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h - Suplemento do Hoje Macau #87

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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nº 2857. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

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educação ou barbárie


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Marc Augé educação e utopia “Futuro” é o título do livro de Marc Auge. O antropólogo francês oferece uma visão menos pessimista do que se esperaria nestes “tempos turbulentos da crise” e propôe o modelo científico como o único caminho para construir uma sociedade em que o objectivo é o conhecimento. Augé combina ciência e futuro para combater os medos que nós atenazam e nos fazem viver num eterno presente. Depois de cunhar termos como sobremodernidade e não-lugar, defende a busca da verdade para dominar o futuro e dar sentido a vida. Incansável viajante em África e na América Latina, vive agora em Paris e dá saltos contínuos a Itália, onde publicou primeiro o seu último trabalho. Os avanços tecnológicos, a construção da identidade individual e colectiva e o papel da educação no progresso da humanidade são os eixos desta conversa que se desenrolou no Jardin des Plantes, em Paris.

Mónica Andrade O que caracteriza a sociedade nestes primeiros anos do terceiro milénio e qual papel desempenhado pela arte? Vivemos uma crise de proporções globais que transcende a economia. Não é apenas financeira ou política ou apenas social, nem começou ontem. O terceiro milénio chegou carregado de medos e não podemos excluir que, no futuro, alguns historiadores falem de Crise dos Cem Anos referindo-se a este período. A escala da vida é agora planetária, mas apenas em alguns aspectos, porque a sociedade não é planetária mas sim a tecnologia e a economia. Essa diferença, que provoca grandes medos, é o que hoje mostra a arte. A arte deve ser capaz de expressar a sociedade, o mundo em que vivemos. O grande desafio está em manter uma distância em relação a um estado da sociedade que, no entanto, deve expressar para que seja compreendido. As formas de arte contemporânea, ao propor-nos o que vemos todos os dias, perturbam-nos; transformam objectos quotidianos e familiares em objectos de reflexão e, portanto, longe de sublimar o real, subvertem-na. Que novos rostos adopta hoje a cultura em França? Detecto uma forte vitalidade da cultura e acho que os artistas estão a desempenhar um papel importante no qual fazem muitas perguntas e dão poucas respostas. Costumo ir a exposições de arte contemporânea, especialmente de jovens artistas, e ver como eles se estão a tornar conscientes das contradições, dos aspectos problemáticos do mundo contemporâneo e como tentam de o explicar à sua maneira. Também me chama a atenção o facto de no teatro se fazerem mais performances que obras no sentido clássico da palavra. Em geral, as artes estão colocar em cena os novas medias e a interrogar-se sobre eles. Alguns artistas desconcertam, surpreendem, não trazem uma mensagem, não oferecem respostas, só propõem perguntas e, para mais, de forma indirecta. Eles são um pouco como os etnólogos, surpreendem-se, observam. Como influenciam os novos formatos as características culturais no novo milénio, na sociedade da informação? Por um lado, os meios tecnológicos fazem-nos crer que vivemos numa época em que são possíveis a ubiquidade e instantaneidade. São ferramentas muito poderosas, uma magnífica criação mas, por outro lado, podem suscitar ilusões... ensinar coisas a quem já as sabe. Não são um instrumento pedagógico nem é possível que o sejam por isso são uma fonte de ilusão. Além disso são instrumentos de identidade passiva e o pior é que nos fazem perder a dimensão do tempo e do espaço. Como diz Paul Virilio, a instantaneidade do tempo está a matar o espaço, em tempo real, o tempo real das transmissões em directo devora espaço, a geografia. Em certo sentido, são uma negação do espaço e do tempo. Quais são as consequências dessa negação? É crucial para a identidade, seja individual ou colectiva, nacional ou de qualquer outro género. A questão é importante porque estamos num mundo global para as identidades colectivas e num mundo onde a individualidade é expressa através do consumo. Qualquer identidade é criada através de uma negociação perpétua com a alteridade. Temos pais, parentes, origens, amizades,


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etc., e tudo isso nos constitui, mas, através do que chamamos de redes sociais, não estabelecemos relações de verdade mas de comunicação, factos de comunicação. realmente, mas estabelecer relações eventos de comunicação de comunicação. Ora uma relação é construída no tempo e no espaço. A prova disso é que mesmo os grandes líderes do mundo, apesar de todos os meios tecnológicos disponíveis, precisam de se ver e de se reunir de vez em quando. Têm a intuição de que isso significa outra coisa.

Sim, é verdade, mas isso não é suficiente. É verdade que se pode começar com pequenas iniciativas, mas eu falo de educação no sentido de conhecimento. Detecto uma progressão terrível da ignorância, mesmo em países altamente desenvolvidos, como os Estados Unidos. Alguns estudos têm demonstrado uma enorme ignorância entre amplas camadas da população. Essa ignorância é o que leva à superstição, um fenómeno que se desenvolve à medida que passam os ensinamentos da filosofia, da literatura, da cultura clássica...

Estamos a dar demasiado poder a essas redes sociais? Estamos a dar poderes que não elas têm. Estes meios de comunicação são meios. não são uma finalidade, não criam um mundo por si mesmos. Não há que condená-las, mas entender o que se pode esperar delas. Não te fazem mais sábio, nem tomar mais consciência sobre a tua própria vida. A verdade é que a identidade se constrói através da alteridade e que as relações são hoje mais importantes, porque temos de construir um mundo, um mundo planetário que ainda não o é e que está por construir através da história, que afinal não terminou e nunca foi uma coisa simples, nem tranquila nem pacífica. Por isso, temos que construir relações ao nível local, nacional e internacional e precisamos de usar esses meios como aquilo que são: meios.

Provocam também a simplificação das mensagens políticas? Eu não tenho certeza de que os políticos façam isso de propósito. Creio que é uma expressão do seu tempo. Estou impressionado com o baixo nível do debate político nos Estados Unidos antes das eleições presidenciais. Trata-se de escolher o chefe do mundo e, francamente, é assustador. Por outro lado, acho que a tendência para acreditar que todo o poder de um país ou de uma região está nas mãos de uma pessoa é algo pueril. Há algo antidemocrático neste fenómeno. Em “Futuro” fala sobre os novos medos que caracterizam a nossa sociedade. Sim, desapareceu o medo de uma guerra convencional,

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às vezes falam de cientificismo, mas isso não é a ciência. A ciência é um modelo de modéstia face a muitas demonstrações de orgulho. A história da ciência é a do deslocamento gradual das fronteiras do desconhecido, com correcções e rectificações. A única área de actividade humana onde a noção de progresso, no sentido de acumulação de conhecimentos, deriva da evidência, é também aquela que constantemente questiona as noções de certeza, verdade e totalidade. Funciona um pouco como no existencialismo, quando a existência precede a essência. Poderíamos usar este modelo na vida política e projectar um modelo forma mais empírica e científica a partir de princípios e, em seguida, medir a progressão. Quais devem ser esses princípios? A igualdade dos indivíduos e o conhecimento. Dar prioridade ao conhecimento, que é algo que agora não fazemos. Quando falamos em desenvolvimento, muitas vezes referimo-nos à investigação nas empresas e esta não é a investigação fundamental, mas algo que tem a ver com a inovação, com a melhoria dos produtos para fazer aumentar o consumo. Desde logo, não vai responder às nossas perguntas sobre a nossa presença e actividade no mundo. Fizemos um grande progresso no conhecimento do universo mas, como dizia Pascal, o infinito silêncio desses espaços infinitos assusta-me.

Fizemos um grande progresso no conhecimento do universo mas, como dizia Pascal, o infinito silêncio desses espaços infinitos assusta-me.

Como se constrói esse mundo, com que ferramentas? Essa construção só pode ser realizada através de uma política sistemática de educação. É o que eu chamo de utopia da educação. O nosso objectivo deve ser que cada um estude o que quiser e por tanto tempo quanto possível. Eu sei que o modelo que proponho é muito caro, mas se não o fizermos, pelo menos parcialmente, é provável que nos deparemos com uma catástrofe. Na Europa, muitas vezes é dito que a universidade tem que preparar para o trabalho. Não é assim. A universidade deve ser um lugar de formação, reflexão, sem qualquer interesse concreto. Claro que entendo que os jovens têm que trabalhar, mas o trabalho deve ser uma consequência, não uma finalidade imediata. A faculdade não é o lugar para aprender uma profissão. Para isso existem as escolas profissionalizantes e essas estão reservadas para as classes mais pobres com uma orientação cada vez mais precoce. Esta é a desigualdade fundamental e por isso proponho este tipo de utopia em que as pessoas podem estudar o que quiserem por um longo tempo. Eu entendo que alguém me diga que não é realista, mas poderia ser real e dar lugar a uma realidade mais justa, plural e plena para todos... uma utopia. Na França, o presidente François Hollande fez da educação o eixo central da sua campanha e já anunciou a contratação de milhares de professores ...

