artes, letras e ideias
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Cinema asiテ。tico
festival europeu
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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2317. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
Wen Zi, o vazio e o
Parecer
515 Lima de freitas e portugal
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Ali a Índia
Carlos Morais José Lima de Freitas oferece-nos uma leitura de Portugal. Não o país da permanente crise, da desistência e da inércia, mas um território imaginário e ainda por imaginar. Nele entrará quem quiser e, sobretudo, quem tiver gosto por se deslumbrar com uma existência que não se limita: um, a uma fronteira; dois, a uma vida que exige reescrever o destino, seja ele genético, social ou divino. Cada povo terá a sua mitologia – se não houver apenas uma... –, mas esta deverá ser encarada como potenciação do saber, dispositivo para pensar e menos para crer. É verdade que os antigos saberes não se estudavam, eram assimilados, como no koan japonês. E que só uma intuição superior, também ela só possível depois de muita reflexão anterior, permite um entendimento que nem sempre é verbalizável, não deixando por isso de ser inteligível. Nessa demanda da “palavra perdida”, do centésimo nome do deus ismaelita, se faz uma vida e, por vezes, um país, uma identidade colectiva que arde jacente, sob a superfície das existências. A existência de um inconsciente colectivo – imanente a uma língua, a uma geografia, a modos e a costumes – parece-me irrefutável ou, no mínimo, uma incontornável hipótese de trabalho a seguir. Faz portanto um enorme sentido procurá-lo, interpretá-lo, descrevê-lo e, em último fôlego, ser depositário da responsabilidade de ufanar as velas, balançar na caravela que transporta o Oriente ao Ocidente. Registo que na ambição escatológica, no império quinto de Pessoa e de Vieira, se finda o mundo na benevolência, nesse “querer bem” que é o maior dos confortos e com o qual Confúcio define “humanidade”. Que fique este registo e nesta porta entrem todos, como diz o poema de Diogo Velho da Chancelaria, que diviniza D. Emanuel: “Gentes novas, escondidas, Que nunca foram sabidas São a nós tão conhecidas Como qualquer natural “Jacobitas, abissínios, Cataios, ultramarinos Buscam godos e latinos Esta porta principal” É o desfile da humanidade reconciliada, sob o signo da benevolência, do império dos amores, da mescla de todos os povos em todos os lugares. Confessemos: para utopia, não está nada mal. Quanto ao resto, que cada um caminhe por si. Creio que a primeira Índia a descobrir está algures no mar que guardo dentro de mim próprio.
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O destino de Portugal e a visão profética de Joaquim de Flora
Lima de Freitas
Joaquim de Flora (1135-1202) dividiu em três partes a História do Homem, decalcando-as das três pessoas divinas: Idade do Pai, Idade do Filho e Idade do Espírito Santo. Foi precisamente a convicção do abade cisterciense de que a última Idade ainda não tinha chegado que o tornou herético aos olhos da Igreja. Esta acreditava que após a vinda do tempo da “Lei”, que se interpretava como sendo a Idade do Pai, a Idade do Filho, a época da presença de Cristo entre os Homens e a Era actual, o “tempo da Graça” regido pela Santa Igreja. Flora previa que o ano de 1260 fosse o ano do fim da Idade do Filho, começando a Idade do Espírito Santo imediatamente a seguir. A inspiração do abade provinha directamente do Antigo Testamento, nomeadamente de Isaías e na leitura que Daniel fez do sonho do rei Nabucodonossor, sobre a visão da estátua, composta por quatro metais diferentes, em níveis diferentes e representando cada um deles um diferente império mundial. A estátua seria destruída pela “pedra”, entendida aqui com um… “Quinto Império”, origem primeira do termo, aliás. Seria este o império que “nunca seria destruído e cuja soberania jamais passará para outro povo, pois submeterá e aniquilará todos os outros, e subsistirá eternamente” (Daniel, II, 44). A leitura literal da profecia é anacrónica, pelo que a devemos colocar em contexto, naturalmente. Ou seja, se Daniel as encarava como sendo uma antecipação na vitória de Israel sobre os Estados vizinhos, e se depois Flora a interpretou como uma consagração da vitória do Cristianismo sobre os não-crentes. Depois dele, António Vieira buscaria aqui talvez inspiração para os seus impulsos milenaristas e, certamente – porque o claramente disse e escreveu várias vezes – também Agostinho da Silva encontraria em Flora o fundamento para o movimento religioso, social e até político que surgiu em Portugal no reinado de Dom Dinis, cruzando influências joaquimitas, com o legado trazido de Aragão pela rainha Isabel com um fundo local de fraternidade e humanidade que estava ainda muito vivo no interior português e que em última instância era até mais antigo em Portugal que o próprio Cristianismo. A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a história da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a História do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como a prova a obra do Padre António Vieira na “História do Futuro”. Portugal confundir-se-ia assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objectivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um “reino templário”, um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projecto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do “Quinto Império” que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projecto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é nossa convicção e crença firmes. In Porto do Graal
O que é um número [Os números são] verdadeiros ‘seres’ carregados de um profunda significação simbólica e metafísica. [...] O Número é aspecto do Nume. Nele arde o fogo secreto que une todas as coisas, visíveis e invisíveis, passadas presentes e futuras, daqui e de toda a parte. Número é também Nome: nome impronúnciável, indizível e secreto que a razão não pode inventar mas que inventa a razão. Como um campo magnético, só discernível quando a limalha de ferro lhe desenha a presença, o Número preexiste à forma e determina-a. Falar do Número é falar da cristalografia da presença, da potência, da ausência, de todos os possíveis. Número – assim o sabiam os Antigos – não é simples computo, nem mero calculo: é a arte da ciência e a ciência da arte; é a ordem secreta donde emanam todas as genéticas, todos os crescimentos; é a chave não espacial dos espaços, a chave atemporal dos tempos, o princípio do lugar, o pólo das polarizações, o diagrama fixo das evanescências; é o Sopro, o Pneuma, o Logos; é o que está e não está, o que é sem ser, a causa sem causa. E é ainda a sua própria consequência e todos os efeitos, o próprio transitório e o próprio evanescente.” Lima de Freitas
Descobrimentos Os dois mitemas Lima de Freitas identifica dois mitemas essenciais que impulsionaram o processo dos Descobrimentos portugueses no século XIV e XVI: 1. Demanda do Preste João, que incorpora a Demanda do Graal, da procura pelo Paraíso terreal, enfim, da procura do “centro do mundo” evoliano que reponha o Homem em comunicação com o Divino. 2. O mitema da unificação do mundo, sob a forma do estabelecimento físico e mental do “reino do Espirito Santo” ou “Quinto Império”, enfim, todos os temas oriundos do mesmo fundo milenarista de raiz judaica de onde brotou a vinda do Paracleto, o retorno de Dom Sebastião, assim como a “Ilha dos Amores” de Camões e a espera pela “nova Terra e novos céus” dos profetas do Antigo Testamento. Para ele, compreender esta dualidade, é compreender o essencial da missão portuguesa no mundo. É esta dualidade que esta na base de toda a criação literária, mental, erudita e popular verdadeiramente “portuguesa” e isenta de estrangeirismos. É a busca pelo Graal que forma a base da fundação da Nacionalidade, exposta pela importância que esse mitema tinha no sistema mental templário. Após esta fundação, o movimento para o retorno a um mundo perdido, mais justo e humano é retomado em força, a partir de Dom Dinis, com a generalização do culto do Espírito Santo. O Graal era o motor da busca, o Reino o local.
Portugalidade “Somos mais civilizados” “De facto, e apesar de tudo, somos mais civilizados do que os outros povos na medida em que respeitamos o estrangeiro, o outro, abrimos-lhe os braços, envolvendo-o na nossa hospitalidade ímpar. Donde, Portugal não tem razão para se envergonhar perante as restantes nações da Europa. Pelo contrário, temos muito para ensinar-lhes, para dar-lhes. Isso é um pouco o Império do Espírito Santo.” “Porto do Graal”, Lima de Freitas Esta especial característica da portugalidade, presente também nas matrizes culturais de outras nações lusófonas, é aquela generosidade que nos marca e que torna os portugueses especialmente solidários e da qual a grandeza da mobilização por Timor foi especial exemplo. Esta hospitalidade a que alude Lima de Freitas, que por vezes pode ser injustamente confundida com subserviência é, afinal, marca da diferença de temperamento e de mentalidade entre o português e o germânico. Se o último prioritiza critérios de eficiência e de geometria, o português prefere a convivialidade, a confraria e a humanidade. É a fraternidade humana e a universalidade que marcam toda a História de Portugal e que esteve por detrás do impulso do movimento dos Descobrimentos e Expansão. Neste contexto, a sanha canina da Inquisição e os desvios da Escravatura correspondem a uma doença mental de que sofreu a portugalidade e que resultou da infecção pelos princípios mercantilistas e desumanos importados a partir do norte da Europa.
