do Conhecimento e da Seriedade Quando os antigos desejaram difundir a virtude pelo Reino, cuidaram primeiro de ordenar os seus próprios estados. Desejando a boa ordem dos seus estados, primeiro ordenaram as suas próprias famílias. Desejando ordenar as suas famílias, cultivaram-se primeiro a si próprios. Desejando cultivar-se a si próprios, rectificaram primeiro os seus corações. Desejando rectificar os seus corações, procuraram primeiro o pensar sincero. Desejando um pensar sincero, ampliaram ao máximo o seu conhecimento. Tal ampliar do conhecimento reside na investigação das coisas. O Grande Estudo Este parágrafo, atribuído a Confúcio, denota bem da importância prestada pelo filósofo à necessidade de conhecer e de como o conhecimento deve ser um dos objectivos principais dos governantes. Este imperativo foi seguido de muito perto pelo imperador Kangxi, sobretudo através da influência que nele exerceram as obras do filósofo confuciano Zhu Xi (1130-1200), cujo pensamento se tornou numa espécie de ortodoxia oficial do regime. Um conceito de Zhu Xi agradava particularmente ao imperador: o respeito pela seriedade (chu-ching). Mas, enquanto o filósofo da dinastia Song o aplicava fundamentalmente a um estado mental do indivíduo, o imperador entendia que devia ser alargado ao domínio do político, isto é, aplicado na prática quotidiana. Daí que tenha criticado com ardor os letrados que não conseguiam conciliar doutrina e acção. O imperador considerava que o conceito de seriedade era o mais elevado princípio da prática política. A sua devoção a Zhu Xi era tal que mandou compilar as suas obras completas, confessando depois que o tinha feito por sentir uma extrema admiração pela vida e obra do filósofo. Um pormenor da pedagogia de Zhu Xi agradava particularmente ao imperador: o facto de sublinhar a importância da aquisição de conhecimentos através dos livros. Da importância da leitura Desde a infância que Kangxi se mostrara apreciador da leitura e da discussão dos grandes temas do saber chinês. Aos oito anos, interrogava a sua entourage sobre as interpretações dos clássicos confucianos O Grande Estudo e de Doutrina do Sentido. Mostrava interesse e preocupação em perceber a fundo os textos e não apenas cumprir o dever da leitura. Outro facto que reforça esta ideia é a importância atribuída por Kangxi ao chingyen, uma instituição da corte imperial que consistia em palestras conduzidas por letrados cuidadosamente escolhidos sobre os mesmos clássicos. O imperador, não somente as impunha numa base diária (ao contrário de outros imperadores que as evitavam como maçadoras), como as marcou para as primeiras horas da madruga-

da, isto é, antes da sua habitual audiência. Findos os deveres de Estado, retomava as discussões que só abandonava quando tinha a certeza de tudo ter correctamente compreendido. Estas palestras não eram suspensas, nem no seu aniversário nem durante as suas expedições. O Governante Ideal Esta preocupação derivava da crença segundo a qual a aprendizagem e a aquisição de conhecimentos estão na origem de toda a sabedoria e que esta é indispensável ao governante. Os imperadores sábios Yao e Shun são os modelos seguidos por Kangxi que deles afirma ser “o sucesso da sua governação não mais que o resultado da sua sabedoria”. Ora esta sabedoria não podia advir que do “método de desenvolvimento da mente” (xin-fa), o que num sentido alargado se refere ao conhecimento da mente e da natureza como um todo, ou seja, ao conhecimento do Dao (Via), algo que só pode ser compreendido pela própria mente. Pode ser atribuída a Kangxi uma certa obsessão pelo conceito de governante ideal. Este será aquele que consegue conjugar a tradição da governação com a tradição do Dao, tal como Yao e Shun. Aliás, este tinha sido um desejo há muito acalentado pelos letrados confucianos, que no duque de Zhou viam a sua última realização. Para estes homens o único problema que agora se levantava era o facto de Kangxi ser manchú, o que de certo modo era contraditório com a expectativa do regresso ao poder dos Han. O filósofo Li Fu (1675-1750) sente esta mesma contradição e resolve-a com a seguinte pergunta: “Os imperadores sábios Yao e Shun não vieram também de terras bárbaras?” Parece que a determinação de Kangxi em juntar na sua pessoa a tradição da governação com a tradição do Dao, juntamente com a sua grande preocupação pelo estudo e observação dos ideais de Confúcio, convenceram os letrados chineses da sua época que estavam perante uma nova idade de ouro (sheng-shih). O imperador criou, em 1686, o Átrio da Transmissão de Sabedoria, um espaço destinado ao estudo e veneração de sábios como Confúcio, Mêncio e dos nove sábios imperadores, isto é, Fu Xi, Sheng Nung, Hsuan Yuan, Yao, Shun, Yu, Tang, Wen e Wu. Assim praticava o que já antes teorizara: a tradição da governação só podia ganhar legitimidade através da tradição do Dao. O próprio Kangxi escreveria: “Penso que a razão pela qual o Céu gera sábios é para os tornar governantes e educadores do povo. A tradição da governação esteve sempre ligada à transmissão da tradição do Dao. Confúcio, Tseng-tzu, Tzu-ssu e Mêncio nasceram depois dos imperadores sábios Yao, Shun, Yu e Tang e depois dos reis sábios Wen e Wu”.

Continua na página seguinte


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Kangxi ordenou ainda a produção de várias colecções literárias, de ensaios, de frases célebres ou de grandes autores, dicionários, etc. A sua contribuição para a preservação e dinamismo da cultura chinesa é fundamental e incalculável.

Kangxi em discurso directo

Quando o imperador escreve

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Da Autocracia Contudo, como em tudo na vida, existe sempre o reverso da medalha. É que a separação entre a tradição da governação e a tradição do Dao, bem como o desinteresse dos imperadores por esta última, permitira que o seu desenvolvimento se tivesse feito de forma relativamente independente do próprio poder. Agora, com Kangxi, esta independência via-se algo ameaçada. Ao absorver a tradição do Dao, o governante pouco espaço deixava aos letrados confucianos para que estes, de algum modo, como tinham feito no tempo dos Song e dos Ming, se opusessem ao poder político. Este aspecto surge muito claramente na crítica feita aos letrados daquelas dinastias, segundo a qual a separação das duas tradições esvaziara o pensamento de uma aplicação prática. Indo mesmo mais longe, o filósofo Fei Mi (1625-1701) preconizava que só o detentor do poder poderia transmitir a tradição do Dao. Se assim não fosse então tornava-se numa metafísica inútil e sem aplicação concreta. Compreende-se que ficam então lançadas as fundações de Estado autocrático em que poder e saber encontram a sua expressão máxima na pessoa do Soberano. Kangxi criou uma inquisição literária, mas que sempre se mostrou bastante moderada, se a compararmos a outras épocas da história da China. Sobre a sua acção punitiva dos letrados que o hostilizavam, escreveu o imperador: “E ainda assim, durante todo o meu reinado apenas mandei executar um académico por escritos sediciosos, o que foi o caso de Tai Ming-shih. Não só havia escrito e publicado trabalhos estranhos e impertinentes enquanto estudante como mantinha ligações com a família Fang, que em tempos havia colaborado com o rebelde Wu San-kuei. Ao entrar para a Academia de Hanlin recusara-se a queimar os blocos dos seus trabalhos anteriores. No seu livro Nan-shan-chi, Tai Ming-shih publicara os títulos de nobreza dos três pretendentes Ming que haviam prosseguido a luta depois dos Manchú terem fundado a nova dinastia. Defendia que, se seguíssemos os princípios historiográficos de Confúcio, o reino de Hung-kuang em Nanquim e o reino de Lung-wu em Fukien, e o reino de Yung-li, primeiro em Kwangtung e depois em Yunnan e Kweichow, deveriam ser todos adequadamente registados. Afirmava que o nosso governo tinha imposto a censura, que as pessoas encaravam o tema da queda dos Ming como um assunto proibido, que as provas acerca da conquista estavam a ser gradualmente destruídas e adulteradas. Afirmava haver toda a espécie de livros do seu conhecimento que não haviam sido entregues à Corte – mesmo títulos que o Gabinete de História havia abertamente manifestado interesse em adquirir – e que sabia de trabalhos por académicos reformados que tinha sido mantidos em segredo. O Conselho de Castigos recomendou que Tai Minh-shih fosse submetido à pena de morte lenta, que todos os seus conhecidos acima de dezasseis anos fossem executados, e

