PARTE integrante DO HOJE MACAU Nº 2817. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
artes, letras e ideias
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Inédito antónio patrício
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i d e i a s f o r t e s
Os Fragmentos Poéticos de António Patrício José Augusto Seabra
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obra algo dispersiva de António Patrício, escritor de errâncias fugidias, cuja órbita ultrapassou o fim do último século e o primeiro terço do actual, entre as suas missões de diplomata discreto e as solicitações intermitentes da poesia, da ficção e do teatro, deixou como se sabe um rasto fascinante mas difuso, que se foi pouco a pouco delineando nas suas derivações. Uma delas, que não tem merecido, quanto a nós, a atenção devida, é a da escrita aforística, a qual marginou recorrentemente as vivências e as experiências estético-literárias de um autor de pendor reflexivo, em que se detectam ecos filosóficos – nietzschianos, nomeadamente, por ele próprio citacionalmente indiciados – com repercussões transtextuais nos seus discursos poético, narrativo e dramático. Da sua leitura ressaltam por vezes, com uma luminosidade ofuscante, reverberações de sentido que manifestam a intencionalidade criadora de muitos dos seus livros. Já em Serão Inquieto, publicado em 1910, quando se preparava para abraçar uma carreira cujo percurso circular iria iniciar em Cantão, para de novo a caminho da China conhecer em 1930 o seu epílogo, ao morrer de passagem por Macau, António Patrício incluíra, ao lado dos textos de ficção de vária índole, um conjunto de fragmentos, Words..., que encerravam o livro de uma forma algo estranha. Eles eram apresentados como excertos de um “Caderno de Notas” atribuído a um “ex-condiscípulo”, C. F., que seria também autor de uma obra intitulada A Metafísica de uma Borboleta, caracterizada por um “humorismo lírico” repassado de “ironia comovida e filosófica”. Artifício subtilmente heteronímico, como bem o assinalou José Carlos Seabra Pereira*, que é um dos traços da personalidade multifacetada de António Patrício, revelado sob o influxo do decadentismo – simbolismo para se abeirar em seguida de um neo-romantismo e de um saudosismo mais idiossincráticos do que de escola. Essa personalidade transcendia, de facto, por muitas das suas inquietações e vibrações de sensibilidade estésica , as correntes que tangencialmente a solicitaram, tendo de certo modo o afastamento do país, com um travo de exílio a lembrar o de Camilo Pessanha, levado à sua distanciação destas, que se deixava aliás entreler nessas “notas” de temática múltipla, onde perpassava uma alergia a qualquer alinhamento: “As escolas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só matricular-se... e cozinhar” – afirmava uma delas, ao lado de outras em que eram implacavelmente visados todos os dogmatismos filosóficos, políticos, sociais, morais, estéticos: “Os homens que constroem um sistema fazem a própria jaula em que se fecham”. Essa propensão para o aforismo não aban-
Foi esta semana editada em Macau uma obra inédita de António Patrício: “Fragmentos Poéticos”. Eis o seu prefácio
donou António Patrício ao longo das suas andanças diplomáticas e literárias, como o comprova a descoberta de um outro conjunto de fragmentos, sem título nem data, que prolongam os de Serão Inquieto, na mesma tonalidade assertiva e com uma recorrência de obsessões cuja afloração se detecta no resto da sua obra, como se intertextualmente fossem um desdobramento dialogal dela. Não se trata, entretanto, de uma mera reflexão metatextual, mesmo se aqui e ali também obliquamente o é, acerca da sua própria criação, o que repugnaria ao temperamento estético de António Patrício: “Teorizar, em Arte, é um sintoma de impotência”, premune-se ele num dos aforismos em que pretende justamente furtar-se a uma tal tentação. Mas isso não significa que propugne como artista um abandono ao espontaneismo fácil: “Em Arte, há uma maneira só de ser imoral: é ser superficial”, eis um juízo de que decorre um imperativo estético e ético, que se impõe ao autor mesmo. António Patrício tem porém o cuidado, consciente como é do risco inerente a estas fórmulas lapidares e peremptórias, de se demarcar de um género literário e filosófico com que o aforismo, pela sua brevidade formal,
tende a confundir-se: a máxima. E não é por certo como um émulo de La Rochefoucauld que ele se vê, quando lúcido adverte: “Nas máximas há qualquer coisa de dogmático que repugna. Afirmar é uma grosseria mental”. Os melhores dos seus aforismos são irredutíveis à estrutura da máxima, embora ocasionalmente com eles convizinhem ou se cruzem. Na sua intencionalidade e no seu efeito de sentido eles relevam antes de uma forma outra, de textura poética, que discursivamente se lhe sobrepõe. Ora, como num deles se lê, “a hierarquia na forma, ei-lo o estilo”. Se o estilo é, na verdade, como o notou Roland Barthes, da ordem da verticalidade do discurso, esta emerge, em António Patrício, do vitalismo nietzschiano que atravessa tantos dos seus textos: “Vida mais alta, profecia lírica”, tal é o escopo a que tenta elevar-se cada um destes fragmentos. Ora elípticos, de feição quase interjectiva, ora mais extensamente modulados, num esboço de disquisição logo contida, eles oscilam entre a notação fugitiva de uma sensação, uma vivência, um desejo, na sua fulguração instantânea, e a meditação contemplativa, passando pela enunciação mais elaborada e argumentada de uma filosofia ou sabedoria de vida – melhor
se diria uma sageza – que se querem acima das circunstâncias e das contingências: “Os meus assuntos: intemporais e eternos” – assim sintetiza António Patrício a temática dos seus aforismos, que se inscreve num horizonte de transcendência, melhor ainda expresso, metaforicamente, num deles: “Oh! Entrar no além como uma onda”. Tal temática polariza-se à volta de um obsidiante campo magnético em que a atracção da intensidade dos instantes-limite do amor e da morte, da criação e da fruição, do afloramento e da inefabilidade do mistério do ser, faz convergir as grandes linhas de força da obra de António Patrício. O aforismo concentra e multiplica essa intensidade vital e estética, lapidando-a ou irisando-a na sua expressão cintilante. É como se a discursividade poética, narrativa ou dramática de cada livro seu nele viesse a confluir, numa espécie de instantâneo: “Os livros, para mim, devem ter, como as estátuas antigas, formas musicais e olhos vagos”. Veja-se como esta mesma figuração emblemática é evocada, numa alusão intertextual, através da “estátua tumular” de D. Pedro I, num aforismo em que perpassa um eco do drama Pedro o Cru, escrito por António Patrício em Cantão. Ou como de igual modo a vidência de um livro de “formas musicais”, além de uma nota de sabor simbolista, faz lembrar a utopia de uma musicalidade estrutural da construção estética que perseguia o protagonista do conto O Homem das Fontes. Mas é talvez na indefinição dos “olhos vagos” que melhor se lê, nesse aforismo, o halo poético que envolve toda a obra de António Patrício. A predilecção pelas imagens da indecisão, da fluidez, da evanescência – a nuvem, a onda, a sombra – de fragmento em fragmento, exprime um dos seus leitmotive constantes: a fusão do imanente e do transcendente, a qual na espiritualização das sensações atinge a sua culminância: “Só as sombras beijam bem a alma”. Para essa fusão tende todo o erotismo de António Patrício: “No espasmo, por instantes, o corpo da amada faz-se nuvem”. Nuvem, ou onda, ou sombra, ou qualquer outra metáfora do enlace de Eros e Tanatos, numa mors-amor: “Cada onda que morre é uma onda do teu mar, do atlântico de além em que mergulhas. E assim cada flor, e cada nuvem, cada instante da alma e cada sombra”. Pode rastrear-se, desde a colectânea de estreia de António Patrício, Oceano (1905) este lastro prolongado de metaforicidade ondulatória (“ondas, versos do mar”) a espraiar-se metonimicamente no seu discurso poético. “Uma onda a rolar no crâneo de homem”: assim o poeta se visualiza a si mesmo, como aqueloutro que, autor de uma “Imitação do Mar”, ele imaginara, num dos fragmentos de Words..., a viver uma “vida de vaga”, explodindo em espuma. Que figuração mais exacta da extrema mas breve intensidade de ser? “Ser o mar”, desejo supremo e inaudito, super-humano, expresso num aforismo de recorte nietzschiano bem nítido, neste élan exorbitante para o “elemental”
marinho que subitamente o impele: “desumanizar-me a seus olhos glaucos”. Não dizia o autor de Assim Falava Zaratustra, citado em epígrafe a um poema de Oceano, que “o homem é algo que deve ser superado”? É para essa superação que aponta, numa tensão de “vida latente”, a ânsia de transcendência que atravessa muitas das fulgurações estésicas de António Patrício: “Sinto a beleza em mim como uma flecha, uma flecha que me vai varando, visa longes em mim que em vão conheço”. Beleza fruída e beleza criada, desde a da natureza à da arte, que natureza para ele também é, como escreve glosando Shakespeare. Acercando-se de um “panteísmo transcendentalista”, como Fernando Pessoa designou a Weltanschauung saudosista de Pascoaes, de que António Patrício se sentia afim, este pode assim escrever, num aforismo que lembra o poeta das Sombras: “A quimera dos montes é ser nuvens”. Os elementos da natureza desejam-se, como a arte, “todos forma”. Numa palavra, “toda a terra, o universo, vive no desespero de exprimir-se”. E, por isso mesmo, “há paisagens proféticas”. Um sopro de profetismo emana, com efeito, desse transcendentalismo visionário: “Quando, à noite, se medita, o silêncio cisma, faz-se boca: é uma boca convulsa de sibila. Mas não se ouve deste lado o que ela diz”. Como a voz da vida interior, a do além é sibilina. A experiência espiritual de António Patrício situa-se entre um misticismo e um esoterismo estésicos, de que toda a sua obra se embebe e inebria: “Queria os meus livros saturados de mistério, como uma garrafa de Leyde de fluido eléctrico”. É este fluido misterioso que impregna a sua escrita multímoda. Uma outra nota aflora momentaneamente nos aforismos de António Patrício, em contraponto a esta mundividência estésica: a da exaltação de um patriotismo universalista, que se identifica com a demanda de um Portugal mítico, em reacção contra a decadência do Portugal político, que é escalpelizada como a “medula duma raça” a apodrecer, patente tanto no “cretinismo” como no “sentimentalismo”, de que a imprensa e a crítica da época eram exemplos, a provocar-lhe uma “fadiga triste”. A pátria de António Patrício, que se movia na área cultural da Renascença Portuguesa, era bem outra: “para um português, ser patriota é amor mais alto e mais profundo: é como o amor que se consagra a um morto, é viver com um morto à luz do sol”. Na esteira da tese de Oliveira Martins, para quem a prova póstuma da existência de Portugal era o Sebastianismo, a que poeticamente também sacrificou, ele buscava na lenda o que na realidade lhe falecia: “A história do meu país é um conto celta. Acho-o mais belo que Tristan e Iseu. Tristan é Portugal. Iseu o mar”. O mar, ainda e sempre, como o outro amoroso da morte, da qual Portugal haveria de renascer, como num dos seus poemas António Patrício antevia: “Somos navegadores pr’além da Morte temos a Índia eterna da saudade”. Para o poeta do Oceano, que no eterno retorno nietzschiano se revia, não se tratava apenas de uma saudade mas do futuro, como em Pascoaes ou Pessoa: “Agora a Índia é outra, é outra a obra: é o Cabo tormentoso do mistério, que a nossa alma, entre soluços, dobra”. É esse mistério que os fragmentos poéticos de António Patrício recorrentemente tentam dobrar, a cada vaga de navegação perigosa mas exaltante da escrita.
