Skip to main content

Cultivar 204

Page 1

C

Cultivar

Cultivar Grandes Culturas • Ano XVII • Nº 204 • Maio 2016 • ISSN - 1516-358X

Destaques

Nossa capa

Batalha contínua - 18

O desafio de percevejos-pragas, como os da espécie Euschistus heros, abundantes e agressivos em lavouras de soja, que exigem atenção continuada sob pena de resultarem em severos prejuízos

André Shimohiro

Índice

Anomalia inquietante - 24

A identificação do nematoide Aphelenchoides sp em plantas com sintomas compatíveis com Soja Louca II no Rio Grande do Sul

Diretas

04

Adubação nitrogenada em café

06

Preparo reduzido do solo em cana

08

Adubação de cobertura em milho

10

Manejo do percevejo castanho

12

Encaixe da sucessão trigo/soja

15

Capa - Manejo de percevejos em soja

18

Controle de pragas em soja

21

Aphelenchoides sp no Rio Grande do Sul

24

Fungos e nematoides em soja

26

Controle do bicudo-do-algodoeiro

28

Manchas foliares em trigo

32

Manejo do mofo branco em feijão

34

Coluna ANPII

36

Coluna Agronegócios

37

Mercado Agrícola

38

Manejo adequado - 28

Ações conjuntas e abrangentes para enfrentar o bicudo, principal pesadelo dos produtores de algodão

Expediente Fundadores: Milton Sousa Guerra e Newton Peter

REDAÇÃO • Editor

Gilvan Dutra Quevedo

• Redação

Rocheli Wachholz Karine Gobbi

• Design Gráfico e Diagramação

Cristiano Ceia

• Revisão

CIRCULAÇÃO

Aline Partzsch de Almeida • Coordenação Simone Lopes

COMERCIAL • Coordenação

Charles Ricardo Echer

• Vendas

Sedeli Feijó

Rithieli Barcelos

• Assinaturas

Natália Rodrigues Clarissa Cardoso Aline Borges Furtado

• Expedição

Edson Krause

GRÁFICA: Kunde Indústrias Gráficas Ltda.

Grupo Cultivar de Publicações Ltda. CNPJ : 02783227/0001-86 Insc. Est. 093/0309480 Rua Sete de Setembro, 160, sala 702 Pelotas – RS • 96015-300 Diretor Newton Peter www.grupocultivar.com cultivar@grupocultivar.com Assinatura anual (11 edições*): R$ 269,90 (*10 edições mensais + 1 edição conjunta em Dez/Jan)

Números atrasados: R$ 22,00 Assinatura Internacional: US$ 150,00 Euros 130,00 Nossos Telefones: (53) • Geral 3028.2000 • Comercial: • Assinaturas: 3028.2065 3028.2070 3028.2066 • Redação: 3028.2067 3028.2060

Por falta de espaço não publicamos as referências bibliográficas citadas pelos autores dos artigos que integram esta edição. Os interessados podem solicitá-las à redação pelo e-mail: cultivar@grupocultivar.com Os artigos em Cultivar não representam nenhum consenso. Não esperamos que todos os leitores simpatizem ou concordem com o que encontrarem aqui. Muitos irão, fatalmente, discordar. Mas todos os colaboradores serão mantidos. Eles foram selecionados entre os melhores do país em cada área. Acreditamos que podemos fazer mais pelo entendimento dos assuntos quando expomos diferentes opiniões, para que o leitor julgue. Não aceitamos a responsabilidade por conceitos emitidos nos artigos. Aceitamos, apenas, a responsabilidade por ter dado aos autores a oportunidade de divulgar seus conhecimentos e expressar suas opiniões.


DIRETAS Novidades

A Morgan Sementes e Biotecnologia apresentou, na Expoagro Afubra 2016, o híbrido de milho MG580, que possui potencial produtivo indicado para lavouras de alto investimento das regiões do Vale do Taquari, Vale do Rio Pardo e Sul do Rio Grande do Sul. No estande da marca também foi possível observar parcelas demonstrativas com o MG300, um híbrido superprecoce para lavouras de alto e médio investimento que segue para sua segunda safra. Os híbridos 30A68 e 30A77 complementam o portfólio demonstrado pela empresa no evento.

Inseticida

A Dow AgroSciences levou para a Expoagro Afubra o inseticida Exalt, uma nova alternativa para o controle do complexo de lagartas em soja e milho e alto efeito de choque. De acordo com o fabricante, o produto apresenta modo de ação exclusivo e não requer associação de ativos, atuando de forma rápida e eficiente no controle do complexo de lagartas, protegendo o potencial produtivo da lavoura.

Tecnologias

Os visitantes da Expoagro Afubra puderam participar de palestras elaboradas pela equipe da LG para demonstrar suas tecnologias voltadas para soja e milho. O gerente de Marketing da empresa, Maico Silva, explicou a estratégia. "A LG sementes está com seus melhores produtos de milho e soja para mostrar aos nossos clientes a produtividade e eficiência dos materiais, com destaque para LG6033 PRO2 e LG60163 Ipro Inox."

Mudanças

Renato Cesar Seraphim assume a presidência da Albaugh no Brasil. Seraphim começou sua carreira com a ICI e Zeneca trabalhando em P&D e continuou na Syngenta, onde atuou por 12 anos em várias atividades de marketing e posições de gestão empresarial. Mais recentemente, foi diretor de Marketing de Clientes da Bayer CropScience. É formado pela Universidade Estadual de São Paulo e possui pós-graduação em Agronomia e Sanidade Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa. Conta também com MBA em Marketing pela Fundação Dom Cabral.

Renato Cesar Seraphim

Lançamento

Durante a Expoagro Afubra, em Rio Pardo, Rio Grande do Sul, a UPL Brasil apresentou o Unizeb Glory, lançamento para proteção da soja e milho. A solução é a primeira mistura de protetor com outros produtos sistêmicos, especialmente desenvolvida para essas culturas, recomendada no combate à ferrugem asiática da soja e à popular mancha-branca em milho. Sua ação multissítio também é indicada no manejo de resistência de fungos.

Novos Rumos

A Ourofino Agrociência tem novo diretor comercial. Gerson Levandowski assumiu o cargo e se soma ao time da companhia. O executivo acumula experiência de mais de 24 anos nas áreas comerciais, marketing, grandes contas, distribuição e negócios.

Gerson Levandowski

04 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Sementes

A Nidera Sementes esteve presente na Expoagro Afrubra, onde os visitantes tiveram a oportunidade de conhecer as suas cultivares de soja e milho. O gerente comercial, Alexandre Sodre, destacou a variedade NS 6909 Ipro. "Os principais pontos fortes dessa cultivar são a superprecocidade, a alta produtividade e o potencial para antecipar o plantio de safrinha", explicou.

Destaques

A FMC marcou presença na Expoagro Afubra. O gerente de Cultura Grãos, Eduardo Menezes, destacou o que a companhia levou para a Expoagro. “Para a cultura do fumo os destaques foram os herbicidas Gamit 360 CS e Boral, o inseticida Talstar e o fungicida Rovral.” Na soja foram apresentados o inseticida para tratamento de sementes Rocks e o inseticida Talisman. “O herbicida pré-emergente Boral, para o manejo de plantas daninhas na cultura, além do inseticida de choque Mustang e o lançamento do fungicida Galileo XL, eficiente no controle da ferrugem asiática, com excelente residual, completam o nosso portfólio”, disse.


Manejo

No estande da BioGene, na Expoagro Afubra, os produtores conferiram lançamentos e receberam informações para o melhor manejo da cultura do milho. Também puderam conhecer o serviço de tratamento de sementes industrial com o DuPont Dermacor. Conforme o gerente de Contas da BioGene para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, Ricardo Battisti, trata-se de uma solução para controle de corós (Phyllophaga cuyabana e Liogenys fusca) e lagarta-do-cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda) nas fases iniciais da lavoura.

Portfólio completo

A Ourofino Agrociência levou para a Expoagro Afubra seu portfólio completo. Em herbicidas o destaque foi para o Aclamado BR, recomendado para a cultura do milho. Em inseticidas foi apresentado o Ping BR, lançado no final do ano passado para utilização em soja, milho e arroz, além do Brilhante BR, produto seletivo com ação contra lagartas. Em fungicidas a marca destacou o Imperador BR e o Produtor BR, para controle de doenças como oídio e ferrugem em soja.

Milho

Superprecoce

Os produtores que visitaram o estande da DuPont Pioneer na Expoagro Afubra conheceram a linha de produtos recomendados para o plantio na região, incluindo híbridos de milho para a produção de grãos e silagem, além das cultivares de soja. Dentre os lançamentos, foram destaque os híbridos P1680YH, P3271H, P2866H e P3431VYH, além da nova soja superprecoce 95Y52. "A grande novidade na feira este ano ficou por conta do lançamento dos híbridos de milho marca Pioneer com a tecnologia Leptra de proteção contra insetos, que é a associação das tecnologias Agrisure Viptera, YieldGard, Herculex I e Liberty Link", explicou o gerente de Conta da DuPont Pioneer, Rafael Seleme.

A Agroeste marcou presença na Expoagro Afubra. Os destaques foram para as cultivares de milho AS 1666 PRO3, AS 1677 PRO3 e AS1656 PRO3. O gerente de Território do Rio Grande do Sul, Fabricio Koehler Bazanella, avaliou a presença na feira como uma ótima oportunidade para a companhia destacar suas tecnologias e produtos.

Resultados

As soluções e os serviços Syngenta puderam ser explorados de perto pelos visitantes da Expoagro Afubra. O destaque ficou por conta do fungicida Elatus, que entre os diferenciais contabiliza 21 dias de residual. De acordo com Adilson Jauer, responsável pelo Desenvolvimento Técnico de Mercado, apenas no primeiro ano de utilização foram tratados 13 milhões de hectares de soja, e a média de aumento de produtividade foi de 3,25 sacas por hectare no Brasil.

Alvo biológico

A Bayer CropSciences participou no final de março da 16ª edição da Expoagro Afubra, na localidade de Rincão del Rey, no município de Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. A agrônoma de Desenvolvimento de Mercado DNSul, Karine Zapelini, destacou o novo posicionamento do fungicida e bactericida microbiológico Serenade, por alvo biológico e não mais por cultura. O produto pode ser utilizado no tratamento do mofo branco em soja e feijão.

Pré-lançamento

A Nufarm realizou na Expoagro Afubra o pré-lançamento do herbicida Zethamaxx, pré-emergente de plantas daninhas de folhas largas e estreitas em soja. De acordo com o agrônomo de Desenvolvimento de Produtos e Mercado da Nufarm, Glauber Sturmer, o produto deve estar disponível no mercado na próxima safra. Outro destaque da marca foi o herbicida Crucial.

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

05


Café

Capa protetora Fotos Wantuir Filipe T. Chagas

Exigido em grande quantidade o nitrogênio é um dos nutrientes mais importantes na cultura do cafeeiro. E evitar perdas na aplicação de fertilizantes, como a ureia, tem sido um desafio para técnicos e produtores. Para minimizar o problema uma alternativa reside no uso de produtos de liberação controlada (ureia + polímero)

A

cafeicultura brasileira está implantada, em grande maioria, em solos de baixa fertilidade natural, o que exige uma adequada correção e fertilização para alcançar elevadas produtividades. Dentre os nutrientes, o nitrogênio merece atenção especial, pois é o exigido em maior quantidade pelo cafeeiro. O nitrogênio (N) é o nutriente que apresenta os efeitos mais significativos no aumento da produtividade na cultura do café. É importante por exercer várias funções nos processos bioquímicos da planta, como constituinte de enzimas, coenzimas, ácido nucleicos e clorofila. Uma das dificuldades na recomendação da adubação nitrogenada é a dinâmica muito complexa do elemento no solo, sofrendo várias transformações, como lixiviação, volatilização, nitrificação, desnitrificação, imobilização e mineralização, alterando, assim, a sua oferta durante o desenvolvimento da planta. Dessa forma, o N pode tornar-se o elemento mais caro no sistema de produção do cafeeiro.

O fertilizante nitrogenado mais utilizado no Brasil é a ureia, que devido a sua alta concentração de N, permite menor custo por unidade do nutriente. Porém, a aplicação de ureia sobre o solo causa uma elevação do pH na região do grânulo do fertilizante no momento da hidrólise. Esse aumento no pH faz com que ocorram elevadas perdas de N por volatilização na forma de amônia. Essas perdas por volatilização contribuem para diminuição da eficiência dos fertilizantes nitrogenados, que podem atingir valores de até 35% do total de N que é aplicado. Uma das alternativas para minimizar as perdas de nitrogênio é a aplicação parcelada dos fertilizantes nitrogenados, resultando em maior aproveitamento pelas plantas. Entretanto, o parcelamento nem sempre é a maneira mais rentável para o produtor, pois pode gerar um aumento significativo nos gastos com mão de obra e também provocar compactação do solo, devido ao maior tráfego de maquinários na área. Neste sentido, são muitas as estratégias

06 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

para melhorar a eficiência no uso de fertilizantes nitrogenados. Incluem-se o uso de inibidores de urease (NBPT) e de nitrificação, adição de compostos acidificantes e o uso de ureia revestida com polímeros ou gel, gerando os fertilizantes conhecidos como de liberação lenta ou controlada. Os fertilizantes de liberação lenta ou controlada são aqueles que de alguma forma atrasam ou estendem a sua oferta para a planta a um período além de um fertilizante de referência. Considera-se como de referência um fertilizante cuja disponibilidade de nutrientes seja imediata, a exemplo da ureia. O uso de fertilizantes nitrogenados de liberação controlada pode fornecer vários benefícios, como aumento na produtividade, economia de trabalho, já que pode abolir ou diminuir o número de parcelamentos e diminuição do impacto ambiental devido à menor lixiviação do nitrato, desde que combinado com a demanda da cultura e as condições de desenvolvimento. Dentre os mecanismos de controle de liberação, um dos mais utilizados


Figura 1 - Perda acumulada de nitrogênio por volatilização de amônia (N-NH3) por ureia convencional e ureia revestida por polímeros (ureia + polímero). Médias seguidas de letras diferentes diferem estatisticamente pelo teste de Scott-Knott (P ≤ 0,05)

