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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2656. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

HAPPY ENDING


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João Corvo QUANDO OS OCIDENTAIS pensam no Oriente e nos seus fascínios um dos aspectos que lhes perturba a imaginação prende-se com a arte das massagens, sejam elas terapêuticas ou, simplesmente, lúdicas. E com razão. De facto, os orientais desenvolveram ao longo dos milénios uma relação com o corpo muito distante da nossa visão, que o concebeu como espaço de pecado, portanto objecto de martírio e recalcamento. Tudo se passa de modo diverso a Oriente, ainda que o corpo não deixe de ser considerado perigoso. Só que, ao invés de uma atitude repressora e abolicionista, os orientais preocuparam-se, essencialmente, com a sua codificação. Daí que não existam os mesmos tabus, as mesmas restrições no acesso ao próprio corpo ou aos que estão mais próximos. Também é verdade que algo por nós encarado como erótico ou sexual possa ter um estatuto meramente medicinal ou higiénico. É normal, quase corriqueiro, para quem viajou pelo Oriente deparar em plena rua, nas praças, nas salas de chá, com pessoas que mutuamente se massajam com o simples objectivo de proporcionar algum alívio a uma eventual dor ou um decréscimo de tensão. Fazê-lo não contém em si mesmo uma componente erótica, exactamente porque não é entendido como algo de proibido e pecaminoso, sendo considerado normal e comum nos quotidianos. Com o decorrer dos séculos a medicina oriental, sobretudo chinesa, também a indiana, foi descobrindo a importância da manipulação do corpo quer no tratamento de doenças, quer na obtenção de um puro e simples relaxamento. Mas as coisas não se ficam por aqui.

MACAU

O que são e como acontecem as massagens em Macau

AS MÃOS OBSCURAS

Sabem os portugueses que por lá passaram o quanto é comum deparar com tabuletas que oferecem todo o tipo de massagens a potenciais clientes e sabem também quão variadas podem ser na sua forma e conteúdo. Sabem ainda que as massagens servem na maior parte dos casos de cobertura à prostituição. Tradicionalmente, as raparigas vinham da Tailândia. Mas nos anos noventa o mercado alargou-se e hoje deparamos com muitas chinesas de Xangai, russas, coreanas e vietnamitas. (As tailandesas, que na década de 90, chegaram a ser mais de dez mil, foram gradualmente desaparecendo, sendo hoje pouco mais que uma presença residual, praticamente inexistente. Relembro aqui esses tempos excepcionais em que a cidade se encontrava pejada dessas gentis apsaras, como se de um espaço mítico se tratasse. Dotada de uma maneira de ser que as distingue das suas confrades asiáticas, a tailandesa sempre demonstrou uma autonomia e uma generosidade


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difíceis de igualar. Davam um extraordinário brilho à cidade, secundadas pelos amáveis Katóis (travestis ou transexuais tailandeses), que aqui desempenhavam, em geral, a profissão de cabeleireiros, maquilhadores e confidentes.) Nas últimas décadas, raros são os hotéis que não proporcionam aos seus clientes um espaço de sauna, jacuzzi e de tratamento corporal, cujo culminar é a referida massagem. Sim, porque a principal fatia da prostituição é exercida em saunas. O que não quer dizer que os frequentadores não possam simplesmente pretender e conseguir obter uma simples massagem. Podem mas esta não é a regra. Para os proprietários dos espaços esta é a indesejada excepção. Quem de facto pretende uma massagem terapêutica utiliza normalmente outro tipo de sítio, do género consultório que também existem um pouco por toda a parte e onde são prestados serviços mesmo medicinais. Os oficiantes são verdadeiros massagistas, homens ou mulheres, cujo trabalho roça disciplinas como a reflexologia e a acupunctura. No vizinho território de Zhuhai existe, por exemplo, um consultório onde massagistas invisuais exercem, de forma exemplar, a sua milenar arte. É estranho mas salutar. Não é, no entanto, o género que este artigo pretende descrever, mas as outras, as que introduzem os utentes a um delicado mundo de luxúria quando não de depravação. Passemos a uma breve e tímida descrição. Nas saunas a massagem pode ser usufruída num espaço individual ou em quartos comuns a duas, três ou mais pessoas. De especial importância é também a sala de espera onde, esparramados em grande cadeirões, rodeados de um luxuoso kitsch asiático, já envoltos em roupões depois do banho e da sauna, os clientes aguardam pela sua vez de ocupar os pequenos quartos, sem outra decoração que não seja a marquesa, submergidos numa luz fraca e pontuados por música relaxante. Hoje são muito raros sítios destes onde não se verifique a prática da prostituição mas esta é claramente proposta ao cliente pelos assistentes e não se pode dizer que alguém vá ao engano. É o caso das “massagens”, proporcionadas por belas raparigas do Sudoeste Asiático (Vietname, Indonésia), de pele escura e olhos rasgados, cujo serviço se inicia por banhar o cliente, entrando nuas em largas tinas e proporcionando de imediato um contacto erótico cujo desfecho e pormenores depende, obviamente, do recheio das carteiras. Sob o disfarce das massagens, que neste caso não existem, pratica-se uma prostituição suave e elegante, ornada de sorrisos e vontade de agradar, a anos-luz do que encontramos pelas ruas das nossas cidades. Mas não devemos pensar que tudo é exactamente assim. As chamadas “massagens chinesas” revestem-se de um carácter diferente das suas congéneres tailandesas. Isto apesar de, conforme o sítio escolhido, podermos deparar com vários graus de conteúdo erótico e sensual.