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ANTÓNIO PATRÍCIO
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DA CONSCIÊNCIA DA MORTE AO SENTIDO DA VIDA - I Iniciamos aqui a publicação de um texto matricial sobre a vida e obra do grandíssimo poeta e dramaturgo
Pedro Baptista
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ntónio Pires Patrício nasceu no coração do Porto, na Rua dos Caldeireiros, a 7 de Março de 1878, filho de um armador funerário que lhe propiciou uma infância e juventude materialmente desafogadas, condições familiares que não obstaram a que a tuberculose lhe ceifasse a vida de três irmãos menores. Embora haja bons espíritos que insistem na necessidade de ignorar os dados biográficos, dos conteúdos das proximidades vivida pelas literárias, e não se pretendendo daqui retirar a identificação ou a justificação de qualquer pendor exageradamente decadentista ou mórbido, certo é que este convívio como que profissional com a morte terá que ter marcado a sua obra, pensamento e vida, numa inserção lúcida, “desdramatizada”e até fria, daquela como parte integrante desta. Na época, certamente mais indiferente a uma actividade banalizada entre portas do que quando sobre ela fez incidir a reflexão, o jovem António Patrício frequentou, a dois passos de casa, o Liceu Nacional Central do Porto, que, mais tarde, a partir de 1910, se
designou como Liceu Rodrigues de Freitas e, com 15 anos apenas, deu entrada na Academia Politécnica do Porto, também a poucos passos do reduto familiar, para frequentar matemática como aluno voluntário, no curso onde pontificava o vulto de Francisco Gomes Teixeira. O Porto académico e intelectual da altura, vivendo embora a ressaca do 31 de Janeiro de 1891, com muitos dos seus melhores filhos exilados ou deportados, continuava fervilhando de ideias, determinações, arrojos e sonhos, sendo a Academia, conjuntamente com a Escola Médica, o vórtice, ou um dos diversos centros, de um turbilhão criativo que concatenava as tertúlias filosófico-poéticas ou boémias, distendendo-se pelo Café Camanho, na Praça Nova, pela padaria de José Pereira Sampaio (Bruno), na Rua do Bonjardim, ou pelas livrarias Chardron ou Lello, na Rua do Almada ou dos Clérigos, onde, por essa altura, aparecia Guerra Junqueiro, Raul Brandão, Basílio Teles ou João Grave e onde o positivismo se cruzava já, em muito casos nos próprios autores, com alguma reacção de pendor mais espiritualista ou mesmo assumidamente metafísico. Ou ainda alargando-se pelos botequins associados ao teatro ou à ópera, em que a fragrância dos
sentidos e os eflúvios do galanteio se misturavam na violência das paixões efémeras e dos pundonores dramaticamente inflamados. A todo este ambiente não foi alheio o jovem Patrício, havendo registo da sua presença na Padaria de Bruno, até que cessou, sem completar, os estudos matemáticos. O que o atraía não eram tanto as tertúlias do Centro da Cidade que frequentava nem o cálculo integral da Academia, mas o isolamento transcendente que encontrava no contacto com o Oceano, quando descia para Nevogilde e para a fímbria marinha de Carreiros da sua predilecção, zona, adjacente à Foz do Douro, muitas vezes designada como Foz Nova, ou apenas como Foz. Em Setembro de 1898, António Patrício assenta praça no Porto, fazendo o serviço militar, desposa, meses depois, Alice Josephine d›Espiney, uma tripeira de pai francês mas de origem inglesa e de mãe alemã e, no ano seguinte, em 1899, ruma a Lisboa para frequentar a Escola Naval, sonho de muitos jovens da berma marítima portuense fascinados, como Patrício, pelo ondeio das águas, pelos mistérios oceânicos e pelas artes de sulcar as ondas deixando na passagem um rasto de escuma, efémero embora, mas ainda assim marcação da presença viva de cada um no planeta… Nestes seus 21 anos de idade em que nasce o seu filho Emílio, Pessoa é ainda uma criança de 10 anos, Pascoaes tem já 22 e meia-dúzia de livros publicados, sendo quase impossível, malgrado o retraimento mundano do amarantino, que não tenham travado conhecimento, enquanto Raúl Brandão, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes festejam os 32 anos. Leonardo Coimbra e António Sérgio são cinco anos mais novos do que Patrício, mas se o primeiro já entrara também na “Politécnica” portuense em idade bastante precoce, o segundo, filho de almirante, vindo da Índia e de África, já tinha cinco de “Naval”, chegando os dois a encontrarem-se, no Terreiro do Paço, aquando da fugaz passagem, por lá, de Leonardo. Sendo, todavia, a sedução oceânica mais poética do que instrumental, a Escola Naval haveria de o desiludir como a tantos, levando-o a abandoná-la − «o mar é coisa admirável mas não pode ser visto com uma farda vestida”− o que faz em 1901, regressando ao Porto natal, ingressando desta feita na Escola Médico-Cirúrgica e aconchegando a mãe a quem tinha falecido mais um filho. Agora podia voltar ao seu ritmo demiúrgico: o mar único de Carreiros cujo garço zarco, marítimo e celeste, argênteo e áureo, ártico, solar e cósmico, alternando, na fervência das escumas, os fragores dos embates, os silvos das ressacas e os intermezzos de murmúrio, haveria de ser em si tão impressivo, para sem-
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pre, com avassaladora explícita presença na estreia literária que arribava… “Estou a vê-lo, nas tardes quentes de Agosto, aparentemente desdenhoso a olhar o mar fixamente, a “beber azul”, a “embriagar-se de azul” - como dizia - num encantamento sensual, todo lírico, que ele teimava em encobrir, aparentando um sensualismo pagão que não sentia”, deixou descrito Carlos Parreira, redator da Seara Nova, muito mais tarde, em 1929, quando Patrício já se afirmava como escritor consagrado. Para aqui já arrastava o convívio com Fialho de Almeida, cada vez mais chegado e por quem não escondia a admiração profunda, com António Carneiro, já estagiado por Paris, que haveria de ser, poucos anos volvidos, o oficialíssimo pintor da Renascença Portuguesa, animada por Pascoaes e Leonardo, com João de Barros, o grande intelectual e pedagogo da república, e com Augusto de Castro Corte-Real, que viria a ser o director do Diário de Notícias… E claro, sempre, Manuel Laranjeira, seu colega estudante na Escola Médico-Cirúrgica, em passeios marítimos que se arrastavam da Foz do Douro a Leça da Palmeira… Não se pense todavia, que tínhamos por esta altura, ou em qualquer altura, um António Patrício adestrado no conveniente cultivo da sedução para as boas relações humanas ou, simplesmente, das boas maneiras, o que sendo imaginável e até expectável – supomos! – num futuro diplomata, nem sempre acontece naqueles que se fundem com a maresia através da melancolia e do diálogo íntimo, gente em geral surpreendente… Seria o próprio amigo Augusto de Castro Sampaio Corte-Real, a deixar o depoimento: «Tinha no sangue a irreverência e a ironia. Ainda ele andava na Politécnica do Porto, já podia gabar-se de possuir a maior colecção de inimizades que um homem é capaz de reunir aos dezanove ou vinte anos.». E, mais arguto, João de Castro não desafinaria: «A ironia acutilante da conversa de António Patrício - que tantas inimizades, ainda não inteiramente desarmadas, lhe trazia a cada passo - não era senão, afinal, o receio de deixar adivinhar a infinita impressionabilidade e o tumulto vibrante e quási febril da sua alma.». Se o aproveitamento académico, junto ao Hospital de S. António, onde se situava a Escola Médico-Cirúrgica, nos primeiros anos, começou por não ser melhor do que o da Academia Politécnica, consultando os registos da Universidade do Porto, verifica-se que a partir do ano lectivo de 1903-1904, sentindo a necessidade de obter meios de subsistência no exercício de uma profissão, o aproveitamento começou a ser francamente positivo vindo a concluir o curso em Janeiro de 1908, com classificações razoáveis e uma dissertação de licenciatura que indiciava bem a autêntica veia do novel médico.