todos os parentes do sexo feminino juntamente com as crianças fossem escravizados. No entanto, fui misericordioso reduzindo a pena para decapitação e poupando os seus parentes”. É verdade que, ao contrário dos seus antecessores e predecessores, Kangxi foi extremamente benevolente mesmo para os letrados que se recusavam a aceitar o domínio Qing. As Grandes Enciclopédias A sua paixão pelos livros levou-o a promover a edição de vários clássicos da cultura chinesa. Mas a sua acção mais importante foi a encomenda de várias enciclopédias que se tornaram no maior repositório de sempre da cultura chinesa tradicional, desde então até aos nossos dias. Sem este trabalho ciclópico certamente que muito do saber Han se teria perdido para sempre. A mais extraordinária destas enciclopédias, a Gujin Tushu jicheng (Coleçção Completa de Escritos e Ilustrações do Passado e do Presente), foi encomendada a Chen Menglei, que tinha sido um opositor dos Qing. Só viria a ser publicada em 1726, já no reinado de Yongzhen, que baniu o compilador em 1723, quando da sua subida ao trono. A Gujin Tushu jicheng é composta por seis divisões principais, 32 subdivisões e compreende 6109 secções. Cada uma destas secções encontra-se, por sua vez, ordenada em oito tipo de escritos ou fontes literárias: citações de fontes clássicas, ordenadas cronologicamente, quando datáveis, ou na ordem tradicional de clássicos, historiadores, filósofos e literatos; comentários de natureza ortodoxa destes quatro géneros literários; biografias; composições literárias; frases seleccionadas pelo seu valor literário; relatos factuais ou anedóticos de menor importância; citações variadas; e, finalmente, materiais menos ortodoxos como ficções e citações de fontes taoístas e budistas. As suas seis principais divisões referem-se, por ordem de importância a relações humanas, geografia, economia política, artes e ciências, literatura e fenómenos celestes. As subdivisões são extensas e abrangem praticamente todas as vertentes do saber humano. Para dar uma ideia da sua dimensão podemos citar a Encyclopaedia Sinica, de Samuel Couling, que em 1917 lhe atribuía uma dimensão quatro vezes superior à da Enciclopédia Britânica. Segundo a mesma fonte, somente o British Museum possui uma edição completa, em 745 volumes, certamente sonegada no século XIX. Ao todo, a Tushu jicheng tem cerca de cem milhões de caracteres, tendo sido considerada já na segunda metade do século XX como a maior e mais útil enciclopédia alguma vez compilada na China. Para deste trabalho monumental, Kangxi ordenou ainda a produção de várias colecções literárias, de ensaios, de frases célebres ou de grandes autores, dicionários, etc. A sua contribuição para a preservação e dinamismo da cultura chinesa é fundamental e incalculável.

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emasiadas pessoas afirmam conhecer as coisas quando, na verdade, nada conhecem acerca delas. Desde a minha infância tenho procurado descobrir as coisas por mim mesmo em vez de fingir possuir conhecimento quando ignorante. Sempre que me encontrava com pessoas mais velhas inquiria acerca das suas experiências e recordava o que me diziam. Mantém uma mente aberta e aprenderás coisas. Perderás as boas qualidades dos outros se apenas te concentrares nas tuas próprias capacidades. É da minha natureza ter prazer em perguntar. As pessoas mais rudes ou simples têm sempre algo de valor a dizer, algo que podemos seguir até à fonte e recordar.

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ereira ensinou-me a tocar a melodia “P’u-yen-chou” na harpa e também a estrutura da escala de oitavas. Pedrini ensinou teoria musical aos meus filhos e Gherardini pintou retratos na Corte. Aprendi de igual modo a calcular o peso e volume das esferas, cubos e cones e a medir distâncias e os ângulos das margens dos rios. Em posteriores viagens de inspecção usei os métodos Ocidentais para mostrar aos meus oficiais como fazer cálculos mais precisos ao planear trabalhos fluviais.

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uitas vezes não nos conseguimos impedir de sorrir quando os estrangeiros iniciam uma discussão. Como podem presumir falar acerca “dos grandes princípios da China”? Por vezes, agem erroneamente por não estarem acostumados aos nossos hábitos, outras vezes são induzidos em erro por Chineses ignorantes.

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odos os países devem ter algum espírito que venerem. Tal é verdadeiro para a nossa dinastia, como para Mongóis ou Maometanos, Miao ou Lolo, ou outros estrangeiros. Assim como toda a gente teme algo: uns cobras em vez de sapos; outros sapos em vez de cobras, assim como todos os países têm diferentes pronúncias e diferentes alfabetos. Mas, nesta religião católica, a Sociedade de Pedro guerreia com os Jesuítas, Bouvet discute com Mariani, e, entre os Jesuítas, os Portugueses querem apenas seus nacionais na sua igreja enquanto os Franceses apenas querem Franceses na sua. Isto viola os princípios da religião. Tal dissensão não pode ser inspirada pelo Senhor do Céu mas pelo Demónio que, como escutei dos Ocidentais, conduz o homem nos caminhos do mal pois não pode fazer de outro modo.

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xistem também Taoístas que falam grandiosamente de revitalização e obtenção de poderes especiais. Não passam de desavergonhados – tenho-os observado ao longo dos anos e verificado que envelhecem como os outros homens. Estes adeptos são impostores – se fossem imortais porque se incomodariam em descer ao nosso humilde mundo?

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xistem inúmeras práticas estranhas: dietas que evitam os cereais; internalização do pneuma e outras técnicas de respiração; regimes sexuais e alquimia interna e externa. Não sou capaz de calcular quantas eu próprio testemunhei. Como poderia, de ânimo leve, acreditar numa só palavra? No entanto, gosto de tratar as pessoas com confiança e mando analisar o potencial de todas as coisas à exaustão. Examino o que me parece possível e rejeito o que não o é.

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estruímos as crianças que mimamos. Aqueles cujos caprichos foram satisfeitos tornam-se pessoas de personalidade fraca ou doentes – com apetites exagerados e uma intolerância aos extremos climatéricos. É preferível ser rigoroso desde o princípio que oferecer esse género de “amor”.


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Kangxi e Confúcio, o Venerável Mestre

“Solenemente me curvo” Chegado ao Lu de Leste, ascendo ao átrio do Mestre, presto libações entre as duas colunas. Cruzando a altíssima parede, encontro o profundo ensinamento do Mestre, que perpetua a tradição da Via de Yao e Shun e como os rios Chu e Ssu se estende. Na floresta toco os leves pinheiros e abetos. Solenemente me curvo. Kangxi in Kung Shang-jen, Memória sobre a visita do imperador Kangxi ao templo de Confúcio

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angxi visitou Qufu, a cidade de Confúcio, em 1684. Esta visita revestiu-se de um imenso significado, porque constitui o momento em que o imperador definitivamente demonstrou o seu apreço e respeito pelo Venerável Mestre. Mas, mais que o homem, Kangxi homenageava as ideias e princípios que eram os fundamentos da cultura Han e que haviam de nortear todo o seu reinado.

Mal chegou ao templo de Confúcio, o imperador desceu da sua liteira e entrou a pé no átrio principal. Aí inaugurou uma nova versão do ritual normalmente executado pelos governantes: “ajoelhou-se três vezes e curvou-se nove, em vez de se ajoelhar duas vezes e se curvar seis”, relata o descendente da família de Confúcio, Kung Shang-jen. Nunca um imperador prestara ao sábio uma tão reverente homenagem. Este facto impressionou grandemente a família Kung. Ao contrário de outros imperadores, que doavam ao templo objectos de prata ou de ouro, Kangxi doou o seu pára-sol dourado e escreveu em louvor a Confúcio uma tábua onde se pode ler: “Mestre de Dez Mil Gerações”. O seu objectivo, segundo ele mesmo confessou, era valorizar significativamente os ritos de homenagem a Confúcio. Neste aspecto o comportamento de Kangxi afastava-se significativamente do de outros imperadores que o precederam. Na verdade, foi quase sempre algo tensa a relação entre os detentores do poder e os ensinamentos e a própria família do Venerável Mestre. A começar por Qin Huangdi, o fundador da dinastia Qin (221-206 a.C.), que mandou queimar todos os clássicos confucianos. Os livros só se salvaram porque foram escondidos por um dos membros da nona geração da família na Parede Lu, hoje situada em pleno templo, exactamente no local onde dantes ficava a casa de Confúcio. Já na dinastia Ming, mais concretamente em 1372, o fundador Ming Tai-tzu proibiu a realização dos sacrifícios da Primavera e do Outono nos templos confucianos, à excepção do tem-

A presença de Kangxi em Qufu tem como consequências: por um lado, o reconhecimento por parte de um governante de origem bárbara da importância do Grande Mestre, e por outro, a união na pessoa do imperador das duas tradições normalmente separadas, a tradição da Via e a tradição da governação, o que fez de Kangxi o soberano-sábio, há muito esperado por todos os letrados. plo de Qufu. Assim tentava reduzir o culto do Mestre e o seu simbolismo a um local específico, enquanto o seu próprio poder se estendia universal. No entanto, esta proibição não durou mais que dez anos. É preciso compreender o extremo poder e influência que a família de Confúcio exerceu sempre na China. A cidade de Qufu constituía um Estado dentro do próprio Estado, no qual se cobrava uma taxa específica destinada à família Kung. Ainda hoje, já na septuagésima sexta geração, é talvez a mais antiga família do mundo, na medida em que pode estabelecer a sua linhagem directa até ao ano 550 a.C.. Todos os imperadores sentiam a necessidade de ser reconhecidos pelos Kung como meio de legitimar o seu poder. Este facto era ainda mais verdadeiro para os fundado-

res das dinastias. Kangxi não foi excepção mas excepcional foi sem dúvida o seu comportamento e o reconhecimento dos Kung. Basta comparar dois tipos de tratamento. No ano 85 o imperador Han Changdi visitou Qufu. Depois de cumprir os ritos perguntou a um descendente de Confúcio “a minha visita glorifica o vosso clã, não é verdade?”, ao que este respondeu “aprendemos que nenhum dos nossos sábios governantes deixou de respeitar o Mestre e os seus ensinamentos. A visita de Vossa Majestade a este lugar é uma manifestação de reverência pelo Mestre e sem dúvida que aumentará a vossa virtude. Quanto à glorificação do nosso clã, não nos atrevemos a aceitar tal honra”. Changdi riu-se e comentou: “Só um descendente do Sábio poderia formular uma tão boa resposta”. Quando em 1684

