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Cultivar Máquinas 270

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Cultivar Máquinas • Ano XXV • Nº 270 • ISSN - 1676-0158 agosto 2026

Expediente Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ: 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160 Pelotas – RS • 96015-300 revistacultivar.com.br contato@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 494,00 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan) Números atrasados: R$ 55,00

FUNDADORES Milton de Sousa Guerra (in memoriam) Newton Peter Schubert Peter

• Diretor Newton Peter REDAÇÃO • Editor Schubert Peter • Redação Rocheli Wachholz Nathianni Gomes • Redator Rogério Nascente • Design Gráfico e Diagramação Cristiano Ceia • Revisão Aline Partzsch de Almeida

COMERCIAL

Editorial Uma nova marca entra no mercado brasileiro de tratores. Nesta edição, colocamos o Preet 9049 Super no campo para conhecer de perto o primeiro trator da fabricante indiana testado pela Cultivar Máquinas. O modelo entrega 90 cv de potência e transmissão sincronizada 12 x 12. A construção privilegia sistemas simples e soluções conhecidas pelo produtor. A marca direciona o equipamento à agricultura familiar e às pequenas áreas de produção. O teste ocorreu em uma área preparada para o plantio de milho destinado à alimentação de gado leiteiro. O 9049 trabalhou com uma grade niveladora de 3,50 m, na incorporação de adubação orgânica à base de esterco. Durante a operação, avaliamos comandos, transmissão, sistema hidráulico, tomada de potência e posto do operador. A impressão deixada pelo conjunto aparece nas páginas da matéria de capa. A edição também olha para uma mudança que começa a ganhar espaço na mecanização: os tratores elétricos. Fabricantes apresentam protótipos e modelos que substituem o motor a combustão por sistemas alimentados por baterias. A tecnologia avança, mas ainda enfrenta pontos que pedem atenção. Autonomia, tempo de recarga, preço da energia, infraestrutura elétrica e disponibilidade de potência nas propriedades entram nessa conta. Máquina eficiente, porém, não resolve tudo sozinha. A gestão define boa parte do resultado. Por isso, mostramos como o planejamento e o controle dos custos operacionais ajudam a organizar o uso da frota. Depreciação, juros sobre o capital, seguros, manutenção, combustível e mão de obra precisam entrar no cálculo. Conhecer o custo por hora e por hectare permite comparar operações e apoiar decisões de investimento. Outro artigo amplia essa discussão ao tratar da agricultura de precisão na Era Digital. O tema vai além do GPS e das linhas de orientação. Sensores, telemetria, computadores de bordo, plataformas em nuvem e sistemas de gestão formam um fluxo de informações que precisa terminar em ação no campo. A tecnologia ganha valor quando transforma dados em decisão e execução. Tudo isso e muito mais nas próximas páginas. Boa leitura!

• Coordenação Charles Ricardo Echer • Vendas Sedeli Feijó Franciele Ávila Ariadne Fuentes CIRCULAÇÃO

Índice 04 Rodando por aí 06 Mundo Máquinas 09 Manutenção de máquinas agrícolas

• Coordenação Simone Mendes

12 Aftermarket está em alta

• Assinaturas Natália Rodrigues

14 Tratores elétricos, uma nova tendência 18 Planejamento e gestão de custos de máquinas

Nossos Telefones: (53)

22 Agricultura de Precisão na Era Digital

• Assinaturas 3028.2000

26 Capa - Test drive trator Preet 9049 Super

• Comercial e Redação 3028.2075

revistacultivar.com.br instagram.com/revistacultivar facebook.com/revistacultivar youtube.com/revistacultivar x.com/revistacultivar

Nossa capa

36 Pulverização em tomate industrial 40 Vantagens da aplicação em taxa variável 44 Velocidade adequada de semeadura

Foto de Charles Echer

Testamos o primeiro trator da indiana Preet, recém-chegada ao Brasil. O Preet 9049 Super é um trator que se destaca pelo conjunto de motor de 90 cv e a transmissão 12 x 12 sincronizada


RODANDO POR AÍ

Novo cargo na John Deere

Amazone/MP Agro anuncia novo CEO A Amazone/MP Agro anunciou Leandro dos Santos como seu novo CEO. Com 20 anos de experiência no setor de máquinas agrícolas, o executivo terá como missão ampliar o portfólio da empresa e conduzir sua próxima fase de crescimento. Segundo a Amazone/MP Agro, a nomeação de Leandro dá continuidade ao legado construído por Douglas Peccin e reforça o compromisso da companhia com o crescimento sustentável, a inovação e o fortalecimento de sua presença no mercado brasileiro. “Assumo este desafio com muita responsabilidade e entusiasmo, com o compromisso de trabalhar em conjunto com nossa equipe, concessionários, clientes e parceiros para desenvolver pessoas, fortalecer nosso portfólio e preparar a empresa para sua próxima fase de crescimento”, afirmou o CEO.

Gustavo Husak assumiu um novo cargo na John Deere. Com mais de 12 anos de experiência na companhia, ele passa a atuar como gerente de Pós-Venda e Suporte ao Cliente no Brasil. Antes da nova função, foi diretor de Operações na RZK Agro, concessionária John Deere, onde supervisionou as áreas de vendas, pós-venda, tecnologia, marketing e gestão de suprimentos. Engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Gustavo possui MBA em Gestão de Projetos, pós-graduação em Ciência do Solo e Agronomia e MBA Executivo em Finanças.

AGCO muda comando da PTx e nomeia nova diretora financeira A AGCO anunciou mudanças na liderança executiva. Damon Audia assumiu a presidência da PTx e da área de estratégia corporativa. Indira Agarwal passou a ocupar o cargo de vice-presidente sênior e diretora financeira. Audia atuava como vice-presidente sênior e diretor financeiro. Na nova função, comandará os negócios de agricultura de precisão, além das equipes de estratégia e transformação da companhia. Ele também preside o conselho da joint venture PTx Trimble. Agarwal ingressou na AGCO em 2024 como vice-presidente e diretora de contabilidade. Se-

gundo a empresa, ela reforçou os processos de divulgação financeira, os controles internos e as iniciati-

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vas voltadas à eficiência, à rentabilidade estrutural e a fusões e aquisições.


MUNDO MÁQUINAS

Fendt 832 Vario registra o menor consumo de combustível da categoria O Fendt 832 Vario registrou consumo médio de 235 g de diesel/kWh no ensaio DLG PowerMix para operações de campo, o menor índice já obtido pelo programa entre tratores de até 350 cv de potência. O resultado inclui ainda 29 g de AdBlue (ARLA 32)/ kWh. No transporte a 60 km/h, o modelo consumiu 331 g de diesel e 38,2 g de AdBlue por kWh. Realizado pela Sociedade Agrícola Alemã (DLG), o teste utiliza ciclos padronizados de tração, tomada de potência, sistema hidráulico e transporte para comparar desempenho e eficiência energética. Nas operações de campo, o trator consumiu 5,3 L de diesel e 0,5 L de AdBlue/ha, com capacidade operacional média

de 11,8 ha/h. Nos trabalhos pesados de tração, o consumo foi de 245 g/kWh, enquanto as operações com tomada de potência registraram índices entre 223 g e 225 g. O menor valor individual foi de 218 g/kWh em um ciclo com grade rotativa e semeadora. Equipado com motor AGCO Power CORE80 de seis cilindros e 7,9 L, o Fendt 832 Vario desenvolve potência máxima de 252 kW (343 cv). O conjunto conta com transmissão continuamente variável VarioDrive TA250, sistema hidráulico de até 220 L/min e atende ao padrão de emissões Estágio V. O modelo também foi avaliado pela equipe da Cultivar Máquinas em Test Drive exclusivo.

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New Holland atualiza enfardadoras Roll-Belt para 2027 na América do Norte A New Holland apresentou as atualizações das enfardadoras de fardos redondos Roll-Belt 1 Series, ano-modelo 2027, para o mercado norte-americano. As novidades incluem sistema de proteção da rede, componentes reforçados, monitor Bale Command 8, automação IntelliBale instalada de fábrica e nova nomenclatura para as versões 5x6. O sistema de proteção da rede, disponível nos modelos 5x6, utiliza controle eletro-hidráulico da tensão das correias durante a ejeção do fardo. Ao abrir a tampa traseira, a tensão é reduzida e o movimento das correias é interrompido, diminuindo o risco de danos à rede em operações com palha e grande volume de resíduos de milho. Segundo a fabricante, a solução reduz a necessidade de refazer fardos e aumenta a confiabilidade da máquina. A empresa também reforçou componentes sujeitos ao desgaste, com rolos, rolamentos e peças da tampa traseira de maior porte, visando ampliar a durabilidade. A nova tela Bale Command 8 oferece monitor colorido sensível ao toque para operações que não exigem funcionalidade Isobus completa. Já a automação IntelliBale passa a ser instalada de fábrica, com sensor de presença do fardo incluído, reduzindo o tempo de preparação nas concessionárias. As versões Roll-Belt 561 passam a ser identificadas como Hay Special, Specialty Crop, Silage Special e Bale-Slice, conforme a aplicação em feno, culturas de maior volume, silagem ou produção de fardos fatiados.


MANUTENÇÃO

Da falha ao lucro Manutenção planejada salva tempo e dinheiro. Agir de forma preventiva não é apenas uma escolha inteligente, é uma decisão estratégica que protege o patrimônio e garante o bom andamento da produção

N

o dia a dia da produção agrícola ou na gestão de uma frota, a manutenção de máquinas e equipamentos é um ponto crítico que muitas vezes define o sucesso ou o prejuízo de uma propriedade. Apesar de parecer um tema técnico, sua aplicação prática pode significar a diferença entre perdas financeiras e aumento de produtividade. Por isso, entender a diferença entre manutenção preventiva e corretiva é fundamental para qualquer produtor que deseja otimizar seus custos operacionais e prolongar a vida útil de seus equipamentos.

Manutenção corretiva

A manutenção corretiva é aquela que acontece quando o equipamen-

to apresenta falhas ou para de funcionar. Em outras palavras, é o conserto feito “depois que o problema aparece”. Esse tipo de manutenção é comum em propriedades menores ou em situações em que o produtor acredita que economizará dinheiro evitando revisões constantes. Porém, na prática, essa abordagem pode gerar custos muito mais altos. Uma máquina parada em plena safra ou um trator fora de operação no momento em que é mais necessário representa não apenas gastos com reparo, mas também perda de produtividade, atraso em colheitas e até prejuízo na qualidade da produção. Imagine, por exemplo, um pulverizador que apresenta uma falha no sistema hidráulico durante a aplicação de defensivos em uma lavoura de soja.

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O reparo corretivo pode custar não apenas o valor da peça danificada, mas também despesas adicionais com horas extras de funcionários, perda de insumos que poderiam se deteriorar e o risco de comprometer a uniformidade da aplicação, impactando diretamente no rendimento final da lavoura. Em uma operação de grande escala, cada hora de paralisação pode significar toneladas de produção não colhida ou atrasos no cronograma de plantio, afetando não apenas a safra atual, mas toda a programação de produção do ano. Por outro lado, a manutenção preventiva é planejada.

Manutenção preventiva

Consiste em revisões periódicas, lubrificação de peças, ajustes, substi-


Fotos Arquivo

tuição de componentes desgastados e monitoramento constante das condições do equipamento. Embora pareça que exige um investimento inicial maior, essa estratégia reduz drasticamente o risco de falhas inesperadas e prolonga a vida útil das máquinas. Um trator que recebe manutenção preventiva de forma regular tende a consumir menos combustível, apresentar menos falhas e manter seu desempenho ao longo de vários anos, o que significa economia real e previsível no orçamento da propriedade. Outro exemplo prático pode ser visto na colheita. Uma colhedora de grãos com manutenção preventiva programada tem suas lâminas afiadas, motores revisados e sistemas hidráulicos ajustados. Isso garante que ele funcione com eficiência máxima durante a safra, evitando paradas inesperadas que poderiam atrasar a colheita e comprometer a qualidade do produto. A manutenção preventiva também ajuda a reduzir o desgaste natural das máquinas, prevenindo problemas que poderiam se tornar críticos e custar muito mais para consertar posteriormente.

Impacto financeiro

O impacto financeiro entre as duas abordagens é significativo. Com a manutenção corretiva, o custo pode ser incerto: um problema simples de ser resolvido pode se transformar em um prejuízo maior se danificar outras partes do equipamento. Além disso, a interrupção no trabalho pode gerar perdas indiretas difíceis de calcular, como atraso no plantio ou colheita, desperdício de insumos e até impacto na saúde do solo e na produtividade futura. Já a manutenção preventiva permite ao produtor planejar os gastos, evitando surpresas, e garante que a

A manutenção não é apenas sobre máquinas, é sobre o ritmo da produção, a segurança das pessoas e a saúde financeira da propriedade

operação siga seu ritmo sem interrupções inesperadas.