Hoje são muito raros sítios destes onde não se verifique a prática da prostituição mas esta é claramente proposta ao cliente pelos assistentes e não se pode dizer que alguém vá ao engano.

Eis uma sumária descrição da típica “massagem chinesa” praticada nas saunas de Macau. Depois de tirar o roupão e usando uns simples calções, o cliente deita-se de barriga para baixo na marquesa. A massagista senta-se sobre ele iniciando a manipulação das costas e dos ombros, geralmente a zona do corpo mais sujeita à crispação. Aí se detém largos minutos explorando cada músculo, pressionando cada ponto, sobretudo os que descobre estarem mais tensos. Para quem o desejar existe também uma variante em que a massagista, apoiada em barras de ferro presas ao tecto, caminha descalça sobre as costas do cliente, pressionando com os dedos dos pés vários pontos nevrálgicos do seu lombo. Trata-se de um processo algo doloroso e talvez pouco recomendável devido, afinal, aos poucos co-

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nhecimentos científicos das executantes. Terminada esta fase, já de pé ao lado da marquesa, a massagista passa aos músculos das nádegas, descendo finalmente para as pernas. Este processo é lento e demorado, ocupando a maior parte do tempo estabelecido. O resultado é um enorme relaxamento que muitas vezes induz o sono. Aí é ordenado ao cliente que se volte. Já de barriga para cima, passa-se ao manuseamento de cada um dos músculos dos braços. Após o que entramos na parte mais ambígua da massagem. A massagista senta-se no fundo da marquesa, colocando as pernas do cliente à volta da sua cintura. Massaja então as pernas e as coxas, aproximando os dedos das virilhas e pressionando os tendões, perigosamente perto dos testículos. A


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seguir tudo depende. Pode simplesmente ficar-se por aí ou, se o cliente o desejar, retira-lhe os calções e massaja-lhe o sexo até ao orgasmo, proporcionando assim um relaxamento verdadeiramente total. Há quem dê a este final o nome inglês de “happy end”. Devemos acrescentar que em todo o processo é utilizado um vulgar óleo perfumado do tipo Johnson para bébé. Tudo termina com uma massagem facial, no sentido de aliviar a normal tensão acumulada nos músculos do rosto pela prática desta espécie de acto sexual. Nos dias de hoje o conteúdo comercial deste tipo de massagens ganhou uma dimensão bastante mais acentuada. Na verdade, enquanto espera o cliente é abordado por um assistente que lhe dá a escolher o tipo de massagem que pretende, sendo que parte delas são meros exercícios sexuais. Por exemplo: mil patacas por uma simples massagem como a que acabámos de descrever, mil e quinhentas se envolver sexo oral ou duas mil se pretender consumar realmente um acto sexual com penetração. Seja qual for a opção, a sessão dura mais ou menos 45 minutos.

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Por outro lado, a presença em Macau de prostitutas oriundas de vários países fez surgir designações algo ridículas, desprovidas de conteúdo real, que assinalam a nacionalidade da oficiante. É o caso de massagens ao “estilo Europa de Leste”, “estilo vietnamita”, “estilo coreano”, etc. No passado a escolha limitava-se ao “estilo tailandês”, claramente sexual, e ao “estilo chinês”, predominantemente relaxante e terapêu-tico. Aos clientes são distribuídos menus que explicitam o tipo de serviço e os respectivos preços.

Nota-se que hoje os donos das saunas exercem um controlo bem mais apertado do dinheiro gasto pelos clientes e das actividades que se desenrolam no interior dos quartos. Dantes era o utente que, consoante os favores concedidos, dava uma gorjeta de valor combinado com a própria massagista. Agora tudo é discutido a priori com o referido assistente e assim desapareceu a, digamos que “mais humana”, prática da gorjeta. Ou seja, a cousa está muito mais desumanizada.

A esmagadora maioria das raparigas que exercem esta profissão não são originárias do pequeno enclave. Sendo o lenocídio proibido pela letra da lei é caso para dizer que se trata de letra morta. É assim hoje e foi assim nos tempos da administração lusa. Elas obtêm os seus vistos de residência como mão-de-obra legalmente importada, em quase sempre para exercer a profissão de “massagista”.

