PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2891. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
ARTES, LETRAS E IDEIAS
h LISBOA A CIDADE SAGRADA
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LISBOA ESOTÉRICA A CIDADE SAGRADA A PRAÇA DO COMÉRCIO OU TERREIRO DO PAÇO FOI CONSTRUÍDO SEGUNDO O SAGRADO “LIVRO DE THOT”, MAIS CONHECIDO PELO NOME DE TAROT, ENQUANTO A RUA AUGUSTA, LADEADA PELAS RUAS DO OURO E DA PRATA, COM O ARCO MONUMENTAL, CONSTITUEM UM CONJUNTO ARQUITECTÓNICO MAS INICIÁTICO CAPAZ DE NOS ABRIR OS OLHOS PARA O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA CIDADE DE LISBOA. PARA VITOR ADRIÃO, UM CABALISTA E TEÚRGICO, “LISBOA É A CIDADE DA VELHA MÃE LUSINA, COMPANHEIRA DO DEUS LUG, A GRANDE DEUSA DOS LÍGURES E DOS CELTAS, A BOA LUSI OU LUSINA, A LUSIBONA OU LISIBONA”. Vítor Mendonça Existe alguma relação entre a cidade de Lisboa e o antigo culto ao deus Lug? Lisboa está internamente ligada ao ancestral culto do deus Lug, divindade suprema do panteão Lígure que, além de resistir à invasão dos Celtas, assimilou os ocupantes recém-chegados, legando-lhes os seus lugares (lug+ara, altar de Lug) de culto, as suas montanhas, rios e pedras sagradas. Lug, deus tão antigo e poderosamente enraizado que ainda hoje lhe surpreendemos o alento e os vestígios na toponímia das Gálias e em todo o espaço da Península Ibérica onde os Árabes não impuseram a sua presença e cultura. Entre esses vestígios quais são os mais os mais antigos ou possíveis de divulgar? São as marcas indeléveis da presença de Lug, os lugares “Lug”, como os de Logroño e Lugo, no caminho de Santiago de Compostela e nos trilhos iniciáticos da História Secreta da Península Ibez a Ibéria. Raízes ancestrais impregnando de
mistério a cidade da boa deusa Lusi e do grande Lug, obreiro universal, demiurgo, mestre de artes e alquimista, músico, guerreiro e mago, o pode- roso tutelar da Lusitânia que os Lígures e os Celtas transportaram consigo na sua marcha para o Sul, em direcção ao Grande Ocidente, pela rota da Via Láctea e da Estrela do Cão, isto é, de Ísis e de Osíris ou estrela Sirius, nos confins da Terra, “as finis-terrae”. Existe algum significado simbólico no facto de Lisboa ser uma cidade com sete colinas? Lisboa, como todas as cidades de sete
colinas a exemplo das quais apontarei Jerusalém e Roma, dentre outras, é considerada pela Tradição Teúrgica uma urbe sagrada. Decifrando-se o seu próprio nome de Lisboa (Lis+Boa), teremos a sacralidade do lugar desvelada. A Flor de Liz, símbolo de Iniciação e Mistério, representa o Sol Tríplice ou Santíssima Trindade expressa na figura Pontifícia e Imperial de Melki-Tsedek, o Prestes João, o “Vicente, corvo-humano” nos Painéis de Nuno Gonçalves. O termo “Boa” além de designar a “água” designa também a coluna salomónica Boz ou Bohaz, pilar de Deus sito aos pés do Tejo,
LISBOA, COMO TODAS AS CIDADES DE SETE COLINAS, A EXEMPLO DAS QUAIS APONTAREI JERUSALÉM E ROMA, DENTRE OUTRAS, É CONSIDERADA PELA TRADIÇÃO TEÚRGICA UMA URBE SAGRADA.
no Cais, portanto lugar representativo da cidade. Indicando a Beleza Universal, nela está a Força e o Rigor com que termina o nome de Lisboa, e nessa coluna a Lisboa cidade aos pés do Tejo finda. Há quem afirme que Lisboa foi fundada por Ulisses e sua contraparte Ulissipa... Ulisses e a sua contraparte Ulissipa são formas helénicas e antropomórficas do “celtizados” Lug e Lusina, designando astrolaticamente o Sol e a Lua. Na realidade, quer uns quer outros, encobrem realidades mais profundas remontando à própria Atlântida quando Lisboa foi fundado pelo Príncipe Lissipo e a Princesa Lissipa, filhos da Rainha Ulisi-Pa ou Ibez (donde derivaria o onomástico hebreu Ibéria) e do Rei Mani-Pura, Curavia ou Curata, Senhor dos Nagas ou “Seres Serpentários”, Ofiússas, do Patala (aqui, o “Ocidente”), segundo velhos textos do Oriente, Sacerdotes Iniciados de uma Ordem de Santos e Sábios ou “Homens-Serpentes”, remontando daí a Tradição de que Lisboa é a cidade da “Grande
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Serpente” (Kundalini), e as sete colinas os “seus sete anéis”. Também a tradição, lavrada em textos velados, de que a Princesa Lissipa deixou cair ao Rio o seu anel com um pentagrama esculpido com pedras preciosas e que depois foi encontrado no buxo de um peixe acabado de pescar, é indicativo de que Portugal já na Atlântida estava sob a égide do signo de Peixes e que Lisboa já então se revelava pelo Feminino Iluminado, a Ofiússa ou Sibila, dando o seu contributo a uma longínqua mas pressentida “5.ª Coisa” a fazer. Enfim, para nós realidades inserta no que chamamos a História da Obra Divina, mas para outros factos, se é que alguma vez os foram, profundamente contestáveis, sem dúvida, e que as fábulas e contos locais se encarregaram de encobrir sob o véu da fantasia e do fado que, mesmo assim, chora a saudade.
ro-livre e escultor francês Camels. Ele representa aí Ibez ou Ibéria, aqui como Grande Mãe Universal, laureando, coroando Apolo e Minerva, a Iluminação e o Entendimento. Ela é a Laureada, a “Coroa dos Magos” da 22.ª lâmina do Tarot.
OS ARCOS E OS ARCANOS DO TAROT
O TERREIRO DO PAÇO
Que simbologia pode conter a Praça do Comércio ou Terreiro do Paço? O Terreiro do Paço, na disposição linear do seu talhe, no alinhamento das suas artérias, no ritmo geométrico da sua arcaria é a lâmpada de Aladino (Allah-Jin, em persa) que franqueia a porta que conduz à gruta subterrânea, onde jazem os maravilhosos tesouros escondidos, até aqui, aos olhares profanos. A Praça dos Arcos é o átrio que nos conduz ao Santuário das sete colinas, o Templo da Sabedoria. E o famoso Arco da Rua Augusta? O Arco da Rua Augusta tem profundo significado esotérico. Todas as cidades alicerçadas sobre sete colinas possuem o seu Arco do Triunfo ou da Salvação. O de Lisboa é a síntese sagrada e também estética dos demais espalhados pela Europa e Médio-Oriente. Designa o Umbral dos Mistérios, a passagem das trevas para a Luz, da morte para a Imortalidade que a Sabedoria das Idades concede. Neste Arco encontram-se as figuras de quatro personagens importantes de nossa História: Viriato, chefe dos Lugsignan, os Lusitanos, que deram o sentido da Nacionalidade nascente; Vasco da Gama, almirante da Ordem de Cristo e que ligou a Ásia à Europa por Via Atlante, quer é dizer, Marítima; Sebastião de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que coadjuvado por operativos maçónicos ingleses, franceses, húngaros e portugueses, reconstruiu a velha Lisboa depois do terramoto de 1755 e ordenou reformas sociais as quais abriram um novo ciclo na nossa História; e o Santo Condestável Nuno Álvares Pereira (ligado à Casa de Bragança que, por Lei de Causalidade, veio depois a governar o Brasil, sendo o seu primeiro Governador Geral D. Tomé de Souza), o qual alguns teimam em associar à figura do Infante D. Henrique, também este vulto imponente na História Portuguesa que o torna deveras ímpar, indo a sua influência directa desde as conquistas militares à abertura de novas cadeiras universitárias, ao apoio às Ordens de Cavalaria e Religiosas, até chegou ao ci-
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O ARCO DA RUA AUGUSTA TEM PROFUNDO SIGNIFICADO ESOTÉRICO. TODAS AS CIDADES ALICERÇADAS SOBRE SETE COLINAS POSSUEM O SEU ARCO DO TRIUNFO OU DA SALVAÇÃO. O DE LISBOA É A SÍNTESE SAGRADA E TAMBÉM ESTÉTICA DOS DEMAIS ESPALHADOS PELA EUROPA E MÉDIO-ORIENTE.