mas outros apareceram. Medos económicos, de desastres ambientais, terrorismo informático... Além disso, o fosso social entre ricos e pobres aumenta todos os dias, tanto em países emergentes e nos chamados desenvolvidos e as classes médias têm medo de perder sua posição e entrarem na terceira classe. Esta é uma das faces mais visíveis da contemporaneidade. Uma outra consequência da crise económica ... Concedemos o poder à especulação financeira. Por detrás dos mercados, tão frágeis e susceptíveis, há uma realidade que é a especulação. A economia real não é o que domina o mercado, mas sim as finanças, a sua dimensão especulativa. Há 30 anos existia uma realidade mais visível da economia real e creio que há uma relação entre essa tecnologia e a especulação financeira. Eu li que é possível especular não apenas instantaneamente, mas de antemão, vender alguma coisa antes de comprá-la... Compras e vendes por meio de computadores e, ocasionalmente, uma catástrofe ocorre. Estas práticas são ultrajantes, causam catástrofes sociais e não têm nada a ver com a produção. Propõe a ciência como um modelo para a vida política e social. É o único domínio a propósito do qual podemos falar de progresso, de progresso no conhecimento. As pessoas

Por onde passa hoje o verdadeiro conhecimento? Passa pela unificação de todos os saberes, incluindo a ciência. Não devemos opor a literatura à filosofia, à ciência. Estou certo de que os grandes cientistas também são filósofos. Devemo-nos mover em direcção a uma sociedade em que o conhecimento seja a meta e a prosperidade uma consequência. A ciência avança tão rápido que não podemos imaginar o estado de nosso conhecimento daqui a 50 anos, mas certo é que vamos progredir em duas direcções: o conhecimento sobre o universo e sobre a natureza dos seres humanos. O facto humano permanecerá, independentemente do progresso da ciência. O que é a vida? O que é a consciência? É uma aventura fascinante e falaremos dela daqui a uns séculos. Como vê o futuro da Europa? Espero que da crise nasça uma Europa mais forte. Não posso imaginar um retrocesso, seria uma coisa terrível, um fracasso. Agora todos os desafios são planetários e a Europa poderia desempenhar um papel importante no planeta, mas com a condição de que continua a existir como tal. O problema da Europa é que se engrandeceu antes de saber o que seria. A construção faz-se lentamente, a Europa deve pensar a sua unidade. Um século não é nada na escala da história, sendo tudo na escala de um indivíduo.


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Poesia chinesa e psicanálise M. Ângela Andrade O que há de peculiar na forma na poesia chinesa,1 que leva Demiéville2 a comparar a sua tessitura com a arte de “fritar peixinhos sem destroçá-los”? Há uma alusão à sua leveza e subtileza. Mas esse savoir-faire implica ainda exercitar-se pela repetição, pois os chineses imitam e repetem sempre os códigos poéticos, os mitos e os ritos ancestrais. Para além do saber fazer, da habilidade, o que confere à poesia charme irresistível é o estilo e a singularidade, tal como o demonstra a caligrafia chinesa. O que se apreende é que a repetição chama o novo. Na tessitura de uma poesia provisória, a apreensão do ser sempre escapa. Daí ser “poesia ténue, sempre prestes a se desfazer na via do apagamento, sempre capaz de evitar o desaparecimento, ameaçada de extinção e, no entanto, sempre renascendo. Afinal inextinguível, por tocar nos contrastes da língua em si, da qual se desprende a linguagem.”3 Antes de prosseguir lendo como Albert Nguyen articula as relações entre poesia chinesa e psicanálise, cumpre notar dados historiográficos da relação de Lacan com a China, sua língua e pensamento: Jacques Lacan sempre fora atraído pelo Extremo Oriente e sabe-se que, durante a Ocupação, havia aprendido o chinês na Escola de Línguas Orientais. Em 1969, quando elaborava sua teoria do discurso a partir da divisão wittgensteiniana do dizer e do mostrar, voltou a mergulhar com paixão no estudo da língua e da filosofia chinesa. Em outra ocasião procurei tratar aqui das referências sobre a língua chinesa nos seminários de Lacan, principalmente as do seminário XVIII. No presente trabalho busco apresentar aspectos das indicações de Lacan a respeito de poesia chinesa: “Se vocês são psicanalistas, vocês verão que é o forçamento por onde um psicanalista pode fazer ressoar outras coisas, outra coisa que o sentido. (....) O sentido, isto tampona; mas com a ajuda daquilo que se chama escritura poética vocês podem ter uma dimensão do que poderia ser a interpretação analítica. É absolutamente certo que a escritura não é aquilo pelo que a poesia, a ressonância do corpo, se exprime. É aliás completamente surpreendente que os poetas chineses se exprimam pela escritura e que para nós o que é preciso é que tomemos na escritura chinesa a noção do que é a poesia. Não que toda poesia....seja tal que a possamos imaginar pela escritura, pela escrita poética chinesa, mas talvez vocês sintam aí alguma coisa que seja outra, outra que aquilo que faz que os poetas chineses não possam fazer de outra forma senão escrever...”4 A poesia chinesa, porém, só pode ser lida conhecendo o contexto em que brota, ou seja, os fundamentos filosóficos, particularmente taoístas em que está alicerçada. Ainda sobre o contexto: o solo em que florescem essas tradições gerou uma combinação particular de vertentes filosóficas heterogéneas que, no entanto, se revelam bastante assimiladas na cultura chinesa. Nguyen indica ainda os trabalhos de Isabelle Robinet e François Julien que demonstram indiscutivelmente a incidência e força destas doutrinas, tanto na poesia como na estratégia e política da China. O artigo em questão destaca três grandes

Jacques Lacan por Jerry Bauer

como realidade derradeira, sinónimo de Tao. Já a psicanálise confere ao sujeito o estatuto de separado, cortado definitivamente de todo o mundo e de toda cosmologia. Assim, separação, exclusão do sujeito, em oposição à integração taoísta. Poderíamos, talvez, aproximar essa relação ao real no taoísmo com a música tonal, enquanto que a relação ao real na psicanálise com a música atonal. Ou ainda com Badiou: “O real, para Lacan, se dá como ausência de sentido. Mas o que é preciso entender bem, é que ausência de sentido para Lacan, nunca quer dizer não-sentido. Há uma função de sentido do real, enquanto ausência de sentido. Há uma ausência no sentido, uma subtracção ao sentido que não é um não-sentido. É essencial compreender a diferença entre ausência de sentido (ab-sens) e não-sentido (non-sens).”§ 3. A mistura, mestiçagem (métis) da linguagem ou do real com a linguagem do simbólico. É a que se contrapõe à linguagem unívoca do Um fálico; a mestiçagem favorece a maleabilidade de espírito. Efeito de sujeito, afânise, ou o estatuto provisório, evanescente do ser? O sentido de “poesia provisória” diz respeito ao caminho no qual a apreensão do ser sempre escapa. O analisante e o poeta seriam, nesta perspectiva, um efeito poético.

poetas chineses para ilustrar cada tradição: Wang Wei (budista), Li Po (taoísta) e Du Fu (confucionista). Escolhi para ilustrar a presente exposição, a poesia de Wang Wei. Atalho pela velha floresta; nenhum vestígio No coração do monte, um som de sino; vindo de onde? À tarde, sobre o lago deserto, meditando, Alguém aprisiona o dragão venenoso. Em Televisão, Lacan fala do estatuto provisório da poesia, fazendo dela uma arte do desprendimento, como aquela que o poeta Wang Wei pratica. No encontro de poesia chinesa e psicanálise surgem interferências e diferenças. Nguyen destaca a ressonância, termo que equivale à interferência, como o alvo da interpretação psicanalítica. As interferências ou ressonâncias são: 1. A natureza, que na poesia chinesa indica o lugar do vazio, o furo. “Lugar de ressonância, lugar de interferência: nada pode ressoar sem um furo: aquilo que no saber constitui o sintoma analítico, aquilo que deixa o poema e o livro inacabados, aquilo da ruptura da tradição que provoca a rã de Bashô, que se lança no poço, plof! e tantas outras indicações desta interferência da ressonância.” 2. A relação com o real. Essa segunda interferência assenta-se no lugar concedido ao real. A relação ao real é distinta na psicanálise. Na poesia chinesa, o real surge

Nguyen conclui seu trabalho com o que nomeia de Lacan chinês. Diz ele: “Como situar esta possibilidade do passo suplementar que Lacan realiza sobre o taoísmo e a poesia? A resposta é dupla. Por um lado, Lacan, ao formular a estrutura, não deixa de examinar o registo da consequência (desenvolvida nesse mesmo seminário). A causa não porta somente efeito, mas consequências. E por outro lado, esse passo suplementar é autorizado pelo que nomeio de “Lacan chinês” para designar o lugar sempre marcado de referências chinesas em seu ensino, do início ao fim. Lacan começa seu ensino com o Zen e todos conhecem a referência à Índia de Prajapati e o Deus Trovão dos Escritos, mas é principalmente a partir do seminário “A Angústia”, seminário sobre o afecto certeiro da angústia, central em sua elaboração da teoria da causa, que Lacan, a partir do vazio e do feminino – pois é também este um seminário sobre a abordagem do feminino juntamente a uma tentativa de visualizar um para além da rocha freudiana da castração para o final de análise – com Kuan Yin, a fêmea misteriosa da qual ele extrai o olhar como causa, olhar faltante, olhar vazio, começa a marcar aquilo que será uma insistência sobre as referências chinesas.” NOTAS 1 “La métis des mots: le poète et le Saint”- Albert Nguyen. BARCA! N. 8. 1997 2 Os interlocutores de Lacan foram inicialmente o sinólogo e tradutor Paul Demiéville, que durante anos dirigiu a École Pratique des Hautes Études, e mais tarde, o escritor e chefe dos trabalhos no Centro de Lingüística Chinesa da mesma École, François Cheng, com quem leu textos clássicos em chinês. 3 Ibid. pg 122 4 Lacan. L’insu. pg 129


