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h - Suplemento do Hoje Macau #57

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2718. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

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OS PROVINCIANOS


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O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS Fernando Pesssoa

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E, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro. O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do “Orpheu”, disse a Mário de Sá-Carneiro: “V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si”. O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoce-

ânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a “Divina Comédia” superior à “Eneida”. O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano. É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos.


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Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério. A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele “desenvolvimento da largueza de consciência” em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano. O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, “A Relíquia”, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista. Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos. in ‘Portugal entre Passado e Futuro’

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COMO SE MANIFESTA A IDEOLOGIA DOS DISPOSITIVOS DE DOMINAÇÃO CULTURAL?

António Pinho Vargas

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novo maestro titular da Orquestra Gulbenkian, o inglês Paul McCreesh, diz hoje (13-10-12) no Actual do Expresso na sua entrevista sobre as suas novas funções “que Portugal não tem ainda uma produção musical extraordinária e internacional” e que “espera que não o prendam por isto”. Poderá desde já ficar descansado. Não só não será preso como até corre o risco de ser condecorado, como aconteceu com René Martin, condecorado por Jorge Sampaio perto do Roy Lichtenstein, Painting with Statue of Liberty

final das suas Festas da Música, que teve como característica mais notória neste aspecto, ter apresentado em todas as festas da música juntas apenas uma peça contemporânea, encomendada ao igualmente francês e seu amigo Pierre Henri. Dizem-me que essa peça, uma colagem sobre Beethoven era muito má. Regressemos a McCreesh. Apesar de não ser preso pode ser criticado e sobretudo interrogado. Poder-se-ia perguntar se assim sendo porque é que vem para este país? Mas seria demasiado fácil: o cargo de maestro titular da prestigiada Orquestra Gulbenkian é um lugar apetecível e bem pago. Paul McCreesh tem razão: Portugal não

tem o que ele diz - nunca teve - e prossegue: “em 50 encomendas pode haver duas realmente boas. Não temos de fazer música portuguesa apenas por ser portuguesa.” Ao contrário do que ele poderá pensar este discurso é absolutamente corrente e, não apenas isso, é uma prática secular das instituições e das orquestras portuguesas. Mas as perguntas são as seguintes: Poderá ele afirmar quais são as duas peças boas dentre as 50 encomendas? Alguma vez terá ouvido alguma que seja, das boas ou das más? Porque é que, dentre as música actuais a música inglesa é hoje tão pouco tocada fora de Inglaterra, porque é que a música francesa é tão pouco tocada na Alemanha ou, mesmo,


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em França? Porque é que na Holanda, continuam a ser tocadas regularmente novas encomendas, que virtualmente, até à excepção de Andriessen a partir de 1995 - e exclusivamente nos EUA e UK - não teve, em todo o século XX anterior, virtualmente nenhuma presença em nenhum outro país? Zero. Será porque é toda má ou porque, tirando o repertório canónico alemão do século XVIII-XIX, algumas óperas italianas do século XIX e algumas obras francesas deste ou daquele - é isto o cânone - o que se pratica nesses países centrais é, com extrema clareza e, ao lado do repertório canónico, uma apresentação menor, mas regular, de música local desses países para além do tudo o resto? É de sublinhar que este tipo de

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argumentos contra o que designam de “particularismo” está sempre associado aos detendores do poder estabelecido. Nas discussões do acordos GATT o americano Frederik Jameson refere que face à defesa da necessidade de subsídios dos governos da Alemanha, França, Inglaterra, na criação de uma indústria cinematográfica nacional e independente, os lobbies americanos procuraram desmantelar estas subsídios locais ou nacionais como forma de competição “injusta”. Ou seja, os americanos tentaram e conseguiram usar argumentos contra a defesa de expressões artísticas locais - incluindo a da Inglaterra - como particularismos provincianos para favorecerem a dominação cultural das corporações americanas do cinema.

No caso da música dita “clássica” europeia, as hegemonias mudam de lugar mas os argumentos dos hegemónicos não. A fractura encontra-se entre os paises centrais da Europa e os periféricos. Ah, grandes provincianos! Os ingleses encomendam e apresentam várias óperas de Harrison Birtwistle, sem se preocuparem com o facto de raramente ser apresentada fora da Inglaterra (saberá isso?); os alemães apresentam óperas de Wolfgang Rihm, sem vacilar perante o facto de, em França, serem rarissimamente tocadas. Em França prosseguem as encomendas aos numerosos compositores do grupo dominante instalado no IRCAM apesar de a música de Philipe Manoury, por exemplo, não ser

praticamente executada fora de França. Seria importante saber o que pensa McCreesh destas obras: considera-as boas, más, ou talvez ainda melhor, conhece-as sequer? As inglesas talvez, mas, as outras? Alguma vez as ouviu? Ou apenas se limita a repetir a mais difundida banalidade que todos os maestros repetem quando assumem novas funções para depois fazerem o mesmo que todos os seus antecessores nesses cargos (posso dizer ter ouvido este tipo de discurso nas últimas décadas dezenas de vezes) Apresentar maioritariamente repertório con”sagrado”, canónico e muito semelhante em todos os países ocidentais e uma ou duas vezes por ano, produção nacional actual que, fora de redes europeias como o Réseau Varèse, dominado pelos países centrais, raramente circulam sem esse aval (e mesmo assim muito pouco). Outro aspecto: refere que “sei que a própria Gulbenkian tem um óptimo acervo de encomendas e já houve discussões sobre algumas voltarem a ser tocadas”. Sabe mas não as conhece, nem nunca as ouviu, como é patente. Quando refere que em “50 encomendas 2 serão boas”, perante a lista das encomendas da própria Fundação que o contrata, como é que as avalia concretamente? A lista, publicada pela Fundação em 2009-10 (duas edições), por ordem descendente de número de encomendas, diz-nos: E. Nunes, 23 obras, J. Peixinho, 12, J. Braga Santos, 11, C Capdeville, 10, C. Lima, 9, J. Rafael, 7, Filipe Pires, 7, C.Rosa, 6, Pedro Amaral, 5, M.L. Martins, 4, A.Cassuto, 4, J.P. Oliveira 4, A.Pinho Vargas, 3, M. Azguime, 3, I. Soveral, 3, A.Salazar, 2, A. Delgado, 2 e um vasto número de compositores com 1 encomenda, um dos quais dá pelo nome de F. Lopes Graça. Esta lista - que traduz uma certa orientação em si mesma, que se analisa a si própria - abarca todo o período anterior a 2009. Teria McCreesh um enorme trabalho pela frente se estivesse a falar verdade. Não está. Gostaria de saber neste vasto número quais são as 2 boas, na opinião do ilustre maestro inglês. Não fora já saber, antecipadamente, que ele não sabe de modo nenhum. Usou apenas uma retórica.O seu mundo é, na verdade, pequeno, muito pequeno. O que é espantoso é isso ser típico. Resta, como mera consolação, saber que o seu âmbito de acção, como maestro titular, não abarca tudo aquilo que se faz e decide na Fundação. Conclusão 1: É muito mais fácil dizer banalidades que, estando muito disseminadas, correspondem a uma verdadeira “ideologia reguladora”, do que fazer decentemente um trabalho de casa. Não é caso único, longe disso. Conclusão 2: Os melómanos habituais da Gulbenkian podem dormir descansados. Não terão que enfrentar nada que possa fazer vacilar as suas convicções identitárias de discreta autoflagelação . A Gulbenkian - com McCreesh - continuará a ser a sala de visitas da “Europa na Avenida de Berna”, como escreveu José Gil.