“Oceano” – a estreia literária
Todavia, o mais marcante é, ainda enquanto estudante de medicina, em 1905, a sua primícia literária, com “Oceano”, um livro de poemas não datados mas certamente escritos nos últimos anos, numa altura em que o génio literário e intelectual de Patrício já era sussurrado, elogiado ou vilipendiado, nos meios culturais, boémios e revolucionários da cidade do Porto. São 20 poemas que se estendem por sete dezenas de páginas dedicadas ao génio de Fialho d’ Almeida, de versificação irregular com métrica aniso silábica que, na rima consonante dactílica, de disposição geralmente cruza-
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“Estou a vê-lo, nas tardes quentes de Agosto, aparentemente desdenhoso a olhar o mar fixamente, a “beber azul”, a “embriagar-se de azul” - como dizia - num encantamento sensual, todo lírico, que ele teimava em encobrir, aparentando um sensualismo pagão que não sentia”, deixou descrito Carlos Parreira, redator da Seara Nova
da, por vezes pareada, encontra a polirritmia onde se funde na mesma melancolia, por vezes pletórica, mas sempre dolorosa, a rítmica imposta às águas pelo bailado das oceânides e o devaneio reflexivo que se impõe ao poeta, e nele prolifera, na estesia solitária mas vitalista em que a saudade do passado se faz sede de futuro, e na luminosidade, dir-se-ia fosforescente, da sua revelação ou explosão discursivas. Poemas que alternam com 16 classicíssimos sonetos, decassilábicos e dodecassilábicos, sonetos de amor, de verdade e de morte, de vida, de sonhos e de Norte, de piedade, de espanto e de revolta, de desencanto de quimeras de onde, todavia, emerge enérgica uma vivificação instintiva e telúrica determinada à superação da condição e do fado. Poemas indescritíveis e inacessíveis fora deles próprios, até porque, como alhures afirma Patrício em um aforismo, “teorizar, em arte, é um sinal de impotência”… Teorizemos, pois, pouco… Valerá a pena, todavia, para o enquadramento histórico-cultural das águas em que o poeta se movimentava, listar os nomes a que alguns dos poemas desta obra de estreia é dedicado… António Carneiro, Mabel Silverton, Manuel Laranjeira, Francisco Moreira, Júlio Abeilard… Também relatar que, como seria de esperar,
“Oceano”, pelas características personalísticas do seu autor e pelo seu conteúdo, lidos ambos, quando lidos, mais superficial ou profundamente, provocou um turbilhão na Crítica, nos amigos, nos inimigos e nos desconhecidos, entidade existente na sociedade, nesses remotos e convulsos tempos, em que as televisões ainda não tinham logrado aparecer a dar os primeiros passos do projecto aterrador profetizado por George Orwell! Manuel Laranjeira escreveu-lhe uma carta solidária embora as críticas saídas no Porto nem fossem desfavoráveis: «Li duas apreciações sobre o teu livro (Diário da Tarde e Voz Pública) e por elas vejo que te têm afligido muito regularmente, meu pobre poeta. (...) Talvez as intenções dele fossem boas, como as de certos cães, que, quando nos fazem festas, nos sujam. Manda-os vadiar!” Efectivamente, as críticas, embora elogiosas para “Oceano”, conjeturavam, como é normal, enquadramentos de ordem estética e ideológica, que o autor terá sentido como redutoras. Embora republicano convicto e ativo, o Poeta não terá gostado, segundo alguns alvitram, que os jornais republicanos se desdobrassem no enquadrando elogioso à sua obra considerado abusivo. Do que duvidamos, pelo próprio percurso político anterior e posterior do Poeta… E falamos de normalidade deste comporta-
mento da crítica porque um autor, em particular um Poeta, nunca se revê na leitura que fazem da sua obra e, ou se obstupefacta com o que lá veem, agradado pela descoberta dos outros em si, ou, sobretudo nos tempos em que a relação entre o grande poeta e o crítico se fazia em alta tensão, consideram o que se diz como incompreensão e redução, porque a poesia é um tentame do indizível nunca “perfeitamente” conseguido, o que, mesmo sendo acerca de não dizer nada, acaba por dizer tudo. Como no Tao que dizes, que não é o Tao que dizes!... O que Régio não se enfurecia com as leituras públicas de “Narciso”! Como se sentia vilipendiado pela popularidade do “Cântico Negro”, porque entendia que realçavam o acessório, esse poeta, que era professor liceal e, segundo conta a vítima, como pequena história, arrasou um aluno só porque lhe apareceu com um cachecol igualzinho ao seu. Ou porque estava a ver o mesmo filme que ele no Cine Clube de Castelo de Vide, domingo à noite! E contudo, se tivesse outra personalidade, talvez adorasse saber que ainda hoje, nas tabernas de Vila do Conde, quase cinquenta anos depois da sua morte, o poema fosse recitado! E que a mais consagrada personalidade do Porto soubesse de cor e salteado a sua “Toada de Portalegre” embora, em Portalegre, entre os espíritos menos flexíveis e lidos, haja quem considere o poema uma desconsideração para a região! Como se vê, o problema até nem é só a Crítica! Onde já íamos! Aonde chegaríamos?! Também Fialho lhe escreve, considerando «Oceano” como “um livro de estreia muito belo» e apelando, com palavras lúcidas, a que não atribuísse demasiada importância à recepção do livro pela crítica e deixasse a obra navegar por si, como necessariamente aconteceria: « V. não tem que achá-la boa ou má, neste momento, porque não está sereno, nem podia ver lucidamente um filho que pela primeira vez manda embarcar. Deixe os leitores julgarem-na a seu tempo, e se o veredito não for à altura do seu orgulho, aguarde que que outros filhos glorifiquem e vejam o potencial que há em V.”. António Patrício enviou um exemplar de “Oceano” ao jornalista e escritor Carlos Malheiro Dias, monárquico, com o pedido expresso de uma crítica sincera: «Aí vai o meu livro e com ele o pedido de que, sem misericórdia o pulverizes nas colunas críticas do «Diário de Notícias» ou em quaisquer outras.(...) Muito me obsequiarás dizendo sem embaraços o que dele pensas.». Em seguida protesta pela postura dos críticos: «...todos a decifrar-me, todos a dizer o que eu sou...». Mas que queria, Patrício, da crítica? João de Barros fez a crítica que mais agradou a Patrício, dando início a uma profunda amizade e ao convívio sempre que possível. Reza: «Penso que o Sr. António Patrício fez uma obra de há muito esperada: uma obra que sem proclamações dogmáticas e sem explanação de doutrinas, é um estímulo para a vida.». Patrício exultou: “Deu-me, como autor, uma consolação suprema: a de haver alguém, não me conhecendo que da leitura do meu livro, tirou a impressão que eu precisamente desejaria provocar. Desde hoje há para mim, na nossa camaradagem, qualquer coisa de afectuoso. O melhor elogio que alguém, generosamente, poderia fazer-me era ver no «Oceano» um estímulo para a vida. (...) Nada me parece mais grotesco do que querer espartilhar a vida nas varas de uma filosofia ou de um sistema: quem respira forte, estala-as ao primeiro movimento de inspiração. Nem
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optimistas, nem pessimistas; nem moral nem imoral; mas adorando toda a vida com a esplêndida amoralidade do instinto.»
Num positivismo já decadente…
No entanto quando, a 8 de Janeiro de 1908, António Patrício se licenciou em Medicina com a defesa da dissertação “Assistência aos Alienados Criminosos”, fê-lo certamente por influência do seu professor Júlio de Matos, que, além de leccionar Psiquiatria na Escola, dirigia o Hospital do Conde Ferreira, distinguindo-se nas temáticas do alienismo e da psiquiatria forense. Contudo Júlio de Matos era também um doutrinário de um dos mais fechados, embora inovador, sistemas da 2ª metade do Século XIX, o positivismo comteano, que anulava a filosofia numa mera metodologia de unificação científica, chegando a ser, com Teófilo Braga, diretor da revista de grande impacte intelectual “O Positivismo”, que se publicou no Porto, entre 1878 e 1882. Para se ver que ainda o pior dos sistemas, em história das ideias, é o que quer arrumar, ao gosto de cartilha dos manuais escolares de todos os níveis, cada autor em uma rubrica, e apor-lhe a conveniente etiqueta, como se a história das ideias não fosse a da polémica, da controvérsia, da troca argumentativa e portanto da evolução dialética, da sobressunção de novas visões no cruzamento das perspetivas… Para desgosto destas novas escolásticas, os pensadores, escritores, poetas que o foram nunca se deixaram aprisionar nem no sistema do pró nem do anti, os portugueses deste período não foram exceção, como é o caso de António Patrício, poeta e pensador individualista, livre, personalizado aberto tanto à espiritualidade como ao vitalismo, por um lado, por outro, atento aos trabalhos de campo sistemáticos dos mestres pioneiros da psiquiatria profundamente marcados pelo positivismo. É neste contexto e com uma profunda admiração por Júlio Xavier de Matos, que Patrício escolhe para Dissertação a sua área do conhecimento, entrando, na sua reflexão, desassombradamente, a comparar as verdadeiras “espoliações legais” aceites pelo Direito e pela sociedade numa época em que eram correntes e os furtos do foro psicopatológico. Anos volvidos, com Júlio de Matos a reformar a psiquiatria em Portugal, no seguimento da vitória da República, Patrício remordia ainda na crítica social: “a lei faz com que um homem com fome passe por um pomar e não coma um dos frutos”! Todavia fica a ideia que nos projectos íntimos de Patrício estava mais o interesse pelo conhecimento humano e social, com vista a auxiliar a criação de personagens literárias, do que a do exercício da medicina, que nunca deverá ter encarado seriamente e que, a ter ocorrido, deverá ter sido apenas no Conde Ferreira, em temática que o fascinava, porque mental, em regime não-oficial e portanto não-remunerado.