Reflexos na segurança

Além do aspecto econômico, há também a questão da segurança. Equipamentos mal conservados representam riscos sérios para operadores e funcionários. Falhas mecânicas podem causar acidentes que vão além do prejuízo material, afetando a integridade física das pessoas na propriedade. Nesse sentido, investir em manutenção preventiva é também investir em segurança, reduzindo a probabilidade de acidentes e garantindo um ambiente de trabalho

mais seguro. Por exemplo, uma válvula hidráulica com desgaste não detectado pode falhar, provocando acidentes graves. Um simples ajuste preventivo pode evitar não apenas o dano ao equipamento, mas também um risco à vida. A prática mostra que muitas propriedades começam a adotar uma abordagem híbrida: priorizam a manutenção preventiva para equipamentos críticos e recorrem à corretiva apenas quando necessário ou em máquinas de menor impacto operacional. Esse modelo combina planejamento e flexibilidade, permitindo que o produtor controle melhor seus custos sem comprometer a eficiência da operação. Além disso, essa abordagem híbrida ajuda a formar um histórico do equipamento, permitindo identificar padrões de desgaste e planejar melhor a substituição de peças, antecipando gastos e evitando emergências.

Tecnologia disponível

Um trator que recebe manutenção preventiva de forma regular tende a consumir menos combustível, apresentar menos falhas e manter seu desempenho ao longo de vários anos

Outro ponto importante é a tecnologia disponível hoje. Sensores, sistemas de monitoramento e softwares de gestão de frota permitem acompanhar o desempenho das máquinas em tempo real. Essa evolução trans-

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forma a manutenção preventiva em algo ainda mais eficiente, pois é possível identificar sinais de desgaste antes que se tornem problemas graves, programando reparos e ajustes com antecedência. Para o produtor, isso significa menos paradas inesperadas e maior controle sobre o investimento em maquinário. Imagine receber um alerta de que uma correia do trator está com desgaste avançado antes de a máquina quebrar; isso possibilita agir de forma planejada, evitando prejuízos. Além disso, a manutenção preventiva ajuda a preservar o valor de revenda dos equipamentos. Máquinas bem cuidadas e com histórico de manutenção regular tendem a manter seu preço de mercado, enquanto equipamentos sujeitos à manutenção corretiva frequente sofrem depreciação acelerada. Isso é especialmente relevante para produtores que renovam sua frota regularmente, pois um investimento em manutenção preventiva representa uma economia de longo prazo, não apenas na operação diária, mas também na valorização do patrimônio. Vale destacar, também, que a manutenção preventiva permite que o produtor planeje melhor o estoque de peças e insumos. Quando se espera até

que uma máquina quebre, muitas vezes é necessário recorrer a peças de emergência, que podem custar mais caro e não estar imediatamente disponíveis.

Questão de custo/benefício

Com um planejamento preventivo, é possível ter as peças certas à mão, reduzir desperdícios e manter a operação fluindo sem contratempos. Outro benefício indireto é a melhoria na eficiência operacional. Equipamentos bem mantidos funcionam melhor, consomem menos combustível e demandam menos tempo de operação para realizar a mesma tarefa. Isso significa menos horas de trabalho, menor desgaste físico da equipe e redução de custos operacionais no longo prazo. A manutenção preventiva, portanto, impacta positivamente não apenas a máquina, mas toda a cadeia produtiva da propriedade. Em resumo, a escolha entre manutenção corretiva e preventiva impacta diretamente o custo operacional de uma propriedade. A corretiva pode parecer mais econômica à primeira vista, mas o risco de falhas inesperadas, custos elevados de reparo e prejuízos na produtividade tornam-na menos

Investir em manutenção preventiva é também investir em segurança, reduzindo a probabilidade de acidentes e garantindo um ambiente de trabalho mais seguro

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eficiente no longo prazo. A preventiva, por sua vez, requer planejamento e disciplina, mas proporciona maior confiabilidade, segurança e economia.

Decisão estratégica

Para produtores que buscam eficiência, redução de custos e continuidade das operações, investir em manutenção preventiva não é apenas uma escolha inteligente, é uma decisão estratégica que protege o patrimônio e garante o bom andamento da produção. No fim das contas, a manutenção não é apenas sobre máquinas, é sobre o ritmo da produção, a segurança das pessoas e a saúde financeira da propriedade. Um plano bem estruturado de manutenção preventiva transforma os equipamentos em aliados confiáveis, evitando surpresas desagradáveis e permitindo que o produtor concentre seus esforços no que realmente importa: colher bons resultados, ano após ano. Afinal, em uma operação agrícola, cada máquina em bom funcionamento é sinônimo de produtivi.M dade, economia e tranquilidade. Ricardo Aparecido Santos, Andréa dos Guimarães de Carvalho, UFG


MANUTENÇÃO

Aftermarket Equipamentos usados valem mais do que se imagina, só que de outro jeito. Um novo mercado surgiu e está em expansão

A

crise do agro chegou. Com ela, surgiu uma pergunta que muitos produtores evitam fazer em voz alta: “e agora, como vou me manter competitivo sem conseguir comprar aquela máquina nova?”. Durante anos, o campo brasileiro viveu um ciclo virtuoso - e viciante. Crédito farto, margens gordas e uma indústria de equipamentos ávida por vender a última geração de tecnologia criaram uma cultura do "novo por novo". Troca-se o equipamento como se troca de camisa. O usado sai barato, o novo entra caro, e a conta fechava - até deixar de fechar.

Inovações a observar

Quando observamos os produtores norte-americanos, a imagem é provocadora. Lá, não é raro encontrar plantadoras, tratores e colhedoras com 15, 20 anos de uso, rodando lado a lado com máquinas de última

geração - e entregando o mesmo resultado. Como? A resposta está em uma palavra que ainda soa estranha para muitos brasileiros: “aftermarket”. Nos Estados Unidos, existe uma indústria robusta e consolidada de componentes e tecnologias de reposição que oferece - em muitos casos - o mesmo nível de performance das OEMs (fabricantes originais), com custos significativamente menores. Monitores de plantio, motores elétricos para dosadores de sementes, sistemas de piloto automático, sensores de rendimento, tecnologia de seção por seção. Tudo isso pode ser instalado em uma máquina com anos de uso, transformando-a em um equipamento de precisão de ponta. O produtor norte-ame-

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ricano aprendeu algo que o brasileiro ainda resiste em aceitar: o valor de um equipamento não está na sua idade - está na sua capacidade de executar bem a tarefa.

Mudança de mentalidade

Há um paradoxo curioso no campo brasileiro. O mesmo produtor que investe pesado em tecnologia agronômica - sementes, defensivos, biológicos, análise de solo - muitas vezes ainda enxerga o equipamento como um símbolo de status antes de


Fotos Charles Echer

O mercado nacional de “aftermarket” agrícola está em expansão, com empresas oferecendo soluções de “precision farming”, automação e conectividade compatíveis com diversas plataformas de equipamentos

enxergá-lo como uma ferramenta de produção. Vender o trator usado por um valor baixo para comprar um novo "para não ficar para trás" pode ser, na prática, a decisão mais cara que existe. Antes de abrir mão da sua máquina por uma fração do que ela vale, vale perguntar: qual é o custo real de modernizá-la com componentes “aftermarket” de alta performance? Qual seria o ganho operacional após essa atualização? Comparado ao financiamento de um equipamento novo, qual opção faz mais sentido financeiro hoje?

Setor em expansão

A boa notícia é que o Brasil não precisa importar essa mentalidade de graça. O mercado nacional de “aftermarket” agrícola está em expansão, com empresas oferecendo soluções de “precision farming”, automação e conectividade compatíveis com diversas plataformas de equipamentos independentemente da marca ou do ano de fabricação. Está havendo um “boom” de surgimento de pequenas empresas, lideradas por profissionais experientes, que foram formados dentro das marcas tradicionais. Essas empresas conseguem ter acesso às mesmas tecnologias que

as grandes possuem. E muitas vezes conseguem entregar ao mercado a um custo muito menor. Não se trata de "consertar o velho". Trata-se de atualizar o que já funciona, com inteligência e custo-benefício real.

Provocação que fica no ar

A crise pode ser o momento mais produtivo da história recente do agro brasileiro - se usada para revisar hábitos que nunca foram, de fato, sustentáveis. O produtor que souber enxergar valor onde hoje só vê sucata sairá na frente. Não porque comprou o equipamento mais novo. Mas porque foi o mais inteligente na hora de usar o que já tinha. E você, já pensou em quanto dinheiro está deixando na mesa ao vender seu equipamento usado em .M vez de atualizá-lo? Fábio Schavinski, Schavinski - Pd&I para O Agronegócio

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TRATORES

Nova tendência Tratores agrícolas elétricos começam a surgir em diferentes aplicações e ganham espaço no mercado, porém diversos fatores devem ser considerados antes da sua aquisição

A

pós muitos anos de expectativa, se iniciou o processo de eletrificação dos veículos de passageiros e, aos poucos, esta tendência começa a ser utilizada nos veículos de transporte. Quanto aos tratores, tudo é muito recente, muitas vezes restrito a experiências e ações de marketing. Como a alternativa elétrica tem tido êxito na maioria dos casos em automóveis, já há uma tendência de aplicá-la em outros veículos, entre eles o trator agrícola. Também o setor agrário deseja compartilhar das vantagens de utilizar um veículo elétrico, que atende à maioria dos apelos ambientais e de modernidade, favorecendo o cumprimento de agendas dos diferentes governos. Quando se fala em trator elétrico, parece que o uso de eletricidade nos tratores é algo futuro e nunca utilizado. Porém, não é assim. Nos últimos anos, o uso da eletricidade no trator e nas máquinas que ele aciona aumentou consideravelmente. Antes restrita a iluminação, direção assistida por motor elétrico, ventiladores e compressores, passou ao acionamento de motores elétricos em máquinas como as semeadoras e outras, e para a transmissão elétrica, como é o caso do trator John Deere, da série R, que utiliza a transmissão EVT, em substituição aos acionamentos hidráulicos convencionais.

Fatores a considerar

Muitas análises devem ser feitas pelo produtor rural que deseje entrar neste mundo dos tratores elétricos, independentemente da configuração que cada fabricante oferecer no mercado. O primeiro ponto a avaliar é a autonomia. Atualmente, se divulga a informação que, no estágio que alcançamos de desenvolvimento das baterias, a duração do trator em funcionamento alcance até 8 h a 10 h, com trabalhos de cargas médias, e entre 5 h e 8 h com cargas maiores, em atividade ao ar livre. Deve-se considerar o tipo de terreno e a quantidade de consumidores da energia utilizada, entre outros fatores. Também

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há que se levar em conta o tempo de recarga da bateria, que depende principalmente do potencial de carga da unidade de carregamento, assim como a compatibilidade do consumo de energia para a recarga, com a instalação elétrica da propriedade e região onde ela se encontra. Uma solução que os fabricantes podem adotar, para minimizar esses problemas, é colocar no trator um dispositivo de troca rápida de baterias, de forma que o veículo pare sobre uma superfície ou suporte e a troca de baterias ocorra em um tempo semelhante ao que se gasta hoje para completar o depósito de diesel. A região onde está situada a exploração agrícola também é uma característica importante a analisar, pois o cli-


Kubota

Fendt

Protótipo do modelo X da Kubota, totalmente elétrico, com baterias de íon de lítio, e também autônomo que usa inteligência artificial

ma extremo, seja demasiado quente ou frio, pode reduzir a carga das baterias, diminuindo a autonomia do trator. Outro ponto importante é avaliar as características de funcionamento do trator elétrico e verificar se as magnitudes da potência e do torque oferecidas são compatíveis com os equipamentos que ele pretende acoplar ao novo trator. Também é necessário analisar o custo do investimento, em um mercado de crescente tecnologia e mudanças rápidas. Um produto inovador como esse pode se tornar obsoleto rapidamente, pois o ambiente de inovação e transformação de opções é extremamente rápido. Os tratores devem, pelo seu uso anual, ter vida útil

prolongada e, por isso, este ponto é extremamente sensível. Mas tudo que seja avaliado deve considerar a redução do consumo de combustível e da manutenção mecânica e contrabalançado com o enorme custo das baterias e da eletricidade utilizada na carga. Também podem ser bastante favoráveis aos clientes de tratores elétricos os benefícios criados por possíveis fundos que se instituírem para a utilização de equipamentos ecológicos e atividades sustentáveis. Não é ilógico pensar que os países iniciem a formação de programas de incentivo para o emprego de veículos agrícolas que não utilizem combustíveis não renováveis. Por último, o possível cliente deve analisar a existência de serviço de manutenção próximo, assim como receber treinamento para a verificação frequente das conexões, que podem gerar correntes parasitas e consumir a energia das baterias. É inegável que a eletrificação dos veículos agrícolas forçará o surgimento de outro profissional, além do mecânico tradicional, que trabalhará na atualização da parte lógica, como sistema de gerenciamento da carga e atualização dos softwares de controle e acionamento do veículo.