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ima de Freitas é nome de um dos grandes navegadores do Portugal dos finais do Século XX . Porque algures, no Portugal abscôndito, se iniciou, há um século, sequente fase dos “primeiros” Descobrimentos: a da busca de outra Índia que não vem nos mapas, como indicou (com dedo indicador …) Fernando Pessoa. E, para quem sabe ver com olhos de ver, animosa foi sendo a aparelhagem de novas naus e concorrência de mareantes. A deslado, o Portugal dos compêndios gastos, dos discursos gastos, dos orçamentos gastos, a república oficial das crises e das letras, julga que caminha para a Europa em desnorte de caminho nenhum. Não vale a pena carpir nas margens de Sião: com visão alquímica da História aguardamos que do negro da obra corrupta esplenda o ouro de novo reino. Mas sempre em demanda e busca, alando as naus do futuro. Assim com Sampaio e Bruno, Pessoa, Pascoaes, Cortesão, os de Orpheu e da chamada “filosofia portuguesa”, Agostinho da Silva, António Quadros e Pinharanda Gomes, José de Almada Negreiros e Lima de Freitas. Da “Águia” à “Nova Águia”. Sim, há uma linhagem, uma corda, a religar os destinos e espíritos vários, uma convocatória do futuro, um segredo pressentido, uma vibração de inaudível clarim ...por entre o desânimo capitulacionista e a negra anarquia da alma e das vontades dos portugueses. Anda mais desvairado o Louco do Junqueiro, “ninguém sabe que coisa quer, nem o que é mal, nem o que é bem...”, mas Portugal, não o Portugal da mixórdia política, o “Portugal cruzados” e o “dos portugueses estúpidos contra vontade“ (os europeístas, Pessoa o disse), o país anestesiado que busca sob um qualquer protectorado as aparências de falsa vida – mas o Portugal essente, semente de regeneração e renovação no imo do fruto pútrido, caroço ou ovo de novo ciclo, esse Portugal sente-se a pulsar no coração que já lhe deu vida. Portugal, disse Agostinho da Silva, foi um dos nomes de Deus. Lembramo-nos dos inícios (ao menos os públicos) de Lima de Freitas, quando nos surgiu discípulo de Almada, companheiro fascinado na misteriosofia do número (de numen) e nas potencialidades mágicosimbólicas das formas geométricas. Almada tinha um continuador do caminho que também deixara indicado no painel “Começar”, entroncando um ramo do pitagorismo no movimento da cultura portuguesa do Século XX. Em discretas tertúlias ouvimos crítica ao ousio deste intento, mas o notável percurso de descoberta de Lima de Freitas, o “esmeraldo de situ orbis” que nos herdou para as navegações a haver, são a confirmação de que também esta vereda de ocultas luminárias era necessária à iluminação dos grandes tesouros guardados e dormentes em terra portuguesa. Basta recordar o que a visão decifradora do pintor-filósofo nos desocultou em retábulos como a “Aparição de Cristo à Virgem”, dos mestres da Madre de Deus e de Gregório Lopes, ou nos Painéis de Nuno Gonçalves. Perturbantes e incitantes são as misteriosas relações ali insinuadas entre a Ressurreição de Cristo e Portugal e do destino de Portugal com a epifania hipostática do Paráclito, confirmando o fado dado a Portugal como obreiro do V Império, Terra Pura do Espírito e do Amor donde a morte é desterrada, “terra prometida” também dos portugueses no visionarismo profético de António Vieira, na contemplação de Camões, na convocação mágica da “Mensagem”. Poucas coisas nos foram consolando mais o
Lima de Freitas
Nau portuguesa Luís Sá Cunha
Portugal essente, semente de regeneração e renovação no imo do fruto pútrido, caroço ou ovo de novo ciclo, esse Portugal sente-se a pulsar no coração que já lhe deu vida. Portugal, disse Agostinho da Silva, foi um dos nomes de Deus. espírito do que os desenhos e composições ilustrativas de Lima de Freitas pelos últimos anos do passado século. Raramente imagens nos fascinaram a demorada atenção, provocaram o nosso entendimento, desafiaram a nossa descoberta dos sentidos ocultos, na beleza das figuras, no enigma dos traçados geométricos . Lima de Freitas, como desenhador, coloca Portugal nos cumes, só lhe vendo émulos em Blake e Dürer (o da “Melancolia “), mas é a nossos olhos maior, só que é dos portugueses não saberem nunca o que são e têm quando grandes, sempre nisto por estrangeiros descobertos. Pela densidade simbólica e sófica, eles são sinais de trânsi-
to da via que conduz à fonte do centro, e tratado ilustrado dos mitolusismos (palavra que inventou para capitular os arcanos portugueses) . Alguns temas: guardiães do Graal, A Lusitânia, Jardim das Hespérides, Ulisses e a Lusitânia, S. Vicente, O Milagre das Rosas, Preste João, O Infante D. Henrique, Sagres – o farol de Saturno, Visão Cósmica de Camões, Lisboa de Francisco de Olanda, Vieira e o V Império, D. Sebastião, Pessoa e o Caminho da Serpente, o Encoberto, Mundos Paralelos, o Mensageiro do 515. Uma edição dos desenhos de Lima de Freitas, com saber seleccionada e em gradual sequência, é a
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nosso ver uma “Mensagem” pela imagem, a que o conjunto das ilustrações dispersas daria corpus e sentido iluminante, um padrão mais a assinalar e a avisar nos mapas do futuro a grande aventura do pensamento náutico luso. Que extraordinário compêndio seria para a juventude portuguesa, noutros tempos e com outra gente … Em pura ficção, pensamos que “ O Mensageiro do 515 “ ocuparia lugar central nessa sequência, se fosse Lima de Freitas a organiza-lo. Porque foi uma das mais exultantes descobertas do mestre (perdoem-me o chamar-lhe assim em meio das fornadas de “mestres” produzidos em cadeia pelas universidades) que com atrevimento e génio se lançou à decifração de alguns dos mais inquietantes e obscuros arcanos do ocidente. A propósito disse Lima de Freitas: “Aí nascem os meus anjos e mensageiros do 515, o meu Teorema de Pitágoras”. Aí, sustentado em operações matemáticas e intuições de simbologia geométrica, Lima de Freitas desvela a enigmática referência de Dante na Comédia, também denunciada em Dürer e em alguns dos mestres já citados da pintura portuguesa do século XVI, profecia do Mensageiro de Deus, anjo encarnado missionado para operar a ligação entre a Terra e o Céu, Anjo da Presença e glorioso triunfador cósmico do mal, que num ápice estilhaça o estado hipnótico da grande ilusão, padrão postado entre dois mundos, limpidíssimo espelho transmutador do que está em baixo no que está em cima . Lima de Freitas, (com aquela cabeça de escultura por ele também desenhada antes de descer ao desterro, ) cavaleiro de Graal porque, chamando a Portugal Porto do Graal, sabe e anuncia que, concentrando-se em Portugal todos os mitos da Europa, como o disse Gilbert Durand, também através da tradição céltico-bretã, Portugal tem outra via de chegar à mesma fonte paradisíaca – não foi Nuno Álvares Pereira, a única verdadeira, mais perfeita, encarnação do ideal da cavalaria europeia, de Galaaz? Lima de Freitas e Gilbert Durand, um laço simbólico numa Europa tão esvaziada da sua alma como o está Portugal, animadores de encontros em Tomar e Açores, de descobertas e meditações sobre a mitologia lusitana, dos enigmas do Portugal invisível. Durand faz a descoberta de Portugal, de um tesouro mítico a integrar na Europa, não a integração económica e política, mas a recuperação dos mitolusismos pela alma europeia, pelo imaginário e pelo imaginal do espírito europeu, mitos onde reside o grande “continente de salvação” da Europa .Portugal, centro activo do estudo do imaginário europeu, para regresso às mais primordiais origens para um novo renascimento .Também Gilbert Durand veio a Portugal, em íntima amizade com Lima de Freitas, descobrir que o rosto com que a Europa fita, é Portugal. Ninguém, talvez, lá como cá, os tenha escutado por não os compreenderem. Embora... Não vale a pena carpir nas margens de Sião... Os tempos e os planos serão, isto nos conforta em meio do baixo império... Com Lima de Freitas Portugal continua o seu destino náutico, pátria de navegação, missão de viagem sempre, naquela nau-sombra de António Patrício a fender a espessura da noite, porque todas as grandes viagens são nocturnas, só nas trevas se descerra a luz... Na longa espera da aurora consurgens, também aqui, no cais da cidade do Nome de Deus, entramos a bordo a marear pelas estrelas...
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Lima de freitas
A Emergência do Imaginal e a Palavra Perdida
José Carlos Tiago de Oliveira
A Alberto Castro Ferreira
I “Hypothesis non fingo” Os pressupostos que conduzem à presente redacção deste estudo são: a) A sua inclusão no Livro de Actas; b) os elementos relevados no texto de Basarab Nicolescu; c) a minha condição de mestre-escola, que levou a não encontrar outro valor na investigação senão o de poder ensiná-la – faço-o em Matemática, Filosofia, e Ecologia Humana, em cadeiras de vertente histórica e problematizante; d) a, também minha, condição de cooperante – Angola, Cabo Verde, Timor -, que me leva a (pintar?) o processo histórico das suas colorações ideológicas e geográficas. Este texto é apologético. Tenta observar como, em contexto(s) científico(s), se dá emergência de níveis de realidade, ou mundos. Compara duas tradições do Número. Demonstra não saber distinguir a palavra perdida da palavra ausente. Relata a odisseia do Pensador Lima de Freitas, na dupla vertente de «veilleur» no desvelar da Tradição, e de artista, qual novo Escher, constantemente solicitado pela comunidade científica. Conclui enfim com os modos como venho a ensinar os trabalhos de Lima, mormente o «515», em três continentes. II “Vox Zenonis” 1.Talvez por constantemente se defrontarem com o paradoxo, todos os Lógicos
que conheço são homens livres. Como tal, vivem inventando sistemas alternativos. Este parágrafo será um contraponto a Basarab Nicolescu – até em lógica. Sem o terceiro incluído há emergência; não será de níveis de realidade, mas pode ser: a) de tipos lógicos [que são simultaneamente entes de discurso e ontologias regionais] – recordemos a carta de Russell a Frege, e a consequente reescrita do labiríntico paradoxo de Epiménides, numa linguagem formal. A hierarquia dos tipos é infinita, três são bastantes para a matemática e para as outras linguagens naturais (Bateson tê-loia deixado dito nas entrelinhas, e Peirce também). b) de «mundos», no sentido das lógicas modernas, que se ocupam da ambivalência dos termos «possível» e «necessário». Trazidas para o ensino em Lisboa por Nguyen Van Minh, cada uma destas lógicas (em número infinito não contável) distingue-se das outras pela resposta a perguntas tais como: “será que o necessariamente possível é possivelmente necessário?”. Positiva ou negativa, a resposta conduz a dois universos de discurso («mundos») diferentes. 2. “Baby Universes” Antes de abandonar a Ciência por uma carreira empresarial, Hugh Everett III escreveu The Many World Interpretation of Quantum Mechanics, uma novidade espistemológica que não foi rejeitada com a habitual violência, e que faz o Universo bifurcar, a cada colapso da função de onda, e, por extensão, a cada acto volitivo.
A substituição do conceito de universo pelo de multiverso é defendida por pensadores como Michael Heller, colega de Karol Wojtila em Krakow e Astrónomo papal em Castelgandolfo. A inspiração mais eloquente é a resposta de Tryon: “- O que é o Universo? - É uma dessas coisas que, de vez em quando, aparece (acontece) no vazio.” A um vácuo puramente negativo sucedem, pelos cenários quânticos, ideias (todas elas incompatíveis) com a inflação, as teorias de tudo, as cordas e as membranas. Mais consensual, o advento do Nigredo: - “Black holes” são observados; - 96% do universo ponderável não se manifesta sobre forma física; - “O resto é silêncio”! 3. “Mysterium Conjunctionis” Uma ideia nova dá-se tantas vezes pela síntese entre dois pensadores. Pelo menos três vezes, tal ocorreu em torno ao mundo imaginal: Categoria terceira, secretamente incluída entre o sensível (Malkuth) e o inteligível (Binah), é assim nomeado após o encontro, com um milénio de distância, entre Corbin e Sohrawardi. Pelo menos outras duas vezes ocorrem com o encontro (iniciação recíproca?): a) entre Rumî e Shamis de Tabriz – o malamati (mal amado?); b) entre Ibn-Arabî e Ibn-Rushd, assumindo, desta feita, a forma de uma cisão. É o mundo imaginal o contexto deste livro e deste encontro, e em um dos mun-
dos em que operava Lima de Freitas, dados os contextos geográficos, a Oriente de Sintra, em que esta emergência se deu, prefiro pensar nele como uma “via levantina” para o Saber. 4. A distinguir crucialmente da “via gótica”, que tão bem descreve o comportamento da comunidade científica, e que está configurado por Karl Popper. Chamo “gótica” à sua teoria dos três mundos, apesar de concebida em Auckland, nos antípodas. Gosto de objectar ao mais nobre dos seus livros, “The Self and its Brain”, escrito a quatro mãos com John Eccles. O propósito da obra é metafísico, “The Seat of The Soul”, e o argumento é biológico – havendo cessado a evolução biológica do homem, à luta dos genes sucedeu a dos “memes” de Dawkins – neste caso, as teorias científicas – cujo timbre é a refutabilidade. Ficam então desenhados o mundo I (de novo Malkuth), de que trata a Ciência, o mundo II, de conteúdos indefinidos entre a psicologia e a metafísica, e onde a alma (se existir) terá o seu trono (Netzakh?). O mundo III é o Jurassic Park onde infindavelmente combatem as teorias científicas num vector tempo que aponta para novas parcelas de verdade (Geburah). A história da Ciência ocorre, como uma espécie de paleontologia desse mundo em acelerada evolução. Ocorre perguntar, com John Horgan, se o Universo, o número dos seus entes, as leis sobre eles, o tempo de emergência e o conteúdo da totalidade das ciências fo-
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rem finitos, o que acontecerá à evolução quando esbarrar no muro de tal finitude? Será necessário inventar um mundo IV?
