Skip to main content

h - Suplemento do Hoje Macau #76

Page 1

PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2802. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

h

Chen Fang

Macau a seus pテゥs


1 3 2013

h 2

i d e i a s f o r t e s

Chen Fang

o primeiro emigrante milionário chinês José Simões Morais

dos negócios, tornou-se genro do rei do Havai. Após 1878 exerceu vários cargos como Consultor do Governo do Havai, Director do Comité dos Negócios Chineses, Embaixador Chinês no Havai, tendo-se retirado em 1882. Em 1890, vendeu todos os seus interesses e propriedades no Havai e regressou com US$ 600 000 para Hong Kong e Macau, onde investiu no negócio dos barcos a vapor e na hotelaria. Ficando a viver em Macau, onde foi o primeiro a importar um carro, construiu sete quilómetros de estrada em pedra, entre as Portas do Cerco e a sua terra natal, Xiangshan. No local onde nasceu edificou escolas e fez outras obras de caridade, tendo morrido em Macau em 1906.” Numa tese de Lin Guang Zhi, professor da Universidade de Jinan, encontramos o que lêramos na Enciclopédia de Macau, com apenas mais uma informação, a de ter em Macau pertencido ao comité para a organização dos festejos da recepção de Sua Alteza Imperial, o Czarevitch da Rússia. Sem documentação em português sobre Chen Fang e apenas um artigo no jornal chinês de Hong Kong “Ta Kung Pao” com o título “O Rei do Açúcar” escrito em 10 de Junho de 1963, mas que fazia uma cópia do que escrevera Jack London, impunha-se-nos agora ir à aldeia natal de Chen Fang em Zhuhai. Já tínhamos terminado as investigações quando nos apareceu na Revista Macau em chinês um artigo sobre Chen Fang, mas nada aditava ao que sabíamos.

Q

uem seria esta personagem para merecer um conto deste grande escritor da época? Mais tarde ainda viemos a descobrir ter Mark Twain também escrito sobre ele nos livros “Letters From Hawaii” e “Roughing it in the Sandwich Islands – Hawaii in the 1860”. Não tínhamos datas, nem o nome para começar a nossa investigação. Procurar Ah-Chun seria como tentar encontrar um sujeito com o nome de Chun, mas sem apelido; isto traduzido para português era saber sobre uma pessoa com o nome de António. Já o ter vivido no Havai, permitia reduzir a área de pesquisa, pois como chinês, tínhamos o século XIX e início do século XX como data para a sua existência. Perguntámos a muitas pessoas, tanto portuguesas como chinesas, de Macau se sabiam quem era Ah-Chun? A resposta vinha sempre como pergunta! — Quem?!! Passámos semanas a fio a pesquisar nos jornais antigos e nenhuma referência a Ah-Chun. Apesar de ter vivido os últimos anos de vida em Macau, não lhe foi feita nenhuma alusão no círculo académico dos portugueses. Como Jack London referiu que “Ah-Chun olvidara o pai, modesto rendeiro dos subúrbios de Cantão”, para além do Arquivo Histórico e Bibliotecas de Macau, ainda investigamos noutros locais como na Universidade de Jinan, em Guangzhou. Estávamos para desistir quando, numa pesquisa na Enciclopédia de Macau (que existe apenas em versão chinesa), no capítulo sobre a família Chen (陈), damos com a referência a Chen Fang (陈芳) como sendo um dos primeiros chineses ultramarinos milionários, que estivera no Havai. Estava encontrada a nossa personagem, 陈芳 (1825-1906), cujo nome em mandarim se pronuncia Chen Fang e, em cantonense de Macau, Chân Fóng. Com direito apenas a um breve parágrafo, aí se encontra escrito: “conhecido também por Guo Fen era nativo da província de Guangdong, distrito de Xiangshan, aldeia de YangMeiXie, que agora pertence a Zhuhai. Quando era jovem, seguiu com o tio para Havai na América. Em 1870 estabeleceu a Companhia Fang Zhi Ji, que se dedicava à produção de cana-de-açúcar e à fabricação de açúcar e sua comercialização. Aos poucos foi-se tornando muito rico e sendo o primeiro chinês emigrante milionário. Conhecido como o príncipe

陈 芳

Com uma enorme fortuna feita no Havai, Chen Fang foi um dos primeiros chineses a emigrar para essas ilhas no meio do Pacífico, tendo ao fim de pouco mais de 40 anos regressado definitivamente, ficando a viver em Macau, onde morreu. Na semana passada, lemos o conto “Os Milhões de Chun-Ah-Chun”, escrito por Jack London em 1909. Aqui fica uma outra versão desta vida.

O negócio da família Chen A família Chen vivia na aldeia Meixi, em Zhuhai, quando nasceu Chen Fang no ano de 1825. O pai, Chen Ren Chang, era agricultor em Meixi e tinha como irmão mais velho Chen Ren Jie, que negociava em Macau produtos chineses na sua loja Chen Kei. Chen Ren Jie apenas teve um filho, Chen Fan. Já Chen Ren Chang tinha três filhos e quatro filhas, sendo o mais novo dos rapazes Chen Fang, ou Chen Afang e em cantonense Chun Fong, ou Chan Fong. Logo desde pequeno, os pais almejavam para ele uma carreira de oficial civil mas, em 1831, quando ainda tinha 6 anos, a mãe morreu e passados oito anos foi a vez do pai, que contava com 50 anos de idade. O tio, Chen Ren Jie, tomou a seu cargo a educação de Chen Fang, tal como desde há muito tinha empregado os seus sobrinhos, que o ajudavam nos negócios. Como estes iam de vento em popa, em


1 3 2013

h

i d e i a s f o r t e s

1842, Chen Ren Jie abriu uma outra loja, agora em Hong Kong, lugar que acabava de se tornar britânico, devido à I Guerra do Ópio e onde começava um frenético crescimento. Em 1843, Chen Fang fez os exames preparatórios para entrar nos Exames Imperiais na categoria Gongju. Nesses exames locais, denominados Tongshi, ficou aprovado e tomou o título de Xiucai. Dois anos mais tarde, foi à capital da província, Guangzhou (Cantão), para realizar os Exames Provinciais (Xiangshi) e assim ficar Oficial Civil com o título de Juren. Mas falhou nos seus intentos e por isso, deixou de lado esse projecto. Chen Fang (1825-1906) casou-se em 1846 com a chinesa Li Xing, filha mais velha de uma família chinesa de Zhuhai, que vivia na aldeia Long Tian em Mong-Há, na península de Macau. Três meses depois já Chen Fang trabalhava para o seu tio em Macau, na loja Chen Kei situada na Rua dos Ervanários. Por essa altura chegava a Macau como Governador, João Maria Ferreira do Amaral (1846-1849), o primeiro que não fora nomeado por Goa. A China estava na mó de baixo, o que aconteceu devido a ter sido derrotada na I Guerra do Ópio (1839-42). Fora uma guerra feita com uma finalidade comercial, em que os britânicos, sem nada de interessante para trocar, trouxeram o ópio e os canhões para negociar com os chineses a seda, a porcelana e o chá. Obrigada a assinar o Tratado de Nanjing, a China teve que pagar 21 milhões de dólares em prata, ceder Hong Kong aos britânicos e abrir cinco portos ao comércio estrangeiro. Para pagar a exorbitante quantia que os britânicos exigiram, o governo Qing ainda cobrou mais impostos aos já depauperados camponeses. Estes viram-se na miséria completa, sem a pouca terra que tinham, nem comida para dar às suas famílias. E é por isso que começam as revoltas a alastrar tanto contra os senhores feudais, que iam ficando com toda a terra dos camponeses, como contra a descriminação que a dinastia manchu fazia às outras etnias e sobretudo aos han, a quem obrigava a usar uma trança. As potências estrangeiras, sobretudo a Grã-Bretanha, faziam cada vez mais exigências à China e Portugal também se aproveitou dessa situação de fragilidade para expandir a cidade cristã de Macau por toda a península. Em 27 de Fevereiro de 1847, o Governador de Macau Ferreira do Amaral, passando por cima dos interesses chineses, mandou que fossem rasgadas três estradas nos terrenos fora das muralhas da cidade, onde se situavam antigas campas chinesas e por onde constantemente os britânicos se passeavam a cavalo. Foi nesse ambiente que Chen Fang viveu um ano em Macau com Li Xing e em 1847 nasceu o seu primeiro filho, Chen Long (1847-1879). Altura em que o irmão mais velho de Chen Fang ficou doente e deixando Hong Kong, regressou a Zhuhai. Chen Fang vai para Hong Kong, ocupar o lugar do seu irmão e aí trabalhou du-

Chen Fang em 1849

3


1 3 2013

h 4

i d e i a s f o r t e s

Julie, a esposa havaiana

rante dois anos. Se em Macau ficou com algumas noções de português, aprendeu a falar inglês em Hong Kong. E foi em Hong Kong que o seu tio, Ah-Kow como chamava Jack London a Chen Ren Jie (陈仁杰), alertou Chen Fang para as grandes possibilidades de comércio que por essa altura o Havai oferecia. Entre 1848 e 1849, Chen Fang era agente comercial que fazia a ligação entre os negociantes estrangeiros, pelo seu conhecimento do português e inglês, com os chineses. Como não tinha dinheiro apenas cooperava. Em Hong Kong, a competição era acérrima e os lucros pequenos e por isso, Chen Fang percebeu que se aí continuasse, nunca chegaria a ser rico. Aconteceu que por essa altura, o tio foi convidado por um amigo, que tinha uma loja no Havai, para lá ir visitá-lo, aguçando-lhe o apetite dizendo que poucas e baixas eram as taxas e o comércio fazia-se com lucros que no mínimo rondavam