clo das Descobertas marítimas que já se habitou chamar de Período Henriquino, sob o signo do Prestes João, já indício da vindoura Era do Aquário de abertura e expansão universal. Ladeando essas quatro personagens estão as estátuas alegóricas do Tejo e do Douro, precisamente os divinos Génios de Lisboa e do Porto, as cidades-gémeas expressivas das colunas salomónicas Bohaz eJakin, precisamente expressadas
nas cores negra e branca patentes na bandeira da sempre nobre e leal cidade de Lisboa. Quem foram os autores dos dois grupos escultóricos dos quais nos acaba de decifrar o significado? O grupo escultórico de que acabamos de falar é da autoria de Vítor Figueiredo de Bastos, enquanto o grupo alegórico que encima o Arco foi obra do pedrei-
Se existem analogias com o Tarot, no Arco, haverá mais representações simbólicas do Tarot ou Terreiro do Paço? O Livro de Thot, mais conhecido pelo nome de Tarot é, como se sabe, constituído por 78 cartas ou lâminas, originalmente de ouro fino ou crisopeico e prata argiopeica, pertencendo as primeiras 22 lâminas aos Arcanos Maiores, ou Esotéricos, e as restantes 56 aos chamados Arcanos Menores, ou Exotéricos. Existe uma intencionalidade na própria arcaria do Terreiro do Paço ultra- passando, sem dúvida, a sua função estrutural da sua arquitectura. Os edifícios laterais contêm 28 arcos cada um, cuja soma total é de 56 arcos, ou Arcanos Menores. Na fachada principal, entre as Ruas do Ouro e da Prata, contamos, por outro lado, 22 arcos, 11 em cada direcção, a partir da Rua Augusta. Ora 22 arcos correspondem, exactamente, ao número dos 22 Arcanos Maiores ou Iniciáticos. Se aplicarmos a cada arco o arcano que lhe corresponde, possuímos a chave interpretativa de um ciclo completo de manifestação: relativamente aos 56 arcos, a manifestação profana, e quanto aos 22 arcos frontais, entre as Rua do Ouro e da Prata, a realização oculta. Sobre isso, cito agora um trecho, datado de 30.7.1951, de uma obra impublicável do Prof. Henrique José de Souza, “O Livro do Loto”, e que tem a ver com tudo quanto vimos dizendo: “Repare-se como o Arco da Rua Augusta se parece com o do Palácio da Aclamação, na capital baiana. VIRTUTIBUS MAIORUM (melhor dito, MAJORUM), é o lema da Rua Augusta. De cada lado do referido Arco da Rua Augusta, figuram 11 portais. Ele é, portanto, o 23.º, como primeiro Arcano Menor. A estátua do frontispício, na sua parte mais alta, coroa um Homem e uma Mulher. Em baixo também se fala num DOCUMENTO P.P.D., que antes deveria ser L.P.D. Deve ser um lema latino referente a PORTUGAL”. Podemos considerar Lisboa como uma das cidades europeias mais ricas, sob o ponto de vista monumental? Lisboa é, de facto, a capital da Europa no contexto monumental, não esquecendo a arte vitral, a azulejaria e a pintura. Talvez os painéis de Nuno Gonçalves quiçá sejam o maior exemplo, e certamente não estão devidamente lidos e interpretados, pois este Políptico encerra a génese e linhas gerais do desenvolvimento Lusitano e Ibérico no geral, muito além da interpretação vulgar que tão mal se é uso e costume dar-se-lhe. Por isso e por toda a beleza e grandiosidade estética e esotérica de Lisboa, apelo às respectivas autoridades para que concedam uma maior protecção ao
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nosso maravilhoso património nacional, particularmente ao património lisboeta, afinal de conta, a nossa Memória, a Memória do Povo Português. É sumamente doloroso, e só arrancando lamentos d´alma, ver-se hoje tão maltratado o património monumental da capital, vítima da poluição motora e da inconsciência de partidários políticos ou desportivos, servindo-se dos monumentos como quadros para borrar os seus “slogans” e símbolos, sujando e destruindo a nossa estatuária ímpar. A perder-se será algo irrecuperável pois com ela se perderá muito da nossa Alma Lusitana, ademais, os Mestres Arquitectos e Canteiros há muito que se foram...
Ocidente / Quando a Porta se abrir lá do Oriente / Será cousa pasmosa quando o Indo / Quando o Ganges trocar, segundo vejo / Seus (divinos) efeitos com o Tejo”.
ARTÉRIAS DA BAIXA E O CADUCEU DE MERCÚRIO
Gostaríamos de voltar às três ruas da”Baixa”. Qual o seu significado? Do Terreiro do Paço partem as principais artérias: Rua Augusta, Rua do Ouro e Rua da Prata. Quando dizemos artérias aplicamos o termo próprio, pois é de artérias que se trata. As Ruas do Ouro e da Prata, com a Rua Augusta, representam o caduceu de Hermes, ou de Thot, e como é sabido, o caduceu compõe-se duma coluna central em torno da qual sobem duas serpentes, uma dourada e outra prateada, respectivamente uma solar e outra lunar. Estas serpentes representam e são as artérias pelas quais flui a energia serpentina vital, desdobrada nos seus dois aspectos complementares: o lunar que é frio e passivo, enquanto o solar é quente e activo. Na simbólica tradicional o ouro expressa o Sol e a prata a Lua. Torna-se claro que a Rua do Ouro corresponde ao aspecto solar do caduceu, a Rua da Prata ao lunar e que, finalmente, a Rua Augusta simboliza o bastão central, canal de fusão e síntese destas duas forças polares. Através do caduceu pombalino temos acesso às sete colinas ou selos da Boa Liz: S. Vicente, em Alfama; St.º André, na Graça; S. Jorge, na Mouraria; S. Roque, no Bairro Alto; St.ª Catarina, a partir do Camões; Santana, sobre o Largo da Anunciada, e Chagas, no Carmo. Interpretar estes sete padroeiros é interpretar o enigma críptico de Lisboa, que aqui não nos cabe fazer.
O CAVALEIRO DA ESTÁTUA
No centro do Terreiro do Paço está a estátua que se diz ser de D. José, da autoria de Machado de Castro, templário e escultor da escola de Mafra. Será que também nela se manifesta um simbolismo oculto? Há que saber ver e ler, para além do simbolismo aparente, o verdadeiro significado da estatuária deste aro esotérico da Baixa Pombalina, tanto mais que todos os seus escultores houveram talhado o seu carácter, saber e arte no escrínio iniciático de Confrarias esotéricas, fossem (Neo) Templárias, fossem Maçónicas. O cavaleiro da estátua, empunhando o ceptro imperial mandatário e cobrindo-se com um manto, quiçá vermelho, semelhante aos que usavam os cavaleiros da ordem de Cristo e cuja montada branca esmaga as serpentes, sugere ser a própria imagem de S. Jorge, para a Tradição, o Vigilante Silencioso da Pátria Lusitana, expressando na Terra ao próprio e psicopompo S. Miguel, afinal, este o Metraton para aquele o Sandalphon. O anjo da trombeta, junto do elefante, e o anjo da palma, junto dum cavalo, ambos esmagando o homem velho e a profanidade, designam as Tradições Iniciáticas Oriental-Ocidental unidas, encontradas em Portugal, onde acaba a terra e o vasto mar começa. Atrás do cavaleiro, nas costas da estátua, encontra-se esculpida a alegoria da aparição do Menino Coroado, sob o apadrinhamento de sua Santa Mãe, sugerindo o futuro Reinado do Espírito Santo, tese já perfilhada pelo abade cisterciense da Calábria, Joaquim de Flora, no século XIII. A arca aberta de um tesouro está aos pés do Menino, e um arquitecto mostra-lhe o plano da Nova Lisboa. Ilustração semelhante a essa encontra-se numa tapeçaria no Convento de Mafra. Por falar em Mafra, símile do Templo de Salomão, as suas dimensões são exactamente as mesmas do Terreiro do Paço e onde se encontra, naquele, o seu altar-mor, está neste precisamente a estátua equestre de D. José I ou de S. Jorge, aqui nesta Praça dos Arcos ou Arcanos. Terrível coincidência, mais por causalidade do que por casualidade... Mais uma vez, a sibilina profecia de Sintra faz eco: “Patente me farei aos do
DA CONCEIÇÃO VELHA AO CASTELO DE S. JORGE O ANJO DA TROMBETA, JUNTO DO ELEFANTE, E O ANJO DA PALMA, JUNTO DUM CAVALO, AMBOS ESMAGANDO O HOMEM VELHO E A PROFANIDADE, DESIGNAM AS TRADIÇÕES INICIÁTICAS ORIENTAL-OCIDENTAL UNIDAS, ENCONTRADAS EM PORTUGAL, ONDE ACABA A TERRA E O VASTO MAR COMEÇA. ATRÁS DO CAVALEIRO, NAS COSTAS DA ESTÁTUA, ENCONTRA-SE ESCULPIDA A ALEGORIA DA APARIÇÃO DO MENINO COROADO, SOB O APADRINHAMENTO DE SUA SANTA MÃE, SUGERINDO O FUTURO REINADO DO ESPÍRITO SANTO
Aqui, na Rua da Alfândega, existe a igreja da Conceição Velha, cujo pórtico é maravilhoso. Quais as figuras mais representativas do monumento? Junto do Terreiro do Paço temos a igreja de Conceição a Velha, o que nos remete à primitiva Concepção alquímica representada no Velho Testamento por Binah, tanto que antes de D. Manuel I este templo fora a sinagoga dos alfamitas ou residentes de Alfama. A sua fachada exterior, um misto de Gótico e Manuelino, respira e transpira o Feminino transcendente, o Marianismo, ou seja, expressa o aspecto matriarcal de Lisboa Oriental, representado pelo “Braço de Prata”, e também as várias fases da Grande Obra Teúrgica/Alquímica, noutros termos, Ergon e Paraergon. Sendo a leitura desta fachada longa e exaustiva, apontarei somente uma personagem, a da coluna central, suporte de todo o eixo escultórico, vestida de varina mas portando a espada e a balança: é a antropomorfização da própria Lisboa. A Bela Luz de Vénus que influi na nossa cidade sob a égide do signo zodiacal da Balança, profunda-
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mente ligada às origens histórica e teúrgica do Homem e da Cidade. Penso mesmo que os motivos ornamentais do Arco da Rua Augusta acaso ter-se-ão inspira- do nas figuras herméticas desta fachada e do seu complemento no extremo oposto da cidade, na rota da “Costa do Sol”: a fachada de Santa Maria, no Ocidente do Mosteiro de Belém, a entrada principal que se ficou devendo ao cinzel do mestre-canteiro francês Nicolau de Chanterene, reinando D. Manuel I. Aliás, a imagem da Senhora da Estrela (donde, por corruptela, “Restelo”) ou dos Reis Magos, uma Virgem Negra, da devoção extremada do Infante Henrique de Sagres, foi trasladada da capela do Restelo para Conceição a Velha, em procissão triunfal, pelos freires da Ordem de Cristo, ainda durante o reinado do supradito rei “Venturoso”...
do planetário deus Neptuno que regem Portugal, o Portugal da Divina Mãe, Marum, Mare, Maris, Mariz... o Portugal das sempieternas Águas renova- doras, purificadoras e purificadas, verdadeiro Fogo Líquido que se esparge lustralmente como Luz das Nações, dos Ciclos do Mundo, e que se centra em Lisboa, esta a pretendida Capital do V Impé- rio do Espírito Santo, aportando à memórias as profecias e lances vaticinadores do Padre António Vieira, de Gonçalo Anes o Bandarra, de Fernando Pessoa, de Guerra Junqueiro e mesmo de Camões quando cita em “Os Lusíadas”, no canto sétimo: “Via estar todo o Céu determinado / De fazer de Lisboa nova Roma / Não o podendo estorvar que destinado / Está de outro Poder que tudo doma”.