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h O QUE É O NEOLIBERALISMO?

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Diogo Freitas do

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Amaral

tempo de voltar a analisar as ideologias – que, para o bem ou para o mal, não morreram. Até 1980-90, os conservadores eram de direita (moderada), os liberais reformistas e os democratas-cristãos autênticos eram de centro, e os socialistas ou sociais-democratas (propriamente ditos) eram de esquerda. Com as doutrinas de Hayek e de Friedman, postas em prática pela dupla Reagan-Thatcher, bem como em consequência da globalização, do comércio livre, dos hedge funds em paraísos fiscais – e também da extinção da URSS – o mundo virou à direita: os neoconservadores tornaram-se mais radicais, os liberais e os democratas-cristãos passaram a conservadores, e os socialistas democráticos procuraram uma «terceira via» que, pelas mãos de Blair/Brown e de Bill Clinton, se afirmou capitalista e pro-rich, abandonando a sua tradição socialista e pro-poor. Tudo isto, porém, ocorreu no quadro da democracia pluralista, sem nunca ultrapassar «pelo menos na Europa, EUA e Japão» - a fronteira que separa a direita democrática do fascismo (Marine Le Pen não é neoliberal). Aconteceu, entretanto, que a ala mais à direita do Partido Republicano dos EUA

(com Bush filho, Romney, Tea Party, etc.) se transformou muito rapidamente num movimento radical, quase-revolucionário, que se tem afirmado como politicamente «neoconservador» e economicamente «neoliberal». Tal transformação transmitiu-se à Europa: Merkel e Sarkozy, Berlusconi, Aznar e Rajoy, Passos Coelho/Paulo Portas (com os respectivos ministros, como Victor Gaspar, e principais assessores, como António Borges). Deixando por hoje de lado o que diz respeito ao neoconservadorismo (na política externa e interna), procuremos caracterizar a corrente neoliberal, profundamente elitista, que manda na Europa actual: a) Crença absoluta no mercado e desconfiança total em relação ao Estado (bit e-government);

b) Protecção legal aos mais ricos, sobretudo através da redução dos respectivos impostos, na convicção de que só eles investem, criam empregos e, assim, impulsionam o crescimento económico; c) Prática constante, e progressiva, de cortes substanciais nas despesas sociais, por se entender que o Separe Skate é uma ilusão perigosa; e que os mais pobres, tornando-se subsídio-dependentes, prejudicam o interesse nacional e não merecem protecção (ou não merecem senão protecção mínima). O ódio de classe – que Marx considerava ser a ira justa dos pobres contra os ricos – mantém-se, mas de pernas para o ar: é agora a raiva profunda dos ricos contra os pobres, os inúteis, os incapazes que só sabem viver à mesa do Orçamento, à

O ódio de classe mantém-se, mas de pernas para o ar: é agora a raiva profunda dos ricos contra os pobres, os inúteis, os incapazes que só sabem viver à mesa do Orçamento, à custa dos impostos dos ricos, sendo estes os únicos que dão emprego a quem verdadeiramente quer trabalhar.

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custa dos impostos dos ricos, sendo estes os únicos que dão emprego a quem verdadeiramente quer trabalhar. Não há, por estas razões, nenhum governo neoliberal que não baixe significativamente a carga fiscal e parafiscal (T.S.U) dos empresários e que não suba, tanto quanto possível, a dos trabalhadores, apesar de nunca conseguirem diminuir o défice e a dívida. Todos os filósofos gregos – Platão, Xenofonte, Aristóteles – chamavam a isto uma forma de governo «oligárquica», cuja degeneração externa era a «plutocracia» (o governo do dinheiro). Comparemos agora esta tão actual doutrina neoliberal com o pensamento arcaico (?) do «fascista» Oliveira Salazar, em 13 de Abril de 1929. Escreveu ele: a reforma tributária (então publicada) guia-se, entre outros, pelo princípio da quase uniformidade das taxas dos vários impostos, «com as excepções que favorecem, em todos os países civilizados, os rendimentos provenientes só do trabalho do contribuinte» (A reorganização financeira, Coimbra Editora, 1930, p. 102). Problema insolúvel da ciência política: como pode um democrata neoliberal de hoje situar-se mais à direita do que um ditador «fascista» de há 80 anos?!...


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PEQUENO ENSAIO SOBRE OS TEMPOS

António Pinho Vargas

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IVEMOS numa multiplicidade de tempos diversos e simultâneos. O tempo lento da crise económica do sistema capitalista, o tempo existencial de cada um de nós, constituído por cada minuto da nossa vida, o tempo frenético dos media que nos procura fazer crer que, em cada dia, o futuro do mundo se vai decidir, o tempo médio das mudanças políticas. Gerir psicologiamente estes tempos diferentes mas simultâneos é tremendamente difícil e desgastante. O tempo da crise é o tempo das crises económicas - que podem durar entre vinte cinco e cinquenta anos - sem que a sua presença na actualidade mediática deixe de nos transmitir a sensação de que tudo está por um fio: um tempo médio narrado como tempo frenético. Torna-se um pouco ridículo ouvir um repórter de Bruxelas falar da próxima cimeira europeia, ou do próximo G8 ou G6, não porque elas não mereçam notícia, mas porque o que é dito, foi dito em termos muito idênticos há um, há dois, há três anos, com poucas variantes. Dá a estranha sensação de uma imobilidade de fundo com umasuperfície agitada e frenética. A luta política entre os vários responsáveis pela política global prossegue com o anúncio de medidas para combater a crise que se revelam pouco depois ineficazes para combater a crise. Aquilo que faz a actualidade das notícias sobre a crise manifesta-se de acordo com os critérios do tempo frenético dos media. Também os famosos «mercados» financeiros - lugar por excelência da luta dos especuladores - é igualmente regulado pelo tempo frenético. Na especulação financeira, num só dia, biliões de dólares ou euros podem mudar de lugar, de proprietário, de banco, de multimilionário. O tempo da economia, no sentido da acção humana produtora de bens e mercadorias e das suas trocas, é muito mais lento do que o movimento acelerado da troca de capitais. A tecnologia e a internet permitiram essa aceleração brutal. Mas para um desempregado - aí colocado pela voragem destrutiva das medidas de austeridade, até aqui o remédio erroneamente proclamado para a crise - o tempo que domina a sua vida é existencial e vive-se de acordo com o ritmo da pulsação cardíaca, ou seja, não pára, não tem tempo para parar; é regulado pela necessidade de encontrar todos os dias, no pior dos casos,