50%. Assim o tio, com 64 anos, vendo os lucros reduzidos das suas lojas de Macau e Hong Kong, decidiu ir tentar fazer negócios ao Havai e com facilidade em arranjar produtos chineses, preparou uma grande quantidade de mercadoria. O problema estava no alto preço do transporte. Havai até meados do século XIX O Havai é um conjunto de ilhas pertencentes à Polinésia, no meio do Oceano Pacífico, onde os descendentes dos grandes navegadores polinésios viveram afastados da civilização Ocidental, com uma sociedade bem organizada e auto-suficiente. O primeiro contacto dos nativos com a cultura Ocidental aconteceu em 18 de Janeiro de 1778, quando o britânico James Cook chegou ao Havai. Aí ficou um ano e foi tratado como um deus, já que segundo as lendas havaianas haveria de chegar um deus com pele branca. Mas os abusos praticados, por ele e a tripulação dos dois barcos, levaram a que

os habitantes começassem a ficar fartos desses estrangeiros. Quando partiram foi um alívio para os havaianos, mas devido a uma tempestade, os barcos aí regressaram. Então, pouco tempo depois, os havaianos ao verem sangue a correr do corpo de Cook percebem que ele não era um deus e por isso mataram-no. As tribos polinésias, que habitavam no Havai, viviam dispersas pelas ilhas do arquipélago e, em 1782, Kamehameha procurou unificá-las. Só ao fim de 13 anos de luta, ajudado pelas novas armas trocadas com os comerciantes ocidentais por produtos que a ilha oferecia, Kamehameha conseguiu ser o chefe de quase todas as tribos do Havai. Os primeiros chineses começaram a chegar ao arquipélago em 1789 e devem ter sido do povo Hakka (Kejia), que se via apertado pela população local nas províncias de Fujian e Guangdong, ou oriundo de Taiwan. Em 1791, um capitão de um barco americano em viagem para o Sul da China, ao fazer aguada no Havai, apercebe-se que os habitantes usavam nas fogueiras madeira de sândalo. Sabendo do valor que o sândalo tinha na China, resolveu encher o barco com essa madeira odorífica e trocou-a em Guangzhou por seda, chá, porcelana e prata. O comércio de sândalo fora feito pelos portugueses, que o traziam de Timor para Macau e daí o negociavam para a China. Tal durou cem anos mas, em 1785, com o esgotar dessa madeira em Timor, deixou de se fazer tal comércio. O mesmo aconteceu ao sândalo no Havai que, em 1825, quase tinha desaparecido. Os barcos ingleses e americanos utilizavam o Havai como escala para fazer aguada, quando viajavam entre a costa Ocidental da América e a China. Os emigrantes chineses, provenientes sobretudo de Guangdong, começaram a chegar cada vez em maior número a Tahn Heong san, como em cantonense é chamada Honolulu (mais tarde capital do Havai) e que significa Colina do Sândalo (Tan Xiang Shan, em mandarim). Em inglês era conhecida por Ilhas Sanduíche. Em 1810, Kamehameha, após submeter quase todas as ilhas do arquipélago, criou uma monarquia no Havai, que durou até 1872. Como primeiro rei Kamehameha I governou até 1819 e após a sua morte, um dos seus filhos, Kamehameha II sucedeu-lhe no trono. Desde 1820, os pastores cristãos protestantes estavam na ilha a converter os habitantes, cuja nativa sociedade era matriarcal e animista. Pela educação lhes ensinaram a visão do mundo Ocidental. A chegada dos estrangeiros ao Havai trouxe grandes problemas à população. As doenças, mesmo pequenas como uma constipação, transformavam-se em epidemias para os havaianos. Também as doenças sexuais fizeram com que as mulheres deixassem de ter muitos filhos. A grande mortalidade dizimou a população havaiana e, por isso, em 1849 era apenas de cem mil habitantes. Depois foi um outro filho de Kamehameha I que passou a ser rei, Kamehameha III, tendo sido o primeiro rei cristão do

Havai. Em 1839, com o missionário protestante Hiram Bingham como seu conselheiro, criou uma Constituição para o Havai e formou um governo à maneira ocidental. Por isso, o governo americano reconheceu o Havai como país independente. Após o sândalo, foi a vez de se investir na cana-de-açúcar. Em 1802, Wong Tze Chun, um chinês de Xiangshan (actual Zhongshan), província de Guangdong, levou para o Havai equipamento artesanal para a produção de açúcar, ensinando os métodos de transformação aos havaianos. O rei Kamehameha I, em 1811, contratou dois chineses para no palácio se produzir açúcar. Nos anos 30 do século XIX havia cerca de 10 chineses que plantavam cana-de-açúcar e o refinavam. Pittman foi o primeiro ocidental a olhar para as plantações e ver uma grande possibilidade de negócio. Tinha começado na construção e reparação de barcos e casou-se com uma mulher havaiana, chefe da tribo da ilha Lanai onde já os chineses aí plantavam a cana do açúcar. Pittman, observando como os chineses trabalhavam nas suas plantações, decidiu também avançar para esse negócio e como tratava com dignidade os seus trabalhadores chineses, à medida que era preciso mais mão-de-obra, incentivava-os a chamar os familiares e amigos das suas terras para virem trabalhar. No final dos anos 40 tinha empregado mais de 30 chineses. Foi também Pittman que, em 1849, trouxe a plantação de café para o Havai. Por essa altura, no seio dos Ocidentais havia duas diferentes facções. Pittman, que percebendo a qualidade dos chineses os tratava com dignidade, aproveitando-se dos conhecimentos ancestrais que eles traziam para fazer progredir os seus negócios e o juiz William Little Lee, que via as pessoas de cor como inimigos. Em 1850, o poder no Havai estava nas mãos do americano William Little Lee que controlava os dois grupos de ocidentais; os pastores protestantes, proprietários também de muitas terras e o dos donos das plantações, que se associaram na Real Sociedade Agrícola Havaiana. Antes de 1849 no Havai havia 93 chineses, sendo dois terços a trabalhar nos campos, nas plantações de cana-de-açúcar e os restantes com pequenos negócios como o das lavandarias e lojas de retalho. Havia três lojas de importação e exportação chinesas, que comercializavam produtos secos, (como chá, seda, porcelana, tecidos). Das três, uma era do amigo do tio de Chen Fang, o Sr. Cheng Xin Zhi, que importava produtos da China, outra era do chinês Chen Ming Yuan, que só negociava na América, com S. Francisco e a terceira, era de Tang Yi, um outro chinês que apenas exportava açúcar que produzia no Havai, em terrenos alugados a Pittman. Existiam outras pequenas lojas chinesas cujos negócios estavam ligados às necessidades quotidianas.


1 3 2013

h

i d e i a s f o r t e s

Em 29 de Agosto de 1850, o rei Kamehameha III mudou a capital para Honolulu. Cheng Fang no Havai Há duas versões bastante diferentes como Chen Fang em 1849 foi parar ao Havai. Pela lado chinês é-nos contado que, em 1849, foi a primeira vez que os americanos vieram a Hong Kong à procura de chineses para trabalharem no Norte dos Estados Unidos da América. A razão para tal é dita por Monsenhor Manuel Teixeira: “Tendo sido abolida a escravatura começou-se a sentir a falta de braços nas colónias inglesas e na América e daí o recurso aos chineses, dado o seu excedente demográfico e a sua fácil adaptação aos mais diversos climas.” Também a extrema pobreza em que os chineses por essa altura viviam, levou muitos deles a emigrar e assim a Companhia de Londres iniciou desde Amoy (Xiamen) esse transporte, chegando a Cuba em 3 de Junho de 1847 a primeira leva desses emigrantes, designados como cules. O barco era inglês e estava ancorado em Hong Kong, tendo apenas conseguido contratar 290 chineses, quando tinha capacidade para levar mais de mil pessoas em terceira classe. Por isso, Chen Ren Jie foi falar com o capitão e propôs-lhe que lhe fizesse um desconto de 50% pelo transporte da sua mercadoria até Honolulu e com ele seguiu o seu filho e o sobrinho, Chen Fang. Partiram em 17 de Maio de 1849, tendo a viagem durado aproximadamente 40 dias. Quando aí chegaram, encontraram um porto muito mais concorrido do que os de Macau e Hong Kong. Já segundo Jack London, no livro “South Sea Tales” escrito em 1909, Chen Fang emigrou como cule de Hong Kong para o Havai, para ir trabalhar durante três anos nas plantações de cana-de-açúcar, recebendo por dia 50 cêntimos. Afong ficou como o seu apelido nos documentos de emigração no Havai e assim passou a ser conhecido por Chun Afong, já que ao contrário dos nomes chineses, que têm no primeiro carácter o nome de família e no segundo, o nome próprio, ali Chun passou a ser o seu nome. Por isso, Jack London lhe chama Chun-Ah-Chun. Encaminhados para a zona da casa comercial do amigo, ficaram desiludidos perante a rua com um conjunto de barracas em madeira onde a loja se encontrava. O amigo logo a cedeu para servir de armazém à mercadoria de Chen Ren Jie e como não chegasse o espaço, tiveram que alugar uma outra, situada ao lado. Assim foi criada a loja Ah-Fong Ah-Fan (cujo nome juntava Chen Fan, o filho de Chen Ren Jie e o de Chen Fong) já que Cheng Xin Zhi por essa altura, pouca mercadoria tinha. A quantidade e variedade de produtos atraíram a atenção dos habitantes, que não estavam habituados a ter tão grande escolha à disposição e por isso, desde o princípio se fez uma longa fila para entrar na loja. Três meses depois, o amigo Cheng Xin Zhi vendeu-lhes todos os seus haveres

