PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2377. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
ARTES, LETRAS E IDEIAS
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José Vicente Jorge
e a identidade macaense
JOÃO TORDO
PRIMEIRO A VIDA, DEPOIS A ESCRITA
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A Fundação Gulbenkian
e o património luso
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UM MACAENSE Carlos Morais José
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que é ser macaense? Eis uma pergunta de complexidade igual ou mesmo superior a qualquer interrogação sobre a identidade de um povo. Estes serão todos iguais mas ele há certamente alguns que pelas suas vicissitudes históricas e culturais se encontram dotados de uma densidade diferente. E, neste caso, contam-se por certo os macaenses. Daí que considere haver muito para fazer, muita coisa para conhecer sobre esta comunidade, seja do ponto de vista histórico, social ou cultural. Estão, com efeito, por fazer levantamentos exaustivos em quaisquer destas áreas. José Vicente Jorge é uma figura que, sem dúvida, merece estudo e reflexão, não apenas homenagens. Em si mesmo condensou muitas das características da identidade macaense, a saber, a aguda inteligência, a versatilidade, a capacidade comunicação e a criatividade. Erige-se, portanto, em excelente ponto de partida para um projecto cuja ambição passe por dar a ver e a ler aspectos dessa identidade macaense que ele próprio ajudou a construir. A publicação de uma fotobiografia e o aparecimento de uma casa-museu são, indubitavelmente, passos importantes para a História da Cultura de Macau, pois é também através dos seus mais lídimos filhos que um povo se desvenda, que emerge algo do seu melhor, em toda a pujança de uma individualidade que marcou o seu tempo e as gerações a haver. É a pensar nestas que aqui prometemos dar a atenção devida aos desenvolvimentos desta história, sabendo que tal não basta e que é preciso um sério esforço para que não se apague no tempo. Essa responsabilidade cabe aos vivos, já que os mortos há muito desempenharam – e bem – o seu papel. Macau atravessa um momento vibrante da sua História. Mas estes momentos são também perigosos, na medida em que existe a tendência para concentrar o olhar no futuro e esquecer o passado. Ora sem referências as pessoas transformam-se em odres vazios, de onde se escoou o vinho e assim se perdeu o travo da autenticidade e – numa palavra – da sua própria identidade. É nisto que gostava de ver as novas gerações a pensar.
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ELITES MACAENSES, ESSAS
DESCONHECIDAS JOSÉ VICENTE JORGE EM ANÁLISE NA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
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Carlos Picassinos
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ONTINUA a existir um profundo desconhecimento em Portugal sobre a cultura e a comunidade macaenses tal como a academia e a sociedade civil estão ainda separadas por um fosso. É esta a convicção da presidente da Associação Wenceslau de Moraes (AWM) manifestada, na segunda-feira passda, durante uma sessão dedicada à figura de José Vicente Jorge promovido em Lisboa pelo Seminário Permamente de Estudos sobre Macau da Universidade Nova. Maria Helena Rodrigues, antiga presidente do Instituto Português do Oriente, faz uma análise à figura do sinólogo de inícios do século passado José Vicente Jorge para concluir que as relações entre Portugal e Macau continuam marcadas pelo que diz ser uma desvalorização da cultura macaense. “Penso que as relações com Macau não valorizam suficientemente a cultura macaense que tem muitas cambiantes e tem razões para os portugueses conhecerem. Não é só a parte folclórica, há uma grande riqueza na comunidade e na cultura macaense”, explicou, depois ao hoje Macau. A Associação Wenceslau de Moraes “gostaria de fazer passar essa mensagem” e “recuperar a memória de outros tempos ligando-a a uma identidade e fazer a ponte com a comunidade macaense para valorizar o que a comunidade macaense tem de intrinsecamente seu”. A presidente ressalva que não se trata de “estar à procura do que tem de português ou de chinês. Não se deve ir por aí, mas antes ver o que a comunidade macaense tem de seu, de autêntico e que não foi adulterado pela presença portuguesa”. O debate e as intervenções durante o seminário não deixaram de demonstrar esse conhecimento que Maria Helena Rodriges falava e que Pedro Barreiros, neto de Vicente Jorge, e orador convidado também expressou ao Hoje Macau. “Esta identidade macaense é uma coisa que ninguem sabe muito bem o que é, mas as pessoas aqui também não sabem muito bem o que lá se passa. Agora como o crioulo de Macau é um assunto que começa muito a ser agitado vão fazendo perguntas”. Não é só entre os curiosos, ou entre o público destes seminários, que o desconhecimento impera. Na academia não é muito diferente. “Sinto que existe um gap entre a academia e a sociedade civil, penso que até já está melhor, mas sim essa divisão continua a existir”, retoma Maria Helena Rodriges. “Só agora, existe alguma abertura da parte da comunidade macaense que penso percebeu que valia a pena fazer essa abertura à academia. Acho que para a comunidade macaense é fundamental que se estude a sua identidade”. O caso da elite intelectual macaense de princípios do século passado é sintomático desse alheamento, prossegue Helena Rodriges. “Acho que Macau continua a ser muito mal conhecido em Portugal
e o desconhecimento de uma certa elite intelectual macaense é comum. E a ignorância sobre o tipo de pessoa como José Vicente Jorge é exemplar disso mesmo. Claro que se pegarmos num Camilo Pessanha toda a gente conhece” mas esta camada da elite intelectual de continua ignorada. “E cá em Portugal, Macau ainda é patacas. Penso que isso se deve muito àquela imagem que veio para Portugal nas últimas décadas da administração portuguesa. Olhava-se para Macau de uma maneira muito condicionada por esses acontecimentos”. O impulso do patuá Apesar de tudo, sopra alguma mudança no estado de coisas. A partir de agora será mais fácil – não sei exactamente como está a Universidade neste momento a trabalhar, mas até há pouco tempo começava a haver interesse das pessoas sobre aquilo que é a identidade macaense. Ou seja”, afirma a dirigente, “é importante não deixar morrer os traços caracteristicos da identidade macaense nomeadamente através do patuá. O estudo do patuá deu realmente esse grande impulso”. Além deste ponto, os sucessivos inter-
Helena Rodrigues pensa que para a comunidade macaense é fundamental que se estude a sua identidade câmbios entre a universidade local e as portuguesas têm permitido também efectuar uma actulização do conhecimento e “neste momento, a academia cá já tem neste momento muito mais informação sobre Macau do que tinha há meia dúzia de anos”. O trabalho de produção de fotobiografias de figuras macaenses também tem vindo a contrariar este estado de coisas. Na segunda-feira, Pedro Barreiros mostrou aos presentes a fotobiografia já completa do seu avô – cerca de 600 páginas em edição trilingue e 400 fotografias – que deverá ser lançada, em Macau, no próximo mês de Dezembro, tal como falou da sua nova menina-dos-olhos: a casa-museu José Vicente Jorge que, a partir de 2013, pretende reunir o espólio do sinólogo, obras adquiridas pelos familiares e criar também as salas Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha. Durante este seminário, Pedro Barreiros anunciou ainda a intenção do Museu Oriente organizar uma exposição em Lisboa em volta do universo de José Vicente Jorge antes do espólio deixar a capital portuguesa. “Vai funcionar como casa-museu dentro de uma zona cultural e será dinamizada com uma grande componente audiovisual e com coisas que despertem o interesse das camadas mais jovens. Não será um museu passivo”.
