ilustres brasileiros
Cazuza
Ponta-de-Lança Rebelde, debochado, contestador. Foi o maior letrista de sua geração, um ícone do rock nacional. Artistas consagrados se comoveram com sua arte. Mas teve vida breve, e louca, como na música que cantou. Suportou enquanto pôde as pressões da Aids. Mas não partiu no tempo. Fez da obra sua sobrevivência.
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le veio ao mundo como Agenor de Miranda Araújo Neto em 4 de abril de 1958, mas já na maternidade ganhou o apelido: Cazuza. O pai, João Araújo, passara pelas maiores gravadoras do País. Cazuza trombava com os artistas em casa: “Eu acordava de noite para tomar água, e lá estavam Gil, Caetano, Gal”. O menino cujo apelido quer dizer “vespa solitária” encarna o estereótipo do roqueiro: drogas e bebidas impulsionam sua postura ao mesmo tempo rebelde e carinhosa. Passava horas com os pais em casa, os cobria de abraços e beijos. Solto pelo mundo, era preso por dirigir embriagado, por portar drogas. Viver é bom / Nas curvas da estrada / Solidão, que nada1 Aos 18 anos foi estudar Arte Dramática na Inglaterra. Segundo Lucinha, sua mãe, “fez de tudo em Londres, menos o curso”. Negava-se a estudar. Entrou duas vezes na faculdade, e abandonou-a com a mesma facilidade. Em 1978, o pai lhe arrumou emprego na gravadora Som Livre, da qual era presidente. Mas logo Cazuza cansou do trabalho. Foi para San Francisco, nos Estados Unidos. “Preferia ser mendigo do que executivo”, conta a mãe.
Natureza Revoltada Estraçalha no chão o primeiro disco de ouro. Queria ir além dos rótulos, considerava samba rock and roll.
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Sete meses depois, estava de volta, deixando mais um curso inacabado: fotografia. Sua vocação era mesmo o palco, como descobriu num grupo de teatro. Quase não tinha falas, só cantava. Sua técnica era o grito: “Nunca estudei canto. Eu sou rouco, não tenho cuidado com a voz. Meu exercício é no palco”, dizia. Em 1981, aos 23 anos, é apresentado por Leo Jaime a uma banda, o Barão Vermelho. O cantar rebelde e a qualidade de suas letras fazem a diferença. Ali inicia parceria e amizade únicas com o guitarrista Frejat. Quando o produtor Ezequiel Neves ouve a banda pela primeira vez, telefona imediatamente para Lucinha: “Seu filho é genial!”. Bastaram quatro dias para o primeiro LP ficar pronto, em maio de 1982. A crítica foi só elogios. Cazuza é apontado como o maior poeta de sua geração. Para Caetano Veloso, era um romântico autêntico. “Isso deu à sua poesia um poder de comoção muito grande”. Peço licença pra cantar o amor / E não esperar jamais a recompensa2
Faz Parte do Meu Show Apesar do sucesso, depois do terceiro álbum, os ânimos se exaltam. Estraçalha no chão o primeiro disco de ouro. Queria ir além dos rótulos, considerava samba rock and roll. Os companheiros de banda divergem. Parte para a carreira solo, cumprindo a profecia que um astrólogo fizera anos antes: “Seu destino é abrir novos caminhos, ser ponta-de-lança. Por isso sua natureza é revoltada”. O primeiro disco solo sai em 1985: Exagerado. Ainda nas últimas apresentações com o Barão, tinha febres diárias. Ao descobrir-se portador do vírus HIV, foi para os Estados Unidos fazer tratamentos. Compunha compulsivamente. “Quero trabalhar muito, é só o que posso fazer”, dizia. Passou a viver intensamente os últimos sopros de vida. Entre 1988 e 1989, compôs três discos – o último, com 17 canções. Diante da insistência dos pais para esconder a doença, argumenta: “Eu canto uma música que diz: ‘Brasil, mostra a tua cara!’ Tenho que ser coerente comigo e com meu público”.
“Criar me Deixa Vivo” A entrega nos palcos era total. Apresentava-se mesmo sob os debilitantes efeitos do AZT. No camarim, tubo de oxigênio, inalador e ambulância, em caso de emergência: “Se acontecer alguma coisa, quero que seja no palco”, dizia. Vida louca vida / Vida breve / Já que eu não posso te levar / Quero que você me leve3 Durante as gravações do último disco, Burguesia, gravava sentado, deitado, com febre. Dizia: “Tenho vontade de criar, é o que me deixa vivo”. No segundo Prêmio Sharp de Música, em 1989, ganhou três estatuetas. Foi à cerimônia de cadeira de rodas, aplaudido com entusiasmo. Morre meses depois, em 7 de julho de 1990. Em oito anos de carreira, deixou 126 músicas gravadas (34 por outros intérpretes), 60 inéditas. E um legado de atitude e enfrentamento da vida sem par.
Sua vocação era mesmo o palco, como descobriu num grupo de teatro.
1. Solidão, que nada (Cazuza, George Israel e Nilo Roméro) 2. Eu agradeço (Cazuza, George Israel, Nilo Roméro) 3. Vida louca vida (Lobão e Bernardo Vilhena)
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Chacrinha
Louco Velho Guerreiro Ele transformou a televisão em circo. Tocava buzina, distribuía abacaxis e bacalhaus. Desfilava pérolas como “Vim aqui para confundir, não para explicar”. Ser chamado de louco era o maior elogio que poderia receber. Para Nelson Rodrigues, era nosso Chaplin subdesenvolvido. Para Gilberto Freyre, democratizou, abrasileirou, miscigenou como ninguém esse poderoso meio de comunicação.