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Ao lado de outros intelectuais, o linguista norte-americano Noam Chomsky enviou uma carta a Margaret Sullivan, editora no ‘The New York Times’, para que o seu jornal reve-

Chomsky alerta NY Times para diferença de tratamento entre Venezuela e honduras

14 de maio de 2013 Estimada Margaret Sullivan, Numa coluna recente (12/4/2013) escreveu: “Embora as palavras e frases por si mesmas não tenham a importância que merecem pelo grande fluxo diário que se cria, a linguagem importa. Quando as organizações de notícias aceitam a maneira de expressar dos governos, elas parecem aceitar a forma de pensar destes governos. No ‘Times’, estas decisões têm mais peso.” À luz desses comentários, exortamo-la a comparar a caracterização do New York Times à liderança do desaparecido Hugo Chávez na Venezuela com aquela a Roberto Micheletti y Porfirio Lobo nas Honduras. Nos últimos quatro anos, o ‘Times’ tem caracterizado Chávez como ditador, déspota, líder autoritário, e “caudilho” nas suas coberturas noticiosas. Se incluirmos os artigos de opinião, o ‘Times’ publicou pelo menos quinze trabalhos empregando tal linguagem, descrevendo Chávez como “ditador”, o “homem forte”. No mesmo período - desde o golpe militar que derrubou o hondurenho Manuel Zelaya no dia 28 de junho de 2009 - nenhum colaborador do ‘Times’ utilizou esses termos para referir-se a Micheletti, que presidiu às Honduras depois do golpe, ou Porfirio Lobo, que o substituiu. Ao invés disso, o jornal descreve-os como “interino”, “de facto”, e “novo”. Porfirio Lobo assumiu a presidência depois de ganhar as eleições que tiveram lugar sob o mandato do governo golpista de Micheletti. As ditas eleições foram marcadas pela repressão e pela censura e os observadores internacionais, como o Centro Carter, boicotaram-nas. Desde o golpe de estado, as forças militares e policiais hondurenhas assassinaram civis com assiduidade. Nos últimos 14 anos, a Venezuela realizou 16 eleições ou referendos. Jimmy Carter elogiou as eleições na Venezuela, entre as 92 eleições que o Centro Carter monitorizou, e descreveu-as como “um magnífico sistema de votação”. Ele concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. Enquanto alguns grupos de direitos humanos criticam o governo de Chávez, as forças de ordem na Venezuela não têm indícios de haver assassinado civis, como aconteceu em Honduras. Qualquer coisa que se pense sobre as credenciais democráticas da presidência de Chávez - e achamos que algumas pessoas responsáveis podem não estar de acordo com isto - não há nada registado, ao compará-lo com a sua contraparte nas Honduras, que justifique as discrepâncias nas coberturas do ‘Times’ em ambos governos.

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ja o tratamento sobre Venezuela e Honduras: Chávez, apesar das vitórias eleitorais, é normalmente citado como ‘ditador’, e Micheletti, que sucedeu Zelaya, é presidente interino.

Convidamo-la a examinar essa diferença nas coberturas e o uso da linguagem, em particular aquela que possa fazer ver aos seus leitores a parcialização na posição do governo dos EUA com respeito ao seu par nas Honduras (ao que apoia), e o governo venezuelano (ao que se opõe) - precisamente a síndrome sobra a qual escreve e avisa na sua coluna. Sinceramente, - Noam Chomsky, Professor Emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts; - Edward Herman, Professor Emérito de Finanças na Wharton School, Universidade da Pensilvânia; - Greg Grandin, Professor de História na Universidade de Nova York; - Sujatha Fernandes, Professor de Sociologia no Queen College e do Centro Graduado da Universidade de Nova York; - Corey Robin, Professor de Ciências Políticas, Brooklyn College; - Adrienne Pine, Professor de Antropologia na American University; - Mark Weisbrot, Doutor em Filosofia e codiretor do Centro para o Estudo da Política e Economia; - Miguel Tinker Salas, Professor de História e Estudos latino-americanos no Porma College; - Katherine Hite, Professora de Ciências Políticas no Vassar College; - Steve Ellner, Professor de Assuntos Internacionais e Públicos na Universidade de Columbia e na Universidade do Oriente; - George Ciccariello-Maher, Professor de Ciências Políticas - Universidade de Drexel; - Daniel Kovalik, Professor de Direitos Humanos Internacionais da Faculdade de Direito na Universidade de Pittsburgh; - Gregory Wilpert, Doutor em Filosofia, autor de “Cambiar a Venezuela tomando el poder”; - Joseph Nevins, Professor de Geografia no Vassar College; - Zazih Richani, Diretor de Estudos da América Latina, Universidade de Kean; - Steven Volk, Professor de História no Oberlin College; - Aviva Chomsky, Professora de História na Salem State University; - Keane Bhatt, Congresso norte-americano para a América Latina; - Chris Spannos, analista do New York Times; - Michael Albert, Znet.”

Michael dal Cerro, Peasants for plutocracy


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DIZER NÃO Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros. Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios. Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude. Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação. Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo. Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela. Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos. Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor. Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue. Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal. E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade. Vergílio Ferreira in Conta-Corrente I


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LITERATURA

FEMINinO-MASCULINO Amélia Vieira Passados que foram os tempos da exaustiva discussão acerca da escrita feminina do «Eu» poético e das múltiplas interpretações existenciais da escrita tenho sempre a sensação de um falso debate que só com uma incontida má-fé se poderá tirar delas conclusões que sustentem uma tese confiável. A escrita, como todo o fenómeno do pensamento, encontra-se profundamente unida à capacidade onírica que cada ser transporta, é lá que residem os arquétipos, os “tijolos”, que hão-de dar forma ao modelo evolutivo desse labirinto. A cultura milenar, onde estamos inseridos, imprimiu para sempre e indelevelmente um ambientalismo muito próprio a cada um dos géneros, que têm a ver com causas naturais e históricas, mais que com qualquer programa de subvalorização de algum dos componentes. No entanto, há que salientar o facto dos grandes hiatos de tempo em que a produção feminina foi escassa. No Sul de França em pleno século XII, por exemplo, as mulheres eram altamente letradas beneficiando do apoio incondicional dos “Homens Bons” e sendo as grandes fazedoras dos textos trovadorescos, mas o seu papel não era só o da dinâmica do Verbo, elas eram as suas inspiradoras: grande parte desta Poesia era-lhes dedicada com o respeito e o dom de Cavalaria que os homens fortemente exerciam para as elevar. O ser-se inspirador de um trabalho engloba em si muito da produção das obras e dir-se-ia que a Mulher tem aqui um estatuto altamente dinâmico, não sendo hoje jamais enaltecido no espaço da acção. Da Literatura enquanto modelo evolutivo não podem jamais ser abolidas as componentes fantásticas e maravilhosas, sob pena de se fazerem coisas como exercício literário e não como exaltação da leitura. No século vinte os Surrealistas optaram por um espaço de quimera muito interessante: dormir. Dormindo, sonhando, registariam melhor a quimera de um tempo perdido numa rotatividade psíquica que faria a grande Roda da Fortuna e aquela frase que lhe está associada «Tudo vai, tudo volta, tortuosos são os caminhos da eternidade» e então, para o mundo desventrado, os nossos surrealistas resolveram apostar nos sonhos como matéria literária de alta tensão. Breton faz seu Manifesto sonhado e sonhando… Outros mais cronistas, os que viriam a dar uma vaga de romancistas e de ensaístas, resolvem vaguear, andar pelo Mundo, recolher experiência, muitos até deportados dos seus locais de origem. O feminino mais atávico sempre foi ficando no local das origens, delineando portanto outros horizontes de escrita. Por isso, está viciada a discussão acerca destas duas escritas, porque elas encerram modelos vivenciais diferentes. Vejamos Safo, nascida em Lesbos. A poeta grega estava confinada ao seu Gineceu, bem como os homens ao Androceu, e mais, à prática da guerra, tirando Esparta, que não deu a nenhum dos dois relevância literária, a vida das sociedades era assim. A noção de Modelo Único só se impõe nas sociedades guerreiras e mesmo assim com tarefas bem definidas. Vamos encontrar nos diálogos femininos clássicos outro tipo de diálogo e de formação do pensamento verbal, o que é

Sapho em Pompeia

benéfico e absolutamente natural, vamos encontrar em Píndaro outro registo, e noutros tantos poetas greco-romanos os frutos das suas vivências. No que diz respeito à matéria de uma secundarização por parte da mulher neste plano, também não é verdade, visto pelo prisma que hoje lhe imprimimos. A Língua é um legado feminino, as crianças aprendem a falar com as mães muito antes de pronunciarem a primeira palavra na sua já ressonância pré-natal. Daí que nenhuma língua no Mundo seja designada por Língua Paterna mas sim Materna. A linguagem desenvolve-se a partir da sedentarização por intermédio em parte do elemento feminino, a Poesia, bem no fundo dos primeiros alvores da chamada Antiguidade Clássica, desenvolve-se como arte de adivinhação praticada sobretudo por Pitonisas. O “ Phatos” masculino falava a sua história, componha as leis do raciocínio, delimitava as suas abordagens, mas vai pegar nesta filiação sem dúvida exemplar. Em plena Revolução Francesa, um pouco antes e depois, os grandes centros de cultura quotidiana eram os Salões das Damas, os chamados Salões Literários, onde se reuniam todos os de saber da época, um pouco à Marquesa de Alorna entre nós, e que muito contribuiu para a produção literária. Mais tarde é também pelas mãos de Lou Salomé e da sua inteligência brilhante que se congregam cinco homens que fizeram mudar a face do futuro que estava para acontecer. Com um maravilhoso pormenor: ela inspirada, era também inspiradora e não deixa de ser surpreendente que elegeu Rilke neste conjunto de dotados. Elegeu afinal o Poeta a quem protegeu como um segredo. Talvez porque os Poetas superem bem essa lacuna do género, esse desiderato da componente sexista, talvez sejam mais inteiros e reúnam algo de andrógino, o que os distancia sem dúvida do dilema.