Kangxi dirigiu algumas perguntas a Kung Shan-jen sobre a conservação do templo este respondeu: “A maior parte das relíquias do Sábio encontram-se em ruínas. Não são merecedoras do olhar e atenção de Vossa Majestade. No entanto, depois de as olhardes, todas as coisas do templo se tornarão instantaneamente preciosas e magníficas”. Compreende-se a diferença das respostas: a visita imperial conferiu ao imperador Han um acréscimo de virtude enquanto a visita de Kangxi conferia glória ao próprio templo. De notar ainda a visita de Kangxi a Qufu ocorre exactamente um ano depois de ter assegurado a integridade do território com a conquista de Taiwan. Chegara o tempo de mostrar aos chineses que estavam no limiar de um período que se pretendia pacífico e de desenvolvimento. A ida a Qufu acontece no regresso da sua primeira viagem ao Sul, ou seja, depois de ter estado em Suzhou e Nanjing. Na antiga capital Kangxi realizou um sacrifício no túmulo de Tai-tzu, o fundador da dinastia Ming, o que muito surpreendeu os oficiais locais. Mas em Suzhou ocorreu um facto ainda mais espantoso: quando da visita a um templo budista, um grupo de monges recebeu o imperador com música; este pegou num instrumento e participou no entretenimento da multidão. O povo extremamente espantado irrompeu em vivas ao imperador, que lhes retribuiu os seus cumprimentos. Aliás, Mêncio refere no seu livro (Livro I, Parte B) que “se partilhares os teus divertimentos com o povo, então serás um verdadeiro Rei”. Compreende-se que Kangxi, com somente trinta anos, conhecia profundamente os ditames confucionistas e, nomeadamente, a importância que o Venerável Mestre dava ao domínio da música. O imperador recorria ao simbolismo confuciano para legitimar a sua dinastia e a si próprio, exibindo uma extraordinária percepção da cultura Han, se bem que, na realidade nunca tenha perdido a sua identidade manchú. Ao sacrificar junto ao túmulo de Tai-tzu, demonstrava ser herdeiro da tradição da governação, ao reverenciar como nenhum outro Confúcio, assumia-se como herdeiro da tradição da Via. O sucesso da presença de Kangxi em Qufu tem como consequências por um lado, o reconhecimento por parte de um governante de origem bárbara da importância do Grande Mestre e da sua absorção da cultura Han, e por outro, a união na pessoa do imperador das duas tradições normalmente separadas, a tradição da Via e a tradição da governação, o que fez de Kangxi o soberano-sábio, há muito esperado por todos os letrados confucianos. Tal como aconteceu quando a mãe de Confúcio se encontrava grávida do Sábio, era tempo de surgir um unicórnio, o animal mítico cuja aparição anuncia a chegada de um sábio governante.


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e n s a i o s o b

san ma lou Na primeira versão do “Ensaio Sobre a Visão” vamos ensaiar Macau. Aqui, no complexo terreno percorrido pelos fotógrafos do território. Uma zona, uma rua, um edifício. A água que bebemos dentro de uma mão cheia de imagens. A Fotografia sem explicação, para que se compreenda o que é a Cidade. Esta cidade onde vivemos.


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b r e a v i s ã o

Miguel Senna Fernandes

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é advogado e um homem da terra e que dispensa apresentações para a maioria dos leitores. A sua vertente fotográfica começou a tornar-se mais visível com o raiar dos tempos e é já hábito vê-lo de máquina em punho disparando em seu redor. Foi sempre atraído pelo poder que uma imagem pode dizer, “o preciso momento em que a imagem é captada marca um momento de vivência que não se repete mais”, diz este fotógrafo macaense. Um privilégio para quem a faz, única e indivisível. Miguel sempre quis aprender fotografia. Se em Portugal já o fazia, aqui tomou-lhe o gosto e deixa que ela ocupe cada vez mais o seu tempo, mais a sério. Mica Costa-Grande o seu mentor, “a quem agradeço sinceramente”, sublinha. A San Ma Lou, ou Avenida de Almeida Ribeiro, que atravessa Macau de rio a rio, foi um tempo para recordar o passado. “Os odores, o barulho das pessoas, vendilhões, cúles, turistas, etc.”, para acordar nos dias de hoje, numa cidade mudada, mas quase – sempre! – na mesma.


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p r i m e i r o b a l c ã o

luz de inverno

Boi Luxo

A Idade dos Heróis O

s dois últimos textos aqui publicados nasceram da recordação de que o ano de 1993 se pode considerar um marco no que respeita à consagração e à divulgação do cinema extremo asiático a nível mundial. 3 filmes nomeados para concorrer ao Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira (este ano nenhum chegou ao grupo final), 3 filmes premiados no Festival de Cannes, 1 filme premiado em Berlim, uma Menção Especial no Festival de Locarno, entre outras distinções. Vimos que o Japão foi o país que mais se distinguiu nas décadas de 50, 60, 70 e 80. Entre os realizadores japoneses premiados encontramos nomes como Kurosawa ou Teshigahara. Outros realizadores asiáticos, como Ang Lee ou Zhang Yimou, receberam suficientes prémios para que tenham garantido lugar na história dos óscares e dos festivais de cinema mais importantes e que maior exposição e interesse provocam. Contudo, a desilusão que se prende com a inexistência, actualmente, de um nome com o interesse de Kurosawa ou Mizoguchi, estende-se ao resto da produção cinematográfica da ásia extrema. Do Japão já aqui se falou, em termos que não escondem a desilusão com a ausência de grandes nomes, uma ausência que Kitano, Takashi Miike ou Hirokazu Koreeda não anulam. Desafio os leitores a nomearem outro filme de Yojiro Takita para lá de Departures, o filme que lhe garantiu o Óscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2008, certo de que entre aqueles se não conta nenhum entusiasta de um subgénero muito popular que foi criado por Takita, o dos filmes de molestação sexual em comboios (molester’s train). Trata-se, contudo, de um sub-género, a par de outros sexuais, de animação, românticos, ou de terror, que tem um valor importante quase exclusivamente a nível nacional. É esta desinternacionalização do cinema japonês que mais, por contraste com a sua história gloriosa, o caracteriza. Em relação ao cinema da Coreia do Sul vivese uma situação quase inversa. Com uma história onde circunstâncias políticas ditaram que se não tenha expandido enquanto potência do cinema, não tendo no seu historial nenhum nome que tenha alcançado resSonância internacional significativa (nem mesmo Im Kwon-taek) e não tendo ganho praticamente nenhum prémio significativo, é, hoje em dia, o país de onde nos chegam mais consistentemente propostas de um interesse e originalidade que não tem rival. É porventura o único país desta zona do globo que produz um cinema que tem, ao mesmo tempo, um rosto muito próprio e um apelo internacional indisfarçável. De Park Chan-wook (autor de Old Boy), Bong Joon-ho (autor de Mother) ou Kim Ki-duk (autor de 3-Iron) chegaram-nos filmes suficientes para que nos apercebamos da sua diversidade e rosto próprio. Neles se detectam a ansiedade e a vitalidade de um país que se democratizou e modernizou num espaço curtíssimo de tempo, deste processo retendo uma violência, uma insolência e uma inocência que lhe compõem o carácter.