Um dos novos conceitos que revela mais claramente a violência do novo projecto de sociedade que se pretende criar é a passagem do conceito de «estudante» para o conceito de «cliente». uma forma de sobreviver, uma forma de comer, uma forma de manter a vontade de viver. É desse modo, o tempo da existência quotidiana dos humanos; em cada minuto, em cada dia, pode passar do espanto para a revolta, da fúria para um sossego de fadiga, da luta convicta para a submissão e a desistência. É um tempo determinado pela crise mas que obriga a acções diárias de sobrevivência. Como vou arranjar dinheiro para a casa, para dar à mãe, para dar aos filhos, para pagar a escola, onde vou viver depois de ir entregar a casa ao banco, etc. Os políticos, os cientistas sociais, os economistas vivem numa espécie de tempo

intermédio: analisar, escrever, decretar, interpretar diariamente aquilo que envia sinais provenientes da profundeza do tempo médio da economia, da rapidez dos movimentos rápidos das bolsas financeiras e, nos casos mais lúcidos, interpretar os sinais inquietantes enviados para o ambiente dos movimentos lentíssimos do planeta, na sua rejeição imparável da agressão violenta dos humanos nas sociedades capitalistas industriais do mundo. Mas a acção deste vasto grupo, em particular dos políticos, sendo diária, só manifesta mudanças de vulto nos períodos eleitorais. Aí, desse tempo intermédio da democracia-actualmente-existente, saem por vezes sinais de alguma esperança

para os que sofrem com a crise e sinais de preocupação para os que lucram com a crise. Os sinais são os mesmos, a sua interpretação é que varia conforme são pobres, motivados pela pulsão da sobrevivência, ou ricos, motivados pela pulsão da acumulação de capital. Esta multiplicidade de tempos simultâneos parece mostrar a que tese de Walter Benjamin de que, nas revoluções, «o tempo sai dos eixos» - de Hamlet, «the time is out of joint» - se tornou o nosso tempo diário «normal», tal como na sua outra brilhante intuição de que nas sociedades capitalistas «o estado de excepção é a regra». Na crise todos os tempos se misturam e interligam. Para quem tem emprego, trabalho, a regra é o medo: o medo de perder o emprego, o medo de frustrar as expectativas dos patrões, o medo das interpretações abusivas ou interesseiras das leis, que vão sendo alteradas de acordo com o programa político neoliberal de mudança radical da sociedade, do fim do contrato social entre o capital e o trabalho, dos equilíbrios tão duramente conquistados no tempo longo da história, do século XIX até aos anos 80 do século XX. Este medo é insidioso, infiltra-se sem darmos conta e o discurso da «culpa individual pelo falhanço», do «desemprego como oportunidade» assume enorme importância. Pode bem dar-se o caso de em empresas, escolas, fábricas, universidades, etc., o medo estar instalado dos dois lados: daquele que tem de despedir, tendo assumido e interiorizado a sua tarefa, e daquele que pode ser despedido. O primeiro sabe bem que pode vir a ocupar o lugar do segundo. O «downsizing» - eufemismo para despedimentos em média ou larga escala - caracteriza-se por ir subindo na hierarquia, podendo mesmo chegar ao patrão clássico, obrigado a vender a sua pequena ou inviável empresa a uma multinacional sem rosto (ou com rosto). Um dos novos conceitos que revela mais claramente a violência do novo projecto de sociedade que se pretende criar é a passagem do conceito de «estudante» para o conceito de «cliente». O saber, os saberes, como «produto» de consumo que as Universidades e todas as instituições de ensino põem à venda para os seus «clientes». Neste processo misturam-se também diversos tempos: o tempo do ataque neoliberal já dura há mais de trinta anos; é um tempo em fase de aceleração; o tempo do cidadão (ainda com emprego) é um tempo diário de perplexidade e angústia face às mudanças forçadas que é obrigado a temer.


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EIS PORQUE A SÍRIA NÃO CAIRÁ Ghaleb Kandil

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S acontecimentos mais recentes na Síria deram uma série de pistas importantes que terão um impacto decisivo sobre o curso da guerra com que os Estados procuram destruir este país. Contrariamente às informações de estrategas norte-americanos e dos seus cúmplices europeus e árabes, transmitidas através das centenas de meios de comunicação (imprensa e audiovisual), estão envolvidos nessa batalha esquadrões da morte, grupos de mercenários e takfiristas trazidos de todas as partes do mundo, que sofreram um duro revés nos combates. No entanto, funcionários turcos e os seus aliados haviam prometido, como fizeram no ano passado e, ao mesmo tempo, que o mês do Ramadão assistiria à queda do regime sírio. Essas ilusões foram dissipadas novamente no campo de batalha, onde gangues armados têm feito milhares de mortos, feridos e prisioneiros. Na verdade, a ofensiva geral dos extremistas contra Damasco causaram-lhes enormes perdas, como os media ocidentais tiveram de confessar. A força formada por mercenários locais e jihadis do mundo inteiro foi literalmente exterminada pelo exército sírio, que agora persegue os que permanecem em redor da capital. Toneladas de armas foram confiscadas e uma pesada infra-estrutura foi destruída e desmantelada. Vai levar meses para reconstruir um poder destrutivo semelhante ... se o conseguirem reconstruir.

E já se sabe o saldo da batalha de Aleppo. Milhares de extremistas cairão diante do exército que, avançando metodicamente, praticamente quebrou todas as linhas de abastecimento dos campos de treino de mercenários, que a CIA dirige na Turquia. Os gangues armados também não conseguem fazer chegar reforços à cidade, sem sofrer grandes perdas. As suas colunas motorizadas, composta por veículos, com tracção às quatro rodas e equipados com metralhadoras pesadas, fornecidos pelos patrocinadores regionais, avançam à mercê do fogo dos helicópteros e aviões das forças armadas sírias e caem nas armadilhas que as unidades de elite, infiltradas atrás das linhas inimigas, lhes estendem. Segundo os especialistas, um terço dos extremistas são jihadistas do Magrebe Árabe, da Líbia, do Golfo, Afeganistão, Paquistão e na Chechénia. O director de inteligência da União Europeia, o francês Patrice Bergamini, reconheceu (em entrevista dada a 17 de Agosto ao diário libanês Al-Akhbar) a importância do papel dos jihadistas no conflito sírio e salienta que a opinião pública ocidental já está ciente do perigo que eles representam. Claramente, a limpeza da cidade de Aleppo e dos seus arredores pelo exército sírio é apenas uma questão de tempo. Os sérios reveses que sofreram os bandos armados em toda a Síria mostram que o Exército Árabe da Síria, que conta com profundas bases ideológicas, muito rapidamente assimilou as lições da guerra e tem desenvolvido estratégias contra-guerrilha nas áreas urbanas e ru-

rais, estratégias que lhe permitem aplicar duros golpes aos extremistas, apesar dos enormes recursos militares, financeiros, materiais e meios de comunicação que uma coligação de dezenas de países têm disponibilizado a esses elementos. Sem mencionar as sanções que esses países adoptaram contra a Síria fora do âmbito das Nações Unidas. Para compreender e prever a evolução da situação é também importante analisar o estado de espírito do povo sírio. Sem um apoio popular genuíno — que os media ocidentais tratam de ocultar — há muito que o presidente Bashar al-Assad e o seu exército seriam incapazes de resistir à ofensiva e vencê-la. Este apoio popular é determinado por três factores: a maioria dos sírios estão conscientes de que o seu país está a ser alvo de uma conspiração com o objectivo de tornar a Síria num país vassalo do Ocidente imperialista e, portanto, removê-la de todas as equações regionais. É, no entanto, um país que esteve, durante os últimos 40 anos, no coração da correlação regional de forças regionais e com quem sempre se teria de contar no Médio Oriente. Estes amplos segmentos da população síria estão apegados à independência política do seu país e dispostos a lutar para defendê-la. Isso explica porque razão milhares de jovens voluntários se têm juntado às fileiras do exército sírio. Especialistas estimam que uns 20% da opinião pública, que num primeiro momento simpatizavam com a oposição, descobriram o verdadeiro rosto dos extremistas, que cometem abusos selváticos nas regiões que controlaram (roubos,