O que restou desta discussão e análise foi talvez uma interpretação pouco feliz da era da “guerra dos sexos” onde era exigido não definir padrões mas alterar os códigos. Ora nada mais errático e erróneo na medida em que é na laboriosa actividade de ambos que se solidifica a Obra. Entre um género e outro há de facto um espaço e um tempo que não convém ser medido em factor distância, ter espaço não é o mesmo que ter tempo, o Tempo é uma medida muito da era Capitalista, em que se implementou como sendo sinal de dinheiro, o espaço é outra coisa mais ampla, mais própria, mesmo programável e muito mais durável. Vejamos a ficção feminina actual, sobretudo a nacional, muito mergulhada em perfis psicológicos passados e tramas de uma saturada complexidade emocional que nada dizem do momento hoje, como se não tivesse dele uma nítida memória, como se não encontrasse o seu lugar na contemporaneidade do agora. Um prestigioso exercício de caracter técnico sem dúvida, mas que nada informa do seu instante habitado, muito menos do tempo vindouro, como se a literatura fosse um útero, um conforto para os tempos agrestes, aquilo que porventura são alguns dos seus tesouros. Os homens continuam pioneiros das novelas do tempo, criam e recriam a partir dos factuais elementos, compõem a sua acção, mas nem sempre com a graça e o talento devidos para merecerem um interesse prolongado. Não sei, dir-se-ia que algo de portentoso falhou na capacidade de comunicar, está certo, mas não chega. Então o que falta para falarmos de Literatura? Acho que no fundo faltam Homens e Mulheres. Que não discutam jamais a matéria dos seus géneros mas que se completem na definição das suas realidades. Se com eles fizermos toda uma Literatura epistolar, veremos da razão: que melhor diálogo literário que Abelardo e Eloísa, Juan de La Cruz e Santa Teresa D´Avila, Salomé e Rilke, Mariana Alcoforado e seu amante francês, à arte dialogal do Cântico dos Cânticos num entrelaçado onde nenhum dos dois pode reendivicar para si a supremacia do Verbo! São estes testemunhos e outros, que me fazem pensar na desordem programática de um tal assunto. “O meu deus saúda o deus que há em ti” e é a partir desta simples premissa que se constroem os diálogos que se hão-de registar em forma de linguagem, mas de linguagem que valha a pena ser escutada. A Poesia felizmente que fica num roteiro mais amplo, muitas das vezes como acontece com Pessoa, existe mesmo um travestir de factos: «O último sortilégio» a voz toda ela é feminina, porém é um homem que a escreve. A Luxúria de um Mário de Sá-Carneiro… o envolto manto deste prazer, o terceiro sexo de Rimbaud. Maria Zambrano analisa muito bem a temática poética de todo o resto, essa discípula que foi de Ortega e Gasset. Mas o eu poético exercido como um implante da psique, teve por vezes um certo maneirismo dialogal sem forma, que tentava explicar por metodologias várias algo que me parece sem sentido. Afinal ele está onde sempre esteve, no poeta. E quem é ele? Quando respondermos a isso deixarão de haver poetas. Como a Literatura não fará mais sentido no tempo da telepatia das coisas reveladas.


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O Registo da Fonte dos

桃花 Entre as utopias renascentistas mais notáveis, encontra-se a Cidade do Sol, escrita em 1623 por Tommaso Campanella (15681639), que foi preso por se ter insurgido contra o regime despótico espanhol, e mais tarde também caiu nas malhas da Inquisição em Itália por se revoltar contra a ordem estabelecida. Da vontade de escapar às autoridades terrenas do seu tempo, nasceu a Cidade do Sol, governada pelos princípios ideais da Potência, Sapiência e Amor, encarnados nos três chefes Pon, Sin e Mor, que obedeciam às ordens de um senhor único, o supremo sacerdote Hoh, cujo nome significa metafísico. Neste livro o autor descreve uma sociedade perfeita, orientada por ideais, onde as gentes vivem de um modo simples e naturalista, num comunismo religioso, portanto sem propriedade privada. A cidade é descrita por um almirante genovês, em diálogo com o Grão-Mestre dos Hospitalários, que desembarcou perto da Taprobana e se emaranhou numa floresta até ser conduzido por um grupo de mulheres e homens armados à cidade ideal. Na cidade do Sol reina o Bem à maneira da República platónica. Aqueles tempos renascentistas eram difíceis e para os suportar os filósofos construíam castelos no ar. Mas já antes, nos tempos antigos, os gregos tinham feito o mesmo através da pena e do muito penar de Platão. Dos antigos aos humanistas percorre uma idêntica vontade de amor, sapiência e potência ao serviço da comunidade. Os filósofos não gostavam de assistir às crises por que eram fustigados e imaginavam um mundo melhor, mais bem organizado, como sucedeu ainda a Sir Thomas More, que foi martirizado devido aos seus ideais católicos (1478-1535), numa Inglaterra pronta a tornar-se anglicana. Para More as pessoas viviam mal desnecessariamente. Uns trabalhavam demais, outros de menos, outros ainda nada, como as mulheres da sua época. Por isso preconizou uma ordem onde as mulheres pudessem ser educadas e contribuir para a sociedade em que se integravam. Além disso, propôs uma divisão mais justa do trabalho que devia recair sobre todos. Leia-se o que nos diz em Utopia, obra redigida em 1516. Nesta um viajante, Rafael Hythlodeaus, encontra uma ilha, o país da Utopia, um escape imaginário contra a instabilidade política

Tao Yuan Ming

e social da época. Na ilha todos vivem satisfeitos, porque obedecem a um governo organizado e justo, onde se verifica a partilha comunitária dos bens, num comunismo monástico inspirado pelos Actos dos Apóstolos. Quanto ao trabalho, ele deve ser realizado com conta, peso e todas as medidas: “Apenas trabalhavam seis horas por dia e poder-se-ia pensar que daí resultaria a falta de bens essenciais. De facto as horas de trabalho deles eram suficientes para produzir abundância, ou mesmo superabundância, de modo a satisfazer todas as necessidades e conveniências da vida.” Comunismos monásticos à parte, estes utópicos abordam questões essenciais do ponto de vista ecológico, já que o excesso de produção e produtividade é um veneno para o equilíbrio do ecossistema. Além disso, o nosso tipo de sociedades suscita uma séria desordem afectiva, que leva a confundir consumismo com prazer, alegria e bem-estar. Os utópicos são grandes defensores da natureza e dos ritmos naturais. Vejamos como

More, que viria a ser canonizado pelo Papa Pio XI em 1935, define a felicidade: “Os utópicos não acreditam que exista felicidade em todos os prazeres, mas apenas em prazeres bons e honestos. Definem a virtude como vivendo de acordo com a natureza e concluem que a própria natureza prescreve uma vida de alegria (quer dizer, de prazer) a título de finalidade para a existência terrena.” Os utópicos ocidentais têm em comum a defesa de um modelo social organizado, regido por valores e ideais filosóficos e até religiosos, já que tanto Campanella como More propõem espaços ligados ao sagrado, mas nunca afastados da natureza. Apresentam cenários frugais e simples, onde todos têm a possibilidade de satisfazer não apenas as necessidades, como ainda os prazeres, o que auxilia a desenvolver gente alegre, despreocupada e em comunhão natural. Os orientais, mais especificamente, os chineses também têm utopias? A resposta é afirmativa, sendo uma das mais antigas a do Registo da Fonte dos Pessegueiros em Flor 《桃花 源記》da autoria de Tao Yuan Ming (陶