É um cinema duro e inesperado, por vezes longo e enganador, sempre recompensador. Prova do envolvimento profundo que existe entre os coreanos e o seu cinema, que retrata muitos dos seus medos, ansiedades e desajustes, é a circunstância de ser um dos poucos países onde o cinema nacional se sobrepõe, em número de espectadores, à ditadura do cinema americano. Se a chamada quinta geração do cinema chinês teve um papel utilíssimo no relançamento do cinema chinês (que já vira, na sua história, épocas de extremo vigor) e no lançamento internacional do cinema chinês, fê-lo através de filmes memoráveis, como Yellow Earth, Farewell my Concubine, Red Sorghum (provavelmente o primeiro filme chinês que eu vi em circuito comercial e o primeiro filme chinês a ser estreado comercialmente nos Estados Unidos) ou The Horse Thief. Estávamos nos anos 80 e não é demais relembrar que em Outubro desse mesmo ano (o ano em que foi feito Red Sorghum) a Cinemateca Portuguesa organizou um épico e muito oportuno ciclo de cinema chinês onde se incluíam já filmes de Chen Kaige, Wu Tianming e Tian Zhuangzhuang (Zhang Yimou ainda não aí figura), a par de muitos filmes realizados entre as décadas de 20 e 60. Por inícios dos anos 90 Ang Lee começa a ter muita exposição internacional. Mesmo tratando-se de um realizador da Formosa, importará referi-lo em conjunto com estes filmes chineses, uma vez que o seu brilho acompanha, em termos cronológicos, o dos nomes em cima expostos. O realizador de Hong Kong, John Woo, teve um percurso semelhante. De autor de filmes “regionais” passou a autor internacional/americano de reconhecimento fácil, mas as suas realizações mais recentes não excitam aqui particular comentário. A propósito de Hong Kong, do realizador oficial do nostalgic chic que foi Wong Kar-wai continua teimosamente a não chegar nenhum filme após o desastre de My Blueberry Nights. Nenhum destes autores da China e Hong Kong realizou, nos últimos anos, filme que se veja coberto de especial distinção, e pode falarse, em meu entender, de um esvaziamento do poder encantatório que estes nomes há 10 ou 20 anos atrás dispensavam com uma generosidade de pioneiro. Entendam-se estas considerações como sublinha da tese aqui tentada e que se centra na inexistência, nos dias de hoje, de um Kurosawa Akira. Ideia idêntica poderá aplicar-se à geração chinesa usualmente chamada de sexta, onde na vasta lista de autores e filmes pontificam, sem dúvidas que abalem uma convicção granítica, Jia Zhangke e alguns dos seus retratos da China contemporânea, sem chiques e sem espertezas mas com uma infindável sabedoria e maturidade. Still Life, de 2006, leva-nos a esperar que Jia Zhangke possa vir a realizar outro filme com esta importância heróica. Wang Xiaoshuai, Zhang Yuan, Li Yang ou Lou Ye são autores de filmes com inegável inte-

O efervescente movimento que tem visto a criação de uma importante geração de documentaristas acontece também um pouco à margem da internacionalização do cinema chinês (o que não lhe retira valor). resse e comovente convicção mas nenhum deles atingiu a finura do olhar do realizador de Still Life. Todos eles realizaram filmes que fizeram da história recente do cinema chinês uma história de grande sinceridade e inultrapassável empenho, mas não há autor que se tenha imposto de modo sólido junto do público internacional. O efervescente movimento que tem visto a criação de uma importante geração de documentaristas acontece também um pouco à margem da internacionalização do cinema chinês (o que não lhe retira valor). É da Formosa que recebemos com imenso agradecimento e um longo aplauso o cinema de dois dos mais peculiares realizadores extremo asiáticos do momento, Hou Hsiao Hsien e Tsing Ming-liang, o primeiro de uma serenidade que não esconde as tensões que percorrem a vibrante história recente de Taiwan, o segundo o mais sensível dos seguidores do cinema em que a câmara fixa e os planos longos nos obrigam a um olhar

diferente, um olhar a que também outras artes nos obrigam. No entanto, as produções de base mais ocidental que estes dois autores há pouco concluíram podem levá-los a uma estilização estéril e nefasta e à perda do poder próprio que os caracteriza. Nestes dois autores se admira uma consistência poética e uma teimosia que se deseja prolongada à eternidade. O mesmo se pode dizer de Trân Anh Hùng (nascido no Vietname mas de formação francesa), o realizador que é ainda o único nome vietnamita de cartaz. Se os seus primeiros filmes se centraram fortemente no Vietname, com uma elegância onde a presença do exótico tem um peso importante, Norwegian Wood (que não vi) pode marcar o início do afastamento do seu país de nascimento e de vibrante inspiração, país com o qual, no entanto, mantém uma relacionamento algo artificial. Este é um autor a quem estendo uma benevolência que não esconde alguma desconfiança. Outros realizadores vietnamitas, como Nguyen Vo Minh (autor de Buffalo Boy) ou os irmãos Doan, não escaparam ainda a uma fama quase exclusivamente nacional. Aproveitem-se estas linhas para anunciar que no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, que tem início dia 20 de Março, poder-se-ão ver 9 filmes vietnamitas dos anos 60, 70 (principalmente) e 80. Deixo para o fim, propositadamente, dois países onde encontramos dois heróis: as Filipinas e a Tailândia. São países com panoramas cinematográficos semelhantes, indústrias sólidas que produzem há muitos anos filmes de gosto popular, comédias, filmes de acção, filmes eróticos no caso das Filipinas - que terá a segunda produção erótico/pornográfica asiática mais importante após o Japão - muitos filmes de terror e bastantes filmes históricos no caso tailandês. Desde os filmes de Lino Brocka, de ampla distribuição na Europa, que um realizador filipino não alcançava fortuna tão rápida fora do seu país. No que respeita à Tailândia passa-se sensivelmente o mesmo, se bem que o Príncipe Chatreechalerm Yukol (autor de The Legend of Suriyothai), Noonzee Nimbutr (autor de Jan Dara), Wisit Sasanatieng (Tears of the Black Tiger) ou PenEk Ratanaruang (Moonrak Transistor) não sejam completos desconhecidos além fronteiras. (O festival de cinema de Hong Kong mostra 3 filmes tailandeses de 2010). Os dois nomes que cubro de uma sombra heróica são Brillante Mendoza e Apichatpong Weerasethakul, respectivamente filipino e tailandês, dois casos excepcionais de uma fama recente e muito merecida. Ambos fizeram filmes que entroncam de modo suave mas muito evidente em tradições próprias a estes países, mas que conseguiram distinguir-se pelo modo brilhante e muito sincero como as representam. Alguns dos seus filmes já aqui foram objecto de atenção. Certamente continuarão a merecer esta admirada dedicação.


7 de Março, feriado em Helsínris Antønio Falcão Olivia conheceu Dan quando ambos se encontraram na mesma produção musical “O Império dos Lobos”, um filme francês dirigido por Chris Nahon. Estávamos em 2005. O encontro prolongou-se na empatia que uniu as sensibilidades dos dois músicos que foi avançando para o espaço físico das canções. Olivia Bouyssou Merilahti, nascida em 1982, é franco-finlandesa. Uma mistura explosiva. Na voz que traz o frio da Escandinávia e os elementos mais doces da chanson francesa. Dan Levy é um multi-instrumentalista francês que conseguiu captar com perícia o espectro musical da sua companheira. Juntos formaram os The Dø, na cidade de Paris. O nome do projecto reverte para a primeira nota da escala musical, “Dó” (que em inglês se lê como a pronúncia de “Dough”) ao qual se acrescentou a grafia cortada do “O”, aludindo às origens dos mares do norte de Olivia. Embora o ø não exista de todo no alfabeto finlandês. O primeiro registo do duo surgiu meses depois com uma canção memorável, “The Bridge is Broken”, que integrou a bandasonora de “Scéne d’amour” uma peça de dança contemporânea coreografada pelo finlandês Juha-Pekka Marsal. A experiência revelaria ao público o primeiro EP do grupo, que se continuou a demonstrar na criatividade da junção de entidades sonoras com o palco. A união prosseguiu no filme “O Passageiro”, premiado em vários festivais; na dança, de novo com Juha Pekka Marsal; na poesia, acompanhando as palestras de Carolyn Carlson e no teatro, na peça “Laure”, de Colette Peignot. Em 2007 o nome apareceu registado no My Space, com uma série de temas que lançaram o zumbindo dos The Dø para o éter. “The Bridge is Broken”, ”At Last”, ”On My Shoulders” e ”Playground Hustle” foram as canções escolhidas. Daí passou-se para o calendário de espectáculos em França e o primeiro álbum, “A Mouthful”, surgiria no mercado em Janeiro de 2008, com um sucesso imediato. No final do ano chegaria ao resto da Europa e à lonjura da Austrália, com imediata aprovação. A aclamação na imprensa especializada e o sucesso nos festivais internacionais, que percorram em 2009, deu-lhes o travo do palco para potenciar a forma audaz da sua componente musical. Os vídeos da banda fizeram o resto da promoção e a poucos dias do lançamento do seu segundo registo, “Both Ways Open Jaws”, que acontecerá no dia 7 de Março, com as batidas inusitadas de um folclore escandinavo em disputa com novas vertentes da música moderna, potenciado num rock extemporâneo. Como se de repente, nos céus, surgisse uma cidade da união de Helsínquia e Paris. Os The Dø em 2011 vão dar muito que falar.