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CO N V E R S AINAC ABADA
JOÃO TORDO, ESCRITOR
“GOSTO MAIS DE VIVER DO QUE DE ESCREVER” A CRÍTICA É UNÂNIME. JOÃO TORDO É, AOS 35 ANOS, UM DOS BONS VALORES DA ESCRITA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA. ESCREVE PARA COMPREENDER OS OUTROS E, POR CONSEGUINTE, CONHECER-SE A SI PRÓPRIO. AINDA NÃO CONSEGUIU ENTENDER QUAL A UTILIDADE DO NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA E CONSIDERA DE TOPO A LITERATURA ESPANHOLA.
Gonçalo Lobo Pinheiro Já disse por diversas vezes que escreve para compreender os outros e através deles compreender-se a si próprio. Já se compreende melhor? Sinceramente acho que não. Com cada livro vou compreendendo um pouco melhor a pessoa que sou. Nesse sentido, posso dizer que me compreendo um bocadinho melhor mas nós não nos compreendemos a nós próprios sem os outros. Nós compreendemo-nos através de outra pessoas e eu acho que compreender os outros é a coisa mais complicada. Os livros também servem para isso. Para descobrirmos a pessoa que somos e como vamos evoluindo na vida. E que pessoa, neste momento, é que o João é? Sou um miúdo num corpo de graúdo. Não sou propriamente a pessoa mais responsável do mundo nem me considero um daqueles adultos completamente formados. Acho que tenho uma dedicação muito grande àquilo que faço mas não sei dizer precisamente quem sou. Tenho alguma dificuldade em definir-me. A carreira artística do seu pai, Fernando
Tordo, serviu de inspiração em alguma coisa daquilo que é como escritor? Não. O meu pai faz uma coisa muito diferente. Talvez geneticamente haja alguma coisa que tenha a ver com a palavra. O facto de nós os dois lidarmos com as palavras porque ele também escreve os textos das suas músicas. Só vivi com o meu pai até aos quatro anos e depois da separação dos meus pais as coisas mudaram, por isso, apesar de ter nascido num ambiente artístico não cresci nele. Filosofia, guionismo, literatura, jornalismo. Onde é que isto tudo se encaixa na vida do João Tordo? Não se junta. Não são coisas compatíveis. Eu já fui jornalista mas hoje em dia já não faço muito jornalismo. Escrevo crónicas mas não sei se isso conta. Não faço jornalismo como fazia. Quanto ao guionismo também não tenho feito ultimamente. Vou fazendo aquilo que me apetece para poder sobreviver. São coisas ligadas à palavra, muito compatíveis e muito incompatíveis ao mesmo tempo. Como é que o jornalista que eu fui ou que sou ajuda o romancista que sou? Não faço ideia… Talvez neste novo
romance que terminei agora, e levou muita investigação, me tenha portado como um jornalista. Neste caso as coisas complementaram-se. Porque é o uso da primeira pessoa nos seus livros? É um estilo seu? Acho que cada escritor tem de encontrar a sua voz. Há escritores que têm várias vozes, têm polifonias, e há escritores que dependem de uma voz narrativa com a qual se sentem confortáveis. As pessoas quando pegam num livro de determinado escritor percebem logo que é ele. No
meu caso é a voz com que me sinto bem. Permite uma aliança entre ficção e realidade. As pessoas que lêem os meus livros pensam que o herói é o João Tordo mas nunca é. É o alter-ego. Esse alter-ego permite-me estar próximo e distante. Como é que um homem ligado às letras vê o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa? Pessoalmente, quando o vejo impresso, acho feio. Não percebi muito bem se é assim tão útil ou não. Ainda não me explicaram bem qual a utilidade, a não
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ser o facto de os brasileiros serem aos milhões e nós menos. Penso que de certo modo estamos nós a submetermo-nos à grafia deles. Não vejo utilidade e rouba a latinidade ao português. Como é que o escritor João Tordo vê o estado a que Portugal chegou do ponto de vista económico, social e político? Vejo com grande desagrado. Claro que isso não é só em Portugal. A crise é global. Fomos todos aldrabados por um grupo restrito de pessoas, e falo dos economistas de Wall Street, dos bancos de investimento, das pessoas
touros e vamos ver o que acontece. Acho que andamos sempre às turras. Já escreveu letras de músicas para o seu pai? Não, nunca. E gosta de poesia? Gosto de alguns poetas mas não leio muita poesia. O que é que é escrever para si? Tornou-se num modo de vida. Não é uma coisa que me dá de vez em quando. Não sou pessoa muito dedicada à inspiração. É uma maneira de tentar perceber que tempos são estes que estamos a
“Acho que, sem dar nomes, todos os políticos sem excepção deveriam estar envergonhados com a sua actuação na última década. Os portugueses estão muito cansados desta guerras partidárias que não levam a lado nenhum” que jogaram com o dinheiro dos outros durante anos e anos. Não falo só de Portugal. Em Portugal temos um problema acrescido porque existe uma questão política. Acho que, sem dar nomes, todos os políticos, sem excepção, deveriam estar envergonhados com a sua actuação na última década. Os portugueses estão muito cansados desta guerras partidárias que não levam a lado nenhum. Esta mudança constante entre PS e PSD cansa. Os portugueses já não querem saber disto. Fomos sangrados por esta políticas. Qualquer dia já não temos sangue e a paciência está a esgotarse. As lutas políticas entre os partidos não interessam nada aos portugueses. Os portugueses querem ter uma vida melhor. Querem lá saber se o Passos Coelho é mais esperto que o Sócrates, ou vice-versa. Lembrando novamente o teu pai, acha que o país vive uma “Tourada”? Não sei se o país nunca viveu outra coisa que não uma tourada. Estamos a falar de um país muito pequeno e periférico. Com uma mentalidade muito arredada e a tourada é um pouco isso. Soltam-se os
viver. A escrita implica pensamento e racionalidade. Implica ficar muito tempo a pensar numa coisa. A escrita serve para compreender coisas que não podem ser compreendidas. Como se desenrola o processo da sua escrita? Depende dos livros. Há romances que têm pesquisa outros nem tanto. O meu processo de escrita que não precisar de investigação é uma questão de me sentar. Normalmente tenho um rascunho onde, durante cinco meses, vou escrevendo o mesmo número de páginas por dia. E sempre durante o dia. Combater a preguiça e não me deixar atrasar. Às vezes também é monótono, outras vezes divertido. Às vezes não me apetece nada mas é o meu trabalho. Disse uma vez que só começou a escrever romances quando tinha alguma experiência de vida. Quer explicar? Isso vem no sentido de que sou um escritor que depende muito da vivência exterior. As personagens que vou criando e as situações que estão nos meus livros dependem do facto de eu, apesar de não ter vivido coisas semelhantes, ter vivido coisas próximas e ter conhecido pessoas