violações, execuções sumárias, massacres ... ). Os media ocidentais fazem cada vez mais eco de tais actos de barbárie. Aproveitando esta mudança de opinião da população, especialmente nas áreas rurais, onde as pessoas estão cansadas da barbárie, o governo estabeleceu meios de comunicação que permitem à população militar informar discretamente discretamente o exército sobre a presença de terroristas. Isto explica como unidades de aviação têm alcançado sucesso em ataques direcionados contra os esconderijos e bases de gangues armados nas últimas semanas. Paralelamente a todos estes desenvolvimentos no campo, aliados regionais e internacionais de Damasco mostram sinais de firmeza a toda a prova e desenvolvem iniciativas políticas e diplomáticas, evitando deixar o campo livre aos ocidentais. O sucesso do encontro em Teerão, com a participação de 30 países, incluindo China, Índia, Rússia, nove países árabes e vários países da América Latina e África do Sul, ilustra essa nova correlação de forças. A formação deste grupo de Estados foi uma forte mensagem para o Ocidente e põe seriamente em perigo o seu projecto de estabelecer, fora do âmbito das Nações Unidas, uma zona de exclusão aérea no norte da Síria. Os últimos meses de 2012 serão decisivos para o desenvolvimento de novos equilíbrios regionais e internacionais e moldarão uma nova imagem a partir de Damasco, graças à vitória da Síria na guerra internacional que contra ela foi lançada.


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António Graça de Abreu AS GRUTAS budistas de Yungang, Património Mundial da Humanidade pela Unesco desde 2001, são um dos muitos sublimes espantos da velha China. Não muito visitadas por estrangeiros -embora situadas apenas 320 quilómetros a norte de Pequim --, ficam um tanto fora de mão, quer dizer, à revelia das centenas de itinerários turísticos que costumam contemplar o normal viajante por terras da China. Vamos encontrá-las quinze quilómetros a oeste da cidade de Datong, logo abaixo da Mongólia e do rebordo da Grande Muralha, já dentro das fronteiras do velho Império do Meio. São, com o complexo de Dunhuang, lá longe, no extremo oeste da província de Gansu, o mais espectacular e valioso conjunto de grutas budistas de toda a China. No entanto, os especialistas da Unesco ao outorgar às grutas de Yungang a chancela de Património Mundial, hesitaram, por diversas vezes. Mesmo em frente da entrada do conjunto de excelente arquitectura e estatuária budista, a uns seiscentos metros, encontra-se uma mina de carvão onde os homens retalham as profundezas escuras dos solos e onde vão buscar diariamente toneladas e toneladas de ulha negra capaz de conspurcar céu e terra, águas e horizontes. Mas o carvão também traz energia, calor e mais vida ao quotidiano difícil dos homens. A Unesco já pediu o encerramento da mina, sob pena de se retirar o estatuto de Património Mundial ao lugar, mas no Verão de 2011, na minha segunda visita a Yungang, (a primeira acontecera em 2001) a mina de carvão ainda lá estava mas fora sujeita a grandes obras de limpeza e embelezamento. Graças à protecção divina de Buda, as grutas têm resistido, pelo menos até hoje, aos assaltos perpetrados pela insensatez dos homens. Na loucura da Revolução Cultu-

C H I N A C

云冈

YUNGANG, PROVÍNCIA D

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DE SHANXI

DAS NAS GRUTAS ral, naqueles anos catastróficos de 1966/68, os guardas vermelhos também andaram por aqui, com o objectivo de destruir “o antigo, ligado ao passado feudal”. Cortaram algumas cabeças e dedos de budas, mas felizmente as destruições não foram significativas e já tudo está restaurado. A entrada para o complexo das grutas foi recentemente arranjado. Criou-se um lago, mais um templo com estatuária budista em mármore acabadinha de fazer, mais uma extensa avenida ladeada por uma dezena de grandes colunas a imitar o antigo, mas de estilo pesado e indefinível. Lá mais acima, chegamos então às antiquíssimas e soberbas grutas escavadas na rocha pela natureza, e sobretudo esculpidas na pedra pela arte e engenho dos homens. O budismo entrou na China no século I da nossa era. A partir do ano 220, o império chinês fragmentou-se em pequenos reinos, alguns dos quais procuraram assumir-se como novas dinastias mas não passaram de efémeros poderes locais espalhados por uma imensa China. É o caso dos Tuoba, uma nacionalidade de origem obscura, etnicamente ainda aparentados com os han -- os chineses propriamente ditos --, que se fixaram nestas regiões do norte e ficaram conhecidos como os Wei do Norte (386494). Convertidos ao budismo, os Wei aproveitaram uma enorme falésia, próxima da capital, com vastas reentrâncias interiores na pedra para esculpir e pintar figuras mínimas, médias ou gigantescas de Buda, de divindades budistas, toda uma vasta parafernália de figuras associadas ao budismo. Os Wei do Norte foram engolidos pelo perpassar dos séculos, mas a magia do lugar continua a faiscar diante dos olhos e entendimentos dos homens. Contam-se 252 grutas de diversos tamanhos e mais de 51.000 estátuas de budas. Os tectos estão decorados com um sem número de figuras da mitologia budista, pintadas a cores fortes e densas, o vermelhão seco, o ocre, o verde garrafa desmaiado pelos séculos, o azul intenso, o amarelo. Curiosamente, e por-

que o budismo originário da Índia chegou à China através da Rota da Seda, muitas das estátuas de Buda denotam nítida influência da arte de então da Ásia Central e do Sul, e incorporam símbolos não chineses. Há nichos com pequenos budas um pouco por todo o lado, espalhados, escavados na rocha da falésia voltada para sul que se estende por quase um quilómetro. Impressionam os budas de grande dimensão, com treze ou quinze metros de altura, em pose solene e serena criados a partir do trabalho na pedra do interior de enormes grutas onde permaneceram durante quinze séculos protegidos das intempéries e do desgaste impiedoso do tempo. Tudo isto foi construído durante apenas sessenta anos, entre 465 e 525, sob os auspícios dos Wei do Norte que haviam feito da próxima Datong, na época denominada Pingcheng, a sua capital. Os Wei, quando em 494 decidiram transferir a corte para a cidade de Luoyang, cerca de mil quilómetros a sul, deixaram ainda arquitectos e artífices para continuar os trabalhos. Depois, com a China assolada por novas guerras, as grutas de Yungang quase caíram no esquecimento. Foram objecto de leves restauros no século XI e também se construíram grandes estruturas exteriores de madeira para protecção do interior das grutas. Essas construções foram consumidas por incêndios na dinastia Ming (1368-1644). Yungang é um dos maiores museus budistas a céu aberto de todo o mundo. Visitem-no. Se não for possível, vejam as grutas de Yungang no vosso computador. Vão ao google, escrevam Yungang e procurem as “imagens”. Como bem diz o provérbio chinês百闻不 如一见, ou seja bai wen bu ru yi jian, o que aproximadamente significa “vale mais a pena ver uma vez do que ouvir contar cem vezes”. Yungang é um espanto, uma maravilha! Garanto eu que acabei agora de contar e já tive o privilégio de ver duas vezes com estes olhos que um dia a terra, ou o crematório, hão de comer.


