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h - Suplemento do Hoje Macau #66

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2759. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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NA SOMBRA DE CONFÚCIO


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O SER HUMANO DOS DITOS DE CONFÚCIO Introdução e tradução Daniel J.L. Carlier

INTRODUÇÃO Basta querer para ser verdadeiramente humano. Ditos de Confúcio,VII.30. 1 Os Ditos de Confúcio (Lun Yu - 論語), erigidos em dogma por alguns mandarins letrados, exerceram uma grande influência sobre a mentalidade dos povos sinizados do Extremo Oriente. « O ser humano dos Ditos de Confúcio » é uma selecção de pensamentos veiculados nos Ditos de Confúcio, selecção que realça as qualidades de um ser humano verdadeiramente humano e as tendências contraditórias da natureza humana.

CONFÚCIO (551/479 A.C.) E NÓS

Nas suas conversações com os seus discípulos Confúcio revela a dupla identidade do espírito humano, espírito que ora segue as suas inclinações naturais egoístas ora sacrifica os seus interesses particulares em nome do interesse geral, embora o motivo latente desse altruísmo aparente possam ser as vantagens individuais que se pensa retirar a medio ou longo prazo. Por meio de alguns conceitos, como os de justiça natural ou equidade, de ritual ou norma social e política, de tolerância, de boa fé, de generosidade, de virtude por excelência ou virtude de humanidade e de pessoa de bem ou espírito nobre Confúcio sintetiza a sua concepção de um mundo verdadeiramente humano. Quando se trata de questões metafísicas como a da essência da vida e da morte Confúcio reconhece modestamente a sua ignorância : O Mestre disse (XI.12.) : “ Não sabemos o que é a vida, como saber o que é a morte?” No nosso mundo em que a ciência é o símbolo universal do conhecimento objectivo, que sabemos nós da vida e da morte? A não ser algumas leis que regulam os fenómenos de aparecimento e desaparecimento dos seres vivos a ciência não dá nenhuma resposta objectiva à questão do sentido da vida e da morte. A falta de explicação científica justifica a pluralidade 1 Ditos de Confúcio/ 话说孔子, publicação bilingue chinês/ português de Daniel J.L. Carlier - Editora: Jornal Tribuna de Macau, 2008.

das interpretações filosóficas e religiosas, mas se queremos uma resposta minimamente objectiva temos que reconhecer a nossa ignorância, tal como Confúcio há mais de dois mil anos. Não é todavia um argumento racional para rejeitar a priori tudo o que não seja científico, duvidar do sentido dado à vida e à morte por uma religião ou uma filosofia não deve logicamente implicar nem o repúdio nem o desprezo, a dúvida requer a imparcialidade do juízo e a tomada em consideração de qualquer hipótese. Uma crença pode, até prova do contrário, conter alguma verdade. A consciência da nossa ignorância exige o respeito de todos os credos: O Mestre disse (VI.22.) : “Respeitar os espíritos e os deuses mantendo as distâncias, pode-se chamar a isso sabedoria.” Os instrumentos de que dispomos para compreender os seres humanos e tentar dar resposta às grandes questões da humanidade são as várias linguagens que estes utilizam e essencialmente as línguas que falam, condições da possibilidade do pensamento discursivo e de qualquer análise conceptual: O Mestre disse (XX.3.) : “Quem não entende o sentido das palavras não pode compreender os seres humanos.” Uma língua permite-nos reflectir sobre o que quer que seja, mas as suas palavras não são a expressão pura e simples de pensamentos evidentes, o seu sentido não corresponde necessariamente nem às ideias que evocam nem aos actos que sugerem, podem significar exactamente o contrário do que dizem e a sua relação com as atitudes e os comportamentos humanos é ambígua. Com o tempo, fonte da experiência humana, aprendemos a fazer a distinção entre o que é dito, a forma como o que é dito é dito, o pensamento que é suposto estar por trás do que é dito e a probabilidade do que é dito e supostamente pensado corresponder ao que é realmente pensado: O Mestre disse (XI.21.) : “Fala com determinação, sem dúvida, mas é um espírito nobre ou simplesmente um fingidor?” Conscientes da nossa ignorância e da dificuldade em compreender a natureza humana, que via seguir para ser um espírito nobre, um ser verdadeiramente humano? Confúcio disse (XX.3.) : “Quem ignora o destino não pode vir a ser um espírito nobre.”


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Não será o destino o que determina a priori a nossa existência, isto é a época em que nascemos, o lugar onde nascemos, o meio em que crescemos e a educação que recebemos? Ter consciência do nosso destino é o primeiro passo na via indicada por Confúcio para ser verdadeiramente humano, via cujo fundamento é o respeito pelo outro e em primeiro lugar pelos mais velhos: O Mestre You disse (I.2.) : “A piedade filial e o respeito pelos mais velhos são as raízes da virtude!” Mas o respeito não é inato, é preciso ser educado segundo alguns princípios para aprender a respeitar os outros. Compete aos mais velhos educar os mais novos segundo esses princípios e compete à sociedade completar essa tarefa por meio do ensino que Confúcio já considerava como necessário para todos: O Mestre disse (XV.39.) : “Quanto ao ensino, é para todos sem discriminação.”

O Mestre disse (XX.3.) : “Quem não entende o sentido das palavras não pode compreender os seres humanos.” No entanto é legítimo perguntar porque razão querer ser verdadeiramente humano se a hipótese segundo a qual a vida e a morte não têm sentido é plausível. Para Confúcio há uma razão suficiente para querer ser verdadeiramente humano : O Mestre disse (IV.1.) : “É bom viver onde há humanidade.” É bom viver onde há humanidade, isto é onde os seres humanos se comportam de forma verdadeiramente humana. É uma razão suficiente para querer ser verdadeiramente humano, razão que dá sentido à existência humana mesmo se esta parece não ter nenhum.

I. A virtude de humanidade (仁, ren) ou o ser verdadeiramente humano I.2. O Mestre You disse: “A piedade filial e o respeito pelos mais velhos são as raízes da virtude!” 2 XVII.6. Zizhang perguntou a Confúcio como ser verdadeiramente humano. Confúcio respondeu: “No mundo em que vivemos, ser verdadeiramente humano é ser capaz de pôr em prática cinco princípios.” Perguntou-lhe quais eram e ele 2 有子曰:“孝弟也者,其為仁之本與”

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respondeu: “A deferência, a tolerância, a boa-fé, a diligência e a generosidade.” 3 XIII.19. Fan Chi perguntou como ser verdadeiramente humano. Confúcio respondeu: “Sendo deferente na vida privada, diligente na vida pública e sempre leal.” 4 XIX.6. Zixia disse: “Aumentar os conhecimentos, firmar a vontade, questionar abertamente e reflectir profundamente, é onde se encontra a virtude.” 5 XIII.27. O Mestre disse: “A firmeza, a perseverança, a sinceridade e a prudência estão próximas da virtude.” 6 XII.1. Yan Yuan perguntou em que consiste a virtude. Confúcio respondeu: “ A virtude consiste em dominar-se e seguir os rituais.” 7 3 子張問仁於孔子。孔子曰:“能行五者於天下為仁 矣。”請問之。曰:“恭,寬,信,敏,惠。” 4 樊遲問仁。子曰:“居處恭,執事敬,與人忠。” 5 子夏曰:“博學而篤志,切問而近思,仁在其中矣。” 6 子曰:“剛,毅,木,訥近仁。” 7 顏淵問仁。子曰:“克己復禮為仁。”


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VI.22. O Mestre disse: “O ser verdadeiramente humano esforça-se primeiro, mais tarde é que colhe os frutos; assim é que se pode dizer que é verdadeiramente humano.” 8 XII.2. Zhonggong perguntou como ser verdadeiramente humano. O Mestre disse: “Não imponha aos outros o que não deseja para si.” 9 XII.22. Fan Chi perguntou como ser verdadeiramente humano. Confúcio respondeu: “Amando o próximo.” 10 IV.1. O Mestre disse: “É bom viver onde há humanidade.” 11 VII.30. O Mestre disse: “Basta querer para ser verdadeiramente humano.” 12 IV.4. O Mestre disse: “Basta querer ser verdadeiramente humano e para não haver maldade!” 13 XIV.4. O Mestre disse: “Uma pessoa verdadeiramente humana é sem dúvida uma pessoa corajosa, mas uma pessoa corajosa nem sempre é uma pessoa verdadeiramente humana.” 14 IV.2. O Mestre disse: “Uma pessoa verdadeiramente humana goza tranquilamente a sua humanidade; uma pessoa inteligente põe em prática a sua humanidade.” 15 IX.29. O Mestre disse: “Os sábios não tem ilusões, os seres verdadeiramente humanos não vivem na ansiedade, as pessoas corajosas não têm receios.” 16 VI.23. O Mestre disse: “Um ser inteligente é dinâmico; um ser verdadeiramente humano é sereno .” 17 IV.6. O Mestre disse: “Nunca encontrei ninguém que se dedicasse só ao bem nem ninguém que renunciasse totalmente ao mal.” 18 I.3. O Mestre disse: “Lisonjas e fingimentos têm pouco a ver com a virtude!” 19 XVII.8. O mestre disse: “O culto da virtude sem a dedicação aos estudos conduz à imbecilidade.” 20 XV.9. O Mestre disse: “Um coração nobre nunca deixa de ser humano, oferece a sua vida em nome da humanidade.” 21 II. O espírito nobre (君子, junzi) e o espírito vil (小人, xiaoren) XIV.23. O Mestre disse: “O espírito nobre dá mais valor aos bens espirituais, o espírito vil dá mais valor aos bens materiais.” 22 II.14. O Mestre disse: “Para um espírito nobre o interesse particular desaparece diante do interesse geral, para um espírito vil é o interesse geral que desaparece diante do interesse particular.” 23 IV.11. O Mestre disse: “Um espírito no8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23