selho Escolar da Faculdade de Ciências, que, à data deste escrito (1 de Novembro 2008) teimam em não aparecer; mas nada disso é grave, pode ser reconstruído. Apenas as quase ilegíveis “Notes autobiographiques pour éclaircir les raisons de mon échec” – que levei 10 anos até conseguir transcrever parcialmente – interrompem-se ao fim de 21 páginas, condensando outros tantos anos, um terço da sua vida. Terão algum dia sido escritos mais páginas? Estarão perdidas? Qualquer que seja o sucesso do meu trabalho, ele é irrelevante; poderia ser corroborado - ou refutado – por mais páginas, caso hajam sido escritas ou pensadas… É assim, na Saudade dessas páginas, que vou trabalhando. E ocorre inverter o apólogo “Scriptor volans, verba manent”
III 1. «À vol d’oiseau», Samos é mais próximo de Safed do que pelas avenidas do espírito. Lima de Freitas enveredou, ao longo da sua obra, por artes tão diversas como o Pitagorismo e a Cabala, que têm por referente comum o Número. Para Pitágoras, o Número identifica-se à forma, para os cabalistas, à palavra. 2. Quem for ao “Light and Sound” de Karnak ouvirá contar como Germanicus conheceu “o último homem em Tebas que fazia falar os hieróglifos, e estes cantavam uma antiga glória maior que Roma”. A Pedra de Roseta é o renascimento duma linguagem perdida. Assim, a história do Ponto da Bauhütte conhece três momentos:
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a) O olvidar da sua construção; b) O reinventá-la, por Almada Negreiros; c) A correcção de b) por Lima de Freitas. Trata-se de um problema de segundo grau, solúvel pelo esquadro e compasso. O contexto em que viveu o problema e as suas soluções é o do pensamento pitagórico. 3. Que precauções devo tomar quando quero ensinar o 515? Os alunos, nessa altura, já terão lido Spengler ou a “Histoire Universelle des Chiffres de Ifrah”. Sabem que os números e os símbolos variam com as civilizações. Conhecem as medidas dos tempos e ângulos, na base sexagesimal dos povos de Elam e Sumer; sabem que a sua transposição, para os ângulos do pentágono (72º/108º) obriga aos algarismos indo-árabes (equivalentes, nesse ponto, aos do Egipto mas não aos de Sumer); e que cálculos como o do valor secreto são possíveis na tradição grega como na hebraica, mas só nesta última é possível a transposição de ABC para CBA; e que quem assim fizer será um cabalista e não um matemático; assim como aquele que separa o algarismo A do membro BC. Só então chega a aula do 515 e o livro de Lima de Freitas. Da magnitude da sua aplicação no ensino da ciência egípcia tratarei no ponto último. 4. Um cuidado profiláctico que recomendo aos meus estudantes, nos dois hemisférios: comparar qualquer catálogo de números (o melhor é o de Le Lionnais; em português, temos o de Wells, na Gradiva) com um bom dicionário de símbolos. Os registos atribuídos aos mesmos entes não são de natureza comensurável. Com isso, os estudantes ficam precavidos de demonstrar uma erudição outra no Departamento em que são avaliados. IV “All novelty is but oblivion” 1. O derradeiro aforismo de Wittgenstein remete para aquilo que afirmo ser a insolubilidade da questão da Palavra Perdida. Não sei como nem quando distingui-la da ausência de silêncio. Irei exemplificar em
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Quem for ao “Light and Sound” de Karnak ouvirá contar como Germanicus conheceu “o último homem em Tebas que fazia falar os hieróglifos, e estes cantavam uma antiga glória maior que Roma”. A Pedra de Roseta é o renascimento duma linguagem perdida. Assim, a história do Ponto da Bauhütte conhece três momentos: a) O olvidar da sua construção; b) O reinventá-la, por Almada Negreiros; c) A correcção de b) por Lima de Freitas.
duas ordens de registos. Será a Palavra Perdida um mitologema, ou um invariante das sociedades humanas? 2. Falarei aqui por alegoria. É dito que no Santo dos Santos, onde só o Nabi podia entrar, uma palavra se inscrevia – e desaparecia com a Arca. Sabe-se que, submetido à tortura, o construtor do primeiro Templo não pronunciou a Palavra; penhor disso, o grau menor de majestade, quando este foi reconstruído por Herodes. Ainda hoje se discute o que quis dizer o agonizante de Golgotha! Por exemplo, um estudioso como Moisés Espírito Santo afirma que chamava por Elias, que não estaria longe. Quantas injunções da Palavra Perdida, só em Al-Qods! A Oriente de Jerusalém, os Tibetanos são categóricos: as reformas filosóficas e religiosas dão-se pelo reencontro com os Tertôn, textos escondidos com tesouros que são destinados a aparecer em tempo oportuno. A sul do Potala, o Dr. Ganeshayam Marda é categórico: toda a ciência médica foi ensinada por Brahman ao primeiro homem, e subsequentemente olvidada. O remanescente que ficou, é o Ayurveda. Na mesma Poone, assim como noutra cidade da Índia, contemplei duas estátuas – palavra esculpida – declaradamente anteriores à Criação… 3. Por um daqueles acasos do destino semelhantes ao que conduziu Carter e Carnavon ao Vale dos Reis, sou levado à interpretação de um espólio muito rico e completamente desordenado, intacto em Reguengos de Monsaraz. António Gião (1906-1969), autor de 150 títulos, correspondente de Einstein, Schrödinger e do malogrado Majoram, é hoje tão desconhecido como Tutankhamon o terá sido milénios adiante. A sua posteridade também parece marcada por uma maldição – é todo o processo do Centro de Cálculo Científico que dirigiu na Gulbenkian que foi tragado pelas inundações de 1966; são as actas do Con-
A autobiografia de Gurdjieff exprime-se pelo encontro com homens (e uma mulher) notáveis. Vou cronologizar alguns dos encontros de que me foi dado aperceber, onde Lima de Freitas esteve presente, e cujo traço permanece tão visível: 1. Com Almada Negreiros, como foi analisado por Celina Silva, e opto por não analisar. 2. Com Max Holzer, magistrado austríaco, com traumática passagem por um Gulag, discípulo de Mme de Salzmann, veio a Espanha estudar Zurbarán e a Portugal para ler Pessoa. Levado por Delfim Santos a José Marinho (conta o António Telmo), bate à porta do IADE a visitar Lima de Freitas. Com Holzer trabalham, além de todos estes, Castro Ferreira, Carlos Silva, Hélder Carita, ou seja, metade da fina-flor da Filosofia Portuguesa. Uma frase que ficou, dum homem tão parco em elogios: «A verdade mais profunda não está em Almada, mas em Lima de Freitas». 3. Enquanto Director-Geral de Acção Cultural, Lima de Freitas trouxe Raymond Abellio, um homem cuja relação com a política de Vichy permanece ambígua; e que, iniciado por um monge de Monserrat, Pierre de Combas, introduziu a aplicação da Cabala aos idiomas latinos, o que não será da preferência dos doutores de Safed. Da palestra que proferiu – soube-o no Colóquio da Regaleira – saiu inspiração para a tese de José Guilherme Abreu. Na altura, indo eu a França, Castro Ferreira encaminhou-me para o grupo de matemáticos que trabalhava com Abellio. Respondia pelo nome de SYSTEMA; lá se aplicava uma metodologia aritmética para a modelação das formas – contrastando com René Thom, cuja morfogénese é continuista. A qualidade duma semente conhece-se pelo seu fruto. A sede do grupo era a École Nationale Supérieure des Techniques Avancées, uma instituição militar onde era dado a cientistas fazer o seu serviço sem ir à guerra. Quero recordar três nomes: Hervé Le Guyader, historiador da biologia; Laurent Continua na página seguinte
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Nottale, cosmologista, autor do modelo fractal do Universo, fractalidade essa que estendeu ao processo de hominização, num argumento que direi teleológico e antrópico, no melhor sentido, o Dr. Teilhard; Jean-Pierre Luminet, cosmologista, defensor dum universo periódico no espaço e de módulo Zonaedral, que encenou na Gulbenkian o Colóquio “A Ciência terá Limites?”, havendo entretanto ganho a medalha de ouro de divulgação científica, na mesma cerimónia – não olímpica – em que Nuno Crato mereceu a de prata. 4. Uma sequência de eventos, iniciada em Córdova, por Michel Cazenave enquanto director da France Culture, culminou em 1983 em Tomar, no encontro sobre Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo. Três notas: – o início de uma história de amor entre Gilbert Durand e Portugal; – a presença de Vitorino Magalhães Godinho; – a ausência da outra metade, a da Cavalaria Oriental – faltou assim Amin Maalouf, não considerado pela organização. Talvez a remediar essa ausência, a palestra de Lima de Freitas foi a única a falar sobre o Oriente, a Etiópia. 5. O Labirinto padece de uma matemática mais complexa que a física clássica. Talvez por isso, foi um professor da Maison des Sciences de l’Homme, Pierre Rosenstiehl, que apresentou tal matemática na FCSH da UNL. Autor da obra de referência em Portugal, Lima de Freitas compareceu, e data desse momento o início da praxis sistemática de Lima na interacção com a comunidade científica. Meses depois, intervindo no seminário sobre o mesmo Labirinto, na Fundação que comporia o outro lado de Avenida de Berna. 6. Foi também na Gulbenkian que teve lugar o Fractal 90, cuja organização Lima de Freitas integrou. Dessa realização ficou o cartaz – os “Fractais Imperfeitos”, o “Cavaleiro Fractal”, que defende a casa de Basarab Nicolescu -, e a memória da conversa de despedida, quando Lima de Freitas levou ao aeroporto o casal Mandelbrot. 7. Era esse o momento em que se falava de “fusão a frio”. Seria um processo alquímico? Por via das dúvidas, chamou-se (da cervejaria por baixo da Associação Portuguesa de Informática) o especialista José Manuel Anes. Nasceu aqui uma colaboração sobre “o outro Newton”, editada por duas universidades – Évora e Fernando Pessoa. Nasceu aí também a integração formal de Lima de Freitas numa Muito Respeitável Ordem Iniciática.