A

B

(A) ureia de liberação controlada revestida por polímeros e (B) ureia convencional

consiste basicamente de uma capa de polímero em torno de um fertilizante solúvel (normalmente ureia) que possibilita um sincronismo na oferta do nutriente pelo fertilizante e a demanda do elemento pela planta. Entretanto, vale ressaltar que depende do período de liberação garantido pelo fabricante do fertilizante e também das condições de umidade e temperatura do solo. Considerando a importância do estudo dessa tecnologia no ramo da fertilidade do solo, este trabalho buscou avaliar as perdas de amônia por volatilização da ureia convencional amplamente utilizada e a ureia de liberação controlada, revestida com polímeros. O experimento foi conduzido em campo, entre novembro de 2014 e março de 2015 em um latossolo vermelho distrófico, em uma lavoura de café localizada a 7km do município de Lavras, Minas Gerais. Utilizou-se o delineamento em blocos casualizados com três repetições, sendo as fontes de N: ureia convencional (45% de N) e ureia revestida por polímeros (39% de N). As parcelas experimentais foram compostas por 12 plantas, igualmente espaçadas de 3m entre linhas e 1m entre as plantas. A dose de N utilizada foi de 450kg/ha, dividida em três aplicações no tratamento com ureia convencional, sendo o intervalo entre cada aplicação de 60 dias e aplicada em dose única para o tratamento com ureia revestida com polímeros. Para adubação de manutenção da lavoura, aplicaram-se 300kg/ha de K2O e 100kg/ha de P2O5, utilizando como fontes o cloreto de potássio (60% K2O) e o superfosfato triplo (46% de P2O5). Os micronutrientes, boro, zinco e cobre, foram aplicados via foliar. Para quantificação da volatilização de amônia, utilizou-se o método do coletor semiaberto. Para construção do coletor, foram utilizados tubos de PVC com 20cm de diâmetro e 50cm de altura. Os tubos de PVC foram inseridos no solo até a profundidade de 5cm. Utilizaram-se dois discos de espuma laminada com densidade de

0,02g cm-3 e 2,5cm de espessura cortados no mesmo diâmetro do tubo. As espumas foram embebidas com 85ml/l de solução de ácido fosfórico (H3PO4) e glicerina nos volumes de 40ml/l e 58,8ml/l (0,87mol/l de H3PO4), respectivamente, e fixadas nas alturas 25cm e 45cm do solo. A esponja fixada a 45cm possui a função de evitar a contaminação da esponja inferior. Essa esponja inferior, colocada a 25cm do solo, é utilizada para determinação da amônia volatilizada. Para determinação, essas esponjas foram trocadas no 1º, 2º, 3º, 4º, 5º, 7º, 9º, 11º, 13º, 16º, 19º, 23º, 28º, 35º e 42º dias após cada adubação nitrogenada de cobertura. Para extrair a solução das espumas coletadas, utilizou-se um funil de Buchner com auxílio de uma bomba de vácuo, sendo cada espuma passada por quatro lavagens em extrações sequenciais com 80ml de água deionizada. A partir desse extrato foram retiradas alíquotas para determinação do teor de N por destilação pelo método de Kjeldahl. Após a obtenção dos resultados de perda de N, em porcentagem do total aplicado (450kg/ha de N), notaram-se diferenças significativas para as perdas de nitrogênio (na forma de amônia), entre a ureia convencional

e a ureia revestida por polímeros. A comparação entre as médias foi realizada pelo teste de Scott-Knott (p < 0,05), (Figura 1). A ureia convencional obteve uma perda de 18,5% do total de N aplicado, o que permite inferir que dos 450kg/ha de N aplicados na forma de ureia convencional, 83,5kg foram perdidos por volatilização. Já a ureia revestida com polímeros promoveu uma perda de 10,46% do total de N aplicado, ou seja, apenas 47,1kg de N. Com isso, pode-se concluir que a ureia revestida com polímeros obteve menor perda de N (8% a menos) em comparação à ureia convencional, mesmo sendo aplicada em dose única. Assim, o uso de fertilizantes de liberação controlada (ureia + polímero) pode ser uma alternativa eficiente na fertilização do cafeeiro, propiciando menores perdas de N por volatilização e com isso reduz o tráfego de maquinários na lavoura, evitando a necessidade do parcelamento da C adubação nitrogenada. Wantuir Filipe Teixeira Chagas, Douglas Ramos Guelfi, Anderson William Dominghetti e André Luiz Carvalho Caputo, Ufla

Coletor de PVC semiaberto

Chagas aborda efeitos da liberação controlada de fertilizantes na cultura do café

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

07


Cana

Efeito adverso

Ao mesmo tempo em que apresenta inúmeras vantagens do ponto de vista conservacionista e de diminuição de custos, o preparo reduzido do solo, através da dessecação e subsolagem das áreas de cultivo de cana, possui o inconveniente de favorecer intensa infestação de plantas daninhas. O emprego de herbicidas pré-emergentes é uma ferramenta importante para auxiliar no manejo deste problema. Contudo, o produtor precisa estar atento à correta escolha do produto e à época mais adequada para a aplicação

O

preparo de solo é etapa de fundamental importância no processo produtivo de cana-de-açúcar. Tradicionalmente contempla uma sequência de operações mecanizadas que tem por finalidade garantir condições adequadas à implantação e ao desenvolvimento da cultura em seu novo ciclo de cultivo. Entretanto, trata-se de um conjunto de atividades extremamente onerosas para os produtores, que constituem fatia importante do custo de produção da cultura. Atualmente, o preparo de solo convencional é a modalidade mais comumente

adotada pelos canavicultores. Entende-se por preparo convencional a sequência de operações que se inicia na dessecação química das soqueiras, seguida pelas gradagens sequenciais (pesada ou intermediária), pela aração da área e, por fim, a gradagem niveladora. Estas etapas demandam tratores de alta potência e, consequentemente, elevado consumo de combustível. Como consequência, o revolvimento do solo deixa-o desestruturado e exposto aos efeitos da chuva e consequentemente suscetível aos efeitos da erosão. Com o objetivo de reduzir custos

08 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

e focar em um manejo mais racional e conservacionista dos solos, observa-se nos últimos anos a adoção do preparo de solo reduzido. No método, a sequência de operações mecanizadas de revolvimento do solo é substituída unicamente pela subsolagem após a dessecação da área. Com isso a absorção de água da chuva é favorecida e os restos culturais na superfície do solo são mantidos, fatores que desfavorecem a ocorrência de erosão. Nos canaviais submetidos ao preparo reduzido do solo ocorre intensa infestação de plantas daninhas, particularmente no espaço de tempo entre a erradicação da


Fotos Carlos Alberto Azania

soqueira anterior e a implantação do novo canavial. Devido à ausência das gradagens neste sistema de preparo, o controle mecânico das invasoras fica comprometido. Com isso, é comum que aplicações de glifosato adicionais àquela realizada para a erradicação da soqueira, sejam demandadas para o manejo das plantas invasoras no canavial. Caso não sejam controladas as plantas daninhas, é possível que completem seu ciclo e reinfestem o canavial com sementes, incrementando o banco de sementes no solo e agravando ainda mais o problema para o próximo ciclo de cultivo. A utilização de herbicidas pré-emergentes em sequência ao glifosato configura-se em uma alternativa ao manejo do banco de sementes. As aplicações de manejo devem ser realizadas de preferência antes de as plantas daninhas completarem seu ciclo de vida, evitando-se, assim, a chamada chuva de sementes na área. Entretanto, para garantir a dinâmica dos herbicidas residuais no solo é essencial

considerar o porte das plantas daninhas. As espécies não podem estar demasiadamente desenvolvidas para que o herbicida atinja a superfície do solo e comece sua dinâmica. Caso o porte das plantas daninhas esteja muito elevado, pode-se configurar aí uma situação de recobrimento total do alvo da aplicação (plantas daninhas), porém, impedir a chegada do herbicida no solo e prejudicar a ação em pré-emergência. Os benefícios trazidos pela utilização dos herbicidas pré-emergentes não serão, então, plenamente percebidos em uma situação como esta. Tomados os cuidados com o ciclo das plantas daninhas, seu porte e recobrimento do alvo da aplicação, deve-se atentar às características físico-químicas dos herbicidas pré-emergentes a serem aplicados, particularmente sua solubilidade. A época do ano e o tempo decorrido entre a aplicação e o plantio da cana-de-açúcar também devem ser levados em conta. Como a maioria das áreas de cultivo é preparada na época chuvosa do ano, a utilização de herbicidas de alta solubilidade pode acarretar em perda de efeito residual, devido à movimentação do herbicida no perfil do solo causada pelo excesso de chuvas. O herbicida acaba então ficando posicionado abaixo dos primeiros centímetros de solo, permitindo que as sementes próximas às superfícies germinem e desenvolvam-se. Esta movimentação também pode ser prejudicial à cultura, causando fitotoxicidade, pois tende a deixar o herbicida em contato direto com as plantas de cana-de-açúcar recém-brotadas após o plantio. Assim, em época úmida,

Tabela 1 - Ingredientes ativos de solubilidade adequada à utilização em época úmida Ingrediente ativo atrazina acetocloro diurom ametrina diclosulam trifluralina s-metolacloro pedimetalina

Solubilidade (ppm) 33,0 282 37,4 200 124 0,3 480 0,275

Época de aplicação chuvosa chuvosa chuvosa chuvosa chuvosa chuvosa chuvosa chuvosa

Fonte: Rodrigues & Almeida (2011)

herbicidas de baixa solubilidade são mais indicados, tanto em relação ao período residual mais efetivo quanto em relação à segurança para a culura. Outra característica físico-química para a qual se deve atentar é a fotodecomposição. Como não há possibilidade de incorporação mecânica do herbicida ao solo através do uso de grade niveladora, os herbicidas pré-emergentes que melhor se encaixam nesta modalidade de uso são aqueles que não sofrem decomposição pela luz solar. Atento aos pontos citados, o canavicultor pode então fazer a escolha dos produtos e do momento mais adequado para realizar as aplicações de manejo, adequando produto e dose sempre à infestação de plantas daninhas presentes na área e ao tempo decorrido entre a C aplicação e o plantio. Fábio César R. do Amaral e Carlos Alberto Mathias Azania, IAC

No preparo reduzido do solo a sequência de operações mecanizadas de revolvimento do solo é substituída unicamente pela subsolagem após a dessecação da área

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

09


Fotos Divulgação

Milho

Adubação de cobertura A aplicação de fontes nitrogenadas pode ser um diferencial para o aumento da produtividade na cultura do milho. Mas para que sejam minimizadas perdas do fertilizante aplicado é preciso lançar mão de estratégias e tecnologia, como é o caso do revestimento do nutriente com camada protetora, que permite liberação controlada

A

aplicação de fontes nitrogenadas na cultura do milho pode ser um diferencial para a expressão do potencial produtivo do híbrido semeado. As perdas do nitrogênio proveniente da aplicação de ureia podem ocorrer de diferentes maneiras, sendo lixiviado, volatilizado e até por imobilização durante a decomposição dos resíduos vegetais deixados por culturas antecessoras. Com o desenvolvimento tecnológico aplicado ao setor agrícola, surgiram tecnologias para proteção dos grânulos de ureia, a fim de minimizar as perdas que ocorrem após aplicação em cobertura desta fonte de nitrogênio. Esta cobertura tende a controlar a liberação do nutriente, permitindo sua absorção por um período maior quando comparado com a ureia sem cobertura, que oferta todo nitrogênio aplicado de uma única vez. Segundo dados da Conab (2014), a produção total de milho em Goiás na safra 13/14 obteve uma média de 107sc/ha. O nitrogênio (N) é o nutriente absorvido em maiores quantidades pelo milho e o que mais influencia no rendimento de grãos (Silva et al, 2005). A ureia tem como vantagem alta concentração de nitrogênio, fácil manuseio, menor custo por quilo de nitrogênio, porém, apresenta elevadas perdas deste elemento por volatilização (Primavesi et al, 2004). A utilização inadequada

de N pode causar prejuízos ambientais, como contaminação de águas superficiais e subterrâneas por nitrato, em virtude de perdas por erosão e lixiviação (Sims et al, 1998). Uma alternativa para diminuir essas perdas seria a proteção do grânulo da ureia com produtos menos higroscópicos, que permitam aplicá-la na superfície do solo, podendo retardar a sua liberação (Bono; Setti; Spekken, 2006). Com o objetivo de avaliar a aplicação de ureia com e sem revestimento em duas doses de N total, aplicadas em cobertura na cultura do milho, um experimento foi conduzido na área experimental do IF Goiano, Campus Rio Verde. Utilizou-se delineamento experimental de bloco casualizado em fatorial 4x2, composto por sete tratamentos com quatro repetições: controle (C) sem aplicação de N, ureia (U), ureia revestida por polímero (URP) e ureia revestida por enxofre (URS), com duas doses de N total: 75kg/ha e 150kg/ha. O estudo foi conduzido em solo sob cerrado. A Tabela 1 apresenta o resultado da análise química do solo coletado na camada de 0cm-20cm. Segundo Souza et al (2004), para solos sob cerrado em camada de 0cm-20cm o valor encontrado para P e K está na faixa de teor denominado como baixo. Sendo assim, ocorreu a correção a lanço com KCl na taxa de aplicação de 120kg/K2O/ha para correção