Lançamentos recentes

O quadro atual de tratores elétricos de marcas comerciais se resume a lançamentos de grandes fabricantes e experiências inovadoras de desenvolvedores independentes. Mesmo sendo impossível relatar todos os lançamentos desse tipo de equipamento, apresentamos alguns, de marcas conhecidas no nosso país. Em 2017, a Kubota inovou, lançando o modelo X totalmente elétrico, com baterias de íon de lítio. Um dos destaques na apresentação foi a possibilidade de recarga com corrente contínua e painéis solares. Outra novidade é que esse modelo, em fase de protótipo, nasceu autônomo. A proposta incluiu uso intenso de inteligência artificial e quatro esteiras de borracha, em vez de pneus. Infelizmente, ainda não se tornou produto comercial. Durante a feira agrícola de Hanover, na Alemanha, em 2023, a marca Fendt lançou o modelo e100 V Vario. É um trator de pequeno porte, com bitola menor que 1.150 mm, ou seja, considerado estreito, dedicado ao trabalho em ambientes de espaço reduzido, como cultivos arbóreos de frutíferas, e em ambiente fechado, como as casas de vege-

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John Deere

Case IH

John Deere modelo E-Power, de 96 kW, apresentado na Agritechnica 2025; e o Case IH Farmall Eletric 75C, elétrico e também autônomo

tação e produção intensiva de animais. A potência declarada é de 55 kW e utiliza uma bateria e um motor elétrico para o acionamento. Pelas informações tornadas públicas, o sistema de recuperação de energia proveniente da frenagem do veículo pode ser aproveitado para o carregamento das baterias. A transmissão desse trator é a mesma utilizada em modelos dotados de motor a combustão interna, a conhecida Fendt Vario, para até 40 km/h. Todos os sistemas já existentes de acionamento hidráulico foram mantidos. Ele utiliza uma bateria de 100 kWh, à base de lítio, e apresenta autonomia de 4 h a 7 h, em condições de média exigência. Durante a feira, o fabricante apresentou uma solução de carregamento para as baterias. Um sistema de armazenamento para ser utilizado em ambientes remotos, usando uma tomada CCS2 de uso automotivo e corrente alternada. A unidade de carregamento no uso rural é de 22 kW corrente alternada e 80 kW corrente contínua, em carregamento rápido. A New Holland apresentou recentemente, em 2024, o T4 Electric Power. É um trator “full electric” do tipo “plug in” (PHEV), dotado de bateria recarregável que aciona um motor de 120 cv de potência bru-

ta e 440 Nm de torque máximo, que tem uma configuração semelhante à do trator convencional. É um trator conceito, que utiliza uma transmissão convencional de 12 velocidades à frente e à ré, do tipo Power Shuttle. As informações do fabricante indicam que, com essa configuração e trabalhando em condições operacionais de média exigência, a autonomia seja de 4 h a 8 h em trabalho contínuo e que o carregamento rápido das baterias dure aproximadamente uma hora. Também a Case IH apresentou o seu trator elétrico, modelo Farmall Eletric 75C, dotado de um pack de baterias de primeira geração que, além de inovar pela fonte de energia, é autônomo. A ideia da Case IH nesse modelo é integrar a eletrificação, a autonomia e a agricultura digital. O carregamento proposto é de 1 h a 5 h e a duração da bateria é de aproximadamente 4 h a 5 h de autonomia para uma carga de trabalho aproximada de 80%. Na mesma feira na Alemanha, a Agritechnica, porém em 2025, a John Deere apresentou o seu trator elétrico modelo E-Power de 96 kW e também uma solução de carregamento. É muito semelhante a uma bomba de combustível que pode ser carregada e servir como unidade de armazenamento móvel, igual a um car-

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regador, de 115 kWh, na mesma forma que um “power bank” utilizado para transferir energia a um telefone móvel. Ainda na Agritechnica de 2025, o fabricante asiático Lovol lançou o trator E100 direcionado para o trabalho em pequenas empresas rurais, jardinaria e horticultura. É um trator com acionamento totalmente elétrico, com 25 cv de potência de motor, com muitas características de um trator agrícola. Utiliza uma bateria de fosfato de ferro-lítio, com autonomia para até 6 h. Pelas informações divulgadas, ele utiliza uma transmissão mecânica e tomada de potência, semelhantes a um trator convencional de pequeno porte. Neste ano, a Lovol apresentou mais uma proposta de trator elétrico, em uma versão híbrida. O modelo E4104 evoluiu a partir do modelo E3404-H, apresentado um ano antes, unindo um conjunto formado por um motor diesel e um elétrico a uma transmissão CVT. O trator tem muitos acionamentos eletrônicos em substituição aos sistemas mecânicos e promete a autonomia em breve. A marca possui outros desenvolvimentos e informa que o mercado será impactado pelas ofertas comerciais. Outros tratores elétricos que ainda não estão no nosso país, mas foram anunciados mundialmente,


Resulta muito difícil prever o que acontecerá em um futuro próximo. O que aconteceu com os veículos de passeio, em que a eletrificação ocorreu de forma rápida, pode se dar com os tratores também. Atualmente, a Associação Brasileira de Veículos Elétricos estima que aproximadamente 14% dos veículos leves vendidos, no Brasil, sejam elétricos e que o crescimento, de 2025 para este ano, seja da ordem de 92%. Poucas informações sobre o mercado mundial de tratores elétricos indicam que, seguindo a tendência dos últimos cinco anos, o crescimento mundial deve ser de aproximadamente 8,5% ao ano. Mesmo nos automóveis, há grandes perspectivas de baterias mais ecológicas, com melhor desempenho em utilização e carregamento e com maior capacidade de acumulação. Os tratores poderão aproveitar essa experiência automotiva. A questão ambiental tem sido sempre supervalorizada. Quando se refere à eletrificação de veículos, no entanto, ela deve ser considerada em todo o processo, desde a produção das baterias até o custo de descarte de todos os componentes. Mas, sem dúvida, a inexistência de gases provenientes da combustão é a grande vantagem. O peso das baterias, que é comentado como um problema para o projeto de automóveis, não deve ser considerado nos tratores, pois nesses veículos ele é uma vantagem, contribuindo para a aderência dos pneus ao solo, nas operações de grande exigência. Espera-se que, com o uso de eletricidade acumulada, o custo operacional diminua e compense o maior custo de aquisição dos veículos agrícolas novos. Quanto à manutenção periódica, ressalta-se como uma vantagem atribuída aos tratores elétricos, principalmente pela ausência de fluidos derivados do petróleo, como o próprio combustível e os lubrificantes. Os tratores elétricos tenderão a ser mais simples, com menor número de sistemas mecânicos. Também se atribui como vantagem a questão dos freios, que poderão ser utilizados para regenerar energia para a bateria, embora a frenagem em tratores seja algo desprezível, pois geralmente a redução de velocidade se dá pela redução das marchas e desaceleração.

José Fernando Schlosser, Laboratório de Agrotecnologia - UFSM Lovol

Considerações finais

Há que considerar também os cenários atual e futuro, em que o preço do kWh, a saturação do setor elétrico, a disponibilidade de pontos de recarga, o preço das baterias e o preço mundial dos derivados do petróleo influenciarão na escolha das alternativas. Atualmente, entre as opções de baterias, lítio ferro fosfatado, células e íon de lítio têm preço bastante similares. Espera-se que, quando forem populares as baterias de estado sólido, novos cenários possam se abrir. Em modo de conclusão, baseado na situação atual e na experiência automotiva, e considerando as características do trabalho agrícola que, em geral, é de muita exigência de potência, é possível que a alternativa 100% elétrica seja a de mais difícil adoção, recaindo sobre os veículos híbridos a opção de maior êxito para os tratores de médio e grande porte e com a alternativa “full eletric” para os pequenos tratores, ao menos no período da tran.M sição.

Modelo E-4104, 100% elétrico, apresentado há pouco tempo pela Lovol New Holland

como o da empresa indiana Tafe e outras empresas chinesas, podem ser opções que cheguem rapidamente ao mercado brasileiro. Também há que considerar os desenvolvedores locais, que já se apresentaram ao mercado com soluções, principalmente em máquinas pequenas e de baixo custo.

Trator elétrico T4 Eletric Power, da New Holland, com motor de 120 cv

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GESTÃO

Produtividade real Planejamento e gestão de custos operacionais de máquinas agrícolas geram eficiência na produção e a sustentabilidade econômica da propriedade

C

om o aumento acelerado dos insumos agrícolas nos últimos anos, a gestão do planejamento de custos tem sido cada vez mais decisiva para assegurar a rentabilidade das atividades agrícolas. No cenário atual, é comum encontrar propriedades de grande porte e alta produtividade, porém com baixa rentabilidade, assim como pequenas e médias propriedades com baixa produtividade, mas com boa rentabilidade. Isso ocorre devido à relação entre receita e custos ao longo do processo produtivo, em que o uso ineficiente de máquinas e insumos, o atraso em operações e tomadas de decisão sem planejamento afetam diretamente o desempenho econômico da atividade rural. Produzir mais não significa

necessariamente ganhar mais. Assim, o lucro depende dos custos, da eficiência no uso dos recursos e do preço de venda do produto. Estima-se que os custos da mecanização representam uma parte importante no custo da produção total do cultivo agrícola. Dessa forma, dimensionar corretamente o conjunto de máquinas pode evidenciar oportunidades de redução dos custos e aumento da eficiência do sistema. Ao longo deste artigo, serão apresentados os custos fixos e variáveis para as máquinas agrícolas, que de-

18 • revistacultivar.com.br • Cultivar Máquinas 270

vem fazer parte do planejamento de uma propriedade rural.

Gestão e planejamento

A eficiência de uma empresa ru-


ral vai muito além da produtividade obtida no campo, pois requer uma gestão eficiente. Porém, tem-se ciência da dificuldade dos pequenos e médios agricultores em fazer a gestão aprofundada dos parâmetros, que por muitas vezes não são do seu conhecimento, mas que fazem toda a diferença no sucesso da propriedade, tendo reais resultados na lucratividade. É fundamental que o produtor conheça detalhadamente o espaço territorial da propriedade, através de mapas e ferramentas de geotecnologias, o que permite a identificação precisa dos limites da área, da infraestrutura existente e das restrições legais e ambientais, como Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs). Essas informações contribuem para o planejamento eficiente das atividades agrícolas, para a conformidade com a legislação ambiental e para a gestão sustentável e economicamente viável da propriedade. Manter um histórico de custos, operações, práticas de manejo e produtividade dos talhões, entre outros aspectos da propriedade, também contribui para a gestão e a assertividade na tomada de decisão, pois es-

Figura 1 - método de planejamento passo a passo

Fonte: adaptado de Wageningen University & Research, 2025

tas informações permitem analisar o desempenho e possibilitam fundamentar as ações técnicas e econômicas de maneira sólida. Diante da importância do planejamento para a eficiência da empresa rural, torna-se necessário adotar métodos que auxiliem na organização e execução das atividades agrícolas.

Nesse sentido, destaca-se o método de planejamento passo a passo, também chamado de “planejamento por etapas” ou “planejamento pela rotina de trabalho”, que consiste na organização sequencial das operações, conforme sua ordem de execução (Figura 1).

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 19 Charles Echer


Inicialmente, são definidas todas as atividades do sistema produtivo, estabelecendo-se a sequência de realização e os recursos necessários em cada etapa. Após a conclusão de uma etapa, inicia-se a seguinte, permitindo maior controle das operações e da utilização dos recursos. Ao final de cada ciclo produtivo, os resultados obtidos e a experiência prática retroalimentam o planejamento, possibilitando ajustes e a incorporação de novas tecnologias, tornando o processo continuamente mais eficiente e preciso. Outro ponto de importância para a gestão é implementar um plano de manutenção preventiva das máquinas, para que elas se mantenham com o índice de disponibilidade mecânica elevado. Assim, ocorre uma conversão de tempo de máquina parada para manutenção, para somente abastecimento e as lubrificações básicas. Essa ação contribui para a redução dos custos, evita o “ciclo conserta e quebra” das máquinas, regula e controla o consumo de combustível e evita a ociosidade das máquinas, sem contar com o aumento da vida útil. Alinhado ao planejamento, deve

haver o acompanhamento do índice de desempenho das atividades, que pode facilmente ser organizado com o uso da ferramenta de qualidade 5W2H (Figura 2). Isso auxiliará a evidenciar lacunas e a melhorar o desempenho das operações e atividades já realizadas, assim como as previstas.