«A verdade mais profunda não está em Almada, mas em Lima de Freitas» 8. Na sequência do Fractal 90, visitou Portugal Mário Markus, um cientista chileno radicado em Dortmund. Veio instalar-se, pois procurava um ambiente provinciano para dedicar-se à Arte. As suas imagens do Caos representam o expoente de Lyapounov. Quando negativo, temos o determinismo laplaciano; sempre que é positivo, ocorre o Caos – inverno nuclear, tsunamis, quedas da Bolsa, etc. A qualidade plástica das suas imagens – é Markus que o conta – viria a inspirar-se de numerosas conversas com Lima de Freitas. Recordo com emoção o diálogo entre ambos no PROFMAT 92, em Viseu. 9. De novo na Gulbenkian, o encontro com István Hargittai, o Químico que procurava estribar no conceito de Simetria a unificação do entendimento humano, foi lugar para um momento de sincronicidade entre a descoberta dos “Penrose tilings” (padrões de simetria pentagonal, nunca periódicos) na natureza e o tema do pentágono, associado ao 515. 10. Não se estranhará portanto que Hargittai haja estado presente em 1994 na Arrábida, aquando do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade. Catorze anos depois, é tempo de fazer um balanço. No programa da Arrábida constavam os autores orientais (Adónis, Dariush, Shayegan), mas não compareceram à chamada. O vector foi resolutamente oriental, e optou-se pela francofonia. Um segundo congresso teve lugar no Brasil, dando origem à Mensagem de Victória. O próximo será no Quebeque. O mais pujante núcleo transdisciplinar de ensino é o que ficou impresso na letra das duas universidades de Cabo Verde. Com Nicolescu, a investigação voltou à Roménia. O centro de irradiação dos textos continua em Paris, e os leitores seguem a rota da mestiçagem. A penetração no mundo gótico (o da Ciência, cuja única língua franca é, desde 1989, o inglês) é reduzida. Em Portugal, onde soprou o Verbo criador, a Transdisciplinaridade não prosseguiu sem
Lima de Freitas. Desapareceu em Mestrados como o de Ecologia Humana, qual dano colateral do Acordo de Bolonha. Apenas a palavra permanece em dois (!) Departamentos de Pedagogia que resistem ao «eduquês». E é justamente no estatuto da palavra que reside a maior adequação ao Português, única língua em que «transdisciplinar» pode ser verbo, adjectivo e nome, dispensando o afixo “idade”. A primeira década do terceiro milénio não terá sido, pois, entre nós, a idade de transdisciplinar. VI Como exprimir, nas aulas, algumas das ideias e muitos dos autores acima? Focarei dois pontos, um devido a Mário Markus, o outro a Lima de Freitas. 1. “Ages in Chaos” Se adoptar como definição de Caos o expoente de Lyapounoff (outros são possíveis) e reverter o tempo, então os sistemas deterministas – o Universo, o Sistema Solar, etc., quando revividos “backwards in time”, tomam o sinal positivo naquele expoente; é o mistério das origens irredutivelmente comum ao universo físico e ao humano (pelo menos no que diz respeito à modelação matemática). A crescente amplitude na diferença entre as ontologias subjacentes às teorias cosmológicas ilustra soberanamente este ponto. 2. “O tempo teme as pirâmides” Ninguém sabe como foram construídas as Pirâmides. Ou melhor, aqueles que sabem discordam uns dos outros (como se verá nas páginas do nº 106 da revista “Les Cahiers de Science et Vie”, consagrado às Pirâmides). Quando começou a falar-se das “duas culturas”? Com Boécio, Galileu, C.P. Snow? O que venho estudando leva-me a sustentar que foi no Egipto. O Papiro R????? de Ah-Moseh (a transcrição Ah-Moshe, como fazia meu Pai, faz supor que fosse de origem judaica) “a
linguagem para revelar todas as coisas, visíveis e invisíveis”. Dir-se-ia um Galileu no tempo dos Faraós. O Papiro trata de aritmética: a decomposição das fracções da forma 2/N em soma de fracções do tipo 1/N, as únicas para as quais os Egípcios tinham notação. Além disso, a notação dos hieróglifos, com numerais representando ordens de grandeza, é limitada: por N símbolos diferentes, o maior número representável é XXXXXXXXXX. A conclusão é que a matemática egípcia não permite aceder ao Número de Ouro e ao pentágono – que Lima de Freitas tão bem demonstrou, patentes na sua arte. Desde Arquimedes e Vitrúvio que a linguagem da engenharia civil é a matemática. Ora, para Imhotep, a matemática existente não era a linguagem adequada à construção das Pirâmides. Ou não havia linguagem, ou era outra… Duas culturas, portanto! Os enquadramentos pedagógicos para enquadrar esta problemática são dois: uma tese etnomatemática, uma teoria constructal. Qualquer que seja o enquadramento, o mistério continua intacto – e é a partir deste ponto que os estudantes não irão esquecer o nome de Lima de Freitas, quando confrontados com a imagem do erguer do Djed, na altura das cheias do Nilo, a um ângulo de 72 graus. VII “Mehr Licht!” Sou um profano, ao contrário de alguns leitores. Vou levar a consequência deste pensamento ao cerne de uma Ordem Iniciática, desejando que possa brilhar uma Luz Maior. É sabido que alguns “bons aprendizes mas maus companheiros” – aqueles que ensinam conheceram alunos destes – agrediram Hiram Abif, Arquitecto do Templo. Exigiram-lhe a Palavra e ele foi silenciado. Em singela memória do meu Pai, que andou por terras de Israel e Egipto, e que sabia do que falava, quando falava, talvez não fossem muito diferentes os povos, a sua demografia, língua e cultura, nas nações de então que bordam, a Norte e a Sul, o Monte Sinai. Se assim era, a matemática de então era insuficiente para descrever a construção de um Templo, no que tal edificação poderia ter de comum com a das Pirâmides. O derradeiro parágrafo foi da minha lavra, assim como o próximo: então não saberei nunca se a Palavra de Hiram Abif existiu e foi silenciada; ou se foi dita, ou escrita jamais, por total impossibilidade linguística. Mistério, entre outros, com que Lima de Freitas se confrontou.
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A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS
Quando o povo está satisfeito consigo próprio sem necessitar de heróis antigos é porque usa todo aquilo de que dispõe. Capítulo 137 Lao Tzu disse: Numa sociedade ordeira é fácil manter empregos e o trabalho é fácil, é fácil observar as boas maneiras e é fácil pagar dívidas. Por isso, ninguém acumula mais de um cargo ao mesmo tempo e os cargos não são ocupados por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Cavaleiros, camponeses, artesãos e mercadores vivem separadamente. Os camponeses falam com outros camponeses sobre provisões, os cavaleiros falam com outros cavaleiros acerca do código de conduta, os artesãos falam com artesãos acerca de sedas, os mercadores com mercadores acerca de números. Desde modo, os cavaleiros não cometem actos errados, os artesãos não produzem obras grosseiras, os camponeses não desperdiçam labor e os mercadores não sofrem perdas. Cada grupo permanece calmamente no seu elemento; apesar de serem de tipos diferentes e de fazerem coisas diferentes, não se opõem uns aos outros. São desprezados se falham nos seus trabalhos e honrados se atingem o seu objectivo. Aqueles que têm clarividência e uma visão abrangente dispõem de grande capacidade, mas, numa sociedade ordeira, não a usam para pressionar os outros. Aqueles que têm uma vasta educação, forte memória e são eloquentes e expressivos dispõem de conhecimento, mas os líderes iluminados não procuram tais coisas nos seus subordinados. Agir independentemente da sociedade, desprezando as coisas e ignorando costumes comuns é o altivo comportamento de cavaleiros, mas, numa sociedade ordeira, tal não é usado para guiar a populaça. Como tal, aquilo que é tão elevado que não pode ser alcançado não é usado como medida humana e os actos que não podem ser igualados não servem de uso nacional. Portanto, os talentosos não podem, sozinhos, ser usados para aferir medidas; as artes da Via são para ser transmitidas por sociedades inteiras. Assim, a ordem de uma nação pode ser mantida por quem não é sofisticado e as operações militares podem ser igualadas pela lei. Quando o povo está satisfeito consigo próprio sem necessitar de heróis antigos é porque usa todo aquilo de que dispõe. As leis das sociedades recentes fazem altas suas medidas e punem os que não conseguem por elas viver; fazem pesadas as responsabilidades e penalizam os que não conseguem sustentá-las; fazem perigosas as dificuldades e executam os que não se atrevem a enfrentá-las. Quando se encontra sobrecarregado por estas três responsabilidades, o povo não monta um espectáculo de ardil para enganar seus soberanos. Antes, se torna retorcido e age de modo perigoso. E, então, nem duras leis, nem pesados castigos o impedem de ser traiçoeiro. Este é o significado do dizer que, quando encurralados, os animais selvagens atacam, as aves dão bicadas e os homens enganam. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
O texto conhecido por Wen Tzu, ou Wen Zi, tem por subtítulo a expressão “A Compreensão dos Mistérios”. Este subtítulo honorífico teve origem na renascença taoista da Dinastia Tang, embora o texto fosse conhecido e estudado desde pelo menos quatro a três séculos antes da era comum. O Wen Tzu terá sido compilado por um discípulo de Lao Tzu, sendo muito do seu conteúdo atribuído ao próprio Lao Tzu. O historiador Su Ma Qian (145-90 a.C.) dá nota destes factos nos seus “Registos do Grande Historiador” compostos durante a predominantemente confucionista Dinastia Han. A obra parece consistir de um destilar do corpus central da sabedoria Taoista constituído pelo Tao Te Qing, pelo Chuang Tzu e pelo Huainan-zi. Para esta versão portuguesa foi utilizada a primeira e, até à data, única tradução inglesa do texto, da autoria do Professor Thomas Cleary, publicada em Taoist Classics, Volume I, Shambala, Boston 2003. Foi ainda utilizada uma versão do texto chinês editada por Shiung Duen Sheng e publicada online.
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Na primeira versão do “Ensaio Sobre a Visão” vamos ensaiar Macau. Aqui, no complexo terreno percorrido pelos fotógrafos do território. Uma zona, uma rua, um edifício. A água que bebemos dentro de uma mão cheia de imagens. A Fotografia sem explicação, para que se compreenda o que é a Cidade. Esta cidade onde vivemos.
Gonçalo Lobo Pinheiro
nasceu em Lisboa e chegou a Macau aos 31 anos. Antes disso, desde 2000 que está ligado à fotografia e desde 2002 que se especializou em fotojornalismo, algo que é mais do que uma simples e etérea paixão. Colaborou com diversos meios de comunicação portugueses de onde se destacam os jornais A Bola, I, Correio da Manhã ou Público e as revistas Inovar.te e TV Guia. Publicou, igualmente, na revista espanhola Nautica e no jornal norte-americano Washington Post. Desde 2004 que é um dos fotógrafos oficiais da cantora brasileira Daniela Mercury e, também, nesse ano publicou uma foto sua em postal panorâmico dos CTT – Correios de Portugal. Em quase 10 anos de carreira, nos quais participou em diversas exposições e concursos, foi agraciado com alguns prémios como a Menção Honrosa na categoria Reportagem Noticiosa do Prémio de Fotojornalismo Visão/ BES de 2008 e o 1º e 2º lugares no Prémio de Fotojornalismo Liberty Seguros em 2007 e 2009, respectivamente. Este é apenas um simples ensaio de uma zona que o fotógrafo bem conhece e gosta. E você?