que tinha no Havai, pois desde que o seu filho morrera em 1848, queria regressar à China. Em Agosto de 1849, os dois jovens, alugando uma carroça, foram vender os produtos para o porto, sobretudo com o negócio de comida, como carne fumada e frutas secas. Em 1850, Chen Ren Jie ficou doente e cansado de estar no Havai, quando recuperou, decidiu regressar à China. Parte a 28 de Abril para Hong Kong, levando US$ 10 000, para pagar o que pedira emprestado e comprar novas mercadorias. A loja encontrava-se na rua que deu início à cidade chinesa em Honolulu e esta só em 29 de Agosto de 1850 passaria a ser a capital do Havai. Os dois melhores clientes da loja eram a casa real e os estrangeiros pescadores de baleias que no porto de Maui (ilha onde anteriormente se encontrava a capital) viviam entre Novembro e Maio. Altura em que as baleias migravam do Alasca para, ao redor do arquipélago, passar o inverno e ter as suas crias. Por isso, esta era uma das principais ocupações dos habitantes sazonais, que demandavam o Havai nesse período. Com milhares de barcos de diferentes nacionalidades empenhados na caça à baleia estacionados em Maui, para aí vender os seus produtos, Chen Fang necessitava de fazer oito horas de viagem de barco desde Honolulu. Assim, bafejado pela sorte por ser o único a fazer de intermediário, pois foi introduzido aos ingleses e americanos pela mulher de um desses capitães, conseguiu Chen Fang a exclusividade do negócio. Ainda em 1850, Tang Yi, um outro chinês que apenas exportava açúcar pediu a Ah-Fong dinheiro emprestado para alugar mais terra a Pittman e foi aí que Chen Fang teve a ideia de se dedicar ao negócio do açúcar. Ainda nesse ano, Chen Ren Jie escreveu ao filho, Chen Fan, dizendo que lhe arranjara uma esposa e por isso mandava-o regressar para casar. Chen Fang percebeu ter de encontrar quem o ajudasse, pois o primo iria ficar na China. Em Outubro de 1850 partiram juntos, tendo Chen Fong a ideia de arranjar trabalhadores e mais mercadoria chinesa para levar para o Havai. O alargar dos negócios Em Abril de 1851, Chen Fang regressa de novo a Honolulu, desta vez acompanhado por Cheng Zhi, um familiar de Cheng Xin Zhi, que veio como seu braço direito e sócio minoritário. Arrendaram uma nova loja na King Street, pagando US$ 900 por ano e deram à nova loja o nome de Fang Zhi Ji. Cheng Zhi ficou a tratar da loja, enquanto Chen Fang continuou a fazer o negócio das viagens até Maui, agora não só com os americanos e ingleses mas ampliando a todos os outros ocidentais que se dedicam à caça da baleia. Nos finais de 1853, Chen Ming Yuan, cujos negócios eram apenas com S. Francisco, introduziu um amigo que queria vender um barco e assim, Chen Fang

5

Li Xing, a esposa chinesa

comprou a sua primeira embarcação. Deixou de comerciar à peça, dedicando-se a vender por grosso. No seio dos baleeiros, tornou-se amigo do nova-iorquino Miller Damer, que mais tarde se tornou seu parceiro de negócios. No ano de 1854, Chen Fang inicia-se no negócio da aquisição de terras, mas como estrangeiro não as podia comprar. Por isso, juntou-se a Anthony, um aristocrata que superintendia na ilha de Maui, e só em meio ano, investindo todo o dinheiro que até então amealhara, comprou 810 hectares de terra, apesar do seu nome não poder constar como proprietário. Foi nessa altura que conheceu uma jovem de grande beleza, que mais tarde seria a sua mulher. Já Jack London faz referência à inteligência e perspicácia de Ah-Chun (como ficou conhecido Chen Fang na comunidade chinesa do Havai), apreendendo rapidamente tudo o que à sua volta se passava. Por isso, ficou a conhecer tanto o processo da fabricação

do açúcar, como a forma de estar e agir dos colonos. Investindo o que ganhou nos três anos e com o que trabalhou por fora, conseguiu ficar sócio da casa de importação de produtos chineses de um amigo do tio, Ah-Yung. Nos primeiros dez anos em que esteve sem vir à terra natal, trabalhou arduamente, comprou terras e dedicou-se ao negócio da cana do açúcar, abrindo uma fábrica e ajudando a comunidade chinesa local. No meio do Pacífico e tão longe da sua terra, é um participante atento e percebe que os contactos são fundamentais. Nos negócios, teve amigos britânicos que se dedicavam à pirataria, assim como toda a comunidade chinesa o respeitava. Nas ligações afectivas procurou ligar-se à família real havaiana que vivia um período próspero, apesar de não ter dinheiro. Estas histórias são-nos contadas por Jack London, mas divergem muito das que encontramos relatadas na casa-museu da família Chen em Meixi, aldeia de Zhuhai e também


1 3 2013

h 6

i d e i a s f o r t e s

O incêndio de Honululu e a plantação de açucar

no livro “Chen Fang – O primeiro milionário emigrante chinês”, escrito por Lin Yun De e Xu Wei. O casamento havaiano Em 7 de Julho (três dias após o Dia Nacional Americano) de 1855, assistiu impotente ao grande incêndio na mais importante rua comercial de Honolulu, Maunkea, onde tinha em sociedade a loja armazém Fang Zhi ji (芳植记). Durante esse incêndio, o contabilista roubou do estabelecimento 28 mil dólares, dinheiro destinado à compra de mais terras. Após três dias, alugou uma outra loja na mesma rua e aí colocou as mercadorias salvas do incêndio. Por outro lado, Chen Fang foi pedir ajuda aos baleeiros, que lhe pagaram antecipadamente os produtos que ele iria mandar vir da China, transportadas no seu barco. Em Junho de 1856, o rei Kamehameha IV casou-se e a Associação Comercial Chinesa do Havai, organizada nesse ano por Chen Fang, fez uma grande festa para comemorar o enlace real. Essa festa com mais de mil convidados teve pormenores admiráveis. Chen Fang mandou vir da China trinta e dois enormes vasos de porcelana, um famoso cozinheiro de Xiangshan e até houve um pequeno curso para ensinar os chineses a dançarem. Nessa festa Chen Fang dançou pela primeira vez com Jullie, a adolescente que ele já escolhera para casar e apenas esperava que ela atingisse a idade para o fazer. A casa, que Chen Fang mandara fazer para usar após casar, ficou pronta em 1856 e custou-lhe a exorbitante quantia de US$ 5213. Envolta por um belo jardim, combinava o estilo europeu, americano, chinês e por isso tornou-se um ex-líbris no Havai, que todos os visitantes queriam ver, assim como sobre ela muito foi escrito. Conhecera a bela Jullie Hope Commakaya Paccamercklenny Kerner Beckley Fayerweather, uma jovem princesa havaiana, cujos pais morreram em 1850, quando ela tinha 10 anos e vivia adopta-

da por um casal, que pertencia também à corte havaiana. O avô da parte da mãe, Beckley, era britânico e capitão de um barco, que casara com a meia-irmã da Rainha do Havai, esposa de Kamehameha I. O pai de Jullie, um americano de nome Fayerweather Hope, conjuntamente com o mais novo irmão da Rainha, formaram o primeiro grupo empresarial no ramo da produção de açúcar no Havai. Como Jullie era ainda uma menina, Chen Fang foi-lhe fazendo a corte, até ela atingir os 16 anos, a idade de casar. Durante esse período, para impressionar a família da realeza havaiana, Afong como ficou conhecido no Havai, construiu uma mansão num recinto ajardinado com o gosto que misturava o requintado estilo da China com o europeu. Local onde foram celebrados inúmeros casamentos entre chineses e havaianas, ainda antes de ele se casar com a princesa. Chen Fang casou-se em Maio de 1857 com Jullie e assim ficou com a nacionalidade havaiana. Em Dezembro, durante a corrida ao ouro em S. Francisco, Miller Damer convidou Chen Fang para, como sócios, abrirem aí uma loja. No ano seguinte nasceu Emmeline Afong (18581946) cujo nome em havaiano era Kailimukn. Em Janeiro de 1859, Chen Fang veio à China, onde em Meixi engravidou de novo Li Xing, tendo regressado ao Havai ainda em 1859, sem ter visto nascer Chen Gengyu, o segundo filho da sua esposa chinesa. Gengyu (1860-1918) apesar de se ter graduado na Universidade de Yale, sem nunca se interessar por política, enveredou pelos negócios e com uma vida de “bon vivent” casou, sustentando mais 10 concubinas, não deixando descendência quando morreu em Hong Kong. Chen Fang levou para o Havai o filho mais velho, Chen Long, que nascera no ano de 1847 em Meixi (Zhuhai) e agora, com 12 anos, acompanhava o pai para ir estudar. Chen Fang chegou de novo a Honolulu onde, por essa altura, se vivia um período de perseguição à comunidade chinesa