子曰:“仁者先難而後獲,可謂仁矣。” 仲弓問仁。子曰:“己所不慾,勿施於人。” 樊遲問仁。子曰:“愛人。” 子曰:“里仁為美。” 子曰:“仁遠乎哉? 我慾仁,斯仁至矣。” 子曰:“苟志於仁矣,無惡也。” 子曰:“仁者必有勇,勇者不必有仁。” 子曰:“仁者安仁,知者利仁。” 子曰:“知者不惑,仁者不憂,勇者不懼。” 子曰:“知者動,仁者靜。” 子曰:“我未見好仁者,惡不仁者。” 子曰:“巧言令色,鮮矣仁!” 子曰:“好仁不好學,其蔽也愚。” 子曰:“志士仁人,無求生以害仁,有殺身以成仁。” 子曰:“君子上達,小人下達。” 子曰:“君子周而不比,小人比而不周。”

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bre espera que haja justiça, um espírito vil só espera obter favores.” 24 IV.16. O Mestre disse: “Um espírito nobre sabe o que é justo, um espírito vil só sabe dos seus interesses.” 25 IV.10. O Mestre disse: “No dia a dia o espírito nobre não é nem rígido nem obstinado, conforma-se com o que é justo.” 26 XV.18. O Mestre disse: “ O espírito nobre guia-se pela justiça.” 27 XV.21. O Mestre disse: “Um espírito nobre é muito exigente consigo mesmo, um espírito vil é muito exigente com os outros.” 28 XII.16. O Mestre disse: “Um espírito nobre realça as qualidades e não os defeitos dos outros. Um espírito vil faz o contrário.” 29 XIII.23. O Mestre disse: “Um espírito nobre procura a harmonia e não o conformismo, um espírito vil procura o conformismo e não a harmonia.” 30 XIII.26. O Mestre disse: “Um espírito nobre tem dignidade mas não é altivo. Um espírito vil é altivo mas não tem dignidade.” 31 VII.37. O Mestre disse: “Um espírito nobre é generoso, um espírito vil é mesquinho.” 32 XII.19. O Mestre disse: “O espírito nobre é como o vento, o espírito vil é como a erva; Quando o vento sopra, a erva inclina-se.” 33 XI.21. O Mestre disse: “Fala com determinação, sem dúvida, mas é um espírito nobre ou simplesmente um fingidor?” 34 I.8. O Mestre disse: “Um espírito nobre que se exalta não é tomada a sério; é oco o seu saber.” 35 XIII.3. O Mestre disse: “Um espírito nobre não fala à toa.” 36 IV.24. O Mestre disse: “Um espírito nobre fala com prudência e age com diligência.” 37 XIV.27. O Mestre disse: “Muita parra e pouca uva desonra um espírito nobre.” 38 XII.4. O Mestre disse: “ Um espírito nobre não tem inquietações nem receios.” 39 XV.2. O Mestre disse: “Um espírito nobre não sucumbe à desventura.” 40 II.12. O Mestre disse: “Um espírito nobre não é nenhum pote.” 41 III.7. O Mestre disse: “Um espírito nobre não rivaliza com ninguém, a não ser no tiro ao arco!” 42 XIX.7. Zi Xia disse: “Um espírito nobre estuda para encontrar o seu caminho.” 43 24 子曰:“君子懷刑,小人懷惠。” 25 子曰:“君子喻於義,小人喻於利。” 26 子曰:“君子之於天下也,無適也,無莫也,義之與 比。” 27 子曰:“君子義以為質。” 28 子曰:“君子求諸己,小人求諸人。” 29 子曰:“君子成人之美,不成人之惡。小人反是。” 30 子曰:“君子和而不同,小人同而不和。” 31 子曰:“君子泰而不驕。小人驕而不泰。” 32 子曰:“君子坦蕩蕩,小人長戚戚。” 33 子曰:“君子之德風,小人之德草。草上之風,必偃” 34 子曰:“論篤是與,君子者乎?色莊者乎?” 35 子曰:“君子不重,則不威;學則不固。” 36 子曰:“君子於其言,無所苟而已矣。” 37 子曰:“君子慾訥於言而敏於行。” 38 子曰:“君子恥其言而過其行。” 39 40 41 42 43

子曰:“君子不憂不懼。” 子曰:“君子固窮。 子曰:“君子不器。” 子曰:“君子無所爭。必也射乎!” 子夏曰:“君子學以致其道。”


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XX.3. Confúcio disse: “Quem ignora o destino é incapaz de se tornar um espírito nobre.” 44 XII.24. Zeng Zi disse: “Graças à sua cultura um espírito nobre junta amigos, graças aos seus amigos torna-se verdadeiramente humano.” 45 VI.4. O Mestre disse: “Sempre ouvi dizer que um espírito nobre é uma pessoa que ajuda os pobres a sair da pobreza e não os ricos a tornarem-se mais ricos.” 46 VII.26. O Mestre disse: “Santos, nunca encontrei! Quando encontro um espírito nobre, já fico satisfeito.” VII.33. O Mestre disse: “Conhecimentos, tenho como toda a gente. Para ser um espírito nobre, falta-me muito.” 47 III. O ritual (禮, li) ou norma social e política IV.13. O Mestre disse: “Um país pode ser governado por meio de rituais e concessões? Há alguma dúvida? Se não fosse possível governar um país por meio de rituais e de concessões, para que serviriam os rituais?” 48 III.19. O duque Ding perguntou: “Como deve um monarca tratar os ministros e como devem os ministros servirem o monarca?” Confúcio respondeu: “O monarca deve tratar os ministros segundo os rituais e os ministros devem servir o monarca com lealdade.” 49 XIV.41. O Mestre disse: “Quando os dirigentes respeitam as normas, o povo é bom cumpridor.” 50 II.3. O Mestre disse: “Governar com moralidade e administrar segundo as normas torna o povo digno e cumpridor.” 51 III.15. O Mestre entrou no Grande Templo e inteirou-se de tudo. Alguém comentou: “Quem é que disse que o filho do tal de Zou percebia de rituais? Entra no Grande Templo e inteira-se de tudo.” O Mestre ouviu e respondeu: “O ritual é isso mesmo!” 52 III.4. Lin Fang perguntou qual era a essência dos rituais. O Mestre disse: “Que pergunta! Numa cerimónia, a simplicidade é preferível ao luxo; num funeral antes a dor do que o aparato.” 53 VIII.2. O Mestre disse: “Sem rituais a deferência torna-se enfadonha, a prudência não é senão timidez, a bravura é cega e a franqueza não passa de uma afronta.” 54 I.12. O Mestre You disse: “Nos rituais, o que importa é a harmonia.” 55 44 孔子曰:“不知命,無以為君子也。” 45 曾子曰:“君子以文會友,以友輔仁。” 46 子曰:“吾聞之也:君子周急不繼富。” 47 子曰:“文,莫吾猶人也。躬行君子,則吾未之有 得。” 48 子曰:“能以禮讓為國乎? 何有? 不能以禮讓為國, 如禮何? ” 49 定公問:“君使臣,臣事君,如之何?”孔子對曰:“ 君使臣以禮,臣事君以忠。” 50 子曰:“上好禮,則民易使也。” 51 子曰:“道之以德,齊之以禮,有恥且格。” 52 子入太廟,每事問。或曰:“孰謂鄹人之子知禮乎?入 太廟,每事問。”子聞之,曰:“是禮也。” 53 林放問禮之本。子曰:“大哉問!禮,與其奢也,寧 儉;喪,與其易也,寧戚。” 54 子曰:“恭而無禮則勞,慎而無禮則葸,勇而無禮 則亂,直而無禮則絞。” 55 有子曰:“禮之用,和為貴。”

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I.13. O Mestre You disse: “Quem respeita os rituais não sofre desonras.” 56 III.3. O Mestre disse: “Se não se comportarem humanamente, para que servem os rituais?” 57 XVII.11. O Mestre disse: “Falam e falam de rituais, mas falam apenas de jade e seda!” 58 XX.3. O Mestre disse: “Quem não conhece os rituais vive à margem da sociedade.” 59 IV. O que se entende por estudar (學, xue) , saber (知, zhi) e ensinar (教, jiao). XV.31. O Mestre disse: “Estive um dia inteiro em jejum e a noite seguinte em meditação. Para nada! Mais vale estudar! ” 60 VII.20. O Mestre disse: “Eu não nasci sábio, venero os Antigos e cultivo as Letras sem descanso.” 61 II.15. O Mestre disse: “Estudar sem reflectir é inútil, reflectir sem estudar é perigoso.” 62 VII.22. O Mestre disse: “As pessoas que caminham pelas ruas têm sempre algo para me ensinar: as suas qualidades servem-me de exemplo e os seus defeitos de aviso.” 63 IX.30. O Mestre disse: “Estudar juntos não obriga a seguir o mesmo caminho; seguir o mesmo caminho não obriga a trabalhar juntos; trabalhar juntos não obriga a ter a mesmas opiniões.” 64 VIII.17. O Mestre disse: “Estudar é perseguir o inatingível, com medo de o deixar escapar. ” 65 VII.17. O Mestre disse: “Se viver mais uns anos, aos cinquenta estudarei <O Livro Das Mutações>; serei então capaz de não cometer erros muito graves!” 66 XIV.24. O Mestre disse: “Antigamente, estudava-se para aprender; hoje em dia, estuda-se para ostentar saber.” 67 IX.4. “Eram quatro as atitudes que o Mestre nunca admitia: As conjecturas, a arbitrariedade, a teimosia e a presunção.” 68 XI.12. O Mestre disse: “Não sabemos o que é a vida, como saber o que é a morte?” 69 II.17. O Mestre disse: “Saber é ter consciência que se sabe quando se sabe e que não se sabe quando não se sabe!” 70 VI.22. O Mestre disse: “Tratar as pessoas com justiça, respeitar os espíritos e os 56 有子曰:“恭近於禮,遠恥辱也。” 57 子曰:“人而不仁,如禮何?” 58 子曰:“禮云禮云,玉帛云乎哉!” 59 子曰:“不知禮,無以立也。” 60 子曰:“吾嘗 終日不食,終夜不寢,以思,無益,不 如學也。” 61 子曰:“我非生而知之者,好古,敏以求之者也。” 62 子曰:“學而不思則罔,思而不學則殆。” 63 子曰:“三人行,必有我師焉。擇其善者而從之, 其不善者而改之。” 64 子曰:“可與共學,未可與適道;可與適道,未可與 立;可與立,未可與權。” 65 子曰:“學如不及,猶恐失之。” 66 子曰:“加我數年,五十以學《易》,可以無大過