Custos operacionais

Ao considerar a aquisição e utilização das máquinas, estima-se que os custos de mecanização podem representar até 50% dos custos no processo produtivo. Estes custos são divididos em fixos e variáveis. Na norma Asabe (2006), estão disponíveis parâmetros e informações de referência para a estimativa dos custos de máquinas e operações agrícolas. As informações disponibilizadas pela norma podem subsidiar o planejamento e a análise de custos, desde que sejam adequadas às condições operacionais e econômicas de cada realidade. Os custos fixos ocorrem independentemente de as máquinas estarem em operação ou ociosas

Figura 2 - ferramenta de qualidade 5W2H

xxx

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e incluem os valores de depreciação, juros sobre o capital investido, seguros, taxas, alojamento, bem como as despesas com o(s) operador(es) (Quadro 1). Já os custos variáveis ocorrem em função do funcionamento das máquinas e compreendem os gastos com combustível, lubrificantes, manutenção, reparos e mão de obra operacional temporária (Quadro 2). Com os valores dos custos fixos e variáveis é possível determinar o Custo hora Máquina (ChM), o Custo Operacional horário (COh) e os Custos de Produção (CP), indicadores essenciais para o planejamento e a gestão de investimentos na propriedade (Quadro 3). Devem ser considerados, ainda, os custos com equipamentos de proteção individual (EPIs), sistemas de segurança da propriedade, valores de alojamento e alimentação da equipe de trabalho. Além disso, devem ser levados em conta os investimentos necessários para atender a legislação trabalhista. A NR-31 determina que seja fornecido aos trabalhadores rurais área de vivência com instalações sanitárias, locais para refeição, alojamentos, local adequado para preparo de alimentos (quando os alimentos não forem preparados na propriedade) e lavanderias. Havendo a necessidade de realizar o transporte de máquinas e equipamentos entre propriedades ou áreas de trabalho, esses custos também devem ser incluídos no planejamento. Da mesma forma, devem ser considerados os custos com transporte de equipes de trabalho, que contemplem o deslocamento diário ou eventual dos trabalhadores.


Custos da mecanização

Conhecer o custo operacional por hora e por hectare permite ao produtor comparar diferentes alternativas de manejo, avaliar a viabilidade da substituição de máquinas e equipamentos, identificar operações que demandam maior investimento e planejar com maior segurança. Para pequenos e médios produtores, esse acompanhamento representa importante estratégia para aumentar a eficiência do uso das máquinas e garantir sua sustentabilidade econômica.

Valores de compra das máquinas

Outro fator preponderante é o agricultor ter a ciência dos valores da compra de suas máquinas, que por sua vez podem ser de financiamento ou de capital próprio. Levando em consideração a segunda opção, deve-se fazer uma análise de mercado e das horas/máquina utilizadas, pois os juros sobre o capital investido correspondem ao custo de oportunidade do recurso financeiro empregado na aquisição da máquina. Quando a máquina é adquirida com o recurso próprio, esse recurso poderia ser aplicado em outra atividade, gerando melhores retornos financeiros; nesse ponto de vista, deve-se avaliar com clareza o custo de oportunidade do valor empregado.

Diversificação da produção

Além dos aspectos já mencionados, a diversificação da produção é um fator positivo para a resiliência econômica da propriedade rural, pois reduzir a dependên-

Quadro 1 - equações utilizadas para o cálculo dos custos fixos de máquinas agrícolas Custos fixos (CF) Depreciação (D)

R$/h

D = (Vi - Vf) ÷ Vu

Juros/Oportunidade (J)

R$/h

J = [(Vi + Vf) ÷ (2 × h)] × r

Alojamento (A)

R$/h

A = (Vi × i) ÷ h

Taxas de administração (T)

R$/h

T = (Vi × FA) ÷ h

Seguros e taxas (S)

R$/h

S = (Vi × i) ÷ h

Despesas com o operador (CP)

R$/h

CP = [(S × Np × 12) ÷ h] + [(Ds × Np × 12) ÷ h] + {[(Ds × Np × 12) ÷ h] × Es}

Onde: Vi = valor inicial da máquina ou, preço de aquisição (R$); Vf = valor final ou valor de revenda (sucata) (R$); Vu = vida útil da máquina (horas); h = utilização anual da máquina (horas); r = taxa de juros (% decimal); i = taxa anual do custo com seguros (% decimal); FA = fator de ajuste - 1% do valor inicial da máquina (% decimal); S = salário mensal (R$/ mês) Np = número de operadores por máquina; Ds = despesas sociais (R$/mês); Es = encargos sociais (varia de 1,3 a duas vezes o salário - deve consultar o contador da empresa)

Quadro 2 - equações utilizadas para o cálculo dos custos variáveis de máquinas agrícolas Custos variáveis (CV) Estimativa do volume de combustível (Q)

L/h

Q = 0,2226 × N

Custo combustível (Cc)

R$/h

Cc= Q × R$

Lubrificantes

R$/h

15% do custo total de combustível

Reparos e manutenção (R)

R$/h

R = (Vi × Frm) ÷ Vu

Despesas com o operador temporário (CP) R$/h CP = [(S × Np × 12) ÷ h] + [(Ds × Np × 12) ÷ h] + {[(Ds × Np × 12) ÷ h] × Es} Onde: N = potência máxima na tomada de potência, expressa em (kW); R$ = valor do combustível no momento da compra; Vi = valor de aquisição da máquina (R$); Frm = fator de reparos e manutenção (decimal); Vu = utilização anual da máquina (horas); S = salário mensal (R$/mês); Np = número de operadores por máquina; Ds = despesas sociais (R$/mês); Es = encargos sociais (varia de 1,3 a duas vezes o salário - deve consultar o contador da empresa)

cia de uma única fonte de renda e minimizar os impactos das oscilações de preços podem ser estratégias benéficas para o sistema produtivo. Em vista disso, é importante pensar que para diversificar a produção, se faz necessário aproveitar a infraestrutura existente, as máquinas e a mão de obra ao longo do ano.

Considerações finais

O planejamento da mecanização e o controle dos custos operacionais são fundamentais para aumentar a eficiência e a rentabilidade da propriedade rural. Logo, a gestão dos custos da mecanização é tão importante quanto a produtividade, pois pode garantir a rentabilidade da propriedade rural. Independentemente do tamanho da propriedade, a gestão bem estruturada, aliada ao correto dimensionamento das máquinas e ao conhecimento dos cus-

Quadro 3 - equações utilizadas para o cálculo dos custos totais, por hora, da operação completa Estrutura completa dos custos operacionais Custos Diretos (CD)

R$/h

CD = CF + CV

Custo Operacional Total (COT)

R$/h

COT = CD + CAD

Custo de Administração (CAD)

R$/h

CAD = k × CD

Custo por Unidade Produzida (Cpr)

R$/h

Cpr = COT ÷ Pr

Onde: CF = custos fixos (R$/h); CV = custos variáveis (R$/h); k = Percentual de 8% a 15% sobre os custos diretos, cobrindo contabilidade e gestão; Pr = unidade produzida (sc/h, m³/h, ha/h ou t/h)

tos totais de produção, permite otimizar os recursos, aumentar a eficiência econômica e tornar a tomada de decisão mais as.M sertiva. Bruno Maijo Pivoto, Érika Jamily Alves Nunes, Maria Arlete Ferreira Guasque, Vagner Ribeiro Gaier, PPGEA/UFSM; Luis Henrique Zibikoski Ereno, Farms: aplicativo para agronegócio; Catize Brandelero, DER/UFSM

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Charles Echer

TECNOLOGIA

Além do GPS

O

O verdadeiro ciclo da agricultura de precisão na Era Digital, que vai muito além de linhas virtuais e coleta de dados de campo

cenário atual do agronegócio global e nacional impõe uma dinâmica de alta competitividade e margens de lucro cada vez mais estreitas. Nesse ambiente de custos elevados de produção e volatilidade de preços das “commodities”, a busca pela eficiência operacional e pela otimização de insumos deixou de ser uma estratégia de vanguarda para se transformar em um requisito obrigatório de sobrevivência econômica. Diante dessa pressão mercadológica, o produtor rural e o gestor de frotas se veem bombardeados por uma enxurrada

diária de novos conceitos, siglas e promessas tecnológicas que misturam agricultura de precisão, agricultura digital, telemetria avançada, internet das coisas e inteligência artificial. Para que esse arsenal de inovações não se torne apenas um custo flutuante no balanço da fazenda, é fundamental compreender a espinha dorsal dessas engenharias e, acima de tudo, separar o que é conceito estrutural daquilo que se apresenta apenas como modismo comercial.

Gerenciamento estratégico

Existe um equívoco clássico e

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persistente, herdado dos primórdios da adoção tecnológica na década de 1990, que consiste em confundir a ferramenta com o conceito fundamental. É rotina encontrar quem defenda que fazer agricultura de precisão resume-se a equipar a frota com receptores de satélite e ligar o piloto automático nas operações de cultivo. No entanto, os sistemas globais de navegação por satélite, os populares GNSS ou GPS, não definem a agricultura de precisão; eles atuam estritamente como a trena eletrônica que viabiliza o georreferenciamento da informação no tempo e no espaço. Em seu cerne técnico e agronô-


mico, a agricultura de precisão deve ser entendida como o gerenciamento estratégico da variabilidade espacial e temporal de todos os fatores que influenciam a produção de uma cultura. Trata-se do reconhecimento prático de que talhão nenhum é homogêneo, pois os atributos físicos do solo, como a compactação e a dinâmica de umidade, assim como as interações químicas de macronutrientes, alteram-se a cada metro quadrado e respondem de forma distinta ao longo das safras. Operar um trator moderno mantendo linhas paralelas perfeitas para evitar passadas duplas e paralelismos incorretos representa um avanço excepcional na qualidade da mecanização agrícola, mas, isoladamente, ainda não configura a execução da agricultura de precisão.

Conhecer as diferenças

Com a evolução das ferramentas computacionais e dos canais de comunicação, surgiu a necessidade de delimitar as fronteiras entre a agricultura de precisão e a chamada agricultura digital, dois conceitos fortemente integrados, mas que operam em camadas distintas da gestão rural. Enquanto a agricultura de precisão concentra seus esforços no manejo agronômico localizado, investigando as respostas da planta e do solo para aplicar o insumo correto, no local correto e no momento adequado, a agricultura digital funciona como o grande guarda-chuva integrador do sistema. A agricultura digital abrange a infraestrutura de conectivida-

de no campo, a computação em nuvem, a integração de softwares de gestão empresarial, os algoritmos de aprendizado de máquina e a transmissão remota de dados de desempenho. Em suma, a agricultura digital empacota, transporta e processa os fluxos maciços de dados gerados pelas ferramentas de precisão, transformando-os em painéis de controle amigáveis para o produtor. Sem o rigor agronômico da precisão espacial, a digitalização do campo correria o risco de gerar gráficos e relatórios visualmente impressionantes, mas desprovidos de aplicação prática no manejo do solo e da cultura.

Fragmentação de nomenclaturas

Essa expansão tecnológica acabou gerando uma fragmentação de nomenclaturas no mercado, que passou a cunhar termos específicos como zootecnia de precisão e silvicultura de precisão. Embora essa divisão possa sugerir a existência de ciências completamente independentes, uma análise técnica aprofunda-

da revela que a lógica operacional de base permanece rigorosamente a mesma: a identificação e o gerenciamento da variabilidade para a tomada de decisão individualizada. Na silvicultura de precisão, por exemplo, o desafio deixa de ser o tratamento do bloco florestal como uma massa uniforme e passa a focar no monitoramento e inventário individualizado de cada árvore por meio de tecnologias como o sensor LiDAR embarcado em drone ou imagens multiespectrais de alta resolução, otimizando o ciclo de corte e a aplicação de fertilizantes. O mesmo fenômeno ocorre na pecuária com a consolidação da zootecnia de precisão, em que a unidade básica de gerenciamento da variabilidade deixa de ser o metro quadrado do talhão e passa a ser o próprio indivíduo, ou seja, o animal. Os modernos sistemas de monitoramento de gado baseados em brincos com identificação por radiofrequência, sensores de movimentação e colares de ruminação desempenham o mesmo papel técnico dos sensores ativos de dossel utilizados nas lavouras comerciais. Kuhn

O ciclo da precisão só se completa efetivamente quando o dado processado é traduzido em uma tomada de decisão agronômica que altera o manejo no campo, seja por meio da recomendação de corretivos e fertilizantes em taxa variável

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Fotos Charles Echer

Muito além das máquinas agrícolas, a comunicação no agronegócio possibilita também que fazendas mantenham conectados, por exemplo, vários aviários para controlar estoques de alimentos, temperatura, iluminação e outras informações cruciais

O exemplo mais emblemático dessa convergência conceitual reside nos robôs de ordenha automatizados e nos alimentadores eletrônicos de precisão. Quando uma vaca entra na estação de ordenha, o sistema efetua a leitura instantânea de seu chip de identificação, consulta o banco de dados histórico hospedado na nuvem e, com base na curva de lactação atual daquele animal específico, calcula e dispensa a quantidade exata de ração concentrada necessária para aquela refeição. Simultaneamente, sensores acoplados ao sistema de ordenha analisam a condutividade elétrica do leite em tempo real para diagnosticar mastites subclínicas antes mesmo da manifestação de sintomas visíveis. Nesse cenário altamente tecnológico, o animal representa o talhão heterogêneo, enquanto a suplementação alimentar e os medicamentos veterinários atuam como os insumos distribuídos em taxa variável. Portanto, essa segmentação de termos não deve ser encarada como um modismo passageiro, mas sim como a ramificação natural de uma mesma filosofia de en-

genharia que busca a eficiência máxima por meio da individualização do manejo.

