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Cultivar
Cultivar Grandes Culturas • Ano XVIII • Nº 212 • Janeiro 17 • ISSN - 1516-358X
Editorial
Nossa capa
Desafios dentro e fora da lavoura
N
o momento de apresentar nossa Edição Especial, com material inédito e artigos selecionados entre os melhores publicados ao longo de 2016, é hora também de fazer uma pequena retrospectiva de mais um ano que passou em ritmo veloz e intenso. Marcado por sobressaltos, especialmente na esfera política, 2016 protagonizou um dos períodos mais turbulentos da história recente do Brasil. Cenário de insegurança, que acabou por trazer reflexos negativos mesmo aos setores mais sólidos e importantes, como o agronegócio. Apesar de não haver crise diretamente associada ao setor, os investimentos dos produtores se mostraram mais lentos, racionalizados e quando não eram indispensáveis, acabaram adiados. Sinal, antes de tudo, de maturidade de quem a duras penas aprendeu que a agricultura é dinâmica e que nela há necessidade de estar preparado para períodos nem sempre tão bons. Ao mesmo tempo em que aprendeu a usar de racionalidade na decisão de investimentos, o produtor brasileiro também não perdeu de vista que para alcançar aumento de produtividade e melhorar a lucratividade é impossível abrir mão de tecnologia. E apesar do cenário político econômico desfavorável, não deixou de apostar na produção, cuja demanda cresce de modo exponencial em todo o mundo. Desta forma é possível esperar, novamente, por uma grande safra. Os desafios fitossanitários se fizeram presentes, mais uma vez, em 2016. Plantas daninhas como capim-amargoso e caruru palmer (Amaranthus palmeri), recentemente identificado no Brasil, geraram preocupação e deram trabalho a produtores e pesquisadores. Pragas como percevejo e mosca-branca registram surtos, ao mesmo tempo em que houve o recrudescimento da presença da lagarta Helicoverpa armigera nas lavouras brasileiras. Favorecida pelo clima, a ferrugem asiática, doença que consiste no pior pesadelo dos sojicultores, também chegou mais cedo e acendeu o sinal de alerta nas áreas de cultivo. Em 2016 o Grupo Cultivar trouxe novidades, com investimentos que permitiram oferecer versão mobile para o Portal www.grupocultivar.com, além da comercialização de assinaturas em formato digital, uma opção a mais para atender aos diferentes perfis de leitores, ávidos por material técnico de qualidade. O ano de 2017 será bastante exigente para as lavouras brasileiras, com safra sob o provável predomínio de La Niña, fenômeno climático que tende a favorecer o ataque de doenças fúngicas e irregularidades na distribuição de chuvas. E a equipe Cultivar seguirá atenta aos assuntos que pulsam nas lavouras brasileiras, para novamente trazer informações atualizadas e qualificadas, a você, caro leitor. Resta agradecer pela companhia ao longo de mais este ano! Boas festas! Ótima leitura e excelente 2017!
Montagem Cristiano Ceia
Índice Lagarta-da-panícula em arroz
04
Controle de bicudo em algodão
08
Controle de percevejos em soja
11
Fungicidas contra ferrugem
16
Percevejo em soja
20
Programa de aplicações de fungicidas
24
Guerra ao Amaranthus palmeri
28
Lagarta-do-cartuho em milho
32
Manejo de pragas em milho
36
Desafios da Helicoverpa armigera
40
Reguladores de crescimento em trigo
44
Especial - Expedição China
47
Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter
REDAÇÃO • Editor
Gilvan Dutra Quevedo
• Redação
Rocheli Wachholz Karine Gobbi
• Design Gráfico e Diagramação
Cristiano Ceia
• Revisão
CIRCULAÇÃO
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COMERCIAL • Coordenação
Charles Ricardo Echer
• Vendas
Sedeli Feijó
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Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.
Arroz
Observação atenta Fotos Irga/Unitec
De importância secundária ao longo de muito tempo na cultura do arroz, a lagarta-da-panícula detém atualmente o status de uma das principais pragas que atacam as lavouras orizícolas do Rio Grande do Sul. O monitoramento deste inseto é de extrema importância, pois a demora na sua identificação é proporcional ao agravamento da população e dos danos
A
s lavouras do arroz irrigado do Rio Grande do Sul, em geral, sofrem o ataque de vários insetos-praga que contribuem para a redução da produtividade e o aumento dos custos de produção. Nos últimos dez anos, alguns insetos ocorriam nas lavouras de arroz irrigado, mas não causavam danos. É o caso da lagarta-da-panícula (Pseudaletia spp.), antes de importância secundária e ocorrência esporádica, mas que nas últimas safras tem sido uma das principais pragas do arroz irrigado no estado. Esta denominação praga é dada a partir do momento em que se dá aumento da densidade populacional do inseto causando prejuízos. A lagarta-da-panícula ocorre todos os anos atacando mais de 40% da lavoura e causando perdas. Muitos produtores, por não realizarem o monitoramento, desconhecem sua ocorrência. Esta demora na identificação da lagarta favorece o aumento da população e dos danos. A lagarta-da-panícula sempre esteve disseminada por todo o estado gaúcho, porém nas regiões da Depressão Central, Fronteira Oeste, Campanha e Planície Costeira Externa, as populações e os danos eram maiores. Nas duas últimas safras na região da Planície Costeira Interna, lavouras apresentaram altas
infestações e alguns produtores acharam que o dano foi causado por granizo. As causas do aumento da população da lagarta-da-panícula estão associadas às condições favoráveis na lavoura de arroz irrigado e também pelo hábito de suportar temperaturas mais baixas. Assim, após a colheita, o inseto continua a reproduzir-se na entressafra, permanecendo na área. Como as populações estão altas no Rio Grande do Sul, é importante o produtor realizar observações periódicas, ou seja, monitorar a lavoura.
ESPÉCIES E BIOLOGIA
No Rio Grande do Sul ocorrem duas espécies, a Pseudaletia adultera e a P. sequax, ambas conhecidas também como lagarta-do-trigo. As lagartas dessas espécies são semelhantes nos primeiros estágios de desenvolvimento. A partir do quarto instar, a diferenciação é possível, pois as lagartas de P. adultera são escuras e as da espécie P. sequax, são rosadas. Na fase adulta a identificação é mais fácil por serem de cor pardo-acinzentada, e o adulto de P. adultera é uma mariposa que apresenta ao centro de cada asa anterior um ponto de coloração escura.
04 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A fêmea realiza as posturas nas folhas e colmos colocando até mil ovos. Passados oito dias, nasce a lagartinha que apresenta ciclo em média de 28 dias. A seguir a fase de pupa, com coloração marrom-avermelhada, desenvolvida nas partes inferiores das plantas ou no solo, sendo o ciclo em média de 14 dias. Após, surgem os insetos adultos. No estágio inicial as lagartas se alimentam das folhas e posteriormente atacam as panículas.
HÁBITOS
Em função do hábito noturno, as lagartas ficam abrigadas durante o dia nas partes inferiores das plantas. Logo, existe grande dificuldade para determinar sua ocorrência. Ao final da tarde ou em dias nublados, as lagartas sobem para atacar as panículas. Esta praga permanece na lavoura após a colheita, sendo encontrada principalmente na fase de lagarta, até o mês de junho nos restos culturais.
OCORRÊNCIA E DANOS
Esta lagarta mudou o seu comportamento, pois tem ocorrido antes da emissão da panícula, na fase de afilhamento, ou seja, a
partir dos 60 dias após a emergência, e em geral ataca as folhas. Também nesta fase, por conta das lagartas serem pequenas, os danos são menores. A maior incidência se verifica a partir da emissão da panícula, ocorrendo até a fase final da cultura, no estádio de maturação dos grãos, quando a lagarta corta as panículas. Muitos produtores percebem a presença da lagarta em um estágio avançado do ataque, quando já ocorreram os danos, pois panículas praticamente inteiras são cortadas. Na região da Fronteira Oeste, a lagarta-da-panícula ocorre nos meses de janeiro e fevereiro e nas demais regiões orizícolas, de fevereiro a abril, períodos de maiores densidades populacionais. Esta elevação do número de indivíduos por área vai aumentar o nível de dano. Estudos realizados mostram que com a ocorrência de uma lagarta/m-2, pelo período de uma semana, as perdas no rendimento de grãos podem ser superiores a 2%, que em altas populações com mais de oito lagartas/m-2, após cinco dias a redução no rendimento de grãos pode chegar a 350kg/ha. O produtor deve vistoriar a lavoura e, se necessário, realizar o controle antes que ocorram danos à cultura.
MONITORAMENTO
As estratégias de manejo devem começar com o adequado monitoramento da lavoura por parte do produtor. Conhecer os sinais do ataque, os hábitos do inseto e os locais mais prováveis de sua atividade são requisitos básicos para que o produtor saiba o local e o momento de procurá-las. O monitoramento deve ser iniciado no período do afilhamento, mas se deve dar maior atenção ao florescimento e durante o enchimento de grãos. As observações devem começar principalmente pelas taipas e para determinar a sua incidência, o produtor deve realizar um exame minucioso abrindo as plantas e observando se há as lagartas ou os seus resíduos na base das plantas. O dano é fácil de ser identificado, pois as panículas cortadas ficam caídas no solo entre as plantas. As avaliações para determinar a população do inseto e os sintomas devem ser realizadas
Lagartas de Pseudaletia sequax possuem como característica a coloração rosada
a cada sete dias, determinando o início da infestação e a ocorrência de lagartas pequenas, ideal para adoção de medidas de controle.
MANEJO DO INSETO Eliminação da resteva A destruição dos restos culturais pode auxiliar na redução da população do inseto ao tornarem o ambiente desfavorável a algumas de suas formas, como as lagartas e pupas e também expondo-as ao ataque de inimigos naturais, no caso dos pássaros. A redução das plantas espontâneas que servem de abrigo e alimento para as lagartas no período de entressafra ajuda na diminuição da população para a safra seguinte. Estas medidas podem ser adotadas por meio de pastoreio e pelo preparo antecipado do solo. Rotação de culturas O método de rotação de culturas com a eliminação do alimento, pela ausência da planta hospedeira cultivada provoca a redução da população inseto-praga. Portanto, a rotação com soja mostra-se eficiente, pois a lagarta-da-panícula não ataca essa cultura. Manutenção da lâmina de irrigação O manejo da irrigação, através da manutenção de lâmina de água uniforme em todo o quadro, sem a existência de coroas ou partes da lavoura sem água, pode reduzir ou retardar a infestação de lagartas. As partes secas, incluindo as taipas, são as primeiras áreas a serem atacadas. Também manter a irrigação até a colheita ou próxima, vai manter as lagartas apenas nas taipas, diminuindo os danos.
um controle natural, podendo manter a população abaixo do nível de dano econômico. O uso inadequado de inseticidas, como de produtos não registrados ou em doses e frequência mais alta que a recomendada, elimina tais espécies do ambiente, causando além do desequilíbrio imediato, problemas como ressurgência, que é o aumento da população de insetos secundários e a resistência a inseticidas. Controle químico O uso de inseticidas na lavoura orizícola do Rio Grande do Sul é muito frequente. Porém, sua adoção deve ser realizada de maneira correta, sem comprometer a biodiversidade ocorrente nas lavouras de arroz. Devido às lagartas localizarem-se nas partes inferiores das plantas, este comportamento dificulta o seu controle. Existem produtos registrados para o controle da lagarta-da-panícula na cultura do arroz no estado. O princípio ativo clorantraniliprole tem apresentado ótima eficiência. Não devem ser utilizados produtos químicos sem registro, para o seu controle na cultura do arroz irrigado. Como as lagartas sobem ao final do dia, este é o período adequado para realizar o controle, pois o produto vai atuar por contato e ingestão. Estudos mostram que 48 horas após a aplicação do inseticida, a mortalidade das lagartas pode atingir 100% C de controle. Jaime Vargas de Oliveira, Unitec Danielle Almeida, Carlos Eduardo M. de Souza e Tailor Pivoto Perufo, Irga
Inimigos naturais A lavoura de arroz é um ambiente riquíssimo em espécies de predadores como aranhas, libélulas, vespas e tesourinhas, que realizam
Pseudaletia adultera apresenta ao centro de cada asa anterior um ponto de coloração escura
Lagarta flagrada em situação de ataque à panícula de arroz
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Algodão
Manejo adequado José Fernando Jurca Grigolli
Principal praga da cotonicultura brasileira, o bicudo-do-algodoeiro é um inseto agressivo, que leva à queda de maçãs e botões florais utilizados para alimentação e oviposição. Manejá-lo exige ações conjuntas, coordenadas e aplicadas em âmbito regional, adotadas antes mesmo da instalação da cultura
O
bicudo-do-algodoeiro Anthonomus grandis Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae) é a principal praga da cotonicultura brasileira. Foi detectado no Brasil em 1983, em São Paulo, e a partir daí se disseminou por todas as regiões produtoras de algodão do Brasil. A biologia deste inseto caracteriza-se por apresentar metamorfose completa, ou seja, passa por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. Fêmeas adultas têm como nicho de oviposição as estruturas
reprodutivas do algodoeiro (botão floral e maçãs), tendo preferência por botões florais com cerca de 6mm de diâmetro. O adulto mede aproximadamente de 4mm a 9mm de comprimento e 7mm de envergadura. A variação do seu tamanho é influenciada pela quantidade e qualidade de alimento ingerido durante o período larval. As fêmeas ovipositam um ovo por orifício, o que ocorre através do aparelho bucal nos botões florais e nas maçãs do algodoeiro. Após a oviposição a fêmea sela o orifício com uma
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substância gelatinosa. O período de incubação dos ovos é de três a quatro dias, sendo influenciado pela temperatura e umidade. Ao eclodirem as larvas já começam a alimentação do interior dos botões florais e/ou maçãs do algodoeiro. Estas são ápodas de coloração branca e não apresentam pares de pernas. Passam à fase de pupa entre sete dias e 12 dias, ainda dentro das próprias estruturas atacadas. Após o período de três dias a cinco dias, emergem os adultos, que podem sobreviver de 20 dias a
40 dias. As fêmeas colocam de 100 ovos a 300 ovos. Terminado o ciclo da cultura, e se boas práticas de destruição dos restos culturais forem realizadas, a população de adultos migra para áreas de refúgio naturais e parte dos adultos sobrevive até a safra seguinte. Estes insetos que migram para áreas naturais entram em período de hibernação reprodutiva, ou seja, apenas se alimentam e não se reproduzem. Em condições de campo, podem ocorrer de cinco a até sete gerações do bicudo durante o ciclo da cultura. Os danos ou injúrias causados por A. grandis decorrem da utilização de maçãs e botões florais para alimentação e oviposição, provocando a queda destas estruturas depois de alguns dias. Os danos de oviposição não afetam imediatamente o botão floral, que continua se desenvolvendo normalmente até o início do segundo instar larval da praga. Posteriormente, o botão floral cai da planta. Os botões com danos de alimentação são reconhecidos pela presença de orifícios de aproximadamente 1mm de diâmetro, geralmente contendo à sua volta um anel amarelado formado por grãos de pólen. Os botões com danos de oviposição caracterizam-se pela presença de uma substância gelatinosa que seca na forma de cera na entrada do orifício feito pela fêmea por ocasião da postura.
COMO MANEJAR
HISTÓRICO DA PRAGA
O levantamento do histórico da praga em cada talhão é fundamental, pois possibilita mapear possíveis focos de bicudo, identificar as possíveis áreas de refúgio e detectar portas de entrada e saída da praga nos talhões. Com esta análise realizada e a identificação dos possíveis refúgios, é possível planejar, antecipar e executar medidas de controle diferenciadas em cada talhão.
MONITORAMENTO DO TALHÃO
O monitoramento do talhão é recomendado antes do plantio de algodão. O monitoramento de áreas de soja que sucedem o cultivo do algodoeiro deve ser efetivo, com o objetivo de verificar a presença de soqueira ou tiguera de algodoeiro, e em áreas com alta intensidade da praga. Realizar a dessecação da soja com o uso de inseticidas para reduzir a população da praga. Ressalta-se a observância do período de carência do inseticida utilizado, de acordo com a bula de cada inseticida.
ARMADILHAS DE FEROMÔNIO
A instalação de armadilhas com o feromônio Grandlure deve ser realizada 30 dias antes do plantio e mantida pelo menos até as plantas emitirem o primeiro botão floral. Essas armadilhas têm a importância fundamental de detectar os movimentos migratórios da praga para o cultivo do algodoeiro. A instalação deve ser realizada no perímetro dos talhões, em uma distância de 150 metros entre
si, com troca do feromônio a cada 15 dias e monitoramento do número de adultos por armadilha semanalmente. É fundamental o registro correto do número de adultos coletados, para observar a flutuação populacional da praga no talhão.
CALENDÁRIO DE PLANTIO
Os plantios devem ser realizados com o calendário de semeadura concentrado, principalmente em talhões vizinhos. Esta estratégia de manejo é fundamental para a manutenção da população da praga baixa na região como um todo, e reduzir os problemas de migração do bicudo para outros talhões ou outras propriedades vizinhas.
TREINAMENTOS
O monitoramento é fundamental para a tomada de decisão mais assertiva. Desta forma, o treinamento dos monitores de pragas para a realização da identificação e monitoramento das armadilhas e inspeção visual é fundamental.
TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO
A definição do momento correto da aplicação de inseticidas é tão importante quanto a aplicação em si dos produtos fitossanitários. Realizar as aplicações com equipamentos ideais e com boa calibração e em horários adequados é fundamental para a garantia de sucesso no processo.
APLICAÇÃO EM BORDADURA
Em função do hábito migratório do bicudo, as aplicações em bordadura são muito interessantes para controlar a praga e reduzir o custo de produção. As aplicações em bordadura devem ser iniciadas a partir do aparecimento da
Jacob Crosariol Netto
José Fernando Jurca Grigolli
O manejo adequado do bicudo compreende uma série de ações realizadas em conjunto. Essas ações devem ser realizadas desde antes da instalação da cultura e passam pelo monitoramento e controle da praga. O sucesso efetivo do manejo do bicudo se dá por diversas ações coordenadas e aplicadas em um
âmbito regional, o que pode contribuir para a convivência com a praga, facilitando o seu manejo e resultando em menores custos de produção e Junhores produtividades.
Larvas de bicudo-do-algodoeiro se alimentando no interior de um botão floral
Dano de alimentação de adultos de bicudodo-algodoeiro em plantas de algodoeiro
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09
Zona Verde Azul Amarela Vermelha
BAS1 0 0a1 1a2 Acima de 2
Aplicação Sem necessidade de aplicação Uma aplicação Duas aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias Três aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias
Número de bicudos por armadilha por semana.
José Fernando Jurca Grigolli
1
ação da armadilha e das armadilhas vizinhas. Acima de duas armadilhas com bicudo, aplicar em todo o talhão. Vale ressaltar que o histórico de captura de inseto por armadilha por semana (número BAS) determina a definição das zonas de infestação, auxiliando nas aplicações a partir do surgimento do primeiro botão floral (B1). A classificação das zonas de infestação segue os seguintes parâmetros:
MONITORAMENTO NO INTERIOR DO TALHÃO
O monitoramento no interior dos talhões deve ser realizado semanalmente desde a fase inicial das plantas de algodoeiro. Para tanto, devem ser amostradas 100 plantas por talhão (para talhões Junhores que 100 hectares), através da inspeção visual das plantas, registrando-se a porcentagem de botões florais atacados pela praga.
AÇÕES CONJUNTAS REGIONALMENTE
A realização de ações conjuntas e troca de informações entre os produtores é fundamental. Isso contribuirá para um melhor entendimento do ataque do bicudo-do-algodoeiro e seu manejo em cada propriedade, bem como ter a padronização de boas ações. Além disso, compartilhar alguma ocorrência antecipada pode contribuir para o desenvolvimento de ações regionais que podem resultar em redução populacioC nal da praga.
terceira folha, sendo conduzidas até o final da safra. A aplicação deve ser realizada de forma sequencial, a cada cinco dias. Recomenda-se evitar o uso de inseticidas piretroides, pois esta classe de inseticidas pode resultar em surtos de ácaros, mosca-branca e pulgões. Após o florescimento, atenção especial deve ser dada ao monitoramento, a fim de identificar o momento de começar as aplicações em área total.