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Ecos Naturalistas

Ana Cristina Alves*

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s Pessegueiros em Flor

源記

Thomas More

淵明), que viveu entre 365 e 427 dC, nos finais da dinastia Jin do Leste (東晉). Foi um grande poeta e letrado, que se recusou a colaborar numa sociedade na qual as pessoas se vergavam por um pedaço de arroz (五 斗米折腰). Trocou os jogos de poder e influência pela lavoura. Celebrizou-se como cantor de cenas campestres e deixou-nos a descrição de um mundo ideal em ambiente rural, afastado do bulício citadino. O seu sonho de um mundo ideal, a salvo da agitação política e do labirinto de fama e proveito em que as pessoas se emaranham, seria condensado numa expressão proverbial familiar aos chineses: “Viver sem conhecimento da existência da dinastia Han, e ainda menos das Wei e Jin, num lugar inacessível aos forasteiros” (不知有漢,無論晉魏:不足為外人道). A expressão proverbial aponta para os malefícios das organizações sociais e políticas, tendo nascido num contexto de forte divisão e instabilidade, aquele em que o poeta da dinastia Jin do Leste viveu, suspirando por um espaço sem lugar concreto no mundo de então, impossível de ser descoberto, a menos que alguém se aventurasse nos caminhos da imaginação. Foi isso que sucedeu ao personagem prin-

cipal, um pescador de Wulin (武陵), actual Changde (常德), localidade situada na província de Hunan (湖南). Entregue à sua faina remou no barquinho ao longo dum pequeno riacho. E foi remando, remando até encontrar uma floresta de pessegueiros. As margens eram bordadas por magníficos pessegueiros, que cobriam a terra de flores aromáticas. Tal cenário extasiou o pescador que continuou a remar à procura da nascente do pequeno curso de água. Foi então que chegou à entrada de uma gruta, banhada por uma luz indistinta. Aí resolveu desembarcar. Caminhou a partir da entrada da gruta e à medida que avançava, o caminho inicialmente estreito, ia alargando, até que chegou à Fonte das Flores de Pessegueiro. O lugar é descrito do seguinte modo: “As casas estavam muito limpas e bem organizadas, os terrenos eram férteis e os lagos transparentes e belos. Também havia amoreiras e bambuais. As ruas cruzavam-se e comunicavam, (nas aldeias) ouviam-se os cães a ladrar e os galos a cantar. Era grande a azáfama dos aldeões que se dedicavam à lavoura e as pessoas vestiam-se tal e qual como no resto do mundo. Velhos e novos

Tommaso Campanella

eram felizes e estavam satisfeitos consigo próprios.” (房屋整齊,有肥沃的土地,清麗的池 塘,還有桑樹竹林之類。田間小路交 錯相通, (村落間)能互相聽到雞犬 的叫聲。村裏面,人們來來往往耕種勞 作,男男女女的衣者裝束完全和桃花源 外的人一樣,老人和小孩子都高高興 興,自得其樂。) Após o que o pescador prossegue, narrando que o receberam muito bem. Preparam um banquete com vinho e até mataram uma galinha para o agraciar (as práticas vegetarianas ainda não eram frequentes). Os habitantes da Fonte dos Pessegueiros em Flor encheram o nosso homem de perguntas sobre o mundo de que se mantinham separados desde que os antepassados romperam com a dinastia Qin. Num contexto de reiteração do desejo de continuarem recolhidos, surgiu então a famosa frase que havia de se tornar proverbial: pois se não conheciam a dinastia Han, quanto mais as Wei e Jin… Quanto o pescador mostrou vontade de partir, solicitaram-lhe que não revelasse o lugar a ninguém.

O homem esqueceu o pedido e de regresso à sua terra revelou ao mandarim a existência de um lugar perfeito, escondido numa floresta de pessegueiros. Este apressou-se a enviar emissários que nunca descobriram o tal paraíso. Quais foram as razões que levaram Tao Yuan Ming a descrever a Fonte dos Pessegueiros em Flor como um lugar ideal? Primeiro a descrição paisagística: os pessegueiros e suas flores têm um lugar muito próprio na cultura chinesa, simbolizam a longevidade e imortalidade, propiciando uma vivência bucólica de grande beleza. Depois, e não menos importante, o facto de os aldeões na Fonte dos Pessegueiros em Flor estarem ao abrigo da humana “desorganização” social e política. Todos eram felizes, porque apenas trabalhavam sem que tivessem quem mandasse neles. Recorde-se que os antepassados tinham escapado à crise provocada pela mão férrea do primeiro imperador Qin (Qin Shihuang秦始皇). O que têm todas as utopias em comum? A vontade de convivência num espaço natural muito belo, onde as pessoas se organizam de modo a serem apenas regidas pelas ideias de Beleza, Bondade, Justiça, à maneira platónica, à qual se vem somar a de Amor, nos tempos cristãos. Os aldeões de todas estas utopias vivem bem e, por isso, são naturalmente alegres. Voltando à Fonte dos Pessegueiros em Flor de Tao Yuan Ming, imagine-se um qualquer poeta ou filósofo chinês que queira escrever uma utopia em pleno século XXI. Este, além de fazer profissão de fé de uma sociedade comunitária e feliz, regida apenas pelo valor do trabalho, terá uma séria dificuldade em encontrar um cenário paisagístico que lhe inspire a utopia, sobretudo se viver numa grande cidade chinesa e pretender escapar para o campo. Onde poderá ele encontrar os pessegueiros, as amoreiras e os bambuais? Bibliografia e Webgrafia

梁衡(編)2013《影響中國歷史的十篇 美文》香港:商務印書館 Excertos da Utopia de Sir Thomas More: http://apps.sfhs.com/teachers/lemuller/AP_Euro/Ren/ utopia.pdf Excertos da Cidade do Sol de Tommaso Campanella http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cidadesol.pdf

* A autora lecciona nos Mestrados de Tradução e de Língua e Cultura do Departamento de Português da Universidade de Macau


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d e p r o f u n d i s

a revolta do emir

Pedro Lystmann

Triunfo da Cidade Sábado de Primavera. Lobby do Hotel Mandarin. Caril de galinha e um pu erh velhinho, daqueles que amaciam quando a infusão ganha maturidade. Triumph of the City, de Edward Glaeser, é o livro escolhido para complementar a degustação luxuosa e solitária do galináceo cozinhado em estilo malaio. Ter-se-ão de desculpar, ao longo da sua leitura, alguns traços mentais obsessivamente neoliberalistas que a poderão tornar mais incomodativa. Uma das suas teses fundamentais, a de que uma elevada concentração populacional baseada na construção em altura é a opção mais verde que se coloca hoje aos governos, ao reduzir o uso do carro e outros hábitos poluidores inerentes à habitação de casas maiores nos subúrbios, interessa-nos menos. Por outro lado, e esta será a sua perspectiva mais empolgante, mesmo que não inovadora, lê-se confortavelmente como um elogio sentido e efusivo à capacidade urbana de inovação e criatividade de que já aqui faláramos a propósito de Hong Kong. Este dinamismo cria-se, segundo Glaeser, entre outras razões, porque o intercâmbio intelectual é muito mais intenso nas grandes cidades que no campo ou nos subúrbios. Em torno desta dinâmica cria-se mais riqueza. As pessoas que vivem nas cidades geram mais riqueza e ganham mais porque existe esta energia mas também porque esta energia intelectual estimula a produtividade. As diversidades que a grande urbe oferece criam um ambiente que promove o trabalho. Estas atraem o talento e as ideias e aquele mistura-se numa rede densa e intensa de relacionamentos. É obrigação de uma cidade descobrir talentos que num outro ambiente menos cosmopolita e mais provinciano se não desenvolveriam. Um dos pontos em que Glaeser mais insiste é no da proximidade. A proximidade física em que as pessoas vivem faz com que as ideias se espalhem como infecções. Este processo dá-se em locais onde a uma vida profissional intensa se juntou, como acontece em tantas aglomerações urbanas modernas, um sentido da impor-

tância do lazer. Estas são cidades onde há muitas casas de espectáculo, discotecas, museus, cafés, bares e esplanadas. A população de Macau, por seu lado, continua teimosamente a exibir uma resistência conservadora ao convívio espontâneo nos bares e nos cafés. É infinitamente mais fácil chegar à troca de ideias com um estranho em Hong Kong, em Tóquio ou em Kuala Lumpur do que em Macau. Muitos são os habitantes locais que demonstram uma dificuldade extrema em estabelecer uma conversa com alguém que não conhecem, mesmo que esta inibição esconda, tantas vezes de modo óbvio, apenas uma incapacidade e não um indesejo. É tanto mais estranho quanto a população de Macau é relativamente misturada – um fenómeno que fomenta a interacção e a produtividade. Em Nova Iorque (que não funciona aqui sequer como comparação, apenas como referência) 36% da sua população é oriunda de outros lugares e 48% da mesma fala, em casa, uma outra língua que não o inglês (dados de 2008 hoje porventura já inflacionados). Macau é uma cidade pequena mas no interior dessa pequenez exibe um nível elevado de mistura. Dessa mistura não pode sair senão um ímpeto criativo e ousado, e a contínua admissão de imigrantes qualificados é uma necessidade premente.