que se comportam daquela maneira. Não sei se teria imaginação suficiente para imaginar aquilo tudo. Preciso de alguma experiência para perceber o como é que a cabeça das pessoas funciona e do que é que elas são capazes de fazer. Não sou um escritor iminentemente reflexivo ou filosófico. Dependo muito da minha experiência e de diferentes cenários geográficos porque os livros passam-se em diversos locais. Venceu o Prémio Jovens Escritores em 2001. Comecou aí uma grande carreira? Não sei se a minha carreira é grande. É pá, é uma carreira. Depende. O tempo dirá. E a conquista do Prémio Literário José Saramago em 2009, que representa para si? É uma pergunta que já me fizeram diversas vezes e eu nunca sei bem como responder. Claro que foi um grande orgulho. Conheci o Saramago nessa ocasião. Tudo isso deu a conhecer um lado positivo que é começar a vender muitos mais livros mas também um lado menos bom quando tive de escrever o meu quarto romance logo a seguir ao prémio porque fiquei um pouco encravado. As expectativas subiram e o meu problema foi não saber se conseguiria chegar novamente às nuvens. Sabia que o meu próximo romance depois do prémio iria ser escrutinado. A crítica estava ali. Tive um certo temor a escrever mas às tantas deixei os complexos de lado e escrevi o romance que me apeteceu escrever. Já teve em Macau? Não. Tríades, jogo, dinheiro, Macau. Acha que estão reunidos ingredientes para um bom romance? Quando eu for à China jogar num casino e uma tríade me tentar assassinar (risos). Tenho de conhecer o ambiente antes. Não consigo escrever sem conhecer as coisas. Mas tenho imensa curiosidade em conhecer Macau o que, infelizmente, ainda não aconteceu. Que livros tem actualmente na mesa de cabeceira? Tenho um livro do Enrique Vila-Matas, o “Dublinesca”. Outro do Javier Cercas chamado “O Ventre da Baleia” e tenho ainda o “Sinais de Fogo” do Jorge de
“A escrita implica pensamento e racionalidade. Implica ficar muito tempo a pensar numa coisa. A escrita serve para compreender coisas que não podem ser compreendidas”
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Sena. Ando a ler os três ao mesmo tempo. O escritor Miguel Leal considerou, numa entrevista ao nosso jornal, que o João, a par do José Luís Peixoto e do Gonçalo M. Tavares, são os grandes nomes da literatura contemporânea portuguesa. Quer comentar? O Miguel é muito simpático. Sinto-me agradecido porque ele é um fantástico escritor do qual se devia falar muito mais. Os livros dele são um prodígio não só de língua mas também de imaginação. Viveu dois anos em Nova Iorque. Foi uma experiência enriquecedora viver numa grande cidade? Foi uma experiência pessoal enriquecedora. Em termos de estudos não teve grande importância mas foi engraçado pelas pessoas que conheci e pelas coisas que fiz. Sobrevivi naquela cidade. Foi uma experiência que nunca tinha tido, ser um tipo completamente anónimo numa cidade muito grande. Embora já tivesse vivido em Londres, em Nova Iorque tu sentes mesmo aquela coisa de cidade grande. Senti-me pequeno e isso foi bom. O que significa para si Edgar Allen Poe, Herman Melville ou Dostoievski? São escritores que leio e releio mas com os quais actualmente já não me identifico. Foram escritores com os quais cresci e que influenciaram a minha escrita. São grandes mestres mas hoje em dia leio outras coisas. Muita gente diz que sou influenciado pela literatura anglo-saxónica mas eu leio mais livros espanhóis que são os que produzem a melhor literatura hoje em dia. Como lida com o sucesso que tem vindo a alcançar? Não lido. Não acho que tenha assim tanto sucesso. Tenho alguma dificuldade em congregar todos os compromissos que tenho hoje em dia. Às vezes roubo tempo à escrita que é uma coisa que não me agrada. Eu tento fazer uma vida normal e quando saio à rua as pessoas não vêm ter comigo. Adoro ter vida social. Eu preciso viver. Eu ainda gosto mais de viver do que de escrever. BIOGRAFIA Nome: João Tordo Data de nascimento: 28 de Agosto de 1975 Naturalidade: Lisboa BIBLIOGRAFIA (Romances) “O Livro dos Homens Sem Luz” (Temas e Debates), Novembro de 2004 “Hotel Memória” (Quidnovi), Fevereiro de 2007 “As Três Vidas” (Quidnovi), Setembro de 2008 Prémio José Saramago 2009 “O Bom Inverno” (Dom Quixote), Setembro 2010 (Antologia) “Contos de Vampiros”, Porto Editora, 2009 “Dez História Para Ser Feliz”, Dom Quixote, 2009 “Um Natal Assim”, Quidnovi, 2008 “Contos de Terror do Homem Peixe”, Chimpanzé Intelectual, 2007 “O Homem Que Desenhava na Cabeça dos Outros”, Oficina do Livro, 2006
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A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS
Os líderes iluminados de outrora limitavam aquilo que obtinham de seus súbditos.
CAPÍTULO 152 Lao tzu disse: Os líderes iluminados de outrora limitavam aquilo que obtinham de seus súbditos e viviam com moderação. Antes de se apropriarem fosse do que fosse aderiam sempre os ganhos do ano: avaliando as provisões do povo, aplicavam impostos apenas após estabelecerem perdas e ganhos. Assim, partilhavam o que era recebido do céu e da terra e evitam as agruras da fome e do frio. Tal era sua compaixão pelo povo que não temperavam a própria comida se houve alguém faminto no país e não usam peles se alguém lá passasse frio. Partilhavam as mesmas penas e alegrias do povo de modo que ninguém andava miserável pelo terra. Os líderes ignorantes não são assim: tomam do povo sem aferir a sua força, rapinam dos seus súbditos sem avaliarem as suas provisões. Homens e mulheres não se podem ocupar de seu lavrar e tecer para atender às exigências de seu soberanos; de força exaurida e fazenda esgotada, desconhecem todas as manhãs se sobrevirão por mais um dia. Líderes e súbditos só partilham ódio mútuo. A vida humana é tal que, se um homem cultiva acre e meio de terra e dele tira apenas umas poucas sacas de cereal, sua família passará fome. Sendo mau o ano, nada havendo que dar ao governo, um líder benévolo se apiedará. Se os líderes gananciosos e os senhores cruéis sangram seus súbditos até à última gota de modo a prover a seus infindos desejos, então, o povo comum não partilha da harmonia do céu e das bênçãos da terra. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
O texto conhecido por Wen Tzu, ou Wen Zi, tem por subtítulo a expressão “A Compreensão dos Mistérios”. Este subtítulo honorífico teve origem na renascença taoista da Dinastia Tang, embora o texto fosse conhecido e estudado desde pelo menos quatro a três séculos antes da era comum. O Wen Tzu terá sido compilado por um discípulo de Lao Tzu, sendo muito do seu conteúdo atribuído ao próprio Lao Tzu. O historiador Su Ma Qian (145-90 a.C.) dá nota destes factos nos seus “Registos do Grande Historiador” compostos durante a predominantemente confucionista Dinastia Han. A obra parece consistir de um destilar do corpus central da sabedoria Taoista constituído pelo Tao Te Qing, pelo Chuang Tzu e pelo Huainan-zi. Para esta versão portuguesa foi utilizada a primeira e, até à data, única tradução inglesa do texto, da autoria do Professor Thomas Cleary, publicada em Taoist Classics, Volume I, Shambala, Boston 2003. Foi ainda utilizada uma versão do texto chinês editada por Shiung Duen Sheng e publicada online.