Quanto a “humanidades” estamos conversados. Os números falam por si: a ex-colónia portuguesa alberga uma população de cerca de dez mil prostitutas, ou seja, isto significa que mais ou menos dois por cento dos residentes ganha a vida através da prestação de serviços sexuais, sem contar com os proxenetas-empresários que as exploram. Se o jogo é claramente o principal rendimento de território, o proxenetismo constitui igualmente uma importante fonte de rendimento. Até porque a prostituição é uma das principais atracções turísticas, sobretudo em relação à vizinha Hong Kong onde os preços são consideravelmente mais elevados. A esmagadora maioria das raparigas que exercem esta profissão não são originárias do pequeno enclave. Sendo o lenocídio proibido pela letra da lei é caso para dizer que se trata de letra morta. É assim hoje e foi assim nos tempos da administração portuguesa. As raparigas obtêm os seus vistos de residência como mão-de-obra legalmente importada, em quase todos os casos para exercer a profissão de “massagistas”. Sendo estrangeiras, para obter um visto de per-


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manência, precisam de ter um sponsor e um contrato de trabalho, que as coloca nas mãos dos seus empregadores. Estes costumam ficar-lhes com os passaportes e controlar as suas vidas com um detalhe que raia a indecência. Por exemplo, elas são obrigadas a comprar roupas em determinadas lojas, a arranjar os cabelos e maquilharem-se em certos cabeleireiros, a frequentar alguns bares nocturnos depois das horas de trabalho. E é claro que todos estes estabelecimentos pertencem ao grupo económico que as explora. Este negócio de tráfico e exploração de pessoas é extremamente rendoso e em Macau ganha um relevo especial devido à exígua dimensão do território e ao seu peso no sector do turismo. Inclusivamente, estes empresários chegaram ao ponto de ter ambições políticas. Em eleições para a Assembleia Legislativa a associação mais votada era dirigida por um senhor, “o tailandês”, conhecido por controlar negócios relacionados com casa de massagens e cabarés. Eleito deputado por uma margem confortável de votos, tal facto não o impediu de ser preso em Pequim por um delito relacionado com o tráfico de pessoas e não voltou a Macau. E todos sabem, embora ninguém esteja interessado em provar, que conseguiu a sua eleição através da compra de votos. Claro: o dinheiro dá para tudo. E as mulheres, perguntarão as leitoras, não têm espaços para massagens? Não existem sítios destinados ao sexo feminino? Existem, mas em muito menor número e onde, ao que se sabe, não são dispensados favores sexuais, até porque as massagens são praticadas por mulheres e não por viris homens ou esbeltos rapazes. No entanto, o processo é muito semelhante ao que acima descrevemos. Sem “happy end” ou assim se acredita. De igual modo, não existem em Macau, pelo menos de forma explícita como noutros sítios da Ásia (Tailândia e Singapura, pelo menos), saunas gays a funcionar abertamente. Sinceramente, depois de termos inquirido junto da comunidade gay local, ninguém nos soube identificar um destes espaços nesta cidade. Vá-se lá saber porquê...

Ça n’existe-pas à Macao...

E as mulheres, não têm espaços para massagens? Existem, mas em muito menor número e onde, ao que se sabe, não são dispensados favores sexuais, até porque as massagens são praticadas por mulheres e não por viris homens ou esbeltos rapazes. De igual modo, não existem em Macau saunas gays a funcionar abertamente.

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C H I N A C

呼和浩特 HOHOT, CAPITAL António Graça de Abreu Ao longe, para Norte, num vago de vapor roxo, esbatem-se, como suspensas no ar, as montanhas da Mongólia… Eça de Queirós, O Mandarim, cap. IV O NOME Mongólia soa algo estranho aos nossos ouvidos e entendimentos lusitanos. Para quem vive em Portugal, são as paragens do outro lado do mundo prenhes de todos os mistérios, razões mais do que ponderosas para as tentar conhecer. A China, com 9,6 milhões de quilómetros quadrados, o tamanho da Europa, para além das 22 províncias tem cinco regiões autónomas (Tibete, Xinjiang, Ningxia, Guangxi e Mongólia) que se caracterizam pela sua vasta dimensão, por serem todas terras de fronteira e pelo facto dos habitantes pertencerem em parte ou predominantemente às chamadas minorias nacionais, as etnias não chinesas espalhadas pelas regiões excêntricas do grande Império do Meio. É o caso da enorme Mongólia Interior chinesa, com 1,2 milhões de quilómetros quadrados habitada hoje por 19 milhões de chineses han, por apenas 5 milhões de mongóis e mais algumas centenas de milhares de cidadãos de outras etnias não significativas em termos de população. No passado, os mongóis foram maioritários nos seus territórios mas, ao longo dos últimos dois séculos, centenas de milhares de chineses deslocaram-se desde as superpovoadas regiões de origem para estes espaços vazios de gentes e quase inóspitos. Por aqui se multiplicaram. De resto, o mesmo tem acontecido com a deslocação e fixação mais recente de chineses no Tibete, o que já motivou sérias críticas, emocionadas e justas, por parte do actual Dalai Lama. Estamos nas regiões a sul da República da Mongólia que se estende desde o deserto de Gobi, a oeste, até às gélidas paragens siberianas do Extremo Oriente russo e do norte da Manchúria. Outrora existiu apenas uma Mongólia, não como um país unificado mas como uma espécie de protectorado da velha China. As dilatadas estepes eram aparentemente dominadas por escassas guarnições militares chinesas e sobretudo por diferentes chefes de tribos guerreiras mongóis que ora se combatiam, ora se aliavam entre si. Após a revolução russa de 1917, os soviéticos necessitaram de delimitar rigorosamente as fronteiras das terras siberianas e favoreceram a criação de uma República Popular da Mongólia, charneira