Daqui, de onde estamos, vê-se o castelo de S. Jorge. O que nos pode dizer sobre essa construção? Pegando na geografia sagrada da cidade e transpondo-a, por analogia, à anatomia humana, teremos o castelo de S. Jorge como o Mental regente de Lisboa. Durante largos séculos, aí estiveram os paços reais. Foi aí que Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Cristovão Colombo, nome guemátrico em que se encobria o português Salvador Gonçalves Zarco, por exemplo, receberam a aprovação da Corte para a demanda de novos mundos para o Mundo Luso. Sobre o castelo cintila o planeta Júpiter e sendo Júpiter, na Mitologia, o Pai dos Deuses, Deus ou Zeus, não é de admirar que a Península Ibérica esteja sob a égide do signo do Sagitário, este que expressa o Fogo Volátil purificador, o Pater Aether, que se torna Líquido ou purificado, na concepção alquímica, o que é personificado pelo Tejo deslizando manso e dolente às muralhas desta fortaleza. E são exactamente os Peixes zodiacais
A Sé de Lisboa é alfobre de histórias incríveis. Edificada em três fases distintas, incluindo o paleocristão, o românico e o gótico, consideram-na um dos mais enigmáticos edifícios sacros da cidade. Tem a mesma opinião? A Sé Patriarcal de Lisboa, mandada edificar como templo cristão pelo rei D. Afonso I de Portugal, já teve no seu interior, e segundo certas tradições muito reservadas, a Taça do Santo Graal, a original. Ela esteve aí em custódia durante cerca de quatro séculos e o seu culto foi mantido em segredo por uma misteriosa Ordem de Santos Sábios, à qual as Ordens de Avis e do Templo deram cobertura exterior. Isto aconteceu depois do ano 985 da nossa Era. Diz-se mesmo existir uma ligação subterrânea entre a Sé, o Castelo e o Convento do Carmo e que uma maldição fatal cairá sobre o profano e curioso que ousar afrontar esses misteriosos trilhos. Mais não posso dizer. Na Sé encontram-se, desde o século XII, as santas relíquias do mártir S. Vicente,
O SANTO GRAAL TERIA ESTADO NA SÉ DE LISBOA
A SÉ PATRIARCAL DE LISBOA, MANDADA EDIFICAR COMO TEMPLO CRISTÃO PELO REI D. AFONSO I DE PORTUGAL, JÁ TEVE NO SEU INTERIOR, E SEGUNDO CERTAS TRADIÇÕES MUITO RESERVADAS, A TAÇA DO SANTO GRAAL, A ORIGINAL. ELA ESTEVE AÍ EM CUSTÓDIA DURANTE CERCA DE QUATRO SÉCULOS E O SEU CULTO FOI MANTIDO EM SEGREDO POR UMA MISTERIOSA ORDEM DE SANTOS SÁBIOS
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um dos padroeiros de Lisboa. No brasão da cidade figura a Nau, Barca ou Arca que transportou os restos mortais do santo e que acabou por aportar à costa dos Algarves, mais precisamente ao Promontório Sacro, a ponta de Sagres. Na barca, como elementos heráldicos, também figuram dois corvos, os quais e segundo a tradição, acompanharam, como fiéis e atentos guardiões, os despojos do mártir na sua estranha odisseia até esta Sé Metropolitana de Santa Maria Maior, depois convertida Patriarcal. O corvo, ave saturnina mas também solar, assimilando-se ao cisne negro e ao ganso negro, é o totem de Lisboa, o detentor da Sabedoria Divina e da Profecia “que perscruta o Passado e desvenda o Futuro”. Chegados que somos ao Rossio, neste passeio pela arquitectura esotérica de Lisboa, depara- mos com a coluna dedicada a D. Pedro IV. Como interpretar as figuras esculpidas? No topo desta coluna monumental avistamos D. Pedro IV que segura, com a mão direita, a Carta Constitucional de 29 de Maio de 1826. Esta obra foi adjudicada ao escultor Elias Robert e ao arquitecto Gabriel Davioud, ambos de nacionalidade francesa. Assemelha-se o monumento a um falo desflorado, a um “linga” hindu ou “mundus” latino, e tem, no sopé, os Quatro Anjos do Destino de quanto vive e se desenvolve no Globo, esses “Fantasmas Cósmicos” de Forças Maiores, por isso mesmo “Jinetes Anímicos”, estando demarcando estrategicamente, a partir do “mundus” central”, o espaço da “Lisboa quadrada”, correspondendo a cada ângulo um símbolo e naipe do Tarot, o que aliás cada um deles ostenta. Se uns lhes dão o nome de Mikael, Gabriel, Rafael e Auriel, então o quinto, representado pelo monarca no topo, futuro Imperador do Brasil, a “Nova Lusitânia” de Pedro de Mariz, acaso também será ele represen-
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tação régia do 5.º Senhor em formação desse mesmo V Império do Mundo que se está formando. Um pouco acima estão as Tágides, os “espíritos naturais” do Tejo, as quais formam um cordão protector ou cadeia de união. É realmente, um monumento muito belo portador de um arcaico e transcendente simbolismo que nos reporta, mesmo, às batalhas celestes entre Mikael Solus e Samael Petrus, as quais se terão reflectido, em nossa História, nas lutas sangrentas entre os absolutistas de D. Miguel I e os liberais de D. Pedro IV. Estes acabaram vencendo e se assenhoreando da Terra Lusa.
ESTAÇÃO DO ROSSIO
A frontaria da gare da estação do Rossio, terminal ferroviário que liga Lisboa a Sintra, está arquitecturada em gótico neoclássico. Qual o seu valor simbólico? Como o seu nome indica o gótico (da raiz gálica God, “Deus”) é um estilo que assinala a Ascese, a contemplação do Divino. Esta é a mais pura, sensível e estética expressão da arte arquitectónica de fixar na pedra antes bruta a polidez da Harmonia Universal, o que expressa o Gótico puro, que é flamejante, estilo cuja apoteose vai dos finais do século XIII aos finais do século XV. Na fachada da estação terminal do Rossio vêem-se duas arcadas cruzando-se à altura do nicho contendo a estátua de D. Sebastião, em tamanho natural, em atitude de defesa, a espada adiante do escudo inclinado 17 graus para a esquerda do possuidor. Seguindo um certo sentido, as arcadas sugerem as ferraduras do cavalo branco
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do Encoberto que não é o jovem sonhador de delírios funestos el-rei D. Sebastião, mas antes este o emblemático régio de um outro Rei muito maior que há-de vir, quiçá o próprio retorno do Cristo em Aquarius? Sebastião em hebraico é Sbhs ou “Serpente”, é o Grande Dragão da Sabedoria, e não foi por acaso que foi o santo mais querido dos Templários, assim como Santo André o Arquitecto, um outro dos padroeiros de Lisboa. Repito: o jovem rei do mesmo nome apenas simbolizou algo muito mais elevado. Que se acabe de vez com a confusão que a temática sebastianista, não raro levada ao rubro de certas políticas reaccionárias, tem provocado. Já o Miguel de Nostradamus, profeta visionário e hermetista, leva-me a lembrar a sua centúria 32 aquando fito a estátua do Encoberto, dentro do nicho: “O grande império em breve terá mudado / Em primeiro Lugar, que cedo crescerá / Lugar bem ínfimo dum exíguo Condado / Em cujo meio seu ceptro pousará”. Ou mesmo a estrofe 70 das trovas de Gonçalo Anes, o Bandarra: “Portugal tem bandeira / Com cinco quinas no meio / E segundo vejo e creio / Esta é a cabeceira / E fora sua cimeira / Que em Calvário lhe foi dada / E será Rei da manada / Que vem de longa carreira”.
OS RESTAURADORES COM PROMETEU LIBERTO?
Outro monumento, por sinal bem perto deste, que possui figuras escultóricas sobre o significado das quais poucos se debruçam apesar de passarem, muitas vezes, por perto é o Obelisco dos Restauradores. Poderá desvendar o significado destas figuras?
O Obelisco dos Restauradores, situado na praça do mesmo nome, por sinal com 33 metros de altura, é decorado com dois anjos ongénios, sendo o masculino da autoria de Alberto Nunes e o feminino realizado por Simões de Almeida, enquanto o obelisco se deve a António Tomás da Fonseca e foi erigido em 1886 por subscrição nacional, promovida pela comissão central do 1.º de Dezembro. O anjo masculino representa Prometeu Liberto, por seu Irmão Epimeteu ou Mercúrio; é Luzbel com os grilhões partidos, assim se assumindo na condição espiritual de Arabel e erguendo alto a Lança da Vitória, da Vitória da Libertação do Cáucaso ou “cárcere carnal”, representada objectivamente na restauração da Independência Nacional do jugo Filipino, e tudo junto a Vitória dos Deuses que restauraram os valores ancestrais de Lisboa e do Mundo. O escudo triangular a seus pés ostenta o trigo e a vide, logo, em referência em referência à Santa Eucaristia do Rito de Melki-Tsedek, este se assume, em linguagem teosófica ou iniciática, como o actual “Planetário da Ronda”, o Quinto dos Sete “Melki-Tsedek”, que é sobretudo uma função hierárquica directora suprema dos destinos da Terra e de quanto nela vive e evolui. O anjo feminino representa a contraparte do Senhor da Luz Restauradora, a Rainha do Mundo, Io, Ísis ou Algol, com outros nomes ainda, podendo-se corporificá-la também como a “Lusitânia Triunfante”, a Entidade que coroa e abençoa Lisboa, Portugal e o Mundo com a Palma da Vitória. Na destra ela segura o laurel da mesma Vitória Nacio-
nal e Espiritual, a décima 13.ª grinalda expressiva de “A Grande Mãe”, estando as restantes predispostas em grupos de três nos pontos cardeais do monumento. As Armas nos lados deste assinalam as forças temporais da guerra e da morte derrotadas pelos poderes intemporais da razão e do espírito, estabilizados no pólo de atracção energética que é o Obelisco. Mas Lisboa possui mais monumentos cuja descoberta do seu simbolismo esotérico muito daria que falar... Muito fica por dizer, de facto. Poder-se-ia falar, por exemplo, de quanto há de esotérico no antigo restaurante “Abadia” nas caves do Palácio Foz, nos Restauradores; da estátua portentosa do Marquês de Pombal, na rotunda que lhe leva o nome, cujo gradeamento em volta da mesma replete-se de alegorias maçónicas todas assentes sob o ceptro e o báculo, símbolos do Poder Temporal e da Autoridade Espiritual, e todo o monumento assente sobre a Barca de Portugal; do Convento do Carmo ou dos Carmelitas, descendentes daqueles cristãos primitivos, integrados aos Essénios, do Monte Carmelo, para as bandas da Palestina; da Basílica da Estrela, “símile” do Terceiro Logos, o Homem Cósmico Adam-Kadmon que na Terra é Adam-Heve; do Mosteiro dos Jerónimos e da Capela do Restelo, assim como da Custódia de Belém e da Virgem Negra Orago desses dois últimos templos. E mais, muito mais ficando por dizer e assinalar, a memória falha ante a fartura da Lisboa Artística e Monumental, nisto, repito, já hoje Capital da Europa.