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E N S A I O S O B
Na primeira versão do “Ensaio Sobre a Visão” vamos ensaiar Macau. Aqui, no complexo terreno percorrido pelos fotógrafos do território. Uma zona, uma rua, um edifício. A água que bebemos dentro de uma mão cheia de imagens. A Fotografia sem explicação, para que se compreenda o que é a Cidade. Esta cidade onde vivemos.
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Baixa
Boi Luxo
Boi Luxo não é fotógrafo. Nasceu em Alcântara mas vive presentemente na zona do Hospital Kiang Wu. Estas fotografias foram tiradas na Avenida Almeida Ribeiro, na Baixa de Macau. As reacções dos transeuntes foram diversas, na sua maioria de agradada participação. Um homem mostrou-se, no entanto, muito desagradado (talvez com muita razão) e este pseudo-fotógrafo pensou, erradamente, que iria ser agredido. Estas fotografias sofreram alterações, várias alterações. Ao fim de 5 dias de fotografias comecei a ser cumprimentado. Esta é, sem dúvida, uma das zonas mais interessantes da cidade.
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luz de inverno
Boi Luxo
JOSEON NAMNYEO SANGYEOLJISA (UNTOLD SCANDAL), 2003
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STE FILME DESLOCA-SE COM LENTIDÃO, DE PASSOS ABAFADOS, POR CAMINHOS EM QUE O PERIGO ESPREITA A CADA MOMENTO. Ele aproxima-se e afasta-se, no meio de um silêncio que é floral de aspecto mas deliciosamente enganoso, de lugares que o poderiam levar a uma banalidade atroz, lugares que são os lugares da televisão ou os lugares de certa literatura ou de certa pintura. Por vezes os passos que a madeira dos soalhos recebe não têm um destino imediatamente identificável e é necessário esperar o fim do caminho para conhecermos o seu intento. Isto obriga a concluir que este é um daqueles objectos que nos leva a segui-los de perto e a tentar adivinhar os seus mais secretos desejos, sem que este disso se aperceba. Por vezes este filme caminha depressa e por vezes com uma lentidão que cria o nervosismo próprio à antecipação. Deve ver-se lembrando sempre que o esforço que faz em nos tentar enganar não é levado muito a sério e que é um filme de um eterno sorriso suspenso, fiel e próximo à sobriedade do famoso romance epistolar em que se baseia. Até o seu aspecto turístico, que aos ignorantes da Ásia mais eficazmente excitará, não esconde, por trás do peso da sua impossível
beleza, um sorriso de troça e um desejo juvenil de não impor a sua vontade com demasia violência mas de a deixar soltar-se e libertar-se de qualquer pretensão. Assim, deixarmo-nos levar, sem necessariamente nos deixarmos enganar, por este filme, não trará certamente nenhum malefício. Antes pelo contrário, poderá funcionar como uma benéfica unção de outono, a estação em que esta estória se desenrola e cujas cores imita. Desenganem-se os que são levados a pensar que esta poderia ser uma estória primaveril. Tudo se passa, ao invés, num lugar do ciclo anual em que o brilho intenso do sol se começa a deixar substituir pela impressão do começo do fim, pela impressão da chegada inexorável do inverno - cujo primeiro sinal evidente são os flocos que neve que cobrem o corpo morto do sedutor. Mas isso passa-se no fim do filme, um fim menos bom e de onde estão ausentes as cores quentes da traição e do desejo animal pelo poder que constituem o seu núcleo florido e belo. Que se não mantenha, perene, este desejo, é a insuficiência de Lady Cho e de seu sobrinho. Se a visão do mar retira a alguns o poder se de deixar encantar pelo rio, como é dito algures pelo sedutor desta estória, ela (a estória) vem também lembrar-nos que do rio, mesmo após a visão do mar, se podem continuar a ex-
LEE JE-YONG
trair incontáveis deleites, porventura mais modestos mas sempre plenos de nóveis picantes. Armados das ambiciosas certezas que este filme nos permite exibir, poderemos então assistir confortavelmente aos feitos e desfeitos do Valmont coreano, também setecentista, também implacável e ao mesmo tempo igualmente vulnerável e, no final, alvo de pena e pouca admiração. A estória é conhecida e não merece aqui repetição. Mas que outra cinematografia para além da coreana poderia melhor rodear e acariciar de modo tão sincero os suaves contornos da estória de Laclos? Que outra cinematografia saberia, neste momento (a tailandesa?), combinar de modo tão perfeito a frescura e o elegante cinismo setecentista e a indelicadeza do seu fim? Que outra cultura tem demonstrado uma perícia tão fina na combinação de elementos de natureza aparentemente tão díspar, quer se trate de cores ou de materiais que se mostram, a um primeiro olhar, impossíveis de combinar? Doces desenganos, improváveis encontros. Um carrego brutal nos azuis, um entendimento íntimo dos vermelhos. Uns amarelos tão mortiços e outros vivíssimos deslizam pelos soalhos de madeira, pelo lago atravessado de barco, testemunhas das conversas que preparam ou comentam os inesperados labirintos
em que os amantes tentam perder-se. A palidez e o viço como emblema das mulheres que o ostentam. Esta é uma compreensão da cor muito diversa da japonesa, esta mais líquida, aquela mineral e vegetal, um desenho de traço mais grosso e mais pesado no mobiliário, nas coiffures e na própria língua. Que o romance de Laclos tenha sido já adaptado em 1970 por outro realizador coreano, Young Nam Ko, realizador de muitos melodramas e filmes de acção (e este também é um filme de acção) é anúncio bastante da inclinação coreana para a representação dos caminhos tomados pelo coração e pelo desejo do poder. Este filme chama-se Uiheomhan gwangye. Já notáramos também como o cinema recente coreano nos leva por caminhos, por vezes longos e muitas vezes violentos, onde a surpresa é um artifício constante. Após as revoluções que a narrativa nos faz percorrer chegamos, muito subitamente, a um sítio deste filme despretencioso e que parece outro, um sítio com uma cor diferente e com um ar diferente. São as cenas marítimas finais. É nelas que o filme sai do seu aspecto mais provinciano e se torna mais universal mas também, porventura, menos singular. É nestes segundos que toma uma seriedade que lhe não desqualifica, no entanto, o tom dançante que tomara no seu início.