“O Fim” o início da dramaturgia patriciana e… o fim da monarquia…
A prova de que Patrício não enjeitaria, tanto quanto por vezes se afirma, o enquadramento republicano do seu trabalho, está na conceção da sua obra seguinte, a peça de teatro “O Fim”, “história dramática” publicada em 1909, que narra o apocalipse revolucionário em que se pulverizaria a monarquia, já por si putrefacta e submissa aos ditames financeiros internacionais, a seguir a um levante insurreccional e patriótico em que, inesperadamente,
em heróica catarse colectiva e nacional, o povo caminha para a morte enfrentando as armadas estrangeiras das várias potências credoras, que haviam desembarcado no sagrado torreão pátrio, e expulsa os opressores num clamor que é epílogo, mas também epifania. Sente-se o ressoo do 31 de Janeiro de 1891, mais sonhado do que vivido, como resposta popular e nacional, tardia embora ao insulto do Ultimatum! É o que nos narra, o personagem criado ao bom gosto garrettiano, “O Desconhecido”, depois de descrever a mortandade provocada pelos invasores e a razia da capital: “Mas então, por que prodígio estranho? o sino grande da basílica soou, em acordes tão cavos de remorso, em dobres tão farpados de agonia, que a multidão em fuga estacou toda!... E com máscaras de loucura e de terror, que a decisão suprema fez de mármore, sentindo a inanidade da defesa, avançaram em fila, lentamente caminhando para a morte como estátuas, um estoicismo de tragédia grega, até caírem mortos, sem um grito… (Pausa) O efeito foi tal no inimigo, que vendo que a defesa se calara, não se atreveu ao desembarque ainda. Metralhou então toda a cidade, durante horas a fio, friamente (…) Por fim desembarcaram.
Abriram uma rua nos cadáveres (…) pararam a olhar a frontaria da Basílica (…) a e Basília toda, num fragor, denudando o azul em poeira e fumo, fez dos conquistadores lama sangrenta sob o Panteon da raça aniquilado. (Pausa) Quem levou dinamite para essa igreja?... Quem foram os heróis que a aniquilaram?... (Outro tom) Os que desembarcavam nesse instante fugiram para bordo, alucinados, com terror desta terra de loucura, em que a vertigem dum povo desgraçado contagiara as pedras, insurgindo-as…Na capital, agora, os mortos reinam. Há cadáveres, escombros e vitória!” A quimera de “homem novo” nascido do estertor do regime que superado pelo povo numa espécie de “religião instintiva da morte”, para usar os termos de Urbano Tavares Rodrigues1. E sendo epifania, é também iniciação e restauração. Segue de imediato “O Desconhecido”: “Agora… Morreu a capital: há mais país. Triunfar pela vida ou pela morte, mas triunfar. Fomos iniciados.” (…) “A realidade é o impossível”. Todavia este desconhecido, que dialoga com a “Aia”, insiste denodamente, em ver a rainha-avó, claramente apontada a D. Amélia, explicando que “É a hora estranha de erguer
1 Rodrigues, Urbano Tavares - Uma releitura crítica de O Fim de António Patrício, Ensaios de ApósAbril, Lisboa, Moraes Editores. 1977.
Patrício, publica, em 1910, “Serão inquieto”, um verdadeiro livro de contos. E dizemos verdadeiro porque, com a sua leitura, consegue perceber-se a diferença abissal entre um livro com contos e um livro de contos (...) tal este surge ungido de uma unidade que lhe é plasmada pelo ritmo comum, não só na expressão formal como na perseverança com que procura a penetração psicológica e existencial da diversidade humana.
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mais os ídolos”, “Destrui-los é depois, é muito mais tarde”. A peça não narra a queda da monarquia, mas predi-la e em termos peremptórios. Porque embora a “Aia” esclareça o “Desconhecido” de que a rainha não é já um ídolo, mas apenas “a memória duma morta”, “a caricatura dum espetro”, este insiste que sendo uma “forma” já basta, o que é preciso é mascarar o símbolo, inventar uma heráldica, uma corte, nem é preciso ir recrutar criados uma vez que os que por lá andam servem, o que é preciso é ter “um simulacro de realeza, a ficção teatral que ainda fascina” porque, sob esse aspeto, nada tinha mudado! O levante popular e nacional não é propriamente contra a monarquia é contra a opressão dos credores estrangeiros de que a causa é a monarquia ou pelo menos ao que a monarquia se subjuga. Não é contra, mas é por causa. Mas que no projecto deste “Desconhecido”, uma espécie de oráculo ao invés, o profeta de uma esperança mítica no estertor do regime, ainda assim regeneradora, mesmo que só no plano da ostentação simbólica, do brilho de pechisbeque dos “ouropéis”, mas ainda assim brilho, despida de qualquer conteúdo. Por isso quer falar com a rainha a todo o custo, para ser ela o escudo da resistência nacional! Do ponto de vista estritamente político, o enredo parece ser inspirado nas manobras ocorridas durante o ano de 1908, com os sectores mais moderados dos republicanos a oferecerem aos dirigentes monárquicos um pacto de tréguas, com um “adiamento” da República em troca de um conjunto legislativo que restauraria as liberdades políticas, controlaria os ímpetos revanchistas da polícia e dos tribunais e restauraria as leis laicas de Pombal. O pacto chegou a ser negociado, discutido com o primeiro-ministro, comunicado ao rei, D. Manuel II, e discutido no parlamento, nomeadamente com uma intervenção de Afonso Costa anunciando as condições em que os republicanos abdicariam da revolução, em favor de uma via estritamente legalista. Todavia foi rejeitado pela monarquia, da leitura dramatúrgica de Patrício, plasmada neste epílogo de “O Fim”, porque nem os monárquicos acreditariam já na instituição, nem sequer na sua força simbólica… “Uma esperança absurda” numa “visão de manicómio” contra a evidência da inevitabilidade da ocupação estrangeira, da subjugação e do esmagamento nacionais, mesmo que a resistência lograsse a realização do impossível, é a resposta pronta e desesperada da “Aia”! Para quê então tão disparatadas exigências, patéticas e inúteis, de “ um suicídio colectivo” que “é um heroísmo monstruoso”? Quem o exige? A tal inevitabilidade, a tal demanda, o “Desconhecido” responde com uma outra inevitabilidade, conclamando: “A lógica da Raça. É inevitável.”! Consegue, todavia, com a sua insistência, que a rainha, esquelética e tremebunda, entre em cena, deixando-o atónito e apavorada! “Venham os corvos!”, clama a “Aia”. “Tenho fome”, proclama a rainha, ao cair do pano da peça e da monarquia, em tirada onde alguns vislumbram uma derradeira representação do povo famélico. Nada já se podia dali esperar. É no seguimento da indisponibilidade da monarquia negociar um adiamemto em que mantivesse um poder na verdade unicamente formal que, por isto mesmo, sobe à liderança a facção revolucionária do partido republicano que põe em marcha o processo revolucionário concreto.
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“O Fim” em cena, não é bem o ambiente de 1910, mas o dos últimos anos que o precederam, já muito depois de 1903. Não é exatamente o dias irae tantas vezes predito por Junqueiro e Sampaio Bruno que, no paroxismo revolucionário, libertaria o povo e a pátria da podridão do Mal, mas o aplanar do seu terreno. Percebe-se bem o sentido daquele telegrama enviado para Brasil rezando que “a República acabado de ser implantada em Portugal por iniciativa dos monárquicos”… Também só um ingénuo não discernirá aqui, nestas últimas páginas de “O Fim”, o gizar de algumas referências simbólicas aos problemas que o novo regime haveria de enfrentar… “O Fim” principia com uma epígrafe vitalista do Nietzsche de “O Nascimento da Tragédia” identificando Dionisios com “o fio condutor que conduz à psicologia trágica….”. A presença, por vezes avassaladora, do filósofo de Röcken na obra de Patrício, aparece indiscutível. Discutível, todavia, será o sentido, total ou parcial, dessa presença. Em Patrício, como na maioria da intelectualidade portuguesa da época, onde a receção do autor do “Assim falava Zaratrusta” foi particularmente permeável, entusiasta e… re-criativa! Dramaturgo que se haveria de afirmar com mais três peças acabadas e mais outras tantas em projeto, Patrício nunca deixou de ser um poeta e fundamentalmente um poeta, não só enquanto criador de poemas, continuando o trabalho iniciado com “Oceano”, que haveriam de ser coligidos, postumamente, em 1942 (Poesias) e em 1980 (Poesia completa), como enquanto dramaturgo que não resiste à tentação simbolista de colocar o poema em cena, assim como no ritmo e no tom que imprime à sua prosa, tanto na ficção narrativa, como na aforística.