Monitoramento de frotas e telemetria avançada

O monitoramento de frotas e a telemetria avançada consolidaram-se como pilares fundamentais para o aumento da eficiência operacional, embora tragam consigo desafios estruturais importantes que o gestor precisa sopesar cuidadosamente. Pelo lado dos benefícios práticos, a telemetria permite uma radiografia milimétrica da operação mecânica em tempo real, possibilitando identificar com exatidão o tempo de máquina ociosa com motor ligado sem produzir, os gargalos logísticos no reabastecimento de sementes e defensivos, e os desvios de velocidade que comprometem a qualidade da semeadura ou da pulverização. Além disso, a capacidade de coletar parâmetros de estresse mecânico, como variações na pressão hidrostática, temperatura do óleo e rotação do motor, viabiliza a implementação da manutenção preditiva, na qual a própria máquina emite um alerta para a central de

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gerenciamento ou para a concessionária antes que ocorra uma falha crítica, evitando a parada forçada do equipamento no meio da janela apertada de plantio ou colheita. A gestão de combustível também atinge um patamar superior, permitindo correlacionar os picos de consumo com os diferentes modos de condução dos operadores ou com zonas de maior resistência do solo. Por outro lado, o avanço dessa tecnologia esbarra em gargalos severos que caracterizam a realidade do campo brasileiro, sendo o principal deles o crônico apagão de conectividade rural. A ausência de uma cobertura estável de sinal de internet nas principais regiões produtoras faz com que muitas frotas operem em modo cego, armazenando os dados gerados em “buffers” internos para descarregamento tardio quando as máquinas retornam ao barracão da fazenda, o que anula o benefício da tomada de decisão em tempo real. Outro ponto crítico é a chamada fadiga de dados, uma vez que as fazendas passaram a ser inundadas por alertas mecânicos e relatórios complexos emitidos pelos sistemas proprietários de cada fabricante. Se a estrutura administrativa da propriedade não contar com profissionais capacitados para filtrar essa massa de informações e transformá-la em ordens de serviço imediatas, o investimento financeiro na telemetria resultará em frustração e acúmulo de dados inúteis.

Efetuar as ações

O maior desafio da agricultura de precisão, contudo, não reside na sofisticação dos sensores ou na capacidade de armazenamen-


to dos servidores, mas sim na capacidade técnica de fechar o ciclo da informação através da ação prática. Há uma tendência perigosa em considerar que uma fazenda faz a agricultura de precisão pelo simples fato de acumular gigabytes de mapas de fertilidade do solo no escritório ou realizar levantamentos frequentes com veículos aéreos não tripulados para gerar índices de vegetação, como o NDVI. Todas essas etapas constituem apenas a fase de diagnóstico do sistema. O ciclo da precisão só se completa efetivamente quando o dado processado é traduzido em uma tomada de decisão agronômica que altera o manejo no campo, seja por meio da recomendação de corretivos e fertilizantes em taxa variável, seja pela delimitação precisa de zonas de manejo homogêneas para ajustar a densidade populacional de sementes de acordo com o potencial produtivo de cada porção do talhão. Coletar dados sem convertê-los em intervenção localizada representa um desperdício de recursos e uma quebra no fluxo lógico da tecnologia.

Comunicação entre máquinas

Finalmente, para que todo esse ecossistema tecnológico atinja sua plenitude operacional, o setor precisa encarar dois grandes entraves ocultos que frequentemente são omitidos pelos manuais e catálogos comerciais, mas que determinam o sucesso ou o fracasso da tecnologia na ponta: a interoperabilidade de sistemas e a capacitação do fator humano. O produtor rural raramente possui uma frota composta por maquinários de uma única marca, e fazer com que o monitor da marca Y controle perfeitamente o implemento de taxa variável da marca X e interprete sem erros o arquivo gerado pelo software de planejamento Z continua sendo um desafio de engenharia complexo. Embora a padronização via protocolo Isobus tenha mitigado parte dessas barreiras, a rotina prática do campo ainda é severamente penalizada por incompatibilidades físicas de chicotes elétricos, falhas de comunicação entre redes CAN e divergências de formatação de arquivos de mapas.

A esse desafio de comunicação entre máquinas soma-se o gargalo do treinamento dos operadores, que se veem posicionados no interior de cabinas que se assemelham a verdadeiros centros de controle aeroespaciais, cercados por múltiplas telas repletas de informações simultâneas, sem receber a devida capacitação técnica para interpretar um alarme de erro ou calibrar corretamente um sensor de fluxo. A tecnologia aplicada ao campo não retrocederá e continuará ditando o ritmo do desenvolvimento agrícola, mas cabe aos profissionais do setor e aos gestores compreender que as máquinas e os dados gerados só trarão o retorno financeiro esperado se estiverem a serviço de uma tomada de decisão ágil, precisa e focada no fechamento completo do ciclo .M produtivo dentro do talhão. Fábio H. R. Baio, Paulo E. Teodoro, Job T. de Oliveira, Olajide J. Filusi, João Pablo S. Weigert, UFMS

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CAPA

Preet 9049 Super Testamos o primeiro trator da indiana Preet, recém-chegada ao Brasil. O Preet 9049 Super é um trator que se destaca pela simplicidade dos sistemas, a robustez do seu conjunto de motor de 90 cv e a transmissão 12 x 12 sincronizada

É

sempre muito gratificante para as equipes da Revista Cultivar Máquinas e do Laboratório de Agrotecnologia da Universidade Federal de Santa Maria acompanhar os lançamentos de novos produtos no mercado nacional de máquinas agrícolas. Agrada-nos, mais ainda, apre-

sentar novas marcas de empresas parceiras, que chegam para o competitivo mercado brasileiro de equipamentos agrícolas. Este é o caso da Preet. Para apresentar o modelo 9049 Super, da Preet, fomos até o município de Ipiranga, no estado do Paraná, em uma pequena janela sem chuvas na região.

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Fotos Charles Echer

Aproveitamos a melhor semana para ir a campo com este trator, direcionado para a agricultura familiar e pequenas áreas de produção. A ideia da marca é consolidar-se no país, oferecendo um produto confiável, de baixo custo de aquisição e conservação, de simples utilização e manutenção, resgatando alguns valores e configurações que, de certa forma,

se perderam a partir da rápida evolução tecnológica que ocorreu nas últimas décadas. A missão seria trazer de volta a simplicidade, confiabilidade, durabilidade e alguns mecanismos tradicionais que se perderam, porém muito importantes na agricultu-

ra familiar. O maior representante deste grupo de tecnologias recuperadas seria o sistema de injeção de combustível mecânica, utilizando uma bomba injetora em linha. A Preet é uma empresa de origem indiana, que entra defini-

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Fotos Charles Echer

O motor que equipa o 9049 é da marca Preet, de 90 cv de potência máxima a 2.200 rpm, com turbocompressor e injeção mecânica de combustível

tivamente no mercado nacional contando em seu portfólio, neste momento, sete modelos, o 6549 de 65 cv, o 7549 de 80 cv, e os maiores modelos, o 9049 de 90 cv e o 10049 de 100 cv, bem como as versões para culturas adensadas, 6549NT de 65 cv, 7549NT de 80 cv e 9049NT de 90cv, modelos em fase de adequação às aplicações agrícolas brasileiras. Os modelos

usarão o mesmo motor, com injeção direta, sendo o menor, de 65 cv, com aspiração natural e os três maiores com sistema de turbocompressor com intercooler. O maior modelo, de 100 cv, utiliza um motor maior, com 4.400 cm3 também de quatro cilindros, turbocomprimido. O caráter definitivo da vinda para o Brasil se consolidou a partir

O eixo dianteiro é da tradicional marca Carraro, com acionamento central e com cobertura, para evitar contato com objetos próximos ao chão

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da decisão de instalar uma montadora no país. O local escolhido foi o estado do Paraná, atualmente uma base administrativa na cidade de Arapoti, no Norte Pioneiro Paranaense. Já estão traçados os planos para o início das obras ainda neste ano, com previsão de inauguração em 2027. Para a região será um importante investimento e um impulso para a economia local. O que é novidade para muitas pessoas, já é realidade para muitos produtores dos estados do Nordeste brasileiro. Desde 2025, a Preet já entregou mais de mil tratores “Special Edition” na região, através de licitações e programas sociais do governo federal e já conta com alguns concessionários no Nordeste, por exemplo, em Itabaiana no Sergipe, além de postos de serviços autorizados, distribuídos em 24 estados do Brasil para revisões e manutenções programadas. Agora, a equipe brasileira está trabalhando para nacionalizar os tratores e conseguir o cadastramento no Programa Finame, possibilitando o financiamento oficial, através do Plano Safra, entrando de vez nas alternativas de peque-


nos e médios tratores. Durante a fase de reconhecimento dos modelos já trazidos e, em especial deste do teste, verificamos muita similaridade de componentes com outros tratores asiáticos, principalmente os provenientes da Índia. Foi explicado que é uma estratégia do mercado indiano a de utilizar, entre diferentes marcas, componentes similares, de maneira que vários tratores desta origem tenham peças comuns.

Motor

O trator do teste utiliza o motor da marca Preet, de 90 cv de potência máxima a 2.200 rpm, com turbocompressor e intercooler. Com quatro cilindros e volume total de 4.087 cm3, o motor desenvolve um torque máximo de 407 Nm próximo aos 1.400 rpm, como pudemos concluir durante o teste. A injeção de combustível é mecânica, por meio de uma tradicional bomba marca Bosch em linha. Na par-

te inferior da bomba de transferência se nota que a marca manteve o sistema de decantação de água, importante para a verificação da qualidade do combustível e retirada de impurezas. Também manteve o sistema de retirada de ar na bomba de transferência, durante a operação de sangria. O sistema de acionamento do acelerador é por meio de um varão, com regulagem de curso em ambas as extremidades. O sistema de limpeza do ar usa um conjunto de filtragem com elementos primário e secundário, posicionado à frente do radiador principal. Na parte inferior dos filtros, a marca resgata para o nosso mercado o tradicional indicador de restrição de ar e o sistema de eliminação de partículas maiores por força centrífuga. Para colocar o motor em funcionamento e evitar a partida involuntária por pessoas não autorizadas, como exige a norma brasileira, o sistema de segurança utiliza a alavanca do inversor, que

deve estar na posição neutra e alavanca de acionamento da TDP na posição desligada. Para desligar o motor, um estrangulador mecânico corta a vazão de combustível. Este motor já tem a Licença para Uso da Configuração de Veículo ou Motor (LCVM), que comprova o atendimento à legislação brasileira de controle de emissões de poluentes e ruído.

Transmissão

Para o mercado brasileiro, a transmissão utilizada será a de 12 velocidades para frente e 12 à ré, com inversor mecânico. Ela está organizada em quatro velocidades sincronizadas: 1, 2, 3, e 4, e três grupos: A, B e C. As alavancas de troca de marchas e grupos estão posicionadas à direita do operador, e a do inversor à mão esquerda. Há uma alternativa, em edição especial (“Special Edition”), que conta com oito velocidades, em um arranjo de quatro marchas e dois grupos, com ala-

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 29


Na área em que testamos o trator Preet, foi realizado o preparo do solo, com grade niveladora, com largura de 3,50 m, para incorporação de adubação orgânica, à base de esterco

vancas centrais e posto acavalado, que será uma opção. A transmissão disponibiliza um escalonamento de marchas com velocidades que vão de 1,54 km/h a 31,52 km/h. A redução final está posicionada na saída do diferencial e não próxima ao rodado como em outros tratores desta faixa de potência. O eixo dianteiro do trator de teste era da tradicional marca Carraro, com acionamento central e com cobertura, para evitar contato com objetos próximos ao chão. Mas, para a etapa de nacionalização, o eixo dianteiro será ZF, que tem ampla utilização aqui no país. A tomada de potência (TDP) apresenta opção de duas velocidades, 540 rpm e 1.000 rpm, com o acionamento por uma alavanca,

colocada à esquerda do assento do operador. Para a troca do regime de rotação, uma pequena alavanca na parte traseira, posicionada sobre o eixo da TDP, deve ser acionada. Todo o movimento que passa pela transmissão de potência e torque chega aos pneus traseiros e dianteiros, que no trator de teste eram da especificação 18.430 e 12.4-24, respectivamente. Os pneus utilizados são de perfil diagonal e podem, como opções, ser 18.4-34 no eixo traseiro e 14.9-24 no eixo dianteiro, bem como 13.638 e 12.4-24 na dianteira a depender da necessidade da operação.