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A DEFESA DA POESIA
Amélia Vieira «LE MONDE DOIT être romantisé», um livro encantador de Novalis que explica bem o porquê de um título destes. Composto por fragmentos que o Romantismo do século XIX europeu tinha um código genético repleto de gentes que eram mais ou menos aquilo que sobrou do Crepúsculo dos Deuses. De gentes que fizeram da Arte uma morada para os Homens e não um entretém de “soirées” dançantes, de “happenings” sem a largura de um vasto movimento. Os Românticos foram de facto excepcionais. A poesia começa por uma Barcarola, na rima do «Velho Marinheiro», a música dá-nos o melhor, a poesia transmite-nos como nenhuma outra o elo sagrado do Velo de Ouro dos dotes humanos. Holderlin, nascido ainda no século XVIII e a quem apelam de «Classicismo Romântico» foi o que melhor se deu no espírito poético de todos os tempos. O poeta será um «vaso sagrado» como todo aquele que se sacrifica aos deuses, terá de ser puro de coração e de mãos limpas de culpa. Aos Poetas, que é o que de mais essencial se disse sobre a poesia. Mas a nós cabe, sob a trovoada do deus, Ó poetas! Permanecer de cabeça descoberta, E com a própria mão agarrar o raio do Pai Pois se nós formos puros de coração, Como crianças, e as nossas mãos sem culpa, O raio do Pai puro não o queimará Nunca poderei explicar a forte impressão de ascese e religioso instante que é ler um poema de Holderlin, sempre e claro, traduzido por Paulo Quintela. Holderlin vai partir para França… Escreve a Schiller que não responde à sua carta, quer partir, vai partir para Bordéus, espera-o a miserável vida de preceptor, está exausto e triste, afinal, ele é um poeta e profundamente afectivo… Atravessa França a pé, e sabe da morte de Diotime, a sua amada. Este homem amigo de Shelley, por quem nutria uma admiração e amizade que
o marcariam, ele que pareceu desconhecer Goethe , ele que foi impulsionado a seguir a vida eclesiástica como o seu pai, um pastor protestante, foi o mais admirável e comovente dos Poetas. O Romantismo Clássico herança helénica , herança culturalmente onírica e poética, entendido. Foi um tradutor do grego, um excelente linguista, e ninguém melhor que Holderlin para tocar na interpretação de um poema como «A Morte de Empédocles».
Shelley é o mais destacado poeta do Romantismo europeu, por outro lado havia nos Românticos uma preocupação social sempre muito acentuada — veja-se os «Discípulo em Sais» do mesmo Novalis. Shelley dar-nos-á a sua «Defesa da Poesia» e é aqui que encontramos o mais clarividente aspecto acerca do mistério da criação artística e a função do poeta na Sociedade, o que dá resposta também a uma pergunta de Holderlin: para quê poetas em tempo de indigência? Esta obra era, no entanto, para rebater uma outra, tendo por isso intuitos polemísticos, intitulada « Four Ages of Poetry». No entanto, rebatendo-a com aquela fúria sagrada que por vezes assola os poetas, e que é linda de se sentir e ver, faz assim o mais belo livro de pensamento e de consciência poética da literatura europeia. Uma pequena passagem: “Um poeta, por ser para os outros o autor da mais elevada sabedoria, prazer, virtude e glória, deve pessoalmente ser o mais feliz, o melhor, o mais sábio e o mais ilustre dos homens.” É das obras mais estéticas e refinadas da cultura ocidental! Hugo von Hofmannsthal, o da «Carta de Lord Chandos» e amigo da filha de Rilke, escrevia-lhe dizendo que quando era mais novo poucos sabiam de Holderlin, sabiam que tinha enlouquecido, e que as suas obras esgotadas se encontravam nos alfarrabistas em primeira e única edição. No entanto, a sua estrela nefasta só aos trinta e seis anos se instala, até ao fim. Era um ser puro, megalómano e ingénuo, os poemas da loucura são êxta-
ses da corrente sanguínea do nosso cérebro. Ele afirma: só o Amor gira, a Terra e o Céu estão parados. Quem nos segura, quem nos toca a inadvertida lágrima perante a beleza que dele nos vem? Muitas vezes o amor fica imenso só de o invocarmos. Ele tem a génese daqueles que chamam ao Verbo um segredo que muda e transforma o homem. Para ele, «O que fica os Poetas o Fundam». Nerval é filho destes poetas, não tendo tido o mesmo resgate do Romantismo como força aglutinadora. Para ambos, a mulher divinizada é um elo. A trágica forma de chegarem ao inviolável silêncio de Deus. Um romântico que vai buscar a Antiguidade e o Oriente, porque mesmo tendo nascido depois, em 1854, ele interpreta como ninguém o mito do grande herói romântico. Nerval… Novalis…. são nomes que se ouvem como a um bálsamo no tempo em que se falava ainda de “poéticismes...” Falei exclusivamente destes porque me parecem os mais representativos, claro que Byron, e outros, estão no mesmo nível, mas as coisas que se cruzam entre estas personagens, dão para estarmos atentos durante toda uma vida. Eles eram aquilo que fez do sentido da palavra poético uma vasta interpretação exegética e uma elevadíssima noção da beleza do percurso. Nunca como aqui o Poeta teve um estatuto tão genuinamente interpretativo de si mesmo. Não vale a pena fazer-se extensões de tempos que são “nichos.” Um dia ainda far-se-á a história deste singular e admirável século XIX. Eu acho que eles são os verdadeiros seres do século XXI. Eles nasceram muito adiante... e espero-os aqui. O terreiro é um hangar de sonhos outros, mas nós somos aqueles que nos reconhecemos. Assim , como o caminhar horas no deserto... depois, o rosto daqueles que nos são tão próximos, sombras... talvez! Reabilitarei o mundo intacto assim , imponderável e único, só para vos deixar testemunho dele. Esta gente disse coisas que convém que toda a Humanidade escute. São o melhor da inteligência e da linguagem humanas. Oh esquece e perdoa! Holderlin
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NAS ALDEIAS DE XIDI 西递 E HONGC António Graça de Abreu O CAMPO — as imensas terras agrícolas que se estendem por meia China e dão sustento a 1,4 mil milhões de pessoas, 1/6 da população mundial —, costuma passar ao lado, ao viés de quem viaja pelos quase infindáveis espaços do velho Império do Meio. Privilegia-se o conhecimento das cidades, visita-se o que é imperial e monumental concentrado em enormes centros urbanos como Pequim, Xangai, Nanquim, Cantão, mas permanecer uns dias ou semanas nas artérias da China agrícola e camponesa é coisa que o turista ocidental, também acidental, não costuma experimentar. Ou porque não sabe como viajar para a China rural, ou porque não está no programa da viagem ou porque não lhe interessa o campo chinês. Vamos até às aldeias de Xidi e Hongcun, situadas no sul da província de Anhui, ambas consideradas Património Mundial pela Unesco desde o ano 2000, sinal evidente de uma avaliação justa e bem feita pelos especialistas internacionais da Unesco que se meteram a caminho e descobriram estas duas preciosidades de aldeias perdidas no sopé da
montanha Huangshan, quase sempre envoltas em névoa, não longe de Jiuhuashan, outra cordilheira mágica, uma das quatro montanhas sagradas do budismo chinês. A aldeia de Xidi data da dinastia Song do Norte (960-1127) mas as duas centenas de casas emblemáticas e originais que vamos encontrar são das dinastias Ming e Qing (entre 1368 e 1911). Rodeada de montes verdejantes e de vastas terras de cultura, surpreendemo-nos ao chegar diante dos grandes pórticos ou arcos em pedra, alguns deles com andares sobrepostos decorados com baixos relevos representando animais, plantas e auspiciosos caracteres chineses. O conjunto da aldeia, com as casas antigas de paredes brancas e telhados cinzentos ou negros é harmonioso e dá uma sensação de paz e tranquilidade. Tem duas ruas principais e noventa e nove (um bom número, segundo o feng shui) ruas e vielas laterais, algumas delas tão estreitas que mal dão para se abrir os dois braços. Atravessada por dois ribeiros que se unem à saída da aldeia, Xidi parece caída de um tempo que já não existe, de um passado ancestral. O camponeses que por aqui nasceram, cresceram e morreram, além da esgo-
tante labuta diária nos campos, eram artistas e decoraram as suas casas com empenas de madeira trabalhadas, mobiliário artesanal feito com madeiras nobres, alindaram os espaços de habitação e convívio com elementos decorativos associados à cultura popular, enfim tentaram transformar a sua aldeia pobre e esquecida num lugar onde, apesar da dureza dos quotidianos, se procurava a simples e complexa arte de saber viver. Alguns camponeses enriqueceram, tornando-se proprietários de terras e comerciantes de produtos agrícolas. Têm as casas maiores e mais decoradas da aldeia, algumas delas hoje abertas ao visitante e transformadas numa espécie de mini-museu. Existem ainda escolas onde se venerava a figura de Confúcio, o divino professor e mestre, onde as crianças aprendiam a ler e escrever, na exaustiva prática de escrita e entendimento dos caracteres chineses. O mesmo acontece na aldeia de Hongcun, ainda mais bonita do que Xidi, separada desta por 19 quilómetros de boa estrada. Logo à entrada encontramos um lago que abraça parte da aldeia, cortado ao meio por uma ponte de pedra que se continua num passadiço de lajes de granito que conduz direc-
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CUN 宏村, PROVÍNCIA DE ANHUI 安徽 tamente ao coração de Hongcun. As águas límpidas e paradas do lago reflectem o casario, um vasto espelho polido abre-se faiscando diante dos nossos olhos. Dezenas e dezenas de jovens montaram os seus cavaletes de pintura na margem do lago e aqui estão, de pincel em punho, transferindo a cor e a harmonia da paisagem para os seus esboços e quadros. Pergunto-lhes de onde vêm, porque pintam. Chegam de vários lugares da província de Anhui, até de Hefei, a capital, onde alguns estudam pintura e Belas Artes. E têm também um objectivo, vender os seus quadros e fazer algum dinheiro para pagarem os estudos, até porque as propinas são elevadas em grande parte das escolas chinesas. E há procura para este mercado. O crescimento da economia e o aparecimento de uma nova classe média, com poder de compra e alguns interesses culturais, aliado à relativa fama (são Património Mundial pela Unesco!) que as duas aldeias já vão conhecendo, propicia a potencial venda das pinturas. Após circundar o lago e parte da aldeia, entro por ruas estreitas e mais vielas, com a água sempre a correr em pequenos canais
paralelos às casas. O silêncio do lugar, os camponeses com foices e enxadas, os produtos da terra, abóboras, cabaças, sementes a secar ao sol, os velhos num recanto jogando cartas, mahjong ou weiqi (o xadrez chinês), mais um ou outro pintor, vindo de longe, a retratar fachadas e telhados. De súbito, um novo lago, com o formato de uma meia lua aparece aberto no interior do casario. Terá um comprimento de trezentos metros e está marginado, rodeado por lajes baixas, tipo passeios de pedra. Chama-se exactamente Yuehu, ou seja Lago da Lua. Existe há quatrocentos anos, as pessoas da terra dizem ser ele habitado por uma fada benfazeja, que traz prosperidade a Hongcun. Talvez por isso, nunca alguém se afogou ou caiu ao lago. Mas encontro muitas casas vazias, algumas delas desabitadas há já umas dezenas de anos e a precisar de urgentes obras. Apesar do benefício de serem considerados lugares turísticos, Hongcun e Xidi não escaparam à forte tendência que se registou na sociedade chinesa de mudança de muita da população do campo para as cidades. Calcula-se que nos últimos dez anos, 200 milhões de chineses se transferiram da China agrícola e camponesa
para os grandes centros urbanos. É uma das maiores migrações da história da humanidade. Tudo se explica se caminharmos pelos campos nos arredores das duas aldeias. Homens e mulheres no trabalho quase de sol a sol arroteando a terra, lavrando os socalcos com os seus búfalos de água, plantando, mondando, irrigando os arrozais, mergulhados na água onde o arroz cresce, onde cresce o pão de dia. E como é quanto a doenças, a cuidados médicos e de saúde? A mortalidade infantil no campo chinês aponta para números sete vezes superiores à registada nas cidades. A beleza asfixiante destas aldeias não esconde os salários de subsistência mínima que prevalecem nas zonas rurais. E as pessoas, aos milhões, um pouco por toda a China, procuram as cidades, tanta vez na ilusão do impossível enriquecimento fácil, com tantos dramas e tragédias de permeio. Alguns, poucos, regressam ao esplendor e maravilha destas suas aldeias. Para um dia morrerem em paz, Pó e esquecimento perpétuo no seio da terra madrasta e mãe que os viu nascer, à qual se irão unir outra vez, agora para sempre.