feita pelos muitos aventureiros e negociantes americanos e ingleses. Anthony, o segundo filho do casamento havaiano, nasceu em Junho de 1859, também em Honolulu. Nesse mesmo ano, houve uma epidemia de gripe no Havai, onde morreu muita gente. Devido a tal, muitas plantações de cana-de-açúcar ficaram sem mão-de-obra e alguns proprietários foram forçados a vendê-las. Chen Fang compra uma plantação de açúcar, a primeira registada em seu nome, por um baixíssimo preço, entrando assim para a Associação dos donos das terras ligadas à produção de açúcar e que apenas contava no seu seio com americanos e ingleses. Estava concretizada a sua aspiração de há muito tempo. Logo em Outubro desse ano, aí fez uma fábrica de processamento da cana-de-açúcar, a fábrica de açúcar Guo Fen, cujos trabalhadores chineses recebiam um ordenado muito mais elevado que os das restantes fábricas com proprietários estrangeiros. Os ocidentais tinham a mania de tratar todos os chineses por John. Rei do Açúcar Entre 1861 e 1864, ocorreu nos EUA a Guerra Civil, entre o Sul e o Norte e à custa da venda para aí de açúcar, cavalos e burros, Chen Fang ganhou 380 mil dólares americanos. Em 1862, Chen Fang voltou à China, agora acompanhado por Anthony, o seu segundo filho da esposa havaiana Jullie. Tony tinha apenas três anos e ficou a viver na aldeia de Meixi com a família chinesa. Em 1864, Miller Damer sugeriu a Chen Fang fazerem uma plantação de açúcar, ele dando dinheiro e Chen Fang, as terras. Nessa altura, Chen Fang em conjunto com Jullie tinham 2430 hectares de terra na ilha de Maui e para a plantação deu metade delas, enquanto Damer empregava US$ 150 000. A Companhia Pepeekeo Sugar Plantation era não só de plantação, como de produção de açúcar. Em 1865, morreu o tio de Chen Fang e

também o seu irmão mais velho. Ano que comprou o terreno onde a sua loja na King Street ardera dez anos antes e voltou a reconstruí-la como era no passado. Os primeiros barcos a vapor apareceram nos finais do ano de 1866. Em 1867, Chen Long, o primeiro filho da família chinesa e o mais velho de toda a descendência de Chen Fang, terminou os estudos na escola primária americana Iolani, em Honolulu. Fora o primeiro aluno chinês desta escola, que estava a cargo de um pastor protestante. Em 1872, Chen Long vai tirar o curso na Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América e quando regressou ao Havai, veio ajudar o pai a gerir a fábrica de cana-de-açúcar. Foi a ele que Chen Fang delegou todo o trabalho de gestão dos negócios no Havai. Em 1871, Long casou com Daisy, uma havaiana, de quem teve dois filhos, Chen Yong’an e a Chen Miaoyan. Chen Long morreu no Havai a 11 de Agosto de 1879, com 32 anos, sem nunca ter regressado à China, sua terra natal. Em Janeiro de 1869, Chen Fang voltou a Meixi, já que a sua mãe (que Jack London diz ter morrido em 1831) e o outro irmão morreram. No regresso, traz Tony, o filho havaiano que deixara na China. Em Outubro, Chen Fang comprou por US$ 260 000 mais uma plantação de cana, com 2000 hectares, tornando-se assim o Rei do Açúcar. Em 1873, após a morte de Kamehameha V, como este não indicou um herdeiro ao trono aconteceram eleições e Chen Fang deu suporte a David Kalakaua, um irmão da sua esposa, apesar de não ser de sangue. Nessas eleições Kalakaua perdeu, mas em 1874 conseguiu vencer, tendo Chen Fang, para as duas eleições, despendido um milhão de dólares. Com grande poder económico e agora também bem colocado politicamente, pertencendo por casamento à família real havaiana, foi eleito membro especial para ajudar na governação do Havai. Em 1877, Chen Fang ajudou como fiador Sun Mei, um chinês de Xiangshan,


1 3 2013

h

i d e i a s f o r t e s

para alugar 810 hectares de terreno na ilha Maui, no Havai. Em 1878, aparece em Maui um rapaz chinês com 12 anos, cujo seu irmão mais velho, Sun Mei, lhe pagara a viagem, conjuntamente com a sua mãe. Sun Zhongshan nascera em 12 de Novembro de 1866, de uma família de camponeses na pequena aldeia de Cuiheng, no distrito de Xiangshan (actual Zhongshan, próximo de Macau) em Guangdong. Em Agosto, dois meses depois da sua chegada, vai estudar inglês na escola primária americana Lolani em Honolulu, onde terminou os estudos em Julho de 1882, tal como a sexta filha havaiana de Chen Fong, Elizabeth Afong (1868-1948). A mesma escola que Chen Fang conseguira fazer com que aceitassem alunos chineses e para aí dera dinheiro a pedido da rainha havaiana. Em 1881, designado pelo imperador Guangxu da dinastia Qing, Chen Fang tornou-se o primeiro cônsul chinês do Havai, cargo que exerceu apenas um ano. Vendendo em 1882 uma das suas plantações, usou US$ 700 000 para comprar acções na Companhia Douglas de Barcos a Vapor de Hong Kong. Descendência de Chen Fang Os negócios de Chen Fang corriam cada vez melhor e a sua fortuna multiplicava-se. Em 1880, tornara-se milionário, tendo só em dinheiro mais de um milhão de dólares americanos. Já quanto à sua descendência, para além dos três filhos da sua esposa chinesa Li Xing, teve com a segunda mulher, a princesa havaiana Jullie, mais quatro filhos e doze filhas, o que perfez dezanove filhos. Pelo lado chinês, o mais velho de todos era Chen Long, que nascera no ano de 1847 em Meixi (Zhuhai) e morreu no Havai em 1879, o terceiro era Chen Gengyu (1860-1918), o segundo filho da sua esposa chinesa e mais tarde teve uma rapariga, Chen Xiang. No Havai, nasceu-lhe primeiro uma filha, Emmeline Afong (18581946) cujo nome em havaiano era Kailimukn e depois Anthony Keawemanhiiti (1859-1937). A seguir, apareceu uma série de oito filhas, Nancy Afong (1861-1939), Mary Catherine Afong (1862-1939), Marie Afong (1864-1938), Jaliu Afong, Jullie (1866-1941), Elizabeth Afong (18681948), Alie Afong, Eta (1871-1947), Henrietta Afong (1873-1951) e Helen Gertada Afong (1875-1953). Albert Fuyer Nea Tner (1877-1948) foi o segundo filho que nasceu no Havai, seguindo-se mais duas filhas, Marta Afong (1879-1956) e Carbine Afong (18811950). Depois veio, outro filho, Henry (1883-1933) e uma nova filha, Melaine Afong (1884-1956). Ainda houve uma outra, que não teve nome e terá nascido e morrido em 1885. Traziam pela mãe havaiana um pouco de sangue polinésio e americano inglês, a mesma proporção de italiano e português e o sangue chinês do pai, Chen Fang. A história da família do Havai de Chen Fang foi contada de uma maneira brilhante por Jack London e por isso abstemo-nos de fazer referência, remetendo o leitor para o artigo da semana passada.

Chen Fang começou a ficar farto de aturar os caprichos da sua família, bem como com o ambiente no Havai que não estava favorável para os que não eram de raça branca. A Constituição do Reino do Havai de 1887 foi imposta à força das armas e o poder do rei ficou reduzido a uma figura meramente decorativa. A Constituição favorecia a comunidade branca inglesa e americana em detrimento dos nativos e residentes asiáticos, que deixaram de ter direito a votar. Resolvido a deixar o Havai, Chen Fang preparou o casamento das suas 13 filhas, que se eternizavam como solteiras. Apesar de na casa haver constantes festas e estar sempre cheia de gente, recebendo jovens estrangeiros da aristocracia, não havia pretendentes para elas. Então, numa jogada de mestre, prometeu um grande dote de casamento para a filha mais velha, Emmeline Afong e assim logo surgiram pretendentes para as outras filhas. Com esse assunto já resolvido, Chen Fang entregou à sua esposa havaiana uma pequena fortuna como pensão e antes de partir, vendeu todos os seus negócios ao nova-iorquino seu parceiro de longa data, Miller Damer. Deixou o Havai em 1890, para nunca mais lá voltar. Em 1893, a monarquia havaiana caiu às mãos de gananciosos comerciantes e aventureiros, ingleses e americanos, que a tornaram uma República independente. Em 1898, o Havai foi anexada pelos EUA e em 1959 tornou-se mais um dos seus Estados. Chan Fong em Macau Saiu de Honolulu em 17 de Outubro de 1890 e desembarcou no porto Victoria em Hong Kong, trazendo com ele o seu