The Dø Olivia Bouyssou Merilahti (voz, guitarra) Dan Levy (multi-instrumentalista) www.thedo.info

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t e r c e i r o o u v i d o

próximo oriente

Hugo Pinto

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China Underground fértil (II)

“An Anthology of Chinese Experimental Music” vem acompanhada de um ensaio assinado a duas mãos por Zbigniew Karkowski (músico e produtor polaco com forte ligação ao Japão) e Yan Jun (entre muitos outros atributos, músico e proprietário da editora Sub Jam, de Pequim). Além de servir como leitura complementar às cerca de 5 horas de música, o texto é essencial para uma compreensão da origem e do desenvolvimento da actividade experimental dos músicos chineses contemporâneos. Todavia, o ensaio intitulado “The Sound of the Underground, Experimental and Non-Academic Musics in China” não se limita a lançar luz apenas sobre o estrito campo da música experimental. Ao recuperarem as origens deste género na China, os dois autores traçam a árvore genealógica de praticamente todas as formas de expressão independentes e alternativas nascidas na República Popular. Ao contrário da “tradição Ocidental”, segundo a qual a produção artística tem um olho posto no futuro e outro fixo na História, na China, nestas lides das expressões culturais alternativas não havia memória de um passado, apenas possibilidades de futuro. Foi só a partir de meados da década de 1980 que a explosão criativa da juventude começou a ganhar expressão na forma da música Rock, um movimento sem precedentes num país cujas primeiras referências exteriores chegaram pelas portas travessas do capitalismo da então recente “economia de mercado”. Foi através dessas portas que chegaram à China os excedentes das editoras de música ocidentais, sobras que vendidas como plástico para ser reciclado nos países em desenvolvimento. A maioria destas rodelas de música (vulgos CD) são marcadas com um furo, sinalizando a saída de circulação. Na China, estes CD foram desde logo carinhosamente recebidos com um apelido: “dakou” (literalmente, “fazer um buraco”). Enquanto uns seguiam para reciclagem, muitos “dakou” tiveram por destino as bancas improvisadas dos mercados de rua. Havia de tudo e mais alguma coisa, desde música clássica ao rock, passando pelo jazz, dos clássicos, às novidades. Tendo em conta as restrições governamentais (que ainda existem) quanto à importação de produtos culturais, o mercado negro foi, assim, a primeira e principal fonte de música Ocidental na China, um país literalmente vedado. Até por este facto se percebe o que aconteceu a seguir. Neste ponto da história, os dois autores salientam o

surgimento de elementos como “descontentamento” e “motivação política” nas contra-culturas que nasciam. Muitos foram os músicos chineses que enveredaram por uma tendência extremista, aliada à expressão das frustrações e rebeldias características da juventude: era preciso fazer mais e mais barulho, ser o mais livre e radical possível, desafiar a ordem e a autoridade, formal ou figurada. As fundações da subcultura do experimentalismo e da música abstracta estavam lançadas. Os primeiros sinais de um movimento organizado chegaram logo no início da década de 90. Dickson Dee, o músico de Hong Kong que serviu de curador de “An Anthology of Chinese Experimental Music”, teve aqui um papel crucial ao introduzir na China muitos dos nomes importantes da cena experimental internacional. Foi ele quem, por exemplo, organizou a digressão chinesa de John Zorn (referência do avant-garde nova-iorquino) e Yamatsuka Eye (dos japoneses Boredoms), em 1995. Curioso notar que, nessa mesma altura, John Zorn haveria de actuar também em Macau, no Teatro Dom Pedro V. Outros tempos. O “underground” estava a germinar. A autoria da primeira obra de música experimental feita na China é atribuída a Wang Fan, um músico originário de Lazhou que se mudou para Pequim. Zbigniew Karkowski e Yan Jun fazem referência a uma “misteriosa peça de baixa-fidelidade de 40 minutos”. Quando produziu “Dharma’s Crossing”, em 1997, Wang Fan nada sabia das “tradições” da música experimental: auto-didacta, “limitou-se a inventar” e experimentar a sua própria música recorrendo a uma guitarra com umas quantas cordas soltas, latas de refrigerantes, uma televisão e um gravador caseiro. O resto, como costuma dizer-se, é história. Contudo, seria preciso esperar pelo século XXI para que a verdadeira ressonância das experiências precursoras de Wang Fan se sentisse. Agora, é impossível traçar com precisão a disseminação da influência deste pioneiro. Num mundo com as fronteiras virtualmente esbatidas, os músicos chineses estão irreversivelmente “interligados” - entre si, mas também na vasta rede mundial. E, embora havendo buracos, nesta rede eles são apenas virtuais e têm um efeito benéfico; já muito se andou desde os tempos em que os CD estrangeiros chegavam defeituosos e com furos. (Continua)


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Kronos ergo sum Michel Reis

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uem teve o privilégio e a sorte de assistir na Terça-feira à longamente esperada estreia do quarteto de cordas norteamericano Kronos em Macau,no Pequeno Auditório do Centro Cultural, não ficou certamente indiferente ao que ouviu e sentiu. Atrevo-me, sem dúvidas, a dizer que terá seguramente presenciado o concerto do ano! David Harrington (violino), John Sherba (violino), Hank Dutt (viola) e Jeffrey Zeigler (violoncelo), que escolheram Macau para iniciar a sua digressão “À Volta do Mundo com Kronos”, levaram-nos a fazer uma fascinante viagem por universos musicais tão díspares mas complementares como os da música contemporânea norte-americana, do choubi iraquiano, do folclore sueco, egípcio e servo, do mugam tradicional do Azerbeijão, do post-rock islandês e do rock mexicano, entre outros, passando pela “música espacial” do compositor norte-americano Terry Riley, fruto de um projecto encomendado pela NASA e terminando na perfeição com a oportuna e certamente apreciada pelo público interpretação de um dos mais conhecidos temas de Carlos Paredes, “Verdes Anos” e de uma belíssima peça chinesa inspirada em música da minoria Dong. Para quem não se deu ao trabalho, Kronos ou Cronus é uma palavra grega e o nome do mais jovem Titã da primeira geração de Titãs, descendentes divinos de Gaia, a Terra e Urano, o Céu. Destronou o seu pai e governou durante a Era Mitológica Dourada, até ser destronado pelos seus filhos Zeus, Poseidon e Hades e feito prisioneiro em Tartarus. Em Atenas, no décimo segundo dia do mês ático de Hekatombaion, realizava-se um festival, Kronia, em honra de Kronos para celebrar a colheita, sugerindo que, em resultado da sua associação com a virtuosa Idade Dourada, Kronos continuava a presidir como patrono das colheitas. Pois é de colheitas

musicais de origens muito diferentes, criadas por mulheres e homens com culturas e tradições muito distintas, que é composto o fascinante mosaico musical do Kronos. O Kronos Quartet foi fundado em 1973 por David Harrington em Seattle, Washington e tem prosseguido uma visão artística singular, combinando um espírito de exploração intrépido com uma dedicação de expandir o alcance e o contexto do quarteto de cordas. Neste processo, o Kronos tornou-se um dos agrupamentos mais célebres e influentes do nosso tempo, realizando milhares de concertos em todo o mundo e lançando mais de 45 gravações de extraordinária amplitude e criatividade, colaborando com muitos dos mais eclécticos compositores e artistas e encomendando mais de 700 obras e arranjos para quarteto de cordas. A abordagem corajosa do Kronos remonta às origens do agrupamento. Em 1973, David Harrington foi inspirado a formar o Kronos após ter ouvido Black Angels de George Crumb, uma obra altamente heterodoxa, inspirada na Guerra do Vietnam. O Kronos começou então a construir um repertório forçadamente diverso para quarteto de cordas, interpretando e gravando obras de mestres do séc. XX (Bartók, Shostakovich, Webern), compositores contemporâneos (Aleksandra Vrebalov, John Adams, Alfred Schnittke), lendas do jazz (Ornette Coleman, Charles Mingus, Thelonious Monk) e de artistas de campos ainda mais afastados (do lendário guitarrista de rock Jimi Hendrix, do vocalista Azeri Alim Qasimov e do saxofonista avant-garde John Zorn). Do trabalho do quarteto, fazem parte colaborações aprofundadas e a longo prazo com muitos dos compositores mais importantes do mundo. Um dos colaboradores mais frequentes do quarteto é o “Pai do Minimalismo” Terry Riley, do qual ouvimos um excerto da curiosa obra Sun Rings, intitulado “Uma Terra, Um Povo, Um Amor”, a qual inclui sons colhidos no nosso sistema solar e constitui uma ode à

Terra e aos seus povos. O Kronos encomendou e gravou os três quartetos de cordas do compositor polaco Henryk Mikolaj Górecki, com quem trabalha há mais de 20 anos. O quarteto tem também colaborado extensivamente com compositores como Philip Glass, gravando os seus quartetos de cordas completos e bandas sonoras de filmes como Mishima e Dracula (um versão restaurada do clássico de Bela Lugosi), que o Kronos e Philip Glass acabam de apresentar no Festival de Sydney 2011; com o compositor do Azerbeijão Franghiz Ali-Zadeh, do qual ouvimos Oásis; Steve Reich, cuja obra Different Trains, gravada pelo Kronos, recebeu um Grammy; o compositor argentino Osvaldo Golijov, cujo trabalho com o Kronos inclui composições e arranjos para álbuns como o fabuloso Kronos Caravan e Nuevo; e muitos mais. Para além de compositores, o Kronos tem contado com a colaboração de numerosos artistas de todo o mundo, incluindo o virtuoso chinês de pipa Wu Man; o lendário “cantor de playback” de Bollywood Asha Bhosle; a cantora Inuit Tanya Tagaq; os rockers mexicanos Café Tacuba, dos quais ouvimos 12/12; o artista de som desafiante de géneros e construtor de instrumentos Walter Kitundu; a fabulosa banda romena cigana Taraf de Haïdouks; a famosa soprano americana Dawn Upshaw; e o desabrido trio de cabaret britânico, the Tiger Lillies. O Kronos actuou ao vivo com ícones como Allen Ginsberg, Zakir Hussain, Modern Jazz Quartet, Tom Waits, David Barsamian, Howard Zinn, Betty Carter e David Bowie e participou em gravações por talentos tão diversos como Nine Inch Nails, Amon Tobin, Dan Zanes, DJ Spooky, Dave Matthews, Nelly Furtado, Rokia Traoré, Joan Armatrading e Don Walser. O extraordinário trabalho do Kronos tem sido distinguido com numerosos prémios, incluindo um Grammy para Melhor Actuação de Câmara (2004) e “Músicos do Ano” (2003) atribuído pela revista Musical America.