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

HK, CENTRAL E O BAR DO CAPITÃO Começa a ser cada vez mais difícil falar destas coisas. Uma tarde em Central, Hong Kong, traz cada vez mais benefícios ao espírito. Enquanto se espera a saída do livro que chama a atenção para os vários níveis em que se desenvolve a cidade de Hong Kong, imagem cinematográfica de um futuro que o passado nos prometera e o presente parece querer finalmente confirmar (o livro já aqui foi referido e pode até já ter saído nestes inícios quentes de Outubro, Cities Without Ground, de Adam Frampton, Jonathan D. Solomon e Clara Wong), somos atingidos com a notícia da abertura, num futuro primaveril próximo, de mais uma galeria no Edifício Pedder. Também a Galeria Lehmann Maupin aí se irá instalar. Uma visita ao Pedder começa a ser obrigatória. Neste venerando edifício (não seria melhor num sítio insuportavelmente moderno?), cujas rendas exorbitantes expulsaram a irritante marca saudosista/nostálgica Shanghai Tang, concentram-se neste momento, para além da Galeria Pearl Lam, 3 galerias de renome internacional: a Ben Brown, que já mostrou, em apenas 3 anos, um número considerável de grandes nomes, de Alighiero Boetti e Miquel Barceló a Picasso (um imponente Minotauro recebia-nos, enigmático, poderoso e solar); a Gagosian (talvez a galeria mais famosa internacionalmente), que já mostrou Damien Hirst e Cy Twombly ou Gursky; e, recentemente, a Galeria Simon Lee. A Hanart TZ mudou de andar mas continua presente neste mesmo edifício. Uma ida ao Edifício Pedder possibilita ainda outra deliciosa visita, a uma das lojas de roupa de homem mais atraentes de Hong Kong, a The Armoury, uma pequena gruta tesouro de couros e lãs, algodões e linhos, sapatos, lenços e um serviço de recorte amável e afectuoso a completar a eficiência que seria de esperar. Estas coisas inglesas, que antigamente eram boas, mas um pouco severas, continuam boas e são agora bondosas e amáveis. Um pouco mais em baixo, a cerca de 5 minutos a pé, no número 50 da Connaught Road, abriram duas outras galerias de nome sonante, a Perrotin, de Paris, e a White Cube, londrina, onde este vosso dedicado servo já riu, admirou e viu peças recentes de Gilbert and George e não viu, mas tem pena, uma exposição de Anselm Kiefer. Já aqui se referira que Central está muito longe de ser apenas um distrito financeiro. Alguns lembrarão como há muito pouco tempo era comum dizer-se que Hong Kong era um deserto cultural. Como esses tempos parecem agora distantes. Outras galerias se encontram relativamente perto, na zona de Hollywood

Road, ou, muito mais perto, a Edouard Malingue (onde também foram mostrados, não há muito tempo, desenhos e, se recordo com rigor, pintura de Picasso). Muito perto de todos estes prazeres fica o Hotel Mandarin, ao qual terá de ser dedicado um artigo inteiro. Como foi já aqui tentado, o Hotel Mandarin Oriental, em Central, deve-

ria ser um país independente, cunhar moeda e içar bandeira própria. Este hotel, o primeiro Mandarin de uma cadeia que agora tem quase 50, exibe uma característica imbatível para o bebente, um luminoso brilho que ofusca outras estrelas mas que também contribui para que se torne muito difícil, depois da sua frequência e deleitoso usufruto, alcançar, na mesma noite, qualquer outro hotel. É que neste edifício, datado de 1963 (extensamente remodelado em inícios deste século), de responsabilidade da firma Leigh & Orange, fundada no território vizinho em 1874, um pouco parecido com um dos edifícios de Macau a que pessoalmente dedico mais estima, o do Hotel Sintra, neste edifício, dizia, existem 3 bares de impecável excelência: o Captain’s Bar, o The Chinnery e o M Bar (para além de mais 6 lugares onde se come e bebe). Como não haverá aqui espaço para falar do M Bar e do The Chinnery, atrevo-me apenas a umas palavras admirativas para com um outro bar, situado no rés-do-chão, o Captain’s Bar. O Captain’s Bar tem uma coisa que em Macau se não consegue admirar – tem mais de 40 anos. 40 anos no centro de um distrito financeiro de uma cidade como Hong Kong faz pensar em quando o cinema de Hong Kong era uma dos mais prolíficos do mundo, em rapazes de risco ao meio, em tycoons de nó de gravata gordo e em muitas outras imagens (inclusivamente em mulheres de cabaia se Wong Kar-wai não tivesse estafado tanto a imagem). O que o Captain’s Bar faz (e em Macau não há nada assim) é obrigar-nos a pensar no passado e no futuro, o que poderá fazer-se, pela hora de almoço, em frente de um dos seus almoços indianos: um peixe madras, uma galinha tikka, um caril de carneiro, envolto pelo perfume da promessa de um futuro brilhante, um odor fragrante que acompanha qualquer visita a esta zona da cidade, especialmente se este for saboreado na deliciosa antecipação de uma visita ao Edifício Pedder. Poder-se-á acompanhar a comida indiana com uma cerveja de pressão. Inconfundivelmente, no Captain’s Bar estas são servidas em canecas de metal, frescas, enigmáticas, quase únicas e muito desejadas. O supremo luxo está reservado apenas aos seus clientes mais habituais – uma caneca própria, com as iniciais gravadas. E depois de uma tarde passada pelas galerias da zona ? O regresso ao Captain’s Bar para um Collins com lima kaffir. O que é um Collins ? São sete horas da tarde de um dia quente de outono e este vosso experimentante dirige-se ao bar do Captain’s Bar e pede um Kaffir Collins. Recebe um copo com gin, sumo de lima e limão, folhas de lima e soda. Está na hora de subir ao M Bar.


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À S U P E R F Í C I E

próximo oriente

Hugo Pinto

COME ON, FEEL THE NOISE Quando pensava que a questão do “noise” chinês, em 2012, estava arrumada (no que a estes escritos diz respeito, entenda-se), eis que, em ociosas deambulações cibernéticas recentes encontro, na excelente página da editora Sub Rosa, mais um documentário, datado deste ano, sobre os “terroristas sonoros” da China. A chancela da editora de Bruxelas, zelosamente dirigida por Guy-Marc Hinant e Frédéric Walheer, justifica o arregalado interesse: em 2009, a Sub Rosa foi responsável pela opulenta edição de “An Anthology Of Chinese Experimental Music 1992-2008”, quatro discos essenciais, (ainda) definitivos para perceber a génese, desenvolvimento e estado actual da música de cariz experimental da República Popular – compilação a que, nestas páginas, já foi dada atenção (espero que a devida). Agora, a mítica casa editorial belga pôs cá fora “Fuck You: Fucking Noise in China Now!”, realizado por um dos patrões da Sub Rosa, Guy-Marc Hinant, em conjunto com Dominique Lohle. “100 minutos de música electrónica ‘noise’ e de discursos duros: um ‘road movie’ entre Pequim e Xangai, com Torturing Nurse, Wang Changcun, Wang Fan, Li Jian Hung / Dickson Dee, o poeta Sun Meng Jin e Zbigniew Karkowski, no papel de radical da linha vermelha”, lê-se na promoção do DVD que está à venda na página electrónica da editora e em lojas de música “online”. Não há, contudo, um único vídeo promocional, restando os textos dos próprios produtores e umas quantas recensões para distrair, enquanto não chega uma cópia do documentário. Para já, a palavra aos dois realizadores: “Embarcámos numa viagem, com uma visão que talvez tenha confundido sentimentos de revolta com a própria revolução, esperando filmar um monumento à gloria do Noise [assim mesmo, com maiúscula] enquanto “acção subversiva” na República Popular da China. Ao fim de umas horas, tivemos de admitir que, neste lugar e neste tempo, nada de político estava a ser exprimido.” Aparentemente, o filme parte da premissa de ir ao encontro de artistas oprimidos por um regime totalitário, exímio praticante da censura, para, no final, descobrir um bando apolítico pacificado pelo que o poeta de serviço no documentário, Sun Meng Jin, descreve como “a era do entretenimento”. Ou seja, em vez