Sistema hidráulico

O sistema hidráulico de três pontos é convencional, com os

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dois braços inferiores dotados de ajuste da folga lateral por meio de tubo telescópico e regulagem do controle de altura em ambos os lados, para facilitar o acoplamento. O acionamento do sistema utiliza uma bomba de engrenagem, com vazão de 45 L/min. O controle dos implementos é feito por meio de duas alavancas, uma de posição e profundidade, colocadas à direita do assento do operador. O engate de implementos é de categoria II, com capacidade de levante no olhal de 2.400 kgf. A tomada de óleo para cilindros hidráulicos externos utiliza duas válvulas de controle remoto (VCRs) de fábrica. Na parte traseira, próximo às válvulas VCR, o fabricante dispo-


nibilizou uma tomada elétrica de sete pinos, para o acionamento do sistema de sinalização de reboques.

Teste

O teste que fizemos foi em uma área que estava sendo preparada para o plantio de milho, utilizado como alimentação para gado leiteiro, em regime de “Compost Barn”, da família Vitkoski, na localidade de Pinhão, no município de Ipiranga, que está a aproximadamente 35 km da cidade de Ponta Grossa. Nesta área em que testamos o trator Preet, fizemos um preparo do solo, com grade niveladora, com largura de 3,50 m, para in-

O acesso ao posto de operação do modelo 9049 da Preet é feito por meio de duas escadas de dois degraus, uma em cada lado da plataforma

Chegada da Preet ao Brasil

A

O sistema hidráulico de três pontos é convencional, com os dois braços inferiores dotados de ajuste da folga lateral por meio de tubo telescópico e regulagem do controle de altura em ambos os lados, para facilitar o acoplamento

Preet Tractors PVT Ltd é uma empresa de origem indiana, que iniciou as suas atividades na década de 1980, construindo equipamentos de apoio à colheita e posteriormente iniciou a produção de colhedoras autopropelidas, que acabaram por tornar-se um êxito na agricultura indiana. A partir dos anos 2000, iniciou-se a produção de tratores agrícolas e, em 2016, a série que agora chega ao Brasil. No Brasil, a Preet chega pelas mãos de uma empresa brasileira, sediada no estado do Paraná. O grupo é formado por várias empresas, entre elas algumas concessionárias de outras marcas de máquinas agrícolas, construção e insumos agrícolas. A Preet no Brasil engloba a GreenField, que é uma empresa voltada ao atendimento dos processos de licitações da Preet, e a CNT Preet – Companhia Nacional de Tratores, fabricante e montador Preet, com toda a sua futura rede de concessionárias. O projeto atual é instalar a fábrica/montadora para nacionalizar de imediato os modelos Preet 7549 e 9049, de 80 cv e 90 cv, respectivamente.

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corporação de adubação orgânica, à base de esterco. Durante o trabalho, fizemos vários testes de adequação do trator, escolhendo como velocidade média em torno de 8 km/h, na terceira marcha do grupo intermediário (B), com uma rotação de motor que variamos entre 1.700 rpm e 1.900 rpm. Nesta situação, avaliamos a disponibilidade de entrega do trator e alguns parâmetros de rendimento, como patinamento e uso de reserva de torque. Pela dimensão do motor e a potência extraída, verificamos um excelente desempenho. Este motor trabalha com uma potência específica de 22,5 cv/cilindro e um torque específico de 100 Nm/cilindro, bem menos do que, atualmente, se extrai de motores de tratores similares do mercado nacional, para este volume de mais de 4.000 cm3. Com o turbocompressor e esta reserva, a rotação no tacômetro se mantinha em todas as condições de terreno e inclinação. Foram feitos trajetos de aproximadamente 400 m de comprimento, com a grade. Durante o teste tivemos a participação do proprietário da área, Josimar Vitkoski, que é cliente tradicional da empresa Nosso Campo e estava muito interessado na aquisição do trator. A sua opinião

sobre o modelo 9049 da Preet é muito positiva, pois na configuração entrega todos os recursos necessários para a sua atividade, valorizando muito a potência e o torque do motor, assim como a simplicidade de operação e manutenção. Fornecendo toda a informação que precisávamos para desenvolver o teste, tivemos apoio do gerente-geral de Operação da

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Preet no Brasil, Ricardo Barbosa, e do coordenador de Serviços Preet, Airton Jesus da Silva. Todos os aspectos da vinda da marca ao país e detalhes da sua operação, assim como todas as características construtivas da máquina nos foram repassados pela equipe.

Posto do operador

O acesso ao posto de opera-


xxx

No posto do operador, à direita do assento, estão à disposição as alavancas de troca de velocidades, marchas e grupos e, no lado esquerdo, a alavanca de inversão de sentido, o estrangulador, e os acionamentos da TDP e da tração do eixo dianteiro motriz

ção do modelo 9049 da Preet é feito por meio de duas escadas de dois degraus, uma em cada lado da plataforma. Uma plataforma foi criada para comodidade dos membros inferiores do operador, com a movimentação das alavancas do centro para o lado direito do assen-

to do operador, ficando um pequeno ressalto na parte central. O assento tem amortecimento mecânico de vibração, com regulagem por meio de mola e posição por meio de um trilho. À direita do assento, o operador tem à disposição as alavancas de troca de velocidades, marchas e grupos, e no lado esquerdo, a alavanca de inversão de sentido, o estrangulador, o acionamento da TDP e o acionamento da tração do eixo dianteiro motriz. Para a retrovisão, dois espelhos foram colocados na lateral do painel. A iluminação noturna é feita com lâmpadas LED, colocadas na parte frontal, e também luzes de trabalho na parte superior da capota.

O volante, do tipo automotivo, possui um pomo giratório (bola) para auxiliar as manobras com uma só mão. O painel de instrumentos tem mostradores de ponteiro, com informações do regime de rotações do motor (tacômetro), horímetro, amperímetro, termômetro para medir a temperatura do líquido de arrefecimento, manômetro para a pressão do óleo do motor e o indicador do volume de combustível no depósito. O posto de operação é protegido com uma Estrutura de Proteção no Capotamento (Rops), do tipo arco de segurança de dois pontos, com teto. Na barra vertical do arco, uma etiqueta do fabricante indica a autocertificação da estrutura. O depósito de combustível, dotado de chave, é fabricado em

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Fotos Charles Echer

O modelo 9049 da Preet é um trator considerado de pequeno a médio tamanho, com distância entre eixos de 2.340 mm

polipropileno, e tanto ele como o suporte da bateria foram colocados embaixo da plataforma do operador. Dois anteparos de vidro temperado, com uma armadura do tubo metálico, servem para proteger as pernas do condutor contra o calor que vem do motor e também para diminuir o ruído.

Dimensões

O modelo 9049 da Preet é um trator considerado de pe-

queno a médio tamanho, com distância entre eixos de 2.340 mm e uma relação peso/potência aproximada de 29 kgf/cv, ou seja, um peso de 2.650 kgf para uma potência máxima de 90 cv. A distribuição original de peso é de 41,5% (1.100 kgf) sobre o eixo dianteiro e 58,5% (1.550 kgf) sobre o eixo traseiro, porém no suporte de pesos do cavalete dianteiro é possível colocar até 12 pesos de 20 kg cada, e no rodado traseiro, o lastro

O teste de campo foi feito no município de Ipiranga, no Norte do Paraná

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hidráulico de até 75% do volume interno do pneu e flanges metálicas presas às rodas. Com isso, pode-se chegar ao peso máximo admitido de 3.385 kgf, repartidos em 40% (1.370 kgf) no eixo dianteiro e 60% (2.015 kgf) no eixo traseiro, o que dá uma relação peso/potência de 37,6 kgf/cv. Na lateral do motor, o projeto previu um reforço lateral na forma de duas barras, constituindo uma espécie de subchassi.

No suporte de pesos do cavalete dianteiro é possível colocar até 12 pesos de 20 kg


Considerações finais

Em vista do desenvolvimento tecnológico atual dos tratores no Brasil, a oferta de um modelo convencional, sem nenhum item de tenologia e componentes eletrônicos, parece ser de difícil aplicação. No entanto, a proposta da Preet para o Brasil é resgatar valores que foram perdidos ao longo dos anos e ofertar tratores de simples operação e manutenção. Trazer e recuperar funcionalidades de uma máquina agrícola tradicional, robusta e confiável, com a vantagem adicional de um baixo custo de aquisição e manutenção. Mesmo com esta proposta, a empresa não descuidou do atendimento dos requisitos de emissões e há, no momento, um trabalho constante de engenharia para atender as expectativas dos produtores rurais e, principalmente, as normas nacionais de ergonomia e segurança. Acompanhando a onda de aumento da oferta de tratores asiáticos que chegam ao país, a Preet entende que a tecnologia apropriada ao pequeno e médio produtor rural é baseada em equipamentos com tecnologia intermediária, durável, útil e funcional, aproveitando a lacuna existente num mercado com tratores que ultrapassaram a medida na adoção de alguns itens tecnológicos e eletrônicos, elevando a complexidade do produto, o preço dos modelos e o custo de manutenção, que deveriam atender a um público que realiza operações mais básicas e busca opções com configu.M ração simplificada.

Trator SubCompacto Avenger

O

Grupo Nosso Campo trouxe também a marca Avenger de tratores. São tratores de pequeno porte, compactos e estreitos, voltados para pequenas áreas agrícolas, culturas adensadas como cafeicultura, fruticultura e vinicultura, especialmente em áreas verdes, bem como condomínios residenciais e industriais, jardinaria e paisagismo. O trator Avenger 26 foi o pioneiro na chegada da marca na Europa e representa um grande sucesso de vendas naquele mercado. A potência de motor vai de 20 cv a 26 cv, proporcionados por motores da marca Mitsubishi, de três cilindros, arrefecidos a água e com volume deslocado de 1.319 cm3. Na sede da Preet, em Ponta Grossa, vimos um modelo de 26 cv de potência na configuração agrícola, com pneus traseiros na medida 8.320 e dianteiros 6.00-12. Porém, nas versões Industrial e Turf, podem ser equipados com pneus voltados à flutuação. É um microtrator, com dimensões proporcionais a um trator convencional e com vários componentes para realizar desde tarefas agrícolas até operações leves. A transmissão é de nove velocidades à frente e três à ré, com velocidade máxima de 22 km/h. São três grupos (L, M, H) e três velocidades, mais a ré. A alavanca de troca de marchas está posicionada à esquerda do opera-

dor. O eixo dianteiro motriz é do tipo em ponte, para aumento do vão livre ao solo e com engrenagens cônicas. Possui um sistema hidráulico de três pontos da categoria N (“Narrow”), com capacidade de levante de 750 kgf. Também tem uma tomada de potência (TDP) de duas velocidades, 540 e 540 econômica, e uma válvula de controle remoto (VCR) padrão. O peso total em vazio é de 1.870 kgf e as medidas dimensionais são: comprimento total de 2.860 mm, largura de 1.120 mm e altura total de 2.570 mm. Há um suporte para pesos dianteiros. Mesmo sendo um trator de pequeno porte, o posto de operação é convencional, semiplataformado, com o assento padrão, a alavanca do acelerador na lateral direita do painel e um suporte para colocação de telefone móvel abaixo do volante. A proteção no capotamento é do tipo Rops em arco, autocertificado, com articulação. O capô é rebatível e se abre bastante para expor todos os componentes na manutenção. O silenciador fica no interior do capô.

José Fernando Schlosser, Laboratório de Agrotecnologia – Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas – UFSM Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 35


PULVERIZAÇÃO

Aplicação específica Escolha da ponta de pulverização e do volume de aplicação em lavouras de tomate industrial deve considerar não apenas a deposição, mas também características do defensivo e as condições ambientais de campo

O

tomate é uma das hortaliças mais cultivadas no mundo, e de extrema importância para a alimentação. A condução da cultura pode ser em duas formas: o tomate tipo “mesa”, consumido in natura, tem hábito de crescimento indeterminado e normalmente é conduzido por estaquia, enquanto o tomate destinado à indústria, processado para obtenção de molhos, tem hábito de crescimento determinado e é considerado rasteiro. Na condução do tomateiro há intensa proliferação de insetos e doenças, sendo o combate aos patógenos, um dos maiores custos da

produção. A eficácia dos produtos aplicados, assim como os métodos de pulverização dos defensivos agrícolas, deve ser constantemente monitorada para otimização e redução das aplicações durante a condução da cultura. Dentre os fatores que influenciam a qualidade da aplicação, destacam-se o volume de aplicação, a seleção de pontas, a formulação do produto, o método de aplicação, as condições meteorológicas durante a aplicação, as características da planta/alvo (como o hábito de crescimento e a densidade foliar) e as propriedades das gotas depositadas nas folhas (tamanho, distribuição e uniformidade).