A falta de dinheiro não é também desculpa para que as pessoas se sintam afastadas deste tipo de convívio. Uma percentagem significativa da população local não teria dificuldade em gastar 2 ou 3% do seu rendimento mensal a beber uns copos num bar. Uma cidade tornar-se-á tanto mais atraente quanto mais prazer proporcionar aos seus habitantes, o que, paralelamente, promoverá um clima propício à troca de ideias e à criatividade. Se, por um lado, Macau foi punida com os políticos mais aborrecidos e mais mal vestidos da região, parece estar a vir ao de cima uma classe média jovem cada vez mais educada, independente, ousada e, espera-se, mais divertida e com mais ideias e desejos acrescidos de as partilhar. Glaeser aponta que numa grande cidade a possibilidade de uma pessoa ir a um concerto pop ou rock é 19% mais alta que numa zona pouco urbanizada. É também 44% mais possível visitar um museu ou 26% mais possível ir a um bar. O autor de Triumph of the City também não deixa de apontar que o dinamismo de uma cidade não é um dado adquirido. A vida de uma cidade baseia-se, essencialmente, nas energias que a sua população consegue criar. Nos anos 70 Nova Iorque estava à beira da ruína, hoje é uma megacidade com uma vibração inigualável. Basta uma sucessão de pequenos erros

de planeamento, como a fixação numa só área de rendimento, para se cortejar o desastre. Berlim Ocidental era, não há muito tempo, uma pequena cidade, a parte Oriental quase desconhecida. Hoje é cada vez mais difícil lembrar a sua bizarra história recente. As cidades são, além de tudo o mais, lugares mais divertidos do que o campo ou a suburbia. A oferta cultural e recreativa é muito mais elevada do que no mundo rural, e muito mais democrática. A oferta de cultura e entretenimento é cada vez maior. Se é nas cidades que se encontram produtos de alta qualidade ou de luxo, é também cada vez mais na cidade que existem estruturas de lazer ao alcance de todos, grátis ou de baixo custo, como melhores jardins, bibliotecas, piscinas, galerias de arte, vias pedonais e para bicicletas, esplanadas, museus de arte ou ciência, situadas em ambientes cada vez mais verdes e mais saudáveis e integradas em peças de arquitectura cada vez mais atraentes e cada vez mais bem ligadas por sistemas de transportes públicos acessíveis. Singapura, Fukuoka, Quioto, várias cidades da Oceânia (Melbourne), Europa (Zurique) e Américas (Portland) são exemplos brilhantes. Macau não é um exemplo nada brilhante mas poderia facilmente brilhar um pouco mais. Hong Kong está a caminho de o ser, e a sua transformação de cidade cinzenta e excessivamente economicista em uma cidade que faz acompanhar a sua obsessão empresarial de uma poderosa indústria do lazer e da cultura é tanto mais impressionante quanto se deu num espaço muito curto de tempo (menos de 10 anos). O autor de Triumph of the City cita um urbanista que aponta como razões importantes para a atracção e fixação de residentes com um elevado nível de escolaridade a dedicação às artes, a tolerância para com estilos de vida alternativos e uma propensão para a diversão e para a organização de eventos. O que Gleaser publicita em subtítulo é uma verdade incontornável - que a nossa maior invenção (a cidade) nos fez mais ricos, mais espertos, mais verdes, mais saudáveis e mais felizes.


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t e r c e i r o o u v i d o

próximo oriente

Hugo Pinto

Da atmosfera Não foi uma noite como as outras. Perto das oito, subi à Fortaleza do Monte. No cimo, escolhi uma cadeira da plateia virada para o palco e sentei-me. Outubro. Céu deserto e azul. Escuro. A brisa amansa o calor e o coração. Uma paz. Dentro de momentos, Ryuichi Sakamoto há-de sentar-se ao piano e Alva Noto (Carsten Nicolai) haverá de assumir os comandos da maquinaria que agora está quieta e silenciosa. Ainda não se ouviu qualquer som mas, na minha cabeça, desde que a dupla foi anunciada no cartaz do Festival Internacional de Música de 2006 não ouço outra coisa: músicas com nomes misteriosos (“Uoon I”, “Trioon II”) e timidamente poéticos (“Logic Moon”). Escrevi então a propósito deste concerto: “A música dos dois é humilde, recatada. Parca. Voa ora rasante, ora rasteira, mas guarda sempre a devida distância. (...) Do lado de Alva Noto, o frio das máquinas, o digital; do de Sakamoto, o calor humano. Um ser vivo. O racional e o emocional, a electrónica e a acústica. (...) É notável como as forças em jogo não se subjugam, como dialogam sem desconversar. (...) Piano melancólico e partículas electrónicas em suspensão, trabalhadas numa filigrana paciente. Sakamoto empresta alma, mas os mais atentos talvez se surpreendam com a humanidade e a gravidade das arritmias com que Alva Noto vai marcando as frases do piano.” Ryuichi Sakamoto, uma das poucas estrelas japonesas com dimensão global, nunca foi estranho a colaborações, tendo um historial longo que o emparelhou com músicos de jazz, da bossa nova, da pop, do rock ou da electrónica, mas, com o holandês Alva Noto, abriu-se um novo trilho na electrónica experimental, que, apesar da originalidade, foi acatado com naturalidade pelos seguidores de ambos os músicos. Também não surpreendeu, pouco tempo depois, a notícia de que o japonês iria traba-

lhar com o austríaco Christian Fennesz, um dos mais respeitados nomes da nova música experimental. E, diga-se ainda, também não surpreendeu que dali saíssem discos (três, até agora) simplesmente magníficos. O primeiro, “Sala Santa Cecília”, de 2005, consiste apenas numa peça: 19 minutos de ruídos na beira do “noise” levitando sob um tapete ambiental que, a espaços, confere travos orientais e místicos a sons crus, elevando a música que a partir daí se vai decompondo lentamente até ao ponto em que Sakamoto e Fennesz pegam para arrancar “Cendre”. No primeiro álbum de longa-duração, editado em 2007, ao longo de 11 temas os dois remetem-se a posições bem definidas: Sakamoto senta-se ao piano, Fennesz pega na guitarra e manuseia computadores. Entre 2004 e 2006 ambos trocaram ficheiros à distância, partes de músicas que iam sendo completadas na volta do correio. “Cendre”, o resultado, não sugere, de todo, o processo fragmentado, dando antes a sensação de que os dois músicos são colaboradores antigos, tal é a fluidez com que improvisação e composição se vão conjugando. O característico piano de Sakamoto, evocativo dos franceses suaves do início do século passado, Satie e Debussy, divaga nas nuvens da guitarra difusa e das electrónicas vaporosas de Fennesz. Ouvimos “Haru” ou “Mono” e imediatamente conjuramos horizontes impossíveis que queremos atravessar de olhos fechados. Há ideias que esta música nos dita, mas tudo reside mais na aparência e no poder de sugestão, nos espaços intermédios, nas variações subtis – na tristeza que passa a melancolia, na surpresa que se suspende na apreensão, na quietude que se transforma em paralisia, no dia que entardece, na noite que fica escura.

Sakamoto e Fennesz parecem procurar com perseverança todas as possibilidades que notas soltas, estáticas variadas e silêncios avulsos podem querer dizer-nos. E dizem, mesmo quando apenas nos miram, nos contemplam como observadores impassíveis. Esse reino imaginário das possibilidades voltou a ser explorado no disco seguinte, “Flumina”, de 2011, o mais ascético dos trabalhos da dupla até à data. É também o mais longo. No total, 24 temas baseados em improvisos ao piano que Sakamoto gravou durante uma digressão pelo Japão. Cada uma das peças era tocada num tom diferente no início de cada concerto daquela “tournée”, sempre com o pensamento na colaboração com o austríaco, explicou Sakamoto. Os 24 temas representam as 24 escalas maiores e menores da música ocidental, e têm títulos como “0318” ou “0319”. Na maior parte das vezes só os distinguimos porque há uma pausa entre eles. Depois, voltamos a olhar para a imagem da capa: um plano apertado do mar, em que vemos os pequenos cumes da água, ondulações tímidas e efémeras. Um mar que parece todo igual se o avistamos de longe, sendo impossível perceber que se divide em gotas, uma noção que desafia o nosso entendimento, não só do espaço e da dimensão, do volume, mas também do tempo que tal tarefa nos levaria. A música “ambient” privilegia a distensão infinita, as peças com dezenas de minutos que acabam como começam, parecendo que existiram desde sempre, sem princípio nem fim, como se tivessem sido colhidas da eternidade. Imagino um deus recostado entre cúmulos de nuvens a estender o braço e a agarrar com a mão cheia um pedaço de céu. Com a sua música atmosférica, Sakamoto e Fennesz não nos dão o céu, na verdade, mas prometem. Isso que baste.