矣。” 67 子曰:“古之學者為己,今之學者為人。” 68 子絕四:毋意,毋必,毋固,毋我。” 69 子曰:“未知生,焉知死?” 70 子曰:“知之為知之,不知為不知,是知也。”


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deuses mantendo as distâncias, pode-se chamar a isso sabedoria.” 71 XV.39. O Mestre disse: “Quanto ao ensino, é para todos sem discriminação.” 72 VIII.8. O Mestre disse: “A poesia inspira, o ritual educa e a música forma” 73 VII.25. “Eram quatro os meios de ensino do Mestre: As Letras, os actos, a lealdade e a confiança.” 74 VII.1. O Mestre disse: “Eu transmito, não invento. Venero e amo a Antiguidade.” 75 II.11. O mestre disse: “Formar um novo saber depois de reler os Antigos é ter o dom de ensinar.” 76 V. Alguns ensinamentos tirados da leitura dos Ditos de Confúcio V.20. Ji Wen Zi pensava três vezes antes de tomar uma decisão. Quando contaram ao Mestre, ele disse: “Duas vezes é suficiente.” 77 XI.4. O Mestre disse: “Como é que o Hui me podia ajudar se nunca desaprovava o que eu dizia!” 78 XII.6. O Mestre disse: “Atingido por uma onda de calúnias e insultos, fica imperturbável; pode-se dizer que é uma pessoa lúcida.” 79 VIII.10. O Mestre disse: “Exacerbada, uma pessoa desumana desatina.” 80 I.16. O Mestre disse: “Não se aflija por não ser compreendido, aflija-se por não compreender os outros.” 81 71 72 73 74 75 76 77 78 79

子曰:“務民之義,敬鬼神而遠之,可謂知矣。” 子曰:“有教無纇。” 子曰:“興於詩,立於禮,成於樂。” “子以四教:文,行,忠,信。” 子曰:“述而不作,信而好古, 竊比於我老彭。” 子曰:“溫故而知新,可以為師矣。” 季文子三思而後行。子聞之,曰:“再,斯可矣。” 子曰:“回也非助我者也, 於吾言無所不說。” 子曰:“浸潤之譖,膚受之愬,不行焉,可謂明也已

矣。” 80 子曰:“人而不仁,疾之已甚,亂也。” 81 子曰:“不患人之不己知, 患不知人也。”

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XIV.30. O Mestre disse: “Não se preocupe com a sua falta de notoriedade, preocupe-se com a sua falta de competência!” 82 XV.12. O Mestre disse: “Não pensar no futuro traz dissabores no presente.” 83 XIII.17. O Mestre disse: “A ânsia de pequenos lucros torna impossível a realização de grandes projectos.” 84 XIII.30. O Mestre disse: “Enviar um povo inculto para a guerra é deixá-lo ao abandono.” 85 IX.26. O Mestre disse: “Pode-se privar um exército do seu general, não se pode privar ninguém dos seus ideais.” 86 XI.16. O Mestre disse: “Tão mau é um excesso de zelo como uma falta a um compromisso.” 87 XII.3. O Mestre disse: “O que se faz com dificuldade pode ser dito sem ambiguidade?” 88 XVI.11. Confúcio disse: “Viver num retiro em prol de um ideal, fazer da justiça um lema para a vida, ouvi tais palavras, nunca encontrei tais pessoas!” 89 II.22. O Mestre disse: “Não entendo como pode desempenhar as suas funções uma pessoa que não cumpre a sua palavra.” 90 XIV.20. O Mestre disse: “Quem fala por falar raramente cumpre a sua palavra.” 91 XX.3. O mestre disse: “Quem não entende o sentido das palavras não pode compreender os seres humanos.” 92 82 子曰:“不患人之不己知,患其不能也。” 83 子曰:“人無遠慮,必有近憂。” 84 子曰:“見小利,則大事不成。” 85 子曰:“以不教民戰,是謂棄之。” 86 子曰:“三軍可奪師也,匹夫不可奪志也。” 87 子曰:“過猶不及。” 88 子曰:“為之難,言之得無訒乎?” 89 孔子曰:“隱居以求其志,行義以達其道。吾聞其語 矣,未見其人也。” 90 子曰:“人而無信,不知其可也。” 91 子曰:“其言之不怍,則為之也難。” 92 子曰:“不知言,無以知人也。”

XV.41. O Mestre disse: “Quanto às palavras, basta que sejam claras!” 93 XVII.2. O Mestre disse: “A Natureza une, os costumes separam.” 94 XVII.3. O Mestre disse: “Só os sábios e os idiotas é que nunca mudam.” 95 IX.18. O Mestre disse: “Nunca encontrei ninguém que preferisse a virtude aos encantos femininos.” 96 VI.29. O Mestre disse: “O princípio - No meio é que está a virtude - é excelente! Infelizmente há muito tempo que não é posto em prática!” 97 IX.25. O Mestre disse: “Adoptem a lealdade e a confiança como princípios, não estimem aqueles que não merecem a vossa amizade, se cometerem algum erro não tenham medo de o emendar!” 98 XII.10. O Mestre disse: “A lealdade, a confiança e a procura da justiça são os caminhos da virtude.” 99 XIV.34. Alguém disse: “Retribuir o bem pelo mal, que tal?” O Mestre disse: “Que retribuir então pelo bem? Deve-se retribuir a justiça pelo mal e o bem pelo bem.” 100 VII.16. O Mestre disse: “Sem a justiça, as riquezas e as honrarias são apenas nuvens no céu.” 101 XIX.1. Zizhang disse: “É com espírito de sacrifício que o letrado encara o perigo e com espírito de justiça que olha para os seus interesses.” 102 II.24. O Mestre disse: “Não tomar as me93 94 95 96

子曰:“辭達而已矣。” 子曰:“性相近也,習相遠也。” 子曰:“唯上知與下愚不移。” 子曰:“吾未見好德如好色者也。”

97 子曰:“中庸之為德也,其至矣乎!民鮮久矣。” 98 子曰:“主忠信,毋友不如己者,過則勿憚改。” 99 子曰:“主忠信,徙義,崇德也。” 100 或曰:“以德報怨,何如?”子曰:“何以報德? 以直報怨,以德報德。” 101 子曰:“不義而富且貴,於我如浮雲。” 102 子張曰:“士見危致命,見得思義。”

didas que sabemos serem justas é uma forma de cobardia.” 103 I.13. O Mestre You disse: “Pode-se confiar numa pessoa que se guia pela justiça.” 104 XII.11. O duque Jing de Qi perguntou a Confúcio como governar. Confúcio respondeu: “O monarca deve comportar-se como um monarca, o súbdito como um súbdito, o pai como um pai e o filho como um filho.” 105 III.26. O Mestre disse: “Governantes intolerantes, cerimónias sem dignidade, funerais sem mágoa, como poderia eu suportar isso?” 106 XV.40. O Mestre disse: “Sem princípios comuns, é impossível ter projectos em comum.” 107 VII.27. “O mestre pescava à linha, não usava redes; na caça, nunca alvejava uma ave num poiso.” 108 IX.22. O Mestre disse: “Há rebentos que não dão flores e flores que não dão frutos!” 109 III.16. O Mestre disse: “O mais importante no tiro ao arco não é atingir o alvo, pois a destreza dos archeiros difere muito. Era assim que pensavam os Antigos. ” 110 VI.17. O Mestre disse: “Alguém pode sair de um sítio sem saídas? Por que razão então andar fora do caminho?” 111 XV.29. O Mestre disse: “É o ser humano que engrandece o Tao e não o Tao que engrandece o ser humano.” 112 103 子曰:“見義不為,無勇也。” 104 有子曰:“信近於義,言可復也。” 105 齊景公問政於孔子。孔子對曰:“君君,臣臣,父 父,子子。” 106 子曰:“居上不寬,為禮不敬,臨喪不哀,吾何以觀 之哉?” 107 子曰:“道不同,不相為謀。” 108 “子釣而不綱,弋不射宿。” 109 子曰:“苗而不秀者有矣夫!秀而不實者有矣夫!” 110 子曰:“射不主皮,為力不同科,古之道也。” 111 子曰:“誰能出不由戶?何莫由斯道也?” 112 子曰:“人能弘道,非道弘人。”


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POLÍTICA COM ÉTICA. É POSSÍVEL? Adelto Gonçalves in Saberes Interdisciplinares