Fotos Divulgação
Dano de oviposição de adultos de bicudodo-algodoeiro em plantas de algodoeiro
José Fernando Jurca Grigolli, Fundação MS Jacob Crosariol Netto e Eduardo Moreira Barros, IMA/MT
APLICAÇÃO ANTECIPADA (FASE VEGETATIVA)
Aplicações nas áreas cultivadas com algodoeiro durante a fase vegetativa devem ocorrer de acordo com o monitoramento das armadilhas de feromônio. Sugere-se quando há até duas armadilhas com bicudo, aplicar nos raios de 10 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Grigolli, Crosariol Netto e Barros abordam o manejo do bicudo, principal praga do algodoeiro
Soja
Lucro ameaçado Jerson Guedes
O manejo de percevejos deve acompanhar a evolução do cultivo da soja, principalmente considerar o aumento das populações da praga, as dificuldades de controle (espécies do inseto e a eficiência dos inseticidas), os severos danos que produzem e o alto valor da soja. Juntos esses componentes determinam que o controle deve ser feito em baixas populações sob pena de se tornarem incontroláveis, sugando os lucros do produtor
O
le químico. Nesse cenário, o percevejo-marrom e os percevejos-barriga-verde se destacaram e atualmente predominam na grande maioria das lavouras do Brasil. O Percevejo-marrom (Euschistus heros), na fase adulta tem a coloração que o próprio nome já sugere, mede 11mm em média, tem pronoto pontiagudo que termina em espinhos e o escutelo apresenta uma mancha clara em forma de “v”. As fêmeas fazem a postura agrupada em folhas e legumes, disposta em duas ou três linhas paralelas, com aproximadamente 15 a 20 ovos amarelos. Após a incubação, emergem as ninfas que inicialmente são de coloração marrom-amarelado, com bordos serreados, mudando para o marrom-esverdeado com manchas. Como as ninfas de outros percevejos, elas permanecem agrupadas até o 3º instar,
quando ficam mais ativas, se dispersam e começam a se alimentar. A fase de ninfa dura em média 33 dias e os adultos podem viver mais de 100 dias. Os percevejos-barriga-verde (Dichelops spp.) já foram considerados pragas secundárias na soja, no entanto, em função das mudanças no sistema de manejo das lavouras (rotação com milho e trigo, principalmente), apresentam populações fora de controle em muitas culturas. Os adultos medem de 9mm a 10mm de comprimento e têm coloração de castanho-amarelado ao acinzentado, com abdome verde. A cabeça termina em duas projeções pontiagudas e o pronoto com margens anteriores denteadas e expansões laterais em espinhos. As posturas são feitas sobre folhas ou legumes, em massas de aproximadamente
Clérison Perini
manejo de percevejos deve considerar as importantes alterações que ocorreram no cultivo da soja nos últimos tempos, (I) o crescimento da área cultivada avançando sobre regiões antes não exploradas; (II) o cultivo em diferentes épocas servindo de pontes verdes que hospedam pragas; (III) o uso intenso de fungicidas, inseticidas e herbicidas e seu impacto sobre organismos benéficos; (IV) o aumento do período reprodutivo com a oferta de legumes nas cultivares modernas e (V) a redução do uso de inseticidas nos cultivos Bt. Nos Sistemas Integrados de Grãos a distribuição dos percevejos é influenciada pela sucessão de cultivos, pela presença de plantas daninhas e pelos cultivos do entorno da área, pois passam a maior parte do ano em outras plantas hospedeiras ou na palhada e apenas dois a três meses na soja. Os cultivos do entorno das lavouras de soja e da entressafra influenciam na migração e na prevalência de algumas espécies de percevejos, contribuindo para sua permanência e sobrevivência nas áreas ou no seu entorno. As espécies de percevejos que ocorrem na soja do Brasil variam em resposta a diversos fatores como: o crescimento da área cultivada, o número e o tempo de oferta de hospedeiros, as falhas operacionais de controle, a resistência aos inseticidas e a falta de inovações no contro-
Teste de Tetrazólio: grãos de parcela sem aplicação de inseticida (esquerda) e com aplicação de inseticida (direita)
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Área da lavoura (hectares) < 20 21 a 60 61 a 100 > 100
Número mínimo de pontos 4 6 10 15
Custo de controle (R$/ha)* 30 40 50 60 70 80 90 100
40 ² 0,54 0,72 0,90 1,08 1,26 1,44 1,62 1,80
45 ² 0,48 0,64 0,80 0,96 1,12 1,28 1,44 1,60
Valor da saca de soja (R$/ha) 50 55 60 65 70 2 Percevejos/m ² 0,43 0,39 0,36 0,33 0,31 0,58 0,52 0,48 0,44 0,41 0,72 0,65 0,60 0,55 0,51 0,86 0,79 0,72 0,66 0,62 1,01 0,92 0,84 0,78 0,72 1,15 1,05 0,96 0,89 0,82 1,30 1,18 1,08 1,00 0,93 1,44 1,31 1,20 1,11 1,03
75
75
0,29 0,38 0,48 0,58 0,67 0,77 0,86 0,96
0,29 0,38 0,48 0,58 0,67 0,77 0,86 0,96
*Custo de controle (R$/ha) = custo do inseticida + serviços. Estimativas realizadas com eficiência de controle do inseticida de 90%.
Eixo embrionário do grão de soja e região vascular danificada por picadas de percevejos (cor branca)
compensar sua baixa capacidade natural de causar os danos. Os danos dos percevejos variam ao longo do seu desenvolvimento. As ninfas pequenas (de 1° instar e 2° instar) ficam agrupadas e não se alimentam, como as ninfas grandes e os adultos. As ninfas grandes (de 3°, 4° e 5° instares) se alimentam para se desenvolver e cumulativamente causam 2/3 dos danos. O 1/3 restante é provocado pela alimentação do adulto. Por isso, quando se observam percevejos adultos na soja, parte dos lucros já foi sugada por essa praga na fase de ninfa. Os cotilédones das plantas de soja recém-emergidas são atacados por percevejos remanescentes de culturas anteriores (como milho, trigo ou mesmo a soja), resultando em menor altura inicial das plantas, por cessar o fornecimento de energia para o seu crescimento inicial. A partir da formação dos legumes até o final do enchimento dos grãos ocorrem danos diretos, quando os percevejos se reproduzem e aumentam em número nas lavouras, sugando os legumes e grãos que ficam menores, chochos, enrugados e com menos peso, diminuindo o rendimento e a qualidade dos grãos. Além disso, o ataque de percevejos em legumes recém-formados (R3R4) provoca o seu abortamento, que pode ser ainda mais severo em períodos de estiagem.
Quando se cultiva soja para sementes, uma picada de percevejo no eixo embrionário inviabiliza a germinação. Picadas na região vascular, por onde passam vasos que ligam o eixo embrionário aos cotilédones, comprometem o transporte de nutrientes dos cotilédones à planta em desenvolvimento, reduzindo a emergência, o vigor e a sanidade das plantas. Por isso, sojas cultivadas para a produção de sementes devem ser protegidas e estarem livres do ataque de percevejos durante a fase reprodutiva. Os danos dos percevejos não são percebidos durante o ciclo da soja e sua visualização só é possível com o teste de Tetrazólio, que permite ver o local da picada e a região morta no grão, alertando o produtor sobre os severos danos que os percevejos ocasionaram em sua lavoura de soja. O monitoramento das populações de percevejos em soja serve para determinar as fases (ninfas pequenas, grandes e adultos), espécies e número de percevejos/m2 na lavoura. Esses dados são usados para a tomada de decisão de controle, determinando se controla ou não, qual inseticida e a dose a ser usada. A maneira de amostrar percevejos depende do estágio de desenvolvimento da soja. Nos estágios iniciais e na entressafra é feita pela contagem direta do número de percevejos em uma área de 1m2,
Jerson Guedes
14 ovos de coloração verde-clara. As ninfas são castanhas, com abdome claro e pontuações escuras sobre o corpo. A fase de ninfa dura em média 18 dias. Após a colheita da soja, o percevejo-marrom e os percevejos-barriga-verde se abrigam sob a palhada, onde se alimentam de grãos secos caídos no solo. Essas espécies colonizam e atacam o milho safrinha e no inverno o trigo, e mudam seus hábitos alimentares ao longo do ano, passando de sugadores de grãos a sugadores de tecidos vegetativos. As alterações observadas no cultivo da soja se refletiram na proporção de espécies de percevejos da soja. O efeito do controle químico, variável sobre as espécies, as estratégias bioecológicas e comportamentais e a maior polifagia (leguminosas e gramíneas) permitiram o maior sucesso do percevejo-marrom e dos percevejos-barriga-verde. O percevejo-verde-pequeno (Piezodorus guildinii) e o percevejo-verde (Nezara viridula) diminuíram muito sua importância no Brasil e mesmo no Rio Grande do Sul. Nas safras 2006/07 e 2007/08, essa alteração já estava clara. No primeiro ano, a espécie predominante foi P. guildinii, com 76% do total de percevejos, seguido por N. viridula e E. heros, respectivamente. Na safra seguinte, predominaram as espécies P. guildinii, D. furcatus e E. meditabunda. Embora E. heros não esteja entre as três que apresentaram maior proporção, esta espécie passou de 4% em 2006/07 para 12% do total de percevejos e atualmente é a espécie que predomina na maioria das lavouras de soja do Brasil (Figura 1). A predominância e as altas populações do percevejo-marrom e dos percevejos-barriga-verde no sistema produtivo da soja podem
Tabela 2 - Níveis de dano econômico de percevejos em soja
Clérison Perini
Tabela 1 - Número de pontos para a amostragem de percevejos
Figura 1 - Proporção de espécies de percevejos da soja
Adulto do percevejo-barriga-verde
12 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Jerson Guedes
Figura 2 - Proporção de espécies de percevejos em lavouras de soja Bt e não Bt em três safras agrícolas no Brasil (2011/12, 2012/13 e 2013/14)
Danos de percevejos em grãos de soja
nas plantas e na palhada. Com as plantas mais desenvolvidas se usa o pano de batida vertical com calha, com duas tomadas (batidas) em uma fileira de soja (2m), totalizando 1m2 de área amostrada. Essa amostragem deve ser semanal em tantos pontos na lavoura que permita ter certeza da variação espacial das populações (Tabela 1). As bases para decidir o controle de percevejos são o Nível de Dano Econômico (NDE) e o Nível de Controle (NC). A decisão de controle tem relação direta com quatro fatores: 1) custo do controle (inseticida + aplicação); 2) valor da saca de soja; 3) dano dos percevejos e 4) eficiência do inseticida. Estes são os fatores que alimentam a equação do NDE e norteiam a decisão de controle. O produtor deve calcular para a sua situação o momento de controle de percevejos, pois o valor do NDE (valor dado em percevejos/m2) estimado pela fórmula, expressa o limite máximo de percevejos que o produtor pode tolerar em sua lavoura. Na prática, o produtor deve aplicar o inseticida antes que os percevejos cheguem ao valor do
NDE. Esse número é conhecido como NC. Os danos que os percevejos causam em soja já foram estudados e uma estimativa de 36 resultados mostra um dano de aproximadamente 75kg/percevejo/m². Utilizando esse valor na fórmula do NDE, com custo de controle de R$ 50,00/ha e o valor da saca de soja de R$ 70,00, o NDE é de 0,71 percevejo/ m². Na Tabela 2 são apresentados os dados que mostram que o NDE varia com o custo de controle e o valor da saca de soja. A redução das aplicações de inseticidas em sojas Bts favoreu os percevejos, o que já ocorreu em algodão nos EUA entre 2001 e 2007 e no Brasil em meados de 2010. Com a redução das aplicações de inseticidas de amplo espectro para o controle de lagartas, que também controlavam populações iniciais de percevejos, estes insetos ocorrem mais cedo na cultura, se reproduzem e aumentam sua densidade populacional. Em lavouras com soja Bt há pelo menos 10% a mais de percevejos do que em lavouras não Bt, conforme foi observado em pesquisa do Laboratório de Manejo Integrado
de Pragas (LabMIP) da Universidade Federal de Santa Maria. O sucesso do manejo de percevejos depende do monitoramento das populações e da otimização das oportunidades de manejo dessa praga no sistema de cultivo da soja. Isso inclui o controle dos percevejos colonizadores nas culturas antecessoras, na palhada antes da semeadura e nas pulverizações associadas com fungicidas, no final do vegetativo e durante o período reprodutivo da soja. A falta de monitoramento (pano de batida) e do correto diagnóstico (espécies e população) leva a aplicações tardias com infestações acima do nível de controle e à diminuição do lucro dos produtores. C Jerson V. C. Guedes, Clérison R. Perini, Leonardo Burtet, Regis F. Stacke, Adriano A. Melo e Jonas A. Arnemann, Univ. Federal de Santa Maria
Capa
Mudança de sensibilidade
André Nagaoka
Ao longo dos anos o fungo Phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem-asiática, tem apresentado alterações em relação à aplicação de fungicidas, com seleção de isolados menos sensíveis. Com este cenário desfavorável, prolongar a vida útil desses produtos através do uso racional e da adoção de boas práticas culturais se torna cada vez mais indispensável. Limitar a data de semeadura é uma das medidas para ajudar a atrasar a resistência e a perda de eficiência
16 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
A
em pontos específicos do metabolismo do fungo, como os fungicidas inibidores da desmetilação (IDM, “triazóis”), que atuam inibindo a formação da membrana celular do fungo e representam ao redor de 70% dos fungicidas registrados para a ferrugem; os inibidores da quinona oxidase (IQo, estrobilurinas) e os inibidores da succinatohidrogenase (ISDH, carboxamidas), que agem inibindo a respiração do fungo. Além da eficiência, os ensaios em rede têm permitido acompanhar a mudança de sensibilidade do fungo P. pachyrhizi aos fungicidas que vêm ocorrendo ao longo dos anos. Essa alteração de sensibilidade é atribuída à seleção de isolados menos sensíveis, em conseqüência do uso intensivo de fungicidas. Nos ensaios realizados em 2015/16, as maiores porcentagens de controle foram observadas para as misturas de picoxistrobina e azoxistrobina com benzovindiflupir (T18 - 78% e T11 - 76%), seguido das misturas triplas debixafen + protioconazol + trifloxistrobina (T17 71%) e piraclostrobina + epoxiconazol + fluxapiroxade (T16 – 69%), e da mistura de trifloxistrobina + protioconazol (T8 – 68%) (Tabela 1). As misturas prontas dos fungicidas picoxistrobina + tebuconazol com o multissítio mancozebe (T13) e azoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T14 e T15) apresentaram controle variando de 55% a 64%, sendo observada redução significativa de severidade com o
aumento da dose da mistura azoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T14 e T15). A menor severidade dentre essas misturas foi observada para picoxistrobina + tebuconazol + mancozebe (T13). O tratamento com tebuconazol apresentou a menor porcentagem de controle (T2 - 19%), seguido de azoxistrobina (T4 – 24%) e ciproconazol (T3 – 26%). A menor sensibilidade do fungo P. pachyrhizi aos fungicidas IDM (T2 e T3) e IQo (T4), confirmada por meio de bioensaios e estudos moleculares, comprometeu a eficiência dos ativos isolados (Figura 1) e das misturas de fungicidas com esses dois modos de ação. Nos ensaios em rede os fungicidas são avaliados individualmente, em aplicações sequenciais, para determinar a eficiência de controle. Essas informações devem ser utilizadas na determinação de programas de controle, priorizando sempre a rotação de fungicidas com diferentes modos de ação e adequando os programas à época de semeadura. Aplicações sequenciais de fungicidas com um mesmo modo de ação podem selecionar indivíduos resistentes/ menos sensíveis, a exemplo do que aconteceu com IDM e IQo. Fungicidas multissítios foram avaliados quando a ferrugem foi relatada no Brasil. No entanto, em função da menor eficiência de controle comparado aos fungicidas IDM e misturas de IDM + IQo nesses testes, foram desconsiderados para o controle da ferrugem. Com a redução de eficiência
André Shimohiro
ocorrência da ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi) da soja no Brasil trouxe diversas mudanças no sistema produtivo da cultura, sendo a mais acentuada a intensificação na utilização de fungicidas. Antes da ferrugem, esses produtos eram recomendados para o controle do oídio (Microsphaera diffusa), quando observados sintomas em plantas no campo, e para as doenças de final de ciclo (Septoria glycines e Cercospora kikuchii), durante a fase de formação e enchimento dos grãos. O oídio ocorre de forma esporádica, em condições de temperaturas amenas (20°C - 22°C) e baixa umidade relativa, havendo diferença de resistência entre as cultivares. As doenças de final de ciclo causam a desfolha precoce e a antecipação da colheita, com maiores danos em períodos úmidos e quentes. O dano máximo atribuído a essas doenças é de 20%, em situações favoráveis ao seu desenvolvimento. A mudança de cenário que ocorreu com a entrada do fungo P. pachyrhizi é atribuída ao alto potencial de dano dessa doença, que também causa desfolha precoce, porém, podendo provocar até 80% de redução de produtividade. Além do alto potencial de dano, o fungo ocorre em praticamente todas as regiões produtoras de soja, com eficiente disseminação pelo vento e aumento de inóculo à medida que as semeaduras se sucedem. Para doenças com alto potencial de dano como a ferrugem, há uma correlação alta entre eficiência de fungicidas e produtividade. Desde 2003/04, ensaios em rede vêm sendo realizados por instituições públicas e privadas com o objetivo de comparar a eficiência de fungicidas para diferentes alvos biológicos. Testes de produtos para o controle do fungo P. pachyrhizi foram conduzidos em todas as safras desde o início. Nos ensaios realizados para o controle da ferrugem-asiática, na safra 2015/16, foram avaliados 17 fungicidas, sendo três deles incluídos para monitoramento da sensibilidade do fungo (T2 a T4), seis ainda em fase de registro (T12 a T15, T17 e T18) e os demais (T5 a T11 e T16) são misturas prontas de diferentes modos de ação (Tabela 1). Foram efetuadas aplicações sequenciais dos produtos, que começam no pré-fechamento e reaplicando em intervalos de 21 dias e 14 dias. As áreas para condução dos ensaios são semeadas tardiamente para aumentar a probabilidade de ocorrência da doença, em função do aumento de inóculo do fungo ao longo da safra. Os principais produtos registrados avaliados são misturas de fungicidas sítio-específicos, isto é, agem
Lavoura de soja severamente atacada pela ferrugem-asiática Phakopsora pachyrhizi
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Figura 1 - Porcentagem de controle da ferrugem nos ensaios cooperativos nas safras: 2003/04 (11 ensaios), 2004/05 (20 ensaios), 2005/06 (15 ensaios), 2006/07 (10 ensaios), 2007/08 (7 ensaios), 2008/09 (23 ensaios), 2009/10 (15 ensaios), 2010/11 (11 ensaios), 2012/13 (21 ensaios), 2013/14 (16 ensaios), 2014/15 (21 ensaios) e 2015/16 (23 ensaios) em diferentes regiões produtoras no Brasil. TBZ – tebuconazol; CPZ – ciproconazol e AZ – azoxistrobina.
Todas as estratégias de manejo devem ser utilizadas para evitar prejuízos graves com essa doença
Na safra 2014/15 foi iniciada a avaliação dos fungicidas multissítios para controle da ferrugem nos ensaios em rede, isolados e em combinações com fungicidas sítio-específicos.
Fotos André Shimohiro
dos IDM e das misturas de IDM + IQo, fungicidas multissítios têm sido registrados para o controle de doenças na soja e sua utilização aumentou na última safra em associação aos fungicidas sítio-específicos.
A ocorrência da ferrugem-asiática da soja no Brasil trouxe diversas mudanças no sistema produtivo da cultura
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Nos ensaios com multissítios isolados são realizadas cinco aplicações, iniciando no pré-fechamento e repetindo com intervalo médio de dez dias entre as aplicações, para conhecer a eficiência individual de cada fungicida. Nos ensaios em rede da safra 2015/16, a porcentagem de controle dos melhores fungicidas multissítios variou de 56% a 67% em relação ao tratamento testemunha (Tabela 2), sendo inferior ao tratamento com o fungicida sítio-específico azoxistrobina + benzovindiflupir, com três aplicações. Os fungicidas multissítios têm sido considerados como uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem na soja, por aumentarem a eficiência de controle dos fungicidas com problemas de resistência, podendo atrasar o aparecimento nos que ainda não apresentam. Além dos ensaios com os produtos isolados, outros com fungicidas multissítios em combinação com fungicidas sítio-específicos foram realizados em 2014/15 e 2015/16. De forma geral, o aumento de eficiência do fungicida sítio-específico em combinação com o multissítio é maior quanto menor a eficiência do sítio-específico isolado, mas nem sempre suficiente para um controle eficiente da doença. A dose do fungicida multissítio é importante para obter os resultados observados nos ensaios em rede e há interação entre o fungicida sítio-específico e o fungicida multissítio, devendo ser evitadas generalizações. Os fungicidas multissítios podem ser uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem-asiática na soja, sendo necessário o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para a sua utilização.