filho Anthony e dois netos, os filhos de Chen Long, Chen Yong’an e Chen Miaoyan. Daí seguiu de barco para Macau, onde tentou hospedar-se num dos hotéis da Praia Grande. Só que o Hotel Macau não aceitava hóspedes chineses, que só podiam ser servidos no restaurante. Quando Chan Fong entrou na recepção do hotel, acompanhado pelo seu filho e os dois netos, os criados ficaram surpreendidos com as feições mestiças das duas crianças e mais ainda, quando as ouviram falar um inglês impecável. Perante a recusa de estadia, Chan Fong, sentindo-se desfeiteado, mandou chamar o gerente e, por sorte, este vinha a descer as escadas. Dizendo ao gerente querer comprar o hotel, este, em ar de gozo, atirou-lhe um preço muito mais alto do que o real valor. Chan Fong disse-lhe que dentro de duas horas, teria ali os seus advogados para tratar dos papéis e assim aconteceu. O hotel passou a chamar-se Ying Kee. Mais tarde Chan Fong comprou para sua habitação uma grande mansão na Rua da Praia Grande, situada ao lado onde hoje se encontra a Escola Pui Tou. No Boletim Oficial número 14 do ano de 1891 encontramos o cidadão Chan-Fong como vogal de uma comissão extra-oficial feita a convite do Governador de Macau, constituída para tomar a seu cargo os festejos públicos projectados para a recepção de Sua Alteza Imperial, o Czarevitch da Rússia, na sua visita a esta cidade, que não veio a acontecer. A liquidação final das despesas preparatórias já efectuadas, ficaram totalmente a cargo da comissão, por iniciativa desta. Chen Fang mesmo quando vivia no Havai nunca se esqueceu do seu país e peran-

7

te as calamidades na China fazia grandes doações, o que lhe valeu ser agraciado por várias vezes pelo imperador Guangxu (1875-1908). Tal aconteceu em 1878 pois doou 7000 liang de prata para o governo fazer face ao enorme desastre provocado por uma grande seca ocorrido no Norte da China. Em 1886, em Xiangshan houve uma grande inundação, o que deixou muitas pessoas com fome e sem lugar para habitar e de novo ofereceu dinheiro para ajudar a população sinistrada. De salientar que por essa altura Zhuhai estava sobre administração de Xiangshan, que mais tarde passou a ser chamada Zhongshan. Em 1891, após Chan Fong ter regressado definitivamente do Havai, na sua aldeia, Meixi, comprou terra e aí construiu uma escola, fez o saneamento e ruas, canalizou água potável para as casas e instalou a electricidade. Ainda em 1891, de novo perante uma grande inundação em Xiangshan, ajudou com 7000 liang de prata os habitantes e deu outros 4000 liang de prata para a construção da primeira estrada de pedra em Xiangshan. Chan Fong foi o primeiro a importar um carro em Macau. O Chevrolet onde se deslocava mereceu seguramente a atenção e a inveja de muita gente. Após morrer em Macau em 25 de Setembro de 1906 foi o seu corpo levado para Meixi, onde ficou enterrado na mansão da família Chen, que fora por ele mandada construir em 1891. Tínhamos enfim a História deste multimilionário, mas muitas são as questões que ainda nos colocamos. Porquê o silêncio sobre esta personagem, tanto em Macau, como em Hong Kong e na China?


1 3 2013

h 8

c h i n a c

Com o poeta 屈原 Qu Yuan, no rio Mil António Graça de Abreu Era uma vez um poeta, ministro e homem de Estado chamado Qu (leia-se Chu) Yuan ( 340 a.C. – 278 a.C.). Viveu tempos atribulados numa China ainda não unificada, dividida em reinos independentes e autónomos que tanto se aliavam como lutavam entre si. É o chamado período dos Reinos Combatentes (475 a.C.-221 a.C.) que antecede a fundação da grande China, Império do Meio, um único Estado centralizado, vasto e unido sob o bastão do primeiro imperador, o príncipe do reino de Qin (leia-se Chin), o poderoso Qin Shihuang,

soberano único de todo o império no ano de 221 a.C. Qu Yuan foi primeiro-ministro do reino de Chu. Tentou em vão defender e salvar o seu reino face às ameaças do reino rival de Qin que então já ameaçava os territórios vizinhos e crescia conquistando outros reinos. Intrigas na corte de Chu fizeram com que Qu Yuan fosse afastado pelo príncipe de todos os cargos públicos e condenado ao degredo para terras distantes. Ao modo dos entendimentos chineses, uma coisa má acabou se transformar numa coisa boa e Qu Yuan, em verso, acabou por cantar a sua amargura num longo poema intitulado Li Sao que se pode traduzir por “Elegia da Tristeza” e o fez entrar na galeria dos gran-

des poetas da China. Uma mescla de realismo autobiográfico, mais uns laivos fortes de romantismo e a reminescência de cantares populares da época marcam os poemas de Qu Yuan e deixaram forte influência na posterior poesia chinesa. Alguém comparou os seus versos a “pérolas caindo sobre bandejas de jade.” Nasceu em Zigui, na província de Hubei, junto de Xiling, umas das Três Gargantas do rio Yangtsé. Por lá passei em 1983, 1995 e 2011. Em 1995 subi até ao templo dedicado a Qu Yuan, sobranceiro ao rio, com a estátua do poeta, altares para se reverenciar a sua memória, enfim, um templo pequno destinado não a adorar deuses mas a prestar homenagem a um poeta e estadista. Infeliz-

mente, com a contrução da gigantesca barragem das Três Gargantas, as águas do rio subiram, criou-se numa albufeira que se estende por 600 quilómetros e grande parte da cidade de Zigui ficou submersa, tendo-se construído de raiz uma nova Zigui, a vinte quilómetros de distância. Como pude comprovar no Varão de 2011, o Templo de Qu Yuan foi apenas transferido para um local mais alto na mesma enconta da montanha e, visto de longe (desta vez não desembarquei) pareceu-me igualzinho ao templo que jaz hoje sob as águas do Yangtsé. O poeta Qu Yuan passou, de há dois mil e duzentos anos para cá, a fazer parte da galeria das figuras de um passado histórico permanentemente vivas no conhecimento


1 3 2013

h

r ó n i c a

9

luo, província de 湖南Hunan e na memória do povo chinês. O enorme poeta Li Bai (701-762) , assim se lhe refere: Poemas de Qu Yuan brilham Iluminam o céu e a lua. Numa outra alusão a Qu Yuan, Li Bai conclui deste modo um seu poema: O mundo odeia o que é claro e puro, o homem sábio oculta o seu fulgor. Na margem do rio, um velho pescador. ele e eu regressaremos juntos. Degredado, esquecido, errando ao acaso pelas margens do rio Miluo, afluente do rio Xiang que por sua vez desagua no rio Yangt-

sé, Qu Yuan, premeditando o suicídio, encontrou um pescador que o terá reconhecido e lhe perguntou quais as razões porque deambulava por regiões tão afastadas da capital do reino de Chu. Qu Yuan ter-lhe-á respondido mais ou menos com estas palavras: “O mundo está corrupto, eu quero permanecer puro, o mundo vive a sua embriaguês, eu quero permanecer lúcido.” O pescador, antes de se afastar, retorquiu: “Se as águas do rio estão límpidas, aí lavo a minha roupa, se as águas do rio estão barrentas, aí lavo meus pés.” Verdade é que Qu Yuan, com sessenta e dois anos de idade, se lançou nas águas do rio Miluo, abraçando uma grande pedra, e não mais foi visto. Os camponeses e pes-

cadores da região avançaram para o rio, céleres nos seus barcos-dragão, em busca do corpo do poeta e ministro. Foram espalhando grãos e bolas de arroz glutinoso nas águas para que os peixes e os dragões comessem o arroz e não o corpo de Qu Yuan. Ainda hoje, no 5º. Dia da 5ª. Lua -- em princípios de Junho, segundo o nosso calendário --, se comemora por toda a China, incluindo Macau, a data da morte de Qu Yuan com as corridas dos barcos-dragão. Movidos por vigorosos remadores, os barcos deslizam rápidos como se procurassem mesmo o corpo de Qu Yuan e o timoneiro, com o seu tantã a ritmar todas as manobras, não se esquece de ir espalhando bolas de arroz nas águas do rio ou do lago. Assim o corpo do poeta estará a salvo.