entre a Sibéria russa e a China. Na época, embora com um poder político instável e com guerras contínuas, os chineses integraram gradualmente dentro do seu país a região mongol mais a sul, absorveram a nova província que em 1947 denominaram Mongólia Interior, cuja capital, Huhot só foi estabelecida em 1952. Hoje, estas terras, se bem que maioritariamente desérticas, desempenham um papel fundamental na economia chinesa. Enormes minas e jazidas de carvão, algum petróleo, indústria ligeira e pesada, algodão e trigo fazem da Mongólia Interior um território autónomo auto suficiente. Quando os turistas visitam o troço da Grande Muralha em Badaling, a 80 quilómetros de Pequim, é frequente encontrar na auto-estrada que aí começa a subir os montes em direcção às terras do norte autênticas caravanas de camiões que engarrafam os caminhos. Basta identificar a matrícula, vão e vêm da Mongólia Interior, a resfolegar sob pesada carga. A oeste desta província, nas fronteiras já com as paragens extremas de Gansu, a quase dois mil quilómetros de Pequim, vamos encontrar o grande centro espacial de Jiuquan, onde os chineses lançam satélites e astronautas para o espaço. Os dois caracteres 酒泉 Jiuquan significam “nascentes do vinho” mas o que nasce e cresce aí são as torres para o lançamento dos foguetões e toda a imensa tecnologia que lhes está subjacente. Tal como em 1981, no Verão de 2011 viajei de avião de Pequim para Hohot. Nos anos oitenta do século passado voei num velho bimotor Antonov 24 russo, agora subi aos céus e desci à terra num Airbus 319 europeu, novinho em folha. Mudam-se os tempos, mudam-se os aviões na viagem rápida, 900 quilómetros entre Pequim e Hohot. Estava curioso em relação ao que iria encontrar na grande cidade sino-mongol trinta anos depois. Grandes mudanças, pois claro. Nos finais do século passado, Huhot era um burgo pacato, poucos automóveis e camionetas, bairros inteiros de casas térreas e pobres, já as grandes avenidas a retalhar o tecido da cidade. Agora, tudo cresceu e onde em 1981 encontrei a mesquita muçulmana vejo hoje a mesma mesquita mas rodeada por um grande bairro habitado pelos hui, a minoria étnica ligada ao Islão que aqui se fixou no reinado do imperador Qianlong, no século XVIII. Ao lado, há uma avenida com uns tantos edifícios com cúpulas verdes e douradas, e lojas com produtos para uso e consumo dos muçulmanos. Nas últimas décadas, também em terras da China, o Islão tem conhecido um constante crescimento.


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L DA MONGÓLIA INTERIOR CHINESA Huhot significa “cidade verde” na língua mongol e foi fundada há apenas quatrocentos anos no reinado do imperador Wang Li (1537-1620), num vasto planalto de terras férteis junto às montanhas Daqingshan, ou seja as “grandes montanhas azuis”. Até que ponto a cidade é chinesa, até que ponto é mongol? No Verão de 1981, em Hohot a minha guia local, depois companheira na viagem e estadia pelas estepes mongóis, tinha vinte e três anos, era chinesa han, delicada, perfumada, bonita, um sorriso aberto a inebriar os espaços entre ela e mim. Chamava-se Feng Xiaochun, o que significa “Pequena Primavera” ou, se quiserem, “Primavera Breve”. Xiaochun disse-me então que as pessoas em Huhot eram sobretudo chinesas, com muitos mongóis pelo meio. Assim será. Seus pais haviam migrado desde a província de Sichuan, lá no sul, para estas terras e ela já nascera e crescera aqui. Da grande China, para além das terras da Mongólia Interior, nada conhecia. Eu tinha trinta e quatro anos e, com tanta maravilha e formosura a meu lado, apeteceu-me meter a Xiachun debaixo do braço e levá-la comigo para dar a volta ao mundo. Mas as descobertas homem estrangeiro/mulher chinesa, na China de então, eram recatadas, aparentemente singelas e castas, quase proibidas. Recordo a despedida na estação de comboios de Huhot, no meu regresso a Pequim. Um beijo rechonchudo na face de seda da Xiaochun, a mulher a ruborizar de embaraço e prazer, eu, num sentido e triste adeus, para sempre. Em 2011, os arranha-céus de Huhot sombreiam um horizonte urbano desinteressante, semelhante ao de quase todas as grandes cidades da China. Onde está a Mongólia? Talvez a encontremos um pouco nas ruas antigas restauradas nestes últimos vinte anos, talvez sobressaia em alguns quarteirões da cidade com torreões recentes a imitar o estilo das construções das estepes. E dá ainda para encontrar uns restos da religiosidade mongol que, por influência tibetana, absorveu o budismo lamaísta e continua a manifestar-se nos velhos templos de Zhaocheng ou de Dazhao, recentemente refeitos e restaurados. Aí, em curiosa arquitectura sino-mongol-tibetana encontramos pavilhões luminosos de serenidade e cor, estelas de pedra gravadas nas línguas mongol, manchu e chinesa, e budas da longevidade, da saúde, da riqueza, do poder. Por terras da Mongólia, em mais uma estadia breve, uma reverência aos budas do passado, do presente e do futuro.