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E levarmos à letra uma asserção do poeta, tradutor, diplomata e pensador mexicano Octavio Paz (19141998), Prémio Nobel da Literatura de 1990, segundo a qual “política é poder e o poder é impuro”´, não há como discutir Ética e Política, pois uma palavra seria antagônica a outra. A partir dessa premissa, nenhum homem de bem poderia pensar em dar passos na política, pois essa prática equivaleria a entrar num lamaçal e manchar a sua honra. Mas, se todos os homens de bem se afastassem com a mão no nariz dos bastidores da política, com certeza, estaríamos condenados a ser governados pelos piores elementos da espécie. Não foi isso que mostrou o século XX e mostra este começo de século XXI? No entanto, sem cair no nihilismo, é possível discutir “Ética e Política no mundo contemporâneo”, como provam os ensaios, artigos e resenhas reunidos sob esse tema pela revista Estudos Filosóficos, do Departamento de Filosofia e Métodos (Dfime), da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), de Minas Gerais, em seu nº 6, de janeiro-junho de 2011. No estudo “Estado e Nação no pensamento de Ortega y Gasset”, por exemplo, José Maurício de Carvalho, professor titular da UFSJ e doutor em Filosofia pela Universidade Gama Filho, do Rio de Janeiro, procura examinar o significado do pensamento do filósofo espanhol exposto a uma época em que a Espanha vivia numa encruzilhada que a tornava condenada a viver o terror da direita ou o terror da esquerda. Para Ortega y Gasset (1883-1955), se o Estado espanhol daqueles anos 30 precisava passar por uma reforma, essa não podia nascer de revoluções violentas, como aquela que ocorrera na Rússia em 1917 ou se gerava na Alemanha de então a partir do ovo da serpente hitlerista. No pensamento do filósofo espanhol, o resultado das revoluções é a revolta e ela não provoca transformações profundas no tecido social, isto é, não compromete os cidadãos com as modificações na sociedade, lembra Carvalho, citando “Puntos esenciales” (1931), trabalho de Ortega y Gasset. “As mudanças importantes na vida social necessitam do consentimento e da adesão livre do cidadão”, dizia o filósofo espanhol. Em outras palavras, as revoluções pouco favorecem a reorga-

nização social, “pois transformações só são consistentes em política quando chegam sem o uso da força e convencem pessoas”. No ensaio “Em diálogo com as filosofias políticas de Hannah Arendt e Leo Strauss”, os professores Emília Agnes Assis de Lima, da Faculdade Cenecista de Sete Lagoas-MG, mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Fábio Abreu dos Passos, do Instituto Presidente Tancredo de Almeida Neves (IPTAN), de São João del-Rei-MG, doutor em Filosofia pela UFMG, analisam as influências que Hannah Arendt e Leo Strauss sofreram da época em que se formaram - ou seja, a experiência política da República de Weimar (1919-1933), seu fracasso e a ascensão do nazismo - bem como as respectivas voltas que empreenderam em pensamento à Grécia antiga. Os autores lembram que contra a ideia do senso comum de que a política é uma teia de velhacaria, tecida a partir de interesses próprios e mesquinhos, e que a política é apenas um meio para a conservação e fomento da vida em sociedade, conforme o pensamento de Hannah Arendt (1906-1975), há o paradigma da polis grega segundo o qual a política é erigida com o intuito de preservar a memória dos factos e palavras daqueles que se aventuravam a entrar o espaço público, paradigma que, de certa forma, aproxima as filosofias de Hannah Arent e Leo Strauss (1899-1973). Como se sabe, a polis grega era um espaço no qual cada indivíduo podia manifestar aos demais ouvintes como o mundo aparecia para ele, ou seja, podia colocar o seu ponto de vista, que podia entrar em conflito ou em concordância com os demais, sem, contudo, anular-se ou submeter-se. Para Arendt, a pluralidade de opiniões era a “lei da terra”. Sem esse espaço público, não haveria possibilidade de vida saudável. A partir daí, os autores concluem que Arendt e Strauss radicalmente desaprovam os fundamentos da democracia moderna e que, ambos, cada um a seu modo, fazem da antiguidade grega e de sua experiência política no âmago da polis um referencial para se pensar os “tempos sombrios” e para apontar os verdadeiros fundamentos da “dignidade política”. Ao mesmo tempo, os dois filósofos percebem na modernidade uma manipulação e uma sujeição da opinião à construção de ideologias, “pois se a opinião pública

é manipulada, não há filosofia política, pois é dela que nasce a filosofia política”. Ou seja, é pela opinião que se manifesta como o mundo aparece para cada um. Já no ensaio “Espaço público, política e ação comunicativa a partir da concepção habermasiana”, os professores Luiz Ademir de Oliveira, da UFSJ, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), e Adélia Barroso Fernandes, do Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH), doutoranda em Linguistíca pela UFMG, discutem o pensamento do filósofo Jürgen Habermas (1929), especialmente a sua teoria da acção comunicativa, de 1981, que representa uma ruptura com o pensamento da Escola de Frankfurt, da qual o pensador alemão era considerado um dos herdeiros. Os professores lembram que, para Habermas, a decadência da esfera pública está associada à consolidação do capitalismo e à emergência de grandes conglomerados de comunicação de massa. Foi a partir da hegemonia da burguesia que o capitalismo passou, sob o domínio das grandes empresas, a forçar o Estado a intervir no sector privado, a favor da economia de mercado. De fato, há poucos anos, não havia dia em que os editoriais de grandes jornais brasileiros não defendessem um Estado cada vez menos intervencionista, deixando que as forças do mercado agissem livremente. Hoje, já não é assim. Cada vez mais o mercado livre tem sido substituído por mercados oligopolizados, com a ampliação das diferenças sociais entre proprietários e assalariados. Até mesmo a privatização que sempre foi considerada uma panaceia contra o inchaço do Estado, hoje, na verdade, representa mais a tomada de bens públicos por pequenos grupos privados, tal como aconteceu na Rússia pós-soviética, ou seja, a usurpação de bens públicos para atender a interesses privados. De qualquer modo, essa prática não deixa de ser vista como dos males o menor, já que o contrário é a apropriação de empresas públicas por partidos políticos ou por lideranças oriundas do movimento sindical, com o loteamento de cargos por pessoas desqualificadas, de baixa escolaridade, que se enquistam nessas organizações só para promover a corrupção em benefício próprio e de seus mentores, na maioria políticos profissionais. Isso só poderá ser superado quando deixarem de exis-

tir os chamados “cargos de confiança” e suas funções passarem a ser desempenhadas por profissionais aprovados em concurso públicos acima de quaisquer suspeitas. Com a privatização, o que se constata é que, negociada a empresa pública com grupos privados, a partir desse processo, a corrupção desaparece, ainda que a transferência sempre deixe um rastro de suspeitas quanto a possíveis comissões gordas depositadas em paraísos fiscais ou na Suíça. De qualquer modo, o consolo que fica para o cidadão de bem é que essa será sempre a última vez que se vai ouvir falar de corrupção com dinheiro público ao menos naquela empresa. A partir daí, o problema, se corrupção houver, passará a ser assunto exclusivo dos novos proprietários, ou seja, de grupos privados. Diante disso, como bem observam os autores do ensaio, com base no pensamento de Habermas, surge o conceito de sociedade civil como saída para a reconstrução da solidariedade entre os grupos sociais. Composta por movimentos e organizações livres não-estatais e não-econômicas, a sociedade civil não quer o poder, mas tentar influenciar as instâncias do poder e a esfera pública geral, em favor dos menos favorecidos. Obviamente, toda organização humana é sempre susceptível à corrupção, como mostra o envolvimento das chamadas organizações não-governamentais (ONGs) com a corrupção do Estado, muitas delas criadas por políticos astutos apenas com o intuito de promover o desvio de recursos previstos em orçamentos públicos. Seja como for, como dizem os autores do ensaio, os argumentos teóricos e conceituais de Habermas permitem mais bem compreender “as novas configurações sociais e os embates travados entre o mundo sistêmico e o mundo da vida”. Além destes três ensaios, o dossiê “Ética e Política no mundo contemporâneo” traz mais cinco estudos que analisam não só o crescimento da força do Estado nos últimos anos como a questão da ação política e da constituição da esfera pública, contribuindo para uma reflexão filosófica que procura compreender as relações humanas e os enigmas que costumam produzir. Por tudo isso, este número 6 da revista Estudos Filosóficos torna-se imperdível e deveria fazer parte de toda biblioteca universitária do mundo lusófono pública ou privada.


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O OLHO EGÍPCIO DOS BARCOS DOS PE

José Sales* CREIO QUE se justifica, de facto, a tese da origem egípcia para o «olho» das embarcações, embora nem sempre seja fácil traçar o percurso ao longo dos tempos de tal símbolo-signo. Ele existe, de facto, bem identificado, no seio da mitologia e da arte egípcia (junto algumas figuras). Segundo a mitologia, morto Osíris, o rei-deus do princípio dos tempos, o trono foi disputado pelo seu filho póstumo (gerado de forma miraculosa) Hórus e pelo seu irmão Set. Os dois rivais envolveram-se numa sangrenta e feroz disputa pela posse do trono do Egipto como herdeiros de Osíris. Esta disputa assume o dualismo característico da luta entre a luz e as trevas, o céu e a terra, o Bem e o Mal. Set, durante uma das lutas, arrancou um dos olhos do sobrinho (o olho esquerdo). Este, por sua vez, arrancou os testículos do tio. Inca-

paz de se reproduzir, não constituía, pois, uma solução válida para a transmissão do poder e o Conselho dos Deuses decidiu que seria Hórus a merecer suceder a seu pai. Dessa forma, o poder passou de Hórus para os futuros faraós terrestres, concebidos ideologicamente como

novos Hórus. No início da época histórica a identificação entre o faraó e Hórus era já total: o faraó era Hórus e vice-versa. Os soberanos terrestres seriam uma reencarnação do deus tutelar da monarquia. Hórus (Hor) era assim considerado no


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ESCADORES DA COSTA DA CAPARICA