Das Inquietudes do poeta…
Praticamente em cima de “ O Fim”, Patrício, publica, em 1910, “Serão inquieto”, um verdadeiro livro de contos. E dizemos verdadeiro porque, com a sua leitura, consegue perceber-se a diferença abissal entre um livro com contos e um livro de contos ou simplesmente um livro – para não aprofundarmos a questão de saber se se tratam propriamente de contos – tal este surge ungido de uma unidade que lhe é plasmada pelo ritmo comum, não só na expressão formal como na perseverança com que procura a penetração psicológica e existencial da diversidade humana. Esta inquietação inicia-se no “Serão”, para não variar e à la mode, com uma versão francesa de Nietzsche, gravado em epígrafe: ”escreve com o sangue e perceberás que o sangue é espírito”. Ainda por cima, para sublinhar a abertura, sob a inspiração do filósofo germano que trocou Wagner por Bizet, o primeiro texto intitula-se “Diálogo com uma águia” e é dedicado a… António Cândido, o tribuno e académico amarantino, um dos “Vencidos da Vida” com Eça, Junqueiro ou Carlos Lobo d’ Ávila, apodado por Camilo por “Águia do Marão”, amigo e confidente de Patrício, uma relação ainda não suficientemente estudada, mas segura, sendo certa a existência de correspondência de Patrício para o amigo muito mais velho, que viria a perecer em 1922… A águia, agora engaiolada, detém o segredo das últimas palavras na Cruz, porque uma avó longínqua chegou a bicar o coração e a beber o sangue do Herói Meigo, o Moço Hebreu que afinal, nos últimos momentos, se renegou a si-mesmo no “remorso de não ter vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem”… O que agradaria não só a Shelley como a Nietzsche, segundo
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a águia, para quem, conforme lhe passou a arcaica avó, o Hebreu Crucificado se entregou nos últimos instantes a Pã, ou seja, pelos vistos, superou-se, sobreascendeu-se... “Se os homens o soubessem, ele seria, na verdade, o Redentor”… Mas como não chegaram a conhecer este segredo maior, em seu nome apenas prolifera a mentira. A águia, talvez marinha, que parece, por vezes, muitas vezes, uma alusão metafórica ao próprio Nietzsche, viveu, todavia, encarcerada numa casa durante dez anos, castigada com a estopada inútil e cruel de ler Balzac. Quanto à sabedoria, essa obteve-a no mar, quando era selvagem e livre, porque o foi, parecendo aqui uma alusão ao próprio autor, a viajar com o olhar marejado de terra, dos sonhos ou da proa dos navios, sobre a espuma atlântica dos mares fronteiros a Nevogilde, ouvindo-lhe os silvos, os ribombos, as lendas… contando-lhe a repetição
Há uma ironia nessa marginalização do que outros consideram o essencial na existência, mas por excesso não por defeito, por superação não por inaptidão, como geralmente se considera no dandismo.
das vagas, o ritmo do cosmo e da mente onde se ia urdindo o poema, ó, quanta saudade do mar! Sem o saber, foi esse Hebreu que desgraçou os homens ao fazê-los encarcerarem o desejo da mesma forma que encarceram as águias quando podem, empalarem-se em leis e depositarem-se em lares que são gaiolas transformando-se em escravos, em absurdos e torpes macacos, com o desejo abafado nas alcofas, reduzidos a estatutos, cláusulas e parágrafos, códigos, sistemas e morais, tudo meros sub-produtos da indústria e da civilização. O segredo do Hebreu é o segredo que todos os homens, esses imbecis condenados, vis escravos, sentem nos últimos momentos, depois de tudo inventarem – trabalho, estudo, sentimentos, belezas, morais, metafísicas, harmonias e classes sociais: o de “que morrem sem viver”! Sobeja a arte, a consolação suprema que é a expressão da vida, dizem-no… Mas expressão de quê, se não vivem?! Que mentira triste, que macacos incapazes de olharem as nuvens, de respeitarem as florestas, as catedrais de Pã, que deformam, rapam, exilam, arrasam para longe do húmus e do sol, tudo corroem e pervertem, porque não conhecem nem o sangue nem a seiva. Por outro lado, paradoxa e dramaticamente, para quê a generosa oferenda de abertura da gaiola, a libertação da velha águia dos oceanos, já trôpega, quase paralítica, nas últimas, “para que antes de morrer domine o espaço”? … Para quê ser livre agora, deixar o poleiro, trocar o conforto da casa pela incerteza e pelo mistério? Viveu entre os homens, civilizou-se… De resto, o resto do segredo, ainda mais trágico, é que ainda é cedo, ainda não é a hora, nenhum caminho resta, por enquanto, a não ser o da imitação dos outros, uma vez que nos perdemos no convívio com os homens… mas apenas porque ainda não é a hora, porque os escravos não são capazes ainda de se superarem acima da sua própria consciência! É incisivamente a história do escravo e do senhor da “Genealogia da moral” de Nietzsche, muito mais do que a dialética do senhor e do escravo da “Fenomenologia do espírito” de Hegel a que, de certo modo, se opõe. Mas a preocupação, aparentemente literária, do narrador criado por Patrício, no epílogo, é que, para evitar o suicídio, é preciso evitar o diálogo com águias velhas como esta… Como viria a escrever décadas depois Camus, ainda assim na senda nietzschiana, na sua recriação do velho Sísifo, o que tendo almejado a grandeza foi condenado ao absurdo, “il faut imaginer Sisyphe heureux”… Parece-me pouco discutível tanto a presença do diálogo nietzschiano apolíneo-dionisíaco de “O Nascimento da tragédia”, como da díade “revolucionária” do escravo e do senhor de “A Genealogia da moral”, tal como o ressoo impressivo do “Assim falava Zaratustra”, nesta narrativa do diálogo entre a velha águia, outrora selvagem e marinha, e o narrador procurando, em humanos passos, sobressumir-se à altanaria do Übermensch. O livro segue com “O Precoce”, conto que formalmente o é, em todos os aspectos, ainda com o gosto decadentista e mórbido do ultra-romantismo portuense… A paixão da mãe pela criança acamada em que o destino parece inelutável, não fosse a irracional esperança, o transcendental desejo prenhe de milagrosas expressões do Divino, num cosmo apresentado, tal como na obra poética, e de resto um pouco em toda a multifacetada obra, numa leitura panteísta do “transcenden-
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te”, ao gosto espinoziano, portanto, paradoxalmente, sobretudo imanentista. É neste contexto que, numa noite, surgiu à mãe a “ideia súbita” de que o luar, que entrava no quarto e se aproximava do leito onde jazia moribundo o filhinho adorado, era a presença de Deus respondendo às suas redobradas preces. Luar que vai avançando sobre a criança tal como a alegria da mão bendizendo tal miraculosa chegada. Um gemido no enfermo, mexeu-se, tentou erguer a cabeça, mas esta tombou. A mãe ouviu a sua despedida já de muito longe, os olhos tinham-se cerrado, o luar chegara enfim, à cabeceira, poderia ser de Deus, mas trazia a morte, não a vida. Pensando um pouco, em boa verdade, Deus tanto trará a vida como a morte e não terá sido esta a única criança a ver a sua vida ceifada pelo que a mãe julgou ser um luar divino e salvífico. Se Deus dá a vida, se salva, também
mata. Embora a morte, em Patrício, não possa ser vista apenas pela negativa. Pelo contrário, como afirma em outro lugar, no fim deste livro, o seu “ex-condiscípulo” C.F.: “− Morte! És para mim o sal da vida… (…)”. Negativo, sim, terrível, o autêntico drama da existência, a verdadeira frustração do homem, o falhanço do próprio Doce Hebreu como aparece no “Diálogo com uma Águia” que o impediu aliás de ser o Redentor, antes pelo contrário, expressa-o o mesmo C.F., no final do livro, como aprofundaremos: “− Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: Deixe-me estar ainda um bocadinho. Esquecia-me por completo de viver…” Muito pior no caso de uma criança. Patrício tinha experiência disso tanto com os três irmãos que lhe faleceriam menores, como a haveria de vir a ter ainda com um filho. Mas tudo indica que, na sua vida, fez tudo para não ter de confes-
sar, no último minuto, o arrependimento por não ter vivido. E o “Serão inquieto” prossegue, agora em torno de um tal Harry Young, “O Homem das fontes” que é o título da história seguinte, e um personagem que o narrador, presumivelmente o autor, por coincidência, seguiu em cidades europeias diversas, onde contemplava fontes ao mesmo tempo que esquissava sínteses e procurava projectar uma espécie de fusão, no jorro da água, da música com a arquitectura fontina. Como Harry afirmou, em torno da “euritmia” das linhas da água, tratava-se de um “ensaio de arquitectura musical”, um tentame de uma Ópera da Água, num palácio para que já gizara a partitura, três melodias, para as três ogivas do colossal edifício. Em determinado momento a narrativa em torno deste Palácio da Água que pretende harmonizar, num sonho necessariamente falhado, as nuvens, a morte, a alegria e a saudade das águas originais, parece ter ficado sem saída, mais eis então que o arquitecto, o Homem das Fontes, se abre na narração da sua própria vida e como se tinha tornado órfão. Rico, mas órfão. E temos de novo o saudoso mar, o antigo sonho de comandar o navio, a contradição entre a paixão pelo mar e pelo seu navio e a paixão por uma mulher deliciosa, mas obsessiva e cruel, exclusivista e hipnótica, que se comprazia a tudo dar ao pai de Harry, mormente sedução e fascínio, tanto quanto mais este fosse capaz de lhe entregar numa bandeja para depositar no lixo o que mais amava, o mar e a sua saudade do navio, dos oceanos e (suspeitaria ela, a mãe de Harry?) das oceânides… Tê-la-ia a ela que, com superior arte o seduzia, tanto mais, quanto mais ele se fosse de despojar de si próprio… E os olhares bebiam-se um ao outro cada vez mais sedentos, em “um amor que era uma espécie de ódio”. Não vamos estragar ao leitor a expectativa narrativa que faz o gosto de ler. Porque nada como sorver em direto no texto de Patrício, as páginas do desenrolo do epílogo da história em que a chamada do Norte e o Espírito do Mar se vão tornar protagonistas… razão pela qual este Harry, arquitecto e compositor de fontes, melómano da água, odiava o mar… Se “O Homem das fontes” é dedicado ao amigo Justino Montalvão, um aquaflaviense formado no Curso Superior de Letras, destacado jornalista e publicista de “O Primeiro de Janeiro”, que acabou por enveredar pela carreira diplomática, tendo-se afirmado também na literatura, “Suze”, a narrativa que se segue, é dedicada a Paulo Osório, um companheiro portuense do grupo tripeiro já referido, agora engrossado, onde pontificava Augusto de Castro, com os escritores Júlio Brandão, Joaquim Leitão, Eduardo d’ Arteyett, Ricardo Malheiros, o escultor Teixeira Lopes, o engenheiro e crítico de artes António Arroio, o pianista Ernesto Maia e o poeta renascente António Carneiro, entretanto regressado de Paris como já referimos, entre muitos outros, todos eles frequentando a Padaria de Sampaio Bruno na Rua do Bonjardim e disseminando-se pelo “Camanho”, pelo “Suíço”, ou, mais acima, pelo “Águia d’ Ouro”. Abre, todavia, em epígrafe com uma citação de D’Annunzio, que refere a visão de um estrela virgem a partir do lupanar, ele próprio estrela e incandescente na sua fase literária em que se afirmava sob a alçada filosófica de Nietzsche, numa leitura que hoje poderíamos considerar redutora ou mesmo deturpadora mas, em qualquer caso, muito antes de vir a ser conhecido no areópago da política… Susanne! Suze! ”Há uns poucos de dias que