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

O NEGRONI Tinha decidido não falar disto. Mas de súbito correu um desejo avassalador do travo que o Campari lança nesta bebida muito pouco praticada em Macau. Contudo, parece-me própria a climas quentes, vá-se lá saber porquê. A sua densidade resulta da luta que se trava dentro do copo. O Campari parece chegar após o vermute e indignar-se com a sua doçura. Uma espécie de irmão mais velho, amargo e infinitamente mais sisudo. A bebida mais adulta deste cocktail, o gin, um pai severo mas amantíssimo, parece consentir na discussão que se mantém entre as duas outras partes e, ao mesmo tempo, sentir-se na obrigação de manter uma certa seriedade nesta discussão. E, no entanto, esta perversa conversa acaba por exibir uma disposição alegre. No fim, uma impertinência impensável, uma arrogante rodela de laranja. São 17 horas de uma tarde de Verão e é aqui que começa uma peça de jornalismo de investigação. O objectivo: identificar os lugares onde um Negroni é servido com a dignidade própria. O material de campo é simples: um cartão de crédito, uma disposição para experimentar, um papelinho com a morada de casa escrita em chinês e um par de Church’s castanhos feitos ao pé. O primeiro laboratório é o bar de Macau onde melhor se pratica a arte do convívio: o bar do Hotel Star World. Essencial é perceber a reacção do barman, por isso é ao balcão que se deve experimentar. A reacção é óptima: surpresa e agrado. O cocktail é facílimo de fazer mas quem é que em Macau pede um Negroni? Gin, Campari, um vermute doce em partes iguais

(hoje em dia, há quem use 2 partes de gin), uma rodela de laranja. O copo é apropriado, um old-fashioned, não detecto qualquer erro - este é um belíssimo negroni. Terá o assassinato de Pasolini sido político? O ritmo desta experiência leva-me imediatamente a lembrar um filme de Robert Wise - A Ameaça de Andrómeda. Andrómeda é o nome que é escolhido para o micróbio que é o centro deste filme de ficção científica americano dos inícios dos anos 70. O micróbio, fatal, de origem extraterrestre, causa uma rapidíssima coagulação e granulação do sangue. Talvez pela meticulosidade observada pelo grupo de cientistas no combate a Andrómeda ele me venha à memória. Ou talvez porque eu sei que se um Negroni não apresenta os perigos de Andrómeda, 7 Negronis reclamarão decerto alguma devastação. Não confundir com o filme de Yevgeny Sherstobitov. Escandalizar é um direito, ser escandalizado é um prazer e a recusa de ser escandalizado é uma atitude moralista (em entrevista a Pasolini, P.P.). Entro no bar do Hotel Mandarim por cima, são cerca de 20 metros até ao balcão. Lembro exactamente o ciclo de cinema de ficção científica que a Cinemateca Portuguesa organizou nos anos 80 e que teve algumas sessões, gloriosas, no Grande Auditório da Gulbenkian. Nele se misturaram, como um gin, um vermute doce e Campari, intelectuais do cinema (alguns sem barba), jovens de borbulhas amantes da sci-fi e outros terráqueos aparentemente mais banais. A capa do catálogo,

que deve estar mais do que esgotado, tinha uma apropriadíssima gravura de Max Ernst. Li recentemente num jornal português um artigo de Manuel Halpern em que este dizia algo com que é difícil não concordar: fomos enganados pela ficção científica. O mundo não é como Espaço 1999 ou 2001, Odisseia no Espaço nos prometeram. Já estamos em 2012 e ainda há quem ande de autocarro. O Negroni do Mandarim, como era de esperar, é feito por especialistas e não há nada a apontar a não ser a falta da rodela de laranja. Mesmo que o mundo não seja como nos prometeram, as colunas faraónicas que decoram o bar do Hotel Mandarim fazem-me lembrar, não sei porquê, Dune, de David Lynch ou colunas de tele-transporte. Pasolini avisou que o que o fascismo não tinha conseguido, a sociedade de consumo estava a conseguir fazê-lo. Ruusujen aika é um fime de ficção científica finlandês dos finais dos anos 60. Este sim, não engana ninguém e o filme passa-se em 2012. Tem mulheres nuas. Só prova que os finlandeses são um povo sensato e preparado para o futuro. Já estou naquele que pode ser o melhor bar de Macau no que respeita à proficiência dos barmen, o Macallan, e tenho a certeza de que o Negroni aqui é de qualidade. Razões várias, entre as quais uma inabalável vontade de manter o rigor científico, impedem-me de dizer que este é o melhor Negroni da cidade mas sei que apenas neste bar felicitei directamente um empregado que me fizera, noutra visita, misturas de grande valor. - Hal, podes fazer-me outro Negroni ? -I am sorry Dave, I’m afraid I can’t do that.