Embora os fungicidas representem uma importante ferramenta de controle, todas as estratégias de manejo devem ser utilizadas para evitar reduções de produtividade com a ferrugem, envolvendo a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada; a eliminação de plantas de soja voluntárias e a ausência de cultivo de soja na entressafra (vazio sanitário); o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura; o emprego de fungicidas preventivamente ou no aparecimento dos sintomas e a utilização de cultivares com gene(s) de resistência. As cultivares com gene(s) de resistência apresentam lesões com menor quantidade de esporos e não dispensam a utilização de fungicidas. São ferramentas importantes de manejo e podem ajudar a reduzir a pressão de seleção sobre os fungicidas, mas, como apresentam um ou no máximo dois genes de resistência, o fungo pode vencer essa resistência de forma semelhante ao que ocorre com os fungicidas. A semeadura no início da época recomendada é uma das principais estratégias para escapar da doença, uma vez que o fungo começa sua multiplicação após o período do vazio sanitário. Pelos resultados dos ensaios em rede, pode-se observar que há um número limitado de fungicidas com boa eficiência de controle para ferrugem e os novos fungicidas, em fase de registro, são novas combinações dos modos de ação já disponíveis no mercado ou associações com fungicidas multissítios. O grande risco é que não há nenhum modo de ação novo para entrar no mercado nos próximos anos. Por ser um processo natural, é grande a probabilidade de que a resistência à maioria dos novos fungicidas (ISDH) ocorra. No entanto, a vida útil desses produtos pode ser prolongada com o uso racional e a adoção de boas práticas culturais. Uma das formas de reduzir a pressão de seleção para resistência é limitar o número de aplicações de fungicidas na cultura. Como o aumento na necessidade de utilização de fungicidas ocorre com o avanço na época de semeadura, a definição de datas-limites de semeadura pode contribuir para a redução do número de aplicações. Instruções normativas têm sido propostas limitando a data de semeadura para reduzir a pressão de seleção para resistência. Os estados de Goiás, do Mato Grosso e do Paraná limitaram a semeadura da soja até 31 de dezembro. O objetivo é reduzir as semeaduras que necessitam de maior número de aplicações para atrasar a resistência aos fungicidas ISDH. Essas semeaduras após janeiro representaram
Tabela 1 - Severidade da ferrugem, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida, produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade, para os diferentes tratamentos. Média de 23 ensaios para severidade e produtividade. Safra 2015/16 Modo Tratamento Dose de ação Ingrediente ativo g i.a. ha-1 1. testemunha IDM 2. tebuconazol 100 IDM 3. ciproconazol 30 IQo 4. azoxistrobina1 50 IQo+IDM 5. azoxistrobina+ciproconazol1 60+24 IQo+IDM 6. picoxistrobina+ciproconazol2 60+24 IQo+IDM 7. trifloxistrobina+ciproconazol3 75 +32 IQo+IDM 8. trifloxistrobina+protioconazol3 60+70 IQo+IDM 9. picoxistrobina+tebuconazol4 60+100 IQo+ISDH 10. piraclostrobina+fluxapiroxade5 116,55+58,45 IQo+ISDH 11. azoxistrobina+benzovindiflupir2 60+30 IQo+IDM 12. azoxistrobina+ciproconazol1,8 60+24 IQo+IDM+MS 13. picoxistrobina+tebuconazol+mancozebe6,8 80+80+1200 14. azoxistrobina+tebuconazol+mancozebe7,8 82,25+98+1044,75 IQo+IDM+MS IQo+IDM+MS 15. azoxistrobina+tebuconazol+mancozebe7,8 94+112+1194 IQo+IDM+ISDH 16. piraclostrobina+epoxiconazol+fluxapiroxade5 64,8+40+40 ISDH+IDM+IQo 17. bixafen+protioconazol+trifloxistrobina3,9 62,5+87,5+75 IQo+ISDH 18. picoxistrobina+benzovindiflupir9 60+30 C.V. (%)
Severidade (%) 74 A 60 B 55 D 56 C 44 E 37 G 37 G 24 K 32 H 32 H 18 M 42 F 27 J 33 H 30 I 23 K 21 L 16 N 8,9
C Produtividade RP (%) kg ha-1 (%) 2312 L 34 19 2451 K 30 26 2572 J 26 24 2452 K 30 40 2692 I 23 51 2873 H 17 50 2950 GH 15 68 3196 CD 8 56 2970 G 15 56 3110 EF 11 76 3428 A 1 44 2762 I 21 64 3126 DE 10 55 3010 FG 13 59 3065 EF 12 69 3246 BC 7 71 3303 B 5 78 3479 A 0 5,4
Médias seguidas de mesma letra, na coluna, não diferem entre si pelo teste de Tukey (p=0,05). 1Adicionado Nimbus 0,6L ha-1; 2Adicionado Nimbus 0,75L ha-1; 3Adicionado Aureo 0,25% v/v; 4Adicionado Nimbus 0,5L ha-1; 5Adicionado Assist 0,5L ha-1; 6Adicionado Nimbus 1L ha-1; 7Adicionado Agris 0,5% v/v; 8RET II; 9RET III. Modos de ação: IDM - inibidores da desmetilação; IQo - inibidores de quinona oxidase; ISDH – inibidores da succinato desidrogenase e MS – multissítio (Fonte: Embrapa, Circular técnica 119).
Tabela 2 - Severidade da ferrugem, porcentagem de controle (C) em relação à testemunha sem fungicida, produtividade e porcentagem de redução de produtividade (RP) em relação ao tratamento com a maior produtividade, para os diferentes tratamentos. Média de 22 ensaios. Safra 2015/16. Tratamentos de 2 a 12 com cinco aplicações em intervalos de dez dias; tratamento 13 com três aplicações em intervalos de 21 e 14 dias Tratamento Ingrediente ativo (i.a.) 1. testemunha 2. clorotalonil4 3. oxicloreto de cobre4 4. oxicloreto de cobre4 5. mancozebe1,4 6. mancozebe1,4 7. sulfato de cobre4 8. propinebe2,4 9. fluazinam1,4 10. clorotalonil4 11. clorotalonil4 12. mancozebe1,4 13. azoxistrobina+benzovindiflupir3 C.V. %
Dose g i.a. ha-1 1080 280 560 1500 1875 113,85 1400 500 1000 1000 2000 60+30
Severidade (%) 77,5 A 34,3 E 46,5 B 39,8 C 34,1 E 28,0 F 47,8 B 41,2 C 37,3 D 39,9 C 37,0 D 25,8 G 19,4 H 8,4
C (%) 0 56 40 49 56 64 38 47 52 48 52 67 75 8,4
Produtividade kg ha-1 2120 I 2900 DE 2604 H 2692 GH 2920 CD 3004 BC 2610 H 2664 H 2770 FG 2824 EF 2806 F 3062 B 3257 A 6,5
RP (%) 35 11 20 17 10 8 20 18 15 13 14 6 0
Médias seguidas de mesma letra, na coluna, não diferem entre si pelo teste de Tukey (p=0,05). 1Adicionado Agris 0,5%; 2adicionado Áureo 0,25%; 3adicionado Nimbus 0,6L ha-1; 4PNR - Produto não registrado para Phakopsora pachyrhizi - RET III. (Fonte: Embrapa, Circular técnica 121).
menos de 1% da área de soja no Brasil. No entanto, o uso intensivo de fungicidas nessas áreas pode acelerar a perda de eficiência dos fungicidas. Os resultados apresentados só foram possíveis com o trabalho conjunto de diversas instituições de pesquisa, que integram o Consórcio Antiferrugem. Os resultados completos dos ensaios em rede podem ser
acessados no site da Embrapa Soja (www. C embrapa.br/soja). Cláudia V. Godoy e Maurício C. Meyer, Embrapa soja Carlos M. Utiamada, Tagro Hercules D. Campos, UniRV
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Soja
Maior vilão Jovenil J. Silva
Percevejos são pragas importantes, que atacam as vagens das plantas de soja e provocam sérios prejuízos. A pouca diversidade de inseticidas registrados com diferentes modos de ação, os riscos de resistência e as deficiências na tecnologia de aplicação tornam esses insetos os maiores vilões da produtividade das lavouras atualmente. O uso inadequado de inseticidas, sem a devida amostragem, agrava esse cenário e aumenta os custos de produção. Aprender a realizar o controle, com o emprego de defensivos no momento correto, é um dos principais desafios do sojicultor. A chave do sucesso reside no manejo da praga tante no cenário nacional é, sem dúvida, o percevejo-marrom, Euschistus heros. Esses insetos danificam diretamente os tecidos dos grãos, tornando-os chochos e enrugados, afetando a produção e a qualidade dos grãos produzidos. As injúrias causadas pelos insetos durante sua alimentação facilitam a contaminação dos grãos por patógenos e podem, ainda, causar distúrbios fisiológicos, como atraso na maturação, retenção foliar e desenvolvimento anormal de folículos e vagens. Entretanto, é importante destacar que os maiores prejuízos às lavouras devido ao ataque dessa praga ocorrem, principalmente, por conta do abandono do Manejo Integrado de Pragas da Soja (MIP-Soja) e a utilização de inseticidas de forma “calendarizada” ou em “carona” com pulverizações de herbicidas e fungicidas. Para o sucesso no controle dos percevejos é preciso utilizar de forma correta as principais ferramentas de manejo disponíveis, entre as quais os inseticidas merecem destaque.
CORRETA UTILIZAÇÃO DO CONTROLE DE PERCEVEJOS
E
ntre as pragas mais importantes da soja estão os percevejos, insetos que atacam as vagens desta planta. A pouca diversidade de inseticidas registrados com diferentes modos de ação, a resistência comprovada de populações da praga aos inseticidas existentes, associada às deficiências na tecnologia de aplicação desses produtos, fazem deste complexo de pragas o maior vilão da produtividade das lavouras na atualidade. Ainda, o uso
errôneo de inseticidas, com aplicação “preventiva” sem a devida amostragem, agrava esse cenário e aumenta os custos de produção, sem qualquer benefício para o produtor. Aprender a controlar a praga com o uso de inseticidas na hora certa é um dos principais desafios do sojicultor e a chave para o sucesso reside no manejo da praga. Existe uma grande diversidade de espécies de percevejos que pode atacar a soja, porém, a mais abundante e impor-
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Controle químico O inseticida químico é atualmente a ferramenta mais importante no manejo de percevejos e quando bem utilizado traz benefícios ao produtor. Contudo, pulverizações desnecessárias, realizadas sem a adoção de critérios agronômicos, podem trazer grandes malefícios como o aumento do custo de produção, a seleção de populações de insetos resistentes, além de surtos de pragas ainda maiores que na ausência da aplicação. O aumento crescente no custo de produção da lavoura de soja é uma realidade que vem preocupando o produtor rural. Parte desses gastos deve-se ao uso incorreto
e desnecessário de agroquímicos. Quando comparados os gastos com defensivos entre as safras 2002/2003 e 2012/2013 (Figura 1) é possível perceber esse aumento significativo. Parte desses gastos pode ser reduzida, evitando-se o uso desnecessário de inseticidas. O sojicultor, muitas vezes, temendo perder o controle dos percevejos opta por realizar aplicações de inseticidas com populações baixas ou quando a praga ainda não causa dano, como no período vegetativo, por exemplo. Porém, ao fazer isso, apenas seleciona insetos mais resistentes aos inseticidas utilizados, o que piora os ataques que ocorrerão no período reprodutivo, quando a praga é realmente danosa. É importante que o produtor não utilize inseticida em qualquer infestação da praga ou preventivamente. A aplicação de inseticidas precisa ser econômica e, portanto, somente justificável quando a população de percevejos estiver igual ou acima dos níveis de ação (representados pelo momento economicamente correto para que uma medida de controle seja iniciada) e assim evitar que a população de insetos cresça demasiadamente e cause prejuízos econômicos. Infelizmente, a busca incessante pelo aumento da produtividade, associada aos bons preços pagos pela soja e ao baixo custo de muitos inseticidas, tem fomentado que muitos profissionais recomendem aplicações precoces para o controle de percevejos. Isto fez com que muitos produtores abandonassem a amostragem de pragas e o uso do nível de ação, passando a aplicar os inseticidas na soja junto com herbicidas em pós-emergência ou com fungicidas na fase reprodutiva. Isso tem sido feito até em tentativa de aproveitar a operação agrícola
que está sendo realizada. Com essa aplicação errônea de inseticidas realizada junto (“carona”) aos herbicidas e fungicidas e não mais no nível de ação, o controle de percevejos na soja vem apresentando resultados desastrosos. Atualmente, utilizam-se até três ou quatro aplicações de inseticidas para controle dessa praga totalizando-se seis ou mais aplicações de inseticidas em uma única safra da soja, o que, com certeza, é excessivo e pode ser racionalizado com a utilização do MIP-Soja. O uso racional de inseticidas já é uma realidade no Paraná. Nesse estado o MIP-Soja tem sido conduzido em diversos municípios em um programa de estado chamado Plante seu Futuro. Nessas áreas de manejo (unidades de referência: URs) os técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) prestam assistência e introduzem o MIP-Soja aos produtores. Com isso, já foi possível reduzir o uso de aplicações de inseticidas em aproximadamente 50%, além de aumentar o intervalo da primeira aplicação de 35 dias para 63 dias, permitindo assim maior preservação dos inimigos naturais e propiciando menor impacto decorrente da aplicação do inseticida químico (Figura 2). Esses resultados foram obtidos porque o produtor aplica os inseticidas apenas quando realmente é necessário (nos níveis de ação), e assim, as aplicações desnecessárias são eliminadas. Resultados recentes de pesquisa, com algumas das novas cultivares de soja (ciclo precoce e crescimento indeterminado), mostram que os níveis de ação são confiáveis e indicam o melhor momento para o sojicultor começar a aplicação de inseticidas com sabedoria, preservando a produtividade da lavoura, assim como o ambiente. Em experimentos
Figura 1 - Gastos com agroquímicos na soja em diferentes safras. Fonte: Kleffmann Group
conduzidos no município de Arapongas, Paraná, durante diferentes safras foram comparadas a produtividade e a qualidade das sementes após o uso de inseticidas em diferentes intensidades de infestação de percevejos, sendo: NA de percevejo (média de 2 percevejos/m); ¼ do NA de percevejo (média de 0,25-0,5 percevejo/m); preventivo (aplicação associada a herbicidas e fungicidas) e a testemunha (sem aplicações)(Tabela 1). Os resultados obtidos demonstraram que mesmo com uma menor população de percevejos no tratamento em que foi considerado ¼ do nível de ação em relação aos demais tratamentos avaliados (Figura 3), não houve nenhum ganho significativo na produtividade (Tabela 1). Por outro lado, esse tratamento teve certamente maior custo econômico e ambiental, visto que foram necessárias seis aplicações de inseticidas, enquanto no tratamento que seguiu o nível de ação preconizado pela pesquisa (2 percevejos/m), houve a necessidade de somente duas aplicações de inseticidas (Figura 3). É importante salientar que a produtividade observada diferiu apenas entre os tratamentos com aplicações, independentemente do critério utilizado, e a testemunha sem aplicação de inseticidas (Tabela 1). Ao avaliar os danos de percevejos (escala 6-8 no teste de tetrazólio), apenas a testemunha mostrou alto índice de dano, com 13,7% dos grãos com sementes não viáveis. Os tratamentos 1 (2 percevejos/m), 2 (0,25-0,5 percevejo/m) e 3 (preventivo) foram estatisticamente iguais e resultaram em porcentagens de sementes não viáveis inferiores a 6% (Tabela 1). Esta intensidade de dano ainda é aceita para a produção de sementes, cujos padrões são mais exigentes em relação à produção de
Figura 2 - Unidades de referência implantadas no Paraná pelo programa de Estado Plante seu Futuro sob a coordenação da Emater-PR. Fonte: Emater (PR)
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Tratamento 1) Nível de ação de percevejos 2) Do nível de ação de percevejos 3) Preventivo 4) Testemunha CV (%)
Teste de Tetrazólio(%)1 Dano Percevejos (escala 6-8) 4,5 ± 2,6 b 1,0 ± 0,4 b 4,8 ± 2,3 b 13,7 ± 2,2 a 30,00
Produtividade (kg ha-1)1 3812,5 ± 96,5 a 3992,9 ± 116,5 a 3678,9 ± 76,6 a 3267,2 ± 39,9 b 4,78
1Médias seguidas pela mesma letra na coluna não diferem estatisticamente entre si pelo teste de Tukey (P>0,05).
grãos comprovando mais uma vez a segurança dos níveis de ação recomendados. Controle biológico Dentre os inimigos naturais de percevejos, a “vespinha” Telenomus podisi, um parasitoide de ovos, merece destaque por sua capacidade de parasitismo. Diversos estudos mostram que T. podisi apresenta longevidade em torno de 32 dias a 45 dias, dependendo de seu hospedeiro, e que suas fêmeas têm a capacidade de parasitar ovos em média durante dez dias. Esta espécie é encontrada em diferentes agroecossistemas e uma de suas principais características é a preferência por ovos de E. heros, além de grande capacidade de busca por estes ovos, que podem estar escondidos na planta e em locais de difícil cobertura pela aplicação tradicional de inseticidas. Assim, o parasitoide encontra os ovos do percevejo, oviposita dentro destes ovos e, após aproximadamente 14 dias, emergem os adultos que darão continuidade ao controle, proporcionando um efeito duradouro, comparado ao controle químico convencional. Outra vantagem na utilização de parasitoides de ovos no MIP-Soja está no fato do controle ser exercido sobre o ovo, antes de o dano ocorrer. Isso permite que, caso haja alguma falha de controle, outra medida de manejo possa ser adotada sem prejuízos na produção da lavoura. A utilização deste parasitoide ainda depende
de pesquisas que estabeleçam todas as recomendações para a sua utilização (pacote tecnológico), estando em andamento investigações em diferentes instituições de pesquisa como, por exemplo, Embrapa Soja, Universidade Estadual de Londrina (UEL), dentre outras. Além disso, o uso do parasitoide precisa estar devidamente registrado nos órgãos competentes para que possam ser recomendados em campo. Diante disso, acredita-se que em breve T. podisi poderá ser utilizado como alternativa de controle para Euschistus heros, auxiliando a manter a população do percevejo em níveis que não apresentem ricos de danos à cultura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Atualmente, as infestações com percevejos têm aumentado significativamente na cultura da soja em todo o território brasileiro, principalmente da espécie E. heros. Isso tem ocorrido em função de um conjunto de fatores, tais como seleção de populações de percevejos resistentes aos principais inseticidas utilizados; falta de disponibilidade no mercado de inseticidas com diferentes mecanismos de ação; deficiências na tecnologia de aplicação; e desequilíbrio ecológico causado pelo uso abusivo e desordenado de inseticidas de largo espectro de ação, logo no início do desenvolvimento da cultura e abandono do MIP-Soja.
Portanto, para o manejo correto desse inseto é necessário controlar os percevejos com inseticidas apenas a partir do estágio R3 (início das primeiras vagens), quando a população for igual ou maior que os níveis de ação (através de um monitoramento bem feito com o auxílio do pano de batida); adotar os níveis de ação (2 percevejos ≥ 0,3cm/metro para soja destinada a grãos ou 1 percevejo ≥ 0,3cm/metro para soja destinada a sementes) inclusive para as cultivares mais modernas (soja precoce e de crescimento indeterminado); usar o sal de cozinha (0,5% do volume de calda – v/v) na calda inseticida quando a soja apresentar desafios para a tecnologia de aplicação (o sal auxilia a contaminação do percevejo com o inseticida, pois faz com que o inseto permaneça mais tempo sobre as folhas e expostos à aplicação). É preciso o cuidado de lavar bem o equipamento após a aplicação, porque os resíduos de sal em contato com o metal podem fazer com que sofra processo de corrosão. Sempre fazer a rotação de inseticidas utilizados (≠ modos de ação); reservar o uso das misturas (neonicotinoides + piretroides), do acefato ou de outro produto recomendado para controle de percevejos, apenas para o período reprodutivo da soja. Isso reduz a pressão de seleção para percevejos resistentes a esses inseticidas e preserva sua ação para o controle dessa praga por maior tempo. Esses cuidados com o manejo da praga irão auxiliar o sojicultor a ter um bom manejo de sua lavoura, com a utilização de menos inseticida e a obtenção de boa C produtividade. Adeney de Freitas Bueno e Daniel Ricardo Sosa-Gómez, Embrapa Soja Débora Mello da Silva, Iapar Adair V. Carneiro
Tabela 1 - Principais níveis de ação para lagartas na cultura da soja
Figura 3 - População média de percevejos (população predominante de Euschistus heros) ao longo do desenvolvimento da cultura da soja após aplicação de inseticidas em intensidade de infestação de percevejos. Embrapa Soja, Arapongas (PR), safra 2010/11. As setas coloridas indicam quando o controle foi realizado em cada tratamento
Telenomus podisi parasitando ovos de percevejo
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Marcelo Madalosso
Capa
Programa de aplicações
Doenças cada vez mais difíceis de controlar, aumento do número de aplicações e oscilação na eficácia de fungicidas compõem um cenário sombrio, conhecido de perto pelos agricultores brasileiros ao longo das últimas safras. Para que seja possível vencer este enorme desafio é preciso considerar todo o sistema agrícola do Brasil, bem como suas condições edafoclimáticas favoráveis à sobrevivência e infecção do patógeno. Focar na proteção da área foliar e não apenas na tentativa de controle da doença estabelecida, através de um programa de aplicações que compreenda o momento de posicionar a aplicação no estádio da planta e a sua relação com os patógenos, é o caminho para o manejo eficiente
O
sistema agrícola brasileiro é intensivo e altamente produtivo, localizado nos cenários tropical e subtropical, onde as condições edafoclimáticas permitem que as exigências para sobrevivência e infecção do patógeno ocorram de forma acelerada. Assim, a relação entre os patógenos e o hospedeiro pode ser estabelecida em qualquer fase do ciclo da cultura, e quando esta relação é compatível, há o processo doença instalado. Este fato explica por que são realizadas cada vez mais aplicações no ciclo da cultura para tentar controlar as doenças que parecem estar cada vez mais incontroláveis. Talvez no equívoco de interpretação do conceito possa residir o principal fato para explicar a oscilação de eficácia dos fungicidas. Por vários anos, e ainda hoje, o controle
da doença é entendido no campo como a aplicação do fungicida sobre o sintoma, na esperança de que o patógeno seja erradicado e o residual do controle permaneça atuando na folha da planta. No entanto, isso é um processo biologicamente impossível, visto as condições edafoclimáticas presentes: pressão de inóculo, fungicidas e tecnologia de aplicação, que favorecem o estabelecimento do
patossistema. Vale lembrar que o sintoma é o resultado final do ciclo da doença que começou sua infecção sete a 14 dias antes, em etapas invisíveis ao olho humano (Figura 1). Ao final, a expressão do sintoma identifica a etapa reprodutiva do patógeno na geração de seus descendentes com grande variabilidade genética sobre o tecido já danificado.