10 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

do potássio e foram utilizados 120kg/P2O5/ha de superfosfato triplo (SFT) aplicados a lanço como fonte de fósforo. O delineamento experimental utilizado foi o de bloco casualizado com quatro repetições no esquema fatorial 4x2, sendo quatro fontes de nitrogênio (controle [C] sem aplicação de N, ureia [U], ureia revestida por polímero [URP] e ureia revestida por enxofre [URS]), com duas doses de N total (75kg/ha e 150kg/ ha). O plantio do milho foi realizado com sementes Agroeste AS1598PRO2, versão VTPRO 2 dentro da janela ideal de plantio, recomendada pela empresa fornecedora das sementes. O espaçamento utilizado para a semeadura foi de 0,45m entre plantas e também 0,45m entre linhas com uma média de três plantas por metro e um total de 60 mil plantas por hectare. Para cada parcela foram plantadas seis linhas de seis metros cada, totalizando uma área de 16,20m². A Tabela 2 apresenta a porção de nutriente que compreende o valor total de cada produto utilizado como fonte de nitrogênio. A época de aplicação foi determinada pelo número de folhas por planta. A aplicação dos tratamentos foi realizada a lanço entre os estádios fenológicos V4 a V6, seguindo recomendações da Embrapa (2011), de realizar


a cobertura nitrogenada do milho entre os estádios V4 e V8. O fornecimento de N para a cultura do milho no estádio de aplicação foi suficiente para aumentar a produtividade em relação à testemunha. Observa-se na Tabela 3 que houve diferença significativa pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade para a variável produtividade, onde os tratamentos que utilizaram adubação nitrogenada foram estatisticamente superiores ao tratamento controle. Para a variável dose, observa-se na Tabela 3 que não houve diferença significativa pelo teste de Tukey a 5%, não havendo diferença estatística para a produtividade em kg/ha independentemente da dose ou da fonte de adubação nitrogenada utilizada. Resultado similar foi obtido por Valderrama et al (2014), onde a produtividade do milho não foi afetada pelas fontes de N, demonstrando que as ureias revestidas por polímeros em diferentes composições e concentrações não se sobressaíram em relação à ureia convencional. Casagrande & Fornasieri Filho (2002) obtiveram produtividade da testemunha com 4.592kg/ha e atribuíram este efeito ao suprimento de N pela matéria orgânica do solo cujo valor era de 27g dm-3. No presente trabalho, o teor de matéria orgânica observado no solo antes do plantio foi de 30,1g dm-3, de modo que este efeito também pode ter ocorrido. Observa-se que a URP na dose de 150kg N/ha propiciou maior produção de grãos, o que se deve provavelmente ao aproveitamento total do N liberado na aplicação seguida por um fornecimento gradativo subsequente. Para U a dose de 75kg N/ha foi ideal na época de aplicação em cobertura, diminuindo as perdas por volatilização. Já para U na dose 150kg N/ha supõe-se que a alta disponibilidade de N pela adubação, associada ao N liberado da decomposição da matéria orgânica, pode ter resultado em uma maior permanência das plantas na fase vegetativa, denotada pela maior média de altura das plantas entre os

tratamentos (2,39m), com isso retardando a fase reprodutiva. Para o tratamento URS 150kg N/ha observa-se similaridade com o sugerido para URP 150kg N/ha. No entanto, possivelmente pelo produto conter uma camada de enxofre e uma de cera, pode ter ocorrido retardamento da liberação de N inicial, com acréscimo nesta liberação nas semanas posteriores. Observando as variáveis Produtividade de Sacas a Mais que o Tratamento Controle (PSTC) e %STC (porcentagem de sacas a mais que o tratamento controle) é possível observar de forma mais clara o acréscimo de produtividade sobre o tratamento controle. Também é possível verificar as diferenças entre cada tratamento que utilizou diversas doses e fontes de adubação nitrogenada, mesmo não havendo diferença significativa pelo teste de Tukey a 5%. Observa-se que a U 75 obteve uma produção maior que a U 150. Isso deve ser atribuído à quantidade do nutriente que foi ofertado de uma só vez para a planta, saturando sua capacidade de absorção. Por outro lado, a URP 150 obteve a maior produção dos tratamentos, o que se deve à sua capacidade de efetuar uma liberação controlada do nitrogênio. Em primeira instância a dose liberada supriu as plantas que estavam na fase de desenvolvimento, e a segunda parte liberada por esta fonte deve ter sido absorvida na fase reprodutiva. Já a URP 75 provavelmente agiu da mesma maneira. No entanto, em primeira instância, liberou uma quantidade muito menor de N que a URP 150. Já para as URS, juntamente com a liberação do N ocorre a de S, que também é um nutriente essencial para a planta. A URS 150 obteve acréscimo maior na produção quando comparada com a URS 75. Nas condições do experimento é possível concluir que o emprego de fertilizantes nitrogenados resultou em acréscimo na produtividade dos grãos de milho. As fontes de liberação controlada não foram satisfatórias

A aplicação de fontes nitrogenadas em milho pode auxiliar na melhoria do potencial produtivo da cultura

Tabela 1 - Resultado de análise química do solo – Macronutrientes (Mehlich) K Ca Mg H+Al CTC Sat. pH MO P mmolc dm-3 CaCl2 g dm-3 mg dm-3 Base % 5,50 30,10 3,14 0,07 4,16 0,93 1,60 6,76 76,33

Tabela 2 – Nutriente em 100% de produto Tratamentos C U URP URS

Nitrogênio (%) 0 45 44 34

Enxofre (%) 0 0 0 24

Tabela 3 – Teste de Tukey a 0,05 para produtividade Tratamentos C U 75a URP 75 URS 75 U 150b URP 150 URS 150 CV (%)

Médias de produtividade Sacas ha PSTC* %STC** 134 8.055,91 B 164 30 9.866,30 A 18 150 16 9.026,67 A 11 157 23 9.424,96 A 15 158 24 9.538,65 A 15 171 37 10.291,24 A 22 160 26 9.636,16 A 16 10.40 Kg ha

para aplicação entre os estádios fenológicos de V4 e V6, pois proporcionaram resultados semelhantes à ureia convencional nas mesmas doses. Sugerem-se pesquisas sucessoras variando o estádio de aplicação das fontes nitrogenadas revestidas para um melhor poC sicionamento da tecnologia. Fernando Rezende Corrêa e Daivid Vieira Lima, Instituto Federal Goiano Daniel Arisawa Capelari, Renovar Agrícola Orlando Homero Ribeiro Neto, Comnagro Agnaldo Eleuterio Silva, Monsanto Ludmilla Ribeiro da R. Gomes, Universidade de Rio Verde

Corrêa aborda formas de minimizar as perdas do nitrogênio aplicado

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

11


Pragas

Castanho amargo Fotos Lúcia Vivan, da Fundação MT

Surtos populacionais de percevejos castanhos (Scaptocoris castânea) têm se tornado frequentes em cultivos de soja, milho e algodão no Cerrado. De hábito subterrâneo, este inseto suga as raízes das plantas, provoca acentuado atraso no desenvolvimento e, consequentemente, prejudica a produção. Medidas preventivas como utilizar fungos e nematoides entomopatogênicos, sulfato de amônia e de cálcio, aplicar inseticidas no sulco de plantio, melhorar as condições nutricionais da área cultivada e incluir plantas de cobertura com efeito supressivo durante a rotação de culturas estão entre as alternativas recomendadas para manejar a praga e minimizar prejuízos

E

m esquemas de rotação ou sucessão, a seleção de culturas que não sejam hospedeiras comuns às pragas e doenças é uma das estratégias fundamentais para o manejo integrado de pragas (Ferreira et al, 2012). Nas áreas do Cerrado em que o algodoeiro tem sido cultivado, um grande complexo de pragas incide e causa injúrias às plantas, exigindo atenção constante e eventuais intervenções para se evitar danos econômicos. Ocorrências de surtos populacionais de percevejos castanhos (Scaptocoris castânea) têm se tornado frequentes em plantações no Cerrado, especialmente no cultivo de soja, milho e algodão. De hábito subterrâneo, o inseto suga as raízes das plantas, causando

acentuado atraso no desenvolvimento e, consequentemente, prejudicando a produção. Os estudos efetuados por pesquisadores de diversas instituições brasileiras de pesquisa mostram que o controle químico adotado de modo isolado é insuficiente, uma vez que não trata a causa do problema. O controle químico não apresenta eficiência acima de 50% e a presença do milho no esquema de rotação é fator que favorece a proliferação de percevejos castanhos. Quando o dano é constatado na lavoura, já não há muito o que fazer, pois a planta atacada dificilmente se recupera e a produção fica comprometida. Em estudos recentes, Nascimento et al (2014) verificaram a influência do uso de compostos sulfurados sobre a população do

12 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

percevejo castanho na cultura do algodoeiro. Os autores não encontraram evidências da influência de gesso agrícola ou adubos sulfurados aplicados no solo induzindo a redução populacional de Scaptocoris sp. No entanto, o estudo concluiu que o uso de tais fontes de enxofre (sulfato de cálcio e sulfato de amônio) promove a tolerância das plantas de algodoeiro ao ataque do inseto. O percevejo castanho vem sendo associado também a plantas invasoras, relacionadas em ordem decrescente de preferência: caruru, apaga-fogo, trapoeraba, picão-preto, dentre outras (Siloto & Raga, 1998). Da mesma forma, algumas plantas cultivadas como milheto e milho parecem ser preferenciais aos indivíduos destas espécies de pragas de


Lavoura com falhas provocadas pela incidência do ataque de percevejo castanho

solo. Por outro lado, observações empíricas de produtores apontam para a crotalária como uma possível espécie supressiva (José Roberto Padezi, comunicação pessoal). Estratégias como melhorar as condições nutricionais da área cultivada e incluir plantas de cobertura no esquema de rotação que tenham efeito supressivo sobre a população da praga são apontadas como saídas para diminuir a população do inseto e assegurar a rentabilidade do cultivo. Outras medidas que têm mostrado bons resultados para a convivência com a praga incluem o uso de compostos sulfurados e opções de plantas de cobertura. Ensaio realizado pela Embrapa Algodão em parceria com a Fundação Goiás teve como objetivo avaliar o efeito de plantas de cobertura sobre a incidência de percevejo castanho em algodoeiro cultivado em sistema de plantio direto (SPD). Os tratamentos consistiram na inclusão de 14 diferentes espécies de cobertura em esquema de rotação após o cultivo das culturas de soja, milho e algodão. Por ocasião do cultivo do algodoeiro, ao final da estação chuvosa, quando as plantas estavam com 60

O percevejo castanho vem sendo associado também a plantas invasoras

dias após a emergência, os seguintes parâmetros foram mensurados: aspecto visual (por escala de nota), número de plantas atacadas, altura de plantas e área aproveitada pelas plantas. No final do ciclo, a produtividade de algodão em caroço foi quantificada. Plantas de algodoeiro não atacadas tendem a tomar espaço da área não ocupada por plantas adjacentes cujo crescimento e desenvolvimento tenham sido comprometidos (Cawley et al, 1999). Este efeito de compensação espacial foi verificado no presente estudo, uma vez que nenhuma diferença foi observada quanto à área aproveitada entre os tratamentos (Tabela 1). Da mesma forma, nenhuma diferença entre os tratamentos foi verificada quanto ao número de capulhos por planta, altura de plantas, rendimento de fibras e estande. A avaliação visual efetuada aos 60 DAE denotou pior aspecto nas parcelas do tratamento com algodoeiro cultivado após a cobertura com milheto, com nota significativamente inferior às registradas para todos os outros tratamentos, exceto P. maximum, B. brizantha, milheto + B. ruziziensise guandu +

B. ruziziensis. O milheto se destacou também por apresentar o maior número de plantas atacadas pelo percevejo castanho, com valor superior aos registrados nos tratamentos com algodoeiro após pousio, guandu e gergelim + B. ruziziensis (fileiras alternadas). A produtividade de algodão em caroço no tratamento com algodoeiro após milheto foi a menor entre todos os tratamentos, com valor significativamente inferior àqueles observados com algodoeiro após guandu e girassol, ambas as espécies consorciadas com B. ruziziensis. Ao serem agrupadas as espécies por famílias, considerando-se as leguminosas, as gramíneas e suas associações, verifica-se que a média de produtividade de algodoeiro cultivado após as leguminosas se situou acima do valor obtido para algodoeiro sucedendo as associações, que por sua vez foi mais elevado que a produtividade média de algodoeiro após as gramíneas (Figura 1). Portanto, apesar de não haver diferenças estatísticas, notou-se tendência de maior produtividade em algodoeiro cultivado após espécies que suprimiram a população de percevejos castanhos.

Figura 1 - Produtividade de algodoeiro cultivado após plantas de cobertura das famílias das leguminosas, gramíneas e suas associações. Santa Helena de Goiás, 2013

Inseto suga as raízes das plantas, causando acentuado atraso no desenvolvimento e, consequentemente, prejudicando a produção

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

13


MANEJO DO PERCEVEJO CASTANHO DA RAIZ 1. Avaliar o histórico da praga na localidade. Áreas problemáticas deverão ser monitoradas. 2. Abrir trincheiras nas áreas da propriedade logo após as primeiras chuvas antes do plantio. Detectar os focos e mapear a propriedade, definindo as áreas de atenção. 3. Em áreas de manejo convencional do solo, efetuar bom preparo de solo (uma aração e três gradagens) para o plantio. Em áreas de plantio direto, seja na implantação ou na reforma (áreas de mais de sete anos), efetuar subsolagem após a colheita. 4. Corrigir a acidez do solo conforme análise e usar gesso como fonte de enxofre que favorece o desenvolvimento radicular e a exploração de maior volume de solo, conferindo maior capacidade de tolerância à planta ao ataque do inseto. Em solos arenosos, a quantidade de gesso deve ser entre 500kg/ha e 1.000kg/ha e em solos argilosos podem ser aplicados até 2.000kg/ha. 5. Implantar culturas de menor custo de produção nas áreas com o inseto (dimi-