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Tomate industrial

O tomate industrial, por ter desenvolvimento próximo ao solo e ser facilmente atacado por patógenos, é constantemente pulverizado e com elevados volumes de calda, atingindo até 1.000 L/ha. A aplicação com alto volume é realizada com o intuito de molhar toda a porção da planta e frutos, contudo a prática é caracterizada por alto desperdício, redução da capacidade operacional dos equipamentos e potencial contaminação do solo e dos frutos. Práticas como redução do volume de aplicação, definição de pa-


Fotos Arthur Lopes

râmetros operacionais, utilização de tecnologias para melhor aproveitamento de gotas e capacitação técnica são alternativas capazes de otimizar os tratos culturais para o tomate.

Endoderiva e exoderiva

Durante a aplicação, um dos fatores responsáveis por reduzir a eficiência da operação é a deriva, fenômeno em que a gota aplicada tem sua trajetória desviada para outro local ou não atinge o alvo, ocorrendo a perda de ingrediente ativo. A deriva é classificada como endoderiva e exoderiva, caracterizando perdas dentro e fora da lavoura, respectivamente. Quando a gota atinge um alvo diferente, mas ainda no perímetro de aplicação, denomina-se endoderiva. A exoderiva pode ser o resultado da ação do vento ou de inversão térmica, ambos fenômenos físicos capazes de transportar as gotas por longas distâncias, a depender do formato de aplicação, resultando em perdas e potencial contaminação de lavouras vizinhas, cursos d’água, pessoas e animais.

Na condução do tomateiro há intensa proliferação de insetos e doenças, sendo o combate aos patógenos um dos maiores custos da produção

Táticas para otimização

Para redução de perdas e falhas na aplicação, monitorar as condições meteorológicas, definir o volume de calda mais eficiente e o tamanho de gotas para deposição sobre cada alvo específico, calibrar corretamente o

equipamento, utilizar óleos e/ou adjuvantes, e capacitar tecnicamente o aplicador são táticas para otimizar o tratamento fitossanitário.

Ponta de pulverização e volume da calda

O presente trabalho foi desen-

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 37 Arquivo


Figuras 1 e 2 - dados de número de gotas totais e densidade de gotas/cm2 para as pontas cone e leque nos volumes de 300 L/ha e 500 L/ha

volvido visando definir a ponta de pulverização e reduzir o volume de calda no tomateiro destinado à indústria. O trabalho foi desenvolvido em lavoura de tomate industrial, cultivar Sonora PF, na Escola de Agronomia, pertencente à Universidade Federal de Goiás (EA/UFG), situada no município de Goiânia (GO). As condições meteorológicas de temperatura no experimento apresentaram temperaturas variando de 26°C a 32°C, umidade do ar entre 29% e 44% de umidade relativa e velocidade do vento entre 0,0 km/h e 3,9 km/h medidos com um termo-higro-anemômetro digital da marca Metrins, modelo INS - 1350.

Metodologia utilizada

O experimento foi conduzido em blocos casualizados, com 15 repetições, em esquema fatorial 2x2, sendo testadas duas pontas de pulverização (cone e leque) e duas taxas de aplicação (300 L/ha e 500 L/ ha). As aplicações foram realizadas com pulverizador costal de pressão constante à base de CO2, equipado com barra de seis pontas espaçadas em 0,5 m e conduzida a 0,5 m do alvo. As pontas utilizadas foram JF-11003 (leque) e TXA 8002 (cone), operando sob pressão de 40

lb/pol2. A variação do volume de calda foi obtida pelo ajuste da velocidade de deslocamento dentro da parcela. Para inspeção do depósito de gotas, foram fixados papéis fotográficos de 76 mm x 26 mm em dez plantas de forma aleatória (Imagem 3). A calda de pulverização foi composta por água e corante preto a 2,5% do volume de calda. Após a aplicação e a secagem, os papéis foram coletados, armazenados em saco de papel e, posteriormente, escaneados para análise no software Gotas (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária [Embrapa]). Foram determinadas as variáveis: número de gotas totais, densidade de gotas/ cm2, diâmetro mediano volumétrico (DMV) e coeficiente de dispersão. Os dados foram submetidos à análise de variância no software R, e as médias comparadas pelo teste de Turkey a 5% de significância. Nas Figuras 1 e 2 são apresentados os dados de número de gotas totais e densidade de gotas/cm2 para as pontas cone e leque nos volumes de 300 L/ha e 500 L/ha.

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Resultados obtidos

O número de gotas totais e

densidade de gotas foi superior para a ponta cone em ambos os volumes, comparada com a ponta leque. A redução média foi de 25% para densidade de gotas/ cm2 para o volume de 300 L/ha e 500 L/ha. Isso ocorre pelo fato de a ponta cone oferecer gotas com menor tamanho, podendo recobrir mais o alvo e penetrar com mais facilidade no dossel, quando pressurizada nas mesmas condições de outras pontas de pulverização. Esta ponta tem potencial de oferecer maior cobertura e densidade de gotas, auxiliando na redução do volume de aplicação, para a redução de água utilizada na mistura com os defensivos, colaborando no combate de doenças e insetos. Em relação ao diâmetro mediano volumétrico (DMV) das gotas, a ponta leque produziu gotas maiores para os dois volumes de calda. Desta forma, a escolha da ponta leque se justifica em condições adversas de clima, com temperaturas acima de 30°C, velocidade do vento acima de 10 km/h e umidade relativa do ar menor que 50%, e adoção de volumes menores. Ressalta-se que para este experimento o tamanho de gotas que as duas pontas apresentaram é considerado acima do limite críti-


Figuras 3 e 4 - relação do diâmetro mediano volumétrico (DMV) das gotas variável e coeficiente de dispersão de gotas representando a homogêneidade no tamanho das gotas pulverizadas

Conclusões do experimento

De forma geral, os resultados

indicam que a ponta cone é mais eficiente para pulverização em tomateiro, especialmente em menores volumes, pois garante maior deposição e densidade, além de reduzir desperdício de produto. A ponta leque, por sua vez, apresentou melhor desempenho apenas em volumes maiores, com produção de gotas de maior diâmetro, sendo útil em cenários específicos de aplicação, como condições de maior vento ou necessidade de penetração no dossel. Essas observações corroboram com estudos anteriores, que destacam que diferenças na deposição de calda nem sempre com-

prometem a eficácia final do tratamento, sobretudo quando são utilizados produtos de ação sistemática. Assim, a escolha da ponta e do volume de aplicação deve considerar não apenas a deposição, mas também características do defensivo e as condições am.M bientais de campo. Arthur Gabriel Caldas Lopes, Anielly Salles Lacerda, Isadora da Silva Strapasson, Carlos Eduardo Monteiro Rosa, Maurício Alves Lima, Lucas Levi de Andrade Oliveira, UFG Arthur Lopes

co, entre 100 µm e 150 µm, mesmo com umidade relativa e temperatura fora dos padrões indicados. A variável coeficiente de dispersão de gotas (Figura 3) representa o quão homogêneo está o tamanho das gotas pulverizadas, e quanto mais próximo de 1 é este valor, melhor e mais uniforme é a aplicação. A ponta cone, mesmo com uma população de gotas finas e maior quantidade de gotas totais, apresentou maior uniformidade de aplicação em relação à ponta leque para o volume de 500 L/ha. A característica era esperada para ambos os volumes, pois a ponta leque, por apresentar menor complexidade em sua conformação, tem um maior espectro de gotas, podendo apresentar gotas finas, médias e grossas, a depender da pressão de trabalho do pulverizador. Desta forma, a utilização de ponta leque em altas vazões deve ser melhor avaliada, pois apresenta alta variabilidade no tamanho de gotas, o que pode reduzir a qualidade da operação.

Papel fotográfico fixado em diferentes pontos da cultura do tomate

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 39


TECNOLOGIA Arquivo

Atenção aos detalhes A aplicação de insumos em taxa variável, apesar dos desafios a superar, é novidade promissora; ao atender às necessidades de cada parcela da lavoura, gera economia, produtividade e lucratividade

A

modernização da produção agrícola tem sido impulsionada pela busca da eficiência no uso de insumos, um paradigma consolidado pela Agricultura de Precisão (AP) por meio da tecnologia de Aplicação em Taxa Variável (VRT - do inglês “Variable Rate Technology”). A AP consiste num conjunto de técnicas e tecnologias que permitem o manejo localizado das áreas agrícolas, considerando sua variabilidade espacial e temporal. A VRT, por sua vez, consiste na aplicação de insumos de forma específica, conforme as necessidades de cada parcela da lavoura, respeitando o gradiente geolocalizado do talhão. Essa abordagem fundamenta-se na coleta de dados georreferenciados, na utilização de sensores, na análise estatística e na aplicação de conceitos de geoestatística, como variogramas e krigagem. Com o avanço da digitalização no campo, a integração entre máquinas, softwares e sistemas de monitoramento tem proporcionado ganhos significativos em eficiência produtiva, re-

dução de custos e sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

Análise de dados

A coleta de dados georreferenciados ocorre, principalmente, de duas formas: por amostragem em malha (grid), com coordenadas obtidas via GNSS e posterior análise em laboratório, ou por sensores que registram automaticamente atributos de solo, fertilidade e umidade do solo, índices de vegetação (os quais relacionam a resposta espectral das plantas a características como vigor vegetativo, biomassa e sinais de estresse), entre outros. Somados ao histórico de manejo da área, esses dados brutos formam a base sobre a qual a geoestatística atua. A modelagem dos variogramas permite avaliar a dependência espacial dos atributos em estudos levantados nessa etapa, sendo fundamental para garantir a confiabilidade das estimativas geradas por krigagem. Softwares de geoprocessamento, como o QGIS, viabilizam

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a manipulação desses dados, permitindo trabalhar com ortomosaicos, recortes de áreas de interesse e mapas temáticos da lavoura.

Zonas de manejo

A partir desses mapas, são definidas as zonas de manejo, que possibilitam a aplicação localizada de insumos e o ajuste da quantidade a ser aplicada em cada gleba. Essa definição é importante porque os atributos raramente se distribuem de forma uniforme no talhão: por meio das zonas, agrupam-se áreas com características semelhantes de fertilidade, compactação ou capacidade de retenção de água, permitindo que o manejo respeite as peculiaridades de cada agrupamento. A divisão comumente utilizada nas fazendas brasileiras é em glebas de um hectare, cada uma recebendo uma identidade digital específica no banco de dados da propriedade.

Operações no campo

Definidos os mapas e as zonas


Fotos Charles Echer

de manejo, o passo seguinte é levar essas prescrições ao campo - o que só se tornou viável com a automação das máquinas agrícolas. Assim, a transição dos sistemas agrícolas convencionais para modelos automatizados reconfigura as etapas produtivas clássicas de semeadura, tratos culturais e colheita. Essa automação manifesta-se no emprego de tratores, colhedoras e demais máquinas equipadas com computadores de bordo, sistemas de orientação por satélite (GNSS), sensores e controladores de seções, que garantem a execução das operações de campo conforme a necessidade de cada local, sem sobreposição de linhas, com redução do desperdício de sementes e insumos e otimização do tráfego de máquinas, a fim de evitar a compactação do solo. É justamente essa infraestrutura computacional que viabiliza, na prática, os preceitos da Agricultura de Precisão: ao tratar a heterogeneidade espacial e temporal do talhão como um fator gerenciável - e não como uma média homogênea a ser

A aplicação a taxa variável traz inúmeros benefícios aos produtores agrícolas

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 41


ignorada -, os controladores automáticos recebem as prescrições geradas nas etapas anteriores e as convertem em ação direta sobre sementes, fertilizantes, corretivos e defensivos.