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isto nem parece o Porto”. “Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu viste, nem como tu, transfigurou uma máscara de gesso, patinada a lua, numa obra-prima irradiante”. “Depois de tanto te venderes, cada vez eras mais tu e mais perfeita”. Para quem as grandes questões como a vida ou como a morte, a posteridade, eram apenas um detalhe. Suze, a supra-mulher, não a super-mulher. A mulher, tal como o homem, que se supera em ato de vontade e de liberdade, para lá de toda a moral, não a mulher, ou o homem, acima, ou por cima dos outros, esmagando-o ou de qualquer forma oprimindo-o, como na vulgata fascista que intencional e imbecilmente deturpou o filósofo de Röcken. Tal como se reza, “penso, logo existo”, dir-se-á, com Suze, “o homem é uma ponte pró sobre-humano”, afirma o narrador do livro de Patrício. O homem pode superar-se, pode transcender-se, pode crescer, libertar-se dos sentimentos consoladores para os eunucos! Assim disse Zaratustra tal como disse muitas coisas mais. O que seria, certamente, para Suze, apenas mais um detalhe… Cartas que o narrador lhe escreve sem saber se não estará escrevendo loucuras ao cadáver da que foi perfeita porque amou “a beleza sempre com loucura” e para quem estar na morgue ou numa esquina de rua não passaria de um detalhe. Dandismo? A superficialidade e frivolidade cocotes de Suze não nos parecem tão superficiais e frívolas. Se a morte aparece como um simples detalhe é porque Patrício a vê nela mesmo assim e talvez mesmo nele que cuidava, seriamente, em passar por janota, como unanimemente testemunham os contemporâneos. Há uma ironia nessa marginalização do que outros consideram o essencial na existência, mas por excesso não por defeito, por superação não por inaptidão, como geralmente se considera no dandismo. Que o saibamos, pelo menos entre nós, não vemos o dândi, e pelos vistos a dândi, necessariamente como o solitário que encerra em si uma angústia existencial que encapota com um exibicionismo das aparências… Até porque, como narra Patrício à volta de Suze, “se viver, para uma mulher, é quase sempre prostituir-se, não o é menos afinal para um homem, uma vez que todos nós somos postiços, convencionais, outros que não nós”. Mas não era o caso de Suze, porque esta, no conto de Patrício, “era alguém. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre ela, seria sempre só”. Talvez tenhamos escrito ou falado mais. Não se iluda, todavia quem nos lê ou quem nos ouve. Não passam de apontamentos tirados em subjectiva e arbitrária selecção, virando o recetor para a obrigação da leitura integral do texto. Suze é a mulher nietzschiana, na leitura de Patrício. Infelizmente, nunca terá conhecido nenhum “espírito de síntese, à Carlyle” que fosse capaz de escrever: “A Filosofia de Suze”, “ensaio sobre a supramulher” que deixaria na história a verdade estabelecida de que “o homem é uma ponte pró Sobre-humano”. Uma leitura bem conseguida, quando D’ Annunzio já o interpretava com um cunho diverso e redutor que levaria à tradução do Super-homem, o que é seleccionado para ser mais do que os outros e, por isso, estando por cima dos outros, os guia e, portanto, os oprime. (Continua na próxima semana) Por opção do autor, este texto respeita o novo Acordo Ortográfico
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a revolta do emir
Pedro Lystmann
A Nova Iorquina Em texto publicado anteriormente falou-se de lounges, nessa tentativa do lounge do Hotel Mandarin, em Macau. Neste falar-se-á de outro, situado longe. É numa outra cidade, uma cidade de rendilhados e chantilly chamada Cotai. É uma cidade por onde passam diariamente caravanas de viajantes que, ignotos sobre o prejuízo que o excesso de retorvoltas e chantilly pode trazer ao seu crescimento, aí pernoitam e passeiam encantados como se se tratassem de figurinhas animadas de Meissen. É uma cidade à qual os habitantes da cidade de Macau proper teriam dificuldade em arranjar motivo para se deslocar, se não existisse também neles uma propensão peregrínica semelhante. O lounge do Hotel Banyan Tree é um oásis no meio do gosto presidente. Aí se encontram todas as amenidades suficientes a uma presunção menos modesta: abundância de vinhos de todos os mundos, novos e velhos, a copo e à garrafa, suficientes bebidas espirituosas, cocktails, sumos, chás, águas e cafés para preencher bem um fim de tarde ou início de noite. Adiciona-se uma lista de 15 cervejas, pouco imaginativa mas muito mais esforçada que a da maioria dos bares de Macau. Nela encontramos Bintang, Duvel e uma Paulaner a juntar à aborrecida oferta habitual. Pelo final da tarde entra pelo seu janelão generoso um sol em fim de missão, em jeito de despedida. O serviço é impecável, não demasiado presente. A decoração acompanha a qualidade do resto do lobby, num estilo tribal requintado, em ditadura de madeiras e sugestão térrea, à tailandesa. É neste lugar que repouso para ler uns artigos de Secret Ingredients, The New Yorker Book of Food and Drink, colectânea de artigos da revista The New Yorker sobre comida e bebida. Não sei se The New Yorker é a melhor revista do mundo mas uma apreciação mesmo superficial poderá nela encontrar qualidades inultrapassáveis. Artigos muito longos, escritos por pessoas visivelmente muito bem documentadas. Uma tradição de mais de 80 anos de cartoons de traço muito diversificado. Ficção. Nomes de fama recente e antiga. Em muitos dos artigos existe uma atitude blasé e superior, de aplicação muito própria aos que tratam do prazer do comer e da bebida. O livro reflecte de modo diversificadíssimo esta tendência sibarita a que não falta uma documentação histórica que a legitima. É como se nos fosse permitido um turismo dos sentidos. Que melhor maneira de abandonar o Sábado que a uma dedicação a esta lista de prazeres da comida, da bebida e da escrita. No livro referido encontramos todo o tipo de artigos, amiúde temperados com um aspecto solto e anglo-saxónico
da vida, suficientemente dégagé, troceiramente engagé. Da brutalidade de um jantar americano de carne de vaca, um steak dinner, dos inícios do século XX, ao fascínio americano por uma gastronomia francesa que terá caído de moda quando se encontrou com o resto do mundo. Da errância de alguns dos seus articulistas pelas sete partidas do mundo (uma errância muitas vezes norte-americana, inocente e ignorante, generosa e alucinada), ao elogio bondoso da vida de Julia Childs, pioneira do tipo de programa televisivo de culinária que hoje se pratica desavergonhadamente até à náusea. O artigo de John McPhee sobre o famoso forrageador Euell Theophilus Gibbons, que ocupa 40 páginas, lê-se como um pequeno livro de aventuras, as suas explorações hoje imitadas pelos responsáveis por aquele que é considerado o melhor restaurante do mundo. Nele conta-se como Gibbons e McPhee vivem uma semana quase exclusivamente da apanha de plantas selvagens. À medida que aquele discorre sobre a sua vida, ao calor da fogueira, um pouco da história da América e da sua gente aventurosa e pioneira envergonha quem, tal como os leitores destas linhas, optou pelo conforto e pelo sedentarismo. Assiste-se a um desfile de excêntricos onde se contam o Detective da Fruta David Karp, heroinómano especializado em frutas exóticas e improváveis ou
David Pasternak, cozinheiro e pescador fanático. Nem todos os textos são exemplarmente escritos mas lendo o artigo sobre Pasternak aprende-se bastante sobre peixe. Ou sobre freiras queijeiras. Ou bagels. Para lá das considerações culinárias é o espírito empreendedor e pioneiro da América que parece ainda estar vivo. Apercebemos, sem que haja certamente intenção de o fazer, traços nítidos da decadência da Europa e uma emergência lenta da Ásia a propósito de um artigo sobre tofu, no Japão, ou rato frito, em Guangdong (o artigo mais recente é de 2006). A dada altura insinua-se uma dimensão quase misteriosa - a lembrança, que se equilibra entre a repulsa e a sedução - do nosso destino carnívoro e da nossa bestialidade. Num conto de Italo Calvino, Olivia, a inquisitiva Olivia, em viagem pelo México, interroga impiedosamente os locais sobre o destino final dado aos restos dos cadáveres utilizados nos sacrifícios aztecas, os restos com que os abutres se não banqueteavam. Seriam consumidos pelos sacerdotes? Pelos príncipes e pelos guerreiros? Haveria cerimónias secretas de engolimento? Olivia insiste num pormenor mais refinado. Haveria uma cozinha sagrada, investida da capacidade de tornar agradável, através de condimentação, os restos de carne humana? Estas suspeitas de Olivia evoluem para uma teoria do gosto no México dos
aztecas de então e de agora. Esta poderá ser a melhor história de todo o livro. Chama-se The Jaguar Sun. Num artigo de Victor Erofeyev sobre vodka, chamado The Russian God, não só acompanhamos a história desta Bebida do Diabo desde o seu aparecimento, no século XV, como somos apresentados a Gromyko, Brezhnev, Gorbachev, Yeltsin, Estaline, entre outros. A maneira como esta bebida se infiltrou no tecido social do país adquire contornos quase grotescos, assim como o nosso desejo imparável de intoxicação. Há textos de autores famosos, Woody Allen, Noah Baumbach, Chang-rae Lee, Roald Dahl, Italo Calvino ou Don DeLillo, entre outros. Entre estes outros, a suprema entertainer, Dorothy Parker, já aqui admirada a propósito de martinis secos e das suas opiniões sobre as impropriedades que o seu abuso pode provocar, abandonada aborrecida e só, autoriza um artigo sobre um tortuoso jantar (um artigo de 1929) em que fora colocada ao lado direito de um chato. Longínqua Doroteia, sacerdotiza máxima de uma tensão atraente, mulher do diabo, quase bela, certamente insuportável, lips done a fragrant red, loquaz, necessária aos tempos de hoje num lounge distante. Impossível não estar do seu lado na incessante batalha de vaidades, orgulhos e recriminações que se trava pelas mesas e cozinhas deste mundo.