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luz de inverno
Boi Luxo
LE QUATTRO VOLTE, MICHELANGELO FRAMMARTINO, 2010
Este será, para quem gosta de cabras, o melhor filme do mundo. Passa-se numa pequena aldeia do sul de Itália mas poder-se-ia passar em muitos outros países, porque são muitos os países onde existem cabras, um animal que se adapta a quase todos os tipos de clima. Existem, em todo o mundo, mais de 850 milhões de cabras, cerca de 60% na Ásia e 34% em África. Na Europa existem apenas cerca de 18 milhões. Por países, são os seguintes (e por esta ordem) os que ostentam populações maiores: China, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, etc. Mas este filme passa-se em Itália, na Calábria, e conta-nos, sem dramas mas com a precisão da sua inevitabilidade, o que se passa à nossa volta, a sucessão das estações, a passagem da vida e o seu advento, a partir de uma ideia pitagórica de metempsicose que atravessa 4 estados: humano, animal, vegetal e mineral. Este também é, como O Cavalo de Turin (2011), de Bela Tárr, um filme de repetições e de silêncios mas, ao contrário daquele, estas são repetições às quais não podemos fugir, não repetições inventadas pela loucura, insensatez ou presunção dos homens - as dos ciclos naturais da vida humana e da natureza. Não se trata, como pode parecer a uma primeira vista, de um filme nostálgico ou ruralista. A neutralidade do seu tom obri-
ga-nos essencialmente a lembrar, obriga-nos a lembrar que é impossível escapar à repetição e à monotonia e à sua música. No seu início, Le Quattro Volte centra-se no quotidiano de um velho guardador de cabras, doente, que acredita nas capacidades medicinais do pó que paira pela igreja da sua aldeia. Se a sua ingestão diária ou a sua falta constitui o motivo da sua morte súbita é irrelevante. Menos irrelevente será aceitarmos o tom quase jocoso que este filme aparentemente sério também exibe, especialmente neste segmento, o inicial, que se prende com o fim da vida de um homem velho. Este, como os outros, acaba com um plano escuro, um plano onde se opera a passagem para o estado seguinte. Frammartino obriga-nos, também nos outros segmentos, os que se relacionam com o estado animal, vegetal e mineral, a confrontar a inevitabilidade do fim. Mas, ao mesmo tempo, sublinha a existência de continuidades e permanências, e é neste jogo de permanências e passagens que a sua história se compõe de um modo extra ordinário, um modo que nos impõe as evidências da existência com uma bonomia jocosa e, ao mesmo tempo, distanciada. Poucos outros filmes contemporâneos têm mostrado esta capacidade de excitar no espectador uma vontade quase juvenil
de interrogação sobre o nosso lugar no mundo. O paradigma que apresenta é suficientemente universal para que (mesmo que este seja um filme que se passa numa pequena aldeia) este mereça uma aplicação mais abrangente, porventura também urbana. Cada uma das suas quatro partes, mesmo que relacionadas através das transformações que permitem a fusão de um elemento noutro, e acontecendo no mesmo contexto geográfico, têm um aspecto muito diferente. Adquirem, além disso, um carácter quase abstracto, inclusivamente o capítulo que lida com a festividade da aldeia e com a árvore. Talvez até isso aconteça mais vincadamente neste, que é o que tem mais figuras humanas. Os seus planos médios de homens e mulheres tendem a afastar-se destes e a obrigar-nos a vê-los como pequenas fracções de um quadro abstracto, não havendo nenhum que ganhe destaque. Este quadro forma-se como um mosaico e a falta de individualidade das suas figurinhas, colocam-nas de maneira mais certa no concerto geral das coisas do mundo. Que não haja, durante todo o filme, qualquer diálogo (ou música), é a mais sublime linha daquela intenção. Que este se não perca na esterilidade e que exiba um nível de afecto suficiente, é prova do seu amor e da sua feliz eficácia.
Este filme funciona como contraste total, na sua atitude, humor e resultados, ao piroso e pomposo pseudo-panteísmo dos últimos filmes de Terence Mallick, ao mesmo tempo que recusa a ditadura do belo a que outros filmes de intenção semelhante não têm conseguido fugir. Le Quattro Volte não é sempre belo mas o olhar que lança sobre as coisas (e que nos é dado a ver) é em quase todos os planos surpreendente e sincero. No final será muito difícil negar que este filme é, sobretudo, um dos filmes mais sinceros (para além de ser dos mais originais) dos últimos tempos. O segmento final, o da transformação da madeira em carvão que nos liga ao início do filme, não tem, como seria tão fácil de fazer, pretensões mágicas nem pretensões de especial desenho, antes a pretensão suave de nos fazer entender a poesia do óbvio. Impossível não lembrar a tensão que rodeia a fundição do sino em Andrey Rublev. Contudo, aqui não existe nenhum especial segredo nem nenhuma magia, apenas a repetição de um saber oficinal antigo, sem ornamentos desnecessários que ultrapassem a beleza intrínseca do processo. O que é que é diferente no fim deste filme que nos diz que poderemos vir a reencarnar como cabras? Apenas nós.
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próximo oriente
Hugo Pinto
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MÚSICA CONTRA A LASSIDÃO “Life is too short for boring music” (“A vida é curta demais para música aborrecida”). Nunca mais esqueci esta frase que vi, pela primeira vez, na página electrónica da extinta EFA, a distribuidora de editoras independentes que levava a sério os anúncios que fazia. É verdade: não podemos desperdiçar tempo, que é insuficiente, com o que não merece. Este truísmo assume particular evidência no momento em que vivemos, marcado por uma profusão inédita de música a que se junta a do passado, tudo disponibilizado através de um acesso mais facilitado do que nunca. Em teoria, toda a história da música alguma vez gravada pode ser armazenada num único computador ou numa “nuvem”, as modernas “clouds” que nos seguem para todo o lado. Esta forma promíscua de passado e presente conviverem lado a lado com as distâncias temporais esbatidas (longe mas perto, velho mas novo, sempre à nossa inteira e imediata disposição) tem, entre outros, impacto na forma como é produzida actualmente muita música, especialmente aquela em que diferentes eras, tradições, géneros ou culturas são condensadas para caber em cinco minutos. No fundo, o que nomes como DJ Shadow, Flying Lotus ou Gonja Sufi (e o Kanye West de “Yeezus”, já agora) fazem juntando pedaços distantes da história da música pode ser comparado às voltas alucinantes do Super-Homem em torno da Terra, quebrando a barreira do tempo e do espaço. Literalmente supersónico. Yosi Horikawa não se lança propriamente na ultrapassagem da barreira do som, nem nesse exercício de arqueologia digital só tornado possível pela tecnologia, mas através da música que produz procura combater a erosão que a passagem do tempo provoca na percepção dos ouvinte actuais, habituados a estímulos constantes e a torrentes de informação (sobretudo na Internet, onde tudo se passa), constantemente distraídos e com a capacidade de concentração de borboletas que cedo se esgotam e se entregam à apatia e à indiferença. E é isto que Yosi Horikawa teme: que quem escuta a sua música se entedie. A confissão tem sido repetida nas entrevistas a propósito do álbum de estreia, “Vapor”, onde o japonês de 34 anos combate o medo da música “chata” explorando um espectro sonoro alargado que não dispensa a repetição (“loops”), mas que investe tudo em “fluxos” e “desenvolvimentos” – expressões usadas por Yosi à Red Bull Music Academy, onde foi “aluno” quando a escola de música electrónica itinerante estacionou em Madrid, em 2011. Em “Vapor”, diz Yozi Horikawa ao Japan Times, há temas que têm cerca de uma centena de camadas de sons e efeitos – sons reais, electrónicos, acústicos, da natureza, mas também “samples” de diversas fontes –, codificados em linguagens que vão do “hip-hop” ao “jazz”,
passando pelo “ambient” versão “chill out”, pela música experimental ou pela “house music”. Por vezes, os diferentes géneros sucedem-se no mesmo tema, desdobrando-se numa progressão que, nos momentos finais do disco, em fase de desaceleração, adquire os poderes da hipnose e quase nos abandona à letargia. Mas é nos diferentes estratos das sonoridades que nos fixamos a maior parte do tempo, sem sabermos ao que prender a atenção, se à melodia das linhas sintéticas, aos ritmos, aos baixos ou aos detalhes que conseguimos perceber depois de nos abstrairmos da quase cacofonia. Tematicamente, a música de Yosi Horikawa ocupa-se de prazeres simples (“Beer”) ou reminiscências da infância (“Summer in 1987”), sempre com o mesmo cuidado de que a história que nos é contada seja cativante e que a atracção ao som pelo som seja permanente. Atravessa o disco ainda um fascínio pela natureza manifes-
to no uso de sons de animais, da chuva ou da trovoada, mas também no modo como os temas são selvas de sons – com a organização natural própria de ecossistemas, funções complementares e o alheamento ao destino que liberta os seres vivos para a fruição de cada momento, ou seja, cada som. “Vapor” é um disco marcado pelo corrupio interior do seu autor que tem reflexo na forma intrincada como a música é arquitectada, mesmo que Yosi se abandone, na maior parte do tempo, a hábitos de placidez (“Wandering”, “Rainbow”, “Letters”), ou mesmo que, findo o último tema, da complexidade das 16 faixas tenhamos retido apenas uma impressão vaga. Um vapor. Todavia, é o que basta para incensar a vontade de voltar a ouvir tudo. Do princípio. “Vapor” Yosi Horikawa First Word Records, 2013