Solo tem influência

O sistema de VRT adota a classificação de textura do solo como critério orientador para a distribuição espacializada de sementes, fertilizantes e água. Em áreas de mapeamento pedológico com texturas mais arenosas, a condutividade hidráulica costuma ser elevada e a capacidade de retenção de água e nutrientes, restrita. Compreendendo essa limitação, os controladores automáticos reduzem proporcionalmente a densidade de semeadura e a carga de fertilizantes sintéticos aplicados por metro quadrado nessas glebas, partindo da premissa de que solos arenosos possuem menor potencial produtivo em razão de restrições hídricas ou químicas. A população de sementes é regulada em tempo real pelos motores de acionamento das linhas de semeadura, ajustando o estande à capacidade de suporte de cada gleba. Em manchas de textura arenosa, a redução do número de sementes por metro linear mitiga a competição intraespecífica por fertilizantes, água e luz. Em glebas de textura média a argilosa, por sua vez, o sistema eleva automaticamente a densidade populacional para explorar o teto produtivo do solo, que retém maior umidade e nutrientes. No âmbito da adubação, solos arenosos, em razão da baixa capacidade de troca catiônica, são mais susce-

tíveis a perdas de nitrogênio por lixiviação e de potássio por percolação hídrica. Ao aplicar doses menores e fracionadas de fertilizantes nessas áreas de menor aptidão, a tecnologia previne a contaminação de lençóis freáticos e otimiza o balanço de nutrientes do agroecossistema.

Defensivos sob medida

De forma semelhante, a pulverização de precisão aplica defensivos em taxa variável ou de forma localizada, usando sensores - câmeras ou infravermelho - para identificar pragas, doenças ou plantas daninhas em tempo real, ou pela utilização de mapas de aplicação pré-carregados. O acionamento de bicos individuais via tecnologia de controle de fluxo (PWM, do inglês “Pulse Width Modulation”) permite atingir apenas o alvo. Essa tecnologia controla eletronicamente a vazão dos bicos por meio de pulsos rápidos de abertura e fechamento, mantendo constante o tamanho das gotas mesmo quando a velocidade do trator varia, o que garante o uso eficiente de defensivos agrícolas.

Reflexos em economia

Todo esse conjunto de ajustes automáticos - em sementes, fertilizantes e defensivos - não se justifica apenas do ponto de vista agronômico: os ganhos da VRT deixaram de ser apenas conceituais e já aparecem quantificados em estudos e aplicações comerciais no país. Em semeadura de precisão, sistemas de regulagem automática de sementes e fertilizantes têm apresentado economias da ordem de 5% a 6% nos custos de implantação da lavoura de milho e próximas a 4% na soja, com ganhos adicionais na redução do desperdício de sementes em manobras e sobreposições. Estimativas do setor apontam, ainda, um retorno sobre o investimento (“payback”) tipicamente entre duas e quatro safras, resultado da soma entre economia de insumos e aumento de produtividade (Aegro, 2026). Ainda de acordo com esse autor, em nível macroeconômico, projeções indicam que um aumento de 10% na produtividade de culturas como cana-de-açúcar, milho e soja no Brasil teria potencial para adicionar dezenas de bilhões de reais ao

.M

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Francisco Faggion

PIB nacional e gerar centenas de milhares de novos empregos, evidenciando que os ganhos de eficiência da AP em escala de propriedade se traduzem em efeitos relevantes para a economia do agronegócio como um todo.

Desafios persistem

Apesar desse potencial, a Embrapa aponta que a adoção da AP no Brasil ainda é heterogênea: é mais consolidada em grandes áreas de culturas anuais e cana-de-açúcar sobretudo na amostragem georreferenciada para mapeamento de fertilidade e posterior aplicação de corretivos e fertilizantes em taxa variável -, mas permanece incipiente entre pequenos e médios produtores, para quem o custo de entrada ainda é uma barreira relevante. Entre os principais desafios da aplicação em taxa variável, está o alto investimento inicial exigido para a aquisição de equipamentos GNSS, correção de sinais, sensores, drones, controladores de taxa variável e softwares de análise, além da eventual necessidade de substituição de máquinas agrícolas para

Pesquisadores da Universidade Federal de Brasília exploram os benefícios da aplicação a taxa variável

compatibilizá-las com a tecnologia VRT. Somam-se a isso, a necessidade de capacitação técnica dos operadores para utilizar as ferramentas e interpretar os dados coletados, a exigência de coleta e análise de dados precisos e atualizados e a integração entre sistemas e equipamentos de diferentes fabricantes, de modo que operem de forma compatível e articulada.

Novidade promissora

A Agricultura de Precisão aprimora o processo produtivo e permite a tomada de decisão embasada em uma visão representativa da realidade do momento. Ao otimizar as tarefas de campo, busca-se atingir o potencial máximo de cada gleba, com menos perdas - inclusive perdas de oportunidade, já que a falta de informação deixa de

ser um fator limitante para o planejamento do manejo. Compreender o funcionamento dessas tecnologias na prática torna-se essencial para a competitividade no agronegócio brasileiro, sobretudo diante de evidências de retorno econômico já mensurável em diferentes culturas. Contudo, a eficácia da VRT permanece condicionada à qualidade da amostragem e à interpretação dos dados gerados. Por fim, as evidências técnicas e econômicas reforçam a necessidade de continuidade das pesquisas voltadas ao refinamento de algoritmos preditivos que integrem, em tempo real, dados de sensores de campo, imagens de sensoriamento remoto e balanços micrometeorológicos, a fim de ampliar a precisão das prescrições e reduzir ainda mais a distância entre o potencial produtivo teórico de cada área e o resultado efetivo obtido na .M lavoura. Francisco Faggion, Ana Gabrielle Novais, Felipe Carvalho Silveira, Haniel Carlos Gomes da Cruz, Henrique José Lopes dos Santos, Ronald Morocho Michilena, Lamagri/FAL/UnB

Cultivar Máquinas 270 • revistacultivar.com.br • 43 Charles Echer


SEMEADORAS

Agilidade calculada Velocidade adequada é fundamental para conciliar eficiência operacional, qualidade da semeadura e durabilidade dos componentes, contribuindo para estabelecer lavouras mais uniformes e produtivas

O

processo de semeadura constitui uma das etapas mais críticas para o adequado estabelecimento das culturas agrícolas, sendo responsável por depositar as sementes no solo com espaçamento e profundidade compatíveis com as exigências de cada cultura. Quando conduzida corretamente, essa operação favorece a germinação uniforme, o desenvolvimento das plantas e a formação de um estande homogêneo na lavoura. Dessa forma, a qualidade da semeadura está diretamente relacionada ao potencial produtivo das culturas, influenciando a emergência das plantas e o aproveitamento eficiente dos recursos disponíveis no solo.

Com os avanços da mecanização agrícola, grande parte das operações de semeadura passou a ser realizada por semeadoras-adubadoras mecanizadas, o que possibilitou maior eficiência operacional, padronização e aumento da capacidade de campo. Entretanto, o desempenho dessas máquinas depende diretamente de regulagens adequadas, como a correta dosagem de sementes e o funcionamento dos mecanismos de abertura e fechamento do sulco, fatores determinantes para a qualidade final da semeadura.

Velocidade de deslocamento

Entre os principais fatores

operacionais, destaca-se a velocidade de deslocamento. Esse parâmetro influencia diretamente a uniformidade de distribuição de sementes, a manutenção da profundidade de deposição e a estabilidade do espaçamento longitudinal, além de afetar a interação entre máquina e solo. Assim, a escolha adequada da velocidade de operação torna-se fundamental para a obtenção de estandes uniformes e produtivos. Nos sistemas produtivos modernos, observa-se uma tendência de aumento da velocidade de semeadura, motivada pela necessidade de ampliar a capacidade operacional e atender às janelas ideais de plantio. Em culturas como soja, milho e algodão, a época de semeadura exerce for-

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Kuhn

Fotos Maxam

te influência sobre o rendimento, de modo que atrasos no estabelecimento da lavoura podem resultar em perdas significativas de produtividade. A busca por maiores velocidades reflete, portanto, a tentativa de conciliar exigências agronômicas, demandas por eficiência operacional e os avanços tecnológicos incorporados às semeadoras. Contudo, o aumento da velocidade pode comprometer a uniformidade da distribuição de sementes, a estabilidade do sulco e a manutenção da profundidade de deposição. Além disso, pode provocar maior revolvimento do solo, favorecer a emergência de plantas daninhas, aumentar o desgaste dos componentes da máquina e elevar a necessidade de manutenção.

Fatores essenciais

A distribuição adequada de sementes e a profundidade de semeadura são fatores essenciais para o bom desenvolvimento das plantas. O espaçamento entre plantas deve ser compatível com suas necessidades fisiológicas, permitindo o crescimento sem competição excessiva por água, nutrientes e radiação solar. Por outro lado, populações reduzidas favorecem a ocupação do espaço por plantas daninhas, comprometendo o rendimento da cultura. A profundidade de deposição também exerce influência direta na germinação e na emergência das plântulas. Profundidades excessivas podem reduzir o vigor inicial das plantas, pois a semente pode não dispor de energia suficiente para atravessar uma camada espessa de solo. Já deposições muito superficiais tornam as sementes mais suscetíveis aos efeitos climá-

A escolha adequada da velocidade de operação torna-se fundamental para a obtenção de estandes uniformes e produtivos

ticos e ao ataque de pragas e animais.

Tecnologias de dosagem

Para minimizar esses problemas, diferentes tecnologias de dosagem têm sido incorporadas às semeadoras. No caso de sementes maiores, como soja e milho, os dosadores pneumáticos com sistema de escoamento controlado apresentam elevada precisão na sua distribuição, superando sistemas mecânicos tradicionais, como o dosador alveolar horizontal. Além disso, o controle da profundidade de semeadura pode ser realizado por sistemas de pressão distribuída nas linhas, utilizando cilindros ou bolsas pneumáticas ou hidráulicas. Para sementes pequenas, são utilizados dosadores volumétricos do tipo cilindro acanalado, de liberação natural, bem como sistemas com torre de distribuição ou indução de ar, classificados como dosadores de liberação

induzida. No sistema com torre de distribuição, a pressão positiva conduz o fluxo de sementes do rotor central até a torre, que direciona as sementes para as tubulações que alimentam as linhas de semeadura. Já o sistema por indução de ar utiliza o fluxo de ar para transportar uma dose volumétrica de sementes. Como o funcionamento desses sistemas depende da pressão de ar, a manutenção adequada é fundamental para evitar acúmulo de impurezas e garantir a eficiência do sistema.

Relação solo-máquina

Outro aspecto importante é a relação solo-máquina, que envolve a interação entre o solo e os elementos ativos da semeadora, como discos de corte, mecanismos sulcadores e rodas compactadoras. Essa interação é fundamental para a formação adequada do sulco e para a de-

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posição correta das sementes. Nesse contexto, a velocidade de deslocamento influencia diretamente a estabilidade do sulco. Velocidades elevadas podem provocar sulcos malformados ou rasos, além de causar elevação excessiva do solo, o que pode resultar em deficiência de cobertura das sementes. As condições físicas do solo também desempenham papel importante nesse processo. Características como textura, umidade e nível de compactação influenciam a escolha dos mecanismos de corte e abertura de sulco, bem como a demanda de tração do conjunto trator-semeadora. Em áreas com maior resistência mecânica, os mecanismos de corte precisam promover maior cisalhamento do solo, o que aumenta a exigência de potência. Nessas condições, o aumento da velocidade pode reduzir a profundidade efetiva de trabalho, especialmente em máquinas equipadas com sulcadores do tipo haste.

Consumo de combustível

O consumo de combustível também está relacionado a esses

fatores. O peso da máquina, aliado à resistência do solo, aumenta a demanda de esforço do conjunto mecanizado. Quando combinado com velocidades elevadas, esse cenário pode resultar em maior consumo de combustível, especialmente quando o trator opera fora da faixa de melhor rendimento do motor.

Durabilidade dos componentes

A durabilidade dos componentes da semeadora também deve ser considerada. Elementos que atuam diretamente no solo estão sujeitos a desgaste intenso, e velocidades elevadas tendem a acelerar esse processo, devido ao aumento do atrito entre as peças e o solo. Isso pode resultar em desgaste prematuro de componentes e em paradas inesperadas da máquina durante a época crítica de semeadura.

Necessidade de avaliação

Dessa forma, a determinação da velocidade ideal depende de diversos fatores, como o tipo de máquina, o sistema dosador, as

características do solo, as condições climáticas e a cultura implantada. Embora as semeadoras modernas sejam projetadas para operar em velocidades cada vez maiores, isso não significa que a semeadura deve sempre ser realizada em alta velocidade. Como vimos, a velocidade de deslocamento das semeadoras-adubadoras exerce influência direta sobre o desempenho operacional da máquina e sobre a qualidade da implantação das culturas. Embora o aumento da velocidade contribua para ampliar a capacidade operacional e atender às janelas de semeadura, sua utilização deve ser cuidadosamente avaliada. Assim, a definição adequada torna-se um fator estratégico para conciliar eficiência operacional, qualidade de semeadura e durabilidade dos componentes, contribuindo para o estabelecimento de lavouras mais unifor.M mes e produtivas. Everton Wermuth, Viviane Fernanda Rott da Silva, Andressa Rosado Massirer, Tiago Rodrigo Francetto, GTM/UFSM - Cachoeira do Sul (RS); Giusepe Stefanello UFPel

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