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c i d a d e s i n v i s í v e i s

perspectivas Jorge Rodrigues Simão

A dinâmica histórica das sociedades “The openness of a society, its willingness to permit creative destruction, and the rule of law appear to be decisive for economic development.” Kenneth J. Arrow, Nobel laureate in economics, 1972 Lives of the Laureates: Twenty-three Nobel Economist William Breit and Barry T. Hirsch

A grande maioria da população do mundo não goza do direito de retirar qualquer benefício das oportunidades económicas que a globalização criou. Os estudos feitos pelas organizações internacionais multiplicam-se anualmente, tentando dar uma resposta plausível para a existência de imensa desigualdade no mundo e de quais as soluções possíveis para a resolver. Tais estudos, em geral, apresentam uma falha capital, que é a minuciosa análise da dinâmica histórica das sociedades, tornando necessário mergulhar no passado para entender a realidade do presente. O mundo árabe tem sido assolado desde 2011 por fortes revoltas sociais, que tiveram início na Tunísia, passaram pelo Egipto, Bahrain, Iémen, Líbia e terminam na Síria por enquanto, que sofre uma guerra civil devastadora, cruel e sangrenta, que urge a imediata intervenção da comunidade internacional de forma eficaz. Analisando a situação da crise social e política acontecida no Egipto, logo se conclui que o Reino Unido, potência ocupante de 1882 a 1922, é muito mais rico e deve-se ao facto de em 1688, terem passado por uma revolução que o transformou política e economicamente. Os ingleses lutaram e conquistaram mais direitos políticos que usaram para alargar as suas oportunidades económicas. O resultado foi um percurso político e económico radicalmente diferente que culminou com a “Revolução Industrial”. A revolução que se deu na Inglaterra e as tecnologias associadas não se estenderam ao Egipto, uma vez que estava sobre o controlo do Império Otomano, que o geriu da mesma forma que a família do ex-presidente Hosni Mubarak o fez de 1981 a 25 de Janeiro de 2011. O domínio otomano foi derrubado por Napoleão Bonaparte em 1798, e depois de um longo período de guerras civis, é ocupado pelos ingleses para proteger os seus interesses financeiros e económicas, nomeadamente os relacionados com o Canal de Suez. Os ingleses tal como os otomanos tiveram pouco interesse em criar a prosperidade do Egipto. O povo egípcio oscilou entre os impérios Otomano e Britânico e, em 1952, derrubou a monarquia, e proclamou a República em 18 de Junho de 1953. As crises pelas quais o Egipto passou, não têm nada

em comum com a revolução na Inglaterra, que ao invés de transformarem fundamentalmente as estruturas políticas do país, permitiram que ascendesse ao poder uma outra elite, igualmente, desinteressada em alcançar o desenvolvimento e trazer prosperidade aos egípcios, tal como o tinham feito otomanos e ingleses. A consequência foi permanecer a estrutura base da sociedade sem alteração e continuar o Egipto a ser um país pobre. É muito importante conhecer a forma como tais modelos se reproduzem ao longo da história e por vezes são alterados, como aconteceu na Inglaterra em 1688 e na França com a revolução de 1789, permitindo entender se a situação no Egipto actualmente mudou, e se a revolução que fez Hosni Mubarak renunciar ao mandato presidencial, conduz a um novo caminho que refaça as instituições e as torne capazes de trazer prosperidade ao povo egípcio. O Egipto passou por momentos revolucionários no passado, que nunca mudaram a “situação existente”, porque quem organizou as revoluções, assumia depois, o controlo do poder detido pelos derrubados e recriava um sistema semelhante. O facto mais difícil na história das revoluções, é o do cidadão adquirir o poder político real de alterar a forma de funcionamento da sociedade. É difícil, mas não impossível e tal aconteceu na Inglaterra, França, Estados Unidos, Japão, Botswana e Brasil. É necessária uma transformação política desta natureza para que uma sociedade pobre se torne rica. Existem evidências de que pode estar a acontecer no Egipto, e um desses sinais foi proferido por um dos manifestantes de Tahrir Square, no Cairo, ao referir que “Agora os cristãos e muçulmanos estão juntos, bem como os jovens e os idosos, todos desejando o mesmo”, podendo-se concluir que um amplo movimento na sociedade foi uma parte fundamental do que aconteceu no Egipto, e em outras transformações políticas ocorridas durante a história. Se compreendermos quando e quais as razões porque tais transições ocorrem, é possível avaliar se os movimentos de revolta falham como aconteceram inúmeras vezes no passado ou esperar pelo seu sucesso e melhoria das condições de vida de milhões de pessoas. Vivemos num mundo desigual. As diferenças de riqueza entre os países são enormes e agravam-se. As pessoas com as devidas excepções e adaptações nos países ricos são mais saudáveis, vivem mais tempo e tem melhor educação. Têm acesso a uma variedade de actividades lúdico-recreativo e de condições de vida, desde férias pagas a

planos de reforma que as pessoas sonham nos países pobres. A população dos países ricos pode conduzir em estradas sem buracos, (com as devidas reticências) e desfrutar de casas de banho, electricidade e água corrente nas suas casas. Os governos dos países ricos não praticam detenções arbitrárias ou tortura das pessoas, pelo contrário, prestam serviços, como a educação, saúde, estradas, construção e manutenção de vias rodoviárias, segurança pública e justiça, entre muitos outras. Os cidadãos dos países ricos têm direitos políticos, como o de votarem em eleições livres e democráticas e participarem nas grandes decisões políticas. (tal não acontece nas democracias dos Estados-membros do Sul da Europa em recessão e intervencionados ou não, como a Grécia, Portugal, Chipre e Espanha, por culpa dos famigerados “critérios de convergência de Maastricht”, que têm moldado as políticas macroeconómicas da União Europeia. Tudo podia ser previsto e criados mecanismos apropriados, se na primavera de 1998, tivesse havido um debate decisivo sobre as políticas de convergência para a moeda única)

As grandes diferenças em termos de desigualdade mundial são evidentes para todas as pessoas, mesmo para as que vivem em países pobres, ainda que uma grande maioria não tenha acesso a televisão ou a Internet. É a percepção e a realidade dessas diferenças que levam as pessoas atravessar, por exemplo, o Rio Grande na fronteira entre os Estados Unidos e o México, ou o Mediterrâneo de forma ilegal, para ter a sorte de conhecer as oportunidades e os padrões de vida dos países ricos. A desigualdade não só tem consequências para a vida das pessoas nos países pobres, mas também para os países ricos que as alojam, pois são fontes geradoras de queixas e ressentimentos, de enorme efeito político como acontece nos Estados Unidos e em outros países. Entender a razão da existência dessas diferenças não deve ser apenas um fim, mas o primeiro passo de como criar ideias

mais claras que permitam encontrar soluções para a imigração ilegal e melhoria de vida de muitas centenas de milhões de pessoas que ainda vivem na pobreza. O funcionamento de cada sociedade faz-se por meio de um conjunto de regras económicas e políticas criadas e executadas pelo Estado e cidadãos colectivamente. As instituições económicas regulam os incentivos económicos, como os relativos à educação, poupança, investimento, inovação, adopção de novas tecnologias, etc. É o processo político que determina quais as instituições económicas às quais as pessoas se encontram vinculadas, dando assim importância à economia social e que têm por objectivo a criação de maior riqueza e a diminuição da pobreza. As instituições políticas têm a responsabilidade de determinar o funcionamento de todo esse processo. As instituições políticas, como no caso dos Estados Unidos, são quem determinam a capacidade dos cidadãos para controlar os políticos e influenciar o seu comportamento, e por sua vez, determinar se os políticos representam os cidadãos, conquanto de forma imperfeita, ou se são capazes de abusar do poder que lhes foi confiado, ou o usurparem para fazer ou acumular fortuna e defender os seus interesses, em detrimento dos interesses dos mesmos cidadãos. As instituições políticas incluem, mas não estão limitadas às constituições escritas se a sociedade é democrática, devendo ser regidas pelos princípios da igualdade, liberdade, participação e justiça e incluem o poder e a capacidade do Estado de regular e governar a sociedade. É necessário, considerar de forma mais alargada os factores que determinam a forma como o poder político é distribuído na sociedade, em particular a capacidade de diferentes grupos trabalharem colectivamente na prossecução dos seus objectivos, evitando que outras pessoas desenvolvam actividades na mesma área de actuação. O ponto fulcral do sucesso ou insucesso dos países é determinado pelas instituições que influenciam o comportamento e os incentivos na vida real. As matérias relativas ao talento individual das pessoas em todos os níveis da sociedade, necessitam de um quadro institucional que as regule e transforme em energia positiva. As pessoas de grande talento e ambição da Indústria de Tecnologia da Informação e Comunicação, como Bill Gates, Steve Jobs, Sergey Brinn e muitas outras lendárias personalidades, finalmente acabaram por responder aos incentivos.