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À S U P E R F Í C I E

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CRÓNICA DO CHINÊS António Lobo Antunes AGORA ANDO a fazer exercício e dieta, apetece-me ficar bonito. Três vezes por semana um amigo meu, chamado José Francisco, leva-me para junto ao rio, em Belém, onde procedo a manobras físicas complexas, tais como andar. Ando quilómetros e quilómetros, quer dizer, talvez seja exagero, ando até me doerem muito as pernas e é um pau, a barriga diminui a olhos vistos, não tarda nada eis um Apolo Musageta ou, no mínimo, a Madona da Caldeirinha. Pelo menos vejo os pescadores, às vezes converso com eles, faço perguntas, examino os peixes que continuam a agitar-se cá fora, interminavelmente. O meu favorito é um chinês, sempre a rir, nunca conheci ninguém tão contente, que nem isco usa, atira aquilo, faz um movimento em u, levanta aquilo e aparece um peixe na ponta do anzol, preso pela barriga, pela cauda, por uma guelra, pelo que calha, aos saltos, que ele poisa na pedra, ainda a rir mais para nós. A uns vinte metros o patrão, gordo, plácido, velho, sentado num banco, vai orientando o chinês em gestozinhos mansos, de longe em longe levanta-se para corrigir pormenores, muda o anzol, regressa ao banco numa lentidão tranquila, olha os barcos, a água, não deixando de espiar o chinês, desabotoa a camisa para coçar os pêlos do peito, escarafuncha a orelha com a unha do mindinho, avalia os resultados, limpa-os na calça, torna a avaliar os resultados, recomeça a limpeza, não sorri para nós ao contrário do chinês, cuja alegria, não entendo porquê, aumenta até ao êxtase, a felicidade do chinês torna-me invejoso, raios partam aquele júbilo e, no entanto, quando não encontro o chinês murcho um bocadinho, o chinês que dança neste pé, dança naquele, se volta para nós com os cromados todos ao léu, de cara dividida ao meio pelo tamanho da boca, ele e o patrão pobres, roupas muito velhas, sapatos de defunto que caminharam milhas, camisolas sobrepostas, desbotadas, no fio, um certo cheiro a pouca água, um certo cheiro a alho ou então é o Tejo com problemas de hálito, os cabelos deles mais poeira que cabelo, na relva atrás de nós um par de namorados em beijos sedentos, mastigando-se as línguas, beijos sedentos é horrível, em beijos tipo

desentupidor de retretes, bocas que emitem um - Plop de borracha ao afastarem-se, penso que vêm os intestinos atrás do - Plop mas lá se aguentam, felizmente, imagino um desentupidor na minha boca e eu a sair todo de mim, estômago, pâncreas, ideias, a namorada senta-se na relva para atender o telefone e enquanto conversa introduz os dedos no nariz do homem, manobra que ambos acham excitantíssima e se calhar é, quando o fazia em pequeno levava uma palmada imediata no pulso, a minha mãe, decerto conhecedora daquela manobra afrodisíaca, tentava castrar-me - Que porcaria e por isso fiquei esta coisa mole, sem vivacidade nem encanto, um chocho desinteressante, um maçador, tenho o aperto de mão desprovido de energia, duas esponjazinhas de cuspo nos cantos dos lábios ao falar, a ponta da língua emergindo a cada duas palavras, a expressão parada, os olhos vazios - Repare em mim, senhora

e a alegria do pescador chinês permanece, não fala, diz sílabas que não entendo, guturais, faz acenos estranhos, estica-se, dobra-se torce-se a explicar-me o mundo e o mundo que me explica não o conheço, vim aqui para fazer exercício não para entrar em universos diferentes - Adeus chinês e o chinês a aproximar-se de mim escorregando nos limos, mais pescadores a cinquenta metros, cem metros, todos tão pobres quanto este, pescam para comer que tudo tão caro e o dinheiro não chega, um peixinho cru no pão, isso vi, mais algum peixinho para a patroa que trabalha a dias e não a querem agora, para os filhos a arrumarem os automóveis nos parques, pedindo moedas, cigarros - Um cigarrinho amigo de vez em quando uns roubos por esticão a velhotas, de vez em quando um canivetezito num pescoço de turista - Money money uns tempitos na cadeia, uns tempitos cá fora, uma criança feita a uma agarrada que durante a gravidez continuava a injectar-se e temos de andar, Zé Francisco, tenho de perder a barriga, apetece-me