Egipto antigo como o deus protector da monarquia faraónica, do Egipto unido sob um só faraó do Alto e do Baixo Egipto, e o oponente por excelência de Set. A oposição a Set parece derivar de reais antagonismos políticos pré-dinásticos em que Hórus seria a divindade tutelar do Baixo Egipto e Set a do Alto Egipto. A doutrina de Estado manteve e sustentou esta incarnação do Baixo Egipto por Hórus em oposição a Set, como incarnação do Alto Egipto. Hórus, era, portanto, o deus hieracomorfo do céu, representado, pois, como um falcão, personificando o próprio céu. Os seus olhos eram o Sol (olho direito) e a Lua (olho esquerdo). «Magoado» o olho esquerdo pelo tio, foi necessário que o deus Tot fizesse um olho substituto. Como o olho maltratado permaneceu intacto e são, é chamado udjat, que significa justamente íntegro, intacto, são, completo, saudável. Na arte egípcia, oudjat é um dos amuletos mais comuns, como símbolo apo-

tropaico que protegia contra o mau-olhado e contra perigos iminentes ou imaginários. O benfazejo e apotropaico olho restaurado udjat era um dos amuletos mais comuns no Egipto antigo. Ísis, a mãe de Hórus, era uma deusa que recebeu particular devoção na época helenística, em Alexandria, como divindade do mar e deidade dos marinheiros, tendo, nessa condição, conhecido uma considerável diáspora pelo mundo mediterrânico na época romana (tendo chegado até Roma e até à Península Ibérica). Não é de rejeitar que, além dos seus signos próprios (a sítula, o nó de vestuário, etc.), tivesse «trazido» também símbolos associados ao seu filho, neste caso o olho udjat. Verosimilmente, como signo de protecção e de segurança, pode ter sido associado aos marinheiros/ pescadores e à suas embarcações, conhecendo, naturalmente, alguma «evolução» formal, resultante dos «contributos» directos de determinadas comunidades ou práticas. Susceptível de constituir um campo de in-

vestigação futura sobre este problemática da transmissão da simbologia hórica de uma ponta do mundo (Mediterrâneo oriental/ Egipto) para outra (Mediterrâneo ocidental/ Atlântico) está o importantíssimo papel de «agentes culturais» desempenhado pelos Fenícios . Não foi seguramente apenas do ponto de vista económico que este viajantes oriundos da costa dos actuais países da Síria, Líbano e Israel marcaram a história do Mediterrâneo (recordemos apenas o alfabeto que legaram à civilização ocidental)… Por serem grandes navegadores e terem dominado vários pontos comerciais contactaram inevitavelmente com vários povos e várias civilizações, trazendo e levando, de forma consciente ou inconsciente, conceitos, ideias, artefactos, símbolos. A sua profunda ligação ao mar torna plausível que tenham sido particularmente sensíveis à diversa simbologia protectora daqueles que nele se aventuraram ou nele trabalhavam… *Egiptólogo, Pró-Reitor da Universidade Aberta


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Fábio Rossano Dário Pisa UMA ANTIGA lenda diz que o Gato foi criado em plena Arca, quando Noé, desesperado pela quantidade de Ratos que se proliferavam e devoravam todas as provisões, implorou que Deus o ajudasse. O Gato então, para a salvação de todas as espécies, teria sido criado do sopro de um Leão. Os primeiros representantes da família dos Gatos devem ter surgidos a cerca de dez milhões de anos, muito antes do aparecimento do homem na Terra. Os primeiros contactos sociais entre homens e Gatos selvagens provavelmente foram na época das cavernas, com alguns vestígios pré-históricos evidenciando o facto. Porém, o verdadeiro encontro dos Gatos com o homem começa há cerca de cinco mil anos, no antigo Egipto, nos tempos dos faraós, onde estes felinos eram adorados como divindades. A deusa egípcia Bastet, símbolo do amor materno, da ternura e da fecundidade, era retratada com corpo de mulher e cabeça de Gato. Acreditava-se que a bela deusa tinha o poder de fertilizar a terra e os homens, curar doenças e conduzir as almas dos mortos. Bastet também estava associada ao poder do Sol, e defendia Rá dos ataques de Apep, a Serpente contra quem o deus supremo lutava todas as noites, quando passava pelo reino da escuridão. Os Gatos foram os animais mais adorados no antigo Egipto. Uma célebre pintura da época retrata a mãe do faraó Akhnaton alimentando um Gato num banquete. Eram considerados os guardiões da noite, dos mortos, e dos mistérios da vida e da morte. Estes guardiões do outro mundo, quando morriam, eram mumificados e seus donos raspavam as sobrancelhas em sinal de luto. Quem matava ou simplesmente feria um Gato era condenado à morte. Se uma casa pegava fogo, os Gatos eram os primeiros a serem salvos. Na época de Ptolomeu, um membro da Embaixada de Roma ma-

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A HISTÓRIA DO GATO tou por acidente um Gato, e só foi salvo da morte por intervenção do faraó. Era proibida a saída do Gato do Egipto, mas alguns destes felinos devem ter sido levados para a Europa em embarcações comerciais fenícias, cerca de mil anos antes da Era Cristã. Os romanos, quando invadiram o Egipto, adoptaram o culto à deusa Bastet, e em Roma, os Gatos também passaram a ser perpetuados em estátuas, pinturas e mosaicos, pois representavam o maior símbolo de liberdade para os romanos. Neste período, o Gato foi associado à diversas divindades, como Diana, deusa da fecundidade, e a sensual Vénus, muitas vezes representada como uma Gata. Com a expansão do Império Romano, os

Católica a relacionar o Gato a Satanás. Os gnósticos, que atribuíam igual importância a Jesus, Buda e Zoroastro, já eram acusados pela Igreja, de adorar o demónio na figura de um Gato preto. Na China, estatuetas de Gatos eram usadas para expulsar maus espíritos, e havia dois tipos de Gatos, os bons e os maus, que eram facilmente diferenciados porque os maus tinham duas caudas. No Japão, quando um Gato morria, era enterrado no templo do seu dono, e no altar do mesmo era oferecido um Gato semelhante, pintado ou esculpido, para garantir ao dono tranquilidade e boa sorte durante sua vida. No Camboja, existe um ritual onde um Gato é levado a todas as aldeias, para que

O Gato também foi muito amado na religião islâmica, onde diversos contos o associam ao profeta Maomé, que teria sido salvo da morte por um Gato, que matou uma Serpente no momento que o atacava. A relação do Gato com o Islão seria uma das causas que levaria a Igreja Católica a relacionar o Gato a Satanás Gatos foram sendo introduzidos em toda a Europa, e durante muito tempo, aceites pelo homem como animais domésticos, pela habilidade em caçar Ratos. Na Grécia clássica, o Gato já era associado à feminilidade e ao amor, todos atributos de Afrodite, a deusa Vénus dos romanos. Na Babilónia não havia o culto aos felinos, mas uma lenda diz que o Gato nasceu do espirro de um Leão, o que coincide com uma antiga lenda hebraica. Na morte de Buda, enquanto todos os outros animais se reuniam para chorar, o Gato manteve os olhos secos enquanto devorava tranquilamente um Rato, mostrando total falta de respeito ao acontecimento solene. Apesar da lenda, o Gato é um dos animais mais venerado pelos budistas, pelo autodomínio e tendência à meditação. No hinduísmo, a deusa Shosti, que preside os nascimentos, é representada montada num Gato. O Gato também foi muito amado na religião islâmica, onde diversos contos o associam ao profeta Maomé, que teria sido salvo da morte por um Gato, que matou uma Serpente no momento que o atacava. A relação do Gato com o Islão seria uma das causas que levaria a Igreja

não falte chuva e a colheita de arroz seja boa. Na Tailândia, acreditava-se que as almas das pessoas muito evoluídas migravam para o corpo de um Gato, antes de subir aos céus. Na cultura celta, a deusa Cerridwen é relacionada com o culto do Gato. Na Finlândia, havia uma crença de um trenó puxado por Gatos, que levava as almas dos mortos. Os templos pagãos dos países nórdicos eram todos decorados com imagens de Gatos, e nas lendas nórdicas, Freya, deusa do amor e da cura, havia uma carruagem que era puxada por dois Gatos cinzas, que representavam as qualidades da deusa: fertilidade e ferocidade. Na América, antes da invasão dos europeus, alguns parentes dos Gatos, como o Jaguar e o Puma também eram venerados com associações aos deuses. Antes do extermínio destes povos americanos, heréticos, na concepção da Igreja Católica, o Jaguar era símbolo de grande força e sabedoria, e acreditava-se que os curandeiros mortos se transformassem neste belo animal. O comportamento independente do Gato, sua agilidade e beleza, são atributos que despertou no imaginário popular uma ligação com mistério e magia. Mes-

mo em culturas onde foram adorados como divindades, não escaparam à torturas e mortes, devido aos seus supostos poderes sobrenaturais. Durante séculos, foram emparedados vivos, para garantir a solidez das casas, igrejas e castelos, e enterrados no limiar destas para dar sorte. Foram enterrados debaixo das plantações, para a garantia de uma colheita abundante. Foram sepultados nas encruzilhadas dos caminhos, crucificados e encerrados em sacos junto à mulheres adúlteras, lançados do alto das muralhas, queimados nas fogueiras e envenenados. No século XI, os Gatos cumpririam um papel crucial na história da humanidade, ajudando os europeus a livrarem-se dos Ratos transmissores da peste bubónica. Os dois principais personagens da Idade Média não foram Carlos Magno e Kublai Khan, mas a pulga Xenopsylla cheopis e o Gato. As constantes mudanças climáticas no norte da Ásia obrigaram os mongóis a percorrerem grandes distâncias, e com eles, veicularam Ratos portadores da temível pulga da peste negra. Foram a seguir contaminados os mercadores de seda e os portos da Europa Mediterrânica. A epidemia, em poucos anos, atingiu todos os países europeus, dizimando quase um terço da população europeia. A França foi um dos países mais atingidos pela peste negra, tendo sua população reduzida, de 17 a 8 milhões de habitantes. Para enfrentar esta epidemia, os mais sá-