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t e r c e i r o o u v i d o
próximo oriente
Hugo Pinto
A caminho da Diskotopia “There must be a hundred records with voice-overs asking, “What is house?” The answer is always some greeting card bullshit about “life, love, happiness”. House is not universal. House is hyper-specific. The contexts from which the deep house sound emerged are forgotten: sexual and gender crises, transgendered sex work, black market hormones, drug and alcohol addiction, loneliness, racism, HIV, ACT-UP, Tompkins Square Park, police brutality, queer-bashing, underpayment, unemployment and censorship – all at 120 beats per minute.” “Midtown 120 Intro”, DJ Sprinkles No magistral “Midtwon 120 Blues”, de 2009, DJ Sprinkles (alter ego de Terre Thaemlitz, ilustre residente no Japão) oferece um tratado sobre o “deep house” como música que deve mais ao espírito dos “blues” do que do “disco”, ou seja, mais à “tristeza” do que à “celebração”, ao mesmo tempo que recupera aquilo que Thaemlitz considera serem as origens da música que, nos últimos 20 anos, foi objecto de um raro processo de banalização e destruição. Por mais pessoal que seja (e é) a apresentação que Thaemlitz faz do significado original do “deep house”, há uma ideia que me parece facilmente acatada de modo mais universal, e que poderá ser transposta para a restante (boa) música electrónica que é feita para ser ouvida nos (bons) clubes nocturnos: transgressão. Sem violações, ou violências, a desobediência que a boa música propõe diz respeito ao esquecimento de géneros e fronteiras, de diferenças, convocando todas as partes e mais algumas para pisarem o mesmo chão a que chamam “pista de dança”, entendido, sobretudo, como um espaço de liberdade. Enquanto que os mais fiéis depositários do espírito original empenham-se com afinco em identificar novos limites para ultrapassar, os outros (uma maioria omnipresente) comprometem-se a vulgarizar os já de si lugares mais do que comuns, respondendo, como na epígrafe ali em cima, com o deslumbramento dos néscios aos mistérios desta vida de festas e de “gente gira”, de sorrisos fixos, olhares irrequietos e palavras mudas. Nos últimos tempos, a “discoteca da utopia” tem sido bem alimentada por um núcleo duro de editoras que lançam discos com a convicção de missionários: 100 % Silk, Not Not Fun ou Hippos in Tanks são apenas alguns dos nomes essenciais da nova música electrónica. Como não podia deixar de ser, o Japão faz parte deste mapa de novas sonoridades, onde há uma paragem obrigatória em Tóquio: a Diskotopia. Nascida de um colectivo de DJ, em 2005, a Diskotopia tornou-se numa editora no final de 2010. Gerida por dois expatriados, o norte-americano Matt Lyne (A Taut Line) e o britânico Brian Durr (BD1982), e pela DJ japonesa Am Rhein, a Diskotopia tem um catálogo que,
ainda curto, já prima pelo ecletismo e onde cabem house, techno, sonoridades cósmicas e hipnagógicas, hi-fi, lo-fi, soul, bass, o novo e o velho, o século XX e os séculos todos daí em diante. Na mais recente edição da Diskotopia, o EP “Sketches of the Other Tokyo”, de Fujimoto Tetsuro, lançado no último mês de Fevereiro, oferece-se uma nítida visão
futurista do passado – hip hop, R&B, jazz, UK garage, tudo é chamado para esta espécie de “neo-soul” intimista que tem em Jimmy Edgar guru espiritual, movimentos lentos, mas firmes, e vozes que nos deixam a impressão de traços da caligrafia japonesa, esguias e sensuais, recebendo-nos com agrado à entrada da discoteca da utopia. Enjoy, segredam-nos.
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22 3 2013
c i d a d e s i n v i s í v e i s
perspectivas Jorge Rodrigues Simão
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O cibercrime e a segurança pessoal e nacional “Today we live and work in a world of global connectivity. We can exchange casual conversation or conduct multimillion dollar monetary transactions with people on the other side of the planet quickly and inexpensively. The ways in which criminals commit crimes is also changing. Universal digital accessibility opens up new opportunities for the unscrupulous. Millions of dollars are lost to computer-savvy criminals by both businesses and consumers. Worse, computers and networks can be used to harass victims or set them up for violent attacks-even to coordinate and carry out terrorist activities that threaten us all.” Scene of the Cybercrime: Computer Forensics Handbook Debra Littlejohn Shinder and Ed Tittel
O rápido crescimento demográfico do mundo e a crescente e desequilibrada prosperidade económica, no meio da “grande recessão” que vivem os países desenvolvidos, exercem pressões insustentáveis sobre os recursos. Os cientistas prevêem que a procura de água, energia e alimentos, aumente entre 30 por cento e 50 por cento nos próximos vinte anos. As desigualdades económicas incitam respostas a curto prazo, nas áreas da produção e do consumo que são nocivas para a sustentabilidade, num futuro não muito longínquo. A escassez de recursos irá criar fatalmente a longo prazo, instabilidade política e social, conflitos geopolíticos e danos irreparáveis ao meio ambiente. Qualquer estratégia, que se concentre nos sectores da água, alimentos e energia sem ter em consideração as suas inter-relações, tem fortes possibilidades de correr o risco de desencadear situações graves, com efeitos imprevisíveis e indesejáveis. Existem situações que devem ser atentamente seguidas, dado apresentarem altos níveis de alteração e baixos graus de confiança, podendo ter consequências graves, imprevistas ou subestimadas, como as derivadas dos problemas de cibersegurança, desde a prática cada vez mais frequente do ciberroubo, até à possibilidade, pouco entendida, de uma guerra cibernética total. O “Crime Informático”, ou “e-Crime”, “Cibercrime”, “Crime Electrónico”, “Crime Digital”, pode ser entendido, como uma acção violadora das normas ético-sociais, sendo portanto, típica, antijurídica, imputável, culpável, sujeita a uma sanção penal, praticada por computador ou rede de computadores ou semelhante que tem por fim eliminar a segurança de computadores, tendo acesso às informações que armazena ou destruir o computador ou redes de computador. Este tipo de conduta criminosa teve início no final da década de 1990, com a expansão da “Internet”, mas foi concebido durante a Guerra Fria, no final da década de 1950, como meio de espionagem
não apenas ideológica, política e militar, mas também industrial, como assinala Jacques Bergier em “A Espionagem Industrial”. O aumento diário do crime informático vai-se tornando mais sofisticado com a evolução dos meios tecnológicos. Trata-se de uma actividade sem fronteiras e daí global, apresentando diversas categorias de crimes que vão desde a segunda profissão mais antiga do mundo, depois da “prostituição”, que é a espionagem, até ao acesso das informações mais secretas dos Estados, passando pelo crime económico bancário, pornografia infantil, pedofilia, tráfico de armas, de pessoas e órgãos e pirataria, entre muitos outros. É um crime praticado no mais curto espaço de tempo possível e em volume impossível de ser quantificado, podendo ter efeitos devastadores em termos de danos provocados. É uma pandemia do nosso tempo, revolucionando os conceitos clássicos da teoria do direito criminal, e obrigando a um estudo, análise e investigação profundos e altamente técnicos, em evolução diária, constituindo um desafio tremendo aos países, obrigando-os a legislar, através da criação de novas tipologias de crimes e correspondentes sanções, com todas as consequências que advém. O relatório do projecto na área da cibersegurança desenvolvido por investigadores da Universidade de Coimbra, com a denominação de “Vigilis”, detectou que em 2009 e 2010, o número de sistemas de informação vulneráveis, em Portugal, era de 75 mil, em 9715 servidores, numa análise a 86 mil domínios “.pt”, sendo 1251 pertencentes ao “governo”. Estes números assustadores tudo indicam, que aumentaram. Sendo uma área nova, instável e global, obriga a uma estreita cooperação de países e instituições, tendo em vista a sua prevenção e combate. A situação torna-se mais difícil, quando é utilizado por países para atacar outros, atingindo as suas instituições ou personalidades ilustres e representativas, ou por grupos terroristas. Os países começam a ter a noção do perigo que constitui para a sua “Segurança Nacional” o cibercrime e aperfeiçoam alguns a legislação, e outros começam a dar os primeiros passos, sendo o marco fundamental, os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos. As introduções dos novos tipos de crime, deram-se em geral por incorporação nos “Códigos Penais”, ou por legislação especial contra os crimes informáticos. A “INTERPOL” é a maior organização mundial de polícia internacional, tendo 190 países como membros, e uma das suas áreas de actuação é o combate