Qu Yuan é uma personagem benquista na China Popular. Os comunistas não lhe têm poupado elogias, como figura de político íntegro, amante da justiça e patriota. Até Mao Zedong, natural de Shaoshan, na província de Hunan, não longe do lugar onde Qu Yuan se afogou, lhe dedicou em 1961 um poema que passo a traduzir: Qu Yuan Qu yuan, tantos, tantos anos, a entretecer as rimas, Sem espada na mão para trespassar o inimigo. Cresciam ervas selvagens, tão raro o perfume das flores… O poeta mergulhou de vez na imensidão das ondas, Foi o fim da dor, sofrimento e mágoa…


1 3 2013

h

10

p r i m e i r o b a l c ã o

luz de inverno

Boi Luxo

Der Rosenkönig, Werner Schroeter, 1986

Life is very precious, even right now, em Eika Katappa Tendo já anteriormente aqui sido publicado um texto sobre uma outra história fatal, Der Tod der Maria Malibran, poderá ser repetitivo lembrar as qualidades de Der Rosenkönig, também de Werner Schroeter. Tenderá menos ao exagero porque tudo o que se prende com estes filmes belos e extraordinários tem sempre de aparecer rodeado de um desejo hiperbólico e fora do vulgar. Muito fora do vulgar e da vulgaridade turística que marca grande parte do cinema actual, especialmente ocidental, europeu e americano, repetição exaustiva de um número restricto e aborrecido de fórmulas. É quase impossível rever este Rei das Rosas sem sentir pena por um estado de coisas, actual, em que é muito difícil acreditar. Esgotada a paciência para as boas intenções de postal e para a beleza tradicional, resta-nos o abandono ao luar e à música, ao natural artificioso, ao poder da superficialidade sobre a substância, à noite e a um cheiro que já não há, a estofos de ópera, charuto e pó de arroz. Numa altura em que há cada vez mais cinema de tom realista, certamente resultado da lenta infecção que a televisão desde há décadas sobre aquele tem vindo a espalhar, regressar aos filmes de Schroeter e à inocência e intensidade emocional do seu kitsch (uma palavra de origem alemã) é um exercício necessário para manter a lucidez e a capacidade para o encanto. O camp e o kitsch são uma opção estética cuja eficácia parece imune ao passar do tempo. Os filmes de Schroeter, contudo,

são mais kitsch que camp, destes não tendo a obsessão homossexual de choque que aqueles tantas vezes exibem. Estão afastados das obsessões mais surrealistas de Ulrike Ottinger, ou Rosa von Praunheim e Monika Treut, mesmo que o gosto por lânguidos planos longos permaneça. Encontram-se igualmente - à excepção de um ou outro exemplo - distante da obsessão com a inabilidade alemã em lidar com a sua história e com o luto, que a obra de Syberberg e outros, como Alexander Kluge e Fassbinder, permite identificar (ver 2004, Caryl Flinn, The New German Cinema, capítulos 5 e 6, para este assunto e outros aqui tratados), o que o torna menos em um cinema que parta de uma “cultura de ferida” por razão histórica, como Flinn lhe chama. Syberberg, que Fassbinder considerava um plagiador, enquanto admirava Schroeder, conta-se entre os autores que mais terá ido beber ao mundo kitsch do autor de Der Rosenkönig. Da sua estética retirou artifícios prontos à reflexão sobre o luto que tanto caracterizam a sua obra. Der Rosenkönig é um filme de narrativa mais linear que Der Tod der Maria Malibran (1972) ou Eika Katappa (1969), e menos kitsch que estes e outros dos seus filmes. É uma história de amor, uma leidenschaft, entre dois homens, passada no Montijo, aí filmada. Mostra também algumas imagens captadas nesse mais romântico, operático, selvagem lugar - a Serra de Sintra. É para alguns dos seus apreciadores, que são em número cada vez maior, uma exibição perfeita da sehnsucht, e que melhor lugar para a exprimir que entre as brumas de Sintra.

Mais uma história de amor, de um romantismo impossível, bárbaro e estrangeiro com a sua ur-star Magdalena Montezuma, sempre Montezuma, a fazer de mãe do enrabichado Albert, passada num ambiente meridional que tanto seduziu esta figura singular do cinema alemão. Na Itália e em Portugal, assim como na música latina, encontrou Schroeter terreno propício para a exibição da tensão que se cria entre a paixão e a racionalidade. Caryl Flinn não deixa também de chamar a atenção para o facto de o kitsch surgir por finais do romantismo oitocentista, como resultante de uma tendência decadente daquele e do advento de novas formas de produção e consumo. Poucos autores terão mostrado um desprezo tão grande pelo sucesso e pela integração em movimentos (ou desprezo pela análise académica dos seus filmes) ou uma habilidade tão vasta em não se deixar arrastar para discussões sobre outros cineastas seus contemporâneos. Essa liberdade passa para o modo extremamente físico, sanguinário, romântico e solitário como as suas histórias se compõem. Igualmente, poucos cineastas se aproximarão de uma maneira tão sincera e física do espectador, ao mesmo tempo que se afasta dos mecanismos tradicionais de transmissão e promoção do cinema. Esta absorção em si mesmo não poderia deixar de ser útil à descrição do amor, com o seu cortejo de sofrimentos e belezas, profanas e de imagética religiosa (mas não tanto como em Eika Katappa) numa quinta meridional meio em ruínas onde se cultivam rosas e onde escorre o sangue e a uma adoração diurna e nocturna.

Ouvem-se cantigas infantis portuguesas (nestes momentos uma ignorância da língua seria utilíssima, com o conhecimento perde-se o seu poder encantatório). O amor homossexual neste filme retratado atinge, assim como em alguns momentos da história de Eika Katappa, um esplendor quase bíblico, aparentemente mais natural, sincero, muito distante dos clichés do amor heterossexual. O rei das rosas, Albert, é um jardineiro que tenta cultivar a rosa ideal e no processo se deixa apaixonar por um rapaz local que Schroeter transforma numa figura que se situa entre Cristo e São Sebastião enquanto se fala de La Tour e Caravaggio. Albert aprisiona-o numa espécie de celeiro, alimenta-o, banha-o, adora-o. Schroeter filma-o no meio de azuis e de vermelhos que são o vermelho das rosas e do sangue e da sua paixão meridional. Estes quadros constroem-se em tableaux diferentes dos que se mostram, generosamente, nos outros dois filmes anteriormente citados, menos desgarrados, porventura menos ousados. Este gosto narrativo de montagem em quadros, menos acentuado, repita-se, em Der Rosenkönig, mostra uma tendência, no entanto, ainda, para um tipo de desordem, de desequilíbrio formal que vai contra os modelos actuais do cinema, mesmo alguns que se advogam de uma certa ousadia narrativa. Com o que se sabe hoje poder-se-ia fazer um cinema mais próximo deste. Numa época de filmes de scheiße, como é a actual, é necessário que assim aconteça para que possamos continuar a acreditar na sua urgência e na sua sinceridade.


h

1 3 2013

t e r c e i r o o u v i d o

próximo oriente

Hugo Pinto

Não esquecer os Forget the G Regresso a uma noite de Janeiro deste ano, quando a Live Music Association abriu as portas ao “noise” e à música experimental do polaco Zbigniew Krakowski, Sin:Ned, de Hong Kong, e e:ch, de Macau. e:ch é o nome que Eric Chan utiliza quando encarna a pele de intrépido explorador sónico, o papel que desempenhou nessa noite. De figura esguia, sentado no chão da sala de concertos com a guitarra eléctrica aninhada no colo e os braços estendidos sobre os pedais e o amplificador, Eric arrancou do instrumento e das maquinarias trinta minutos de pura distorção, umas vezes transformada em estática ruidosa, mas apaziguada, outras em descargas maciças de electricidade que evocavam com estrondo uma qualquer natureza do caos. Desordem e confusão, enquanto elementos de ignição da criatividade, são ideias que se pressentem na música dos Forget the G, mas o trio - liderado por Eric Chan -, privilegia uma disposição arrumada e progressiva dos sons. Fazendo parte do universo do chamado “rock alternativo”, os Forget the G convocam influências díspares que vão dos Radiohead a Ravel, passando pelos Einstruzende Neubauten ou Explosions in the Sky, para fazer uma música que, nas palavras da banda de Macau, tem uma dimensão marcada por três conceitos: subtileza, dinâmica e contradição. No mais recente disco, de 2012, “I See You Watching Me While I’m Watching You” (segundo volume de uma trilogia ainda em aberto iniciada com “Prologue”, em 2010), os Forget the G aprofundam os conceitos-chave em canções que chegam aos 11 minutos, remetendo os ouvintes para grandes espaços onde a vista se alarga, mas também se revira para o seu interior. A música desenvolve-se em lentas progressões, num tom arrastado que introduz transições no tempo certo. Hipnótico, o som tanto explode como implode. As frases minimais de piano são constantes; as guitarras são melodiosas e ambientais, mas amiúde optam pela estridência e pela expansividade. O “feedback” acentua a tensão, os “riffs” parecem decompor-se num estrépito electrónico. A voz de Eric Chan é expressiva, ondulante e intimista. “Et voilà”. Os Forget the G nasceram em 2005, na Austrália, e tiveram direito a um segundo parto em 2007, em Macau. Fazem parte da banda Eric Chan (voz e guitarra), Frog (piano) e Fi (bateria). Até à data, contam com dois discos (“Prologue”, de 2010 e “I See You Watching Me While I’m Watching You”, de 2012), e outras tantas aparições em colectâneas (“Listen To The People”, de 2010, e “Black Market Music Compilation”, de 2012). À semelhança do que acontece com outra das “wonder bands” de Macau, os Evade, tam-

bém os Forget the G têm rodado com alguma intensidade pelos palcos da região (Hong Kong, China, Taiwan), onde têm colhido elogios que soam mais do que bem. Em Macau, o discurso repete-se: “Gostava de ver mais pessoas interessadas em apreciar a música de diferentes bandas do que apenas miúdos que tentam parecer ‘cool’ nos concertos, enquanto dão uns saltos durante as actuações, ou passam o concerto a filmar com o seu iPhone. Acho que esta realidade explica porque é que algumas bandas procuram tocar o máximo possível fora de Macau.” É Eric Chan, em discurso directo. Apesar de algum desencanto, que não se acuse Eric, todavia,

de resignação: além da actividade a solo enquanto e:ch e do trabalho com os Forget the G, Eric Chan é responsável pela editora que criou em 2010, Day’s Eye Records. É com este selo que edita os discos dos Forget the G, em Macau e em Hong Kong, funcionando ainda a editora como plataforma para a promoção de concertos de outras bandas. O primeiro espectáculo aconteceu no passado dia 13 de Janeiro, numa noite dedicada ao “noise”, na Live Music Association, e poucos dias depois realizou-se o segundo, com Islaja, da Finlândia. Eric promete mais para breve. Até porque, diz, “continuamos a ter esperança de mudanças para melhor”.