de uma catarse contra as “forças do mal”, o “noise” chinês dedica-se a amplificar doses massivas de indiferença política. Esta atitude de desinteresse talvez não fosse desprovida de significado ideológico, não fora a apatia uma questão igualmente séria no contexto de esvaziamento espiritual (íntimo, individualista, humano) que a “harmonia social” apascenta com as melhores das intenções (a unidade e a união através da sobrevivência e continuidade do regime, e vice-versa). As mesmas questões passaram por estas páginas, recentemente, a propósito do movimento “punk” chinês, igualmente alheado de lutas políticas, antes desviado para a indulgência prazenteira do puro divertimento, isto é, um escapismo dos tempos modernos, tentativa de fuga de

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uma realidade talvez demasiado feia e difícil. Quem os pode censurar? O governo chinês, certamente, podia. E a música? Uma das mais recentes colectâneas de música experimental / “noise” vinda da China dá pelo nome de “China? (A Noise Compilation)”, da “netlabel” eDogm, e pode ser descarregada gratuitamente nesta morada: http://www. edogm.net/releases/edo013.html Tem a maioria dos nomes que eram relevantes em 2006 e que, hoje, continuam igualmente importantes: D!O!D!O!D! (contribuem com dois temas), Li Jianhong, Torturing Nurse e White, entre outros. Uma boa amostra da música que quer dizer tudo não dizendo nada e, ao que parece, não incomodando vivalma. Ruído para os nossos ouvidos.

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

metrópolis

Tiago Quadros*

A CASA E A RUA DE ACORDO com Julian Worrall, a recursividade ocorre de forma recorrente na obra de Sou Fujimoto. O exemplo mais paradigmático do processo acontece na Casa N, obra concluída em 2008, em Oita, no Japão. A Casa N consiste numa caixa dentro de uma caixa dentro de uma caixa – uma versão arquitectónica da boneca matryoshka, um objecto exemplar do princípio da recursividade. A caixa exterior faz a extrusão dos limites do local de implantação para um volume de 7,5 m de altura, marcando o domínio da habitação. Dentro desta caixa, uma caixa menor marca a fronteira entre o limite do recinto e a habitação, com algumas janelas a selarem vãos abertos, protegendo a casa das condições climáticas. Uma caixa final emoldura o espaço mais íntimo, no qual o casal de idosos que habita a casa, faz as refeições. As fronteiras de todas as caixas são corrompidas com grandes vãos rectangulares, formando, camada a camada, filtros e telas móveis, enquadrando progressivamente a luz e as vistas, criando um campo tridimensional de opacidade e transparência. A camada mais exterior cobre todo o local, dando lugar a um jardim interior semi-coberto. O segundo invólucro engloba um espaço limitado no interior do espaço exterior coberto. O terceiro, cria um espaço interior menor. Os habitantes da Casa N constróem a sua vida dentro deste domínio.

A este propósito, Sou Fujimoto refere: “Eu sempre tive dúvidas sobre as ruas e as casas serem separadas por uma única parede, e pergunto-me se um espaço acompanhado por diferentes noções de distância entre a rua e a casa pode ser uma possibilidade. Por exemplo, um lugar dentro da casa muito próximo da rua, um lugar que se afasta da rua, e um lugar estritamente privado, muito afastado da rua. É por isso que a vida nesta casa se assemelha a viver entre as nuvens.” Com efeito, a questão da fronteira ideal, entre interior e exterior, está longe de ser encontrada. Poder-se-á dizer que uma arquitectura se cumpre quando um espaço ao ar livre, se sente como fazendo parte da casa, e quando um espaço interior se sente como exterior. Ao desenhar a Casa N, Fujimoto não procurou conceber uma arquitectura sobre o espaço ou sobre a forma, mas antes expressar a riqueza do que é ser “entre” – a casa e a rua. Sou Fujimoto (Hokkaido, Japão, 1971) licenciou-se na Universidade de Tóquio, Faculdade de Engenharia, Departamento de Arquitectura em 1994. Estabeleceu o seu próprio atelier em Tóquio, Sou Fujimoto Architects, em 2000. A sua experiência no ensino foi desenvolvida enquanto professor da Tokyo University of Science (desde 2001), da University of Tokyo (2004), da Showa Women’s University (desde 2004) e da Kyoto Univer-

sity (desde 2007). Sou Fujimoto também tem dado aulas em várias universidades no estrangeiro, como o Departamento de Arquitectura do Massachusetts Institute of Technology, Cambridge (Massachusetts, 2006), o Royal Institute of British Architects, em Londres (2007) e a London Metropolitan University (2007). Sou Fujimoto pertence à jovem geração de arquitectos japoneses, mas a sua obra alcançou já o mundo todo. Isto porque, mesmo com os seus pequenos projectos, que vão cabendo na palma da sua mão, o seu trabalho indaga repetidamente o significado essencial da arquitectura: o que é a arquitectura? Como deve a arquitectura relacionar-se com a natureza? Para o arquitecto japonês, falar sobre a arquitectura é falar sobre o mundo. As obras da nova geração de arquitectos japoneses apresentam-se geralmente brancas, abstractas, contendo o mínimo de informação possível. Parecem perseguir o mundo de espaços abstractos implícito no “menos é mais” de Mies, esperando ser valorizados na sua esbelteza minimalista. No entanto, a maioria destes trabalhos deve ser compreendida como o resultado de uma pesquisa relacionada mais com capacidades tecnológicas do que como resultado de uma procura contemplativa. Aparentemente, a arquitectura de Sou Fujimoto procura, também, a tradição do cubo branco, puro, parecendo aproximar-se da

abstracção minimalista. No entanto, a experiência vivida nas suas obras demonstra que estas prosseguem uma direcção completamente diferente. Fujimoto procura investigar como a arquitectura deve recuperar a sensibilidade da vida humana. Poder-se-ia dizer que as suas experiências são dirigidas para a recuperação das interacções humanas e das relações primitivas entre as pessoas e a natureza. Nem dentro, nem fora, nem da cidade, nem da casa. A espacialidade da Casa N demonstra a ambiguidade intrínseca que Fujimoto vê como necessária ao desenvolvimento de uma nova concepção do espaço arquitectónico. “Esta casa não tem exterior real, nem interior real. Toda a área revela-se apenas “entre”. Neste conceito não há cidade, não há nenhuma casa, apenas níveis de intermediação. Fujimoto conclui: “Imaginei que a cidade e a casa não são diferentes um do outro, mas antes expressões diferentes da mesma coisa – a ondulação de um espaço primordial onde os seres humanos habitam. A Casa N é um objecto seminal, no qual tudo, desde as origens do mundo até uma casa específica, é concebido por um único método. *Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


perspectivas Jorge Rodrigues Simão

A UNIÃO EUROPEIA, PRÉMIO NOBEL DA PAZ “Our world is changing fast. It contains new dangers but also many opportunities. The EU has a major contribution to make, in at least two respects. Both through what it is: a highly successful example of building peace through integration; and through what it does - by promoting global security through co-operation.” High Representative for the CFSP Javier Solana 2005