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c i d a d e s i n v i s í v e i s

metrópolis

Tiago Quadros*

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Arqueologia do Digital I A exposição Arqueologia do Digital, recentemente inaugurada no Canadian Centre for Architecture (CCA), recupera os passados digitais dos arquitectos Peter Eisenman, Shoei Yoh, Frank Gehry e Chuck Hoberman. Em Arqueologia do Digital são exploradas as histórias particulares de quatro projectos e a forma como a utilização do computador modificou de forma radical a arquitectura. A título de exemplo, refira-se o Centre for Land Use and Built Studies (LUBFS), fundado em 1967 no departamento de Arquitectura da Universidade de Cambridge por Lionel March, debaixo da direcção de Leslie Martin. March tinha chegado a Cambridge para estudar matemática, com uma recomendação do cientista de computadores e descodificador Alan Turing, mas cedo transferiu-se para um módulo de matemáticas e arquitectura. Sean Keller, autor do livro Semi-Automatic: Motivating Architecture After Modernism, defendia que a abordagem às matemáticas e arquitectura fizesse parte de um processo que incluísse a integração das escolas de arquitectura em universidades do Reino Unido com introdução de requisitos de nível superior para o estudo das matemáticas. Keller acabará por sugerir a Martin que comprove que a arquitectura era tão rigorosa nos seus requisitos técnicos quanto a engenharia. Encoragado por Martin, March decide explorar de que forma os avanços na matemática, em particular associada aos computadores e à inteligência artificial, poderiam informar o trabalho do arquitecto. Lionel March acabará por desenvolver um conjunto relativamente alargado de estudos, em áreas semelhantes às dos interesses dos Novos Brutalistas, tal como utilizar gráficos para testar novas combinações de aposentos numa casa; modelar fluxos pedestres; gerar relações inesperadas em organizações espaciais domésticas; e realizar mapas de distribuição populacional em áreas urbanas, desenhadas a partir de probabilidades estudadas em pequenas amostras. Na introdução do número da Architectural Design de Maio de 1975, dedicado ao trabalho do LUBFS, March escreveu: ‘Nós não consideramos os gráficos computacionais muito importantes: apesar das valências que estes podem representar para o trabalho do arquitecto. Fazer com que os computadores realizem hoje o trabalho dos arquitectos é como usar uma estrutura metálica para suportar um edifício gótico. Os computadores não modificarão os métodos de desenho, enquanto que a teoria sim’. Apesar do número da Architectural Design, dedicado ao trabalho do LUBFS, ter sido profusamente ilustrado com fórmulas e diagra-

mas, em vez de plantas e cortes transcritos a partir da análise computacional, March seria claro a enfatizar o papel do arquitecto como principal interlocutor no diálogo com a importância da estética. Para este grupo de arquitectos, não era o aspecto dos edifícios desenhados a computador que interessava mas antes a aptidão do computador para analisar alternativas espaciais, bem como fluxos e

tráfegos gerados, e com isso auxiliar a arquitectura. A modesta premissa da exposição Arqueologia do Digital no CCA é analisar a forma como os computadores foram incorporados nos processos de desenho de quatro projectos; mas a ambição maior é mostrar como este processo modificou, para sempre, o computador e o desenho em arquitectura. A primeira preocupação, com vis-

ta à exposição, foi preservar digitalmente a arquitectura nativa para uma audiência mais abrangente; extrair a informação criada em discos duros praticamente abandonados; armazenar a informação; e finalmente pensar em como apresentá-la. Contudo, este processo técnico de escavação, também ocorre num momento em que existe uma maior necessidade cultural em aceitar a realidade do desenho digital: entendê-lo como uma realidade cultural em vez de uma promessa vazia de utopia. De acordo com Greg Lynn, o curador da exposição, ‘Agora é o momento a partir do qual nós podemos deixar de ter discussões a propósito de tecnologia digital que comecem com “no futuro”… O que está em exbição no CCA procura antes afirmar, “No passado, a tecnologia digital fez isto”.’ Decididamente, uma grande transformação ocorreu no decurso da evolução da arquitectura e do uso dos computadores, entre o tempo de March e o momento a partir do qual os arquitectos começaram a usar o computador de modo regular no apoio ao trabalho de projecto (o período de estudo do CCA). Na época de March, não se considerava possível que os computadores viessem a ser utilizados pela generalidade dos arquitectos. A contribuição inicial britânica à teoria computacional associada à arquitectura está fora da exposição Arqueologia do Digital. Não foi antes de meados da década de 80, que os arquitectos começaram a trabalhar com computadores e essa é a principal razão pela qual o CCA coligiu trabalhos aparentemente tão díspares como os de Peter Eisenman, Frank Gehry, Shoei Yoh e Chuck Hoberman. Por esta altura, as implicações teóricas computacionais inicialmente avançadas por March e Martin, tinham de facto, discretamente, representado um impacto no modo como a arquitectura era desenhada e concebida. O crescente uso dos diagramas de tipologias, a partir de meados da década de 70, testemunha de modo inequívoco a mudança de paradigma metodológico. Eisenman tinha estudado em Cambridge antes da fundação do LUBFS, mas sob a direcção de Martin. Mais tarde, o arquitecto americano argumentará que o digital acabou por provocar uma revisão da perspectiva. A invenção de Brunelleschi, que corresponde ao momento em que se passa de um olhar teológico e teocêntrico, para um olhar antropomórfico e antropocêntrico sobre o mundo. Arqueologia do Digital pode ser vista no CCA, em Montreal, até ao dia 13 de Outubro. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


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魁星

o l h o s a o a l t o

gente sagrada

José Simões Morais

Kui Xing deus dos exames

Já aqui fizemos referência a Wen Chang, o deus dos Letrados e da Literatura, e seguimos agora falando sobre o seu auxiliar, grande mestre da composição e patrono dos que faziam os exames imperiais, deus conhecido em mandarim por Kui Xing e em cantonense por Fui-Seng. Kui (魁) significa o primeiro, o número um, e para Xing (星) divindade estelar e quando se apresentam em conjunto魁星, Kui Xing representa o Mapa do Carro, que corresponde a quatro das sete estrelas mais brilhantes da constelação Ursa Maior (conhecida em chinês por Bei Dou). Este Kui (魁), como tem um bom e auspicioso significado, foi o escolhido para substituir o carácter Kui (奎), que significa talento literário, mas como era usado pelo imperador quando escrevia (um artigo, documento, ou uma carta) denominado Kui Shu (奎 书), sendo o secretariado do imperador conhecido por Kui Fu (奎 府), o carácter (奎) não podia ser utilizado pelo comum dos mortais, pois era reservado ao imperador. O carácter Kui 奎 está na divindade estelar Kui Xing (奎 星), uma das 28 constelação (xiu) que se posiciona no quadrante Oeste (白虎) BaiHu, o Branco Tigre. As 28 constelações estão divididas em grupos de sete pelos quatro quadrantes, sendo Kui Xing (奎星), o Passo Largo, a primeira dessas sete constelações do Oeste. Kui Xing (奎星) é a divindade estelar que domina o talento literário, mas como o Imperador o usava, não podia ser este carácter usado por outros. Por isso teve que ser substituído por um outro carácter, homófono (com a mesma pronúncia), e assim foi substituído por 魁 que significa, o primeiro, o número um. O carácter 魁 desdobra-se em duas partes, Gui (鬼) que significa diabo, fantasma e Dou (斗) colher, concha, abóbada, cabaça, referente à imagem formada

pelas quatro estrelas da Ursa Maior. Nos exames imperais, os da capital, que dava o título de Juren, o candidato que ficava em primeiro lugar obtinha o título de KuiJie (魁解). Já para os exames do Palácio, que conferia o título de Jinshi e eram realizados pelo imperador, o examinando colocado em primeiro lugar, o número um, ficava com o título de KuiJia (魁甲). Quando em presença do imperador, o candidato, que obtinha o primeiro lugar no exame era chamado, colocava-se sobre a cabeça do Ao (鳌), tartaruga mitológica, e aí recebia o título. A imagem com um ar terrífico do deus dos exames está baseada no desenho deste carácter e por isso o vemos retratado com o pé direito na cabeça de uma tartaruga e segurando na mão direita um pincel de caligrafia usado para apontar o número um. Na outra mão, um instrumento de medida de capacidade equivalente a uma quarta e com o pé esquerdo levantado tal como o radical se apresenta. KuiXingDianDou DuZhanAoTou, significa que Kui Xing aponta a Ursa Maior, para isolado se colocar sobre a cabeça da tartaruga e isto quer dizer que Kui Xing indica quem vai ser o número um. Durante os exames, os candidatos levavam a estátua de Kui Xing para dentro da grande sala onde, nos primeiros tempos durante as dinastias Sui e Tang, eram realizados os exames, ou para os compartimentos individuais em que mais tarde estes passaram a ser feitos. Durante o período em que os exames Imperiais foram realizados, eram muitos os templos em honra de Kui Xing. Esta imagem nunca teve representação humana mas há quem a ligue a Zhang Kui (aqui já foi tratado). Em Macau, apesar de não existir nenhum templo dedicado a Kui Xing, ele está representado em dois templos, no entanto, quando voltamos à procura das imagens estas não quiseram que de novo as visualizássemos.


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l e t r a s s í n i c a s

Huai Nan Zi 淮南子

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O Livro dos Mestres de Huainan

Quando a terra se acumula, nela crescem bestas canibais.

Do Estado e da Sociedade – 47 A etiqueta é um embelezamento da substancialidade; a humanidade é um efeito da graciosidade. Como tal, a etiqueta depende dos sentimentos humanos embora para eles desenhe embelezamentos à medida. Por seu lado, a humanidade manifesta-se na forma como as pessoas se parecem. Quando a etiqueta não excede a substancialidade, e a humanidade não significa dar demasiado, essa é a via de uma sociedade ordeira. *** Agir de acordo com a Natureza é chamado a Via, atingir a natureza celestial é chamado virtude. Quando a natureza se perde, valoriza-se o humanitarismo; quando a Via se

perde, valoriza-se o dever. Como tal, quando humanitarismo e dever são estabelecidos, a Via e a sua virtude já mudaram; quando o ritual e a música a adornam, a pura simplicidade se perde. Quando se formula o bem e o mal, os camponeses são cegos; quando se dá valor a pérolas e jades, todos competem. *** Quando a água se acumula, nela crescem peixes predatórios. Quando a terra se acumula, nela crescem bestas canibais. Quando os ritos e deveres se tornam decorativos, a partir deles crescem pessoas artificiais e hipócritas. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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