11


1 3 2013

h

12

c i d a d e s i n v i s í v e i s

perspectivas Jorge Rodrigues Simão

Regidos pelos mortos “São os mortos quem governa. Repara só, homem como nos impõe a sua vontade! Quem fez as leis? Os mortos! Quem fez os costumes a que obedecemos e que moldam e delimitam as nossas vidas? E os títulos de posse das nossas terras? Não foram os mortos que no-los legaram? Se um agrimensor traça uma linha, vai começar num canto marcado pelos mortos; e se alguém recorre aos tribunais sobre alguma questão, o juiz folheia os seus livros antigos até descobrir como os mortos a resolveram-se segue essa solução. E todos os escritores, quando querem dar peso e autoridade às suas opiniões, citam os mortos; e os oradores que pregam e discursam – não têm a boca cheia de palavras proferidas pelos mortos? Não há dúvida homem, as nossas vidas correm por sulcos que os mortos cavaram com as unhas dos polegares.” Melville Davisson Post Uncle Abner, Master Of Mysteries

O direito, enquanto ciência humana, deve ser um reflexo tão fiel quanto possível, das preocupações e anseios do ser humano, o que significa, que devia ser actual e real, não um mero acompanhante tardio da realidade social, sendo muitas das vezes, uma aplicação veneranda de legado “mortis causa”, no sentido de não se tratar de uma simples liberalidade, pois o benefício pode ficar absorvido pelo encargo imposto ao legatário, a ser executado “ad aeternum”. É muito frequente acontecer igualmente, depararmos com o facto da norma ter sido feita por um legislador falecido, para uma realidade desaparecida e que estando o corpo (norma) morto e tendo-se junto no eterno ao espírito, (legislador) continua confortavelmente a regular a vida dos vivos. O direito do ambiente é um sinal da nossa época, e tal elementar motivo é a causa da sua existência e a razão do seu actual desenvolvimento, pese o facto de contra os ventos da actualidade e do futuro, não constar da maior parte dos planos de estudos adequados a Bolonha, não sendo contemplado no conjunto das unidades curriculares obrigatórias, e em algumas situações, considerado tão só, como unidade curricular optativa. A protecção e a promoção do meio ambiente, bem como a implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável são uma preocupação da sociedade globalmente considerada e, portanto, do direito. A degradação ambiental, é claramente um dos principais problemas que enfrenta a humanidade. O modelo de desenvolvimento errado a nível global, com sobrepopulação, injustiça social, desigual distribuição dos recursos económicos, extensiva às relações comerciais e políticas, a somar à irresponsabilidade dos políticos, cujo costume tradicionalmente aceite como saudável, é o de se manterem no poder por longo prazo, colocou na mira dos países

a necessidade de respeitarem as regras de equilíbrio natural, para garantir a integridade e a renovação dos sistemas naturais. É a este belo conjunto de normas, que é usual denominar-se de direito do ambiente, dependendo da sua implementação e cumprimento, quer a nível nacional, regional e internacional, a nossa sobrevivência como espécie humana, assim como, as demais espécies vivas, incluído o planeta. O direito do ambiente é nesta perspectiva referente ao meio ambiente. É um ramo do direito público, cujo fim é a protecção do meio ambiente. A perspectiva da “Teoria Pura do Direito”, de Hans Kelsen, considera o direito como se de uma pirâmide se tratasse, que no topo se situaria a “Ursprungnorm-Norma Fundamental”, onde o direito do ambiente encontraria a sua fundamentação. O direito nesta perspectiva, está reduzido à norma, detendo o Estado o monopólio da produção legislativa. É esta a corrente de pensamento que vigora em Portugal, Espanha e Grécia. Os países pertencentes à “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)”, que são Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Timor-leste, e São Tomé e Príncipe por razões histórico-culturais, têm como língua oficial o português e a matriz do seu ordenamento jurídico é muito próxima da portuguesa. A Guiné Equatorial, as Ilhas Maurícias e o Senegal têm o estatuto de membros observadores associados, tendo de comum, apenas, o português como língua oficial. São candidatos ao estatuto de membros observadores associados, Andorra, Marrocos, Filipinas, Croácia, Roménia, Ucrânia, Indonésia e Venezuela, Uruguai, Malaca, (estado da Malásia) e

a Galiza (comunidade autónoma de Espanha). O estado de Goa, da República da Índia, antiga capital do Império Português da Índia, desde 1510 até 1961, e a Região Administrativa Especial de Macau, da República Popular da China, colónia e território sob administração portuguesa, desde o inicio do século XVI, até 19 de Dezembro de 1999, são candidatos a membros, dependentes da aprovação dos governos centrais dos respectivos países. Macau tem o estatuto de observador consultivo, através do “Instituto Internacional de Macau”. O direito do ambiente é um garantidor a um meio ambiente adequado ao desenvolvimento do ser humano, e encontra-se consagrado na maioria das constituições dos países ocidentais, como direito fundamental, ainda que, doutrinariamente, em função do seu reconhecimento pelas constituições, sejam considerados como direitos fundamentais de primeira geração, como os da liberdade e vida; direitos fundamentais de segunda geração, como os sociais, económicos e culturais e os direitos de terceira geração, como os de solidariedade. A “Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau”, no artigo 119.º, afirma que “O Governo da Região Administrativa Especial de Macau protege o meio ambiente, nos termos da lei”, desde logo, no respeito pela “Lei de Bases do Ambiente”, aprovada pela Lei n.º 2/91/M, de 11 de Março, objecto de detalhado estudo, a ser brevemente publicado. O direito do ambiente, é igualmente, o resultado da reunião teleológica de normas sectoriais em torno de uma nova ideia, que é o meio ambiente, considera-

do como conceito global e integrador e atentas as alterações climáticas, como um dos dez riscos globais dos anos vindouros, senão do século, se o planeta resistir à devastação e degradação que o seu pior inimigo, (o ser humano) o sujeita diariamente. A situação de crise ambiental global que o mundo vive, pede ao direito do ambiente suporte para a resposta a três situações, que revestem da máxima importância para a vida no planeta azul, e passam por saber qual é a actual e previsível evolução da crise ambiental e a forma posta ao serviço do direito para a minimizar; qual a visão dos especialistas em direito do ambiente, quanto ao futuro e quais os desafios imediatos que enfrentará. O direito do ambiente face aos desafios imediatos que terá de fazer face, poderá vir a tornar-se o direito da crise ambiental que o mundo vive e se irá agravar. O mundo das previsões é particularmente complexo e no direito do ambiente agudiza-se, principalmente a nível internacional, pois as alterações estão a produzir-se a grande velocidade, permitindo apenas ao observador ter uma imagem fixa do que ocorre. O direito do ambiente é uma das áreas do direito, particularmente associada à realidade planetária, sendo fortemente influenciado pelos factos sociais, económicos, tecnológicos e culturais. É necessário ter em consideração quando se aborda o direito do ambiente, as tendências, implicações e impactos internos e externos, e os ajustamento que tem de fazer, face a fenómenos como os da globalização, integração em espaços supranacionais, como o do direito do ambiente da União Europeia, que está a originar o nascimento de um real “ius commune” no domínio do ambiente; de alterações a nível das estruturas do direito do ambiente, como a constitucionalização, codificação, globalização e desregulação; de técnica jurídica e organização administrativa. A dispersão normativa inata do direito do ambiente, não faz estranhar que umas das suas das modernas características, seja a da codificação. O ordenamento jurídico dos Estados Unidos sofreu múltiplas pressões para a adopção de uma única lei federal a nível do ambiente, em benefício, de uma desejável integração. Opinião expressa em Maio de 1991 pelas competentes autoridades americanas, nomeadamente, a comissão de consulta em matéria de relações intergovernamentais do Senado e o Auditor-Geral. Existe actualmente uma verdadeira tendência à codificação do direito do ambiente como acontece na França e Alemanha.