Figura 1 – Algumas fases do ciclo das relações entre patógeno e hospedeiro
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Via de regra, nenhum fungicida tem potencial para controlar sintoma estabelecido sobre o tecido da folha, ou seja, erradicativo. A maior eficácia imprimida por qualquer fungicida se dá quando esse for posicionado sobre o tecido da folha antes da chegada do esporo, ou seja, preventivo ou protetor, especialmente estrobilurinas e carboxamidas. À medida que a infecção começa a se estabelecer, a eficácia do
fungicida vai decrescendo gradativamente e com isso também o residual (Figura 2). É importante lembrar que os momentos de aplicação Preventivo, Curativo e Erradicante não têm relação direta com o estádio fisiológico da planta e sim com o estágio da patogênese. Assim, torna-se possível ter aplicações preventivas no estádio vegetativo de uma soja semeada no início da época recomendada,
Germison Tomquelski
Figura 2 - Variações de eficácia em função do momento de posicionamento do Figura 3 - Programa com quatro aplicações de fungicidas. Em (A) início muito tarde fungicida sobre a patogênese e retomada rápida da infecção, necessitando da 5ª aplicação e em (B) início mais cedo e evolução mais lenta da doença
bem como curativa ou até erradicante para este mesmo estádio em área semeada no final da época recomendada ou mesmo safrinha. Baseado nestes pressupostos é possível dizer que é um erro atribuir uma eficácia “fixa” para um fungicida, como se mantivesse seu desempenho, independentemente do momento da aplicação. Não é difícil observar situações de campo onde o mesmo produto,
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aplicado em momentos diferentes, imprima eficácias que podem ter grandes variações de desempenho. Desta forma, o foco do manejo eficiente deve buscar a eficácia do conjunto das aplicações, ou seja, do Programa de Aplicações e não somente no potencial de um ou outro produto a ser aplicado, ainda pior se nas últimas aplicações. Com isso, o objetivo passa a ser a proteção da área foliar que irá ser a fonte para enchimento dos drenos [grãos] e não a tentativa de controle da doença estabelecida. A montagem do Programa de Aplicações tem suporte no entendimento de que os efeitos das aplicações não são independentes e sim possuem relações diretas entre elas, ou seja, a função da aplicação 1 é entregar a folha protegida para a aplicação 2 que, por sua vez, precisa entregar a folha protegida para a aplicação 3, e assim por diante. Assim, é possível manter a doença em nível baixo dentro do Programa, sem que ocorram possíveis falhas de eficácia entre as aplicações e a doença acelere sua evolução (Figura 3). Além disso, o sucesso do Programa de Aplicações na folhagem vai depender do papel fundamental do Tratamento de Sementes (TS), especialmente para doenças necrotróficas, cujo patógeno está localizado na semente ou no solo/palhada. Certamente, quando um TS não é levado em consideração, haverá dificuldades de controle de doenças que irão causar manchas na folhagem da planta, reduzindo a eficácia de todas as aplicações.
Já na parte aérea da planta, o início efetivo do Programa passa a ser a aplicação no período vegetativo da cultura por três motivos técnicos específicos relacionados com: o patógeno, a tecnologia de aplicação e a planta. Com relação ao primeiro, o foco é sempre a aplicação preventiva, buscando proteger o tecido antes da entrada do patógeno, pois grande parte dos esporos chegam no período vegetativo da planta. Outro ponto positivo para o manejo é que o estabelecimento e a evolução do patossistema nesta fase são de grande dificuldade para o patógeno. Sendo assim, a entrada nesta fase reduz drasticamente a multiplicação do inóculo inicial que irá causar a epidemia durante o estádio reprodutivo da cultura (Figura 4). A tecnologia de aplicação tem grandes dificuldades de levar as gotas para o dossel inferior da cultura, especialmente quando ela atinge seu máximo Índice de Área Foliar (IAF), durante o estádio reprodutivo (Figura 5). Por último, a planta especificamente tocando sobre a idade da folha. Tecidos novos e interceptando radiação direta possuem características morfológicas e fotossintéticas que favorecem a retenção do ingrediente ativo posicionado sobre ele, mantendo maior o período residual. Por outro lado, folhas mais velhas e interceptando menos radiação direta apresentam o oposto (Figura 6). Portanto, a falta de entendimento das relações entre as aplicações na construção do Programa pode levar a perdas precoces de área foliar, resultando diretamente em baixa produtividade. É importante retomar que a eficácia
Fotos Divulgação
Figura 4 - Inóculo inicial e epidemia de doenças em soja
Madalosso, Balardin, Tormen e Mônica abordam aplicação eficiente de fungicidas
buscada deve ser do Programa de Aplicações, compreendendo em que momento a aplicação está sendo posicionada no estádio da planta e sua relação com os patógenos. Assim, a leitura do ambiente é fundamental para a percepção técnica do período residual, que poderá variar e demandar reorientação dentro do Programa C para manter a doença em nível baixo. Marcelo G. Madalosso, Instituto Phytus/URI Santiago Ricardo Balardin, Univ. Federal de Santa Maria Nédio R. Tormen, Univ. Federal de Brasília Mônica P. Debortoli, Instituto Phytus
Figura 5 - Efeitos do posicionamento de fungicidas em diferentes estádios da planta Figura 6 - Concentração de triazol (preto) e estrobilurina (cinza) em diferentes de soja idades de trifólios de soja
26 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Plantas Daninhas
Fotos Omar Roberto da Silveira
Luta árdua Daninha com grande potencial de prejuízos e alta capacidade de adquirir resistência a herbicidas, Amaranthus palmeri é mais um fantasma a rondar as lavouras brasileiras. Detectada em 2015, no Mato Grosso, esta planta desencadeou uma verdadeira operação de guerra, com medidas sanitárias adotadas na tentativa de erradicá-la
A
maranthus palmeri é uma planta daninha com grande potencial de prejuízo às culturas, devido à velocidade de crescimento, à grande produção de sementes, à fácil germinação, ao grande enraizamento e, em especial, à facilidade com que adquire resistência a herbicidas. É uma das plantas daninhas que mais têm causado problemas aos produtores de grão e de algodão dos Estados Unidos e da Argentina. Em 2015 foi detectada em Mato Grosso, estado em que se desenvolve um programa de erradicação desta planta daninha. O Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt), em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Universidade de Várzea Grande (Univag), desenvolve programa de levantamento de plantas daninhas com resistência a herbicidas em áreas algodoeiras de Mato Grosso, junto a produtores pertencentes à Associação Mato-Grossense
de Produtores de Algodão (Ampa) (Andrade Junior; Guimarães; Cavenaghi, 2014). Nesse trabalho foram verificadas plantas do gênero Amaranthus que apresentaram resistência ao glifosato e a herbicidas inibidores de ALS que possuíam características morfológicas de Amaranthus palmeri S. Watson. Essas plantas foram avaliadas e, com suporte em literatura especializada, houve a confirmação de que se tratava de A. palmeri. O fato foi divulgado através da Circular Técnica nº 19 do IMAmt (Andrade Junior et al, 2015).
RESPOSTA À EMERGÊNCIA FITOSSANITÁRIA
Assim que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tomou conhecimento da ocorrência da praga no Brasil, em 19/6/2015 foram tomadas diversas medidas. Uma delas foi a realização de reunião em Cuiabá, Mato Grosso, entre o Mapa, o
28 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT) e os pesquisadores que relataram ocorrência da planta daninha com o objetivo de se obter mais informações sobre o foco e sobre a espécie. O foco de ocorrência suspeito foi localizado nos municípios de Ipiranga do Norte e Tapurah, na região médio-norte de Mato Grosso. A partir desta informação foi realizado um levantamento de delimitação, com o estabelecimento de um perifoco com raio de 20km ao redor das fazendas onde foram feitas as coletas iniciais. Verificou-se que a espécie estava presente em três propriedades vizinhas entre si, ou seja, tratava-se de apenas um foco. As áreas infestadas nestas propriedades foram quantificadas em dez mil hectares, 500 hectares, e 15 hectares. Foi realizada a coleta de uma amostra oficial e enviada a laboratório credenciado pelo Mapa, que confirmou tratar-se de A. palmeri.
Enquanto era realizado o levantamento de delimitação do foco procedeu-se também a um inquérito epidemiológico na área para tentar descobrir a via de entrada. A primeira ocorrência da praga foi observada em 2012 pelos funcionários das propriedades, no foco. A distribuição de resíduos de descaroçamento do algodão não curtido, oriundo de áreas com ocorrência da praga, foi um fator importante para a dispersão da espécie em uma das propriedades. Observou-se que a dispersão natural da espécie é baixa, ocorrendo a curta distância. Em três anos houve dispersão da espécie em um raio aproximado de 9km, antes de qualquer ação de controle oficial. Observou-se que colhedoras contribuíram para a dispersão da espécie dentro das propriedades, no foco, evidenciada pela sequência de colheita de talhões e pela ocorrência da planta daninha em faixa, nos talhões. Constatou-se que uma das propriedades, no foco, importou máquinas colhedoras de algodão usadas da Argentina, em 2011, onde a praga A. palmeri está presente. Daí por que se supõe que tenham sido a via de introdução da praga no Brasil. Foi levantada a possibilidade de embargo às exportações de algodão, milho e soja, por países sem ocorrência da praga A. palmeri. Ainda não se verificou nenhuma restrição
Plantas após o arranquio manual sendo transportadas para a destruição
comercial, mas caso haja a dispersão da espécie no país, poderá haver a imposição de barreiras fitossanitárias pela União Europeia, já que o A. palmeri consta da lista de alerta da Eppo. Os fiscais estaduais do Indea-MT, que estavam realizando a fiscalização do vazio sanitário da soja, em 2015, foram orientados a fazer o levantamento concomitante de detecção da espécie no estado. Foram enviados aos fiscais a Circular Técnica nº 19 do IMAmt e o folheto elaborado com as características diferenciais desta espécie para facilitar a identificação. Foram inspecionadas mais de mil
propriedades no estado, não se constatando a ocorrência de A. palmeri, exceto no foco já identificado. De posse das informações levantadas foi realizada uma reunião entre Mapa, Indea-MT, Ampa, Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Federação da Agricultura de Mato Grosso (Famato) e pesquisadores do IMAmt, UFMT e Univag para avaliação dos resultados dos levantamentos e do inquérito epidemiológico, bem como para análise da estratégia de controle, decidindo-se unanimemente pela erradicação
da planta daninha, com a definição de medidas fitossanitárias a serem regulamentadas. No dia 15/7/2015, 26 dias após a tomada de conhecimento da ocorrência da praga pelo Mapa e pelo Indea-MT, foi publicada a Instrução Normativa Indea-MT nº 047/2015, que estabelece as normas para contenção e erradicação da praga A. palmeri no estado de Mato Grosso. Esta norma teve como amparo legal a Lei de Defesa Sanitária Vegetal do estado de Mato Grosso nº 8.589/2006. Com base na Instrução Normativa Indea-MT nº 047/2015, os produtores vêm realizando, sob fiscalização do Indea-MT, supervisão do Mapa e orientação dos pesquisadores do IMAmt, UFMT e Univag, o controle para eliminação da espécie, nas propriedades afetadas. Este trabalho consiste no controle cultural através de arranquio e queima de plantas presentes em cultivos. No controle químico nas culturas da soja, milho e algodão, e no controle mecânico, por meio de capina manual onde for necessário. No controle químico estão sendo utilizados produtos em pré e pós-emergência, com princípios ativos a que A. palmeri é suscetível, intercalando-se os mecanismos de ação. Destaca-se que o controle químico com esses herbicidas viabiliza a erradicação desta praga em larga escala, minimizando a necessidade de arranquio e capina, apesar de aumentar o custo de produção e tornar mais complexo o manejo das culturas. Em 21/10/2015, foi realizada uma reunião de avaliação do programa de erradicação de A. palmeri com a participação do Mapa, Indea-MT e pesquisadores da Embrapa Soja, Embrapa Milho e Sorgo, Embrapa Algodão, Embrapa Agrossilvipastoril, Univag e IMAmt. Foram analisadas as medidas adotadas e realizada visita à área de foco, onde foram sugeridas medidas corretivas para o controle em uma das propriedades. Com base nessa discussão foram sugeridos ajustes na norma
COMO IDENTIFICAR A ESPÉCIE NO CAMPO 1) A ocorrência de plantas dióicas, ou seja, plantas somente com flores femininas (planta fêmea) ou somente flores masculinas (planta macho); 2) As inflorescências femininas possuem brácteas “espinhosas”, que são facilmente perceptíveis quando tocadas, enquanto as inflorescências masculinas não têm essa característica; 3) Folhas com pecíolos maiores ou iguais ao comprimento do limbo foliar.
Rogaciano de Arruda
Destruição das plantas em fornalha
que, após discutidos com o setor produtivo, resultaram na Instrução Normativa Indea-MT nº 086/2015, de 4/12/2015. Desde a edição da Instrução Normativa Indea-MT nº 047/2015 o órgão tem realizado fiscalização das medidas fitossanitárias estabelecidas para a erradicação dessa praga, através dos fiscais lotados nos municípios do foco. A Coordenadoria de Defesa Sanitária Vegetal do Indea-MT tem realizado supervisão das ações de erradicação dessa praga, juntamente com o Mapa, resultando na detecção de alguns casos de descumprimento de medidas fitossanitárias e na determinação de seu cumprimento imediato. Todas as determinações de cumprimento de medidas fitossanitárias têm sido prontamente atendidas pelos produtores. Os levantamentos de detecção continuam a ser realizados no estado, de modo a se garantir o sucesso do programa. Caso algum outro foco seja detectado, as mesmas ações estabelecidas na normativa vão ser prontamente executadas.
MEDIDAS FITOSSANITÁRIAS FEDERAIS
O Departamento de Sanidade Vegetal (DSV) do Mapa tem acompanhado e apoiado as ações realizadas para a erradicação desta planta daninha em Mato Grosso. Paralelo a isso, ações estão sendo desenvolvidas para evitar a introdução ou dispersão para outras regiões do País. Uma das ações consiste no estabelecimento, através de Análise de Risco de Praga, dos requisitos fitossanitários para importação de espécies hospedeiras de países onde ocorre a planta daninha, com sua consequente categorização como quarentenária para o Brasil. Há alerta e determinação aos demais estados para a realização de levantamento de detecção, para se ter certeza de que o único foco existente, no País, é o de Mato Grosso. Esta atividade é de suma importância na Região Sul, devido à fronteira com a Argentina, onde A. palmeri está presente, e com o Paraguai, devido ao potencial de risco de ocorrência dessa praga naquele país. Como resultado deste alerta ocorreram ações de prevenção envolvendo parcerias público-privadas, como a campanha “Ama-
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ranthus palmeri no Paraná: alerta”, fruto da cooperação entre Adapar Seab PR, Sistema Faep, Sistema Ocepar, Embrapa Soja e Mapa, lançada em janeiro de 2016 (Gazziero; Adegas, 2016). Outra medida consiste na identificação e comunicação de laboratórios disponíveis da rede credenciada do Mapa, aptos a fazer a identificação da espécie. Também a solicitação ao Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) do Mapa, para que redobre a atenção em relação à importação de máquinas agrícolas usadas, verificando-se o que dispõe a Instrução Normativa SDA 14/2004; A elaboração de normativa federal para a praga, de forma a permitir uma ação rápida em caso de novos focos, em especial nos estados que não dispõem de legislação fitossanitária que garanta eficácia no controle de A. palmeri e a construção de normativa federal para exigência de limpeza de máquinas e de implementos agrícolas já utilizados, para o trânsito nacional, também compõem o conjunto de ações.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A dispersão de A. palmeri nas áreas agrícolas de Mato Grosso e no restante do Brasil poderá trazer consideráveis prejuízos aos produtores rurais, tendo em vista que os biótipos encontrados são resistentes ao glifosato e a herbicidas inibidores de ALS. Além do risco de desenvolvimento de resistência a outros mecanismos de ação, poderão ocorrer impactos econômicos, sociais e ambientais para a sociedade como um todo, devido à necessidade de utilização de herbicidas adicionais, à perda de produtividade, ao aumento do custo de produção, ao risco de imposição de barreiras fitossanitárias e à dificuldade do seu controle. O trabalho conjunto e alinhado do setor público e privado permitiu uma rápida tomada de decisão e a implementação eficaz das ações, que tem proporcionado sucesso na contenção dessa planta daninha. Observou-se, durante a execução dos trabalhos, que as ações de fiscalização por parte do Indea-MT e de supervisão por parte do Mapa são de fundamental importância para o êxito do programa. Isto reforça a necessidade da elaboração de um arcabouço regulatório nacional atualizado, na área de defesa vegetal, para dar suporte a ações C oficiais de controle de pragas. Dalci de Jesus Bagolin e Omar Roberto da Silveira, Mapa Rogaciano Araceli C. de Arruda, Cristiano Henrique de Souza e João Batista da Silva, Indea/MT Dionisio Luiz Pisa Gazziero, Embrapa Soja
Fotos Anderson Rossato
Milho
Ataque implacável
Folhas, espigas, colo e colmo das plantas de milho estão entre os alvos da lagarta-docartucho, Spodoptera frugiperda, uma das principais pragas da cultura, responsável por danos de até 60%. Para conter os prejuízos deste inseto são necessárias medidas integradas, adotadas ao longo de todo o ano, que incluem dessecação antes da semeadura, tratamento de sementes com inseticidas e emprego de tecnologia Bt
O
milho é uma das culturas mais importantes no mundo. Para obtenção de elevadas produtividades, faz-se necessário a proteção das plantas contra o ataque de pragas. Comparativamente a outras culturas, a população de plantas no milho é menor, fazendo com que a perda de área foliar ou de plantas, em decorrência de erros do manejo fitossanitário, tenha maior impacto na produtividade de grãos (Cruz et al, 2010). Como uma das principais pragas do milho tem-se a lagarta-do-cartucho (Spo-
doptera frugiperda). Os seus danos podem chegar a até 60%, dependendo do híbrido, da época de semeadura e do estádio de desenvolvimento da cultura, sendo que o florescimento é o período crítico (Cruz et al, 2010; Carvalho, 1970). O período larval da lagarta-do-cartucho varia de 12 dias a 30 dias, de acordo com a temperatura, sendo nesse período que ocorrem os danos às plantas de milho. A coloração da lagarta pode oscilar de cinza a marrom até verde, possuindo seis instares, podendo atingir 50mm no último (Gallo et al, 2002; Avila
32 Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
& Papa, 2015). A lagarta-do-cartucho é um inseto polífago e possui estádio de adaptação em diversos hospedeiros alternativos. No sorgo granífero e no selvagem o nível é alto e intermediário em culturas como soja, trigo, capim braquiária e caruru-de-porco. Com isso a incidência desta praga em lavouras de milho é elevada (Boregas et al, 2013; Cruz, 2010). A lagarta tem preferência por atacar folhas novas, raspando-as, provocando o primeiro sintoma conhecido como “folha
raspada”. Quando a lagarta ocorre dentro da espiga em formação são gerados danos diretos, como o consumo de massa em si, e indiretos, na facilitação da entrada de bactérias e fungos, prejudicando a qualidade do grão e a silagem. Em situações como alta infestação, pode haver danos no colo das plantas, colmo e espigas. Outros fatores como períodos de estiagem, temperaturas acima de 25°C, áreas de cultivo contínuo de milho, milho safrinha e semeadura tardia favorecem o aumento da população desta praga (Avila & Papa, 2015). Para que o manejo da lagarta-do-cartucho seja eficiente, as ações devem ser realizadas todo o ano. É recomendável a dessecação antecipada 30 dias antes da semeadura, eliminando a presença de massa verde (plantas daninhas e culturas antecessoras), que servem de hospedeiras para a praga. Em um período próximo à semeadura deve-se realizar uma nova dessecação com o objetivo de eliminar as plantas daninhas que não foram afetadas pelo primeiro manejo. No controle cultural, práticas como evitar a semeadura próxima de plantas hospedeiras, controlar plantas hospedeiras no interior e bordas, semeaduras no sentido contrário da direção do vento e evitar semeaduras escalonadas na mesma área ou áreas próximas, diminuem a pressão do inseto (Sarmento, 2002). No controle biológico, entomopatógenos, baculovírus, inoculações da vespinha Trichogramma e a preservação de inimigos naturais como a tesourinha (Doru luteipes), podem controlar eficientemente a campo. O fator abiótico mais importante no controle da lagarta-do-cartucho é o regime de chuvas. Quando as chuvas são fortes e frequentes, a lagarta é naturalmente controlada, diretamente pela chuva e indiretamente via inimigos naturais, como doenças (Sarmento, 2002; Bianco, 1997). Alternativamente o manejo da lagarta-do-cartucho e de outros lepidópteros pode se dar pelo emprego de milhos Bts. Esses possuem proteínas que são provenientes da Baixo
Nível
bactéria Bacillus thuringienses, que atuam em todo o ciclo da cultura (Gallo et al, 2002; Santos et al, 2012). Porém, devem ser respeitadas duas regras legais impostas pela CTNBio: uma referente às áreas de refúgio, que exige 10% da área cultivada com híbridos de milho não Bt e distantes no máximo 800 metros da lavoura Bt, e a outra evitar a contaminação de lavouras de vizinhos não Bt, por meio da polinização (Embrapa, 2011). Híbridos Bts e convencionais não dispensam o uso de tratamento de sementes, que deve ser de amplo espectro, proporcionando eficiência no controle de pragas iniciais. Porém, o efeito residual do tratamento de sementes varia de 15 dias a 20 dias após a emergência, o que coincide com as denominadas pragas iniciais (Embrapa, 2011). Após o efeito do tratamento de sementes é necessário o monitoramento semanal da lagarta-do-cartucho. Como esta praga não se distribui uniformemente nas áreas, pode ser usado o acompanhamento tanto visual do ataque de plantas como o uso de armadilhas de feromônios para justificar uma situação de controle. O nível de ação, para a lagarta-do-cartucho, é atingido quando 20% das plantas de milho apresentarem o nível 3 da escala de Davis. Em regiões com histórico de pressão do inseto, recomenda-se como parâmetro o nível de 10% de plantas atacadas (Grützmacher et al, 2000; Cultivar, 2013; Rosa, 2011; Davis et al, 1992). O controle da lagarta-do-cartucho deve ser justificável, isto é, a partir de um monitoramento rígido e não com o uso de aplicações pré-agendadas, por exemplo. No caso da necessidade de controle químico, há 155 produtos registrados para o controle da lagarta-do-cartucho, pertencentes aos grupos químicos carbamato, organofosforado, piretroide, neonicotinoide, espinosina, benzoilureia, oxadiazina, diamida, clorpenapir ediacilhidrazina e biológicos (Agrofit, 2016). É preferível Médio
Nível
1
4
Nenhum dano até
De 4 a 7 lesões alongadas nas folhas do cartucho de
3 lesões bem pequenas.