MEDIDAS DE MANEJO E CONTROLE

Se o controle químico do percevejo castanho nem sempre tem se mostrado efetivo, o inseto se expõe muito pouco ao inseticida, seu hábito de polifagia e de migração a cada ano contribui para dificultar o controle da

nuindo o risco do investimento). Exemplo: sorgo, milho e girassol. 6. Antecipar o plantio nas áreas infestadas (para permitir o escape do sistema radicular ainda pouco desenvolvido das plantas ao ataque da praga). 7. Além do tratamento de sementes, aplicar inseticidas no sulco de semeadura ou em aplicação sobre o solo logo após a germinação. 8. Ao efetuar as adubações de cobertura, optar pelo sulfato de amônia (doses de até 250kg/ha) nos focos da praga. Assim como o gesso, o sulfato de amônia vai acelerar o desenvolvimento da planta e sua capacidade de suportar o ataque da praga. 9. Controlar as plantas daninhas, eliminando plantas hospedeiras como corda-de-viola, joá, leiteiro, guanxuma e milheto-tiguera. 10. Manter a área em pousio na entressafra ou com cobertura de leguminosa. Em áreas infestadas, evitar o plantio de gramíneas como milheto, braquiária e sorgo. população da praga, medidas preventivas devem ser adotadas. A utilização de entomopatógenos como fungos e nematoides vem se mostrando uma opção para diminuir a população da praga em áreas problemáticas. Nematoides

entomopatogênicos dos gêneros Steinernema e Heterorhabidits já são comercializados para o controle de pragas de solo. Outros organismos entomopatogênicos que vêm apresentando efeito letal sobre percevejos castanhos são os fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana. Em trabalho realizado por Ávila & Xavier (2007), esses fungos mostraram controle sobre ninfas e adultos, com mortalidade superior a 50%. Melhorar as condições edafoclimáticas, proporcionando melhores condições nutricionais às plantas cultivadas pode ser outra opção. Trabalho realizado por Nascimento et al (2014) verificou que a aplicação de sulfato de amônia nas concentrações entre 150kg/ha e 300kg/ha, combinada a 1.500kg/ha de sulfato de cálcio, promoveu diminuição significativa da infestação de percevejo castanho e, consequentemente, aumento de produtividade da cultura. O controle químico com aplicação de inseticidas no sulco de plantio pode ser uma medida curativa a ser considerada. Inseticidas como clorpirifós, imidacropid, fipronil e tiametoxam proporcionam redução do número de percevejo castanho maior que quando são aplicados na forma convencional. De maneira geral, outras medidas podem ser propostas para o sucesso no manejo de C percevejo castanho da raiz (Box ). José Ednilson Miranda, Embrapa Algodão José Bruno Malaquias, Esalq/USP Oscar Gonçalves N. Neto, IF Goiano Lúcia Vivan, Fundação MT

Tabela 1 - Aspectos relacionados à influência da infestação de percevejo castanho em algodoeiro cultivado em sistema de plantio direto sucedendo diferentes espécies de cobertura. Santa Helena de Goiás (GO), 2012 Espécies de cobertura Pousio PanicummaximumcvAruana BrachiariabrizanthacvPiatã Brachiariaruziziensis Milheto Trigo Guandu Sorgo granífero + B. ruziziensis Gergelim + B. ruziziensis* Girassol + B. ruziziensis* Crotalariaspectabilis + B. ruziziensis Crotalariajuncea + B. ruziziensis Milheto + B. ruziziensis Guandu + B. ruziziensis Sorgo forrageiro + B. ruziziensis Girassol + B. ruziziensis Gergelim + B. ruziziensis CV

Área aproveitada (m2) 139,93 a 138,48 a 139,05 a 139,42 a 139,85 a 140,00 a 139,58 a 139,15 a 139,84 a 139,23 a 139,85 a 139,75 a 139,88 a 139,57 a 139,71 a 139,78 a 139,68 a 3,70

Capulhos por planta 7,85 a 8,55 a 8,85 a 8,45 a 8,45 a 8,15 a 9,15 a 9,10 a 8,80 a 8,95 a 11,85 a 8,05 a 8,65 a 8,50 a 9,20 a 7,50 a 8,85 a 25,59

Altura (cm) 95,65 a 87,00 a 93,05 a 90,25 a 87,40 a 99,00 a 102,70 a 93,95 a 89,10 a 89,35 a 89,30 a 92,25 a 90,70 a 87,60 a 124,25 a 93,75 a 91,65 a 20,16

Notas de aspecto visual (0-5) 3,00 a 2,50 ab 2,75 ab 3,50 a 1,25 b 3,50 a 3,50 a 3,00 a 3,25 a 3,00 a 4,00 a 4,00 a 2,50 ab 2,50 ab 3,00 a 3,00 a 3,50 a 22,35

* Semeadas em fileiras alternadas. Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey (P<0,05).

14 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Stand 294,50 a 257,75 a 198,50 a 206,00 a 187,00 a 274,00 a 269,75 a 250,50 a 285,00 a 242,00 a 261,75 a 256,00 a 246,75 a 262,75 a 258,00 a 258,50 a 251,75 a 19,27

Plantas atacadas 25,50 b 33,00 ab 72,25 ab 73,25 ab 109,50 a 35,50 ab 15,25 b 52,50 ab 30,00 b 55,00 ab 49,25 ab 36,00 ab 67,75 ab 46,25 ab 40,25 ab 45,75 ab 36,75 ab 29,02

Produtividade kg/ha 2.714,36 ab 2.698,15 ab 2.735,78 ab 2.514,99 ab 2.281,25 b 2.572,92 ab 2.744,33 ab 2.967,65 a 3.061,78 a 2.557,81 ab 2.619,36 ab 2.786,73 ab 2.488,39 ab 2.614,50 ab 2.553,98 ab 2.545,13 ab 2.566,28 ab 9,61


Soja e Trigo

Encaixe ideal Fotos Divulgação

A semeadura antecipada da soja, no mês de outubro ou até mesmo ainda em setembro, além de pressionar pela exclusão do cultivo dessas áreas no inverno para a produção de grãos, pode diminuir o rendimento de grãos da soja e o retorno econômico da atividade agrícola. Isso sugere oportunidades para melhorar o encaixe dos cultivos de inverno aos do verão, com potencial de aumentar a produção de alimentos

A

oferta comercial de cultivares de soja de tipo indeterminado e de ciclo precoce permitiu antecipar a semeadura dessa cultura em várias regiões do Sul do Brasil. Até meados dos anos 2000, a semeadura ocorria preferencialmente no mês de novembro em sucessão à colheita de trigo, sendo que, em anos recentes, houve a migração para outubro em várias situações. Carente de confirmação científica, esta mudança, na visão de alguns produtores rurais e técnicos, serviria para aumentar o potencial produtivo da cultura da soja pelos menores riscos de deficiência hídrica e/ou pressão de ferrugem asiática em períodos críticos da cultura, como tem sido verificado nos meses de janeiro e fevereiro. Um complicador nesta prática de antecipar a semeadura da soja é a interferência no

sistema de sucessão de culturas dentro das propriedades rurais, em diversas situações afetando negativamente ou até inviabilizando o cultivo de inverno. No Sul do Brasil, o cultivo das áreas agrícolas no inverno para produzir grãos corresponde a cerca de 20% da área cultivada para grãos no verão (ver artigo “Diversificação sustentável” – Março 2016, nº 202, Revista Cultivar Grandes Culturas), apesar de área e de infraestrutura disponíveis. Se a cultura de inverno está prejudicando a principal cultura econômica, que é a soja, haveria mais um fator negativo imputado à cultura de inverno, em especial ao trigo, a principal cultura de grãos na estação fria. Na busca por indicadores técnicos para avaliar e identificar estratégias de encaixe das culturas do trigo no inverno e da soja em sucessão, a Embrapa, em parceria com

instituições de ensino e/ou pesquisa do Sul do Brasil, conduziu trabalhos a campo, durante várias safras agrícolas, portanto, representando diversas condições meteorológicas, de solo, de manejo e de potencial produtivo. Com a Setrem, em Três de Maio, Rio Grande do Sul, buscou-se representar a região moderadamente quente, úmida e de baixa altitude para culturas de inverno e com considerável restrição hídrica para a soja. Na Embrapa Trigo, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, representou-se a região fria, úmida e de altitude média no inverno e com melhor oferta hídrica no verão em relação à região Oeste do Rio Grande do Sul. Já em parceria com a Fapa/Agrária em Guarapuava, Paraná, conduziu ensaios representativos de região fria, úmida e de maior altitude no inverno e com disponibilidade hídrica no verão adequada

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

15


Divulgação

Cultivares de soja com ciclos contrastantes semeadas em sucessão à aveia-preta dessecada (época antecipada) ou após a colheita de trigo (semeadura em época tradicional)

para elevado rendimento de grãos. Nestes locais foram avaliadas de 24 a 28 estratégias de encaixe de culturas de inverno e de verão. No inverno foram cultivadas: (I) aveia preta, para antecipar a semeadura de soja em sucessão e testar o relato de técnicos e produtores de que nesta situação o rendimento de grãos da soja é maior; e (II) cevada ou cultivares de trigo com ciclos contrastantes (semeadas em diferentes épocas de acordo com o ciclo), com semeadura da soja após a colheita da cultura de inverno, combinações estas que seguem as indicações técnicas. Para simular a prática de produtores foram utilizadas cultivares de soja combinando tipo de crescimento determinado e indeterminado com grupos de maturidade relativa (GMR) variando de 4.9 a 6.3 (NA 4990 RG, NS 4823 RR, A 4725 RG, BMX Energia RR, BMX Ativa RR, BMX Apolo RR, TEC 5833 Ipro, Fundacep 62 RR, AFS 110 RR, BRS Tordilha RR, A 6411 RG, FPS Urano RR, TMG 7262 RR e NA 5909 RG). Estas cultivares de soja são oriundas de vários obtentores e representam grupos de cultivares ofertadas comercialmente. Da mesma forma, as cultivares das culturas de inverno são oriundas de distintos obtentores. Para ambas as situações (inverno e verão), as cultivares e as práticas de manejo das culturas foram definidas em conjunto com técnicos de cada região. Desta forma representam as práticas regionais vigentes. Os resultados obtidos indicaram que o maior rendimento de grãos da soja esperado com a antecipação da semeadura não é genera-

lizado no Sul do Brasil. Pelo contrário, estaria ocorrendo somente em condições específicas onde a colheita da cultura de inverno ocorre a partir de meados de novembro e se estende até o início de dezembro, razão pela qual a soja é semeada tardiamente. Desta maneira, nas regiões Noroeste e Planalto Médio do Rio Grande do Sul observou-se redução média de 18% e 19,4% no rendimento de grãos quando a semeadura da soja foi antecipada (Figura 1). Por outro lado, há diferenças de rendimento de grãos entre as cultivares de soja quando semeadas na época antecipada em relação à época tradicional (Figura 2). Este comportamento diferencial de cultivares é oportunidade para produtores e técnicos escolherem aquelas mais responsivas em rendimento de grãos em cada época de semeadura. Por exemplo, no Noroeste do Rio Grande do Sul, se a decisão for adotar cultivar de tipo de crescimento determinado e antecipar a semeadura da soja e, desta forma abdicar da produção de grãos no cultivo de inverno, há risco do rendimento de grãos da soja ser 50% menor que o possível com outras cultivares disponíveis. Ainda nesta região, de modo geral, os melhores rendimentos de grãos da soja foram obtidos com cultivares de tipo indeterminado. No Planalto Médio do Rio Grande do Sul as maiores variações no rendimento de grãos de soja com a antecipação da semeadura ocorreram com cultivar de tipo determinado e ciclo intermediário, embora perdas consideráveis também tenham ocorrido com a semeadura antecipada de cultivares de tipo indeterminado e de ciclo precoce. Por outro lado, na região Centro-Sul do Paraná

16 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

as cultivares de soja avaliadas apresentaram ganho de rendimento de grãos de 5% a 30% na semeadura antecipada. Em função de a soja ser a espécie mais cultivada no verão, embora geralmente em monocultura, e no inverno a área cultivada para grãos ser bastante menor, os resultados obtidos indicam claramente oportunidades para ajustar o convívio das duas culturas, trigo e soja, nas propriedades agrícolas do Sul do Brasil, inclusive possibilitando aumentar a área cultivada no inverno para produzir grãos. Nas regiões onde a semeadura antecipada da soja não traz benefícios - inclusive diminui o rendimento de grãos em comparação a semeaduras de novembro, portanto, o inverso do relatado por alguns técnicos e produtores rurais -, o melhor caminho é manter a cultura de inverno para produzir grãos (ajustar a época de semeadura e a escolha de cultivares para não estender muito o ciclo) e a semeadura da soja na época tradicional, após colheita da cultura de inverno. Isso permite obter maior rendimento de grãos no verão e garantir ou aumentar a área de cultivo no inverno, melhorando a contribuição da agricultura para a produção de alimentos para humanos e animais, além de ser mais coerente agronomicamente. Já nas regiões mais altas e frias ocorre um dilema, pois antecipar a semeadura da soja aumenta seu rendimento. Entretanto, os cereais de inverno possuem elevados rendimentos de grãos, além de retorno econômico, e não podem ser desprezados naqueles sistemas de produção de grãos. Em tal situação, os elevados rendimentos de grãos obtidos nos cultivos de inverno poderiam compensar boa parte do menor rendimento de grãos da soja em sucessão. A análise de produção de grãos e também econômica, com olhar de sistema e não de cultura isolada, é fundamental para perceber esta oportunidade. Outra oportunidade para esta situação é adotar cultivares de soja com melhor desempenho nas semeaduras após a cultura de inverno, ou seja, com menor perda de potencial de rendimento de grãos quando semeada no final de novembro ou durante dezembro. Os estudos conduzidos pela Embrapa e parceiros reforçam as indicações técnicas vigentes para as culturas do trigo e da soja, bem como os conhecimentos agronômicos difundidos. Todavia, em cada região foram percebidas oportunidades de melhor encaixe de cultivares desta sucessão de culturas que é sucesso há muito tempo no Sul do Brasil. A tomada de decisão pela adoção da sucessão trigo e soja tem se tornado mais específica, técnica e não generalista, como por vezes é sugerido. A interação de cultivares x épocas de semeadura, seja na sucessão das culturas ou dentro de cada cultura, influencia o crescimento e desenvolvimento das plantas


Figura 1 - Variação no rendimento de grãos da soja pela alteração da época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de seis ou oito cultivares de soja e safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14)

e deve ser observada nas práticas de manejo que têm por objetivo potencializar o rendimento de grãos de forma sustentável. Por fim, ressalta-se que excluir o trigo do sistema de produção de grãos, no período de inverno, na expectativa de ter melhor rendimento com a cultura da soja, significa onerar a cultura da

Figura 2 - Variação no rendimento de grãos de cultivares de soja pela mudança na época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14)

soja com todos os dispêndios de manutenção e de depreciação da estrutura presente nas propriedades (máquinas, implementos e silos, por exemplo), além de menor eficiência de uso da estrutura disponível, já que menor quantidade de grãos será produzida por C unidade de área.