MACAU, O LEÃOZINHO MORIBUNDO Antønio Falcão Ontem na rádio, Darren Copas, o gerente do departamento de entretenimento do MGM, disse que o seu Lions Bar tem um dos melhores conjuntos musicais de toda a Ásia; que não é uma banda que anda daqui para ali, mas que foi formada especificamente para pisar o palco deste espaço nocturno do hotel-casino de Pansy Ho, que reabre hoje ao fim de vários meses de estaleiro. Pode até ser muito verdade, o que diz, mas entre este grupo e o que toca no Moonwalker, uns passos mais ao lado, não há diferença nenhuma: ambos tocam os mesmos temas. Os “sucessos” que já todos ouvimos 500 mil vezes e que tocam em toda a parte do mundo. Poderão dizer-me que a Lions Band é mais isto ou aquilo, está bem, mas a mim não me encanta e, de um modo geral, podíamos cingir o capítulo da música ao vivo deste território nesta parca amostra. Também é fácil, em Macau, apontar o dedo a qualquer coisa e dizer que não vale nada, para não usar termos piores. O DD, porque tem uma fauna incrível digna de um zoo; que aquilo a que chamam “as Docas” está tanto às moscas como às plumas da; que o Blue Frog fica no cu de Judas... e por aí fora. Mas a verdade é que bastam três dedos de uma mão – a mão toda para os mais optimistas – para que se referencie o panorama de oferta musical ao vivo de Macau. Ele há músicos, sim, também há promotores ávidos por colocar os seus projectos a rodar nos pequenos palcos da RAEM, mas olhando para um lado e para o outro, a paisagem é deveras limitada. O reLions Bar tem o seu programa construído, as Docas é o que se sabe, mais à frente o RoadHouse, não passa de um canto, que encanta o tijolo falso do papel de parede. Do outro lado da cidade o XL Creations, outrora cheio de actividade nocturna, perdeu o seu fulgor; o seu vizinho Armazém do Boi também não é flor que se cheire em termos de acústica, embora tenham tentado plantar algumas sementes no subsolo da cidade, com algumas representações de interesse, mas que colheita não deram fruto. Perto das Ruínas temos um pequeno espaço que abre de vez em quando para uma dúzia de espectadores. E o que temos nas ilhas, alguém me diz? O Venetian, com a sua Arena, tem feito o gosto de muita gente, conseguido encher o seu recinto já por várias vezes, uma lotação de vários milhares de pessoas. Também aí pudemos assistir a alguns nomes de valor mundial, mas aí o público não acudiu com tanta vontade. Deixando figuras como a Peaches à mingua de um par de centenas de fiéis seguidores. Lá em cima no Blue Frog, um espaço que poderia ser também a carruagem de um comboio, não sei realmente como descrever o esforço que ali é feito. Cá em baixo já tivemos grandes momentos, como as Go Chic, mas apesar de todo o investimento, o restaurante não replica a força de vontade, mais uma vez por causa do som, o mais importante da equação. Depois temos os festivais oficiais e semi-oficiais que assolam o território em alternância com a época dos tufões. Novamente dizer só mal é uma hipérbole. Mas aqui ao lado, na outra RAE, aposta-se forte no campo musical, e todos os fins-de-semana podemos encontrar lenha para nos queimar. E quando na verdade se aposta num verdadeiro festival - de rock ou lá o que seja -, um festival à séria, como os que acontecem do outro lado do mundo, toda a Ásia se move para encontrar o caminho para lá chegar e aí temos um estádio cheio. Mas Macau não, não tem audácia para isso, apesar do bla bla bla todo, que isto é a pérola do oriente e mais que tanto. Quando Darren Copas diz que tem uma das melhores bandas e um dos melhores espaços, posso acenar com a cabeça, sim, porque tudo isso faz um pouco parte do cenário. Mas na verdade o que Copas devia fazer era aproveitar o seu palco, e os seus novos LEDs, para pôr Macau a bombar. E aí sim, tirava-lhe o chapéu. Se por ventura o tivesse.
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próximo oriente
Hugo Pinto
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A LIBERDADE DE DIZER NÃO
Na essência, o No Wave era um anti-movimento e uma contradição virada para múltiplas direcções, tantas quantas as que lhe deram origem. “No final dos anos 70, Nova Iorque era o sítio ideal para dizer ‘não’. A cidade transformara-se num extenso terreno baldio, especialmente os bairros da baixa, abandonados, onde se vivia de praticamente nada.” É esta a descrição, sucinta, do ambiente que gerou o movimento No Wave. Vem no livro de Marc Masters, “No Wave” (2007), sobre o período fugaz que juntou músicos e demais artistas, do blues ao punk, passando pelo avant-garde e a experimentação, todos em uníssono na reacção e rejeição da New Wave reinante. O niilismo militante dos Suicide, Glenn Branca, The Lounge Lizards, Lydia Lunch ou dos Sonic Youth ainda hoje intriga os investigadores da história da música. Na essência, o No Wave era um anti-movimento e uma contradição virada para múltiplas direcções, tantas quantas as que lhe deram origem. Disperso por natureza, cedo se dissipou nos fumos das chaminés industriais e nas poeiras levantadas pelo “noise” maquinal, mas a verdade é que os efeitos do No Wave galgaram as margens do tempo e do espaço. A música industrial e o “noise” foram as consequências mais imediatas da influência do “underground”
nova-iorquino, que também deixou marcas no cinema, noutras artes e noutras partes. Pequim, por exemplo. Em pleno século XXI, o centro do “socialismo de características chinesas” (no jargão oficial e oficioso) serviu de pano de fundo para uma reencenação da aventura vivida na “Big Apple”, há quase 30 anos. Em 2005, na capital chinesa, foi posto à venda um CD, duplo, com uma fotografia do fosso que guarda as muralhas da Cidade Proibida. “No Beijing”, dizia o título acompanhado por quatro nomes: White-2j, Snapline, The Gar, Carsick Cars. São as quatro bandas iniciais de uma cena que despontou em força e que levou a uma internacionalização de músicos chineses sem precedentes. Depois do disco “No Beijing”, o “bando dos quatro” passou a ocupar o palco do D-22, o clube referência da cena “indie” e alternativa de Pequim. Não tardou a que outras bandas se juntassem (AV Okubo, Joyside) e também não passou muito tempo até que os proprietários do D-22 se apercebessem de que estava na altura de criar uma editora. Assim nasceu a Maybe Mars. Lançou os discos destas bandas e, em 2009, levou-as em digressão pelos Estados Unidos. A “Indie Chi-
na” foi notícia de destaque no New York Times, na Esquire e até na Foreign Policy, onde Matthew Niederhauser publicou um ensaio fotográfico que documenta “o outro lado do ‘boom’ urbano da China”. Niederhauser chegou a Pequim, em 2007, para trabalhar num projecto sobre desenvolvimento urbano e a nova arquitectura, mas acabou por passar o tempo nos bastidores do D-22. Foi aí que, durante dois anos, retratou as figuras do novo rock chinês. Em entrevista ao Washington Post por alturas da digressão americana dos “rockers” chineses e a propósito da sua exposição e livro, “Sound Kapital: Beijing’s Music Underground”, o fotógrafo respondeu a uma pergunta do incrédulo repórter sobre a mera existência de um movimento rock “underground” numa capital comunista explicando que “os tubarões de Pequim têm mais com que se preocupar do que 80 miúdos aos saltos num clube.” Miúdos que, segundo Niederhauser, estão longe da geração de Tiananmen e não pedem revoluções, apenas a liberdade de um estilo de vida alternativo à sociedade de consumo que toma conta de Pequim e da China. No fundo, apenas liberdade de dizer “não”.