1,3cm a 2,5cm presente em várias folhas expandidas e novas;
2
5
Lesões pequenas e circulares
De 4 a 7 lesões alongadas nas folhas do cartucho maiores
nas folhas do cartucho.
que 2,5cm em algumas folhas expandidas e novas;
3
6
Pequenas lesões alongadas e circulares
De 4 a 7 lesões maiores que 2,5cm presentes em várias
até 1,3cm nas folhas expandidas e novas.
folhas expandidas e várias folhas novas;
o uso de inseticidas seletivos para a preservação de inimigos naturais. Também se deve rotacionar os ingredientes ativos de modo a evitar a resistência da praga (Bianco, 1997). Na safra de 2014/2015, 60% das sementes disponíveis no mercado foram transgênicas, resistentes a insetos da ordem lepidóptera e/ou com resistência a herbicidas (Cruz et al, 2014). Dessa porcentagem, verificaram-se cinco eventos transgênicos para o controle de lepidópteros no mercado: o evento MON 89034 (toxina Cry1A.105/Cry2Ab2), marca VT PRO; o evento TC 1507 (toxina BtCry 1F), marca Herculex I; o evento MON 810 (toxina BtCry 1Ab), marca YieldGard; o evento Bt11 (toxina BtCry 1Ab), marca Agrisure TL; e o evento MIR162 (toxina BtVIP3Aa20), marca TL Viptera (Embrapa, 2014; Cruz et al, 2014). Foram realizados dois experimentos na área experimental do Departamento de Fitotecnia da UFSM. Foram realizadas estimativas visuais de dez plantas ao acaso nas três fileiras centrais da parcela do experimento I e em uma fileira no experimento II, com o auxílio da escala visual de danos ocasionados por S. frugiperda, que varia de 1 a 9 (Davis et al, 1992). Dessa forma, objetivou-se com esse trabalho avaliar a presença da lagarta Spodoptera frugiperda em híbridos de milho por meio da escala de Davis. A semeadura foi realizada diretamente sobre palhada de trigo na densidade de seis sementes/m². O delineamento experimental utilizado foi de blocos completamente casualizados, com três repetições, nos dois experimentos. Os tratamentos no experimento I foram constituídos de 20 híbridos comerciais de milho, com semeadura realizada no dia 19/10/2015. Destes 20, dois são (híbridos convencionais), 11 (VT PRO), dois (Herculex), quatro (Herculex + YieldGard) e um (YieldGard). Foram realizadas duas aplicações de inseticidas: a primeira em Alto
Nível 7 8 ou mais lesões de todos os tamanhos presentes em folhas do cartucho, além de furos com formato uniforme e irregular em folhas expandidas; 8 8 ou mais lesões alongadas de todos os tamanhos na maioria das folhas do cartucho, e muitas lesões médias a grandes em várias folhas, algumas completamente comidas; 9 Cartuchos e folhas expandidas quase ou totalmente destruídas.
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33
Tabela 1 - Média das notas atribuídas aos híbridos, segundo a escala de Davis e a classificação Experimento I Híbridos NS 92 PRO2 NS 50 PRO DKB 290 PRO 3 DKB 230 PRO 3 AS 1666 PRO 3 AS 1677 PRO 3 AS 1656 PRO 3 9025 PRO 3 8780 PRO 3 8690 PRO 3 P 3456 H P 2530 32R22 YHR P 1680 YH 30F53 YHX NS 56 PRO BG 7318 YH BG 7060 HR BG 7046 30F53 YR Média CV
Notas V8 V4 1,1 a* 1,13 a 1,43 a 1,8 a 1,2 a 4 b 1,23 a 4,13 b 1,2 a 1,2 a 1,26 a 1,4 a 1,33 a 1,4 a 1,23 a 1,3 a 1,26 a 1,3 a 1,5 a 1,63 a 1,43 a 3,9 b 1,63 b 4,26 b 1,73 b 4,1 b 1,86 b 4,3 b 2,33 b 3,06 b 1,8 b 1,86 a 1,86 b 3,93 b 1,9 b 4,4 b 2,13 b 5,43 c 1,93 b 3,76 b 1,57 2,86 19,11 15,59
Experimento II Híbridos Defender vip Status vip AS 1656 PRO3 DKB 240 PRO2 Fórmula DKB 290 PRO3 Velox TL Dow 2B688 P 1630 HX 30 F53YHX
Notas V4 V8 1,03 a 1,3 a 1,03 a 1,03 a 1,2 a 3,43 b 1,2 a 3,84 b 1,3 a 6,9 d 1,33 a 2,9 b 1,4 a 5 c 1,5 a 3,63 b 1,86 b 5 c 1,93 b 5,56 c
Folha de milho bastante danificada pela ação da lagarta Spodoptera frugiperda
nologia VT PRO mostraram-se superiores às demais tecnologias (Tabela 1). Deve ser ressaltado que em alguns híbridos, que não atingiram nota 3 em V4 e V8, talvez não seria necessária a aplicação de inseticida, pois não atingiram o nível de controle da lagarta-do-cartucho (Tabela 1). Já híbridos como BG 7046 e P2530 demonstraram que duas aplicações de inseticida, 34 DAS E 40 DAS não foram suficientes para o controle da lagarta. Nesse caso, seriam necessárias mais aplicações, onerando os custos de produção, pois o nível de controle, segundo Davis et al (1992), é a nota 3. Moraes et al (2015), demonstraram que híbridos convencionais apresentam maiores danos quando comparados com suas versões transgênicas em dois locais distintos, Campinas e Mococa, e também que diferentes toxinas Bts exibem danos variados pelo ataque de S. frugiperda. Além disso, a demonstração de Moraes et al (2015) verificou que o evento Maximus Viptera obteve uma das menores notas de dano e
1,38 3,86 23,83 15,91
V5, (tiametoxan + lambda-cialotrina) e a segunda em V6 (lambda-cialotrina + chlorantraniliprole) + (lufenurom). No experimento II, os tratamentos foram constituídos de dez híbridos comerciais e a semeadura realizada no dia 17/12/2015. Neste experimento foram utilizadas as seguintes tecnologias de híbridos: dois convencionais, dois TL Viptera, três VT PRO, um Herculex, um Herculex + YieldGard e um Agrisure TL. Foi realizada uma aplicação de inseticida (Acefato) em V5. Os danos em ocorrência da lagarta-do-cartucho foram avaliados nos estágios fenológicos V4 (4 folhas completamente desenvolvidas) e V8 (8 folhas completamente desenvolvidas), em ambos os experimentos. Foram realizadas estimativas visuais de dez plantas ao acaso nas três fileiras centrais da parcela do experimento I e em uma fileira no experimento II, com o auxílio da escala visual de danos ocasionados por S. frugiperda, que varia de 0 a 9 (Davis et al, 1992). No experimento I, no estágio V4, os maiores danos foram observados nos híbridos convencionais e nos que possuem a tecnologia Herculex + YieldGard, YieldGard e Herculex, com a exceção do P 3456 H (Tabela 1). Na avaliação feita no estágio V8 foi possível observar que os híbridos da tec-
Anderson da Costa Rossatto, Guilherme Bergeijer Rosa, Vinícius dos Santos Cunha e Thomas Newton Martin, UFSM
Anderson Rossato
*médias seguidas por letras distintas diferem a 5% de probabilidade de erro pelo teste de Scott-knott.
possuiu a maior produtividade comparado com outros nove híbridos. Nesse trabalho de Moraes et al (2015), as menores notas obtidas foram nas tecnologias Herculex e TL Viptera, entretanto, o único híbrido com a tecnologia VT PRO não atingiu o nível de controle, o que condiz com a maioria dos híbridos deste trabalho. Martin et al (2015), ao avaliar os danos causados em diferentes híbridos de milho pela lagarta-do-cartucho, observaram que híbridos transgênicos foram menos atacados e que a tecnologia TL Viptera apresentou menores danos em Santa Maria, Rio Grande do Sul. No experimento II, a avaliação em V4, as cultivares não atingiram o nível de controle necessário. Porém, em V8, os únicos híbridos com danos menores foram Defender VIP e Status VIP. Os demais mostraram que uma aplicação de inseticida aos 34 DAS não foi o suficiente para o controle da lagarta, e para ter evitado isso teria que ter havido uma medida de controle antes dos altos valores atingidos em V8. O que pode explicar o alto dano no experimento II ocasionado pela lagarta-do-cartucho é a semeadura tardia, expondo a uma maior pressão do inseto (Avila & Papa, 2015). O baixo dano da tecnologia TL Viptera nesse experimento é compatível com resultados de Martin et al (2015) e Moraes C et al (2015).
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Principal praga na cultura do milho, a lagarta-do-cartucho pode levar a perdas de até 60%, dependendo do híbrido utilizado
Milho
Manejo de pragas Fotos Lab. de Manejo de Pragas-Unesp-Ilha Solteira
Corós rizófagos, larva-alfinete, lagarta-do-cartucho, lagarta-elasmo, lagarta-rosca, brocada-cana, cigarrinha, mosca-branca e percevejo barriga-verde estão entre os insetos que causam prejuízos à cultura do milho. O tratamento de sementes com inseticidas é uma das alternativas para proteger a cultura de ataques na emergência e em estádios iniciais de desenvolvimento das plantas camadas adensadas e sob condições de déficit hídrico. As plantas atacadas por corós apresentam inicialmente desenvolvimento reduzido, seguido por amarelecimento, murcha e morte, podendo esses sintomas ocorrer em grandes reboleiras distribuídas irregularmente nas lavouras. Em condições de alta infestação de corós no solo, pode se dar até 100% de perda da lavoura, especialmente quando a presença de larvas mais desenvolvidas coincide com a fase inicial de desenvolvimento das plantas de milho. Os corós Liogenys suturalis e Phyllophaga cuyabana são espécies que apresentam uma geração/ano (univoltino) e que tradicionalmente ocorrem nas lavouras de milho do Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás. P. cuyabana é uma espécie que pode causar danos tanto em milho como na soja, enquanto L. suturalis está associado somente a gramíneas como milho, trigo e aveia. As revoadas de adultos destas espécies ocorrem durante os meses de setembro a novembro. Após o acasalamento, os ovos são colocados no solo, onde ocorre o completo desenvolvimento das fases imaturas do inseto. As larvas apresentam três estágios de desenvolvimento (instares) e, no final do terceiro estágio, entram na fase de pré-pupa, quando não mais se alimentam e apresentam baixa mobilidade.
LARVA-ALFINETE
O
milho cultivado em condições brasileiras sofre intenso ataque de pragas, sendo esse um dos principais fatores que impedem a cultura de atingir o seu máximo potencial produtivo. Dentre as pragas que atacam as raízes de milho na região Centro-Oeste destacam-se as larvas subterrâneas rizófagas de besouros melolontídeos, também denominadas de corós, bicho-bolo e larva-alfinete, que embora possam ocorrer durante todo o ciclo da cultura, causam danos mais severos nos estádios iniciais de desenvolvimento das plantas.
CORÓS RIZÓFAGOS
Corós rizófagos são larvas de coleópteros da família Melolonthidae que apresentam o corpo de coloração branca, três pares de pernas torácicas e se posicionam no formato de U, quando em repouso. Os danos de corós no milho são provocados pelo consumo de raízes, acarretando-se redução na capacidade das plantas de absorver água e nutrientes, ingredientes esses essenciais para o seu desenvolvimento. Essa intensidade de danos é maior em plantas jovens de milho, cultivadas em solo de baixa fertilidade, com
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À semelhança do coró, a larva-alfinete, Diabrotica speciosa, alimenta-se das raízes do milho. As larvas dessa praga são de coloração esbranquiçada, porém, apresentam, na cabeça e na placa anal, uma mancha esclerotizada de coloração pardo-escura ou preta. Essas larvas alimentam-se especialmente das raízes adventícias do milho. A perda dessas raízes reduz a capacidade das plantas de absorver água e nutrientes, tornando-as menos produtivas, bem como mais suscetíveis a doenças e ao tombamento. As plantas caídas ficam com um aspecto recurvado, caracterizando o sintoma conhecido como “pescoço de ganso”. Embora
Sintomas de ataques de percevejo barriga-verde, Dichelops melacanthus, em plantas jovens de milho. Selvíria (MS). 2014
essas plantas, por ocasião da colheita, possam conter espigas de milho desenvolvidas, geralmente não são colhidas pela plataforma da colhedeira.
LAGARTA-DO-CARTUCHO
A principal praga do milho, que é um enorme problema tanto para os pequenos como para os grandes produtores, é a lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, também conhecida como lagarta-militar. É uma praga cosmopolita, que ataca várias culturas de importância econômica em diferentes países. No Brasil, além do milho, esta praga é encontrada atacando plantas de algodão, trigo, arroz, sorgo, soja, entre outras. Os danos causados no milho pela lagarta são um dos entraves para a garantia da produtividade da cultura, podendo reduzir a produtividade em até aproximadamente 35%. As lagartas, no início apenas raspam as folhas e quando desenvolvidas podem destruir completamente o cartucho, produzindo grande quantidade de excreções nas folhas remanescentes. Com o aumento do plantio do milho na segunda safra (“safrinha”) e o cultivo deste cereal em áreas irrigadas, a população da praga tem aumentado consideravelmente e apresentado uma mudança no seu comportamento habitual, atacando plantas recém-emergidas e provocando sintomas de “coração morto” semelhantes aos da lagarta-elasmo, Elasmopalpus lignosellus. As lagartas cortam as plantas rente ao solo, como ocorre coma lagarta-rosca, Agrotis ipsylon, especialmente em períodos de veranico. Quando a praga ocorre no final do ciclo da cultura, as lagartas podem também danificar a espiga, apresentando o mesmo hábito da lagarta-da-espiga, Helicoverpa spp.
Cultivares transgênicos: sucesso parcial no controle da lagarta-do-cartucho O lançamento das primeiras cultivares transgênicas de milho Bt levou os produtores a um enorme otimismo, pois nos primeiros anos de plantio a principal praga da cultura era muito bem controlada. Entretanto, o uso intensivo em quase a totalidade das áreas de plantio, associado à não realização de refúgio, proporcionou uma menor suscetibilidade das lagartas do gênero Spodoptera às proteínas tóxicas produzidas pelas cultivares Bt, levando ao insucesso no controle dessa praga em poucos anos. Uma das principais táticas de controle contra lepidópteros-pragas, com principal objetivo de controle da lagarta-do-cartucho na cultura do milho, é o uso de plantas que
expressam proteínas tóxicas (Tabela 1), que são cultivadas em grande escala, com mais de 80% das áreas cultivadas em todo país. No entanto, os eventos Bt comportam-se de forma distinta para cada espécie de praga, ou seja, não se espera o mesmo nível de eficiência para as principais pragas-alvo da tecnologia, como S. frugiperda, Diatraea saccharalis e Helicoverpa zea. Até o momento no Brasil, o maior entrave para o sucesso de controle das cultivares Bt são as lagartas do gênero Spodoptera, que apresentam maior potencial para evolução de resistência, pois possuem grande capacidade reprodutiva, gerações contínuas e sobrepostas. Com a intensificação da agricultura, os cultivos sucessivos possibilitam a sobrevivência de elevadas populações de S. frugiperda e o fluxo contínuo de mariposas entre culturas hospedeiras favorecem a manutenção de altas populações, propiciando a ocorrência de severas infestações em qualquer estádio fenológico e época de cultivo. Soma-se a isso o fato de haver baixa adoção de áreas de refúgio e de outras táticas de controle, o que torna o cenário ainda mais favorável ao desenvolvimento de resistência. Entre as tecnologias de milho Bt com expressão de duas ou mais proteínas inseticidas, várias não atendem aos requisitos básicos da pirâmide de genes, que provocam elevada mortalidade da praga-alvo e ausência de resistência cruzada entre as proteínas. Neste cenário agrícola, foram constatadas falhas no controle da S. frugiperda em cultivares Bt que expressavam a proteína Cry1F. Com isso, em menos de quatro anos de uso dessa tecnologia no Brasil ocorreu também redução da eficácia de controle da
Ataque de lagarta-rosca (secção de plântulas), na cultura do milho. Selvíria (MS). 2016
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Fotos Lab. de Manejo de Pragas-Unesp-Ilha Solteira
sua eclosão, fazendo galerias no interior do colmo, provocando a morte ou o perfilhamento da planta. O controle é realizado com inseticidas em tratamento de sementes ou através de cultivares transgênicas (Bt)
LAGARTA-ROSCA, AGROTIS IPSILON
Como a lagarta-elasmo, a lagarta-rosca também provoca danos à cultura em sua fase inicial de desenvolvimento. É uma praga secundária que está gerando danos mais frequentes e significativos em lavouras de milho, principalmente por provocar injúrias no período mais vulnerável da cultura, resultando em redução de estande. A espécie tem hábito noturno e “secciona” a planta logo acima do nível do solo, estando suscetível ao ataque da praga até 35cm de altura. O uso de inseticidas na dessecação antes da semeadura pode reduzir o ataque da lagarta-rosca.
Mosca-branca em folhas de milho
lagarta-do-cartucho em cultivares contendo outras proteínas, como a Cry1A.105, além da Cry1F, devido à elevada probabilidade de resistência cruzada entre estas duas proteínas. Neste contexto, a eficácia a longo prazo de cultivares contendo a proteína Cry2Ab2, que não apresenta resistência cruzada com proteínas Cry1, também pode ser comprometida, deixando de controlar a lagarta-do-cartucho, pois a proteína Cry2Ab2 mostrou baixa toxicidade contra S. frugiperda em estruturas reprodutivas, o que pode favorecer um aumento na frequência de insetos heterozigotos resistentes em populações de campo.