Mércio Luiz Strieder e João Leonardo Fernandes Pires, Embrapa Trigo Marcos Caraffa, Setrem Juliano Luiz de Almeida, Fapa/Agrária


Capa Fotos Germison Tomquelski

Batalha contínua O percevejo-marrom Euschistus heros é a espécie de maior abundância em soja. Durante a safra apresenta três gerações, mas pode completar a quarta após a colheita ao se alimentar de plantas hospedeiras e entrar em dormência durante sete meses. Vários aspectos devem ser cuidadosamente observados, mas o monitoramento antes e depois da aplicação de produtos fitossanitários é fator indispensável para saber quais medidas de controle precisam ser adotadas

18 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

O

s percevejos fitófagos, presentes principalmente nos sistemas de produção que envolvem a soja como principal cultura, têm causado grandes prejuízos aos produtores brasileiros. E as condições da região Centro-Oeste brasileira apresentam características que propiciam o desenvolvimento destas pragas. Na cultura da soja, dentre as espécies de percevejos, o percevejo-marrom, Euschistus heros (Heteroptera: Pentatomidae) apresenta ampla distribuição nas lavouras da região do Cerrado. Outras espécies de percevejos estão associadas ao agroecossistema como o percevejo barriga-verde (Dichelops melacanthus), o percevejo edessa (Edessa meditabunda) e o percevejo verde-pequeno (Piezodorus guildinii), apresentando altas infestações em alguns casos. Na região dos Chapadões a soja é a principal cultura, com a maior área. Trata-se normalmente da primeira cultura a se instalar no campo, recebendo o início da colonização das gerações de pragas. Os diferentes hospedeiros, além de plantas daninhas e tigueras da cultura anterior, fazem parte do sistema de rotação/ sucessão de culturas da região. Dentre os percevejos, o marrom, E. heros, é a espécie com maior abundância nas amostragens realizadas na cultura da soja. Vale destacar que apresenta grande adaptação ao clima. Durante a safra da soja E. heros normalmente apresenta três gerações, podendo se alimentar de outras culturas, como nabo-forrageiro, pastagens, crotalária, girassol, entre outras e também de espécies de plantas daninhas como trapoeraba, amendoim-bravo, nabiça, buva, amargoso, dentre outros. Após a colheita da soja, alimentando-se destas plantas hospedeiras, os percevejos podem completar a quarta geração e entrar em dormência (diapausa) na palhada da cultura anterior, onde se protege da ação dos parasitoides e predadores. Nesse período, que dura aproximadamente sete meses, pode também não se alimentar, conseguindo sobreviver das reservas de lipídeos que foram armazenadas antes da diapausa. A infestação se inicia normalmente com pontos de maior concentração nos talhões, podendo levar a erros no levantamento. Algumas áreas com refúgios próximos podem levar a entrada (migração) nos talhões e consequentemente ao começo da infestação. Os percevejos, de modo geral, apresentam preferência pelas vagens na cultura da soja e no início da sua formação concentram-se nestas partes, tanto como as ninfas e os adultos. Em alguns casos, nas folhas das plantas pode ser encontrada somente 10% da população total presente na planta. Ao sugarem as vagens e sementes, os percevejos podem injetar toxinas que provocam a “retenção foliar”, ou seja, as folhas não


Frequência de pragas em trapoeraba em levantamento no mês de setembro de 2015, região dos Chapadões. Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS

Postura de percevejos em plantas de soja em estádio vegetativo

caem normalmente e dificultam a colheita mecânica. Outro ponto a ser analisado na biologia desta praga é que os percevejos podem, em certos momentos do dia, dependendo do clima da região, se apresentar mais expostos. No caso da região dos Chapadões este período vai das 9h às 11h da manhã. No entanto, alguns trabalhos de outras regiões, e outras espécies de percevejos, não apresentaram o mesmo comportamento. Outra espécie que tem se destacado nestas últimas safras é o percevejo barriga-verde Dichelops (Dichelops melacanthus), em virtude do aumento de plantas tigueras de milho nas lavouras de soja, interação com plantas daninhas e, consequentemente, maior adaptação ao meio. Os adultos apresentam espinhos laterais e possuem o corpo na coloração marrom uniforme e a região ventral de coloração verde. Apresentam o tamanho em torno de 9mm de comprimento. Os ovos são colocados em placas e possuem coloração verde. Esta espécie é uma das mais importantes pragas na cultura do milho, e o seu manejo passa primeiramente pela cultura antecessora, no caso a soja, principalmente no cultivo do milho segunda safra (safrinha). A sobra das safras anteriores tem levado a prejuízos enormes em algumas regiões do Brasil. Outras espécies de percevejos da família Pentatomidae são encontradas atacando as culturas. Entretanto, em menor abundância, como é o caso do percevejo-pequeno Piezodorus guildinii, Edessa meditabunda, percevejo-verde (Nezara viridula), Thyanta perditor e Acrosternum sp. Estes percevejos isoladamente podem não causar perdas na produtividade e qualidade dos grãos, mas é preciso somar os danos destes aos das espécies principais. Desse modo, são responsáveis por redução no rendimento e qualidade da semente, em consequência das picadas. Os grãos atacados ficam menores, enrugados, chochos e tornam-se mais escuros. As perdas pela sucção das vagens e grãos

tendem a ser superiores a 30%, podendo também provocar manchas nos grãos já formados. Altas populações levam à queda de vagens em alguns casos. Nas últimas safras tornou-se comum encontrar algumas áreas com o problema de haste verde, retenção foliar e/ou também chamado de “soja louca 1”. Nas lavouras atacadas se verificam manchas com plantas verdes, que não chegam à senescência mesmo com o processo de dessecação da cultura. Nestas áreas normalmente se encontram alta quantidade de indivíduos, ou mesmo algumas vezes o produtor chega a controlar a população no final, sendo que o prejuízo já ocorreu. As últimas áreas dentro da propriedade ou mesmo na região tendem a sofrer por este processo. Pode o produtor ter controlado bem o percevejo até determinada fase, mas a migração de outras áreas muda a dinâmica populacional em uma semana, levando a altos índices da praga e consequentemente grandes prejuízos. O Manejo Integrado de Pragas envolve várias práticas, sendo a amostragem um dos alicerces do programa. No levantamento, o técnico deve identificar corretamente as espécies e anotar também o número de ninfas, que a partir do 2º instar já podem causar prejuízos. Neste caso, somente através do pano de batida pode o técnico ou produtor realizar

a correta identificação e verificar o “real” nível de infestação. Esta prática, apesar de antiga, é a de maior assertividade do manejo. A recomendação é de que seja realizada o máximo possível, porém, com praticabilidade em virtude de tamanho de áreas etc. O treinamento da equipe de amostradores deve ser uma prática adotada ano a ano para o aperfeiçoamento, reciclagem do conhecimento e entendimento da dinâmica populacional da praga. Após saber qual é o índice de infestação, o técnico poderá adotar uma medida. Neste ponto, os trabalhos desenvolvidos na Fundação Chapadão, com auxílio do conselho técnico-científico, tem mostrado que até com um percevejo por metro de linha o produtor/ técnico tem conseguido manejar a praga, sem levar a prejuízos significativos à produção de grãos. O manejo de áreas para produção de sementes requer mais atenção, sendo o nível para controle metade ou menor do índice para grão. Alguns estudos estão sendo desenvolvidos para verificar este nível, já que a qualidade da semente é fator primordial para a comercialização. As melhores sementes comercializadas não chegam a índices de 1% de ataque de percevejos. Os testes de tetrazólio têm ajudado no reconhecimento de lotes atacados. Várias estratégias de controle devem ser analisadas e uma delas é manter a população

Danos em grão de soja provocados pelo ataque de percevejos

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

19


a dinâmica populacional da praga, sendo necessário tomar medidas de manejo populacional da praga, tentando se ajustar ao índice recomendado de controle. Outro ponto a se relatar são as eficiências de controle, que em grande parte dos inseticidas tem se mostrado com variações de 60% a 80%. Estes percentuais de controle estão associados a fatores como tecnologia de aplicação, falhas no monitoramento e a entrada com altos índices da praga. O técnico tem de levar em consideração que estará trabalhando com sobras da praga no sistema. Os horários para o monitoramento e aplicações podem se dar no começo ou término do dia, horários estes com maior frequência de percevejos na cultura. Desta forma, se num levantamento apresentar cinco percevejos por metro, após a aplicação do inseticida com 80% de controle sobrará um percevejo, que é ainda um índice de controle, necessitando uma reaplicação com intervalo de até sete dias. As aplicações, muitas vezes chamadas de “caronas”, não têm atingido bons resultados, principalmente com a adição de outros produtos à calda alterando as características de funcionamento de determinados inseticidas e quando aplicadas em intervalos longos (20 dias, utilizado comumente para fungicidas). Analisando este aspecto, devem o produtor e o técnico entender que mesmo após as aplicações é preciso continuar monitorando a população, a fim de observar a sua eficiência, além de uma possível ressurgência e consequentemente a necessidade de uma nova aplicação.

Fotos Germison Tomquelski

baixa nos refúgios, o que se torna imprescindível para evitar grandes prejuízos às culturas subsequentes. Faz-se necessário entender o sistema de produção, quando da semeadura de culturas que porventura possam ser atacadas, como algodão, milho, girassol, feijão entre outras. Somente o manejo nestas culturas pode diminuir a quantidade inicial de percevejos para a próxima safra. Dentre as estratégias de controle o manejo químico também deve ser considerado, se apresentar inseticida registrado ou mesmo um programa de controle biológico. Com o advento da utilização de plantas geneticamente modificadas resistentes a glifosato, é comum encontrar plantas de milho, tigueras, no interior de lavouras de soja. Espigas, que normalmente caem na colheita, geram mais de um fluxo, necessitando duas aplicações de graminicidas, a fim de retirar o alimento para a praga. Estas tigueras têm levado ao aumento dos problemas com o percevejo-barriga-verde, além da sua interação com diversas plantas daninhas. É valido lembrar que muitos dos indivíduos que sobram para a próxima safra são parasitados naturalmente. Na região dos Chapadões (Chapadão do Sul, Costa Rica – MS e Chapadão do Céu - GO) alguns parasitoides como Hexacladia smitt e Trichopoda nitens tem ocorrido levando à morte parte da população de percevejos. Uma questão necessária na análise das infestações em semeaduras de setembro e outubro, com percevejos, é que se ocorrer baixo parasitismo, deve o técnico trabalhar

Na cultura da soja, o percevejo-marrom Euschistus heros apresenta ampla distribuição nas lavouras da região do Cerrado

20 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Dispersão de percevejos em talhão de soja. Pontos vermelhos: índice de percevejos maior que dois indivíduos por metro, pontos verdes-escuros: zero indivíduo. Fundação Chapadão 2012

Entre os inseticidas disponíveis no mercado é preciso destacar que no manejo, apesar de não haver grandes possibilidades para a rotação, se faz interessante pelo menos dois grupos químicos no controle da praga. Entre eles destacam-se os organofosforados representados principalmente por acefato e as “misturas prontas” de piretroides + neonicotinoides. As alternativas de controle podem ser integradas. Em adultos atingiu-se boa eficiência com organofosforados e algumas misturas, mas em ninfas de percevejos as misturas de piretroides + neonicotinoides têm apresentado resultados superiores aos organofosforados, em função do maior efeito residual da sua aplicação. Vale destacar que nos casos das misturas prontas, a utilização de piretroides separadamente ou mesmo neonicotinoide isoladamente não tem resultado em bom controle de percevejos. Podem também ser integrados no manejo outros inseticidas disponíveis no mercado, como a mistura de bifentrina + carbosulfan, além de novas moléculas como dinotefuran. Outras “misturas” estão em fase de registro. Se não forem observados todos os aspectos do manejo da dinâmica populacional desta praga, as ferramentas poderão não apresentar C bom comportamento. Germison Tomquelski, Josiane Oliveira e Patricia Mariano, Fundação Chapadão


Soja

Manejo de insetos Fotos Tiago Lovato Colpo

Entre as pragas que afetam a cultura da soja, percevejos se destacam como sérios causadores de problemas. Ao adotar medidas de controle é preciso estar atento a diversos aspectos, como o estádio fenológico da planta, as condições do ambiente, o nível de dano e o momento da aplicação de fungicidas

O

manejo da cultura da soja está cada vez mais aprimorado. A cada dia que passa tem-se um maior conhecimento a respeito das cultivares, época de semeadura, plantabilidade, adubação, calagem, inoculação, dentre outras práticas que cercam os fatores construtores da produtividade da cultura. Com isso, em alguns pontos há o manejo consolidado, contudo, em outros existem lacunas que fazem com que toda a produtividade teórica construída possa estar ameaçada por ausência de intervenções que protejam a produtividade. Nesse caso, o manejo fitossanitário no que diz respeito aos insetos-praga deve estar sempre buscando aliar um manejo integrado que possa reduzir a pressão de pragas e manter a produtividade. Cada produtor possui uma estratégia no combate de insetos-praga, contudo alguns parâmetros devem ser levados em consideração, como, por exemplo, qual inseto-praga pode causar ou já está provocando o maior prejuízo. É preciso analisar se ao longo das safras essa praga é reconhecida como a principal e se sempre causa os principais danos. Também não descuidar do nível de dano econômico para que seja realizado o manejo dos insetos-praga. É importante ainda o estádio em que a planta se encontra em relação à presença dos insetos-praga e a eficiência de cada inseticida

em relação à praga-alvo e às condições do clima. Sobre as condições climáticas (ambiente) são necessários cuidados com as condições favoráveis ao desenvolvimento das pragas e circunstâncias do ambiente para a aplicação dos inseticidas, bem como as condições de estresse da planta. Anualmente existe um grande conjunto de cultivares de soja que estão disponíveis no mercado de sementes sendo recomendadas para cada local. Naturalmente, as que mais se adaptam e são as mais produtivas permanecem mais tempo no mercado de sementes e as outras são substituídas. Com isso, a oferta de cultivares é variável ano a ano, mas ao longo dos tempos percebe-se que existe uma maior preferência por parte dos agricultores pelas cultivares que possuem um ciclo mais curto, são produtivas, com boa resistência a estresses ambientais e bióticos. Com a escolha por cultivares de ciclo mais curto, algumas características passam a ser assumidas, como a redução da área foliar da planta e algumas vezes a área por folha. Isso faz com que cada folha passe a ter um papel cada vez mais importante dentro da planta, pois é a responsável por sustentar (ser fonte) para um conjunto de vagens/grãos (dreno). Nesse sentido, cada cultivar tem uma área foliar limite (mínima e máxima) em que a produtividade de grãos está baseada sempre

considerando o ambiente onde essa cultivar está inserida. O ideal é que os insetos-praga não interferissem sobre a área foliar da soja, mas esse manejo nem sempre é possível. Verifica-se que existe uma capacidade da planta em suportar o dano causado pelos insetos sem que isso interfira na produtividade dos grãos. Ou seja, a planta possui uma capacidade compensatória que, em função de sua área foliar (que é maior ao seu valor crítico mínimo naquele ambiente), pode compensar eventuais danos. Contudo, existem danos econômicos na agricultura. Por isso deverá existir um equilíbrio econômico em relação à produtividade e ao rendimento econômico da lavoura. A partir de determinados valores de danos, para algumas pragas (ou conjunto delas), deve-se adotar ações de controle para reduzir a presença e consequentemente o seu dano. Na Figura 1 estão representados os níveis de ação para as principais pragas da soja. As informações são apresentadas pela Embrapa, 2011. Ao adotar os níveis de controle indicados na Figura 1, deve-se levar em consideração itens como questões econômicas, mudança nas cultivares e nas reações das cultivares à perda de área foliar. Isso faz com que o manejo adotado possa variar conforme os objetivos de cada produtor de soja.