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praia do manduco
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luz de inverno
Boi Luxo
Ursos, Leões e Palmas O cinema da Ásia Extrema nos três festivais mais influentes da Europa
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o texto da semana passada falou-se da carreira do cinema asiático no historial da atribuição do Óscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira, uma categoria que existe desde 1947. Falouse também de uma decadência do cinema japonês. Continuando a intenção que animou esse texto, inclinemo-nos agora sobre a sorte que o cinema extremo asiático tem recolhido, durante estas décadas, junto do público e dos júris dos três festivais europeus mais influentes em termos da divulgação internacional dos filmes que exibem. Estes festivais (assim como a carreira dos Óscares para Melhor Filme em Língua Estrangeira) têm uma idade semelhante, pelo que é possível aperceber que o olhar que pelo cinema oriental se tem ao longo destes anos estendido neles afecta um padrão mais ou menos bem definido: domínio total do Japão nas primeiras décadas, aparecimento de outras cinematografias pelos finais dos anos 80 e inícios dos anos 90, nomeadamente da chinesa e formosina, e presenças esporádicas mas firmes de filmes vietnamitas ou tailandeses desde essa altura até aos dias de hoje. Vemos igualmente que não existem hoje em dia nomes asiáticos de resonância estável. O brilho que alguns autores japoneses tiveram durante os anos da sua descoberta não teve repetição, mesmo que alguns nomes, como os de Ang Lee ou Zhang Yimou, tenham garantido um lugar histórico na descoberta do cinema asiático não japonês. Festival de Cinema de Veneza (Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica). Este é o mais antigo e porventura o mais elegante dos três grandes festivais de cinema. Existe desde 1932. Confere duas estatuetas, o Leão de Ouro, desde 1949, e o Leão de Prata (não atribuído todos os anos). Apercebemos o padrão que viramos na história dos Óscares para Melhor Filme Estrangeiro e em que o Japão é o único país presente durante as primeiras décadas em que foram atribuídos leões. No fim dos anos 80 e início dos anos 90 diversifica-se a atenção e os prémios vêem-se distribuídos também pela China, pela Formosa e pelo Vietname (sempre através de Trân Anh Hùng). Mais específica e esquematicamente:
Anos 50 : 2 Leões de Ouro e 2 Leões de Prata para filmes japoneses. Anos 60 e 70 : nenhum filme extremo asiático recebeu qualquer destes 2 prémios (mas lembre-se que de 1969 a 1979 não foi atribuído o prémio mais importante). Anos 80 : Um Leão de Ouro e um de Prata respectivamente para um filme de Hou Hsiao Hsien (Formosa) e para um filme de Kumai (Japão). Anos 90 : Dois Leões de Ouro e um de Prata para Zhang Yimou, e Leões de Ouro para filmes de Tsai Ming-liang (Formosa), Trân Anh Hùng (Vietname) e Kitano (Japão). Na primeira década do século XXI foram premiados filmes de Ang Lee (E.U.A., Leão de Ouro), Jia Zheng Ke (China, Ouro) e de novo Ang Lee (E.U.A./China/Formosa, Ouro). Pessoalmente, com a excepção brilhante, inequívoca e nunca por demais elogiada do verdadeiramente extra ordinário filme de Jia Zheng Ke (Still Life), desde Cyclo, de Trân Anh Hùng, premiado em 1995, que se não premeia um filme asiático que mereça sentido elogio. Notarão alguns dos leitores mais atentos ao cinema desta parte do mundo a ausência de qualquer filme de uma das cinematografias mais pujantes do momento em termos da diversidade e da intensidade das suas propostas – a coreana. Apenas em 2004 um controverso realizador coreano recolheu um prémio de realização - Kim Ki-duk. Clarence Tsui dá-nos, num artigo publicado no South China Morning Post de 20 de Fevereiro, um exemplo utilíssimo da importância que uma distinção deste tipo pode hoje em dia ter para a carreira comercial de um filme, para a fortuna dos seus produtores e para a promoção daqueles que para ele contribuíram. Em Fevereiro de 2010, Mabel Cheung Yuenting, produtora do filme Echoes of the Rainbow, realizado em Hong Kong por Alex Law Kai-yui, acompanhou a sua visionação durante o Festival de Berlim. Este ganhou um Urso de Cristal (um prémio mais específico para filmes que tratam de temas infantis ou juvenis). De filme difícil de promover no circuito comercial, de filme cuja carreira nas salas de cinema seria necessariamente apagada, este passou a ser um dos filmes mais lucrativos de 2010 (entre os filmes produzidos em Hong Kong), tendo gerado mais de 23 milhões de dolares de Hong Kong. Se o prémio de Berlim não
pode ser considerado como o único factor na promoção do filme, e se nem sempre um prémio deste teor é garantia de uma boa prestação comercial, este tipo de reconhecimento ajuda a criar um importante interesse adicional, assim como permitiu já que a mesma produtora tenha conseguido juntar fundos para o seu próximo projecto. O Festival de Cannes será o mais famoso de todos os festivais de cinema. Existe desde 1946 (um ano antes da primeira atribuição de Óscar para Melhor Filme em Língua Estrangeira) e é há muitos anos uma importante feira de venda de filmes. Passou-se mais ou menos em Cannes o que se passou nos outros festivais aqui referidos: de 1954 a 1990 apenas foram distinguidos filmes japoneses, 10 para ser mais preciso – 2 Palmas de Ouro e 8 outros prémios entre Menções Honrosas, Grandes Prémios e Prémios Especiais do Júri. Encontramos, entre os premiados, filmes de autores distintíssimos, como Teinosuke, Ichikawa Kon, Kobayashi, Kurosawa ou Imamura, a par de autores menos conhecidos, como Oguri ou Mikuni. 1993 é, tal como aconteceu com os Óscares de Hollywood, um ano farto em presenças extremo orientais e, no caso deste festival, farto em prémios. 3 filmes foram distinguidos: Farewell, my Concubine (Hong Kong, Chen Kaige, Palma de Ouro e Prémio Fipresci), The Scent of the Green Papaya (Vietname, Trân Anh Hùng, Câmara de Ouro para Primeiro Filme) e Puppet Master (Formosa, Hou Hsiao Hsien, Prémio do Júri). Relembro que no mesmo ano de 1993, entre os filmes nomeados a concurso ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro contavam-se 3 filmes extremo asiáticos, precisamente os dois filmes de Hong Kong e da Formosa em cima referidos e um outro filme formosino, The Wedding Banquet, de Ang Lee. Em 1994 e 1997 foram distinguidos, respectivamente, To Live, de Zhang Yimou, destacadamente o realizador chinês com melhor currículo nestes festivais, e Unagi, de Imamura (uma Palma de Ouro). De 2000 a 2010 vemos reconhecidos mais dois filmes chineses, um filme japonês, e dois filmes de um autor cuja importância é hoje rigorosamente incontornável e sobre quem faço recair a mais profunda e indiscutível admiração e amor – o tailândes Apichatpong Weerasethakul. Refira-se que em 2009 o realizador filipino Brillante Mendoza recebeu
um prémio de Melhor Realizador a propósito de Kinatay. Foi esta circunstância que o elevou à posição que ocupa actualmente no cenário da cinematografia asiática. Mais sobre Mendoza no artigo da próxima semana. O Internationale Filmfestspiele Berlin é, de entre estes três festivais de categoria A, o de história mais recente e talvez aquele que mais dificuldades encontra, actualmente, em definir uma imagem própria. Teve a primeira edição em 1951. É dos 3 o festival que atrai mais público e é o que mais actividades paralelas desenvolve. O Prémio mais importante é o Urso de Ouro, sendo o Grande Prémio do Júri o segundo em termos de importância e exposição internacional. Nos anos 50 e 60 o cinema japonês mereceu também reconhecimento através da atribuição de 1 Urso de Ouro e 2 Prémios para a categoria de Melhor Realizador. Só nos fins dos anos 80 e nos anos 90, contudo, o cinema asiático alcança um número significativo de prémios. Dissemelhantemente do que acontecera nos outros festivais e em Hollywood, em Berlim há um número bastante elevado de prémios atribuídos a filmes de realizadores chineses menos conhecidos. De 1988 a 2007 são premiados 8 filmes e 2 realizadores. Além de nomes muito conhecidos, como o de Zhang Yimou ou Wang Xiaoshuai, encontramos entre os agraciados nomes com carreiras internacionais menos brilhantes como os de Wu Ziniu, Xie Fei, Gu Changwei (conhecido como director de fotografia), Yim Ho e Lin Cheng-sheng. Distinguiu, em 2004, um autor coreano com um prémio para Melhor Realizador – Kim Ki Duk. Destas considerações se depreende que o cinema extremo oriental tem um lugar bem definido no panorama do cinema contemporâneo. Mas concluiu-se igualmente que não há, actualmente, muitos nomes que tenham grande projecção internacional e que tenham mantido uma presença constante nestas mostras de cinema. Por outras palavras, não há nenhum Korosawa. Na próxima semana se falará, muito superficialmente, de uma impressão que reflecte alguma desilusão com a incapacidade que o cinema da ásia extrema tem mostrado em criar nomes de uma densidade que mostrara num passado não muito longínquo.
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Não, não é só para o povo Antønio Falcão Percorre-se o tempo, navegando para trás, quando se ouve Thomas Feiner pela primeira vez. Não é de agora a sua música, é de um terreno intemporal que muitas vezes só consegue arranjar um rasgo de compreensão na palavra “sempre”. Mas nesta alusão não quer dizer-se que a sua música seja de sempre. Porque não é, na verdade. É de agora. Acorda-se para um mundo de contradições e de reminiscências pálidas na sonoridade de Feiner. Nevoeiros límpidos, no conforto do frio, em edifícios vazios repletos de vidas humanas. O dia-a-dia de um processo urbano mas que ocorre longe de qualquer cidade. Longe de tudo. Por essa razão sentimos a sua proximidade. E o tempo não deixa de correr lento, como se nada mais existisse. Um tempo que desperta “paisagens sonoras coordenadas”, como diz David Sylvian para quem Feiner (re)gravou o seu primeiro disco a solo. “Escuro, sombrio e de natureza romântica” foram os termos que o ex-Japan empregou para distinguir o “ecrã panorâmico” de Feiner. Nascido em Gotemburgo, na Suécia, de pais de origem russa e polaca, Thomas Feiner entrou na música, numa vertente mais clássica, através de um trompete, com a o qual, desde os dez anos, percorreu palcos escolares integrado em várias orquestras para jovens. Mas o experimentalismo nutria-o e na adolescência começaram a surtir os primeiros efeitos de uma vontade de ir mais longe. Esse percurso iria levantar, na década de 90, o projecto musical Anywhen, com Mikael Tigerström no baixo, Kalle Thorslund na bateria, e Jan Sandahl na guitarra. Desse período que não chegou a perfazer dez anos, surgiram três álbuns de longa duração: As We Know it, em 1993, Anywhen, em 1996, e The Opiates, em 2001. O último registo, num longo processo que empregou o esforço de vários músicos que foram entrando e saindo, sem nunca deixarem a sua cifra, acabaria por levar ao desmembramento da banda, sempre afectada pelas prioridades deslocadas dos seus membros para outros projectos. Mas é do disco The Opiates que nasce a referência presente – e única – de Thomas Feiner, que pegou na hibridez das suas canções e as regravou, recriando-as ao sabor da sua experiência orquestral, alteando a sua voz de barítono, em combinações antagónicas de baladas atmosféricas em perfeita harmonia com sonoridades mais pesadas. David Sylvian achou-o um “clássico perdido” e lançou-o na sua editora Samadhisound em 2008, numa edição requintada como Jean Cocteau na capa. Espera-se agora o regresso de Feiner, para o seu verdadeiro trabalho a solo, depois de ter participado em 2010 no disco de homenagem aos The The, com uma versão de This is the Day.