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bios procuraram a ajuda dos Gatos, os únicos capazes de combaterem os Ratos. Houve então, em toda a Europa, um grande empenho na criação de Gatos, e o papel destes felinos foi mais uma vez indispensável para a sobrevivência da humanidade (eles já haviam, quatro mil anos antes, contribuído para o desenvolvimento da civilização egípcia). Mesmo assim, a Igreja considerou os Gatos culpados pela proliferação da peste e de tantas mortes, ordenando a sua destruição na fogueira. A Igreja Católica foi a maior perseguidora dos Gatos, e na Idade Média, trava uma dura e longa cruzada contra os Gatos e seus adoradores. No ano 1232, o papa Gregório IX funda a Santa Inquisição, que atuou barbaramente durante seis séculos, torturando e executando, principalmente na fogueira, mais de um milhão de pessoas, essencialmente mulheres, homossexuais, hereges, judeus e muçulmanos, convertidos, médicos, cientistas e intelectuais, e também os Gatos, “ad majorem gloriam Dei”. O papa Gregório IX afirmava na bula Vox in Roma que o diabólico Gato preto, "cor do mal e da vergonha", havia caído das nuvens para a infelicidade dos homens. Para acabar com a resistência dos celtas ao catolicismo, a Igreja Católica pregava que os sacerdotes druidas eram bruxos. Como os druidas vivam isolados e cercados de muitos Gatos, a Igreja associava os Gatos às trevas, devido a seus hábitos nocturnos, e dizia que tinham parte com o demónio, principalmente os de cor preta. Milhares de pessoas foram obrigadas a confessar, sob tortura, que haviam venerado o demónio em forma de Gato preto, e depois, eram condenadas à morte. A mesma perseguição foi realizada no século XV, contra os povos germânicos do vale do Reno, adoradores da deusa Freya, uma divindade pagã, segundo a Igreja, que considerava o seu culto um acto de heresia, associando-o à adoração de maus espíritos. Imagens da deusa foram destruídas, mulheres que tinham Gatos foram torturadas e queimadas vivas. Os Gatos, que eram protegidos pela deusa Freya, foram acusados de serem demoníacos, capturados, enforcados, e jogados nas fogueiras da Santa Inquisição. A tradição mágica e outras habilidades naturais sobreviviam em alguns locais, durante a Idade Média, mas eram não oficiais e eficientemente perseguidas pela Igreja, cuja religião monoteísta tornar-se-ia um instrumento institucionalizado do Estado. A magia torna-se uma atividade suprimida simplesmente porque os sacerdotes da Igreja não eram adeptos a ela, e também não queriam correr o risco de que alguém pudesse sobrepujar suas habilidades limitadas. Desta forma, tudo o que a Igreja considerava não ideal, seria identificado na forma de várias imagens do Diabo. Nos séculos em que a Inquisição agiu na Europa e América, uma pessoa que fosse vista com um Gato, principalmente os de cor preta, estava sujeita a ser denunciada como bruxa e a sofrer tortura e morte, sem nenhum direito de defesa. Uma vez acusada de bruxaria, a pessoa podia

ser considerada responsável de qualquer desgraça natural, como perda de colheitas, acidentes, doenças e mortes. No imaginário medieval, o Gato preto tornava-se mais uma figura mística, fruto da ignorância, associado ao culto ao demónio. Em 1484, o papa Inocêncio VIII promulga uma bula contra os feiticeiros, acusando de heresia milhares de pessoas, um bom número das quais sendo culpadas apenas por possuírem um Gato. Por toda a Europa, milhares de pessoas inocentes foram torturadas em nome de Deus, por serem acusadas de feitiçaria e adoração à Satanás. E com elas, os seus Gatos. Este papa inquisidor incluiu o Gato na lista dos perseguidos pela inquisição, campanha assassina da Igreja contra supostas heresias e bruxarias. Nesta mesma época, Leonardo da Vinci escreveria: "chegará o dia em que um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade." Leonardo amava os Gatos, e considerava o menor dos felinos uma obra-prima. Em toda a Europa, o dia de Todos os Santos passava a ser comemorado, atirando-se para a fogueira, sacos cheios de Gatos vivos. Em Metz, na França, todos os anos, durante quatro séculos, no culto a São Vito, seriam queimados vivos 13 Gatos presos numa gaiola. Em Ypres, na França, centenas de Gatos eram atirados do alto de um campanário num festival religioso. Durante séculos, milhares de Gatos seriam sacrificados em rituais durante a Páscoa. Estas práticas, incitadas pela Igreja, acabaram por se estender a qualquer tipo de comemoração religiosa, como a noite de São João e de outros Santos, o que acabou por quase dizimar a população de Gatos no século XV, o que consequentemente, contribuiu para a multiplicação de Ratos, que transportavam a peste bubónica. Na coroação da rainha Elizabeth I, centenas de Gatos foram aprisionados e levados em procissão, representando o demónio sob o controlo da Igreja e, no final da procissão, formam todos queimados vivos. Na Inglaterra elizabeteana, era comum que Gatos fossem colocados em sacos de couro e usados como alvos para os arqueiros. Desta e de outras formas, o

Na coroação da rainha Elizabeth I, centenas de Gatos foram aprisionados e levados em procissão, representando o demónio sob o controlo da Igreja e, no final da procissão, formam todos queimados vivos homem descarregava nos animais, todos os seus complexos e crueldades. Com todo o cuidado para não ser queimado vivo como herege, o navegador genovês Cristovão Colombo tomara a precaução de embarcar nas suas três caravelas, Santa Maria, Pinta e Niña, dezenas de Gatos, os quais, ao longo de 35 dias de viagem transatlântica, travaram verdadeiras batalhas contra os Ratos, protegendo as provisões alimentícias e permitindo que os membros da tripulação desembarcassem vivos nas margens desconhecidas, em 12 de outubro de 1492. No século XVII, período conhecido como o da caça às bruxas, a Inquisição agiu fervorosamente em toda a Europa e América. Mulheres idosas e solitárias, que possuíam um Gato como companhia, eram acusadas de bruxaria, torturadas até que confessassem aquilo que a Igreja queria, e então eram condenadas à morte, queimadas vivas em público, e seus bens imediatamente roubados pela Igreja. O julgamento das bruxas de Salem, em Massachussetts, é um dos principais registos deste período negro da história dos Estados Unidos. Mesmo nestes tempos de tanto ódio, os Gatos foram amados em alguns países, como na Rússia, onde era comum serem

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encontrados em conventos e mosteiros. Com o tempo, a Igreja também foi sendo mais tolerante à presença do Gato e a perseguição aos felinos foi diminuindo. O cardeal Richelieu chegou a ter muitos Gatos, entre eles um angorá preto chamado Lúcifer. No século XVIII, são abolidas as leis sobre a feitiçaria. Neste período, Isaac Newton, para maior conforto dos seus Gatos, inventa a portinhola, que permitia que os Gatos entrassem e saíssem de casa quando bem entendessem. No século XIX são aprovadas na Inglaterra as primeiras leis anti-crueldades, e fundadas as primeiras organizações em defesa do Gato e de outros animais. Finalmente os Gatos passariam a receber cuidados especiais. Mendel não estudou apenas ervilhas, mas também os Gatos. O pai da genética ficou impressionado com a alta diversidade resultante dos cruzamentos e com certas permanências que lhe sugeriram a hipótese de dois factores, um recessivo e outro dominante. Ainda hoje os Gatos continuam a dar o seu contributo à ciência e à sobrevivência da espécie humana. Em 1961, milhares de Gatos foram transportados de avião para Bornéu, para acabarem com uma grande invasão de Ratos nos arrozais, e com o sucesso esperado, evitaram que milhares de pessoas daquela ilha morressem de fome. Lord Byron proclamou a superioridade do Gato em relação ao homem: Ele possui a beleza sem a vaidade, a força sem a insolência, a coragem sem a ferocidade, todas as virtudes do homem sem os vícios. Foram também exaltados por Victor Hugo, Charles Baudelaire, Mark Twain, Pablo Neruda, amados por Chopin, Liszt, Monet, Renoir, e outras importantes figuras da nossa história, pessoas de talento e sensibilidade. Os Gatos domésticos fazem parte da família Felidae, que é dividida em seis gêneros: Felis, dos Gatos, Jaguatirica e Suçuarana (Puma); Panthera, do Leão, Tigre e Onça pintada (Jaguar); Acinonyx, da Cheeta; Uncia, do Leopardo das neves; Lynx, dos Linces; e Neofelis. No total são 37 espécies de felinos, das quais oito ocorrem naturalmente no Brasil: o Gato do mato pequeno, o Gato do mato grande, o Gato maracajá, o Gato palheiro, o Gato mourisco (Jagurundi), a Jaguatirica, a Suçuarana, e a Onça pintada. O Gato, apesar de domesticado, ainda possui características em comum com os seus parentes selvagens, como a técnica de caça. Gracioso, sociável, higiénico, inteligente e independente, passam cerca de 50% da vida em sono leve, 15% em sono profundo, e a maior parte dos 35% restantes, caçando, namorando, brincando e principalmente limpando-se. Infelizmente ainda hoje os Gatos continuam a ser perseguidos, por pessoas que se julgam representantes de uma raça superior. Há condições para uma vida harmoniosa entre Gatos e humanos. Inúmeros factos da nossa história comprovam que estes felinos sempre estiveram do nosso lado, mesmo que só para conseguirem um simples afago.