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C I D A D E S I N V I S Í V E I S
metrópolis
Tiago Quadros*
FENÓMENOS DE SÍNTESE
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PATRIMÓNIO ARQUITECTÓNICO DE ORIGEM PORTUGUESA NO MUNDO TEM SIDO OBJECTO DE CUIDADOS DE RECUPERAÇÃO DE ÍNDOLE VÁRIA, COM A CONTRIBUIÇÃO DA FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN. Na sua variedade, na sua espontaneidade e no seu eclectismo, que nunca lhe retiram um genérico carácter de família que nos permite a sua permanente identificação, existe uma arquitectura portuguesa. São estes fenómenos de síntese que serão exibidos numa exposição itinerante por todo o continente Asiático. No passado dia 10 Maio foi inaugurada em Banguecoque a primeira etapa de um périplo que passará também por Jacarta e Macau. O evento, apoiado pela Missão Comemorações Ásia, Embaixada de Portugal e Instituto Camões, coincide com o ponto alto da evocação dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião, actual Tailândia. A exposição The Portuguese Historical Heritage Through The World and the Calouste Gulbenkian Foundation, de que é curadora Maria Fernanda Matias, do serviço internacional da Fundação Calouste Gulbenkian, nasceu em 2001, tendo sido mostrada já em Paris (por duas vezes, a última das quais em 2010, na UNESCO), Bilbau, Barcelona e também em Portugal. Contudo a exposição não é sempre mostrada na mesma configuração – como agora acontece para se enquadrar no projecto da Missão Comemorações Ásia –, razão pela qual Maria Fernanda Matias reconhece que podemos estar
perante uma mostra de “geometria variável”. A exposição é, segundo a responsável do Centro Cultural Português/Instituto Camões de Banguecoque, Luísa Dutra, “a primeira iniciativa em que colaboram instituições dos dois países: a Fundação e o Instituto Camões e, da parte tailandesa, o Fine Arts Department e o National Museum de Banguecoque”. A colaboração entre o Fine Arts Department e a Fundação Calouste Gulbenkian iniciou-se nos anos 80, quando esta última financiou as escavações arqueológicas no Baan Portuguet (“Campo Português”), onde se situava a antiga feitoria – estabelecida depois do tratado de amizade e comércio de 1516 entre Portugal e o Sião – e três igrejas de Ayutthaya, a capital do reino tailandês até ao século XVIII, lembra Luísa Dutra. “As escavações permitiram a descoberta de um cemitério com inúmeros esqueletos de adultos e crianças, portugueses e siameses, bem como objectos diversificados (moedas, medalhas, crucifixos)”, acrescenta a responsável do Centro Cultural Português/ Instituto Camões. “Na fase seguinte procedeu-se à reabilitação do sítio. As ruínas da Igreja de São Domingos e parte do cemitério podem hoje ser visitados pelo público”. A intervenção, concluída em 1995, contemplou também a construção de um pavilhão para albergar as dezenas de ossadas encontradas e um cais para permitir o acesso fluvial a partir de Banguecoque. A mostra compreende fotografias e textos relativos a intervenções efectuadas ou patrocinadas ao longo dos anos pela Fundação Calouste Gulbenkian, entidade que também é responsável pela edição de uma obra em três volumes
(entretanto traduzida para inglês), dirigida pelo historiador José Mattoso, em que é feito um levantamento exaustivo do património de origem portuguesa no mundo até ao século XX. A propósito da África oriental mostra-se o Forte de Santiago, em Quíloa, na Tanzânia, edificado em 1505, e intervencionado em 1999, e o Forte de Jesus (construído a partir de 1593), em Mombaça, no Quénia, o primeiro monumento a ser restaurado no mundo pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1958, dois anos depois de uma visita de Charles Boxer e Carlos Azevedo – que recolheram informação publicada em livro e novamente alvo de intervenção em 2001. No que ao continente Asiático diz respeito, a exposição mostra duas fortalezas no Irão, a de Ormuz, iniciada em 1507 por Afonso de Albuquerque, e a de Qeshm, ligada ao dispositivo logístico de Ormuz. Relativamente a ambas, a Fundação Calouste Gulbenkian ofereceu às autoridades iranianas projectos de reabilitação. Da Índia, a exposição evoca a instalação em Rachol, feita em 1994 pela Fundação Calouste Gulbenkian, de um museu de arte sacra indo-portuguesa, cujas peças foram posteriormente transferidas para o Convento de Santa Mónica, em Velha Goa, onde podem ser vistas no Museum of Christian Art. Ainda no campo da museologia, está o museu indo-português de Cochim, inaugurado em 2001, no Estado de Kerala, cujo projecto foi realizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. No subcontinente indiano, mostra-se também a intervenção financiada pela fundação e terminada em 2009 na Catedral de Calecute, construída pelos portugueses em
1724, e a intervenção na Igreja do Santo Rosário, em Daca (Bangladesh), de 1677, na base de um projecto desenvolvido pela Fundação Calouste Gulbenkian. Chegada ao sudeste Asiático, a exposição, depois de mostrar a reabilitação das ruínas da Igreja de São Domingos, da feitoria portuguesa de Ayutthaya, prossegue para Malaca, com a apresentação da Porta de Santiago, o último vestígio da fortaleza construída pelos portugueses após a tomada da cidade por Afonso de Albuquerque, em 1511, e da Igreja de São Paulo, construída por jesuítas portugueses. A cruz de Fernão Magalhães, monumento erigido em Cebu, nas Filipinas, no local em que o navegador português colocou uma cruz de madeira para assinalar a sua passagem em 1521, e o palácio da água, em Yogyakarta, na Indonésia, construído no século XVIII na base de planos de um arquitecto de ascendência portuguesa de Goa ou Malaca, completam as intervenções da Fundação Calouste Gulbenkian apresentadas numa exposição em que, além das fotografias e textos, as maquetas constituem um dos principais motivos de interesse. Ao parafrasear Fernando Pessoa que disse, a minha pátria é a minha língua, Alexandre Alves Costa defende que podemos com propriedade dizer que a nossa pátria é também a nossa arquitectura. Daí o dever de a conhecermos e de a defendermos em comum. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