h

1 3 2013

c i d a d e s i n v i s í v e i s

metrópolis

Tiago Quadros*

13

More is Less. Ou a falta de luz ao fundo da Avenida Carlos da Maia (1878–1921) foi oficial da Marinha de Guerra Portuguesa e destacado político Republicano. Entre 1914 e 1916 foi Governador de Macau. O seu mandato ficou para sempre associado à construção da Avenida Almeida Ribeiro. O desenho urbano da cidade estava marcado pela divisão entre a cidade cristã, que se desenvolvia dentro de muralhas e na qual se situavam as fortalezas, igrejas, e edifícios ligados à administração, como os Paços do Concelho, o Tribunal e o Palácio do Governo; e o Bazar chinês, fora de muralhas, caracterizado pelo traçado irregular e estreito das vias, pela presença dos templos, das casas de comércio e dos mercados. O gesto de Carlos da Maia, estratégico e moderno, uniu as duas cidades que coexistiam em Macau. A dimensão civilizacional, conceptual e simbólica do gesto de Carlos da Maia visava dotar a cidade de melhores acessibilidades e meios de administração, integrá-la num contexto de maior abertura, comunicação e cosmopolitismo. Ligar o porto interior, centro da cidade chinesa, ao porto exterior, espaço de fixação das famílias portuguesas, significava abrir a cidade ao mundo e ao infinito do mar. Nesse sentido, a Avenida Almeida Ribeiro, em Chinês “San Ma Lou”, que significa “Avenida Nova”, transformou a vida económica, social e cultural de Macau, aproximou as pessoas e as culturas, modernizando a cidade. A Avenida Almeida Ribeiro ficou concluída em 1918, depois da expropriação e demolição dos edifícios antigos que impediam o seu alinhamento regular. Com cerca de 600 metros, em poucos anos a “Avenida Nova” transformou-se na principal via da cidade, originando todo um conjunto de novas infra-estruturas e equipamentos de linguagem moderna construídos em betão. Na década de 30, a maior parte da vida que caracterizava a Rua Central, centro da cidade cristã, tinha-se transferido para a Avenida Almeida Ribeiro, que se assumia já como a zona mais próspera da cidade, com comércio, bancos, hotéis, joalharias e cinemas. Em consequência da construção da Avenida Almeida Ribeiro, nasceram, entre outros, a Ponte do Cais n.º 16, o Grande Hotel e um conjunto elevado de Shop Houses. Apesar da tipologia das Shop Houses se fundar na tradição chinesa, as arcadas, as janelas, as portadas em arco e os motivos decorativos florais remetiam para uma eclética influência europeia. Na Europa, grande parte das profundas transformações operadas, resultavam da necessidade das morfologias urbanas se

adaptarem aos meios de transporte mecânicos. Nesse contexto, a “gare” tornou-se no novo espaço de recepção da cidade. Em Macau a “gare” era marítima (a Ponte do Cais n.º 16) mas o modelo correspondia aos exemplos estabelecidos na Europa. O Hotel de Gare estava representado pelo Grande Hotel e o novo boulevard, que conduzia à praça do município (o Largo do Leal Senado), tinha na Avenida Almeida Ribeiro o seu espaço. Em 1983 foi elaborado o “Plano de Intervenção Urbanística da Almeida Ribeiro” pela Palmer & Turner. Tratava-se de um regulamento detalhado com indicações para construção na zona, tendo como objectivo a renovação urbana no quadro da preservação de edifícios e ambientes classificados. O Hotel Lisboa, situado

já nos novos aterros da Praia Grande, no extremo da Avenida Infante D. Henrique, foi o primeiro edifício a fugir ao alinhamento e a invadir, ainda que ligeiramente, o eixo central daquele sistema viário. Logo após a transferência da administração de Macau para a República Popular da China, deu-se a liberalização do jogo, e com ela a densificação construtiva tornou-se galopante. Assim, ao Hotel Lisboa, seguiu-se o Wynn Resort que definitivamente invadiu o enquadramento visual e, mais tarde, o MGM que acabou por fechar a Avenida Almeida Ribeiro ao mar. No extremo oposto, o Resort Soffitel construído naquele que foi o principal lugar de chegada a Macau, a Ponte do Cais n.º 16, não só destruiu a ponte como bloqueou a Avenida Almeida Ribeiro. O empreendimento da Ponte do Cais n.º 16 constitui o derradeiro tampão da Avenida. Trata-se de uma intervenção urbanística de índole revivalista, que procura reactivar o tecido urbano do Porto Interior, todavia num sentido que não podia ser mais inverso ao que originou aquela estrutura urbanística que hoje se contempla com valor histórico, no profundo rasgo de modernidade traçado por Carlos da Maia. Enquanto que Carlos da Maia procurou ligar o antigo com o novo, os fluxos de intervenções nos extremos da Avenida Almeida Ribeiro, transformaram esta artéria num espectáculo específico, recla-

mando para si mesma um papel secundário, mais ligado à sua mediatização do que propriamente ao seu valor arquitectónico. Com efeito, as sucessivas intervenções nas franjas da “Avenida Nova”, não integraram os lugares antropológicos que o passado criou, transformando-os, antes, em lugares de memória que funcionam como símbolos da alteridade do passado em relação ao mundo de hoje. Poder-se-á dizer que a Avenida Almeida Ribeiro padece de uma relação de exclusão ou assimilação nula – More is Less. Ou a falta de luz ao fundo da Avenida. O gesto de Carlos da Maia sugere uma nova ética territorial, fundada no respeito pelos limites ecológicos dos meios empregues na transformação da cidade. O fecho da Avenida Almeida Ribeiro foi um valor subtraído à cidade, mas também uma constatação que pode servir de chamada de atenção para a necessidade urgente de desenvolver ideias para novos e adequados instrumentos urbanísticos. O valor de uma via que ligava mar a mar, por terra, e que durante muitos anos foi o ponto de chegada e de partida de uma cidade, não pode reduzir-se a um beco sem saída.

*Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


1 3 2013

h

14

o l h o s a o a l t o

gente sagrada

土地

José Simões Morais

Tu Di

o espírito da terra

Tu Di é um deus com a função de zelar pela paz e proteger os habitantes de uma pequena área de terra, por isso é considerado também deus da família. O culto do espírito da terra, She (社, Se em cantonense), é um dos mais antigos realizados na China e terá começado na dinastia Zhou do Leste, havendo uma referência a ele no Livro dos Ritos (Li Ji), um dos Clássicos chineses. Mas o culto só foi oficializado em 198 a.C. pelo fundador da dinastia Han, o imperador Liu Bang, que decretou dever o povo venerar o espírito da terra e fazer-lhe sacrifícios. Com o aparecimento da religião tauista, o ancestral espírito da terra, She (社), cuja sua grandeza abstracta englobava a totalidade da terra, entrou no panteão e foi dividido em vários deuses, sendo um deles, o deus local (土地, Tou Tei em cantonense, ou Tu Di em mandarim). Tendo começado por ser uma entidade abstracta, o deus da terra encarnou o espírito de uma pessoa que na zona viveu e após passar para a outra vida, os habitantes, distinguindo-o pela sua virtude ou poderes sobrenaturais, escolheram-no para seu protector e do lugar. Logo, o espírito do Tu Di não está personificado nem nos Espíritos Puros, ou nas divindades do Céu, nem em personagens históricas mas, no de um simples habitante da zona onde, após ser escolhido, realiza a sua função de guardião. Se as pessoas dessa zona sentirem que o espírito da pessoa escolhida não cumpre bem as suas funções de protecção aos habitantes dessa pequena área, poderão substituí-lo por um outro que, durante a sua vida terrena mostrou virtudes para exercer a função, tomando assim o lugar de espírito protector. Em Macau, muitos são os nichos, altares e templos dedicados a Tu Di, que pode ser representado por placas com caracteres, ou esculturas. Actualmente estas imagens são principalmente de porcelana com a representação humana de um ancião, ou também acompanhado pela sua esposa, que se situa à sua direita. Há quem faça referência a uma terceira personagem, mais pequena, de um vulto feminino colocada à esquerda do ancião deus, que representa a concubina. Mas nunca encontramos nenhum local dedicado a Tu Di onde existissem duas imagens femininas no mesmo nicho, ou altar. Vê-se sim, por vezes, a imagem da anciã colocada no lado esquerdo de Tu Di. Era normal nas casas chinesas haver um altar ao espírito da terra, pois ele é tratado como sendo da família, a quem se conta os segredos, se pedem conselhos e consolação nas horas mais difíceis. Como deus da Família protege-a e dá-lhe boa sorte, não sendo por isso esquecido nas alturas de grande alegria, sendo-lhe dadas generosas ofertas como agradecimento. A celebração do seu aniversário acontece no segundo dia, do segundo mês lunar e em Macau, nos dois principais templos dedicados a Tu Di os festejos são sempre acompanhados com espectáculos de Ópera Yue.


1 3 2013

h

l e t r a s s í n i c a s

Huai Nan Zi 淮南子

15

O Livro dos Mestres de Huainan

Aqueles que têm criticas a fazer são punidos como se tivessem cometido um crime.

Do Estado e da Sociedade – 37 As sugestões úteis não devem ser rejeitadas apenas por terem origem em pessoas de baixa condição, nem se devem seguir sugestões inúteis apenas por terem origem em pessoas de alta condição. O certo e o errado não são questões de estatuto social. Os líderes iluminados escutam os seus ministros: se os seus planos são úteis, os líderes não os olham sobranceiramente devido à sua patente; e se dizem que algo é exequível, os líderes não se preocupam com o modo como o dizem. Mas os líderes ignorantes não são assim. No que se refere aos seus familiares e associados, mesmo que estes sejam desonestos, os líderes são incapazes de o ver; e quando se trata de estranhos e pessoas de baixa condição, mesmo quando estes são diligentes e leais, os líderes são incapazes de o saber. Aqueles que têm algo a dizer são tenazmente importunados pela sua escolha de palavras, enquanto aqueles que têm criticas a fazer são punidos como se tivessem cometido um crime. Se quiseres iluminar a terra e cuidar das suas comunidades deste modo, tal será como tapar os ouvidos para música ou os olhos para contemplar uma pintura – mesmo que tenhas bom ouvido e boa vista, muito longe estarás de entender. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


no facebook

+ de 3000 amigos Junta-te Ă festa! http://www.facebook.com/hoje.macau


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
h - Suplemento do Hoje Macau #76 by Jornal Hoje Macau - Issuu