O meu primeiro contacto ao vivo com o Kronos aconteceu no Festival de Sydney em 2004, onde o quarteto apresentou, no seu segundo concerto, o trabalho Caravan. A partir desse concerto, o Kronos passou a fazer parte dos meus “top five” no género, na qual incluo também a violoncelista americana Maya Beiser que, por coincidência, participou também nessa edição do festival de Sydney. A violoncelista do maravilhoso Bang on a Can-All Stars apresentou um programa (Pärt, Golijov, Reich, Andriessen, Lang) companheiro do primeiro concerto do Kronos (Ruvueltas, Gubaidulina, Reich, Vasks, Golijov), criando uma reveladora e representativa amostra de música contemporânea. Curiosamente, a minha aventura pelo universo do Kronos teria continuidade no mesmo ano, no Festival de Helsínquia, onde o quarteto apresentou o projecto UNIKO, cujo CD acaba de ser lançado (2011), em colaboração com o acordeonista finlandês Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen, projecto que mais tarde eu viria a propor ao FIMM e ao qual o público de Macau pôde assistir na sua 21ª edição, na Fortaleza do Monte e no qual não foi infelizmente possível contar com o Kronos, por impossibilidade de agenda. Os concertos do Kronos apresentam invariavelmente uma produção (Laurence Neff) irrepreensível e de muito bom gosto, tanto em termos de luz (Laurence Neff) como de som (Brian Mohr). As colagens musicais que o quarteto faz em algumas das obras que apresenta resultam na perfeição. O Centro Cultural está de parabéns embora pudesse pensar “big” da próxima vez. O Kronos só podia ter-se apresentado no Grande Auditório. Uma promoção adequada em Macau e Hong Kong, onde o quarteto não se apresentou desta vez, teria certamente enchido o Grande Auditório. E para terminar, tenho que referir que as letras minúsculas dos programas de casa, muitas vezes sobre fundo escuro, não ajudam…


Da Mouraria de antanho, aos dias de hoje António MR Martins

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embro-me de me dizerem que nasci em casa, num andar de um prédio sito na Rua do Benformoso, que tinha um quarto escuro, sem energia eléctrica. Esse local ficava no bairro da Mouraria, um dos mais antigos da velha e típica Lisboa, quase nos seus limites. Estávamos portas meias com o Intendente, outro espaço mítico da Lisboa anciã, sempre conotado com a prostituição pública, outrora em pequenos bares, muitos deles situados naquela rua onde me deram à luz. Aos oito meses de idade saí dali, com meus pais, para um bairro mais moderno, àquele tempo, a Penha de França, numa novel rua de então. Mas com o passar dos anos fui conhecendo um pouco das raízes daquele bairro, onde fui nado. A Mouraria deve o seu nome ao rei Afonso, primeiro de Portugal, porque aquando da conquista de Lisboa aos muçulmanos (mouros) os ter confinado àquele local, permanecendo eles ali após a conquista cristã. Também ali teve origem o fado, o canto cartaz da Lisboa tradicional, onde a Severa (Maria Severa Onofriana) foi referência e grande fadista na sua época. Nasceu na rua do Capelão, que mais tarde daria título a um fado de enorme relevância, ainda hoje recordado. Por lá nasceram, também, outras figuras que foram ídolos nesse ramo da música, referenciando-se o Fernando Maurício e o seu fado castiço e, nos dias de hoje, a Mariza (uma voz reconhecida internacionalmente), que também por lá cresceu. Este bairro, com a passagem dos anos envelheceu em determinados pontos e noutros esteve sujeito a obras de recuperação de vários edifícios (alguns só no seu aspecto exterior, como se de uma lavagem, desses imóveis, se tratasse). Em contrapartida sofreu beneficiações que lhe vieram a alterar o traçado e, de certa maneira, a retirar muita da sua beleza e característica fundamental, tal como se verifica no Largo do Martim Moniz. Nesse local foi instalado o “Centro Comercial da Mouraria”, que veio descaracterizar todo aquele espaço e de certa forma dar a ideia de pertencer a um outro mundo. Abriram-se lojas multi-raciais, com negócios que nada tinham a ver com a tradição local e por este meio se modificou o tipo de população daquele território lisboeta e toda a sua interacção. Passou a ver-se mais cidadãos orientais e africanos que, propriamente, portugueses. Mas a Mouraria lá permanece impávida e serena observando todas as vestes que lhe possam dar e os males, ou bens, que lhe possam fazer, todavia o cheiro ao ambiente do fado e toda a sua sonoridade, ali se sentem desvanecer, pois a Severa já lá não mora mais. E como dizem os versos da canção: - Ai, Mouraria da velha rua da Palma, onde eu um dia deixei presa a minha alma… Resta a saudade!

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Chance

Kadentzia

Jerzy Kosinski

Sofia Pinto Correia Melo

Ring Joid

Chance entrou no quarto e ligou a TV. O aparelho criava a sua própria luz, a sua própria cor, o seu próprio tempo. Não obedecia à lei da gravidade que encurvava eternamente as plantas. Tudo na TV era emaranhado e misturado, mas com contrastes macios: noite e dia, pequeno e grande, rijo e quebradiço, quente e frio, distante e próximo. Neste mundo colorido da televisão, a jardinagem era a bengala de um cego. Ao mudar de canal, podia mudar-se a si mesmo. Podia passar por fases, tal como as plantas de jardim, mas ele mudava tão rapidamente quanto desejava ao pressionar o botão do comando. Podia até alastrar-se gradualmente por toda a superfície do monitor, tal como na TV as pessoas, por vezes, se alastravam, ocupando toda a largura do ecrã. Ao pressionar o botão, Chance podia trazer outras pessoas para dentro das suas pálpebras. E foi assim que começou a acreditar que era ele, Chance, e mais ninguém, o responsável pela sua própria existência. A figura no ecrã de TV parecia um reflexo seu ao espelho. Ainda que Chance não soubesse ler ou escrever, a sua semelhança com o homem na TV era maior de que a dissemelhança. As suas vozes, por exemplo, eram muito parecidas. Afundou-se no monitor. Como a luz do sol, o ar fresco e a chuva suave, o mundo exterior ao jardim penetrou Chance, e este, como uma imagem de TV, flutuou na direcção desse mundo, mantido em suspenso por uma força de que não via a presença e a que não podia dar nome.Ouviu o brusco guincho de uma janela que era aberta por cima da sua cabeça, e a voz da criada gorda a chamá-lo. Levantou-se, ainda que com relutância, desligou cuidadosamente a TV e saiu. A criada gorda debruçava-se da janela do andar superior, agitando os braços. Não gostava dela. Tinha chegado pouco tempo depois da Louise negra ter adoecido e regressado à Jamaica. Era gorda. Era do estrangeiro, e falava com um sotaque estranho. Admitia que não entendia as conversas na TV a que assistia no seu quarto. Por regra, apenas prestava atenção ao seu discurso acelerado quando ela lhe trazia comida e lhe dizia o que o Velho tinha comido e o que ela pensava que ele tinha dito. Agora, ela pedia-lhe que subisse rapidamente.