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CAVACO SILVA, O CONTABILISTA
Francisco Moraes Sarmento
CAVACO SILVA “é um contabilista”, declarava em 1989, há cerca de 25 anos, o filósofo Orlando Vitorino, numa entrevista realizada durante a sua campanha para a Presidência da República. Na altura, a classificação escandalizou a plutocracia que nos governa. Hoje, depois da comunicação presidencial, ficámos mais ainda com essa convicção. No fundo, o Presidente analisou a contabilidade estatal, colocou o actual governo em modo de gestão e marcou a data de demissão: Julho de 2014, fim do programa de assistência financeira. Não é certo que naquela data, a situação económica e financeira tenha melhorado e os portugueses tenham recuperado a sua liberdade e soberania. Para que tal aconteça terão que se realizar, pelo menos, algumas condições. Talvez a mais importante será a revisão constitucional: caso não seja surja um compromisso “motu proprio” entre PSD, PS e CDS, passará a ser uma obrigação imposta pela “Troika” a quando da aprovação do segundo resgate. Outra condição será a diminuição do peso do Estado na sociedade e na economia (com um corte na despesa que será superior aos 4 mil milhões). Quanto a nós, a “reforma do Estado” deve, a prazo, ter como medida o valor dos impostos directos que deviam acabar pois são uma
OVOS DE SERPENTE J G osé
oulão
“ANTES PREVENIR que remediar”, diz a sentença popular assente na sabedoria feita de experiência. Também muitas vezes se ouve, como um dorido lamento, a expressão “depois da casa roubada, trancas à porta”. E por aí adiante, advertências não faltam, o que falta com frequência é a lucidez para escutar, em tempo útil, os sinais que as justificam. Olhemos para as situações de Portugal, em particular, e da União Europeia, em geral, à luz de acontecimentos recentes. Um documento da área de investigação económica do JP Morgan, um banco de investimento que é um dos poderes fácticos do mundo de hoje, chegou à conclusão de que as Constituições dos países do Sul da Europa são “um estorvo” para a solução dos problemas económicos porque salvaguardam direitos que já não se usam, como os dos trabalhadores, por exemplo. Trata-se de Constituições de carácter “socialista”, que perturbam o funcionamento livre dos mercados e se tornaram anacrónicas porque foram aprovadas a seguir a ditaduras e reflectem “poderes de esquerda”. Para que tudo funcione como deve ser, recomenda o JP Morgan, há que revogar essas Constituições, os direitos e o Estado social nelas contidos, citando os casos de Portugal, Espanha e Itália. Fora pois com as Constituições nascidas do antifascismo, reclama o JP Morgan. Outro acontecimento, mais recente ainda, foi o discurso do presidente da República Portuguesa, Cavaco Silva, esta quarta-feira. Em que é que a comunicação presidencial se conjuga com as recomendações do JP Morgan, tratando-se de uma suposta estratégia de solução para uma “grave crise política”? Têm muito mais em comum do que parecem, as palavras e os assuntos são díspares mas a essência e os conceitos são gémeos. O que disse Cavaco Silva? Que os partidos do “arco da governação” têm que se entender, já antes e mesmo depois das próximas eleições, à
forma de servidão. Mas este aspecto tem a oposição da plutocracia que vive do Orçamento Geral do Estado e da classe política que se perpetua no poder. Volvemos às palavras de Orlando Vitorino: “O keynesianismo foi adoptado pelo Instituto Superior de Economia, onde se formou Cavaco Silva que depois foi apurar essa teoria a Inglaterra. O que é certo é que se trata de uma pessoa, como toda a gente sabe e o próprio reconhece, sem preparação cultural, logo não pode aprofundar uma prática económica. Aliás, reconheceu-o num livro, que publicou sobre a sua actividade como ministro das Finanças, no Governo de Sá Carneiro, no qual diz que pôs de parte, logo de entrada, o monetarismo porque nenhum deles sabia o que isso era. Cavaco Silva é, como creio que ele próprio diz, um socialista.” Também Paulo Portas, que em tempos tentava perceber o que é o neo-liberalismo em encontros com o filósofo num café de esquina, ali para os lados do Liceu Maria Amélia (Lisboa) de que não me lembro o nome, tem sido um dos principais opositores à diminuição da despesa do Estado. O PSD é social-democrata e, portanto, está mais perto das opções socialistas para o sistema político. volta de um governo de “salvação nacional” que cumpra as ordens vindas dos mercados, através da troika ou mesmo sem troika. E ai deles se não se entenderem, porque os cidadãos saberão “tirar as suas ilações”. Para que esse acordo seja feito, o presidente está disposto a recorrer a uma figura com idoneidade acima de qualquer suspeita, não se sabe mesmo se do JP Morgan ou da Goldman Sachs, uma espécie de “pessoa providencial”, portanto. Sempre honrando a tradição de não ter dúvidas, Cavaco Silva garante que a realização de eleições na situação actual são “indesejáveis” porque iriam prejudicar a recuperação em curso. Horas antes do discurso já o presidente do Banco de Portugal, Carlos Costa, recomendara com a autoridade outorgada pela banca, que a política governamental deve ser “imune à alternância” entre os partidos – PSD, PS e CDS. Três partidos fundidos num único por acção de alguém “providencial” capaz de se substituir a “indesejáveis” eleições... Isto não voz faz lembrar nada? Tudo envolvido por uma teorização cada vez mais descarada, como a do JP Morgan, no sentido da eliminação de leis e direitos sociais, laborais e humanos que os mercados considerem estorvos à aplicação da austeridade até às últimas consequências, isto é, a escravatura. Não nos enganemos: eles sabem muito bem o que querem, por onde e para onde vão, impondo as necessárias adaptações à política, uma actividade onde só devem caber os serviçais dos mercados. Se estiverem atentos, reparem como até as alusões à democracia vão desaparecendo. As serpentes põem os seus ovos num estado de maturação em que as crias nascem logo e já prontas a fazer-se à vida. Também estes regimes são capazes de fazer a gestação de qualquer outra coisa preparada para lhes suceder. Os novos fascismos não precisam de recorrer à mesma designação e aos mecanismos funcionais que ficaram na História para o serem - fascismos. Se não lermos os sinais teremos de viver a angústia de remediar e nem valerá a pena pôr trancas na porta.
No jogo político-constitucional, é lamentável que o Presidente prometa eleições antecipadas a prazo qualquer que seja a razão apontada, muito menos por meras razões contabilísticas. Temos um governo de gestão que não é em termos constitucionais. A clarificação da situação passa pela demissão dos actuais governantes, manietados na sua legitimidade e fragilizados na sua acção. O monarca disse para quem quis ouvir que este não é o seu governo. Poderá estar à vista um governo PS/CDS, solução “anunciada” pela plutocracia mundial reunida no grupo Bilderberg ao qual se juntaram recentemente dois suplicantes portugueses: Paulo Portas e José Seguro. Nem a classe política nem a plutocracia se orientam por qualquer ideal patriótico que transforme os portugueses num povo de homens libertos. Destaque É lamentável que o Presidente prometa eleições antecipadas a prazo qualquer que seja a razão apontada, muito menos por meras razões contabilísticas. Temos um governo de gestão que não é em termos constitucionais. A clarificação da situação passa pela demissão dos actuais governantes, manietados na sua legitimidade e fragilizados na sua acção. O monarca disse para quem quis ouvir que este não é o seu governo.
QUEM MANDA
João Teixeira Lopes
A FORÇA da burguesia internacional (e a fraqueza e subalternidade da nacional) encontram uma gritante ilustração no episódio de Paulo Portas (ir)revogável. Bastaram uns quantos telefonemas de Merkel, Draghi e Barroso (eles próprios porta-vozes das forças financeiras globais) para o líder do CDS tremer, recuar e dar o dito por não dito. Junta-se a esta circunstância uma política generalizada de chantagem, em tudo semelhante ao discurso da direita aquando do 1º resgate de que “já não há dinheiro para pagar salários e pensões”, com forte propagação em mediapreguiçosos e habituados ao efeito de eco, respaldados numa corte de comentadores subservientes e medrosos. Nada pode interromper o processo de transferência de rendimento permitido pela economia política e moral das dívidas soberanas. A grande finança ainda não confia no PS, por o achar titubeante ou por desconfiar da sua dificuldade em conseguir uma maioria absoluta. Vejam-se, aliás, as estonteantes declarações de Manuel Pizarro, candidato à Câmara Municipal do Porto, que considerou ser uma “loucura” o cenário de eleições antecipadas… Não se conseguiu ainda perceber, num outro plano, que propostas alternativas possui o PS – para além de uma vaga vontade de renegociação do memorando, de medidas mais ou menos inócuas que até a direita viabiliza no parlamento e da versão rosa light da mesma austeridade. O movimento social, diga-se, está longe do seu melhor, apresentando mesmo sinais de evidente fraqueza. O medo e a ameaça surtem os seus efeitos, na fragmentação, no isolamento, na incerteza. Há uma enorme batalha de ideias por travar; uma batalha que tem também de combater a dominação incorporada nas mentalidades, nas práticas e naquilo que parece ser o “bom senso”, mas que mais não é do que a força reacionária da situação.