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

21


Cultivar SYN 13671 IPRO SYN 13561 IPRO VTOP RR TEC 6702 IPRO TEC 7849 IPRO TEC IRGA 6070 RR BMX ELITE IPRO BMX VANGUARDA IPRO BMX LANÇA IPRO BMX PONTA IPRO BMX GARRA IPRO BMX ÍCONE IPRO BMX TORNADO RR BMX VALENTE RR BMX MAGNA RR BMX POTÊNCIA RR M 5917 IPRO M 5947 IPRO M 5892 IPRO M 6410 IPRO DM 5958 RSF IPRO DM 6563 RSF IPRO DM 61I59 RSF IPRO NS 6006 IPRO NS 6700 IPRO NS 5106 IPRO NS 5445 IPRO NS 6909 IPRO NS 5000 IPRO NS 5727 IPRO NS 5959 IPRO NA 5909 RR NS 6209 RR NS 5290 RR NS 5258 RR TMG 7062 IPRO TMG 2158 IPRO TMG 7262 RR TMG 1266 RR TMG 7363 RR TMG LINHAGEM 21 TMG LINHAGEM 53 FPS SOLAR IPRO FPS ATALANTA IPRO FPS JUPITER RR FPS ANTARES RR P 95Y72 RR P 95R51 RR

GMR 6.7 5.8 5.9 6.7 7.8 6.0 5.5 6.0 5.8 6.6 6.3 6.8 6.2 6.7 6.2 6.7 5.9 5.9 5.8 6.4 5.8 6.3 6.1 6.0 6.7 5.1 5.4 6.9 5.0 5.7 5.9 5.9 6.2 5.2 5.2 6.2 5.8 6.2 6.6 6.3 6.3 5.8 5.9 6.8 5.7 5.5

TC I I I I I I I I I I I I I I I I I I SD I I I I I I I I I I I I I SD I I SD I SD SD I I I I I I I

MMG 146-180 170-200 148-176 140-160 169 165 177 166 189 185 175 189 143 168 170 170 121 175-185 164 178 143-180 171 167 196 168 184 175 184 165 174 173 161 -

Nesse sentido, buscou-se realizar um levantamento dos insetos-praga em 48 cultivares de soja, semeadas em Santa Maria na safra 2015/2016. As parcelas experimentais continham cinco fileiras espaçadas 0,5m com 7,75m de comprimento e três repetições. As batidas de pano foram realizadas em cada parcela. Uma das três repetições sempre ante-

AC MR MR R R R MR R R R R R R R R R MR R R R R R R MR R R T T

FER A A M/A M/A A A A M/A B A M A M/A A M/A A A A A A M/A M A M/A M/A M/A M/A M/A M/A A A

CH R R R R R R R R R R R R R R R MR R R MR R R R R R R R R R R R R R R R R R R R -

MOR MR S/MR MR S R S S S R MR S MR R S MR MR MR MR MR MR MR MR R R R R R R R R R R MR MR MR MR -

PB MR S R S S S S S S S S S S MR R MS MR MR MR S R R R R R R R R R R S S MS MR MR -

PR MR MS MR R S R R R R MR R R S S S S R MR R R R R R R R R R R -

BIO IPRO IPRO RR IPRO IPRO RR IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO RR RR RR RR IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO IPRO RR RR RR RR IPRO IPRO RR RR RR IPRO IPRO RR RR RR RR

cedendo as aplicações de inseticidas, conforme a Figura 2. O manejo da cultura seguiu as recomendações da Embrapa para altos tetos produtivos. As cultivares de soja avaliadas estão descritas na Tabela 1. Verifica-se que ao considerar-se o nível mínimo estabelecido (Figura 1) nas 111 parcelas (37 cultivares), 40% necessitaria a aplicação

22 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Fotos Tiago Lovato Colpo

Tabela 1 - Principais características1 das cultivares utilizadas no experimento, grupo de maturação relativa (GMR), tipo de crescimento (TC), massa de mil grãos (MMG, gramas), resposta ao acamamento (AC), exigência de fertilidade do solo (FER), cancro da haste (CH), mancha "olho-de-rã" (MOR), pústula bacteriana (PB), podridão radicular de Phytophthora (PR) e biotecnologias associadas (BIO)

Aspecto rendilhado em folha de soja provocado pelo ataque da lagarta-falsa-medideira

imediata para o controle do percevejo no caso de produção de grãos. Para as três avaliações verificou-se que na primeira época de cultivares semeadas houve uma variação de 34% a 47%, no caso da produção de grãos. Já para a produção de sementes o número de parcelas praticamente dobrou. A segunda época de semeadura de cultivares de soja estabeleceu que para a produção de grãos a necessidade da realização de aplicações era de apenas 2%, mas para a produção de semente esse índice variou de 17% a 71%, conforme as avaliações realizadas. Percebe-se também que os problemas com percevejo aumentam de acordo com a evolução da cultura para estádios mais adiantados, devido às condições climáticas favorecendo o desenvolvimento da população de percevejos. Verifica-se também que o percentual de parcelas com problemas com lagartas em ambas as épocas de semeadura foi zero. Com o alerta realizado pela elevada população de percevejos foram adicionados produtos destinados ao controle de lagartas (evitando, assim, uma aplicação exclusiva para lagartas), o que manteve esses insetos-pragas em níveis baixos. Dessa forma, percebe-se nas condições do experimento que o principal problema presente na safra de 2015/2015, no que se refere a insetos-praga, esteve restrito aos percevejos que atingiram os limites superiores para a produção de grãos e sementes de soja. Essa verificação ocorreu somente na área experimental avaliada. O manejo para as lagartas permitiu que o inseto permanecesse em níveis abaixo dos críticos que justificassem um controle exclusivo. Certamente existe uma Tabela 2 - Percentual de parcela com indicação para aplicação de inseticida para percevejos e lagartas. Avaliação

1a 2a 3a

Percevejos Lagartas Primeira época Segunda época Grãos Sementes Grãos Sementes 0,75 0,02 0,40 0,17 0 0,68 0,02 0,34 0,19 0 0,85 0,02 0,47 0,71 0


Figura 1 - Recomendação de manejo para o controle de pragas na cultura da soja Figura 2 - Momento de realização das avaliações, aplicação de inseticidas e tempo conforme cada estádio fenológico e cada praga entre as aplicações

*Maiores de 1,5cm e considerando batida de apenas uma fileira de soja sobre o pano. **Maiores de 0,5cm e considerando batida de apenas uma fileira de soja sobre o pano. Modificado por Martin de Embrapa (Tecnologias...2011). Fotos: Martin, Colpo e Veiga. . Figura adaptada por Thomas Martin Fonte: Thomas Martin

variabilidade de condições no estado do Rio Grande do Sul. Verificou-se que pela disposição das cultivares não foi possível perceber preferência dos insetos-praga em relação às cultivares estudadas.

PRAGAS ENCONTRADAS NO EXPERIMENTO

Entre as pragas encontradas no experimento de competição de cultivares de soja, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, está a lagarta preta (Spodoptera cosmioides). Este inseto é uma espécie polífaga de hábito desfolhador, que alimenta-se também de vagens (fase reprodutiva da cultura), danificando os grãos. Outra praga presente é a lagarta-falsa-medideira (Chrysodeixis (=Pseudoplusia) includens). Pode atacar tanto simultaneamente à lagarta da soja como posteriormente. Consome as folhas deixando um aspecto rendilhado. Outro inseto encontrado no experimento foi o percevejo-barriga-verde (Dichelops melacanthus e Dichelops furcatus). Ataca preferente-

mente vagens e grãos. Dichelops furcatus é mais comum no Sul do Brasil, enquanto Dichelops melacanthus ocorre mais no Norte do Paraná e Centro-Oeste. Percevejos sugam a seiva da planta, atacando hastes, brotações e vagens (grãos). Durante o ataque injetam toxinas, podendo causar a retenção foliar (“soja louca”). Os grãos, após o ataque, ficam manchados e/ ou chocos. Por sua vez, o percevejo pequeno (Piezodorus guildinii) ataca preferencialmente durante o florescimento, mas geralmente atinge o pico populacional antes dos demais percevejos. Comparativamente é o que causa a maior lesão à cultura da soja. O idiamin ou lagria (Lagria villosa) foi outro inseto detectado no experimento em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Seu ataque se dá preferencialmente no desenvolvimento vegetativo, tendo hábito desfolhador. O percevejo-asa-preta (Edessa meditabunda) tem pór época preferencial de ataque o

início da fase reprodutiva, quando a ofensiva deste inseto é intensificada. A praga suga a seiva de ramos e vagens. Também pode favorecer o aparecimento da “soja louca” pela ingestão de toxinas nas plantas. O percevejo chinavia (Chinavia Orian) costuma atacar no final do período vegetativo e início do período reprodutivo. São polífagos e considerados pragas secundárias. A vaquinha verde (Diabrotica speciosa) tem registrado surtos populacionais, possivelmente relacionados com desiquilíbrios ecológicos. Os adultos atacam as folhas, preferencialmente as mais novas, mas podem atacar brotos, flores e pólen. As larvar podem afetar as raízes e C reduzir a nodulação. Tiago Lovato Colpo, Evandro Ademir Deak e Thomas Newton Martin, UFSM Ana Lucia de Paula Ribeiro IF Farroupilha


Soja

Fotos Instituto Phytus

Anomalia inquietante

Dezenas de exemplares do nematoide Aphelenchoides sp, causador do fenômeno Soja Louca II, foram identificados pelo Laboratório de Nematologia do Instituto Phytus na parte aérea de plantas sintomáticas oriundas de lavouras de soja do Rio Grande do Sul

N

a safra 2015/16 o Instituto Phytus, no Rio Grande do Sul, recebeu diversas reclamações de produtores e consultores de alguns municípios do estado gaúcho referentes à ocorrência de um distúrbio fisiológico nas plantas de soja. Diferenças nítidas em relação ao ciclo de maturação, partes em estádios avançados de senescência e outras expressando uma forte retenção foliar e ausência de legumes. Sintomas ligados a distúrbios fisiológicos em plantas de soja são considerados extremamente complexos, pois geralmente não apresentam uma explicação lógica. Embora alguns fatores bióticos e abióticos possam vir a causar algum tipo de distúrbio nas plantas de soja. Algumas hipóteses preliminares foram

criadas e precisam ser levadas em consideração. Uma das primeiras e possíveis causas descartadas de início foi a relação com o ataque de percevejos, porém, estas áreas não apresentaram níveis elevados desta praga. Sabe-se que o ataque intenso de percevejos pode vir a desencadear um distúrbio fisiológico em função da sua alimentação. Dependendo do estádio de desenvolvimento (ninfas), pode acarretar má formação dos grãos, seguida da queda de legumes e retardamento da fase reprodutiva. Este tipo de anomalia já foi relatado por pesquisadores e denominado de soja louca. Outra possível causa para o problema está atrelada ao regime hídrico (excesso ou falta de chuvas), durante o período de desenvolvimento da cultura. No primeiro aspecto, em

24 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

algumas lavouras foram observadas plantas com desenvolvimento normal. Entretanto, não apresentavam porte reduzido, uma característica que normalmente é verificada em áreas com excesso hídrico, enfraquecendo esta teoria. Além disso, em algumas áreas, o terreno apresentava certo grau de declive, o que claramente interfere no acúmulo excessivo de água, tornando o ambiente pouco propício nesta questão. No outro extremo, o estresse hídrico pode causar o abortamento de flores e legumes, principalmente quando o estresse ocorre na fase de floração e formação de legumes. Um fator determinante para o descarte dessa teoria foi em relação aos diferentes formatos dos sintomas nas lavouras (faixa, manchas).