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Ricardo Guerra Qual é a função do governo dentro de um sistema de saúde? Eu acredito que qualquer governo decente vê como sua responsabilidade a obrigação de oferecer um sistema de saúde para toda sua população. Em essência, o governo tem a responsabilidade de supervisionar o sistema de saúde. Eu sou a favor de um sistema de saúde sem fins lucrativos, providenciado e administrado pelo governo, que garante tratamento para todos. Eu proibiria o lucro dentro da medicina, pois acredito que este seja o cerne do problema. Então não haveria um sistema privado que concorresse lado a lado com o sistema governamental que você propõe? Marcia Angell: Não. Eu não acredito num sistema que tenha dois níveis. Eu acho que um dos pontos fortes do sistema canadiano é que todas as pessoas fazem parte daquele sistema. Mesmo com recursos financeiros, o sujeito não tem a opção de um outro sistema de saúde, ou seja, o paciente não encontra uma alternativa para a opção que o governo oferece no Canadá. Eu acredito que nos Estados Unidos todos devem fazer parte de um sistema único incluindo o presidente e os membros do Congresso. Dessa forma, você teria as pessoas mais poderosas certificando-se de que tal sistema fosse adequadamente financiado. Se você permitir que um sistema de saúde tenha dois níveis, o sistema público ficará inevitavelmente cada vez mais enfraquecido e menos financiado… Isso acontece porque pessoas com maior poder aquisitivo podem pagar para obter outro tipo de atendimento. Qual país tem um sistema de saúde ideal? Qual o país que tem um sistema que seja exemplo de todos os atributos que você almeja? Consideraria o Canadá um bom exemplo? Não é o Canadá. O Canadá tem alguns problemas, e as províncias têm muito controle e poder. O sistema não inclui certos serviços que deveria, como, por exemplo, a assistência em longo prazo e nem sempre cobre o custo dos medicamentos prescritos. Embora eu acredite que o sistema canadiano seja muito bom porque ninguém é excluído, ele não abrange tudo o que eu acredito que seja importante. Eu simpatizo com o sistema britânico como era há alguns anos atrás. Ao longo dos últimos anos, no entanto, tem enfraquecido. Mesmo assim, no Reino Unido se gasta um terço do que gastamos por pessoa nos EUA e eles têm uma maior expectativa de vida, menor taxa de mortalidade infantil e um sistema de saúde que é considerado significativamente superior ao nosso em todos os parâmetros. Na verdade, se você olhar para as taxas de mortalidade infantil e de expectativa de vida, nosso desempenho deixa a desejar quando comparado a outros países industrializados. Em termos da satisfação das pessoas, eu diria que os franceses são os que estão mais satisfeitos com o seu sistema de saúde. Você é da opinião que os médicos devem ter um salário fixo? Eu acredito que médicos deveriam ter um salário fixo. A influência do dinheiro deve ser removida da prática da medicina e ela pode ser vista de duas maneiras diferentes. Se você examinar algumas situações de atendimento médico, você pode se deparar com um cenário no qual quanto menos o médico oferece ao paciente, mais ele é pago. Ele é pago para fazer o menos possível. Por outro lado, existem outras situações nas quais ele é pago para fazer o máximo possível, ou seja, a quanto mais testes ou procedimentos ele submete o paciente, mais ele ganha. As duas situações são injustas. Numa delas, há um incentivo para oferecer o menos possível, e na

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Saúde

QUAL O MELHOR SISTEMA? A Dra. Marcia Angell foi editora-chefe do New England Journal of Medicine, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo. Actualmente, é professora no Departamento de Medicina Social da Harvard Medical School

outra, para fazer o máximo possível. O que eu gostaria de ver é que a boa medicina fosse definida pelo que um médico bem preparado faria se não houvesse nenhum interesse financeiro. A melhor maneira de fazer isso seria através de um salário tabelado, que iria obviamente variar de acordo com a especialidade. Tanto a especialidade médica (algumas requerem maior tempo de treinamento) como os anos de experiência seriam fatores que determinariam qual o salário a pagar. O ponto essencial é que o salário de um médico deve ser tabelado, sem bônus por fazer um procedimento em vez de outro. Qual é a principal razão para os medicamentos serem muito mais caros nos EUA do que nos países latinos ou até mesmo no Canadá? Muitos países têm alguma forma de controlo nos preços de medicamentos. Tanto o Canadá como o Reino Unido, por exemplo, têm. Nós não temos controle de preços nos EUA. Os medicamentos de marca (não genéricos) são duas vezes mais caros. Nos EUA, as empresas farmacêuticas recebem todo o tipo de favores e privilégios por parte do governo. Ironicamente, estas mesmas companhias afirmam ser adeptas e defensoras da iniciativa privada e do livre mercado. No entanto, tais empresas recebem isenções fiscais e vivem de pesquisas custeadas pelo National Institutes of Health (NIH), que é financiado com fundos públicos. Nos EUA as empresas farmacêuticas podem cobrar o que quiserem. Durante muitos anos elas têm usado a desculpa do elevado gasto financeiro relacionado com as pesquisas como razão para o preço de medicamentos ser tão altos, mas isso não passa de uma grande mentira. Na verdade, elas estão pouco envolvidas na pesquisa, e de fato, a maior parte de suas despesas são decorrentes de diversas manobras de marketing para atingir os consumidores de forma indiscriminada. Finalmente, o grande objectivo dessas companhias é maximizar o lucro a qualquer custo, ao ponto de serem considerados imorais e de serem até um exemplo grotesco de ganância incontrolável. Os Estados Unidos e a Nova Zelândia são os dois únicos países do mundo onde quaisquer medicamentos que requerem prescrições médicas são anunciados directamente aos con-

sumidores na televisão. Qual é a repercussão desse modelo para o paciente? As pessoas mais idosas quando assistem televisão são bombardeadas com propaganda de diversos medicamentos de alto custo para tratar todos os tipos de condições médicas como a disfunção eréctil, o colesterol alto, a azia e outros sintomas. Basicamente, é o paciente que tem a iniciativa de procurar o fármaco e de obter a prescrição de um médico na busca de um determinado medicamento. Na verdade, o oposto deveria acontecer. Os médicos, em geral, estão extremamente ocupados nos seus consultórios, não tendo o tempo disponível para submeter o paciente a um exame completo. Assim sendo, muitas vezes é mais fácil ceder ao pedido do paciente receitando o medicamento requerido. O que deve fazer um paciente quando ouve falar de um tratamento ou de um medicamento que é apresentado como uma cura para tudo? Marcia Angell: Eles devem estar sempre cientes de que os interesses comerciais são muito influentes dentro da medicina americana. Desta forma, acredito que os pacientes não devem tomar qualquer medicamento que esteja no mercado por menos de três anos, até que haja tempo suficiente para poder determinar quais são os problemas e os efeitos secundários que estes possam ter. É óbvio que há excepções a estes casos, em que o paciente não pode e nem deve esperar para tomar um medicamento. Evidentemente, numa situação de vida ou morte, como por exemplo, no caso de uma infecção que só pode ser tratada com um antibiótico novo, o paciente não deve esperar para tomar o fármaco. De modo geral, em relação à maioria dos medicamentos eu não tomaria nada que tenha entrado no mercado recentemente. Acredito que procederia da mesma forma no que diz respeito aos procedimentos médicos. Sempre que possível, sou a favor da cautela, ou seja, de aguardar por mais provas, pois, se algo parece ser bom de mais para ser verdade, é realmente bom demais para ser verdade. Eu tenho uma maneira muito conservadora de encarar a medicina. Quais são as especialidades médicas nas quais você vê maior abuso de procedimentos e tratamentos? Esse abuso o qual você se refere pode ser cons-

tatado em qualquer especialidade onde há uma utilização maciça de medicamentos e dispositivos médicos como, por exemplo, na cardiologia e na ortopedia. Existem outras áreas como a dermatologia, a endocrinologia e a pediatria, em que a utilização de dispositivos médicos não é tão prevalecente. As áreas que usam alta tecnologia são precisamente aquelas nas quais existem os maiores abusos. Que regras devem ser adotadas pelos editores de periódicos científicos para que suas publicações tenham maior credibilidade e transparência? Eu realmente acredito que os editores de periódicos científicos devem continuar com as políticas que o New England Journal of Medicine iniciou. Uma delas foi adoptada em 1984 e estipulava que todos os autores de pesquisas científicas originais tinham a obrigação de avisar os editores sobre quaisquer vínculos financeiros que tivessem com companhias que poderiam ser afetadas pelas conclusões da pesquisa. O nosso periódico foi o primeiro a adoptar essa política e, eventualmente, a maioria das outras publicações de renome na área seguiram o nosso exemplo. A outra política que instituímos em 1990 determinou que a divulgação (dos vínculos financeiros do autor) não era suficiente em alguns casos como, por exemplo, em artigos editoriais e de análise crítica. Por outras palavras, determinamos que pesquisadores que tinham a responsabilidade de escrever editoriais ou artigos de análise crítica para a nossa publicação que envolvessem um alto teor de objetividade e de averiguação dos fatos dentro da literatura, não poderiam ter vínculos financeiros com empresas que pudessem ser diretamente afetadas por tais matérias. Essa política continuou durante todo o meu tempo como editora-chefe, porém, tendo sido abandonada pelo meu sucessor. Por que o editor que lhe sucedeu não continuou com as mesmas regras? Ele deixou claro que encontrar pessoas sem conflitos de interesse para escrever artigos de revisão e editoriais se tornou muito difícil. Eu acredito que ele deveria se esforçar mais para encontrar essas pessoas mesmo que seja difícil. O leitor deve olhar com cepticismo para periódicos científicos que não têm regras de divulgação de conflitos de interesses? Claro que sim. Sem dúvida nenhuma. Eu acho que uma política transparente de divulgação seja um critério muito importante quando o leitor for determinar qual periódico científico ele vai dar sua atenção. Existem milhares de periódicos científicos e muitos deles são meras operações de transmissão de anúncios da indústria de medicamentos, de dispositivos médicos e para publicar artigos que são favoráveis aos diversos anunciantes. Existem fontes de informação isentas de interesses financeiros, nos EUA, a quem os consumidores ou os pacientes possam recorrer com o intuito de obter informações de forma objectiva e imparcial sobre questões relacionadas à medicina? Existem diversas fontes de informação sobre a saúde. Uma delas é o Public Citizen Health Research Group que é dirigido por um médico chamado Sidney Wolfe. Esta organização lançou um livro intitulado Worst Pills, Best Pills. Outra fonte importante é o trabalho desenvolvido pela publicação Consumer Reports, que faz uma avaliação de diversos medicamentos e de outros assuntos relacionados com a medicina e a saúde em geral. Resumindo, qual é o problema do sistema de saúde norte-americano? É um sistema baseado nas tendências do mercado, que distribui os cuidados de saúde de acordo com a capacidade de pagamento e não de acordo com as necessidades médicas.