A UNIÃO EUROPEIA foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz por mais de seis décadas de contributo para a construção e reconciliação dos países europeus, promoção e consolidação da paz, da democracia e dos direitos humanos na Europa. A UE era uma forte candidata há muitos anos e o Comité Nobel constituído por membros nomeados pelo Parlamento da Noruega, veio confirmá-lo, honrando a família europeia com mais de 495 milhões de pessoas, representando a terceira maior população do mundo, depois da China e da Índia. Apenas o Prémio Nobel da Paz é atribuído pela Noruega, sendo os restantes pela Suécia. A Noruega, que a 11 de Maio 1967, apresentou o seu pedido de adesão à CEE, conjuntamente com o Reino Unido, Dinamarca e Irlanda, vetado pela República Francesa, tendo então, como presidente o general Charles de Gaulle. A Noruega, assinou o Tratado de Adesão à CEE, em 22 de Janeiro de 1972, conjuntamente com a Dinamarca, Irlanda e Reino Unido. A 1 de Janeiro de 1973, a Dinamarca, Irlanda e Reino Unido tornaram-se Estados-membros da CEE. A Noruega, por força dos seus referendos de 1972 e 1994 rejeitou a adesão à CEE, que desde 1 de Novembro de 1993 é designada por UE, pelo Tratado da União Europeia. O ano de 1994, ficou assinalado pelos referendos na Finlândia e na Suécia que confirmaram a sua vontade de aderir à UE. Pelo Conselho Europeu de Corfu, realizado entre 24 e 25 de Junho de 1994, a Áustria, Finlândia, Suécia e Noruega assinaram os respectivos Tratados de Adesão à UE. A 1 de Janeiro de 1995, apenas a Áustria, Finlândia e Suécia tornaram-se Estados-membros da UE. A Noruega apesar de não ser Estado-membro, mantém estreitas relações comerciais com a UE. A Noruega conjuntamente com a Islândia são os únicos países nórdicos não Estados-membros da UE, mas pertencem à “European Free Trade Association (EFTA) - A Associação Europeia de Livre Comércio (AELC)”. Os restantes países membros da EFTA são a Suíça e o Liechtenstein. A EFTA foi constítuída, em 4 de Janeiro de 1960, em Estocolmo, sendo seus membros fundadores a Áustria, Dinamarca, Portugal, Noruega, Reino Unido, Suécia e Suíça. A Finlândia aderiu em 1961, a Islândia em 1970 e o Liechtenstein em 1991, tendo os restantes países fundadores abandonado a organização, após a

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

sua adesão à CEE. A EFTA tem por objectivo a criação de uma zona de livre comércio, e cujo mecanismo fundamental é alicerçado na abolição de impostos aduaneiros, relativamente aos produtos importados de países membros, incrementando dessa forma o seu comércio. A CEE celebrou com a EFTA, em 1973, um acordo de criação de uma zona de comércio, tendo em 1992 sido designado por “Espaço Económico Europeu (EEE)”, não tendo a Suiça ratificado, por força do referendo negativo realizado no final desse ano. O projecto de integração europeia tem sido um dos grandes ausentes na família dos galardoados com o Prémio Nobel da Paz. Uma ajuda à paz em que algums efeitos ou consequências estão pendendentes de séria verificação, e que tem revelado profundas rupturas na construção da integração europeia e que criou a sensação na opinião pública europeia, de que o executivo comunitário, mostra-se com frequência distante da sociedade europeia e é demasiado burocrático.

tre a Alemanha e a França, o que demonstra como, por meio de esforços bem intencionados, alicerçados na construção de uma relação de confiança mútua, os históricos inimigos se converteram em estreitos aliados. A 28 de Maio de 1979, foi assinado o Tratado de Adesão da Grécia à CEE, tornando-se seu Estado-membro, em 1 de Janeiro de 1981. A 28 de Março de 1977, Portugal apresentou o seu pedido de adesão, seguido da Espanha que o concretizou, em 26 de Julho do mesmo ano. A 12 de Junho, foram assinados os Tratados de Adesão de Portugal e Espanha à CEE. A 1 de Janeiro de 1986, Portugal e Espanha tornaram-se Estados-membros da CEE. Nasceu a Europa dos Doze. Nestas três adesões, a democracia foi um requisito essencial para que se pudessem juntar ao clube comunitário. A queda do muro de Berlim, em 9 de Novembro de 1989, tornou possível a incorporação na UE de países da Europa Central e Oriental , abrindo uma nova era na história da integração europeia.

A UE é um projecto muito valioso para o mundo que deve ser conservado, apesar da onda crescente de euroceptismo. Maior significado reveste quando a nomeação é feita por uma comissão nomeada pelo parlamento de um país que pediu a adesão ao projecto europeu e por duas vezes rejeitou integrá-lo O projecto de integração europeia nasceu das ruínas da Segunda Guerra Mundial, por iniciativa do Reino da Bélgica, da República Federal Alemã, da República Francesa, da República Italiana, do Grão-Ducado do Luxemburgo e do Reino dos Países-Baixos, que celebraram o Tratado de Roma, em 25 de Março de 1957, pelo qual criaram a CEE e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (CEEA ou Euratom), que entraram em vigor a 1 de Janeiro de 1958. A UE, ajudou a estabilizar o continente europeu que vivia em permanente conflito. A UE é um projecto de integração da Europa, que não chegou ao final e que desde 1945, com muitos avanços e recuos, contradições e erros, mas também muitos méritos, tem realizado dentro do possível a reconciliação da familia europeia. O enorme sofrimento da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, demonstraram até à exaustão ao mundo a necessidade de uma nova Europa. A Alemanha e França combateram em três guerras, num período que totalizou mais de setenta anos. O mundo no presente é bem distinto da primeira metade do século passado, sendo impensável um conflito armado en-

A divisão entre a Europa Central e Oriental tinha chegado ao seu fim. A Alemanha reunificou-se. A democracia fortaleceu-se, e muitos conflitos étnicos foram resolvidos. A UE é um projecto de integração europeia em permanente construção. A 30 de Março de 1998, iniciaram-se as negociações de adesão de Chipre, Eslovénia, Estónia, Hungria, Malta, Polónia e República Checa. A 10 e 11 de Dezembro de 1999, o Conselho Europeu de Helsínquia alargou as negociações de adesão à Eslováquia, Bulgária, Lituânia, Letónia e Roménia e reconheceu à Turquia o estatuto de país candidato. A 13 de Dezembro de 2002, o Conselho Europeu de Copenhaga aprovou a adesão de Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Lituânia, Letónia, Hungria, Polónia, Malta e República Checa, marcada para 1 de Maio de 2004, e aceitou fixar uma data para o início das negociações com a Turquia. A 16 de Abril de 2003, foram assinados em Atenas os Tratados de Adesão dos 10 futuros Estados-membros. A 1 de Maio de 2004, Chipre, Eslováquia, Eslovénia,