ser elegante, bonito, Apolo Musageta ou Madona da Caldeirinha, tanto faz, mas bonito, andar até me doerem muito as pernas, não poder com as pernas, fale-me do seu pai, gosto de quando me fala do seu pai e do amor que lhe tinha, se sonhasse como o invejo, se soubesse da minha vida comigo, a sua mão no meu ombro - António a sua mão nas minhas costas - Amigo a profundeza da sua amizade e eu - Obrigado eu do coração do coração - Obrigado e o chinês continuando a rir-se, afectuoso, aos pulinhos, feliz sei lá com quê, feliz sei lá porquê, passa por nós um barco de oito remadores a treinarem, ouve-se o treinador, num barco ao lado, a dar ordens por um megafone - O número três blá blá blá - O número cinco blá blá o rio cheio de peixes sujos quase à tona, um cargueiro a subir a barra, cheiros confusos na água, um senhor muito gordo a ler o jornal numa esplanada, os namorados, sem ventosas, estendidos lado a lado, não me dói nada agora, rio para o chinês, daqui a nada, sem que me aperceba, estamos a falar a mesma língua, vontade de contar-lhe que na segunda-feira fui ao dentista e, como sempre que me sento naquela cadeira, os meus pés não paravam, sou um peixe, vou morder o isco da broca, vou acabar no pão de um pescador que me come, acabar na goela do chinês - Mastigue-me com cuidado, senhor no dentista falei ao telefone com o senhor Bastos, guarda-redes do Benfica de quando eu era pequeno e fiquei feliz por conhecê-lo, tinha a fotografia da equipa inteira na parede do quarto, a alegria que me deu ele dizer que, do sítio onde morava, me via brincar com os meus irmãos no quintal dos meus pais, obrigado senhor Bastos, obrigado por me ter visto brincar, obrigado por se lembrar de mim, ganhei o dia, sabe, palavra de honra que ganhei o dia, explicar ao chinês - Ganhei o dia, senhor chinês e, palavra de honra, por momentos quase tive a certeza, qual por momentos quase tive a certeza, tive a certeza, por momentos tive a certeza, o que são as coisas, que o chinês ia largar a cana de pesca, e os peixes, e o rio, e abraçar-me.


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

ZHAO GONGMING, O DEUS MILITAR DA RIQUEZA 财神 Choi San, o Deus da Riqueza como é conhecido em Macau, serve para referir tanto o Deus Civil da Riqueza, como o Deus Militar da Riqueza. Após a história do oficial civil Bi Gan (em cantonense Pei Kón), o Deus do Sol da Riqueza, seguimos a narração com a do oficial militar Zhao Gongming (Chiu Kông Mêng), o Deus da Lua da Riqueza. O significado de riqueza, no actual conceito criado pelo individual comerciante, após tempos soberanos que a representavam como um todo colectivo, Universo (Império, Nação, Povo), sofreu uma redução no espaço dos significados pela pontualidade com que passou a estar definida. Numa subversão desse espaço do saber de Espírito, apenas se guia pelo Eu que vê, a materialidade bidimensional da memória com que nos fazemos. Perdida a essência, é o dinheiro a única e última coisa em que acreditamos da riqueza, sendo no ter, que se faz agora a diferença. Logo, se a Riqueza começou pelo Verbo Estar, passando depois para o Ser, agora faz-se no Ter e só por aí, no que resta do espírito que forma toda a matéria, associamos o divino à materialidade com que recriamos a Natureza. Remarcando os tempos, o Tauismo criou dois tipos de deus da Riqueza, o civil e o militar. Em Macau, se o Deus Civil da Riqueza também conhecido pelo Deus do Sol da Riqueza é Pei Kón (Bi Gan), um lendário oficial da Dinastia Shang (de quem falamos no artigo anterior), já o Deus Militar da Riqueza, conhecido pelo Deus da Lua da Riqueza, é representado por Chiu Kông Mêng (Zhao Gongming) e raras vezes por Kwán Yü. Todos os anos, nas celebrações do Ano Novo Chinês, as famílias dão as boas vindas ao Deus da Riqueza oferecendo-lhe sacrifícios antes de irem sentar-se à mesa para comer rissóis cozidos a vapor, conhecidos por jiaozi, cuja forma de lingotes representa e simboliza a fortuna dada pelo Deus. Faz-se a Bi Gan o pedido para que este propicie riqueza e a Zhao Gongming para preservar a que já se tem, ou em busca de ajuda para a resolução de um negócio difícil, ou ter sorte ao jogo. Mas quem era Zhao Gongming? Segundo alguns estudiosos era o espírito de um dos 9 Sois que foram