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escritos de passagem
Ana Paula Dias
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WANDERING AROUND KYOTO: O CAMINHO DO FILÓSOFO My Sweet Lord oh my Lord oh my Lord. I really want to see you; Really want to be with you. Really want to see you Lord But it takes so long my Lord. My sweet Lord oh my Lord oh my Lord. I really want to know you; Really want to go with you Really want to show you Lord. But it takes so long my Lord. George Harrison in All Things Must Pass, 1970
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OUTONO CHEGOU ÀS MARGENS DO RIO KAMO. VÊSE NAS RAÍZES DAS ÁRVORES QUE AFLORAM A SUPERFÍCIE TERROSA E SE CONFUNDEM COM A GRAVILHA COR DE CHUMBO, NO MUSGO RASTEIRO E NAS PEQUENAS FOLHAS ESTRELADAS DOS MOMIJI JÁ ALARANJADAS QUE ILUMINAM O CHÃO. Na cor de fogo que incendeia a vegetação e se insinua através dos torii perfilados na sua simplicidade elegante à entrada dos santuários xintoístas. Uma ou outra erva daninha desenha-se graciosamente no tapete vegetal que ladeia o sopé das montanhas Higashjyama. O ar seco sustenta a limpidez da luz. Um homem chegou de longe e sentou-se muito direito encostado a uma das múltiplas colunas de cerejeira polida do templo de Eikan-do. Podia ser o fantasma de Nishida Kitaro que interrompe o seu passeio para meditar sobre o
nada, mas é apenas um viajante no meio de uma viagem. Fecha os olhos e espera imóvel tudo o que o passado não foi e tudo o que o presente não é. De olhos cerrados, pernas cruzadas, os seus joelhos tocam o chão e no seu peito não é percetível o mais pequeno sinal de respiração. Ele, a coluna, a penumbra e o silêncio que se faz em volta deles criam um espaço onde os riachos com o seu barulho de água transparente anulam todos os desejos e nada mais resta senão essa respiração interior e invisível que une a carne com a carne. Em breve será inverno, a neve cobrirá os telhados dos templos e a água ficará muda e suspensa num movimento por concluir. As mães das mizuko jizo calarão o seu lamento, suspenderão a vigília e hibernarão num longo sono até que o sol ilumine de novo estas pequenas estátuas de granito cobertas com barretes vermelhos e bibes pastel. Até que elas lhes sussurrem a palavra inexistente para os que não chegaram a nascer e essas mulheres que choram seus filhos sem alma e sem corpo lhes venham saciar a sede e os guiem em segurança através da terra dos mortos. Alguém lerá o livro de Kawabata e se afundará num sonho melancólico sobre Quioto, a sobrevivente, onde o perfume da beleza e da tradição se desvanecem fatalmente ao ritmo da mudança e da ocidentalização do país. Mas o homem vê. Vê sempre o mesmo azul imenso cheio de luz e transparência. O mesmo azul que é passado, presente e futuro nessa estrada tranquila ladeada pelo rio atravessado por pequenas pontes elevadas em arco e pelas casas de madeira no interior das quais se aninham sóbrios jardins de pedra. Pode ser esse o seu lugar, todos os momentos são o seu lugar, em tudo as suas raízes se entrelaçam e é ar, terra, água e fogo. Vê a esperança que o futuro tem na vida. Vê as carpas ondulantes sulcarem as águas, lentos raios de luz a ofuscar os peixes pretos e a fixidez dos seus olhares parados. Canta uma canção interior, um longo suspiro surdo que se prolonga numa vibração apaziguadora. Há de chegar a primavera. Talvez nasçam crianças das pedras. Talvez os rios transbordem
Mas o homem vê. Vê sempre o mesmo azul imenso cheio de luz e transparência. O mesmo azul que é passado, presente e futuro nessa estrada tranquila ladeada pelo rio atravessado por pequenas pontes elevadas em arco e pelas casas de madeira no interior das quais se aninham sóbrios jardins de pedra. e sejam excessivos e as flores expludam e maravilhem o olhar. Há de chegar a vida certa, exata, perfeita. As lendas cumprir-se-ão e mil tsurus hão de pousar na terra e mil desejos serão realizados. Talvez as mulheres sejam arrastadas para o mundo líquido da doçura e os seus colos arfem de expectativa e as palavras inaudíveis encantem os seus olhos. Na profundidade do coração a alegria, a caminho da música e da imponderabilidade.
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3 do Polifonte por Rodrigo Martins*
Kerényi, o escocês
Costuma esconjurar-se o nome de Kerényi quando se fala da vaga “pop raï” que alastrou no mercado discográfico francês por inícios dos anos 90. O tiro de partida foi dado pelo lançamento do álbum homónimo de Khaled em 1992. O primeiro - e único álbum - de Kerényi saiu apenas dois meses depois. Pegava naquilo que fizera o pioneiro e colocava-o, sem esforço aparente, num patamar difícil de superar. O pequeno pied-noir tinha a urgência dos grandes. Parecia destinado à grandeza, e à sua passagem calavam-se até os murmúrios acerca da sua ascendência mista. Danou-o a cupidez. Envolveu-se com a esposa de outro num restaurante e o esposo ofendido espetou-lhe um garfo na garganta. Não o matou, mas provocou danos irreversíveis nas cordas vocais. A voz de Kerényi, mais maleável que a de Khaled, estava perdida e o seu nome, como se atraísse o azar, deixou de ser pronunciado. Uma biografia recente (Kerényi, “l’écossais”; Hervé Guitton, Livres FlipFlap, 2006) ostenta no título o peculiar manto de mau augúrio que envolveu o seu nome, equiparando-o à superstição teatral que impede que se pronuncie a palavra “Macbeth” e impõe que se use, ao invés, a expressão “a peça escocesa”, a fim de evitar que aconteçam acidentes fatais.
Ilse Pavitch, idiote savante
Da vida da poetisa Ilse Pávitch conhecem-se as ternas e luminosas odes que escreveu acerca da costa da sua Dalmácia natal, bem como as diversas sentenças de prisão a que as suas tropelias de bêbeda a conduziram. A pobre Ilse, aquela que nunca perdia o sorriso embora enxovalhada e abusada, essa espécie de idiote savante de grandes ancas, pertence ao anedotário da poesia balcânica e contam-se acerca dela muitas histórias. Dessas, uma grande parte
é pouco digna de crédito, em particular aquelas que a própria Ilse contava sobre si. Um exemplo famoso é aquela que narra o seu encontro com o monge Kirill, no caminho entre Podstrana e Split.