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H O R A C R Í T I C A
DOIS LIVROS de Alberto Pimenta, dois poemas, dois saldos da tempestade da História: brainstorming sobre ruínas, a cultura, a literatura, a civilização, vento que empurra implacavelmente anjos, decerto de asas partidas. Começo pelo livro mais recente: Prodigioso Acanto, de Junho de 2008. Sendo um poema (tripartido, afirmando recusas e afinidades electivas, mas sem dialéctica simples e decerto sem síntese), pode evocar também um ensaio, descrição, arqueologia e avaliação do motivo do acanto na(s) arte(s). Mas ensaio ou canto que se recusa a sê-lo, num Leit motiv: «não canto cinzas» (p. 21), «não canto primazias» (p. 45), «não canto / metamorfoses» (p. 47)… E ainda, com consequências várias: «não canto / já foi demasiado cantado / e contado / até por Homero» (p. 11), ou «aqui não há nada para cantar / só guerras» (p. 31), numa revisão do – ironicamente convocado – paradigma épico. Cano virgiliano ou Cantando espalharei camoniano ecoam, para serem logo rasurados. E decerto não só porque a matéria se esgotou em milénios de epopeia («então porque / haveria eu / de gas-
tar o meu canto / no que já está gregorianizado», p. 17, sendo que «gregorianizado» evoca também o furioso pensamento da «grei»), mas sobretudo porque, sob a História, há um ethos por interrogar, como em célebres poemas de Brecht: eu não canto a destruição depois da construção uma feita só para a outra nunca vejo o começo só o fim e alguns escravos entretanto esmagados (p. 9.) Voltarei a Prodigioso Acanto. Mas relembro agora Tanto Fogo e Tanto Frio,
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ALBERTO PIMENTA
DOIS LIVROS Pedro Eiras
livro de Fevereiro de 2008, subintitulado O Último Sonho de Olímpio. Olímpio é Olímpio Ferreira, artista gráfico sensibilíssimo – ou, como escreve Vítor Silva Tavares na comovente introdução do livro, «artesão», bem longe de contemporâneos «designers escolásticos» (p. 13). Olimpo Ferreira, artesão da & etc, da Averno, da Cotovia, faleceu inesperadamente em Dezembro de 2007. Este último sonho, ou despedida, é um extenso poema de fôlego único, dividido entre duas vozes, uma delas dita off e destacada à direita. Não importa demasiado identificar quem fala e quem responde: o autor e o seu outro? o escritor e o artesão? ou mesmo, numa fusão sempre arriscada entre vida e escrita, Alberto Pimenta e Olímpio Ferreira? Nem sei,
nessas leituras, quem estaria off – aquele que parte, aquele que fica? Importa, sim, observar como Alberto Pimenta escusa as identificações, deixando que as vozes sejam somente vozes; e observar a teatralidade latente que contrapõe e faz dialogar dois olhares sobre textos, imagens, ecrãs, histórias. O mesmo é dizer: para lá do diálogo a dois, há um dialogismo infinito em que tudo (recordações da História, ruínas, alternativas) fala. Assim, é certo que «no meu ecrã / sou eu que mudo tudo / mas tudo / já está escrito» (p. 23), e que «isto / é só uma viagem / à roda do meu quarto» (p. 24), com ecos de Xavier de Maistre ou Garrett; mas sobretudo, para além de qualquer fechamento solipsista, há esta
irrupção de uma História plural, interminável: «donde vêm tantas bocas / sem corpos só / fragmentos sem fala / sem nada» (p. 30). Em ambos os poemas, um saldo da História, portanto. Em Prodigioso Acanto, com o inventário de acantos a escala mundial e intemporal; mas apenas para descobrir quanto ficou por dizer sob os ornamentos com que a sociedade do espectáculo («não canto / acasos de espectáculo», p. 50) vai esquecendo os seus escravos esmagados, que esculpem acantos e não se reconhecem em cantos. História, pois, de uma alienação: eu fiz isto, mas eu não sou este, eu não estou aqui. E, claro, não se trata de uma nova Metamorfose das Plantas, com que Goethe procura conjugar, romanticamente, sistema e plasticidade, os corpos factuais e a possibilidade. Os acantos são artifícios rígidos, disfarçados de flexíveis, e posam como divinos. Quem os descreve, pelo contrário, reivindica a condição profana (talvez com um eco de Caeiro?): «acanto sempre acanto / mas eu não conheço / a bebida dos deuses / não canto / / [...] / a minha respiração / é normal e simples e humana / nada a deixa eternizar-se» (p. 20). EmTanto Fogo e Tanto Frio, por seu turno, mesma vontade de recuperar, na herança da História (ou na feitura de um livro?), as rasuras ainda audíveis: se «a tarefa foi sempre / arquivar / o sobrenatural» (p. 26), a escrita oferece-se como sobre-natureza, planta viva, não adorno, coisa que se pode comer, não alienação. Os poemas são um juízo da História; e não um Juízo Final, salvo se Juízo Final profano – e uma sensação de contra-relógio, de contagem final, de tempo finito, enfim, de apocalipse atravessa os poemas. Mas o profano é dito imediatamente no significante «acanto», que é uma unidade lexical simples, mas também «a canto», sendo «a» pronome feminino (donde: canto-a), e ainda «a-canto», sendo «a-» prefixo de negação (donde: não-canto). O a-canto é a única possibilidade política de recusar uma História errada. Não é, em rigor, uma aporia; mas é uma recusa de cantar, pelo menos de determinado cantar. Para, finalmente, recuperar o ethos da própria linguagem e, então sim, recomeçar sobre ruínas. Os dois livros reencontram essa possibilidade de falar (isto é, escrever, isto é, editar, publicar, formar o livro) através de cumplicidades. A recuperação da
voz não é um problema teórico, mas uma atitude política, aqui e agora. Em Tanto Fogo e Tanto Frio, por um diálogo que vai adiando a morte; num novo Leit motiv¸ a recusa de um enterro?: «Silêncio / aí ao lado / cortem depois / a madeira / há tempo» (p. 27). Ou, se leio bem aqui uma prosopopeia da morte, o tempo cobre tudo também descobre o nome é tabu pensa pensa quem pode ser a tua rainha a grande rainha ainda não percebeste bem (p. 44.) O «tempo» é decerto o tempo da História; mas também, e sobretudo, o tempo imanente em que duas vozes dialogam: tempo contado. Dito de outro modo: o tempo da História só tem sentido enquanto se participa nele com o outro. E por isso os dois tempos se confundem. Mas sem conformação. Decerto numa recusa implícita da lembrança de Mário de Sá-Carneiro por Fernando Pessoa, Vítor Silva Tavares pergunta-se, na introdução do livro: «Que deuses (dos todos Olimpos inventados ou a inventar) serão esses capazes de ‘amar’ matando cerce?» (p. 9.) Em Prodigioso Acanto, a cumplicidade é outra: contra o canto do acanto, quem assina o poema diz também: «e quando cantar / [...] / / será um nome / com vida / própria sua / não pode ser / senão um nome / ele próprio monido / (moneo) de carne» (p. 57). O nome com vida própria não é o acanto com vida alheia, isto é, vida conferida por uma instituição que assim se rentabiliza; nem, em Tanto Fogo e Tanto Frio, «bocas / sem corpos só / fragmentos sem fala» (p. 30); nem nome de epopeia ou de metamorfose ovidiana que, sob a fluidez da transformação, se converteu afinal em moralidade rígida, mito para consumo. Prodigioso Acanto revela-se, então, poema de amor – e amor erótico, não «platónico», antes apollinairiano, pelo intertexto das «nove nacaradas aberturas / da carne» (p. 59). O «a» de «acanto», unidade mínima, torna-se agora nome do feminino, ou dedicatória: e então eu a canto a canto como ela se canta e assim se ouve a sua alma e o seu corpo e não há prodígio aqui (p. 58.)
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张果老
O L H O S A O A L T O
gente sagrada
José Simões Morais
O IMORTAL ZHANG GUO LAO PASSEANDO por Macau, encontramos um homem com um ar de ancião montado num burro e parecem ter viajado milhares de quilómetros. Foi o tempo de olhar para outra figura, acompanhando-a e o burro desaparece. Fixando o rosto do ser estranho, que não pára de rir e pregar partidas aos que com ele estão, sem entendermos, caí morto. Aflitos, desviamos a atenção para o socorro e ao olharmos de novo, já ele retira os dentes postiços e a cabeleira, surgindo um adulto de meia-idade. Voltando a rir, tira do bolso um papel embrulhado e com uns salpicos de água de uma garrafa que já por ali estava, ao molhar, aparece de novo o burro e montando, partem. Num ápice desaparecem, tal como a fotografia que conseguira registar desse momento. Só mais tarde soube ter estado com Zhang Guo Lao, um dos oito Imortais da lista proveniente do período da dinastia Ming. Aparecendo na primeira vez há 4000 anos, no período do Grande Soberano Yao, o alquimista Zhang Guo era um ser estranho, admirável pela sua sabedoria, já que na posse dos segredos da transmutação fazia magia com o que o rodeava, espantando assim os observadores; mas poucos o entendiam. Com um espírito puro, desmaterializado, no momento viaja pelo espaço energético para se realizar em diferentes períodos de consciência, o Imortal Zhang Guo é, devido à sua ancestralidade e respeitabilidade, Lao. Certa vez revelou-se, aparentando uns 60 anos de idade, quando o imperador Tang, Xuan Zong (712-755), após ter caçado um enorme urso, deu ordens para o cozinharem. Virando-se para o imperador, disse Zhang Guo ter aquele animal mais de mil anos e ser um Imortal Urso que caçado, fora libertado pelo imperador Wu (140-87 a.n.e.) da dinastia Han do Oeste. Como prova do que dizia apresentava uma chapa que deveria estar na cabeça do animal. O imperador ao verificar, encontrou realmente a prova com os dizeres “Quinto ano do Período Yuanshou” (117 a.n.e.), mas segundo outros relatos, nada
se conseguia ler devido aos quase 900 anos que a placa tinha. Talvez para não ter que apanhar uma indigestão de perguntas sobre o que pensava sobre isto e aquilo, Zhang Guo Lao ia recusando os convites dos imperadores da dinastia Tang (618-907) utilizando certos estratagemas. Os emissários, tanto do Imperador Tai Zong (627-649), como do Imperador Gao Zong (649-683), quando chegaram à montanha Zhongtiao, em Hengzhou hoje na província de Shanxi, com os convites para uma audiência no Palácio Imperial em Chang’an, Zhang Guo morreu em frente deles. Prevenida, a imperador Wu Zetian (684-705), quando precisou de um grande mestre do Dao, mandou-o chamar com ordens de o trazerem mesmo morto para a capital Dong Du (Luoyang). Os emissários ao chegar encontraram Zhang Guo, mas desta vez acreditaram ter ele morrido já que, ao transportá-lo para o exterior, do seu cadáver, a exalar podridão, saiam vermes e por isso, deixaram-no ai ficar. Viveu eremita até ter que aceitar o cargo de Director da Imperial Academia durante o reinado do Imperador Xuan Zong, altura do episódio do Imortal Urso. Depois despediu-se e retirou-se de novo para a montanha, onde certa vez, sem a razão de fugir aos convites imperiais, morreu. Os seus discípulos colocaram-no num caixão mas, quando o abriram, o corpo tinha desaparecido e por isso considerado ter ascendido ao Céu. O imperador Xuan Zong mandou edificar-lhe o templo Qixia em Puwu, como refere nas “Memórias Novas da Dinastia Tang”. Ainda durante a dinastia Tang, Zhang Guo Lao foi considerado um Imortal fazendo parte do panteão daoista. Ele, personagem que viveu nessa dinastia, para além de tudo o que fez, era também produtor de um excelente vinho, servido aos seus companheiros Imortais durante as conjuntas viagens. Em Macau encontramos no templo Hong Kung, junto ao Kun Iam Tong, a imagem do Imortal Chang Kuo Lao, como é designado em cantonense.