Thomas Feiner
Os opiáceos | www.thomasfeiner.com
próximo oriente
Hugo Pinto
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China Underground fértil (I) O que existe, se assim se pode dizer, de “verdadeiramente chinês” nesta abordagem à música experimental é a criatividade em estado puro e a sensação de descoberta de um novo mundo por parte destes artistas que durante anos viveram numa realidade arredada de influências exteriores
Metade dos computadores que existem no Mundo acabam na China para serem reciclados. Por ano, milhões de toneladas de “resíduos electrónicos” viajam para a República Popular com o objectivo de servirem o insaciável apetite por matérias primas que alimentem a contínua revolução industrial chinesa. O lixo é minuciosamente examinado e todos os componentes de metal são separados. Essa tarefa, documentada no impressionante trabalho do fotógrafo canadiano Edward Burtynsky, é a única fonte de rendimento para muitos idosos que, depois de terem vivido a Revolução Comunista, a Revolução Cultural e o “socialismo de características chinesas”, acabam nas suas modestas casas com os desperdícios do capitalismo nas mãos. É assim o fim das máquinas: destruídas onde foram construídas. Todavia, na “fábrica do Mundo”, para os computadores há mais vida além das linhas de montagem e desmontagem. “An Anthology of Chinese Experimental Music 19922008” (2009) é a grande prova de vida e a primeira panorâmica realmente abrangente da música experimental e electrónica não-académica feita na China e em territórios de grande influência sínica: Hong Kong, Taiwan, Singapura e Malásia. São mais de cinco horas de música de 48 artistas nesta opulenta edição da editora belga Sub Rosa, que convidou o músico Li Chin Sung (Dickson Dee), de Hong Kong, para fazer o papel de curador. Os temas mais antigos apresentados nesta edição foram produzidos na antiga colónia britânica. Da década de 90 são ainda recuperados trabalhos de artistas taiwaneses, sendo que a música experimental da República Popular, para efeitos desta antologia, entra em cena apenas em 2003, através da colaboração entre Wuwei, de Xangai, e Ulrich Morits, de Berlim. (Nota: a quem estiver interessado em conhecer o período de 1997 a 2002 da música experimental “made in China”, aconselha-se “China: The Sonic Avant-Garde”, compilação lançada em 2003 pela editora californiana Post-Concrete.) Em comparação com a Europa ou os Estados Unidos, na China, o nascimento da música experimental fora das
portas da Academia aconteceu tardiamente. Contudo, pela amostra de “An Anthology of Chinese Experimental Music”, o “underground” chinês é fecundo: são dez as cidades representadas (Pequim, Xangai, Chengdu, Guilin, Hangzhou, Shenzhen, Guangzhou, Fuzhou, Shanxi e Harbin). Esta amplitude mostra que as experiências com o som são hoje abundantes no país, mas as virtudes desta compilação medem-se sobretudo pela qualidade da representação das diversas dimensões da música experimental. Desde o “ambient” sensorial de Dickson Dee até ao “noise” agressivo e industrial dos Torturing Nurse (Xangai), passando pela desconstrução em modo filigrana electrónica de Me:Mo (Pequim), a aproximação “Techno” ao formato canção de Nara (Pequim), a narração dos fantasmas japoneses e soviéticos de Yan Jun (Pequim), as raízes da música tradicional e o canto-pop na máquina misturadora multimédia de Tats Lau (Hong Kong), ou a grande muralha sónica de D!O!D!O!D! (Li Jianhong + Huangjin, de Hangzhou), a geografia desta música é vasta. Como porta de entrada no mundo deste universo que desafia convenções, “An Anthology of Chinese Experimental Music” cumpre eficazmente a missão. Não se pense, no entanto, encontrar aqui algo radicalmente moderno e diferente do que é feito noutras paragens. O que existe, se assim se pode dizer, de “verdadeiramente chinês” nesta abordagem à música experimental é a criatividade em estado puro e a sensação de descoberta de um novo mundo por parte destes artistas que durante anos viveram numa realidade arredada de influências exteriores. O compositor e guru da música experimental John Cage definiu que “uma acção experimental é uma acção cujo resultado ou consequência não podem ser previstos”. Tendo em conta que, na China, a música experimental vive ainda um período primitivo e sem uma unidade propriamente definida, os músicos chineses estarão numa posição privilegiada para colocarem em prática a formulação de Cage. Quando não há passado, que futuro pode haver? É este o desafio, mas ainda é cedo para uma resposta. (Continua)
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c i d a d e s i n v i s í v e i s
metrópolis
Tiago Quadros*
O Corpo Habitável da Arquitectura A
arquitectura, que sempre se foi constituindo simultaneamente como abrigo que protege e que se refere ao corpo, pode hoje, através das novas tecnologias, assumir significados novos. O corpo, para além de um referente físico da arquitectura, definese, cada vez mais, como potencial instrumento de trabalho. Uma reflexão alargada sobre o corpo aporta necessariamente questões que informam sobre a sua condição e o seu contexto, conceptualizando questões espaciais, físicas, qualitativas e técnicas não só da teoria como da praxis arquitectónica. Foi a partir destas ideias que Marcos Cruz, arquitecto português a residir e trabalhar em Londres, partiu para a tese de doutoramento que lhe valeu o prémio do Royal Institute of British Architects (RIBA) para a Outstanding PhD Thesis. Uma tese a que chamou The Inhabitable Flesh of Architecture (o corpo habitável da arquitectura). “Muita da arquitectura hoje não é feita a pensar em quem a usa e vive. É feita para agradar a arquitectos e para alimentar todo um discurso montado dentro das academias, e que é muito auto-referencial”, defende Marcos Cruz. O trabalho do arquitecto, nascido no Porto, tem-se vindo a afirmar como uma prática experimental centrada nos novos fenómenos tecnológicos das ciências médicas e da engenharia têxtil. Ao desenvolver um estudo no âmbito de uma nova estética de membranas na arquitectura, Marcos Cruz encontrou na Bartlett School of Architecture o que procurava. “A Bartlett é uma das poucas escolas onde se faz arquitectura experimental. Preparamos os alunos para terem uma mentalidade inovadora”. Para quem lá anda, “a arquitectura não tem limites, está toda por descobrir”. Começou a interessar-se pela ideia da “flesh”. “Há uma metáfora que os arquitectos usam que é a da pele. Os edifícios têm pele. Mas é uma pele plana, sem espessura, sem profundidade. Muita da arquitectura comercial que se faz é uma chapa-quatro de pisos com uma pele bonita à volta. Não é mais do que uma membrana superficial que nos deixa frios, indiferentes”. Todavia mesmo numa escola com as características de Bartlett, os seus trabalhos causaram alguma incompreensão. “As pessoas olhavam com cepticismo para as minhas maquetas em látex e diziam ‘isto é muito estranho, é muito feio’. Mas não era o lado estético que ali me interessava, era poder trabalhar com uma arquitectura que era flexível”. Era, para ele, uma forma de ultrapassar “a arquitectura à nossa volta, que é muito dura, muito estática”. Ao contrário de outras áreas, como as artes plásticas, por exemplo, que foram ao ponto de “remover a questão do belo”, na arquitectura não houve um momento de ruptura, afirma. “Nas escolas em que estudei, aqui, havia professores que diziam ‘para quê essa vanguarda toda, se continuamos a fazer como os romanos?’. Eu tinha uma sensação de claustrofobia criativa brutal. Podíamos de facto continuar a fazer o que os romanos faziam porque já estava tudo inventado”. A esta espécie de paralisia soma-se, por razões sociais, uma perda de funções da arquitectura. “Hoje já não precisamos de um espaço arquitectónico para comunicar; a arquitectura já não carrega consigo a memória necessária para a sociedade continuar; e já nem sequer é a carapaça de protecção mais importante que temos - um cartão de crédito pode dar-nos mais segurança do que um edifício”.
Para Marcos Cruz é através da relação corpo/ espaço que a arquitectura pode ganhar um novo sentido. Um corpo que descreve como “ciborguiano”. A primeira parte da tese de doutoramento traça a evolução do corpo ao longo da História - do clássico ao moderno, passando pelo grotesco e o burguês. E o que Marcos Cruz defende é que o corpo grotesco medieval - “que é deformado, bizarro, com uma pele porosa” - é o que mais tem pontos de contacto com o corpo ciborguiano de hoje. São ambos corpos que fascinam ao mesmo tempo que repugnam. “Há no corpo contemporâneo um lado estranho, imprevisível, que nós aceitamos e que há 20 ou 30 anos não aceitaríamos. Nas artes plásticas existe um mundo imenso de artistas que o deformam, manipulam, misturam com outros corpos, com animais, vão para além dos limites da nossa pele e da nossa anatomia”. Marcos Cruz reconhece que teve ainda poucas oportunidades de pôr em prática a arquitectura que quer fazer. Uma dessas ocasiões surgiu com a construção, em 2003, em Graz, na Áustria, do edifício Kunsthaus, também conhecido como the friendly alien - um projecto de Peter Cook e Colin Fournier do qual fez parte na fase de concurso. A cobertura em acrílico, que tem por baixo uma membrana em borracha, é mediatizada, e pode ser utilizada para a projecção de filmes. De acordo com Marcos Cruz o projecto inicial era mais ambicioso. Ao contemplar uma cobertura flexível, o arquitecto português procurou fazer do edifício um “quase ser vivo”. A tecnologia disponível na altura não permitiu ir tão longe e o projecto teve que ser adaptado à realidade. O mesmo aconteceu em Lisboa quando, em 2005, Marcos Cruz e Marjan Coletti foram convidados a desenhar o pavilhão da Feira do Livro. “Fizemos imensos projectos mais arrojados e complexos, até percebermos que havia 500 mil euros para gastar na feira inteira. Tivemos que refazer o projecto numa noite e trabalhar com meios primitivos - um edifício sem fundações, uma estrutura interna de andaimes - e tentar mesmo assim fazer uma arquitectura que fosse experiencial, que tivesse algo de descoberta.” O resultado foi um edifício vermelho, assimétrico, implantado no topo do Parque Eduardo VII como se de uma nave espacial se tratasse. Todo o trabalho desenvolvido por Marcos Cruz procura responder à pergunta: “Será que há uma arquitectura que se pode viver mais pelo tacto do que pela visão?” Segundo o arquitecto português a arquitectura contemporânea “é fria”. A arquitectura contemporânea “falhou o corpo”. Se isso não tivesse acontecido, talvez hoje já tivéssemos um envolvimento diferente e mais intenso com ela. Poderíamos, quem sabe, ter paredes de látex que funcionariam como fatos, com sensores que nos permitiriam comunicar uns com os outros à distância. “A pessoa podia sentar-se dentro dessa pele hipersensível. E vestir a arquitectura tornar-se-ia um acto literal”. Falar de arquitectura é falar da relação que o corpo estabelece com o espaço. Marcos Cruz conta-nos que falar do corpo é falar de uma multiplicidade de corpos e da multiplicidade de entendimentos e representações que o envolvem. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
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à s u p e r f í c i e
A volta ao dia em oitenta mundos
A Baixa da triste Lisboa
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Carlos Picassinos
António MR Martins
A capital do desassossego, da envolvência das multidões, das idas às compras em grupos de amizade e de família na sua Baixa, em tempos carismática nesse sentido, já não é o que era. Sofreu o desenlace, nesta actualidade de sofrimento e desamparo social. Hoje, quando chega a hora das portas das lojas fecharem, pelo seu normal horário de funcionamento, desertificam-se as ruas que são suas, pela inoperância e desgaste do ultraje e receio de ali permanecer. Desalento pela contraposição de memórias que não são tão longínquas como isso. A gente que sempre lhe deu vida trinta anos atrás, mesmo depois das horas laborais, já não permanece nos seus espaços, outrora gratificantes e valorizados pelo convívio apelativo às conversas, interacção e ao comércio em geral. Agora, à tardinha, desguarnece-se, definitivamente. Quando a madrugada lhe chega ao seio, mesmo de forma sorrateira, tudo se deferência, na sua movimentação, comparando-se a esses referenciados tempos, de há três décadas atrás. Houvese um singelo tossir, que apesar de tudo se torna relevante, aqui e ali em lugares recônditos onde moram a pobreza e a solidão. São recantos esquecidos pelas suas noites. Às vezes, e cada vez mais, sente-se o estalar de um vidro de uma montra omitida que descamba num quieto chão, frio e insensível, sem meios para alterar o continuar amorfo da inoperância e do deixar andar, em mais um furto que acontece. E, assim, aquele enorme espaço que foi mítico, falo do que sei, pois pisei aquele solo todos os dias, em vários anos, aquecendo-o, como tantos outros, do calor que hoje lhe falta, se isola, depressa, de todos os conceitos. Nada é como foi, isso define uma continuidade, obviamente, mas aqui nada progrediu, antes pelo contrário. Aquele ambiente era o escolhido para muitas famílias e amigos desenvolverem o seu passeio nocturno, após o jantar, para irem ver as montras dos estabelecimentos. Neste tempo, tudo isso deixou de existir, pouco a pouco, sofridamente, dissipando-se, neste jazer, um habitual e salutar hábito, em todos os contextos. Restam as luzes que a iluminam, no silêncio de todas as vozes e na fuga de todos os murmúrios, num nada que pouco é, efectivamente. As referências lá continuam, como é evidente, mas despidas de todo o movimento e da saudável loucura que a vitalizava diariamente. Sobeja o castelo, o de S. Jorge, que um dia Martim Moniz ajudou a conquistar aos mouros e ao seu rei Afonso, na libertação de Lisboa. Lá está ele numa das colinas da capital portuguesa, hoje transfigurada no tempo, observando tudo em seu redor, como se estivesse aguardando a chegada do inimigo. Só que agora o inimigo é outro, chama-se crise, dizem. Que chegue o amanhecer e o projecto de um novo dia laboral, apesar de tudo.