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21 12 2012

C I D A D E S I N V I S Í V E I S

metrópolis

Tiago Quadros*

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A CASA PENÍNSULA O PARAÍSO nunca pertence ao mundo em que vivemos, existe sempre para além do mundo em que vivemos, mesmo que nele esteja incorporado. A Casa Península, construída em 2002 por Sean Godsell, em Vitória, na Austrália, é em certo sentido um fragmento do idílico. O termo “paraíso” tem a conotação de um lugar fora do contexto do mundo e evoca uma série de imagens diferentes. Derivada da palavra persa Pairi-daeza, originalmente significava um jardim sumptuoso murado, numa paisagem agreste, destinada a reis e outras pessoas escolhidas. Definia-se como lugar especial e a sua importância media-se através do estabelecimento de limites e normas de acesso restrito. No imaginário cristão o paraíso foi transformado em futuro, tendo sido pintado como o estado que melhor define o início da criação do homem e também o final da história da humanidade. Uma estrutura em aço oxidado, realizada em pórtico e com as dimensões de 30 metros por 7,2 metros, foi implantada ao lado de uma duna de areia. Esta estrutura forma o “exoesqueleto” da casa, na qual estão integrados todos os sistemas de sombreamento e controlo da luz solar. O programa simples da casa – uma sala de estar/biblioteca, uma sala de jantar, e um quarto, definem o “endoesqueleto” do edifício. O quarto é um espaço interior cujo acesso se faz por uma escada privada. As noções de espaço interior (moya) e varanda fechada (hisashi) tinham já sido exploradas por Sean Godsell num trabalho anterior (a casa Carter/Tucker) onde a ideia de fluidez espacial está na base do projecto de arquitectura. Enquanto que na Casa Carter/Tucker os três espaços primários foram tratados de forma igual em dimensão, volume, e qualidade de luz, na Casa Península os três espaços principais são distintos em dimensão, em volume e em qualidade de luz – a sala de estar é muito luminosa, o quarto é moderadamente luminoso e a biblioteca é, por comparação, um espaço escuro. A varanda tornou-se ainda mais ausente neste trabalho para se definir enquanto camada exterior de protecção do edifício. Nesse sentido, não há nenhuma distinção entre a função da cobertura e a função das paredes. A casa, ela própria, é a sala de jantar interior, protegida dos restantes elementos por uma pele exterior muito densa. A interacção do habitante entre estes dois elementos,

activa a forma simples do edifício (pela abertura e oclusão da fachada) transformando-o num corpo orgânico. Este efeito é ainda mais acentuado pelo esvaziamento e enchimento do edifício com luz, filtrada através dos prumos de madeira, que mapeiam o decurso do dia e da época do ano, com a forma e dimensão das sombras que projectam. Sean Godsell nasceu, em Melbourne, em 1960, tendo concluído a sua formação na Universidade de Melbourne, em 1984. Durante o ano de 1985 viajou no Japão e na Europa, tendo trabalhado em Londres, entre 1986 e 1988, no atelier de Sir Denys Lasdun. Em 1989 regressou a Melbourne para ingressar no Grupo Hassell. Em 1994, o arquitecto australiano formou a Godsell Associates Pty Ltd Architects. Em 1999 Sean Godsell concluiu o Master em Arquitectura pela Universidade de Melbourne, com a tese intitulada “A apropriação da habitação australiana contemporânea”. O seu trabalho foi publicado em revistas internacionais de arquitectura, incluindo a Architectural Review (UK), a Architectural Record (EUA), a Domus (Itália), a A + U (Japão), a Casabella (Itália), entre outras. Godsell leccionou nos Estados Unidos, no Reino Unido, na China, no Japão, em França e na Nova Zelândia, assim como em toda a Austrália. Sean Godsell foi um dos oradores principais do simpósio Alvar Aalto, na Finlândia, em Julho de 2006. Em Julho de 2003, recebeu uma menção do presidente do Instituto Americano de Arquitectos pelo seu trabalho para os sem abrigo. O seu protótipo Future Shack foi exibido, entre Maio e Outubro de 2004, no Instituto Smithsonian Cooper Hewitt Design Museum, em Nova Iorque. Sean Godsell foi distinguido com vários prémios, nacionais e internacionais. Em 2006, o arquitecto australiano recebeu o Victorian Premier’s Design Award e o RAIA. De acordo com Sean Godsell a Casa Península é uma investigação aprofundada sobre as semelhanças entre a varanda fechada da casa tradicional japonesa e “o sun room” da casa australiana. Na verdade, a importância do trabalho de Godsell reside na interpretação que o arquitecto australiano faz da natureza icónica desses mesmos elementos. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


21 12 2012

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地方财神

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

DEUS LOCAL DA RIQUEZA JÁ NOS debruçámos sobre dois deuses da Riqueza, (财神 Choi San), o Deus Civil da Riqueza, Bi Gan (Pei Kón) e o Deus Militar da Riqueza, Zhao Gongming (Chiu Kông Mêng). Mas em Macau aparece um deus local da Riqueza, sem aquelas histórias de heróis oficiais civis ou militares chineses, que serviram de representação aos dois anteriores deuses. São muitos os templos de Macau onde se pode encontrar uma figura dum rapaz trajando um burel com capuz, variando a cor entre o branco, que se encontra sempre na veste interior, tendo por vezes em cima outra veste em bege ou verde. Quase sempre a escultura parece ser feita de cartão, pelo seu ar tosco e porque nela nunca tocamos, não sabemos ser também de madeira, como noutras vezes aparece. Mas também as há em porcelana. Em algumas está representada com lágrimas vermelhas a correr pela face e noutras o seu aspecto é de um ser infeliz. Ao perguntar à senhora Kong, que toma conta do templo de Sin Fong, quem era aquela estranha figura, sem direito a um altar, nem mesmo a uma estátua digna de um deus, ela diz-nos chamar-se Tei Fong Tchoi San. É um deus local, mas não sabe a história dele, nem mesmo o nome da pessoa que se prestara a servir de divindade, após passar esta vida. Está ligado ao Deus da Riqueza, como indica parte do nome Choi San. Se neste templo, no Pátio Coelho do Amaral, o deus está logo à entrada, já no templo de Nuwa, encontra-se no segundo andar e como sempre, colocado no chão. Por cima da sua imagem, um papel vermelho com os caracteres Xiao Zai tan, altar que remove os desastres. Foi no I Leng Miu, na Rua da Figueira, onde o Deus local da Riqueza está colocado na parte de baixo do altar de Bao Sheng Da Di, que ouvimos a história da vida desta enigmática personagem. Proveniente de uma família abastada de agricultores, quando o pai morreu passou a ter a obrigação de cuidar da mãe. Como filho único, vivera com

as atenções viradas para si e eram-lhe sempre feitas todas as suas vontades, sobretudo pela mãe. Quando foi ele a ter que sustentar a mãe, a sua revolta de criança mimada, levou a começar a maltratá-la. Habituado a nada fazer, vagueava durante todo o dia e era a sua progenitora que trabalhava, no campo nas horas do dia e à noite, na lida da casa. Anos a fio decorreram e das insultuosas palavras, passou a bater e a maltratar a velhinha senhora. Estava um dia nas suas fúteis caminhadas, fazendo tempo para ir jantar a casa, quando foi contemplado com uma normal cena da vida animal: uma mãe a alimentar no ninho o recém-nascido pássaro. Mas esta “banal” acção despertou a sua consciência e percebendo todo o trabalho de amor de Mãe, resolveu mudar a sua atitude para com a sua. No caminho para casa, o jovem viu ao longe a mãe carregando lenha e um cesto. Chamando-a, correu para a ajudar, mas a triste idosa, pensando que, como de costume, o filho lhe vinha bater, fugiu. Tropeçando, caiu e batendo com a cabeça numa pedra, aí faleceu. Desesperado pela perda, logo quando se arrependera dos tratos que dera à sua mãe, junto a ela se quedou em grande pranto, maldizendo a sua desventura e pedindo-lhe desculpa pelas suas atitudes. Passou dias a chorar e as lágrimas de sofrimento eram já de sangue quando os deuses se apiedaram dele, pois regenerado, pela penitência tinha percebido o significado de amor filial (xiao), na China, a primeira virtude. Vestindo-se de branco com um burel (xiao fu) para o funeral da sua mãe, nunca mais o deixou de usar e por isso, assim está representado e devido a tal, é também chamado Ma Yi Hau Chi. As pessoas de Macau, conhecendo a história desta personagem, mas esquecidas do seu nome, colocaram no chão a sua entronizada figura em muitos dos templos da cidade e vêm-lhe pedir ajuda para resolver pequenos problemas ligados à felicidade e fortuna da família.


21 12 2012

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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Acção e inacção opõem-se, mas podem ambas ser usadas para preservar nações.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 28 Noutra altura, houve um homem chamado Duan Ganmu que desistiu da sua carreira e decidiu ficar em casa. O senhor de Wei visitou a sua cidade e prestou os seus respeitos formalmente ao povo da localidade. Quando o seu servo lhe perguntou porque o fazia, o senhor respondeu: “Porque Duan Ganmu vive aqui”. O servo disse: “Duan Ganmu é um homem irrelevante. Não será ir longe demais ao prestar respeito à sua cidade deste modo?” O senhor respondeu: “Duan Ganmu não busca poder ou lucro, mas leva a peito a via dos iluminados. Apesar de viver anonimamente e num bairro pobre, o seu bom nome é conhecido em toda a parte. Como poderia eu não honrar esta cidade?” E o senhor continuou: “Ele brilha de virtude; eu brilho de poder. Ele é eticamente rico; eu sou materialmente rico. O poder não é tão honrado como a virtude; as posses não são tão nobres quanto a ética. Mesmo que pudesse trocar de lugar comigo ele não o faria”. Posteriormente, quando o reino de Qin levantou um exército para atacar Wei, um dos pares de Qin opôs-se ao plano, dizendo: “Duan Gan mu é um homem sábio e o seu soberano o honra. Todos sabem disto, todos os senhores tal ouviram. Se levantarmos um exército para atacar Wei, não será isso eticamente condenável?” E assim, o rei de Qin desistiu do seu plano de atacar Wei. Mozi correu um milhar de milhas para garantir a sobrevivência [dos reinos] de Chu e Song; Duan Ganmu pacificou Qin e Wei sem sair de casa. Acção e inacção opõem-se, mas podem ambas ser usadas para preservar nações. A isto se chama atingir o mesmo objectivo por caminhos diferentes. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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