TRATAMENTO DE SEMENTES
A utilização de culturas de cobertura do solo como o milheto, semeado anteriormente ao plantio do milho, é uma prática utilizada no Cerrado brasileiro. Neste ambiente, a lagarta-militar, S. frugiperda, tem a capacidade de se reproduzir e, após a dessecação do milheto e plantio da cultura, lagartas grandes se abrigam na palhada junto ao solo e passam a cortar as plântulas
recém-emergidas, causando redução do estande. O atual avanço tecnológico no tratamento de sementes com inseticidas tem proporcionado a introdução de novos inseticidas como as diamidas antranílicas, que são eficientes no controle de lepidópteros no início de desenvolvimento das plântulas. Trabalhos realizados pela equipe de pesquisa coordenada pelo pesquisador Geraldo Papa, da Unesp Ilha Solteira, constataram o efeito dos inseticidas clorantraniliprole e ciantraniliprole, do grupo químico das diamidas atranílicas, aplicados via tratamento de sementes, para o controle da Spodoptera frugiperda aos até 20 dias após a emergência da cultura (Figura 1).
LAGARTA-ELASMO, ELASMOPALPUS LIGNOSELLUS
A lagarta-elasmo possui hábito alimentar polífago, proporcionando sérios danos a diversas culturas de importância econômica como milho, cana-de-açúcar, trigo, soja, arroz, feijão, sorgo, amendoim, algodão, dentre outras. As injúrias são provocadas quando a lagarta penetra na região do colo, logo após
Figura 1 - Controle de S. frugiperda no milho com inseticidas aplicados nas sementes
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BROCA-DA-CANA-DE-AÇÚCAR, DIATRAEA SACCHARALIS
O dano dessa praga é proporcionado em sua fase larval, que após a eclosão perfura a planta ainda na fase de “cartucho”, promovendo orifícios ao longo da folha no sentido transversal. Caso a infestação seja precoce, as larvas podem aprofundar no cartucho e matar a planta logo após a emergência da cultura. Nas plantas mais desenvolvidas, o dano das larvas ocorre através da alimentação do interior dos colmos, produzindo galerias que enfraquecem a planta, tornando-a propensa ao quebramento. O controle deve ser feito preferencialmente quando as lagartas estiverem nos primeiros instares larvais com inseticidas. Outra alternativa é a utilização do controle biológico através de parasitoides como Trichogramma galloi (Hymenoptera: Trichogrammatidae) e Cotesia flavipes (Hymenoptera: Braconidae) e o uso de plantas Bt.
CIGARRINHA, DALBULUS MAIDIS
A espécie Dalbulus maidis é responsável por perdas expressivas na produção do milho, principalmente por transmitir para
Figura 2 - Número de plantas com sintomas de ataque do percevejo barriga-verde por tratamento aos nove dias após a segunda aplicação dos inseticidas. Selvíria, MS
as plantas patógenos que proporcionam o enfezamento do milho. O aumento da incidência da praga e consequentemente de seus danos está diretamente relacionado a áreas em que se cultiva o milho de segunda época ou “safrinha”, onde os prejuízos causados por essas doenças têm sido maiores, como na região Centro-Oeste do País. O controle da cigarrinha é realizado através da pulverização de inseticidas registrados para este alvo.
MOSCA-BRANCA, BEMISIA TABACI - BIÓTIPO B
São insetos pequenos com aproximadamente 1mm a 2mm de comprimento; apresentam dois pares de asas membranosas de cor clara, recobertas por uma pulverulência branca, enquanto o corpo é recoberto por uma cera extracuticular amarelada, dando aspecto de uma pequena mosca. As fêmeas da espécie possuem uma preferência para oviposição principalmente na primeira e segunda folha de milho, mas também são capazes de colonizar as folhas em desenvolvimento. Ainda não há informações relatando as injúrias provocadas na cultura do milho, bem como não há informações de controle da praga nesta cultura.
Tabela 1 - Tecnologias Bt disponíveis para cultivo e respectivos graus de resistência (Moderado (M); Suscetível (S); Resistente (R)) em folhas contra lagartas recém-eclodidas de Spodoptera fugiperda Evento Yieldgard; Agrisure TL Herculex™ Viptera™ AgrisureViptera™ Optimum™ Intrasect™ VT PRO™ Power Core PW/Dow VTPROMax™ C
Proteína (s)/Toxina (s) Cry1Ab Cry1F VIP3Aa20 Cry1Ab + VIP3Aa20 Cry1Ab + Cry1F Cry1A.105 + Cry2Ab Cry1A.105 + Cry1F + Cry2Ab Cry1A.105 + Cry1F + Cry2Ab
Lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) M S R R M R R R
Moderado (M); Suscetível (S); Resistente (R). Fonte: adaptado de Bernardi (2016)
PERCEVEJO BARRIGA-VERDE, DICHELOPS MELACANTHUS
A utilização do sistema de plantio direto e o uso intenso das áreas por cultivo de milho safrinha têm favorecido o crescimento populacional do percevejo barriga-verde, Dichelops melacanthus, que promove danos às plantas de milho no início de seu desenvolvimento, quando injeta toxinas no colo das plântulas durante seu processo de alimentação, causando redução no estande e do vigor, além do perfilhamento. Entre os métodos de controle, o uso de inseticidas é o mais eficaz, podendo ser realizado preventivamente, através do tratamento de
sementes e via pulverização foliar. Em pesquisas realizadas pela equipe do professor Geraldo Papa, da Unesp – Ilha Solteira, constatou-se a eficiência do uso de neonecotinoide + piretroide, no controle do percevejo barriga-verde, aplicado em pós-emergência. C Geraldo Papa, João Antonio Zanardi Jr, Roberto da Silva e André Gonsales Amaral, Unesp Crebio José Ávila Embrapa Agropecuária Oeste
Capa
Fotos Luis Felipe Manso Lombardi
Distante do fim Passados quase quatro anos desde a identificação oficial da lagarta Helicoverpa armigera no Brasil, o desafio representado por esta praga segue muito longe de solução definitiva. Experiências negativas em outros países e o registro recente de casos não esporádicos do inseto em campos de soja, especialmente cultivos não Bt, áreas de pousio e soqueiras de algodão, principalmente em Mato Grosso, bem como relatos de ataques em outros estados como Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, dão o tom da dimensão do problema. É preciso redobrar os esforços conjuntos, para que erros cometidos no passado com outras pragas, como a mosca-branca, não se repitam no País
E
m 2013 notificou-se pela primeira vez a ocorrência de Helicoverpa armigera no Brasil e, à exceção de alguns órgãos que mantiveram suas pesquisas em torno do assunto, pouca coisa de concreto foi feita em relação ao manejo dessa praga. Mesmo com toda importância dada a este inseto nos anos que se seguiram, a partir do registro de moléculas inseticidas para o controle da lagarta e do aumento das áreas cultivadas com soja Bt, os estudos em relação à H. armigera diminuíram, e o que é pior, o Brasil ainda se encontra na dependência de portarias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para manutenção do “estado de emergência fitossanitária” e com isso obter a autorização para uso emergencial de alguns produtos ainda não registrados para a praga em questão.
O mais curioso é que apenas cinco estados brasileiros (o que é incoerente devido à ampla distribuição da H. armigera no País) pediram essa liberação, e desde então sua prorrogação ocorre anualmente. A dificuldade em se registrar agroquímicos e, neste caso, não só para H. armigera, se dá por vários motivos, entre eles a morosidade com que órgãos públicos emitem registros no Brasil. Atualmente, são necessários de cinco a dez anos para que um produto possa ser comercializado no país. Muito longe de desmerecer as exigências dos órgãos responsáveis pelo processo e tampouco a necessidade dos estudos em relação aos produtos químicos (fases extremamente importantes), a modernização dessa legislação torna-se necessária e urgente, uma vez que a falta de opções pode levar os produtores à adoção de defensivos
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não registrados e/ou contrabandeados, que não possuem controle de qualidade, e por desconhecimento do que está sendo pulverizado coloca-se em risco a própria agricultura brasileira, seus usuários e o ambiente, além da perda de arrecadação de impostos para o País. Essa é uma questão que se espera ser discutida em breve, pois está em tramitação no Congresso Nacional um Projeto de Lei (nº 3.200/2015) que reduz para até 180 dias o prazo para este tipo de registro. Passados quase quatro anos da constatação oficial de H. armigera no Brasil, os problemas decorrentes da presença da praga nos cultivos agrícolas infelizmente foram sendo minimizados, uma falha, considerando a importância mundial deste inseto e a necessidade de estudos aprofundados em território brasileiro, principalmente relacionados à sua dispersão, biologia, comportamento em diferentes hospedeiros e regiões, táticas de controle, entre outros. Essa falta de informação arrisca comprometer o entendimento da praga e seu controle, e a possibilidade de que se enfrente novos ataques passa a ser iminente, já que se tem a sensação equivocada de que o problema “H. armigera” foi superado. Entretanto, acredita-se que a não ocorrência de surtos da praga nas últimas safras se deve ao empenho da cadeia produtiva em controlá-la e, portanto, não se pode deixar de reconhecer a contribuição das instituições públicas e privadas de Ensino e Pesquisa, em informar e orientar o produtor sobre como enfrentar esse inseto no campo. Sem essa contribuição, que muitas vezes foi vista como alardes exagerados, provavelmente o sucesso da lagarta em detrimento dos cultivos no Brasil seria bem maior. Porém, apesar dos alertas, estão sendo repetidos os mesmos erros cometidos no passado em relação às pragas exóticas, como é o caso da mosca-branca (Bemisia tabaci biótipo B). Após 20 anos desde a sua identificação
Fotos Cecilia Czepak
Figura 1 - Flutuação media da população de Helicoverpa armigera em 27 municípios de Goiás ao longo do ano de 2015 e inicio de 2016 em dois sistemas de cultivo, irrigado e sequeiro
O monitoramento de modo contínuo antes, durante e depois do plantio é medida que se impõe no combate ao inseto
em território brasileiro, as pesquisas pouco avançaram e atualmente, com raras exceções, os produtores têm como única ferramenta de controle os inseticidas, dos quais, muitos perderam eficácia ao longo dos anos e, além disso, o país já está enfrentando um novo biótipo de B. tabaci. Entender o porquê desse equívoco talvez não seja tão difícil, já que, também em relação à H. armigera, os produtores brasileiros se encontram na dependência quase que exclusiva de ferramentas químicas para seu controle. Embora tenham sido apresentadas outras formas de manejar essa praga (vide Quadro 1 e 2 com a exposição das diferentes táticas de manejo disponíveis para os produtores conforme a evolução da praga e da cultura). Sem contar as frequentes epizootias de fungos entomopatogênicos e a significativa presença de lagartas e pupas parasitadas de H. armigera observadas em vários cultivos se apresentando como importantes agentes naturais de controle biológico. Contudo, sempre se escolheu a ferramenta química como principal forma de controle, talvez por se apresentar ao produtor de forma mais cômoda, com resultados rápidos e “dispensar” mão de obra especializada. Um erro grave, pois em um país onde a agricultura é base de sustentação para a economia, manter-se tão dependente de uma única ferramenta pode ser no mínimo perigoso, tanto sob o ponto de vista socioambiental como econômico, ainda mais quando se trata de uma praga como a H. armigera. Basta lembrar que as perdas anuais causadas por insetos-pragas chegam a 12 bilhões de dólares no Brasil, sendo que 1,6 bilhão de dólares é consequência dos ataques de pragas quarentenárias. Além disso, segundo a Defesa Agropecuária/Mapa, a H. armigera pode gerar, somente nas culturas de soja, milho e algodão, um prejuízo em torno de R$ 2 bilhões/ano, sem contar os danos ocasionados em hortaliças por esta praga. Em levantamento feito pelo
mesmo órgão, no estado do Mato Grosso, para o controle desta praga há um acréscimo nos custos de produção de R$ 85,00/ha. Este valor corresponde até três aplicações de inseticidas a mais, podendo ainda aumentar dependendo da época e da intensidade do ataque. A partir de 2013, o Mapa passou a considerar H. armigera presente em vários estados brasileiros e sua erradicação, com certeza nem pôde ser aventada, já que casos de ataque da praga foram se multiplicando entre regiões e cultivos ao longo dos meses. Recentemente, estudos de genética de populações comprovaram que H. armigera está há mais tempo do que se preconiza no Brasil e sua detecção, infelizmente, foi tardia. Suspeita-se da sua presença em território brasileiro desde 2005, pois surtos de Heliothinae foram observados nesse ano. Porém, as lagartas foram identificadas como Chloridea virescens ou H. zea
devido à grande similaridade da forma jovem dessas espécies. Isso explica a impossibilidade de erradicá-la ou pelo menos impedi-la de se disseminar. Levando em consideração o grande potencial de H. armigera como praga em Goiás, por meio de um esforço em conjunto com Agrodefesa, Lanagro/Mapa, Emater, Faeg e UFG, tendo como suporte financeiro a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), estão sendo mantidos vários estudos sobre este inseto e já é possível dizer que em Goiás, H. armigera tem sua presença comprovada de Norte a Sul em diferentes regiões e sistemas agrícolas, tornando-se praga-chave não só em cultivos de soja e algodão, mas também em cultivos irrigados de tomate, feijão e milho doce, e sendo provavelmente estas as culturas hospedeiras e multiplicadoras da praga nas entressafras.
Casos de ataques de Helicoverpa armigera estão se multiplicando nas regiões produtoras à medida que o plantio da nova safra avança
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Ainda em Goiás, estudos (dados ainda não publicados) demonstram a presença constante da praga ao longo de todo o ano, mesmo durante as estações secas (Figura 1), resultado preocupante, uma vez que isso pode comprovar a sobrevivência deste inseto sem maiores dificuldades apesar das condições climáticas desfavoráveis ao seu desenvolvimento. Este fato serve de alerta para que seja mantido de forma contínua o monitoramento antes, durante e após os plantios. Essa praga, conforme comprovaram estudos no exterior e no Brasil, mesmo em populações reduzidas, é capaz de causar danos irreversíveis, pois tem preferência pelas partes reprodutivas das plantas (Quadro 3). Sem contar que em pesquisas recentes, desenvolvidas na Escola de Agronomia/UFG e ainda não publicadas, constatou-se uma taxa de aumento popu-
lacional de uma geração para outra acima de 50 vezes, podendo apresentar até sete gerações ao ano, conseguindo em uma cultura como a soja manter-se por até duas gerações ou mais. É possível, ainda, que estas gerações possam se sobrepor, devido ao comportamento da praga em manter uma parte da população em diapausa conforme cita a literatura, o que dificultaria um controle satisfatório, principalmente se baseado somente na ação química. Além disso, essa espécie apresenta alto potencial para a evolução da resistência a inseticidas. De acordo com o Irac (Comitê de ação a resistência a inseticidas) já existem relatos de resistência de H. armigera a piretroides, carbamatos, organofosforados, fipronil, spinosad e indoxacarb em 265 localidades, tais como Austrália, China, Índia, Paquis-
Quadro 1
Quadro 2 - Sugestões de Táticas do Manejo Integrado de Pragas disponíveis para Helicoverpa armigera a partir do desenvolvimento da praga e/ou da cultura Táticas de controle* Armadilhas com feromonio da praga Revolvimento do solo caso a presença de pupas seja evidenciada Uso de produtos biológicos de ação sobre as pupas Destruição de tigueras, soqueiras e plantas espontâneas Controle de lagartas na dessecação Estabelecimento de janelas de plantio menores Adoção de tecnologia Bt, mantendo áreas de refugio Tratamento de sementes com inseticidas de ação comprovada sobre a praga Aplicação de Iscas atrativas + inseticida para adultos Liberação de Trichogramma Uso de produtos biológicos como Bacillus thuringiensis e o Baculovírus Padronização de estratégias para uso do controle químico Inseticidas seletivos manejando produtos pelo mecanismo de ação Uso preferencial de produtos com ação de choque, contato e ingestão * Táticas dependentes de um monitoramento continuo na área
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Fases da cultura e/ou da praga 2 3 4 5 6
tão, entre outros. Ainda sobre resistência, a literatura internacional relata a obtenção, na China, de população com razão de resistência de 24 vezes em apenas 15 gerações da praga.
O RETORNO DA PRAGA EM SURTOS PREOCUPANTES
Evidenciaram-se no início desta nova safra casos não esporádicos, da presença de H. armigera em campos de soja, especialmente cultivos não Bt, áreas de pousio e soqueiras de algodão, principalmente no estado do Mato Grosso. Algo preocupante, por ser este estado o maior produtor das culturas de soja (safra 15/16 foram plantados 9.140.000 hectares de soja), milho (3.800.100 hectares de milho) e algodão (660.400 hectares de algodão). Resta saber se é um prenúncio da volta em grande escala de H. armigera ou apenas a resposta comportamental da praga ao descaso com que está sendo tratado o problema na região. Insetos da subfamília Heliothinae são conhecidos por persistirem em baixas densidades populacionais em plantas ou áreas que, aparentemente, não lhe são adequadas, como tigueras, soqueiras e plantas infestantes. Com isso, o aumento populacional e, consequentemente, surtos da praga em cultivos agrícolas passam a ser inevitáveis. Infelizmente, não somente no Mato Grosso, mas também em Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, os casos de ataques de H. armigera estão se multiplicando, à medida que o plantio da nova safra avança, obrigando produtores a começar as aplicações logo após a emergência das plantas. Casos de até três aplicações consecutivas para o controle da praga já foram relatados nesta nova safra, e médias de até quatro lagartas recém-emergidas/ metro em soja convencional foram quantificadas em monitoramentos, o que deixa muitos produtores em alerta, pois quem viveu o problema da “Helicoverpa” sabe que o seu descontrole pode causar danos irreversíveis. A dinâmica populacional dessa praga envolve vários fatores dos quais se pode destacar a capacidade de realizar migrações de curto e longo alcance para encontrar hospedeiros adequados, ou mesmo seu alto potencial de sobrevivência às condições adversas, como nos longos períodos de seca que passam os mais importantes sistemas agrícolas do Brasil. É possível definir melhor esse comportamento como um processo de “estivação” (estiva dos períodos de seca) pelo qual a H. armigera, em épocas de adversidades ambientais, pode reduzir seu metabolismo para atingir um
Luis Felipe Manso Lombardi
Quadro 3 - Resultado de campo demonstrando o potencial de risco de Helicoverpa armigera na cultura da soja na fase reprodutiva, uma semana após o controle químico da praga. Palmeiras de Goiás/GO Monitoramentos
Lagartas pequenas Lagartas medias Lagartas grandes Total de % de plantas c/ % de vagens (L1/L2) (L3/L4) (L5/L6) lagartas vagens atacadas atacadas/planta Antes do controle químico (11/01/14) 0,37 0,62 0,81 1,8 43 8,2 Após o controle químico (18/01/14) 0,1 0,15 0,35 0,6 84 22
que não é possível dar-se ao luxo de perder essas tecnologias. Vale ressaltar que estudos devem ser mantidos e outros retomados, para que o País não seja novamente surpreendido por surtos altíssimos da praga, como no passado, quando da ocasião da sua identificação oficial. O que não pode se repetir são os ataques disseminados e escalonados em diferentes regiões do Brasil, causando prejuízos incalculáveis, ou mesmo permitir um desastre como o ocorrido em 1973 na Austrália, no vale do rio Ord, região tropical norte do país localizada a 15º ao sul do Equador, onde toda a indústria do algodão da região entrou em colapso devido a fatores como a resistência de H. armigera a inseticidas, que obrigaram os produtores a fazer até 40 pulverizações para o controle da praga, o que tornou a atividade inviável econômica e ambientalmente. Coincidência ou não, esta região australiana se encontra em latitude semelhante a importantes regiões produtoras de Goiás e Mato Grosso. É preciso juntar forças e definir metas, tanto para as pesquisas a serem desenvolvidas, bem como para manter os produtores em alerta no quesito detecção da praga, já que seu controle é facilitado quando a H. armigera é constatada ainda nos primeiros estágios. Além do mais, a conscientização
estado de dormência similar à hibernação que objetiva superar os períodos de calor e desidratação. Além disso, outros fatores como temperatura, umidade e até as fases da lua podem comprometer a dinâmica populacional dessa praga. Há de se considerar também que nos países de origem da H. armigera, como na Austrália, foi comprovada sua presença em anos alternados, pois o efeito migratório está condicionado às condições climáticas das regiões. Neste país, as chuvas de outono/inverno facilitam o crescimento de plantas nativas hospedeiras, as quais a praga se desenvolve aumentando sua população, e com isso provocando surtos nos cultivos de verão em diversas regiões. Considerando esse fato e os plantios consecutivos de verão e inverno no Brasil, esta praga pode se perpetuar na área aparecendo em surtos, decorrentes do escasso manejo ou mesmo do desmazelo com que o produtor conduz a área, antes, durante e após os cultivos. Entretanto, é possível considerar que o relativo sucesso no controle da H. armigera nas últimas safras se deve a fatores como a comprovada eficácia dos químicos utilizados, tanto no tratamento de semente, como em pulverização e a adoção da tecnologia Bt. Porém, não são a solução para o problema da H. armigera no Brasil. Sendo assim, é importante ressaltar a necessidade de preservar essas ferramentas por meio da adoção e manutenção contínua de áreas de refúgios e a rotação dos mecanismos de ação dos inseticidas, ou seja, um programa de manejo de resistência para inseticidas e para cultivos Bt se faz necessário, uma vez
Cecilia Czepak, Rafael F. Silvério, Matheus Le Senechal, Karina A C. Godinho, Humberto O. Guimarães, Tiago Carvalhais, Mariana A. Ortega e Luis F. M. Lombardi, Escola de Agronomia/UFG Wanderlei D. Guerra, Superint. Fed. de Agric. MT/Mapa
Cecilia Czepak
Helicoverpa armigera em soja no município de Campo Verde do Parecis, Mato Grosso
dos produtores se torna fundamental, por meio de programas educacionais contínuos, pois somente a informação poderá levar os interessados na área a entender a importância do problema enfrentado. Vale ressaltar que a rapidez com que populações resistentes dessa praga evoluem torna o problema ainda mais grave. Portanto, produtores, consultores, pesquisadores, empresas e órgãos do governo devem se unir para preservar essas tecnologias por meio do estabelecimento de um efetivo e contínuo programa de manejo integrado de pragas, juntamente com um manejo de resistência eficaz e adaptado às diferentes regiões agrícolas brasileiras, mais precisamente retomar aquilo que foi discutido nas inúmeras reuniões feitas no ano da C constatação da praga no Brasil.