Restam as luzes que a iluminam, no silêncio de todas as vozes e na fuga de todos os murmúrios, num nada que pouco é, efectivamente.
Portugal ao meio-dia Já se sabe, se “em Fevereiro chuva, em Agosto uva”.
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um objecto de culto para mim, o Borda D’Água. Não só pelo aspecto retro que aparenta mas, sobretudo, pelo mundo maravilhoso que encerra. Por isso o compro e o folheio com prazer porque um jornal não se faz apenas da informação que publica mas da alma que se esconde debaixo de cada notícia, de cada história ou ilustração. O Borda d’Água é isso, um caderno que recolhe em si a alma de um tempo lento e tão remoto como a infância. A mesma ordem e o mesmo tempo que nos ordenava, em criança, as passagens pela aldeia e os dias se entrelaçavam no manto de histórias caseiras contadas pelas vozes pacientes de avós ou das tias que, para nós, já tinham nascido velhas e viúvas. Um mundo de animais do campo, de galos e cães e gatos que se desafiavam, de galinhas poedeiras e de ovelhas, de poços fundos e temíveis, proibidos, de quintais temperados pelo perfume da flor de laranjeira, ou de lestas crianças correndo por entre campos bucólicos. Havia barragens e tarde de pesca, histórias de curandeiros, dias santos, párocos e acólitos que, na Páscoa, invadiam as casas armados de relicários num proselitismo aflito pelas falhas dos fiés de domingo. Só mais tarde compreendi o exotismo do ritual quando alguém explicou que, naquele Alentejo, dos anos setenta, Deus ainda não estava em uso. Celebrava-se
quanto muito o Natal, quando a família matava o bácoro e devorava sonhos e filhozes em auto-complacência pela violência das madrugadas infames da apanha da azeitona. As noites no Alentejo foram sempre eternas, fosse no frio do inverno, ou no pino do Verão à boleia dos bailes na sociedade recreativa da aldeia. Mulheres que dançavam com mulheres, homens namorando biscas e suecas, e figurantes de modos grotescos. Havia parteiras matronas, capadores de gado, aguadeiros embriagados. São notícias deste mundo que o Borda d’Água também traz nas suas páginas transformando-se, involuntariamente, numa espécie de eco nostálgico daquelas remotas infâncias até mesmo quando só informa quem “diariamente convive com a terra, com as plantas e os animais e procura ajuda na observação da Lua para as suas plantações”. Talvez a ganga memorialista ajude a explicar o sucesso de vendas em contra-corrente à situação de uma imprensa generalista deslumbrada pelas luzes diáfanas da cidade. Porque, contra ventos e internet, o Borda d’Água aí está, pujante: cem mil exemplares para contar os solstícios e os equinócios, os eclipses e as fases da lua conservando uma sabedoria popular, um senso comum, hoje em estado avançado de impugnação. Não se trata aqui de idolatrar a etnografia maravilhosa de um Portugal arcaico até porque o país daqueles tempos era, praticamente, o mesmo
que Ruy Belo descrevia, ao meio-dia, em que “a gente é previdente, cala-se e mais nada, a boca é pra comer e pra trazer fechada”. Trata-se sim de elogiar a persistência em manter visível, e válida, uma cultura alquímica, uma razão pagã feita da experiência do trabalho rural, da observação dos astros ou dos ciclos da terra. O “Borda d’Água” lá vai, cada página seu mês, desfiando os vatícinios da astrologia, a hora da aurora e do ocaso, os imperativos na lavoura, o que fazer no quarto minguante e no crescente. Um autêntico herbário de papel que nosleva até à horta, onde importa cuidar do alho-francês, das beterrabas, cenouras, espargos, ervilhas, e segurelhas. No pomar, as macieiras, os damasqueiros e as pereiras devem ser inxertadas. E no jardim, é aconselhável, nesta altura do inverno, proteger os crisântemos com palha miúda, ou semear as ervilhas de cheiro, as gipsófilas, os manjericos, os ciclames, os cólios e as sécias. É o tempo de colher amores-perfeitos e violetas. Na última página, cabe o juízo final. “Os que nascem neste ano de 2011 terão o rosto grande e feio; os olhos inclinados para a terra e assimétricos sendo o nariz grande e largo, os lábios grossos, as sobrancelhas juntas, a pele escura, os cabelos negros e ásperos e os dentes encavalitados e desproporcionados. As mulheres terão peitos volumosos em corpos magros e esqueléticos”. O Borda d’Água nunca se engana. E já se sabe, se “em Fevereiro chuva, em Agosto uva”.
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João Galafoice
Vens comigo?
Sofia Pinto Correia Melo
Gonçalo M. Tavares
Novamente a estrada ao Sul tantas e tantas vezes percorrida em risos com colares de conchas e canções de pés descalços de areia cigarros cervejas em outras tantas estradas mas esta num automóvel durante a noite iluminada apenas nos troncos das árvores que se desviam dos olhares do asfalto das bermas de pinhas e areia dos cigarros descalços cervejas e pés e janelas abertas porque é noite de Verão ou quase e a estrada serpenteia como outrora ondula em cabelos e mais cervejas e mais pés descalços não sei quantos éramos dentro do automóvel de risos e o rádio alto em canções dos anos noventa outrora liberdade liberdade quando atravessamos o rio de um lado a cidade ao longe a serra o mar passamos as ruínas romanas os arrozais as aldeias povoadas de cegonhas e cigarros descalços mais cervejas tascas de estradas ao Sul onde se compram botas momentos de risos aos quadrados vermelhos ou janelas de madeira pintada a azul e laranjas a entrar dentro e na estrada novamente cigarras cigarros aves que espiam no rádio nocturnos ruídos e depois. Apenas o rádio que continua sozinho as canções e os cigarros porque os nossos rostos com colares de conchas emudeceram frente ao asfalto que brilha se enevoa arrasta na frente de outros rostos trocistas pálidos evanescentes esfumam-se os cigarros os pés descalços pasmados na névoa que arde na nossa frente que nos puxa nos segue nos envolve que dos lados do vale por entre arbustos baixos e erva passa a berma bate no vidro risos estes que acenam em gestos fantasmas em presságios de morte ou de mistérios da vida sóbrios perante o que vemos e sabemo-lo ver todos na noite da estrada ao Sul e que nunca nenhum esquecerá porque nos sentimos abençoados ou amaldiçoados não sei bem fomos escolhidos fomos eleitos o Universo a mostrar-nos a insignificância das palavras e a magnificência dos grãos de areia nos cigarros nos ainda pés descalços a surpreender-nos com tamanha beleza e o silêncio das palavras ao Sul até ao nosso destino de colares de conchas e ainda hoje sei essas cores esse brilho essa névoa chama em gestos fantasmas em mãos trocistas que nos puxam para a estrada para diante dos pés descalços no asfalto e do automóvel pálido parado na berma muito longe deste lugar. E do medo. Os fogos-fátuos são luzes azuladas e fosforescentes que dão origem a superstições, tidos como presságios de morte ou de espíritos que vagueiam. São resultado da inflamação espontânea do metano, gás libertado durante a decomposição de corpos, plantas ou animais, geralmente em pântanos ou locais húmidos.
Dadas as suas capacidades intelectuais – a sua cultura flexível contrastava com o monopólio de certas ideias que dominavam a maior parte das cabeças dos que agora eram os seus pares –, Lenz Buchmann rapidamente subiu no Partido. Lenz Buchmann, assim, sempre: o apelido tornara-se uma exigência do primeiro nome; o vocábulo Lenz ganhara apetite – espectador que quer ter alguém na cadeira ao lado, para assim olhar, acompanhando, o mundo. Posto de vigia, esse, que ganhara uma nova importância com a associação do apelido. Lenz aprendia então com velocidade novos conteúdos. Não a nova matemática ou a nova física, mas a velha ciência de ligação e separação dos homens. Alianças e declarações de guerra eram amputadas, é certo, da sua virilidade final mas permaneciam, na sua essência, em todas as relações humanas dentro do Partido. Habituado a lidar sozinho com as circunstâncias da vingança de células particulares em relação a um corpo, Lenz estava agora “com mais gente ao lado”. A sua equipa médica nas operações mais complicadas nunca ultrapassara as sete pessoas, e agora ele via-se envolvido em reuniões em que as suas declarações eram escutadas por dezenas de colegas de Partido. Este sentimento de comunidade era uma das invenções deste novo tempo em que Lenz entrara. Não tinham sido discutidos pressupostos, ou seja, homens vindos de sangues completamente distintos, de famílias que nunca se haviam cruzado na cama ou nos grandes pactos de rendição ou de declaração de vitória, estavam agora, lado a lado, parecendo, afinal, ter combatido durante séculos o mesmo exército. Essa ilusão – que o era – não cegava Lenz.