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L E T R A S S Í N I C A S
HUAI NAN ZI 淮南子
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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN
No início do Inverno, honra os mortos e lembra-te dos órfãos e viúvas.
DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 53 No fim do Verão, os pescadores apanham enormes peixes e tartarugas, nas florestas recolhe-se madeira e prepara-se o colmo. As pessoas dedicam-se à caridade, prestam respeito aos mortos e visitam os doentes e os idosos. Por esta altura do ano, as árvores estão em pleno florescimento e, como tal, não devem ser cortadas. Também não se devem conduzir grandes projectos de construção, nem paradas ou acções militares. No início do Outono começam as colheitas. Assegura-te de que os diques estão em boas condições, na a eventualidade de enxurradas. Repara os muros da cidade, assim como os edifícios e casas. A meio do Outono é o tempo ideal para projectos de construção urbana. Cava canais de drenagem e repara os celeiros. Armazena a colheita do Verão e planta trigo para a Primavera. Verifica os instrumentos de medida: rectifica as balanças e os pesos e medidas. Regula os costumes e os mercados; deixa que os mercadores itinerantes venham a vender os seus produtos para conveniência das pessoas. No fim do Outono, os caçadores praticam com suas armas e conduzem-se cerimónias para propiciar os animais. Corta-se buxo e dele se faz carvão; as estradas são abertas e limpas. No início do Inverno, honra os mortos e lembra-te dos órfãos e viúvas. Examina o futuro para ver o que lá vem. Armazena para o Inverno, repara as paredes exteriores, patrulha as ruas, repara fechaduras, toma bom cuidado das chaves e põe todos os documentos valiosos em cofres. Repara as fortificações fronteiriças e faz bloquear as veredas. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho
Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.
Ecos Naturalistas QUANTOS SÃO os portugueses de volta a Macau, já depois da transferência? Quantos anos se passaram desde o regresso desta terra à China? Aí vão quase catorze. Número aziago no Sul, porque por homofonia indica morte certa (shi si 十四). Por isso, a alguns prédios falta o décimo quarto andar. Prefiro encarar a morte como mais uma metamorfose, à maneira taoísta ou tibetana. A morte é uma passagem, é bar-do, um estar entre dois: o tempo presente e aquele que há-de vir. Muitos portugueses partiram e a cidade cresceu desmesuradamente, tanto que transbordou para a Ilha da Montanha. Entretanto vieram os chineses e a passagem de soberania foi marcada por vários actos simbólicos, entre os quais a construção de um Museu das Ofertas Sobre a Transferência de Soberania de Macau, mesmo ao lado do Centro Cultural de Macau. Quando é que aprendem a dar nomes bonitos, curtinhos e melódicos aos museus? Assim à maneira dos portugueses, por que não? Museu de Macau, Museu de Arte, Museu Marítimo… Agora Museu das Ofertas Sobre a Transferência de Soberania de Macau, que rótulo tão grande, quase impossível de memorizar, mesmo para os portugueses. Museu das oferendas não seria bem mais poético? Ou então, despindo a carga religiosa, Museu das Ofertas. Em Chinês o nome também é grande e significa, numa tradução literal: Museu da Exibição das Ofertas (Heli Chenlie Guan賀禮陳列館). Depois entramos no Museu e todas as ofertas são grandes, umas enormes mesmo. A intenção é que conta, dir-me-ão. Não interessa o tamanho das dádivas, mas o espírito das mesmas. Elas presentificam a alegria do regresso de Macau à China, que passa a sentir-se como peixe dentro de água, tal como indicam os votos da oferta do Governo Municipal de Tianjin: um painel com uma flor de lótus, um peixe dourado e uma menina muito rechonchuda a segurar no peixão, tal como nas pinturas do Ano Novo de Yangliuqing (楊柳青), lendo-se a frase muitíssimo auspiciosa: Muitos Anos de Abundância (liannian you yu連年有餘), onde o peixe simboliza a riqueza e a opulência, a criança a felicidade e a flor de lótus a pureza espiritual, mas também, neste contexto, Macau, a pujante joia da coroa. Goste-se ou não deste tipo de arte, reconhece-se, em muitas das suas manifestações, uma mistura entre o realismo e o simbolismo. No Museu das Ofertas encontramos peças desmesuradas, que podem ser classificadas como pertencendo ao estilo realista simbólico. Este é um estilo artístico revelador do espírito chinês, apegado ao pormenor e ao concreto e, ainda, aos símbolos que podem conferir sentido a uma existência dura e rotineira. Macau regressa à China e todas as províncias oferecem algo de si mesmas para
Ana Cristina Alves*
O PEIXE E O MUSEU DAS OFERTAS acolher a cria perdida, tresmalhada ou simplesmente emprestada, como bem revela a oferta (Changbai Qing 長白情) da província do governo de Jilin, onde vemos dois veados de diferentes tamanhos a brincar junto do lago celestial. Ora, num contexto político, o grande veado (Da Lu大鹿) é homófono de Continente Chinês (Da Lu 大陸) e a peça simboliza a reunião familiar da China, grande como o veado esculpido, com Macau, pequeno, mas cheio de energia. Mal se adivinhava então que essa energia ia transbordar por todas as costuras. Noutras peças o realismo simbólico invade todos os campos naturais, levantando voo. Passamos então ao simbolismo realista, fácil de contemplar em ofertas como o Regresso da Pérola (Cang Hai Huan Zhu 沧海还朱), entregue pelo governo provincial de Zhejiang. A Pérola é naturalmente Macau, enquanto os dois dragões têm duplo significado, por um lado, simbolizam os dois maiores rios chineses: o Rio Amarelo (Huanghe 黃河 ) e o Rio Changjiang (長江), por outro, as nacionalidades chinesas, todas descendentes do Dragão, senhor das Águas celestiais e terrestres, onde nadam os peixes. Entre estes, os mais privilegiados, como a carpa (Liyu 鯉魚), transpõem todas as barreiras em direcção ao céu da ascensão profissional. Os peixes, mesmo nas filosofias mais desconfiadas do mundo terreno, como a budista, representam a capacidade de atravessar com agilidade e subtileza o mar dos humanos sofrimentos. O peixe é
ainda nas versões mais optimistas, como a taoista e a filosofia popular chinesa, o símbolo privilegiado da riqueza, por isso qualquer estabelecimento comercial que se preze (e muito especialmente os restaurantes), possui o seu aquário. Voltando à oferta de Zhejiang, os dragões brincam com a pérola, na expectativa que Macau continue a ser no futuro, uma das maiores pérolas. Expectativa que não tem vindo a ser gorada a atender à multiplicação da riqueza fornecida pelos casinos do território. Esta já era amplamente intuída e determinada nas ofertas do Concelho de Estado da República Popular da China na altura da transição. São elas duas esculturas com lótus dourados, uma situada na Praça do Lótus em frente do Fórum de Macau, e outra mais pequena, mas ainda assim muito grande para os nossos padrões artísticos ocidentais, que consta no Museu das Ofertas. Um lótus de ouro é um dos mais poderosos símbolos da alquimia espiritual, ao qual se recorria nos tempos imperiais da filosofia Neoconfucionista para representar a transmutação da matéria em espírito. Mas neste Lótus dourado e material em que se transformou Macau, importa repensar qual é o lugar para o reaparecimento dos valores espirituais. Ora ironicamente, ou talvez não, os casinos têm vindo a promover acções culturais de grande relevo, mostrando que não se limitam à exploração da actividade lúdica, mas que se disponibilizam a contribuir para o desenvolvimento da cultura do lugar.
Resta saber o que pode acontecer à cultura sem um espaço ecológico que a sustente. É interessante estudar e analisar o comportamento das gentes de Macau num cochicho cosmopolita. Será que conseguem sobreviver? O futuro o dirá. Entre os presentes, há alguns bastante naturalistas, como o do Governo Provincial de Jiu Zhai Gou (九寨溝), património mundial da Unesco, que ofertou um belíssimo trabalho em seda, onde podemos contemplar o que resta dos pandas na China (九寨溝大熊貓圖), concentrados na Província de Sichuan. Ou ainda, a tapeçaria concedida por Xinjiang, que chama a atenção para o Cenário do lago Kanas (哈納斯風光), o elemento natural mais belo desta província. Uma outra oferta de grande valor simbólico é a tapeçaria enviada pela Região Autónoma do Tibete, comprometidamente budista, com votos perpétuos, isto é, grandes como as montanhas e longos como os rios ( Shan Gao Shui Chang山高水 長). Na tapeçaria contemplamos a terra sagrada budista, Potala, e um belíssimo arco-íris ligando o Tibete a Macau. Dois grous brancos voam sobre a ponte celestial, transportando mensagens auspiciosas, como sucede com todos os pássaros, sendo os grous particularmente vocacionados para entregar votos de longa vida, como os que são enviados a Macau. O que é que Macau ganhou com a transferência, além de uma nova administração e de um Museu de ofertas? Na realidade ganhou a recuperação das suas memórias ancestrais, materializadas em dádivas de uma grande simbologia, que não deixam esquecer a pertença desta terra a um vasto território com 56 nacionalidades dominadas por uma maioria Han. E o que perdeu Macau que, do ponto de vista simbólico, é a pérola ou a flor dourada? Se ganhou em contributos materiais, perdeu algo, cedeu terra, roubou ao mar, distanciou-se da natureza. Por isso este peixe dourado (jinyu金魚) pode fenecer se, por qualquer estranho desígnio, for obrigado a avançar rumo a um mar afinal desconhecido. À terra bastava-lhe um pequeno balde, como à carpa que o filósofo Zhuangzi menciona na obra com o seu nome, como era habitual à época. A carpa precisa apenas de um pouco de água para sobreviver, mas se o mínimo gesto lhe for negado, ou for transformado numa vastidão desconhecida e ilimitada, nem toda a riqueza do mundo, acrescida de bem-intencionados votos e simbologia, a poderão salvar. Resta então a esperança que o opulento peixe mantenha a energia para continuar a nadar e se conservar dentro das águas da Mãe-China, tão ágil quanto possível, dadas as dificuldades que aguardam a sua nova e bem mais ampla travessia. * A autora lecciona nos Mestrados de Tradução e de Língua e Cultura do Departamento de Português da Universidade de Macau