Presença de adulto de Helicoverpa armigera em sorgo dessecado, no município de Palminópolis, em Goiás
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Trigo
Potencial maximizado Fotos Fernando Fávero
Produzir trigo de modo a atender aos requisitos de qualidade e produtividade é um grande desafio no Brasil. Entre os entraves está o acamamento, capaz de gerar severos prejuízos. O manejo de reguladores de crescimento é uma alternativa viável para minimizar esse problema. Contudo, para que sua resposta seja positiva, outros fatores devem ser considerados, como sensibilidade de cultivar, população de plantas utilizada, condições ambientais, adubação nitrogenada e fertilidade do solo
O
consumo anual de trigo no Brasil é acima de 10 milhões de toneladas, porém apenas 50% dessa demanda é produzida pelo Brasil. Os países onde o Brasil mais importa trigo são: Argentina, EUA, Paraguai e Uruguai. O Paraná é o maior produtor nacional de trigo, cultivando uma área de 1,3 milhão de hectares, representando 50% da área cultivada no país. Apesar da oferta de área para produção de trigo no País, o setor passa por dificuldades técnicas e comerciais, associadas à instabilidade de produção. A exigência por tipificações de farinhas pelos moinhos tem desafiado os programas de melhoramento e produtores brasileiros. Algumas cultivares de trigo produzem características de farinha que são desejadas pelos moinhos, porém não possuem aspectos
agronômicos que permitam expressar o potencial de rendimento desejado pelos produtores. Uma das características importantes para produção de trigo é o acamamento, que pode reduzir em até 50% o potencial produtivo. As perdas geradas pelo acamamento estão correlacionadas ao tipo de dano e à época em que ocorre. O acamamento no período reprodutivo do trigo causa prejuízos maiores. Ventos e altas precipitações provocam a quebra ou dobra dos colmos, reduzindo a taxa fotossintética e o fluxo de fotoassimilados na planta, comprometendo o rendimento de grãos através da diminuição da massa de grãos. Muitas das espigas das plantas acamadas ainda podem sofrer ataques de doenças de espiga por se apresentar na parte mais úmida do dossel, causando perdas de qualidade da produção.
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A resistência genética ao acamamento é uma característica desejável no lançamento de cultivares, visto o potencial de perdas. A resistência ao acamamento está amplamente relacionada com o porte da planta. Cultivares de porte elevado possuem maior sensibilidade ao acamamento. A densidade elevada de plantas e a adubação nitrogenada também favorecem o acamamento das plantas de trigo. O nitrogênio, quando disponível em excesso, pode ocasionar toxidez à planta pelo acúmulo de NH4+ nos tecidos, que associado à baixa luminosidade consome carbono gerado pela fotossíntese, enfraquecendo os tecidos de sustentação e promovendo o acamamento das culturas. A população de plantas interfere no rendimento da cultura do trigo, sendo a população
Figura 1 - Importação e produção de trigo pelo Brasil
ideal dependente da interação entre a cultivar e as condições do clima e solo em que se desenvolve. Cultivares de trigo que apresentem elevada capacidade de produção de afilhos férteis têm menores respostas ao aumento do número de plantas por área. O aumento da população de plantas de trigo eleva a proporção de plantas-mãe, que são mais altas em relação aos afilhos, favorecendo o acamamento. A maior quantidade de plantas por área aumenta a competição intraespecífica, eleva a altura das plantas e deixa os colmos mais fracos, o que favorece o acamamento. O volume de sementes utilizado para o estabelecimento da cultura do trigo impacta no custo de produção. Por outro lado, a redução do número de plantas por área pode diminuir o rendimento de grãos.
O manejo com reguladores de crescimento na cultura do trigo é uma alternativa viável para reduzir o acamamento. O Figura 2 – Estádio recomendado para princípio ativo mais aplicação do regulador de crescimento utilizado nesse manejo é o trinexapaque-etílico. Este produto atua elevadas, sem problemas com acamamento, inibindo a elongação celular, provocando e explorando o potencial das cultivares. A redução dos entrenós e consequentemente do época de aplicação recomendada para o colmo das plantas. A diminuição da elongação trinexapaque-etílico na cultura do trigo ocorocorre pela inibição temporária da produção re quando as plantas apresentarem o 1º nó de ácido giberélico pela planta. As giberilinas visível (Figura 2), na dose de 100g/ha a 125g/ são os fitormônios relacionados ao crescimento ha de ingrediente ativo. Quando a aplicação vegetal. O uso de redutor permite explorar do regulador de crescimento ocorre antes da populações e adubações nitrogenadas mais fase ideal, seu efeito na redução da altura das
Figura 3 - Efeito da população de plantas e aplicação de regulador de crescimento no Figura 4 - Efeito da população de plantas e aplicação de regulador de crescimento no rendimento de grãos de trigo, cultivar CD 150, Cafelândia (PR), 2014 rendimento de grãos de trigo, cultivar Mirante, Cafelândia (PR), 2014
** significativo a 1% pelo teste F
** significativo a 1% pelo teste F. * significativo a 5% pelo teste F.
Fotos Fernando Fávero
A
Tabela 1 - Efeito da aplicação de regulador de crescimento no rendimento de grãos de duas cultivares de trigo na média de cinco populações de plantas
B
Cultivar CD 150 Mirante Média
Sem regulador Com regulador Média Rendimento de grãos (kg/ha) 5527,1 aB 5978,7 aA 5752,9 5571,9 aB 6479,6 bA 6025,7 5549,5 6229,1 5889,3
Médias seguidas da mesma letra maiúscula na horizontal e minúscula na vertical não diferem entre si pelo teste de Tukey (p<0,05).
Figura 5 - Efeito da aplicação do regulador de crescimento (B) no ângulo de inserção das folhas (parte superior) e na redução do acamamento das plantas (parte inferior) quando comparada à não aplicação (A), cultivar Mirante
plantas é minimizado. Já quando aplicado após a fase ideal, promove a redução dos entrenós mais próximos à espiga do trigo, podendo causar retenção dentro da folha bandeira. Neste caso o efeito pode ser detrator do rendimento. Não é recomendado aplicar o produto ante à condição de estresse hídrico, uma vez que, nessa situação, as plantas já tendem a ficar com o porte reduzido, podendo a aplicação causar redução no rendimento de grãos. No âmbito de entender esta dinâmica, implantou-se um experimento na safra 2014, em Cafelândia, Paraná, com o uso de duas cultivares de trigo, Mirante (maior altura e sensibilidade ao acamamento) e CD150 (menor altura e sensibilidade ao acamamento), em cinco taxas de semeadura (120, 240, 360, 480 e 600 sementes viáveis/m2), com e sem
aplicação do regulador de crescimento. Houve uma redução de 6,5cm nas parcelas que receberam a aplicação do regulador de crescimento. Na cultivar CD 150 (Figura 2), o rendimento de grãos reduziu em função do aumento do número de sementes por área quando não utilizado o regulador de crescimento. Quando o regulador foi aplicado, não houve resposta significativa para a população de plantas e o rendimento de grãos foi superior quando comparado à não aplicação. A diferença de rendimento foi proporcionalmente maior quanto mais alta a população de plantas. Para a cultivar Mirante (Figura 4), o aumento da população causou redução do rendimento de grãos quando não foi aplicado o regulador. Quando o regulador foi aplicado, houve resposta quadrática para rendimento
de grãos em função do aumento do número de plantas por área. A população de máximo rendimento foi de 364 sementes viáveis/m2. Quando comparadas as médias de rendimento de grãos das diferentes populações entre as duas cultivares sem a aplicação do regulador, o rendimento foi similar. Com a aplicação do regulador a cultivar Mirante (sensível ao acamamento) produziu mais em função da redução do acamamento (Tabela 1). Além de reduzir a altura e o acamamento das plantas de trigo, a aplicação do regulador de crescimento modifica o ângulo de inserção das folhas na planta, deixando-as mais eretas. Essa modificação pode ser favorável para melhorar a penetração de luz e produtos fitossanitários no dossel das plantas, esse é um benefício secundário do uso do produto (Figuras 5 e 6). O uso do regulador de crescimento diminui a altura das plantas de trigo, modifica o ângulo de inserção das folhas, deixando-as mais eretas, e reduz o acamamento. Essa prática pode incrementar o rendimento de grãos de trigo. A resposta positiva depende da sensibilidade da cultivar ao acamamento, população de plantas utilizada, condições ambientais, adubação nitrogenada e fertilidade do solo. A necessidade de uso deve ser ponderada em função da situação de cada lavoura. C Tiago Madalosso e Fernando Fávero, Estação Experimental Copacol
Figura 6 - Severidade de mancha foliar (Drechslera tritici-repentis) em função da aplicação de regulador de crescimento no trigo, Cafelândia (PR). Teste de Tukey (p>0,05)
Madalosso e Fávero abordam manejo de reguladores de crescimento na cultura do trigo
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Especial
Expedição China Charles Echer
Durante dez dias produtores do Brasil percorreram os caminhos da soja brasileira em solo chinês, onde conheceram o mercado e as principais demandas do gigante asiático
D
e 18 a 28 de setembro a Revista Cultivar, em parceria com a AgroBravo, participou da Expedição China, com o objetivo de percorrer os caminhos da soja brasileira em território chinês e conhecer o tamanho do mercado para os produtos brasileiros naquele país. Durante quase dez dias o grupo de 32 pessoas, formado por produtores e consultores, visitou centros de pesquisa, empresas beneficiadoras de soja, propriedades rurais e diversos pontos turísticos em várias cidades chinesas e também em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A expedição começou na cidade de Beijing com um encontro entre os produtores brasileiros e um membro do Instituto de Ciências Geográficas e Investigação de Recursos Naturais, Liu Aimin. Na pauta a produção e comercialização de soja na China, perfil do consumidor, mercado interno,
importação e exportação do produto para o desenvolvimento da China. Os dados apresentados mostraram o exato tamanho do mercado chinês e a necessidade crescente por alimentos vindos de fora. Numa população de um bilhão e quatrocentos milhões de habitantes, qualquer acréscimo de poucos gramas na média anual de consumo de alimentos gera números exorbitantes. Por exemplo, se a média anual per capita de consumo de carne bovina aumentar 500 gramas de um ano para outro, seria necessário um acréscimo de 700 mil toneladas do produto. Não poderia ser melhor notícia para os produtores brasileiros presentes na expedição. Murilo Teixeira Gonçalves, produtor e pecuarista de São Gabriel (RS), comemora a constatação. “Cada chinês consome anualmente cinco quilos de carne bovina. Isso mostra o quanto as exportações de carne
bovina para a China podem crescer”, explica. “Percebemos também que a capacidade de esmagamento de soja é duas vezes maior que a quantidade realmente esmagada, o que deixa claro que, apesar dos chineses dizerem que a importação se manterá estável nos próximos anos, a tendência é de aumento”, diz. Outro ponto que chamou atenção para ele é o fato de os chineses demonstrarem grande desejo de realizar negociações diretas com os produtores, o que aumentaria ainda mais a competitividade dos produtos brasileiros na China. O pesquisador também falou sobre o desafio de produzir alimentos em seu país e a importância dos principais produtos agrícolas na economia chinesa, principalmente trigo, milho e soja. No ano 2000 a China cultivava aproximadamente oito milhões de hectares de trigo. Hoje a cultura cobre uma área de 24 milhões de hectares, com
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Fotos Charles Echer
A ocorrência da ferrugem-asiática da soja no Brasil trouxe diversas mudanças no sistema produtivo da cultura
produtividade de 4,95ton/ha chegando a um total de 120 milhões de toneladas por safra. A China consome toda a sua produção e ainda importa uma parcela para complementar o consumo. O milho foi a única cultura que cresceu em área e produtividade na China nos últimos anos, alcançando uma produção de 200 milhões de toneladas na última safra. Isso fez com que os estoques ficassem saturados, obrigando o governo a retirar inclusive parte da proteção de preço mínimo utilizada para incentivar o cultivo da cultura. Em 2015 a área cultivada com milho chegou aos 36 milhões de hectares com uma produtividade média de 5,9ton/ ha. Do total da produção, 150 milhões de toneladas são destinadas à alimentação animal e o restante é utilizado para alimentação humana e outros fins. Já o crescimento do consumo de soja na China pode ser medido pelo aumento do número de empresas esmagadoras e beneficiadoras nos últimos anos. De acordo com Aimin, no ano 2000 aproximadamente 60 empresas de médio porte operavam, espalhadas entre as regiões produtoras de soja no país. Hoje são mais de 120 plantas modernas, com pelo menos o dobro de
capacidade das antigas, possibilitando o processamento de mais de 500 mil toneladas/dia. Essas empresas instalaram-se principalmente próximas às regiões portuárias do Pacífico, porta de entrada de grande parte das importações chinesas. Para se ter uma ideia deste crescimento, no ano 2000 o total de soja importada pela China equivalia à produção de 6,75 milhões de hectares. Em 2015 foi importado o equivalente a 64,26 milhões de hectares e desde 2013 o Brasil é o maior exportador de soja para a China, seguido por Estados Unidos e Argentina. Esse aumento de demanda é consequência do crescimento econômico do país que avança na casa dos 6,5% ao ano. Com mais recursos, os chineses incrementaram a sua alimentação, multiplicando por dez o consumo de aves e quatro o consumo de carne suína nos últimos anos, além de ovos e leite. Para os próximos anos a tendência é a manutenção dos patamares atuais de importação de soja e aumento em itens como carne bovina e leite, por conta da escassez de terra para produção destes alimentos e também porque os chineses preferem criar animais de menor porte, como porcos e frangos, que são fáceis de serem produzi-
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dos em pequenas propriedades, além de utilizarem o esterco como adubo orgânico. Esta expectativa anima também o pecuarista Guilherme Teodoro, de Vilhena (RO). Ele, que viajou para entender o mercado e encontrar oportunidades para seu negócio, acredita que a carne bovina brasileira tem um enorme potencial no mercado chinês. “Se o consumo aumentar, Austrália e Estados Unidos, que são os principais fornecedores de carne bovina para a China, não darão conta sozinhos, e nós produzimos a carne mais barata do mundo e com grande qualidade, o que possibilita ampliar a participação do Brasil neste segmento”, avalia. Para o estudante de Agronomia Bruno Katzer, de Jataí (GO), que viajou para a China com o seu pai, Airton, e sua irmã, Gabriela, os números chineses surpreenderam principalmente pela baixa capacidade de produção de alimento dos chineses. “Eu já conhecia a grande demanda chinesa por alimentos, mas essa viagem me fez perceber que apesar da grande extensão territorial há pouca área produtiva e cultivável e apesar de terem tecnologias e técnicas avançadas em outras áreas, as propriedades rurais ainda praticam uma agricultura bastante rudimentar e enfrentam dificuldades”, explica Bruno. A constatação de Bruno se deve principalmente a uma das visitas técnicas realizadas pelo grupo a uma pequena cooperativa de produtores da nos arredores de Beijing. Na China, os produtores não são donos de suas terras; moram e trabalham em áreas estatais e possuem direito de explorar da maneira que melhor entendem a parcela destinada a cada um, podendo inclusive arrendar. Esta prática foi instituída em 1980 pelo governo chinês, que oferece um pedaço de terra entre 0,5 e cinco hectares distribuídos de acordo com o tamanho da família e região onde vivem. Alguns produtores exploram sozinhos o seu pedaço de terra, mas um exemplo típico de como trabalham os camponeses chineses é a cooperativa de camponeses Man Cun He, formada por 18 famílias que juntam suas terras e seus trabalhos como forma de aumentar seus rendimentos. Liderados pelo senhor Yang, um produtor de 80 anos de idade, os camponeses cultivam uma área total de aproximadamente 90 hectares, onde produzem soja orgânica em 27 hectares e milho em 55 hectares. De acordo com Yang, a produção de soja alcança 50 sacas/ ha. Com poucos recursos para produzir eles aproveitar ao máximo os escassos espaços disponíveis, cultivando grãos consorciados com outras culturas e até mesmo árvores ornamentais.
Airton Katzer e seus filhos Gabriela e Bruno viajaram para conhecer e entender melhor o mercado chinês
De acordo com o pesquisador responsável pelo Escritório de Tecnologia da Soja, da Academia de Ciências Agrícolas da China, Huang Heng Liu, três características principais diferem o cultivo chinês do brasileiro: rotação de culturas com trigo e milho; escarificação profunda do solo no outono para descompactar a terra que ficou congelada durante o inverno de até 45 graus negativos; e cultivo em camaleões para conservar a água e a temperatura, uma vez que o verão é bastante quente e a precipitação na região é baixa. A produtividade varia bastante de região para região e 50sc/ ha é considerada uma produtividade boa.
VISITAS
As visitas técnicas são parte muito importante nos roteiros organizados pela AgroBravo. É principalmente neste momento da viagem que os grupos têm um contato mais próximo com a realidade de cada país e conseguem entender como é o dia a dia de empresas, produtores, cooperativas e feiras agrícolas. O objetivo principal dos roteiros elaborados pela AgroBravo é oferecer aos produtores a possibilidade de
A Hopefull Group possui o maior armazém de grãos do mundo com capacidade de 800 mil toneladas
conhecerem o máximo possível a realidade dos países visitados. “Procuramos sempre desenvolver um roteiro baseado nos negócios de nossos clientes, possibilitando assim que eles entendam melhor a realidade do país que estão visitando”, explica Julio Bravo, diretor da agência. Durante e Expedição China, o grupo realizou seis visitas técnicas em diferentes setores, como empresas esmagadoras de soja, cooperativas, centros de pesquisa e fábricas de máquinas agrícolas. No primeiro dia em solo chinês o grupo visitou uma das unidades da empresa Hopefull Group, com capacidade de processar sete mil toneladas de grãos por dia e 600 mil toneladas por ano. Contando com suas outras unidades, a Hopefull Group consegue beneficiar
três milhões de toneladas por ano. Esta mesma unidade, instalada nos arredores de Beijing, possui o maior armazém de grãos do mundo, com capacidade para 800 mil toneladas, que fica ao lado de uma ferrovia pública e distante 175km do terminal portuário. Outra empresa visitada que também opera no processamento de soja é a Jiusan Group, um grupo empresarial estatal com 12 unidades na China, metade delas na província de Hei Long Jiang e a outra metade em diferentes regiões do país, além de três sucursais de negócios instaladas em São Paulo, Chicago e Hong Kong. Atualmente, as 12 unidades da empresa são responsáveis por moer 12 milhões de toneladas de soja ao ano, sendo a processadora com maior capacidade produtiva na China
A Expedição China realizou visitas técnicas em empresas, cooperativas e centros de pesquisa
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Fotos Charles Echer
Murilo, de São Gabriel (RS), vê grande potencial na exportação de carnes
A Muralha da China foi um dos pontos turísticos visitados pelos integrantes da Expedição
e a terceira em processamento de óleo. A unidade de Harbin, que é responsável pelo processamento fino de óleo, somente utiliza soja convencional por causa de regras provinciais que proíbem o processamento de soja transgênica. A última visita da expedição foi na fábrica Grupo CNH. Fundada em junho de 2014, a unidade de Harbin é a única fábrica do grupo em solo chinês. Mesmo com uma capacidade produtiva de 5.450 máquinas por ano, em 2015 produziu pouco mais que duas mil máquinas entre tratores, colheitadeiras e enfardadeiras. Apesar da agricultura chinesa ser, na grande maioria, de pequeno e médio porte, a CNH também produz máquinas maiores para atender a fazendas que são administradas por empresas privadas. A linha de tratores produz modelos da Case IH e New Holland com potências entre 150cv e 250cv. Em 2015 foram fabricadas 250 colhedoras, 700 tratores e 1.200 enfardadeiras.
tados e monitorados para proporcionar um ambiente parecido com o habitat natural com segurança, garantindo a possibilidade de reprodução da espécie. Em Xangai, na cidade mais futurística da China, além de conhecer a parte moderna da cidade, o grupo visitou o Yuyuan Garden, um local que guarda traços da Dinastia Ming entre os séculos 14 e 17, com suas construções típicas. Já na cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que também estava no roteiro da viagem, o objetivo era conhecer os modernos arranha-céus e as avenidas largas. Erguida entre o deserto da Arábia e a costa do Golfo Pérsico, Dubai possui uma das maiores rendas per capita do mundo. Lá está também o maior prédio do mundo,
PONTOS TURÍSTICOS
Entre uma visita técnica e outra, o programa reservou momentos para desfrutar as belezas do país. Além de city tours pelas cidades de Beijing, Xangai e Harbin, dois passeios mereceram destaque. Considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo, a Muralha da China com sua história milenar e seus 6,8 mil quilômetros de extensão foi visitada pelo grupo no último dia na cidade de Beijing. Já na cidade de Harbin, o grupo visitou a maior reserva de tigres siberianos do mundo, uma espécie em extinção que conta com apenas mil exemplares. Esta reserva abriga 500 tigres que são alimen-
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o Burj Khalifa, com 828 metros de altura, de onde o grupo de brasileiros pôde conferir um visual deslumbrante da cidade no skydeck localizado no 124º andar. O grupo também visitou o mercado de especiarias, o famoso mercado de joias Gold Souk, o Burj Al Arab Hotel e a Palm Jumeirah, além de realizar um safári no deserto, onde foi possível conhecer uma fazenda de camelos e desfrutar um jantar típico.