[Sofia é arqueogenealogista e não voltou a ver o João]
[Este Gonçalo foi retirado do livro “Aprender a rezar na Era da Técnica”]
Um anão Não sejas espanhol suicida-se estúpido em Las Vegas Lime + Purple Francisco Casavella Setembro, o mês em que devia ir para os Estados Unidos, começava a ser um ponto longínquo num caminho que era necessário preencher com feitos excitantes. Tinha de lhe acontecer qualquer coisa. E nunca lhe acontecia nada. Amiúde, convencia-se a si mesmo como era fácil, como era inútil, insistir em convencer-se; e como nos preocupamos demasiado em guardar na mais escura das nossas gavetas interiores, três ou quatro verdades incómodas para não embaciar a recordação e permitirmo-nos crer, um dia, que a nossa falta de juízo comum foi adorável. Uma dessas verdades, com que Ignacio nunca se tinha confrontado, era que, graças ao desaparecimento de Carlos e ao golpe de sorte que tinha permitido tanta condescendência na família, tinha uma vida regalada, em que cada conselho e cada admoestação dos seus pais estava devidamente aferida com um objectivo: não o perder; convencer-se de que o taciturno, embora sossegado, nada respondão, se bem que nada indefeso (era tudo uma questão de convicção), o infantil Ignacio que durante duas dezenas inteiras de anos comeu bolos de chocolate a navegar nas águas seguras do sofá doméstico, um dia pudesse certificar que tinham sido pais da melhor maneira possível, que tinham amado como pais. Ele aproveitava-se. Tinha começado o curso de arquitectura e tinha-o abandonado no segundo ano, impelido pela vontade de «ser alguém», não se limitar a olhar através do buraco a labareda e o riso, os beijos nos cantos, e a ter um nome num mundo de música, vigílias maratonistas, jovial ajuntamento nos lavabos e promiscuidades artísticas, onde cada indivíduo se pudesse destacar da forma que melhor soubesse: muita lábia, um grande penteado, beleza, desigual estilo de indumentária ou culto da imoralidade nalguma das formas artísticas mais urgentes. Ele, além do mais, tinha um grande obstáculo. - O teu irmão Carlos, esse é que era… E depois, deixavam cair os braços.
[Francisco está em revisão para o Minotauro]
Lime, Fico a pensar se lhe disseste. Se lhe disseste que eu era uma farsa e que faço tudo às avessas. Disseste-lhe que faço tudo às avessas? Acredito que sim. Mas podes até não ter dito. E dava-me jeito que não tivesses dito, se queres saber. Se por acaso não tiveres dito, não digas. Davame muito jeito. Não é por nada, é só porque não quero estar a perder tempo com explicações. Explicar-lhe que não é bem assim. Quer dizer, é, na verdade. Um pouco. Sim, faço tudo às avessas. Mas há mais do que isso. E não vamos perder tempo com essas coisas, pois não? Imagina que ele vai dizer a toda a gente. Que todos acreditam nisso. Não é só a um que terei de explicar que não é bem assim, mas a uma data deles. E já viste o tempo que vamos perder nisso? Por isso escrevo-te, agora. Quer tenhas dito ou não. Quero que lá vás. Quero que vás e digas a outra parte. O que não lhes quero explicar. Porque não há tempo para isso. Porque já são muitos. Não temos tempo para isso, não é? E a ti eu sei que eles ouvem. E basta que lhe digas, a ele. Que ele vai dizer a toda a gente. Já sabes como é. Não sabe guardar segredo para nada. Só está bem a dar com a língua nos dentes. Não sei se é por isso ou não, que acreditam nele e que o ouvem. Será por isso, que acreditam nele? E que por qualquer razão te ouve como não me ouve a mim. Seja como for. Vais à frente. Falas com ele e dizes tudo o que sabes de mim. Não te esqueças de nada. Conta-lhe tudo. Podes até dizer-lhe que eu faço tudo às avessas. Mas tens de falar da outra parte. Assim ele pode ver. Assim pode contar aos outros e os outros também podem perceber que não é só aquilo. Caso ele já tenha dado com a língua nos dentes. Por tua culpa! Tens de ir agora. Não vamos perder mais tempo. Dava-me muito jeito que fosses já. Vá, vai, não sejas estúpido. Teu, P.
[Lime e Purple já não tomam banho vai para uma data de dias]
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Ovelha Negra José Emilio Pacheco Quinze minutos antes do encontro, aluguei uma cadeira de lona na esplanada frente à praia e pus-me a ler o Compendio de filosofía, um livro da Nena, para que a Ana Luisa me visse com ele. Não entendi uma única palavra. Estava inquieto e não conseguia concentrar-me. Deram as doze e nada. As doze e meia e também nada. Pensei que não ia aparecer. Já me tinha preparado para ir embora, quando a Ana Luisa apareceu. - Desculpa a demora: não conseguia escapar-me. - De quem? - Da minha mamã. Não me deixa sair. - Recebeste a minha carta? - Qual carta? - O meu recado, quero dizer. - Claro, respondi-te: por isso estamos aqui, não? - Tens razão. Sou mesmo bruto… E o que achas? - De quê? - Do que te dizia. - Ah, pois não sei. Dá-me tempo. - Já tiveste muito tempo: decide-te. - Como queres que me decida se não te conheço? - Ana Luisa, eu também não te conheço e é como vês… - Como vejo o quê? - … Estou apaixonado por ti. Corei. Estava seguro de que Ana Luisa se ia rir. Mas em vez de me responder pegou-me na mão como se não estivéssemos rodeados de gente, em plena esplanada entre o salão de baile e a praia. Não quis que a convidasse para tomar nada. Fomos caminhando pelo paredão à beira-mar até à bifurcação de Reforma. Sentia-me feliz, embora com medo que alguém lá de casa nos apanhasse. Porque é suposto que eu ainda não tenho idade para andar com mulheres; tentá-lo, é um delito que dá cabo dos estudos e do desenvolvimento normal e deve ser castigado com a pena máxima. Não sei, o prazer de caminhar com a mão dela na minha mão, perto de Ana Luisa, que é tão formosa com a sua cara tão bela e o seu corpo perfeito, valia todos os riscos. Por fim, Ana Luisa falou: - Bom, devo confessar-te que também gosto de ti. Fiquei em silêncio. Detive-me a olhá-la. - Mas há um problema. - Qual? - És uns dois ou três anos mais novo do que eu. Vou fazer dezasseis. - E que importância tem? - A sério? - Claro que não tem importância. Aproximou-se de mim. Abracei-a. Beijámo-nos. Gostava de escrever tudo o que se passou depois. Mas as minhas irmãs acabam de chegar. Era uma desgraça se lessem este bloco. Vou guardá-lo no mais fundo do roupeiro. Só anoto que me senti feliz e que correu tudo mil vezes melhor do que eu esperava. [José e ainda está no princípio do prazer]
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os sete pilares da sabedoria
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Arte da fuga O coronel Muammar
Gadaffi não é um cómico, nem um apresentador de televisão. Contudo, apresentou-se ao seu povo como “líder revolucionário”, uma espécie de Che Guevara magrebino. Sem ideias, assassinou o carácter dos manifestantes: são bêbados e drogados. Ou seja, quando se viu vacilar no trono, usou uma das mais antigas tácticas conhecidas: a fuga para a frente.
O daimon veste nada
Alma de artista, destino de fadista Adriano S. Roiz foi barbaramente assassinado, mas não sem antes ter composto o Fado Macau, “que lhe valeu fama”. É verdade! Ainda hoje o ouvimos, repicadinho, nas tabernas mais infames de São Leazaro e do Tói San, cantado por pastorinhas e tricanas.
Absoluto Carlos Morais José Mote: E vou já buscar mais gelo! Não temeis o álcool, o astuto, Que vossa alma tanto queima: Só merece o fim quem teima E na sede se mira: absoluto! Nem desprezeis, imprudentes, Seu fulgor, o vapor Que, entredentes, se exala: – Limpemos cruéis a sala! Nada deixemos ficar: Nem o urso de embalar Nem de dobar o novelo. E tudo o que então pensar Seja na rota da seda — E vou já buscar mais gelo! Perturbada alameda De novas por vadiar Resta-me então penar Sufragar o pesadelo. Não há meio de fazê-lo Que não seja mais poção. Pode haver opinião, Bigodes de acrobatas, Cimento de pataratas, — E vou já buscar mais gelo! Não há meio de fazê-lo Que não seja mais poção Copos descem pelas cortinas
Num latejar de alarido, Avinhadas bailarinas D’encarnado no vestido Copos jubilam nas mesas Entre cenas de pasmar: Homens com delicadezas, Mulheres de rabo pró ar ............ E também o seu contrário Há também o vinho sóbrio Do pensamento tão vário Sem intriga nem opróbrio Com ele o pensar avança Sem temer freio nem brida Pula, salta, balança E sem temer faz-se à vida Rodam os corpos na sala Pelas mãos quentes, certeiras, Rodam os copos na sala É noite de bebedeiras! Beber para recordar Beber para esquecer Beber até vomitar E se preciso morrer! Avança p’ra mim alegre Uma garrafa de selo, Que tempo tão bem empregue Mais a sê-lo que parecê-lo — E vou já buscar mais gelo!
O abismo surge na nossa frente por dá cá, toma lá, aquela palha. O abismo faz-nos sentir palhaços e uma gargalhada trágica irrompe das gargantas ressequidas de metafísicas frustes. “Olha, lá está o abismo, fónix!”. “Que fazer?”, perguntava Lenine no dealbar de uma revolução. Já D. Fuas Roupinho não punha tamanha questão. Finalmente, quem se lixou foi o veado. Para a semana: o abismo 2.
no melhor dos mundos
Quando, no ano de 1879, Frederico Nietsche passou por Macau conseguiu enfim compreender a sua própria intuição do Eterno Retorno. “Aqui já tudo se passou e da mesma maneira”, proferiu por entre os pelos do vasto bigode, enquanto contemplava as sombras da Rua da Felicidade. A pei-pa-chai soltou-se do amplexo e murmurou em cantónio popular para o tabique do lado: “Este estava cheio de vontade de poder”.
Discurso do séquito
Que o amor é belo sabem-no os amantes, os caixeiros-viajantes e as secretárias. Os helenos representavam-no como sendo uma criança; portanto, todos os seus movimentos, expressões, acções eram dotados de uma graça só ao alcance dos inconscientes. Podemos trair por amor, mas nunca trair o amor, que o diga a filha de Montezuma.
McBeto
“Ser ou parecer, eis a questão”, que hoje nos circunda, que desta sociedade pútrida se evola. Para quem for bom da tola e não queira viver de esmola, nem a ribalta consola, a peqenez do palco. Eis-me grande, eis-me chanato e, de presunçoso a chato, vai a distância de um plebeu. “Ó tu, dá cá o meu!”
Rigor Mortis
Séneca dizia que vive mal quem não sabe morrer. Admirador da atitude socrática (vai mais é devolver este galo e pára com as mariquices!), o romano teve, contudo, algum azar. Quando Nero lhe ordenou o suicídio, começou por cortar as veias, mas a coisa não andava. Foi-lhe então ministrada cicuta, para emular o mestre. Nada. Finalmente foi asfixiado pelos criados num banho quente e acolhedor.
Traduttore, tradittore
Onde se prova que os ingleses são maus: – Do you know we are in the Year of the Rabbit? – Ah é?!! Tenho de ter cuidado neste Ano do Rabeta.
Ă€ venda na Livraria Portuguesa