trespassados pelo arqueiro Hou Yi a mando de Yao Di. Se dos 10 Sois apenas um se salvou de ser morto para deixar continuar a vida na Terra, só um dos que padeceram não caiu na montanha Qingcheng, em Sichuan, que os transfigurou em fantasmas. Esse Sol que se extinguiu, mas teve acesso à existência pelo seu qi e deu a personagem Zhao Gongming, protegeu Zhang Dao Ling, ajudando o fundador do Tauismo religioso a preparar os comprimidos da imortalidade, prestando-lhe guarda durante todo o tempo do processo alquímico. Outra história, esta baseada no Romance dos Deuses Canonizados (Feng Shen Yan Yi) escrito na dinastia Ming por Xu Zhonglin, refere Zhao Gongming, cujo nome era Zhao Lang, natural de Zhongnan, hoje província de Shaanxi. Tinha-se recolhido nas montanhas Emei praticando o Tao, quando o imperador Zhou da dinastia Shang lhe pede ajuda para derrotar o invencível estratega Jiang Ziya (Jiang Shang mais tarde, o deus Jiang Taigong), que ajudava o reino Zhou a combater a tirania dos Shang. Zhao Gongming venceu com um golpe de chicote de ferro Jiang Ziya, que ressuscitou com a ajuda dos deuses e só após usar a magia do Wu Shu conseguiu (no fim dessa história do livro) matar Zhao Gongming. Na dinastia Zhou, o Imperador de Jade apontou Jiang Ziya como Jiang Taigong, o deus que atribuía títulos aos seres que durante a sua vida se distinguiram e os canonizava elevando-os a divindades do panteão chinês. Jiang Taigong, apesar de em vida ter sido seu adversário, deu a Zhao Gongming o título Xuantan Zhen Jun. Este, no centro, estava rodeado por outros quatro deuses relacionados com a Riqueza, cada um controlando uma das quatro direcções. Assim Zhao Gongming tornou-se uma das mais importantes personagens que representam o Deus da Riqueza, sendo em Macau o Choi San pelo lado militar. Acompanhado por um preto tigre, encontra-se vestido com a indumentária de Oficial Militar e tem na mão direita o carimbo de ouro para combater os espíritos famintos (os fantasmas) e na outra mão, uma arma de ferro usada antigamente e que há muito desapareceu.


20 7 2012

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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Pedir lume não é tão bom como conseguir meios de fazer lume.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 14 Aqueles que atingiram a Via mudam externamente, mas não interiormente. As suas mudanças externas são seus meios de entrar na sociedade humana; o seu modo de não mudar interiormente constitui sua forma de se manterem inteiros. Como tal, têm uma vida interna estável ao mesmo tempo que, externamente, se conseguem adaptar às mudanças dos outros. *** Aqueles que não se atrevem a tocar no fogo mesmo sem nunca se terem queimado; aqueles que não se atrevem a brandir uma espada mesmo sem nunca se terem ferido; em ambos os casos é porque entendem a possibilidade de virem a ser feridos. A esta luz, os inteli-

gentes conseguem compreender o que ainda não ocorreu, pois, meramente observando uma pequena secção, é possível conhecer o corpo inteiro, *** A confusão de líderes ignorantes por ministros traiçoeiros e a suspeita do povo pequeno em relação aos cultos pode ser observada ainda no seu estado mais subtil e enquanto tal claramente reconhecida apenas pelos sábios. *** Aqueles que governaram o mundo na antiguidade devem ter percebido as verdadeiras condições da natureza e destino humanos; as acções de ambos não terão sido seguramente as mesmas, mas, na sua aceitação do Tao, eram um só.

*** Na antiguidade, os veículos não eram nem pintados nem gravados. Os artesãos não tinham dois ofícios; os eruditos não mantinham dois empregos simultâneos. Toda a gente mantinha o seu próprio emprego e não interferia com ninguém. As pessoas encontrava o que lhes convinha; sem pejo, decorriam as coisas. *** Pedir lume não é tão bom como conseguir meios de fazer lume; depender de alguém para obter água não é tão bom como cavares tu próprio um poço. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


Lê os verdadeiros escritores, lê Balzac, Han Shan, Shakespeare, Dostoieveski. Jack Kerouac

O homem que um dia se chamou Han Shan, ninguém sabe quem foi. Quando alguém o via, considerava-o um doido, um pobre diabo. Vivia retirado na montanha Tiantai, sete léguas a oeste do distrito de Tangxing, num lugar chamado Han Shan (Montanha Fria), entre rochas e falésias. Daí descia frequentemente para o templo de Guoqing, ao encontro do seu amigo Shi De, encarregado da limpeza da cozinha do mosteiro que lhe guardava restos de comida em malgas feitas com cana de bambu. Lu Qiuyin, prefeito de Taizhou (Séc. IX)

Quem gosta de poesia, quem deseja abrir a mente para as mil subtilezas do budismo chan ou zen, quem procura a simples inteligência do saber encontrará em Han Shan um mestre, um confrade, um amigo. António Graça de Abreu

POEMAS DE

HAN SHAN edição bilingue

TRADUÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS DE ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU

h - Suplemento do Hoje Macau #51  

Suplemento h - Parte integrante da edição de 20 de Julho de 2012

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