Figura 1 - Representantes da família Aphelencoididae

Santos e Madalosso analisam anomalia registrada em lavouras do Rio Grande do Sul

Além disso, cabe ainda salientar que, na safra 2015/16, o regime pluviométrico foi aproximadamente 20% maior que a média histórica do Rio Grande do Sul, em função de fenômeno El Niño. Outras duas possíveis causas recaíram sobre a variedade de soja, e as condições climáticas ligadas à temperatura e ao fotoperíodo. Na primeira, cruzando as informações dadas pelos produtores, observou-se ser pouco provável, pois tais sintomas apareceram em pelo menos cinco variedades diferentes de soja, mostrando não ter uma correlação direta com alguma variedade específica. As causas acerca da luminosidade e da temperatura mostram-se, também, pouco prováveis, devido à distância entre os locais de aparecimento dos sintomas, bem como a distribuição das plantas afetadas nas lavouras. Vale lembrar que o fotoperíodo é uma característica variável das cultivares, onde cada uma possui seu fotoperíodo crítico e a temperatura exerce papel fundamental em todo o estádio de desenvolvimento fenológico da planta. Outra possível causa assentou-se sobre a ótica da deficiência nutricional. O desequilíbrio nutricional interfere diretamente nos processos de desenvolvimento das plantas e, dependendo dos níveis de deficiência, pode vir a causar algum distúrbio no seu desenvolvi-

mento. Tem-se como exemplo a retenção foliar, a haste verde, o mau pegamento dos legumes e até a formação de sementes partenocárpicas, entre outros. Além disso, outro questionamento recaiu sobre um problema que até então é muito recente, relatado e comprovado cientificamente (Postulado de Koch), pelos pesquisadores da Embrapa Mauricio Meyer e Luciany Favoreto, da Epamig, denominada então de Soja Louca II, causada pelo nematoide do gênero Aphelenchoides sp. Os sintomas nas plantas estavam muito semelhantes aos já relatados pelos pesquisadores. Os principais sintomas observados nas plantas destas lavouras do Rio Grande Sul foram folhas enfezadas e afiladas, com uma coloração verde-escuro, hastes muito alongadas “caneludas” e legumes com grãos de diferentes tamanhos. Nestas áreas observou-se, ainda, um alto índice de abortamento de legumes, durante o estádio reprodutivo (R3 – R6), seguido de um número excessivo de brotamentos nas axilas. Amostras da parte aérea das plantas, semelhantes aos sintomas de Soja Louca II, foram analisadas no laboratório de Nematologia do Instituto Phytus, Rio Grande do Sul, onde foram identificadas dezenas de exemplares destes nematoides (Aphelenchoides sp) presentes na parte área das plantas. Nematoides desta

Diferentes formatos dos sintomas nas lavouras, como faixas e manchas observadas em áreas afetadas pela anomalia

família são mundialmente conhecidos como fitoparasitas de parte aérea dos vegetais, sobrevivendo como micófagose alimentando-se de fungos presentes no solo. Existem relatos diversos de danos em culturas como arroz, ornamentais e florestais. A característica de ectoparasita migrador permite que promova a infecção/dano no hospedeiro e, posteriormente, desloque-se até o próximo sítio de infecção. Embora tenha encontrado a presença deste nematoide nas plantas de soja, ainda existe uma série de questionamentos a serem respondidos acerca da biologia deste nematoide, como sua infecção, colonização e reprodução na soja. Estes aspectos são imprescindíveis para formulação de medidas voltadas ao manejo e controle. Neste caso não existe ainda algo concreto para se recomendar aos produtores. Entretanto, alguns aspectos devem ser levados em consideração para tentar esclarecer o mais rápido possível as causas envolvendo este nematoide na soja. Este estudo deve contemplar outras áreas, pois se tratando de eventos fisiológicos, quaisquer fatores (bióticos e abióticos) podem estar envolvidos com esta C anomalia também. Paulo Sérgio Santos e Marcelo Madalosso, Instituto Phytus

Folhas enfezadas e afiladas, com coloração verde-escuro, hastes muito alongadas e legumes com abortamento e grãos de diferentes tamanhos

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

25


Soja

Fungos e nematoides A emergência e o estabelecimento de plântulas de soja são constantemente desafiados por agentes patogênicos, transmitidos via sementes ou presentes no solo, capazes de comprometer a sanidade já na fase inicial do cultivo. É o caso de Rhizoctonia solani e Meloidogyne javanica. A associação de tratamento químico de sementes com nematicida de origem natural pode auxiliar no manejo deste tipo de problema

O

Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, estando com uma estimativa para a safra 2016 de mais de 99 milhões de toneladas do grão. Somente a Região Sul do Brasil é responsável pela produção de mais de 30 milhões de toneladas de soja. Apesar do cenário bastante otimista para a cultura, uma das principais dificuldades enfrentadas têm sido os problemas de emergência e estabelecimento das plântulas. Vários agentes patogênicos interferem na sanidade das novas plântulas, principalmente fungos que, além de estarem presentes nos restos culturais, podem ser transmitidos via sementes. A morte em reboleira, causada por Rhizoctonia solani, tem baixa transmissão

via semente, porém, é comum no solo e em restos culturais, em função da sua característica polífaga. O fungo causa tombamento e morte em pós-emergência. Rhizoctonia solani é um dos mais importantes, pois ocasiona além do tombamento, mela ou requeima da soja e podridão aquosa e negra da base da haste, em diferentes estádios fenológicos de desenvolvimento da cultura. Além dos danos provocados por fungos de solo, a cultura da soja também é atacada por nematoides, que, em caso de ocorrência concomitante com alguns patógenos de solo, podem potencializar o efeito negativo de ambos, prejudicando ainda mais o desenvolvimento das plantas. É comum em algumas áreas, a associação

26 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

de fungos de solo como Rhizoctonia solani e Fusarium spp. com alguns nematoides, especialmente Meloidogyne javanica e M. incognita, que são duas espécies capazes de ocasionar vultosas perdas, especialmente na Região Sul do Brasil. É sabido que nematoides fitoparasitos podem predispor as plantas, mesmo que resistentes, à ação de fungos fitopatogênicos habitantes do solo. O controle de patógenos de solo, em geral, é tarefa de difícil realização. Em função disso, vem surgindo a necessidade de resgatar a utilização de substâncias naturais, biologicamente ativas, contra as pragas e os patógenos, bem como a utilização do controle biológico. Outro fator de grande importância que contribuiu para o interesse pelas substâncias naturais foi o avanço do sistema orgânico de produção. Com isso, houve necessidade de se buscar práticas agrícolas de baixo impacto ambiental, que pudessem agregar controle, reduzindo a utilização do controle químico. Diante disso, as plantas, com suas propriedades antagônicas com ação antifúngica e helmíntica, se tornam uma ferramenta importante junto à área de proteção de plantas e ao controle biológico. A principal vantagem relacionada ao uso de extratos vegetais em proteção de plantas, quando comparados aos produtos sintéticos, deve-se ao fato de os compostos, como saponinas, taninos, fenóis e polifenóis, não serem inativados facilmente por esses patógenos, possuindo amplo modo de ação sobre patógenos. Diante disso, buscou-se com este trabalho avaliar o efeito dos fungicidas fluxapiroxade (0,06L/100kg de sementes), piraclostrobina + tiofanato metílico + fipronil (0,2L/100kg de sementes) em tratamento de sementes em combinação com QL agri 35 (40L/ha divididos em duas aplicações). Além deles, utilizou-se abamectina 500 FS como padrão nematicida. O ensaio foi conduzido em solo infestado por Rhizoctonia solani e Meloidogyne javanica na cultura da soja. A incidência e severidade de Rhizoctonia solani, bem como o número de nematoides nas raízes de soja, foi reduzida pela utilização dos tratamentos utilizados (Figuras 1 e 2). Nas avaliações realizadas aos 14, 21 e 28 dias foi possível observar que, na testemunha onde houve inoculação de fungo e nematoides foi encontrado um número maior de juvenis de M. javanica penetrados nas raízes (Figura 2). Os tratamentos contendo fluxapiroxade + QL agri (0,06L/100kg + 40L/ha) e piraclostrobina + tiofanato metílico + fipronil (0,2L/100kg + 40L/ha) proporcionaram controle superior ou próximo a 80% até os 21 DAS da soja, evidenciando, portanto, um aumento no residual dos produtos, mesmo em uma situação de alta infestação do solo com o patógeno em questão (Figura 1). Houve redução na população de nematoides


Figura 1 - Controle de Rhizoctonia solani em raízes de soja em solo inoculado com Rhizoctonia solani e M. javanica aos 21 dias após a semeadura. Itaara, 2015

ocasionada pela combinação dos tratamentos de semente, com o QL agri 35. Nesse caso, aos 28 DAS, a redução de nematoides ocasionada pelas combinações de fluxapiroxade + QL agri e piraclostrobina + tiofanato metílico + fipronil foi estatisticamente superior a aquela proporcionada pela abamectina. Esse fato está relacionado com a sinergia entre os fungicidas com o nematicida QL agri 35, que é um produto à base de extrato de Quillay (Quillaja saponaria). A ação do QL agri 35 se dá por contato ou ingestão, atuando principalmente sobre lipídios dos nematoides, alterando, dessa forma, a permeabilidade das membranas celulares. Quando consideradas as avaliações de severidade de Rhizoctonia solani nas raízes de soja, a Tabela 1 mostra que o número de juvenis de M. javanica está altamente relacionado com a severidade da doença e com a área abaixo da curva de progresso da doença. Essa correlação está associada com o fato de a penetração dos nematoides nas raízes abrir uma “porta” que facilita a entrada de fungos de solo. A exemplo do que foi observado no tocante à interação entre nematoides e fungos de solo, a patogenicidade de Pratylenchus spp. pode ser influenciada pela interação com

Figura 2 - Número de nematoides juvenis de M. javanica penetrados em raízes de soja aos 7 DAS. Itaara, 2015

Tabela 1- Correlação simples entre variáveis, considerando avaliações de população de nematoides nas raízes da soja e variáveis fisiológicas. Itaara, 2015 NEMA14 NEMA21 NEMA28 PENET SEV7 SEV14 SEV21 AACPD

NEMA14 1

NEMA21 0.76 1

NEMA28 0.75 0.61 1

PENET 0.65 0.74 0.49 1

SEV7 0.30 -0.22 0.58 -0.02 1

SEV14 0.54 -0.02 0.63 0.09 0.95 1

SEV21 0.51 0.26 0.89 0.33 0.84 0.80 1

AACPD 0.52 0.20 0.86 0.29 0.90 0.87 0.99 1

* Significativo ao nível de 5% de probabilidade (0,01=<p<0,05).

outros patógenos, principalmente fungos habitantes de solo. As interações mais frequentemente relatadas são com fungos causadores de murchas, dos gêneros Fusarium sp. e Verticillium sp. Essas interações entre o nematoide e o fungo são consideradas sinérgicas, ou seja, a associação entre os dois patógenos resulta em danos maiores que a soma dos danos de cada patógeno isolado. Em função disso, é importante a associação de fungicidas com maior residual de controle. Nesse sentido, é importante pensar sempre no contexto de manejo integrado de doenças, buscando associar técnicas que,

juntas, diminuam o impacto negativo dos micro-organismos no sistema agrícola, preferencialmente, com menor impacto ambiental possível. Como a utilização de produtos à base de extrato de plantas, é possível agregar residual a produtos já existentes, melhorando o controle de doenças. C Caroline Gulart e Paulo Sergio Santos, Instituto Phytus Ricardo Balardin e Jacson Zuhl, UFSM

Trabalho foi conduzido com o objetivo de avaliar a incidência e severidade de Rhizoctonia solani, bem como o número de nematoides nas raízes de soja a partir dos tratamentos utilizados

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

27


Algodão

Manejo adequado José Fernando Jurca Grigolli

Principal praga da cotonicultura brasileira, o bicudo-do-algodoeiro é um inseto agressivo, que leva à queda de maçãs e botões florais utilizados para alimentação e oviposição. Manejá-lo exige ações conjuntas, coordenadas e aplicadas em âmbito regional, adotadas antes mesmo da instalação da cultura

O

bicudo-do-algodoeiro Anthonomus grandis Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae) é a principal praga da cotonicultura brasileira. Foi detectado no Brasil em 1983, em São Paulo, e a partir daí se disseminou por todas as regiões produtoras de algodão do Brasil. A biologia deste inseto caracteriza-se por apresentar metamorfose completa, ou seja, passa por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. Fêmeas adultas têm como nicho de oviposição as estruturas

reprodutivas do algodoeiro (botão floral e maçãs), tendo preferência por botões florais com cerca de 6mm de diâmetro. O adulto mede aproximadamente de 4mm a 9mm de comprimento e 7mm de envergadura. A variação do seu tamanho é influenciada pela quantidade e qualidade de alimento ingerido durante o período larval. As fêmeas ovipositam um ovo por orifício, o que ocorre através do aparelho bucal nos botões florais e nas maçãs do algodoeiro. Após a oviposição a fêmea sela o orifício com uma

28 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

substância gelatinosa. O período de incubação dos ovos é de três a quatro dias, sendo influenciado pela temperatura e umidade. Ao eclodirem as larvas já começam a alimentação do interior dos botões florais e/ou maçãs do algodoeiro. Estas são ápodas de coloração branca e não apresentam pares de pernas. Passam à fase de pupa entre sete dias e 12 dias, ainda dentro das próprias estruturas atacadas. Após o período de três dias a cinco dias, emergem os adultos, que podem sobreviver de 20 dias a


40 dias. As fêmeas colocam de 100 ovos a 300 ovos. Terminado o ciclo da cultura, e se boas práticas de destruição dos restos culturais forem realizadas, a população de adultos migra para áreas de refúgio naturais e parte dos adultos sobrevive até a safra seguinte. Estes insetos que migram para áreas naturais entram em período de hibernação reprodutiva, ou seja, apenas se alimentam e não se reproduzem. Em condições de campo, podem ocorrer de cinco a até sete gerações do bicudo durante o ciclo da cultura. Os danos ou injúrias causados por A. grandis decorrem da utilização de maçãs e botões florais para alimentação e oviposição, provocando a queda destas estruturas depois de alguns dias. Os danos de oviposição não afetam imediatamente o botão floral, que continua se desenvolvendo normalmente até o início do segundo instar larval da praga. Posteriormente, o botão floral cai da planta. Os botões com danos de alimentação são reconhecidos pela presença de orifícios de aproximadamente 1mm de diâmetro, geralmente contendo à sua volta um anel amarelado formado por grãos de pólen. Os botões com danos de oviposição caracterizam-se pela presença de uma substância gelatinosa que seca na forma de cera na entrada do orifício feito pela fêmea por ocasião da postura.