Bate o cajado no chão de lajedo. Caminho indo, caminho indo. Bate a oração no penhasco. Bate o coração compassado, caminho indo, caminho indo. Bate o pé calçado de feridas abertas, bate de novo o cajado, bate o sol que nasce no rosto duro. Bate o silêncio, a oração no penhasco. Caminho indo, caminho indo. Descansa o teu coração na sombra destas ruínas, bate o adufe ao longe ou será a trovoada. Chove agora no vale de azinheiras, mais um gole de água do ribeiro no rosto duro, acorda as sombras deste coração de peregrino. Passa o portal deste lugar onde se ouve a voz das pedras que murmuram, caminho indo, caminho indo. Não te voltes, não te voltes, as passadas na lama vão desaparecer no nevoeiro do fim do dia que chegará breve, agora longe. Descansa a cabeça nas ruínas desta morada, junto a águias que voam baixo, a ervas molhadas ainda das sombras deste coração de peregrino, agora alto. Bate o cajado no chão de lajedo e lama que oração no penhasco enche de sons de águia que caminho indo, caminho indo, no rosto duro do adufe. Mãos de terra e de barro ou da pedra do penhasco. Colhe bagas, colhe urze, beija os jacintos, as silvas, os cardos que murmuram. Beija as raízes que voam baixo, agora alto. Mais um golo de água do ribeiro. As ervas molhadas ainda deste rosto duro. Ou dorido do caminho indo, caminho indo. Molhado da oração. Pisa este chão de lajedo que se faz silêncio no vale das águias que voam baixo, agora alto, sobre as árvores antigas, sobre as ruínas deste coração de penhasco molhado. Não te voltes, não te voltes, fica o ribeiro, os jacintos, o adufe. Ficam as pedras, o silêncio. Bate o cajado no lajedo, talvez morada dos deuses, talvez das águias de barro. Ou de ervas molhadas. Caminho indo, caminho indo.

Se querem saber, não lhe ia ligar. Só queria ir embora. Para melhor. Em silêncio. - Ligas-me quando chegares? Envias-me o teu número? A tua morada? Ela não estava a conseguir. Era preciso que percebesse as coisas do coração. Mas foi sempre assim. E eu só pensava: “O que me levou tanto tempo?” Mas já era tarde demais. - Arrumei todas as tuas coisas. A arma está na mala vermelha. É só uma precaução, ter uma pistola. Dei uma nota de cem por ela, na China, a um negro do mercado. E vou usar balas de prata. Caso apareça um Lobisomem. Na verdade, hoje não se está seguro em lado algum. - As chaves do carro estão no bolso do casaco. Vendi-o na semana anterior. Aquilo era apenas a chave de uma lembrança. O resto: as rodas fora da estrada, no dia em que nos conhecemos. Um acidente. O que importava era bilhete para ficar inacessível. Um destino sem volta. - Hugo? – Disseram-lhe os lábios. Não ia olhar. Nem quero estar para aqui com conversas. Só vi a porta a fechar-se. A mala vermelha na mão, o casaco no braço. Não é que estivesse a ouvir, só a sintonizei por engano. - Sim? - respondi. - Vais sentir a minha falta? Era assim que começava. Só que ia ser diferente, desta vez. Virei-me e beijei-a só para me despedir. Para sempre. - Adeus! – Ouvi-me na boca que falava. Já não era eu, ali. Para que lhe pudesse ver a camisa ou as calças. Nem a maquilhagem, que não tinha. Mas continuava estrondosa, como sempre. Dois pequenos demónios a olharem-me. Insuportáveis! E foi só mais um segundo. O último. Para inspirar e largar o ar. - Vais sentir a minha falta? Inspirar. Expirar. As luzes nos olhos a excitarem-me. Para onde estava a ir? O casaco a cair-me ao chão. “É só um minuto”, rugiu-me o pensar. - Vais...? Não sei o que era. Mas ali estava ela. E eu beijá-la que nem um louco. Era eu! A rasgar-lhe a blusa. A desapertar o meu cinto. Meu Deus! A repetir-me pela centésima vez. Ia querer saber o fim da história? Não. Fazê-lo de novo, aquele “ir embora” sem fim? Deve ter sido o tempo a parar e o momento a continuar eterno. E o bilhete sem volta só me pedia para fazer tudo com ela. De novo. - Não! – estava tudo a gritar - Não quero aterrar outra vez! – Nessa altura já estávamos sem roupa. A porta ainda por fechar. A mala fechada com a pistola lá dentro. E o Lobisomem não estava por perto. Estava dentro de mim.

[Jerzy fingia quase sempre que era outra pessoa]

[Sofia é arqueogenealogista, toca adufe e ama os caminhos de barro]

E ali estava ela

[Ring não toca nenhum instrumento, mas gostava]

Pedaço de ‘Aquela Vez’ Samuel Beckett

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Lucas talvez a loucura do lucas o bocado de uma torre ainda de pé o resto só cascalho e urtigas onde foi que dormiste nenhuns amigos nenhumas casas talvez aquele pardieiro sobre o mar onde tu não aí ela estava contigo uma única noite seja como for saltaste do barco uma manhã e voltaste na seguinte para ver se ainda lá estavam as ruínas onde nunca ninguém vinha onde em menino te escondias te escapulias quando ninguém estava a ver e te ias esconder ali todo o dia em cima de uma pedra no meio das urtigas com o teu livro de imagens

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até que levantavas a cabeça e ali diante dos teus olhos que voltavas a abrir um grande óleo negro de velho ou até uma criança um jovem príncipe ou uma princesa quaisquer de sangue negro de velho atrás do vidro ou a pouco e pouco diante dos teus olhos à força de quereres ver a pouco e pouco aparecia uma cara nem mais que te fazia girar sobre a laje para veres quem era que estava ali ao teu lado

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em cima da pedra ao sol a fitar as searas ou o céu ou de olhos fechados não havia nada para ver até perder de vista a não ser searas a ficarem loiras e o céu azul de vez em quando a jurarem que se amavam só um murmúrio lágrimas garantidas antes que se casem todas para sempre de repente ali no meio de fosse que pensamentos estivesses a ter de fosse que cenas talvez coisas antigas de infância ou no ventre da mãe pior que tudo ou aquele velho chinês muito antes de cristo que nasceu com longos cabelos brancos

[Samuel era irlandês com várias costelas de outros países]

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Desenhos Ruy Duarte de Carvalho Lembro-me de ter nascido, ou então de ter mudado inteiramente tanto de alma como de pele, pelo menos uma meia dúzia de vezes ao longo da vida e nenhuma delas foi lá onde terei, pela primeira vez, dado conta da luz do mundo. De que havia uma matriz geográfica que essa é que me dizia de facto muito intimamente respeito pela via quem sabe de uma qualquer memória genética, dei conta aos doze anos a comer pão e com um ataque de soluços no meio do deserto de Moçâmedes, por alturas do Pico do Azevedo. E de que havia uma razão de Angola que colidia com a razão de Portugal, disso dei definitivamente conta já a trabalhar nas matas do Uíge quando, em Março de 1961, eclodiu a sublevação nacionalista no norte de Angola. Sobrevivi então aí absolutamente à justa e a tempo de me refazer de tanta perplexidade e de tanto horror, tanto insurreccional como repressivo, quando a seguir, numa memorável noite em Luanda, houve quem me sussurrasse, em passeio pelas ruas da baixa, versos nacionalistas que me revelaram uma alma de Angola que se me vinha oferecer sob medida e pela via do arrepio para eu ajustar à razão que a sublevação tinha acabado de me dar a reconhecer in vivo, e de que a partir daí passei a socorre-me para ver se conseguia conferir algum sentido à condição de órfão do império a que a vida, apercebi-me logo, me tinha destinado. Quando logo a seguir, também, a idade e o desamparo me colocaram com um papel na mão para apresentar-me no Huambo ao serviço da tropa colonial, e depois fui transferido para Luanda, já tinha conseguido que alguns mais-velhos da luta clandestina nacionalista me atribuíssem mínimas tarefas menores, como dactilografar, para posterior distribuição pelos musseques, poemas de revolta de autoria anónima e esclarecedora má qualidade. Mas depois foi uma data de gente presa e a tropa só não me entregou também à pide porque o comandante da secção de justiça do quartel a que eu pertencia era casado com uma filha de Moçâmedes e decidiu arriscar, e os informou que preso já eu estava, por razões disciplinares. Passei ainda uns tempos fardado de soldado português a fazer desenhos no quartel-general, mas depois fui requisitado, como técnico agrário, pelo instituto do café, e mandado para a Gabela e mais tarde para Calulo. Ligações políticas efectivas com a insurgência nacionalista, nunca mais encontrei maneira de as restabelecer... e também nada ajudava... nem a cor da pele que é a minha nem o cargo de engenheiro que ocupava... e o máximo que consegui foi ser dado como persona non grata, junto com um padre basco e um médico português, e afastado compulsivamente dali. Pouco para currículo político. [Ruy morreu longe, longe de ninguém]

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A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS

Aquilo que é da maior dimensão não pode ser abarcado pelo céu e terra, aquilo que é da menor dimensão não pode ser visto nem por espíritos.

Capítulo 138 Lao Tzu disse: O relâmpago e o trovão podem ser imitados por címbalos e tambores, as mudanças no vento e na chuva podem ser conhecidas pelo ritmo do seu som. Aquilo que é grande o suficiente para ser visto pode ser medido, aquilo que é claro o suficiente para ser visto pode ser escondido. Os sons audíveis podem ser harmonizados, as formas perceptíveis podem ser distinguidas. Aquilo que é da maior dimensão não pode ser abarcado pelo céu e terra, aquilo que é da menor dimensão não pode ser visto nem por espíritos. Quando se chega ao ponto de estabelecer divisões de calendário, distinguir cores, diferenciar sons claros e nublados e sentir sabores doces e amargos é porque a unidade simples foi dividida para se transformar em instrumentalidade específica. Quando se estabelece humanidade e dever e se cultivam ritos e música, então, a virtude se muda em artifício. Quando se faz alarido de conhecimento para espantar os ignorantes e se congeminam truques para atacar os superiores, então, é possível que exista quem detenha a terra, mas ninguém existe que a possa governar.