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Estónia, Lituânia, Letónia, Hungria, Polónia, Malta e República Checa tornaram-se Estados-membros da UE. Nasceu a Europa dos Vinte Cinco. A 13 de Abril de 2005, o Parlamento Europeu aprovou a adesão da Bulgária e da Roménia na UE, prevendo a respectiva entrada para 2007. A 1 de Janeiro de 2007, a Bulgária e a Roménia tornaram-se Estados-membros da UE. Nasceu a Europa dos Vinte e Sete. Foi pedida em 2009, por parte da Albânia, Bósnia, Croácia, Macedónia, Montenegro e Sérvia que fosse acelerada a sua integração. Primeiro, a crise financeira internacional e a recessão nos países da Europa Oriental frearam o ritmo de expansão da UE à adesão de novos Estados-membros. Na altura, a França e a Alemanha alertaram que não seria oportuno acelerar o processo de novas adesões, face à possibilidade da ruptura dos compromissos de um dos novos Estados-membros, significar uma pesada carga para os restantes Estados-membros. Segundo, a crise na “Zona Euro” pôs em relevo as dificuldades da solidariedade entre os Estados-membros que procuram proteger os seus interesses. As economias ricas do Estados-membros do Norte da UE, controlam a ajuda aos restantes Estados-membros financeiramente estrangulados pela dívida. Todavia, a possível próxima incorporação da Croácia no Clube dos Vinte e Sete, o início das negociações com o Montenegro e a concessão do estatuto de candidato à Sérvia são decisões que reforçam o processo de reconciliação nos Balcãs. Na última década, a possibilidade da Turquia aderir à UE trouxe melhorias para o seu processo democrático e para a área dos direitos humanos. O trabalho desenvolvido pelas instituições comunitárias reflecte a política de fraternidade e solidariedade entre as nações, assemelhando-se aos congressos da paz, que refere Alfred Nobel nos critérios para a concessão do Prémio Nobel da Paz. Passadas décadas é consertada uma injustiça histórica, que serve de estímulo maior para mais largos e profundos avanços no processo de integração europeia, nomeadamente, na união política, económica e monetária. É também uma mensagem para valorizar em maior grau o espaço de liberdade, justiça, democracia e direitos humanos. O galardão ora atribuído à UE, resume a mensagem dirigida não só à galardoada, mas a toda a comunidade internacional para que prossigam sem hesitações no processo de integração europeia, apesar das dificuldades tremendas provocadas pela crise. A UE é um projecto muito valioso para o mundo que deve ser conservado, apesar da onda crescente de euroceptismo. Maior significado reveste quando a nomeação é feita por uma comissão nomeada pelo parlamento de um país que pediu a adesão ao projecto europeu e por duas vezes rejeitou integrá-lo.


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嫦娥

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

CHANG’ E, A DEUSA DA LUA A HISTÓRIA da deusa da Lua ocorreu no tempo da governação de Yao Di, um dos Cinco Soberanos da antiguidade chinesa, como é referido no Livro das Montanhas e dos Mares escrito no Período dos Reinos Combatentes e no Huainanzi, um livro compilado por Liu An (179-122 a.C.). Se sobre este ponto todos os livros que falam sobre a deusa da Lua estão de acordo, já várias são as versões que levaram Chang’ E a beber toda a porção do elixir da imortalidade oferecida ao seu marido, Hou Yi, pela deusa Rainha-Mãe do Oeste. O arqueiro Yi, um deus que desceu à Terra por ordem do imperador do Céu para eliminar 9 dos 10 sóis, terá querido aí permanecer para poder viver com a sua amada, Chang’ E. Aqui começam as discrepâncias entre os relatos. Lendas há que dizem ser Chang’ E e Hou Yi seres celestiais enviados à Terra pelo Imperador de Jade para indagar as causas do caótico estado em que aí se vivia. Para resolver o problema, o arqueiro matou os nove filhos do Imperador do Céu e este, furioso, como punição baniu-os para o mundo terreno. Outra versão fala da inveja de alguns deuses que foram intrigar junto ao Imperador do Céu contra Hou Yi e por isso, os dois celestiais seres foram castigados a viver na Terra para sempre. No entanto, outra lenda diz ser Chang’ E uma mortal e Hou Yi ter feito uma viagem até às montanhas Kunlun no intuito de conseguir o elixir da imortalidade, para poder viver eternamente com a sua amada. Com o seu intento alcançado, regressou para junto da sua esposa e combinaram tomá-lo numa ocasião especial. A Rainha-Mãe do Oeste quando entregou a Hou Yi a porção mágica advertira-o que, apesar de ser pouca, era

suficiente para que ambos ao tomá-la pudessem viver eternamente. Mas se fosse ingerida toda por uma só pessoa, esta transformar-se-ia num ser divino e voaria para o Céu, nunca mais podendo regressar à Terra. Quanto ao carácter de Chang’ E há versões que dizem ser esta uma mortal de origem humilde e devido à sua ânsia para se tornar uma deusa aproveitou a ausência do seu marido para ingerir todo o precioso líquido. Já Qu Yuan, num poema intitulado Tian Wen, minimiza tal atitude, apontando como causa Hou Yi ter-se enamorado de uma outra mulher. Mas outras versões referem que um dos melhores discípulos do arqueiro Yi ao saber que o seu professor possuía o elixir, matou-o e dirigindo-se depois à casa dele encontrou-se com Chang’ E. Esta não lhe quis entregar o elixir e para que não caísse nas mãos erradas, ela bebeu-o todo. Perdendo a sua densidade material, flutuou e foi parar à Lua, onde se encontra ainda hoje a viver no Palácio de Guanghan. Triste, aí se encontra acompanhada pelo Coelho de Jade e por Wu Gang, que como castigo para aí foram expulsos pelo Imperador do Céu. Seguindo a ideia de Chang’ E ter sido castigada, Li Shangyin, um poeta da dinastia Tang escreveu: “Chang’ E, arrependida de ter bebido às escondidas o elixir, passa as noites sozinha anelando o mar e o céu azul.” As pessoas prestam homenagem à deusa da Lua na noite do Festival Meados de Outono, que ocorre no dia 15 da oitava Lua. Em Macau, que saibamos, esta deusa não está representada em nenhum templo, aparecendo apenas representada durante esta festividade numa das praças da cidade.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Os sentimentos são conexões interiores providas de um impulso de agir exteriormente.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 20 O comportamento dos reis sábios não magoava os sentimentos das pessoas; mesmo quando os reis se deleitavam, o mundo estava em paz. Os reis malévolos denegaram os verdadeiros e os declararam fora da lei. Assim, quando se deleitavam tudo se tornou ruína. Quando o apego e a aversão começaram a predominar, a ordem e o caos seguiram os seus caminhos. ***

Em tempos muito recuados, existiram homens que viviam no desconhecido primordial, sem que o seu espírito e energia pudessem fluir para fora. Para eles, tudo era paz e, como tal, eram calmos e felizes. As energias perniciosas dissipavam-se sem os atingir. Nesse tempo, a maioria dos homens era selvagem. Não sabiam distinguir o oriente do ocidente. Vagabundeavam aqui e ali em busca de comida e, depois de terem comido, batiam na pança e brincavam. As suas relações estavam imbuídas de harmonia natural e se alimentavam das bênçãos da terra. A cultura é um modo de unir as pessoas.

Os sentimentos são conexões interiores providas de um impulso de agir exteriormente. Oblitera os sentimentos através da cultura e perderás o sentimento. Destrói a cultura através dos sentimentos e perderás a cultura. Quando a cultura é ordeira e os sentimentos são comunicados, tal é o pico do desenvolvimento humano. E tal significa que adoptar uma visão geral constitui uma virtude. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


FERNANDA DIAS Uma leitura do

YI JING O SOL, A LUA

E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa


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