AGROBRAVO
A Revista Cultivar participou da Expedição China em parceria com a AgroBravo Viagens Corporativas. A agência é especializada em viagens de relacionamento e aprendizado para os diversos setores do agronegócio e em serviços customizados à necessidade dos clientes, com roteiros que abrangem os cinco continentes. Entre os destinos mais visitados estão as principais feiras agrícolas mundiais. Mais informações sobre os próximos destinos podem ser obtidas no site da agência: www. C agrobravo.com.
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Além da adubação Cultivar
Como o manejo nutricional inteligente tem auxiliado os produtores a atingirem novos patamares de produtividade pelo Brasil
A
análise físico-química estratificada do solo continua sendo a principal ferramenta para indicar quanto o solo pode fornecer de nutrientes para as plantas. É realizada por meio da coleta de amostras de solo, que normalmente representam extensas áreas. Mesmo considerando uma boa amostragem, a análise química convencional possui algumas limitações de uso, pois a metodologia tradicional para avaliação da disponibilidade dos nutrientes no solo consiste em adicionar à amostra de solo uma solução extratora (exemplo: mehlich, resina, KCl, HCl, Ca (H2PO4)2), determinando-se posteriormente o teor dos nutrientes nesta solução. Como as plantas extraem os nutrientes da solução do solo, o método tradicional de análise pode diferir consideravelmente da real disponibilidade de nutrientes para as culturas. Com o objetivo de mitigar potenciais erros de diagnose, uma opção a ser considerada é realizar também a análise da solução do solo. Ao trabalhar com estas duas análises de solo, tem-se maior assertividade em indicar quanto este pode fornecer de nutrientes para as plantas. A análise de extrato de saturação já é utilizada em diversos países, sendo similar ao já empregado em cultivos com fertirrigação, onde é possível monitorar a concentração de nutrientes na solução do solo e permite intervenções precisas com fertilizantes.
DIAGNOSE DE VERIFICAÇÃO ANÁLISE DE TECIDO FOLIAR
Sabe-se que a máxima produção das culturas depende do equilíbrio entre os nutrientes na planta, caracterizado por proporções bem definidas entre esses elementos. Desse modo, nem sempre estabelecer o teor absoluto do nutriente é suficiente para alcançar altos rendimentos. Em muitos casos, a deficiência relativa, ou seja, a proporcionalidade entre os vários elementos, desempenha papel mais importante. Na realidade, cabe destacar que cada fator de produção atua melhor quando os demais fatores estão próximos de seu ideal (Melo et al, 2016). Existem diversos métodos de avaliar o estado nutricional das plantas, sendo os principais a diagnose visual e a diagnose foliar, embora existam outros como testes de tecidos, testes bioquímicos, aplicações foliares e teor de clorofila (Faquim, 2002). Para o estabelecimento de um adequado nível de nutrição para as plantas, é necessário compreender os padrões normais de acúmulo de nutrientes na biomassa seca (Figura 1). No entanto, a quantidade e a proporção de nutrientes acumulados são funções das características das plantas e dos fatores externos que influenciam esse processo. Os nutrientes extraídos do solo e acumulados pelas plantas variam de acordo com cultivar, manejo do solo, ciclo da cultura e insumos disponíveis para o desenvolvimento de plantas (Benett et al, 2013). Os resultados de análises químicas do tecido vegetal podem ser interpretados por diversos métodos, sobressaindo-se os métodos univariados, como o teor crítico
Uma das grandes limitações da diagnose nutricional é o momento de coleta preconizado para a maioria das culturas, normalmente próximo ao florescimento, padrão que atualmente não serve para o período de monitoramento de muitas culturas, o que limita a adoção de alguma ação corretiva ainda no ciclo de cultivo, casos mais críticos em culturas anuais. Entretanto, o principal gargalo da diagnose foliar é a recomendação. Com as técnicas disponíveis é possível identificar o(s) nutriente(s) limitante(s), mas ainda é restrita a oferta de produtos no mercado com nutrientes isolados para a correção pontual e também são raras as informações com relação ao acúmulo de massa seca (MS) e nutrientes por estádio fenológico. Uma vez que a reposição nutricional se baseia em determinada quantidade de nutriente aplicada por quilo de massa seca, essa informação Figura 1 - Acúmulo de macronutrientes na cultura da soja (Adaptado de Agrichem, 2015) é fundamental para aplicação de dose correta e no melhor momento fisiológico. Infelizmente, na prática, normalmente é desconsiderada a MS no cálculo de reposição.
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Fotos Divulgação/Agrichem
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“O PAMnutri mudou bastante nossa produtividade ao longo de oito anos consecutivos de trabalho”, avaliam José Carlos e Carlos Eduardo Vilas Boas
(TC) e a faixa de suficiência (FS); bivariados, como o sistema integrado de diagnose e recomendação (DRIS), e o multivariado, como a diagnose da composição nutricional (CND) (Melo et al, 2016). A correta interpretação de resultados de análises foliares proporciona informações que favorecem o uso racional de insumos, evita desperdício, melhora o equilíbrio nutricional das plantas e, consequentemente, proporciona aumento da produtividade. Portanto, preconiza-se a utilização de métodos que ofereçam subsídios para um diagnóstico nutricional eficiente e prático, a partir de resultados analíticos das folhas de uma planta ou lavoura (Partelli et al, 2005). O DRIS baseia-se no cálculo de um índice para cada nutriente, comparando-se as relações entre um nutriente e cada um dos demais nutrientes na amostra sob diagnose com as relações envolvendo esse mesmo nutriente em uma população de alta produtividade (Reis Junio; Monnerat, 2002). Já o CND é um método que relaciona os teores dos nutrientes de forma multivariada, desenvolvido por Parent & Dafir (1992) com base no método de análise composicional de Aitchison (1982), concernente à análise estatística de dados de composição, baseando-se na obtenção de variáveis multinutrientes, cada uma delas ponderada pela média geométrica da composição nutricional (Serra et al, 2010). Os métodos DRIS e CND não dependem de ensaios de calibração, uma vez que o uso de relações bivariadas ou multivariadas minimiza os efeitos não controlados da taxa de acúmulo de biomassa (Wadt, 2011).
Elton Zanella e Marcos Adriano Storch, da Agro Zanella, comemoram recorde de produtividade do MT com 100,63 sc ha-1 na safra 2015/16
plantas para elaborar uma recomendação racional de manejo de nutrição. O Programa Agronômico de Monitoramento Nutricional (PAMnutri®) é uma ferramenta inovadora, que além da diagnose precisa, conta com a mais extensa base de dados sobre a demanda nutricional das principais culturas: através de mais de dez anos de pesquisas foram conduzidas centenas de experimentos, que permitiram construir a marcha de absorção, com a demanda precisa de cada nutriente em cada fase do desenvolvimento da cultura, nas principais regiões produtoras do Brasil. O PAMnutri® utiliza modelagem matemática avançada para construir a recomendação de que a cultura realmente precisa, com base na disponibilidade real de nutrientes no solo, as inter-relações entre os elementos, a necessidade da cultura naquelas condições e, não menos importante, a ambição de produtividade do agricultor. De acordo com Carlos Eduardo e José Carlos Vilas Boas, de Unaí, Minas Gerais, a ferramenta permitiu um salto de produtividade em sua propriedade de 5.250 hectares, ao Figura 2 - O Programa Agronômico de Monitoramento Nutricional entrega uma recomendação de nutrição racional, permitindo atingir maiores rendimentos e melhorar a fertilidade do solo ao longo dos anos
longo de nove anos consecutivos. Para os produtores, alguns dos grandes benefícios são a assistência técnica que vem junto com a ferramenta e o know-how em nutrição, que permite o uso eficiente de fertilizantes, atingindo produtividades superiores. “Nós buscamos produzir mais de uma maneira sustentável, e, muito importante, respeitando o meio ambiente.” Para a Agrícola Zanella, que está há 30 anos no estado do Mato Grosso e planta 20 mil hectares de soja, feijão, milho e arroz, a ferramenta é uma oportunidade para melhorar a produtividade e a fertilidade do solo. “Buscamos aumentar a produtividade em 3% ao ano, e o PAMnutri® foi uma oportunidade para um melhor equilíbrio do solo, colocando os nutrientes que a gente precisa na soja.” Na safra 2015/16 o grupo atingiu o recorde de produtividade do Mato Grosso, com incríveis 100,63 sc ha-1, tendo sido campeões do Desafio de Produtividade do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) no Centro-Oeste C com essa marca.
Leonardo Queiroz de Melo, Agrichem
MONITORAMENTO NUTRICIONAL
Já existem ferramentas que se utilizam da diagnose prévia e de verificação descritas anteriormente de forma inteligente, levando em conta a disponibilidade precisa de nutrientes no solo e nos tecidos das
Melo enfatiza a importância da nutrição na busca por maximizar a produtividade
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Manejo preciso de N Charles Echer
Após a realização de diagnósticos é necessária a prescrição de manejos de fertilizantes a fim de fornecer os nutrientes de acordo com as demandas nutricionais e momentos que são determinantes para as culturas, desde a definição de potenciais produtivos até a produtividade final
O
Neste sentido, o uso de fertilizantes de lenta liberação e o momento de aplicação tornam-se ferramentas importantes que contribuem para este suprimento. Fotos Divulgação/Agrichem
nitrogênio (N) é considerado o nutriente de maior exigência pelas plantas e um dos que apresentam menor eficiência na adubação, a demanda é crescente até próximo ao enchimento de grãos para maioria das culturas. Para o milho, o acúmulo máximo se dá em estádio de R5 (Figura 1), onde se torna duvidosa a capacidade atual de alcance das adubações nitrogendadas já aplicadas em semeadura e cobertura, havendo uma remobilização do nitrogênio armazenado em folhas e colmos, que com manejo insuficiente para altas produtividades se torna precoce, levando à senescência das folhas do baixeiro, impedindo o pleno enchimento de grãos e acúmulo total de fitomassa.
A complementação de nitrogênio e atendimento para maior disponibilidade do nutriente ao longo do ciclo vem demonstrando capacidade de respostas pela cultura do milho (Tabela 1). Já para a cultura da soja sua exigência é aproximadamente três vezes superior à da cultura do milho, sendo o acúmulo máximo de nitrogênio em estádio fenológico de R7 (Figura 2). Este suprimento ocorre principalmente através da fixação biológica (FBN), sendo os inoculantes com bactérias selecionadas do gênero Bradyhrizobium uma das formas mais eficientes para o fornecimento de N. Entretanto, o lançamento de cultivares com potenciais elevados de produtividade e ciclos cada vez mais precoces, o avanço do plantio direto na região do Cerrado e possíveis interferências junto à bactéria, como estresses hídricos, amplitudes térmicas por falta de palhada aos solos, pH subótimo dos solos e contato com agentes biocidas (fungicidas, inseticidas e até herbicidas), podem estar provocando prejuízos à FBN. Dessa forma, considerando uma possível queda na fixação simbiótica de nitrogênio no início da fase reprodutiva, assim como frequentemente são encontrados níveis inadequados do nutriente
Pozzan destaca a importância do manejo correto de fertilizantes
Sandini relata respostas positivas ao manejo complementar de nitrogênio via foliar
www.revistacultivar.com.br • Janeiro 2017 • Figura 1 - Acúmulo de nitrogênio pela cultura do milho associado ao manejo de fertilizantes. (Pozzan, 2016, adaptado de Agrichem do Brasil, 2013)
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Figura 2 - Acúmulo de nitrogênio pela cultura da soja e interação com o número de nódulos por planta nos estádios fenológicos. (Pozzan, 2016, adaptado de Agrichem do Brasil, 2014, e Câmara, 2014)
nos tecidos (folha) da cultura nesta fase, os agricultores que empregam alto índice tecnológico têm lançado mão da complementação com fertilizantes nitrogenados líquidos de lenta liberação. A título de exemplo, a Agrícola Zanella bateu o recorde de produtividade de soja do Mato Grosso na última safra, com 100,63sc ha-1, tendo sido campeã de produtividade do desafio Cesb no Centro-Oeste. De acordo com Marcos Storch, responsável técnico da Agrícola Zanella, a produtividade do grupo, que planta 20 mil hectares no estado, cresceu em média 10sc ha-1 com o emprego dessa tecnologia. “Nitamin é um dos
produtos que mais dão resultados em soja”, afirma Storch. O professor Itacir Sandini, da Universidade do Centro-Oeste do Paraná – Unicentro, tem encontrado no Brasil respostas positivas ao manejo complementar de nitrogênio via foliar junto ao florescimento da cultura da soja, e o fornecimento de 3,3kg de N por hectare através de fertilizante de lenta liberação. Assim como os dados de 2016 (Figura 3), outros estudos desde 2008 somam 20 experimentos em soja com incremento médio de 287kg ha-1. Para a cultura do milho, com 26 experimentos, os incrementos médios foram de 793kg ha-1, confirmando respostas viáveis C em produtividade.
Felipe Weber Pozzan, Agrichem
Figura 3 - Produtividade (kg ha-1) em função da aplicação de doses crescentes de Nitamin com diferentes fungicidas no florescimento na cultura da soja. Guarapuava – PR (Pacentchuk & Sandini, 2016) Nitamin supre o nitrogênio gradualmente durante o fim do ciclo, garantindo o enchimento de grãos e o máximo rendimento, com qualidade
Tabela 1 – Produtividade (kg ha-1) em função da aplicação de diferentes fungicidas com ou sem a aplicação de N complementar com Nitamin na cultura do milho. Guarapuava – PR (Pacentchuk & Sandini, 2016) N complementar (L ha-1) 0 10 Controle 15.065cB 16.254 bA Protioconazol+trifloxistrobina 16.106 bNS 16.740 b Fluxapiroxade+ piraclostrobina 17.462 aB 18.978 aA Média 16.211B 17.324 A Fungicida
Média 15.659c 16.423 b 18.220 a 16.767
Médias seguidas pela mesma letra maiúscula na linha (N complementar) e minúscula nas colunas (fungicida) não se diferem estatisticamente pelo teste de Tukey a 5%; NS – não significativo.
06 • Janeiro 2017 • www.revistacultivar.com.br
Mais que nutrição Cultivar
A aplicação dos fosfonatos, além de melhorar o estado nutricional das plantas promove o balanço metabólico para a produção de autodefesas, com consequente aumento da produtividade quando associada ao manejo padrão de pragas e doenças
O
papel dos diferentes nutrientes no crescimento e desenvolvimento das plantas é um dos assuntos mais bem estudados em produção vegetal, o que permitiu grandes saltos de produtividade das culturas nas últimas décadas. Sabe-se que os nutrientes desempenham papel central nas funções essenciais, como respiração e fotossíntese. Da mesma forma, o metabolismo secundário, que exerce papel adaptativo ao meio, de autodefesa contra herbívoros e microrganismos, atração de insetos benéficos e proteção contra raios UV, é fortemente dependente do status nutricional das plantas. Fosfatos, fosfitos e fosfonatos são compostos à base de fósforo, nutriente extremamente importante para os or-
ganismos vivos e que está envolvido em vários ciclos biológicos. Usualmente os fosfatos são os compostos pelos quais o nutriente é suprido às plantas, tratando-se basicamente de produtos derivados do ácido ortofosfórico (H3PO4). Os fosfonatos são moléculas mais estáveis que os fosfitos, pois possuem um radical orgânico (derivado do carbono), ligado à fase inorgânica do sal fosfito. Os fosfonatos possuem o diferencial de se translocarem tanto pelo floema quanto pelo xilema tendo um papel fundamental no carreamento do nutriente presente no sal de fosfonato - K, Mn, etc., ao passo que o próprio fósforo levaria bastante tempo para ser metabolizado e efetivamente aproveitado pela planta. Essa característica os diferencia dos sistêmicos
tradicionais, pois circulam facilmente na planta, desde as raízes até os tecidos novos, chegando, inclusive, até flores, frutos e sementes.
FOSFONATOS, BALANÇO METABÓLICO E AUTODEFESAS
Alguns nutrientes contidos nos sais de fosfonatos exercem papel fundamental no equilíbrio metabólico das culturas quando entram na fase reprodutiva, atuando como catalizadores enzimáticos, sinalizadores celulares, mediando processos vitais como fotossíntese, respiração e assimilação de nitrogênio. Por outro lado, a indução de autodefesas por fosfonatos explica-se pela produção induzida de fitoalexinas, lignina e proteínas de defesa, que segundo muitos autores seriam os
Figura 1 - Ilustração da atividade enzimática após a aplicação de fosfonato de potássio (Yantra), indicando a ativação de vias complementares de autodefesa na soja. O manejo de enfermidades, pragas e doenças foi o mesmo para todos os tratamentos (SOD = superóxido dismutase; PAL = fenilalanina amônia-liase)
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Fotos Divulgação/Agrichem
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Resende explica o papel de fosfonatos na nutrição e na autodefesa das plantas
ocorre localmente sobre fungos e bactérias que tentam penetrar o tecido vegetal. “anticorpos” produzidos pelas plantas.
MECANISMOS DE DEFESA ATIVADOS NAS PLANTAS
Após o reconhecimento dos fosfonatos nas membranas da célula vegetal, ocorre uma série de reações de defesa que pode levar à produção de quitinases, β-1,3- glucanases e peroxidases, além de compostos fenólicos e consequente lignificação e fortalecimento dos tecidos vegetais. As quitinases produzidas pela planta degradam eficientemente a quitina, que compõe a parede celular de muitos fungos. Também possuem função de lisozima, afetando a parede bacteriana. As β-1,3-glucanases são enzimas que “quebram” polímeros de β-1,3-glucana, que, juntamente com a quitina, são os principais componentes da parede celular
de fungos. Na indução de autodefesas por fosfonatos, quitinases e β-1,3-glucanases agem de forma conjunta e sistêmica por até 30 dias (Figura 1. Resende, 2014). Dentre outras enzimas de defesa importantes, as peroxidases não só oxidam os compostos fenólicos como aumentam a velocidade de polimerização destes em substâncias similares à lignina, que se depositam na parede celular e impedem o posterior crescimento e desenvolvimento de patógenos. Estas enzimas estão também envolvidas na limpeza de radicais livres, convertendo H2O2 à água, e impedindo o crescimento de lesões necróticas nas folhas e raízes. Os fosfonatos também podem induzir a produção de fitoalexinas, metabólitos secundários de baixo peso molecular, de natureza não proteica, e que possuem ampla atividade antimicrobiana. Sua ação
Figura 2 - Média de produtividade de 46 ensaios realizados entre 2012 e 2015 no Centro-Oeste, evidenciando o efeito do fosfonato de potássio em duas aplicações (V4/V5 e R1) em soja, com incremento observado em 92% das áreas. As pragas e doenças foram manejadas com produtos padrão de mercado
EFEITO ADITIVO DE FOSFONATOS
A aplicação dos fosfonatos, além de melhorar o estado nutricional das plantas nos estádios de maior atividade metabólica (transição vegetativo-reprodutivo), quando representaria um fornecimento suplementar de nutrientes, promove o balanço metabólico para a produção de autodefesas, com consequente aumento da produtividade quando associada ao manejo padrão de pragas e doenças (Figura 2). Outros efeitos estudados incluem o melhor enchimento e qualidade de frutos/vagens, além da melhor sanidade de sementes, importante para a saúde das C gerações futuras (Figura 3).
Mário Lúcio Vilela de Resende, Ufla
Figura 3 - Manejo nutricional com fosfonato de potássio em soja aos 22, 32 e 37 dias após a última aplicação. O manejo de enfermidades, pragas e ervas daninhas foi o mesmo para todos os tratamentos (Três de Maio, RS). Foto: Gustavo Baldissera
Encarte Técnico • Circula encartado na revista Cultivar Grandes Culturas • nº 212 • Dezembro 2016 / Janeiro 2017 • Capa - Charles Echer Reimpressões podem ser solicitadas através do telefone: (53) 3028.2075
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