O mistério segundo o valão Dewolf
No cânone da literatura policial europeia, nem sequer na sua variante belga, não consta o nome de Daniel Dewolf, valão de 57 anos. Não há neste facto qualquer injustiça. Embora pretendesse praticá-la, entregava-se ao invés ao culto do mistério, como o enuncia Guardini no seu ensaio de 1941 sobre Rilke, ou seja como oposto no fundamental ao seu símile - o problema, alvo predilecto da canónica literatura citada. Ou seja, o problema “deve ser resolvido; uma vez que isso aconteça, desaparece”, mas o mistério “pelo contrário, deve ser experimentado, venerado, integrado na própria vida. Um mistério que seja desvendado mediante explicação, nunca foi tal.” Parte da obscuridade que cobre o labor de Dewolf irradia dessa ideia de mistério, que tanto o seduz. Para exemplificar, cite-se como exemplo um conto premiado do autor belga, intitulado “Um caso da cidade de Y...” A trama começa com um homem deitado numa cama de hospital e dele não se sabe o nome mas apenas o estado em que chegou - encharcado e inconsciente, trazido por dois ciclistas. No hospital avaliam o estado do homem, consideram-no inspirador de cuidados e internam-no. Permanece inconsciente e é-lhe diagnosticado um estado comatoso. Cedo esclarecida a questão da sua identidade, falta determinar a dos ciclistas. Não eram muito frequentes os salvamentos na cidade e isso faria deles heróis entre os leitores dos jornais da pequena cidade de Y..., dois dos quais se apressam a enviar cada um um jornalista para averiguar da identidade e paradeiro dos autores dessa benfeitoria. O Jornal de Y... manda um ra-
paz, filho de um polícia, jornalista de desporto. O Diário de Y... envia um jornalista que escreve faits-divers e que está há pouco tempo na cidade. O rapaz e o homem encontram-se pela primeira vez no hospital e uma segunda vez na praia, durante a qual não trocam uma palavra e onde o homem comenta para si da magreza da namorada do rapaz. Antes, no hospital, também se entretém a comentar consigo por entredentes sobre como terá sido que dois ciclistas terão conseguido a proeza de transportar um homem inconsciente, enquanto o rapaz discute com a enfermeira acerca dos ditos ciclistas, agindo como se essa informação fosse vital para algo que não revela. O homem acaba por tomar o partido do rapaz e acabam ambos por ser expulsos do hospital, sem que se estabeleça qualquer laço entre eles. Depois desse episódio e antes de voltarem a encontrar-se na praia Dewolf fala-nos de um casal de passagem pela cidade, um famoso ciclista zarolho e da sua mulher, “uma rameirazinha invejosa”, e narra-nos o encontro desses dois com o rapaz, grande admirador do atleta. Falam do triste destino de Frank Vandenbroucke e o rapaz despede-se. Após o encontro na praia, durante o qual reconhece o rapaz embora não se dê ao trabalho de ir cumprimentá-lo, “não querendo ter que que terminar a explicar ao outro de onde se conheciam”, o homem volta para casa e pelo caminho cruza-se com quatro raparigas que pedalam, discutindo entre si numa língua que ele não conhece. A cena encerra o conto e Dewolf, entrevistado a propósito do prémio de conto de mistério e sobrenatural que ganhara com ele, considerou “natural” que lho atribuíssem e não respondeu a perguntas sobre o seu significado.
* o Sebastião de Spinigrado
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À S U P E R F Í C I E
A PARTIR DA RUA DOS REMÉDIOS, DE ALFAMA António MR Martins
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AVIA UMA SACADA ESTREITA, VARANDA LONGITUDINAL, NO QUARTO ANDAR DUM PRÉDIO DA RUA DOS REMÉDIOS, EM ALFAMA, PARA ONDE FUI MORAR COM MINHA MULHER, PÓS MATRIMÓNIO, NA CASA DE UMA SUA FAMILIAR, A TIA ELVIRA. Dessa varanda se avistava o Tejo e a margem sul, na outra banda, que é como quem diz: na outra margem do rio. Naquele andar de um prédio antigo, que havia escapado ao terramoto de 1755, não no andar em si, pois na época o imóvel só tinha três andares, tendo sido construído posteriormente, a esse desastre natural, o quarto, vivi durante sete anos. Por lá nasceu meu filho, não no prédio propriamente dito, mas na Maternidade Magalhães Coutinho, hoje desactivada, anexa ao Hospital de D. Estefânia. Todavia ele, mais tarde, fez sempre questão de dizer que ali era o seu berço e o local onde, num dia de Abril do ano de 1979, tinha nascido. A vista dali era magnífica e nos dias cheios de sol, com céu limpo, mais exuberante se tornava. Alfama é um dos populares bairros lisboetas, onde o calendário anual traz consigo múltiplas acções e eventos que decorrem no seu seio. As festas dos Santos Populares são um dos seus ex-libris, com preponderância para as de Santo António. Nessas festividades o bairro acolhe inúmeros visitantes que vêm no encalço de degustarem a célebre sardinha assada, de preferência comida no pão, regada com o portuguesíssimo vinho tinto. Hoje em dia optam mais pela cerveja, são os hábitos que se vão alterando. Junho é um mês de relevância, nesse âmbito, para Alfama (e para outros bairros da capital, denominados, igualmente, de populares), então são semanas de autêntico burburinho, alegria e empatia por entre aquelas ruas e becos, com os habitantes locais a fazerem as suas próprias sardinhadas, junto às portas de suas casas. No entanto, muita gente há que se mostra intolerante com o ambiente criado naquele período, pelo cheiro que se alastra ao interior de suas casas e pelo constante ruído que não os deixa descansar a preceito, perante a sua necessidade de se man-
terem aptos a 100%, para a sua actividade laboral. Aos fins-de-semana tudo bem, há mais coerência no cômputo geral. Apesar de tudo, esta actividade é de enorme importância para o comércio local, em particular para a restauração e para os artigos artesanais de turismo e de alusão ao referido bairro. É ver as pessoas que deambulam até altas horas da noite, cantarolando, abraçando-se e festejando, dando azo à sua alegria. Em determinados locais ouve-se a cantiga de Lisboa, o fado, e o trinar da guitarra portuguesa. Nesse tempo o meu local de trabalho era na Baixa e fazia o percurso para a loja de pronto-a-vestir onde laborava e o respectivo regresso a casa, a pé, com a oportunidade de calcorrear várias das ruas mais típicas da nossa Lisboa, em percursos que culminavam, normalmente, na Sé Catedral e na Igreja de Santo António, com as ruas da Madalena e da Conceição à vista. Dos miradouros da Igreja de Santo Estêvão, à qual foi dedicado um fado do mítico fadista lisboeta Fernando Maurício, com o mesmo título, nome da freguesia a que a rua dos Remédios pertence, e do de Santa Luzia têm-se enormes perspectivas visuais de quase todo o bairro e do rio que o aconchega, que em dezenas e dezenas de anos têm sido inspiração para muitos poetas e fadistas, nas criações de inúmeros fados, dos reportórios, de vários deles. De fronte do largo Chafariz de Dentro foi criado o Museu do Fado, outro dos pólos mais recentes que vem justificar, amplamente, uma visita ao bairro de Alfama e a esse relevante espaço. Hoje muitos dos antigos edifícios sofreram modificações, tornando-os mais eficazes e modernos, mas nunca alterando a sua traça inicial. E assim Alfama, que normalmente é a vencedora de muitos dos Concursos de Marchas Populares de Lisboa, evento que ocorre pelos festejos lisboetas do dia de Santo António, 13 de Junho, em apresentações que costumam acontecer no Pavilhão Carlos Lopes e têm o seu esplendor no desfile que ocorre na Av. da Liberdade, vai ficando mais idosa e experiente, rejuvenescendo, constantemente, aos olhos de quem a visita.
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