Quanto mais conhecimento e capacidade existem, mais a virtude declina; por isso, os perfeito são puros e simples, sem complexidade inútil. O governo dos perfeitos não é assertivo nem obstrutivo e não mostra nada que se cobice. A mente e o espírito estão em repouso, o corpo físico e a natureza essencial estão em sintonia. Em repouso encarnam a virtude, em acção vencem pela razão. Seguindo a Via da naturalidade, concentram-se no inevitável. São serenos e sem artifício e a terra se encontra em paz; são altivos e sem desejo e o povo é naturalmente simples. Não disputam em fúria e os bens materiais são suficientes. Aqueles que dão não o consideram benevolência, aqueles que recebem não declinam. Bênçãos a eles regressam, mas ninguém tal considera um favor. Quando à explicação não dita e à Via não expressa, se as compreenderes, a tal se chama o celeiro celeste. Dele podes tirar sem o diminuir ou exaurir. Ninguém sabe onde se encontra, mas quando o buscas, ele surge. A isto se chama luz resplandecente; a luz resplandecente dá sustento a todos os seres. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

O texto conhecido por Wen Tzu, ou Wen Zi, tem por subtítulo a expressão “A Compreensão dos Mistérios”. Este subtítulo honorífico teve origem na renascença taoista da Dinastia Tang, embora o texto fosse conhecido e estudado desde pelo menos quatro a três séculos antes da era comum. O Wen Tzu terá sido compilado por um discípulo de Lao Tzu, sendo muito do seu conteúdo atribuído ao próprio Lao Tzu. O historiador Su Ma Qian (145-90 a.C.) dá nota destes factos nos seus “Registos do Grande Historiador” compostos durante a predominantemente confucionista Dinastia Han. A obra parece consistir de um destilar do corpus central da sabedoria Taoista constituído pelo Tao Te Qing, pelo Chuang Tzu e pelo Huainan-zi. Para esta versão portuguesa foi utilizada a primeira e, até à data, única tradução inglesa do texto, da autoria do Professor Thomas Cleary, publicada em Taoist Classics, Volume I, Shambala, Boston 2003. Foi ainda utilizada uma versão do texto chinês editada por Shiung Duen Sheng e publicada online.


Um enorme corvo desceu dos céus e escondeu-o sob as suas gigantescas asas.

Porquê o corvo? H

á muito, muito, tempo três irmãs levavam uma vida muito aprazível e confortável no Palácio Celestial. No entanto, sentiam-se muito sozinhas. Um dia que os pais tinham saído do palácio, a mais nova, de seu nome Fu Kulun, disse às outras duas: “Minhas irmãs, os nossos queridos e reais progenitores deixaram-nos aqui para participarem nas Festividades do Pêssego. Porque havemos nós de ficar para aqui abandonadas? E se também saíssemos?” As outras duas apressaram-se a concordar. Rapidamente mudaram de roupa e saíram do Palácio Celestial, montando nas nuvens e deslizando pela neblina. Estavam muito felizes com a beleza de tudo quanto viam à sua volta. Em breve passavam por cima de uma cadeia de montanhas cobertas de neve, tão resplandecentes que elas tinham dificuldade em manter os olhos abertos. Entre dois picos luzia um enorme lago, de água muito azul, que reflectia o céu como um espelho. As três irmãs nunca tinham visto nada que se assemelhasse e muito excitadas não resistiram a banhar-se naquelas águas puras. “Qual é o nome deste lugar e como vamos encontrá-lo da próxima vez que aqui quisermos voltar?”, perguntou a segunda irmã não cabendo em si de alegria. “Vamos dar-lhes um nome”, respondeu a mais velha, “reparem na neve das montanhas, tão branca. Vamos chamar-lhes Chang Bei Shan (Montanhas da Brancura Eterna) e já que nós vimos do Céu e nos banhámos neste lago vamos por-lhe o nome de Tian Chi (Piscina Celestial). O que pensam disto?” As outras concordaram alegremente e, desde então, as montanhas e o lago são conhecidos por estes nomes. Entretanto, a irmã mais nova começou a sentir-se cansada e com fome, talvez por ter nadado demasiado. Quando procurava algo para comer, viu um grande pássaro negro que voava na sua direcção com um fruto vermelho no bico. Quando passou por cima dela, o pássaro emitiu um grasnido muito agudo e nesse momento deixou cair o fruto no vestido da rapariga que ainda se encon-

trava pelo chão. Esta deu uma pequena corrida e apanhou-o. Cheirava deliciosamente. Primeiro, mordeu-o com algum temor mas depois, devido ao seu sabor inebriante, comeu o mais depressa que pôde. Quase em seguida sentiu-se pesada e muito quente. Em breve experimentou uma grande ternura pelo mundo humano e um estranho desinteresse pelo mundo celestial, que lhe surgia agora muito distante e sem importância. “Irmã, veste-te depressa que temos de voltar ao nosso palácio”, disse-lhe a mais velha, arrancando-a aos seus sonhos. Mas ela respondeu que não tinha o menor desejo de voltar a casa. As outras duas irmãs ficaram espantadas e advertiram-na de que se não voltasse o pai ia ficar muito zangado. “Minhas irmãs, percebi que as minhas raízes são aqui e aqui pertenço. Este lugar pode-me dar tudo aquilo de que preciso. Não me interessa se nosso pai ficar zangado”. “Mas o que é que te fez ter essa opinião? É, de facto, surpreendente”, retorquiu a irmão do meio. A outra não respondeu mas abanou a cabeça em silêncio. Só depois de muito instada pelas irmãs é que lhes contou a história do fruto e confessou-lhes, ao mesmo tempo, que tinha a sensação de estar grávida. As irmãs ficaram aborrecidas com a história e compreenderam que ela não tinha outra alternativa senão permanecer no mundo dos humanos. Mas como poderia ela sobreviver sozinha naquelas montanhas longínquas? Subiram ao cimo de um pico e viram do outro lado, para além de uma densa floresta, campos de trigo, carneiros, porcos e muito peixe no rio. Assim decidiram levá-la para um campo perto das montanhas onde lhe construíram uma casa numa árvore. Logo que tudo ficou preparado, as duas irmãs mais velhas despediram-se em grande pranto. O tempo passou e Fu Kulun deu à luz um rapaz. Este era estranhamente forte e, pouco tempo depois de nascer, já sabia falar. Passados alguns anos transformou-se num belo rapaz, muito habilidoso na caça e na pesca. A sua mãe deu o nome manchú de Aisin Gioro Bukuli Yongshun e explicou-

lhe que estava fadado pelo deuses a pôr em ordem o mundo. Em seguida, ela arranjou-lhe um pequeno barco e mandou-o rio abaixo, para que encontrasse o seu próprio caminho, e desapareceu. O rapaz, mal se viu sozinho, seguiu as instruções da mãe e desceu a correnteza até chegar a um local onde construiu um abrigo com ramos de salgueiro e um colchão com as folhas inebriantes do absinto. Nesse tempo existiam três tribos que disputavam a terra, lutando ferozmente entre si. Um dia alguém foi buscar água ao rio e deparou com Yongshun. Quando voltou à aldeia contou o seu encontro aos chefes. Os chefes foram à sua procura e assim conheceram esse rapaz tão estranho mas de fisionomia agradável. Ele era tão forte e inteligente que as três tribos resolveram cessar os seus combates e nomeá-lo seu chefe. E assim Yongshun tornou-se no primeiro antepassado dos Manchús, cujos descendentes são, por isso, excelentes caçadores e pescadores. Os carneiros, os porcos e o trigo que a sua mãe vira do cimo da Montanha da Brancura Eterna tornaram-se nos seus meios de subsistência, geração após geração. A pesca e a caça contribuíram para formar o carácter duro e corajoso dos Manchús, mas também os tornaram gente impiedosa. Anos mais tarde, quando as tribos já não podiam suportar mais os desvarios dos descendentes de Yongshun, revoltaram-se e a sua vingança foi brutal. A revolta e outras que seguiram deixaram apenas um rapaz manchú vivo que se lançou numa fuga desesperada, perseguido por tropas a cavalo. Numa curva da estrada, o rapaz tentou esconder-se, mas os seus inimigos estavam muito perto. Quando estes estavam prestes a chegar, um enorme corvo desceu dos céus e escondeu-o sob as suas gigantescas asas. Os soldados passaram e não o descobriram. O rapaz salvou-se e com o tempo recuperou o seu poder e prosperidade. Desde então, os Manchús têm grande respeito ao Corvo e prestam-lhe homenagem, porque foi ele, esse grande pássaro negro, que salvou o seu antepassado.

G a l e r i a da L i v r a r i a P o r t u g u e sa 11 d e F e v e r e i ro a 4 d e M a r ç o , 2011


h - Suplemento do Hoje Macau #4