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ozinho em um estúdio da Rádio Tamoio, só de cuecão, Abelardo Barbosa apresentava o Cassino do Chacrinha. O “louco da madrugada”, como era conhecido, fazia tamanho estardalhaço que dava a impressão de interagir com uma multidão. De quando em quando o assistente vinha com a mesma conversa: “Abelardo, os gringos de novo.” Era comum que turistas batessem à porta do estúdio procurando um cassino de verdade. A voz nada harmônica, comparada às dos locutores convencionais, levou o jovem pernambucano a ficar por muito tempo apenas como discotecário. A experiência seria fundamental quando, já fazendo sucesso na tevê, passou a selecionar calouros para a Discoteca do Chacrinha. Buzina, cores e bordões marcaram a trajetória do Velho Guerreiro, que tinha grande sensibilidade para descobrir talentos. Roberto Carlos, Celly Campello, Elis Regina e Elba Ramalho são alguns dos nomes que despontaram diante de seu microfone.
Rota da Comunicação Outra excentricidade era atirar bacalhau para a platéia. A brincadeira começou quando o produto encalhou nas lojas do principal anunciante, as Casas da Banha.
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Abelardo Barbosa de Medeiros, pernambucano, nascido a 30 de setembro de 1917 em Surubim, chegou ao Rio de Janeiro em 1940, a bordo do navio Bagé. Estudante de medicina no Recife, tinha deixado a faculdade para acompanhar, como baterista, uma banda que faria turnê pela Europa. Não puderam desembarcar no Velho Continente por causa da guerra. De volta ao Brasil, porém, o comandante pediu que animassem os passageiros até que a embarcação aportasse no Rio. Abelardo desembarcou, e ali decidiu ficar. Já havia flertado com o rádio na universidade. Na então capital federal, fez desse caminho o seu. O início não foi fácil. Locutor na Rádio Vera Cruz, ouviu a sentença do chefe: “Sua voz é terrível e você não tem talento para a comunicação”. Demitido, deu a volta por cima na Rádio Clube de Niterói com o programa O Rei Momo na Chacrinha – a emissora funcionava numa pequena chácara, entre gansos e galinhas. O apelido pegou: Chacrinha. A partir dali, passou por inúmeras rádios. Para conseguir se manter, trabalhava em mais de uma ao mesmo tempo, além de fazer corretagem de anúncios. O mesmo vaivém aconteceu na tevê, onde estreou em 1957. Vieram programas na Tupi, TV Rio, Excelsior e Globo. Nesta última, estreou com proposta inusitada:
um concurso para eleger o cachorro mais pulguento. O vencedor, com a incrível cifra de 7 mil insetos saltitantes, despertou a ira dos concorrentes. As pulgas, até então presas em frascos de vidro, ganharam alforria em pleno estúdio de tevê.
Nosso Chaplin Chacrinha ficou famoso pelos bordões particulares: “Eu vim para confundir, não para explicar”; “Quem não se comunica, se trumbica”. E o mais famoso deles: “Teresiiiiiinha... u-uuu”. Sobre a personagem fictícia, Nelson Rodrigues escreveu: Ela mora em Cordovil. Já se matou 15 vezes na Praia de Ramos e espantou moscas do próprio velório. É namorada, esposa e viúva. Outra excentricidade do Velho Guerreiro era atirar coisas inusitadas para a platéia. “Vocês querem bacalhau?”, provocava. A brincadeira começou quando o produto encalhou nas lojas do principal anunciante, as Casas da Banha. Para completar a bagunça, costumava reunir jurados excêntricos como Aracy de Almeida, Rogéria, Elke Maravilha e Pedro de Lara. As chacretes jogavam uma pitada a mais de tempero na imaginação dos telespectadores. Gerações de homens sonharam com as dançarinas de nomes exóticos como Fernanda Terremoto, Índia Amazonense, Fátima Boa Viagem e Rita Cadillac. A popularidade do apresentador chamava a atenção mesmo daqueles pouco afeitos à televisão. Para Gilberto Freyre, Chacrinha democratizou, abrasileirou, miscigenou como ninguém esse poderoso meio de comunicação. Opinião compartilhada pelos integrantes do movimento tropicalista, que elegeram o apresentador como símbolo. Gil o homenageou na música Aquele Abraço: Chacrinha continua balançando a pança / E buzinando a moça e comandando a massa / E continua dando as ordens no terreiro. A simpatia era mútua. Em 1968 o apresentador pôs no ar o especial Noite das Bananas, com o palco todo enfeitado de frutas tropicais. Caetano Veloso não faltou, vestido num camisolão estampado. Nessa noite, mais um de seus concursos excêntricos premiou aquele que plantou bananeira por mais tempo. “O maior elogio que posso receber é ser chamado de louco”, dizia. Nosso Chaplin subdesenvolvido, como o chamava Nelson Rodrigues, apresentou programas na tevê durante 30 anos. Morreu no Rio, após um infarto, em 30 de junho de 1988. Cerca de 30 mil pessoas acompanharam seu enterro.
A simpatia era mútua. Em 1968 o apresentador pôs no ar o especial Noite das Bananas, com o palco todo enfeitado de frutas tropicais. Caetano Veloso não faltou, vestido num camisolão estampado.
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