ao cibercrime, reconhecendo que é das de maior crescimento do crime, em que cada vez mais criminosos tiram vantagem da velocidade, comodidade e anonimato que as modernas tecnologias de comunicação oferecem, para desenvolverem um conjunto diversificado de actividades criminosas, que incluem ataques contra os dados e sistemas informáticos, roubo de identidade, distribuição de imagens de abuso sexual infantil, fraudes de leilões na “Internet”, penetração em serviços financeiros online, contaminação com vírus, entre muitos outros. A natureza global da “Internet” permite aos criminosos, cometer actividades ilegais, em qualquer parte do mundo, tornando-se essencial para todos os países adaptar os seus controlos internos “offline” para cobrir crimes cometidos no ciberespaço. O uso da “Internet” por terroristas, em particular, para o recrutamento e a incitação à radicalização, representa uma séria ameaça à segurança nacional e internacional. As situações que podem advir dos problemas demográficos, devem ser cuidadosamente analisadas e estudadas, também, pois irão aumentar a pressão fiscal que sofrem as economias dos países desenvolvidos e que põem em risco a estabilidade social das economias dos países emergentes. É um pensamento reducionista, confiar que a recessão num mundo de economia globalizado e fortemente inter-ligado, ficará circunscrita aos países desenvolvidos do Ocidente. Os efeitos há muito começaram a ter repercussões na restante parte do mundo “imune”, sem a devida apreciação e consciência do que fatalmente chegará e que poderá ser incontrolável. As situações resultantes dos problemas de segurança dos recursos, devem ser valorizados, pois irão criar uma ex-
trema volatilidade e um encarecimento sustentado a longo prazo da energia e das matérias-primas, se a oferta não for igual à procura. A rejeição à globalização através de respostas populistas às disparidades económicas, deve ser avaliada, se as economias dos países emergentes não conseguirem assumir um papel de liderança. As “Armas de Destruição Maciça (ADM)”, em especial a possibilidade de uma renovada corrida nuclear entre os países têm fortes probabilidades de acontecer, pelo que a sociedade civil global se deve precaver e tudo fazer para a evitar. A resposta eficaz aos problemas, não só implica reduzir activamente as perdas associadas às situações que possam advir a nível global, senão também aproveitar as oportunidades de inovação e crescimento que possam surgir. As novas tecnologias e as redes sociais mais usadas no mundo, conectaram pessoas, que embora, tenham diferentes concepções, compartilham a visão de que se torna necessário trabalhar para um outro tipo de sistema organizativo global, visualizando as estratégias do poder e construindo uma alternativa onde as relações sociais possam ser reformuladas. Os agrupamentos de pessoas, além de acções reivindicativas de protesto, respondem a esta necessidade de mudança social, onde a solidariedade e a construção colectiva são os eixos naturais deste germe, que transcendeu o momento limiar de protesto para converter-se numa rede de pessoas que aprendem diariamente que outro mundo é possível não só através da tolerância e da diversidade, mas também estimulando a interacção colectiva de heterogeneidades. É um desafio que, ainda que se tente domar, está em marcha. É neste ponto onde se deve considerar que a forma de mobilizar pessoas ao contrário de ocupar estradas como é a normal e clássica forma de protesto, contribui de forma inovadora, trazendo frescura e eficácia, e não se definir como uma ideologia específica, como se tratasse de um programa reivindicativo. A partir de uma perspectiva diacrónica, pode-se dizer que a delimitação dos espaços (fronteiras) e do conhecimento (surgimento das ciências sociais) são duas das pontas de lança do pensamento referido, que se põem em inter-ligação e que vislumbram uma possível alteração face às teorias do “fim da história”. Esta possível ruptura face ao capitalismo não se encontra em nenhum “ismo”, como anarquismo, comunismo, liberalismo, mas sim num novo paradigma que supere os erros dos anteriores.
22 3 2013
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o l h o s a o a l t o
gente sagrada
禄星
José Simões Morais
Lu Xing
divindade estelar da Riqueza ou Dignidade Fu Lu Shou San Xing, como na semana passada fizemos referência, são três divindades estelares extremamente populares para os chineses pois, para as suas vidas, o que mais desejam é Felicidade, Dignidade ou Riqueza e Longevidade. Hoje aqui trataremos de Lu Xing, a divindade estelar ligada a Si Lu, a sexta estrela da constelação Wen Chang, que tinha como função controlar o sucesso, a fama e conceder um alto estatuto às pessoas e por isso, era a ela que a maioria das pessoas explicitamente se dirigia. Nas dinastias Sui e Tang, quando foram criados os Exames Imperiais, as pessoas ligaram Lu Xing com Wen Chang. O carácter lu (禄) refere-se especificamente ao salário do governador, ou também à posição dos Oficiais e combinando estes dois significados toma o sentido de Gao Guan Hou Lu (高官厚禄), traduzido como alta posição e volumoso salário. Assim, Lu Xing representa dois desejos dos seres humanos, dignidade e riqueza. Foi nos finais da dinastia Song do Norte, que Lu Xing passou a ter também outra função, a de oferecer às pessoas a possibilidade de terem filhos. Em Song Jia You [Era de Jia You (1056-1063) da dinastia Song] o imperador Renzong não conseguia ter um filho para lhe suceder no trono. Uma noite, num sonho, apareceu-lhe um jovem bem-parecido com faces rosadas, denotando boa saúde, com uma longa barba e segurando na mão uma fisga. Ao falar com o imperador, a imagem perguntou-lhe se sabia a razão por que não conseguia ter um filho? Então explicou-lhe haver no Céu um cão (天 狗, Tian Gou) que aparece às vezes durante o dia e come o Sol, ou quando chega à noite come a Lua (a explicação simbólica para os eclipses descrita em “Tian Gou Chi Ri Yue” (天狗吃日月). Na Terra, Tian Gou é o responsável por comer as crianças ainda antes delas nascerem. Revelou-lhe ter uma fisga à qual o cão tem medo e se ele, Zhang Xian, lá estiver, Tian Gou não aparece. Mal acordou, o imperador logo arranjou imagens do imortal Zhang, colocando-as por todo o palácio, fazendo-lhe diárias orações. Assim nasceram os filhos ao imperador e por isso, Zhang Xian (张仙) tornou-se muito famoso. Baseado no livro “Li Dai Shen Xian Tong Jian” (历代神仙 通鉴, cuja tradução significa “Lista de todos os Imortais em cada uma das dinastias”), Zhang Xian é um mestre do Dao no Período das Cinco Dinastias e Dez Reinos, cujo nome é Zhang Yuan Xiao. Tornara-se Imortal na montanha Qing Cheng, em Sichuan e a sua fama como arqueiro era enorme devido à sua pontaria, sendo implacável para com os demónios. Por isso, na dinastia Ming, em muitas óperas, chamavam Lu Xing a Song Zi Zhang Xian (Zhang Xian o que oferece os bebés) e durante as representações Lu Xing transportava uma criança ao colo. É frequente a divindade estelar Lu Xing aparecer vestindo uma cabaia de seda usada pelos Oficiais Civis e a carregar ao colo uma criança. Por vezes, em pinturas aparece como um Oficial a tocar a cabeça de um veado, servindo também este animal para representar Lu Xing.
22 3 2013
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l e t r a s s í n i c a s
Huai Nan Zi 淮南子
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O Livro dos Mestres de Huainan
Em vez de proibir a ambição, deixa apenas que nada haja que desejar.
Do Estado e da Sociedade – 40 Num estado ideal, aqueles que têm um elevado estatuto social não recebem penas mais leves e aqueles que são de baixa condição não recebem penas mais pesadas. Aqueles que quebram a lei são punidos mesmo que, sob outros aspectos, sejam bons, assim como aqueles que obedecem à lei não são punidos, ainda que sejam imprestáveis. É assim que a Via pública é mantida aberta, ao mesmo tempo que se trava a via privada. *** Na antiguidade, os supervisores eram nomeados para assegurar que as pessoas não fossem negligentes; os líderes eram postos no poder para assegurar que os supervisores não agissem arbitrariamente. A lei usava a ordem social, o dever e a justiça para impedir que um líder tomasse decisões arbitrárias. Quando as pessoas não conseguem levar por diante os seus caprichos, a Via prevalece. Quando a Via prevalece, atinge-se a ordem. Por isso existe um regresso à não-artificialidade. A não-artificialidade não significa inacção estagnante. É uma expressão usada para significar que nada vem do ego. *** Aqueles que governam não dão valor ao convencimento de se estar absolutamente certo. Outrossim, dão valor à impossibilidade de praticar o mal. Por isso se diz, “Em vez de proibir a ambição, deixa apenas que nada haja que desejar; em vez de proibir a contenda, deixa que nada haja que usurpar”. Deste modo, é possível discernir os talentos das pessoas e a justiça é posta em prática. Aqueles que têm mais do que o suficiente param quando basta e aqueles com menos do que o suficiente encontram emprego. Assim pode a terra ser unificada. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.