COMO MANEJAR

HISTÓRICO DA PRAGA

O levantamento do histórico da praga em cada talhão é fundamental, pois possibilita mapear possíveis focos de bicudo, identificar as possíveis áreas de refúgio e detectar portas de entrada e saída da praga nos talhões. Com esta análise realizada e a identificação dos possíveis refúgios, é possível planejar, antecipar e executar medidas de controle diferenciadas em cada talhão.

MONITORAMENTO DO TALHÃO

O monitoramento do talhão é recomendado antes do plantio de algodão. O monitoramento de áreas de soja que sucedem o cultivo do algodoeiro deve ser efetivo, com o objetivo de verificar a presença de soqueira ou tiguera de algodoeiro, e em áreas com alta intensidade da praga. Realizar a dessecação da soja com o uso de inseticidas para reduzir a população da praga. Ressalta-se a observância do período de carência do inseticida utilizado, de acordo com a bula de cada inseticida.

ARMADILHAS DE FEROMÔNIO

A instalação de armadilhas com o feromônio Grandlure deve ser realizada 30 dias antes do plantio e mantida pelo menos até as plantas emitirem o primeiro botão floral. Essas armadilhas têm a importância fundamental de detectar os movimentos migratórios da praga para o cultivo do algodoeiro. A instalação deve ser realizada no perímetro dos talhões, em uma distância de 150 metros entre

si, com troca do feromônio a cada 15 dias e monitoramento do número de adultos por armadilha semanalmente. É fundamental o registro correto do número de adultos coletados, para observar a flutuação populacional da praga no talhão.

CALENDÁRIO DE PLANTIO

Os plantios devem ser realizados com o calendário de semeadura concentrado, principalmente em talhões vizinhos. Esta estratégia de manejo é fundamental para a manutenção da população da praga baixa na região como um todo, e reduzir os problemas de migração do bicudo para outros talhões ou outras propriedades vizinhas.

TREINAMENTOS

O monitoramento é fundamental para a tomada de decisão mais assertiva. Desta forma, o treinamento dos monitores de pragas para a realização da identificação e monitoramento das armadilhas e inspeção visual é fundamental.

TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO

A definição do momento correto da aplicação de inseticidas é tão importante quanto a aplicação em si dos produtos fitossanitários. Realizar as aplicações com equipamentos ideais e com boa calibração e em horários adequados é fundamental para a garantia de sucesso no processo.

APLICAÇÃO EM BORDADURA

Em função do hábito migratório do bicudo, as aplicações em bordadura são muito interessantes para controlar a praga e reduzir o custo de produção. As aplicações em bordadura devem ser iniciadas a partir do aparecimento da

Jacob Crosariol Netto

José Fernando Jurca Grigolli

O manejo adequado do bicudo compreende uma série de ações realizadas em conjunto. Essas ações devem ser realizadas desde antes da instalação da cultura e passam pelo monitoramento e controle da praga. O sucesso efetivo do manejo do bicudo se dá por diversas ações coordenadas e aplicadas em um

âmbito regional, o que pode contribuir para a convivência com a praga, facilitando o seu manejo e resultando em menores custos de produção e maiores produtividades.

Larvas de bicudo-do-algodoeiro se alimentando no interior de um botão floral

Dano de alimentação de adultos de bicudodo-algodoeiro em plantas de algodoeiro

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

29


Zona Verde Azul Amarela Vermelha

BAS1 0 0a1 1a2 Acima de 2

Aplicação Sem necessidade de aplicação Uma aplicação Duas aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias Três aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias

Número de bicudos por armadilha por semana.

José Fernando Jurca Grigolli

1

ação da armadilha e das armadilhas vizinhas. Acima de duas armadilhas com bicudo, aplicar em todo o talhão. Vale ressaltar que o histórico de captura de inseto por armadilha por semana (número BAS) determina a definição das zonas de infestação, auxiliando nas aplicações a partir do surgimento do primeiro botão floral (B1). A classificação das zonas de infestação segue os seguintes parâmetros:

MONITORAMENTO NO INTERIOR DO TALHÃO

O monitoramento no interior dos talhões deve ser realizado semanalmente desde a fase inicial das plantas de algodoeiro. Para tanto, devem ser amostradas 100 plantas por talhão (para talhões maiores que 100 hectares), através da inspeção visual das plantas, registrando-se a porcentagem de botões florais atacados pela praga.

AÇÕES CONJUNTAS REGIONALMENTE

A realização de ações conjuntas e troca de informações entre os produtores é fundamental. Isso contribuirá para um melhor entendimento do ataque do bicudo-do-algodoeiro e seu manejo em cada propriedade, bem como ter a padronização de boas ações. Além disso, compartilhar alguma ocorrência antecipada pode contribuir para o desenvolvimento de ações regionais que podem resultar em redução populacioC nal da praga.

terceira folha, sendo conduzidas até o final da safra. A aplicação deve ser realizada de forma sequencial, a cada cinco dias. Recomenda-se evitar o uso de inseticidas piretroides, pois esta classe de inseticidas pode resultar em surtos de ácaros, mosca-branca e pulgões. Após o florescimento, atenção especial deve ser dada ao monitoramento, a fim de identificar o momento de começar as aplicações em área total.

Fotos Divulgação

Dano de oviposição de adultos de bicudodo-algodoeiro em plantas de algodoeiro

José Fernando Jurca Grigolli, Fundação MS Jacob Crosariol Netto e Eduardo Moreira Barros, IMA/MT

APLICAÇÃO ANTECIPADA (FASE VEGETATIVA)

Aplicações nas áreas cultivadas com algodoeiro durante a fase vegetativa devem ocorrer de acordo com o monitoramento das armadilhas de feromônio. Sugere-se quando há até duas armadilhas com bicudo, aplicar nos raios de 30 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Grigolli, Crosariol Netto e Barros abordam o manejo do bicudo, principal praga do algodoeiro


Trigo

Manchas hostis

Marcelo Madalosso/Clube Phytus

Entre as principais doenças fúngicas que atacam a parte aérea da cultura do trigo está o complexo de manchas foliares, capaz de acarretar em perdas de até 80% da produtividade. Além de prejudicar a produção de grãos, sua incidência também provoca danos à qualidade fisiológica das sementes. O emprego de fungicidas de modo racional e criterioso é uma das ferramentas para enfrentar este desafio

O

trigo (Triticum aestivum L.) é a cultura de inverno de maior expressão econômica no Sul do Brasil. Devido às condições climáticas adversas, aliadas à suscetibilidade das cultivares, pode ter seu rendimento prejudicado pelo ataque de doenças causadas por fungos. Entre as principais doenças fúngicas que atacam a parte aérea da cultura, pode-se destacar o complexo de manchas foliares, considerado o mais danoso, podendo acarretar em perdas que vão de 20% até 80% da produtividade. Além de redução da produtividade esse complexo de manchas causa redução da qualidade fisiológica e sanitária das sementes produzidas. Os principais fungos envolvidos com o complexo de manchas foliares na cultura são Drechslera tritici-repentis causador da mancha amarela, Bipolaris sorokiniana, causador da mancha marrom, e mais esporadicamente Stagonospora nodorum, responsável pela mancha da gluma (Figura 1). As condições de clima e invernos com

temperaturas médias mais elevadas estão entre os principais fatores que contribuem para o surgimento e a evolução desse complexo de doenças na cultura. Nas últimas safras, os produtores de trigo do estado do Rio Grande do Sul vêm enfrentando condições de clima extremamente favoráveis à evolução das doenças, prejudicando a rentabilidade da cultura. A safra 2014 proporcionou grandes prejuízos pelo excesso de chuvas com temperaturas mais elevadas, onde ocorreram altas taxas de incidência com rápida evolução da severidade de manchas, acarretando, além de redução de produtividade, uma baixa qualidade fisiológica e sanitária de sementes produzidas. A produtividade e a qualidade fisiológica das sementes de trigo estão relacionadas à área foliar verde ou sadia durante o enchimento de grãos. A ocorrência de doenças na cultura possui tendência de afetar a qualidade das sementes produzidas, pois a ação de fungos parasitas afeta o desenvolvimento normal das sementes, reduzindo

32 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

seu peso e capacidade de produzir plantas com bom potencial produtivo. A ocorrência de doenças pode aumentar a incidência de fungos necrotróficos associados à semente, pois estes utilizam as sementes como hospedeiro, tornando-a fonte de inóculo das manchas foliares para a próxima safra. Para reduzir as infestações das manchas foliares na lavoura e os prejuízos que causam é fundamental a adoção do manejo integrado, que se inicia com a escolha de cultivares que possuem resistência genética às principais doenças que atacam a cultura do trigo. Posteriormente, deve-se realizar o tratamento de sementes com fungicidas. Esta medida é uma forma segura de proteger os primeiros estágios da planta, onde é definido o potencial produtivo da lavoura. Por fim, o monitoramento constante desde o plantio com o objetivo de detectar os primeiros sinais da doença, para que se possa implementar um controle químico com fungicidas na parte aérea de forma racional e econômica. As cultivares mais produtivas tendem a ser mais suscetíveis a doenças. No tocante aos necrotróficos, especialmente as manchas foliares, nenhuma cultivar dentre as mais semeadas no Rio Grande do Sul possui resistência genética a esses fungos. Apenas apresenta diferentes taxas de evolução dessas doenças. Assim, torna-se fundamental a adoção de outros recursos como o uso do controle químico, através das aplicações de fungicidas na parte aérea, cuja aplicação deve ocorrer após o aparecimento dos primeiros sintomas, para minimizar os danos causados pelas doenças na produtividade e possivelmente na qualidade das sementes produzidas. Para o controle das manchas foliares recomenda-se o uso de misturas pré-fabricadas de fungicidas com mecanismos de ação triazóis + estrobilurinas nas doses recomendadas. Tais formulações devem possuir registro junto ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) para uso na cultura do trigo.


IFRS

Tabela 1 - Correlação da severidade de manchas foliares na folha bandeira para a cultivar Jadeíte 11, com a qualidade fisiológica das sementes produzidas para os testes de germinação, primeira contagem (PC) e envelhecimento acelerado (EA) Germinação PC EA

Figura 1 - Sintomas da mancha marrom (A) e da mancha amarela (B) em folhas de trigo

Estudos demostram que a interação entre os mecanismos de ação triazóis + estrobilurinas pode contribuir para o aumento da produtividade e a qualidade das sementes produzidas. As estrobilurinas proporcionam uma desaceleração da senescência foliar e sua ação fúngica é capaz de impedir a germinação dos esporos dos fungos. Os triazóis matam os fungos na planta durante o processo de colonização, funcionando efetivamente no período entre o início da infecção até o aparecimento dos sintomas. Neste contexto, na safra de inverno do ano de 2014 foi realizado um estudo para avaliar a relação da incidência de manchas foliares na cultura do trigo com a qualidade fisiológica das sementes produzidas. A cultivar de trigo utilizada no estudo foi Jadeíte 11 com três tratamentos: testemunha, sem aplicação de fungicida; com aplicação de azoxistrobina + ciproconazol + propiconazol, e outro com a aplicação de azoxistrobina + difenoconazol. Foram realizadas três aplicações, sendo a primeira após o surgimento dos primeiros sintomas das manchas foliares, e as demais respeitando um intervalo de 21 dias. A avaliação da severidade de manchas foi realizada sete dias após a aplicação. Na Figura 2 estão representados os valores para os testes de germinação, primeira contagem (PC) e envelhecimento acelerado (EA) em função dos tratamen-

tos utilizados. A aplicação de fungicidas manteve a germinação acima de 80%, valor mínimo para aprovação do lote de sementes. Tal resultado ressalta a importância do uso de fungicidas para controle de doenças da parte aérea. Nas avaliações da primeira contagem e envelhecimento acelerado o resultado foi semelhante, onde o uso de fungicida resultou em sementes de melhor qualidade. Esses resultados podem ser atribuídos à correlação negativa da severidade de

Severidade de Manchas na Folha Bandeira -0,70 -0,64 -0,46

manchas foliares na folha bandeira com a qualidade de sementes produzidas (Tabela 1), pois quanto maior a severidade de manchas foliares na folha bandeira, menores são os resultados para os testes de germinação, primeira contagem (PC) e envelhecimento acelerado (EA). A manutenção da sanidade da parte aérea do trigo, principalmente da folha bandeira, é importante para aumentar a produção e a qualidade fisiológica das sementes produzidas. A folha bandeira é a última a entrar em senescência e também é responsável por contribuir com a maior parte dos fotoassimilados para o enchimento de grãos, considerando que a severidade de doenças tem grande impacto na fotossíntese, bem como em outros importantes processos metabólicos que ocorrem nas plantas. A incidência de manchas foliares causou redução da qualidade fisiológica das sementes produzidas, demonstrando a importância do controle não só para produção de grãos, como também para a qualidade C fisiológica das sementes produzidas. Francine Zaiosc Simmi, Lucas Navarini e Marcos Paulo Ludwig, IFRS

Figura 2 - Resultados para os testes de germinação (%), primeira contagem % (PC) e envelhecimento acelerado % (EA) para a cultivar Jadeíte 11

Francine Zaiosc Simmi, Lucas Navarini e Marcos Paulo Ludwig, IFRS

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

33


Feijão

Duro de controlar Disseminação fácil e difícil controle caracterizam o mofo branco em feijoeiro, doença agressiva causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, capaz de redundar em perdas de até 100%. Integrar os métodos genético, cultural, biológico e a aplicação de fungicidas, preferencialmente de modo preventivo, é a principal estratégia para minimizar os prejuízos

O

mofo branco em feijoeiro, doença causada pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum (Lib.) de Bary, encontra-se amplamente disseminado nas regiões produtoras das mais diversas culturas no país. É fungo polífago e pode causar doença em muitas espécies de plantas. O mofo branco é conhecido também pelos nomes comuns podridão da haste, podridão branca, podridão aquosa, podridão de esclerotinia e murcha de esclerotinia. Essa doença era considerada como de regiões de clima frio a temperado, porém, no Brasil encontra-se disseminada em muitas áreas e tem ocorrido de forma generalizada na maioria das regiões produtoras de feijão e outras culturas hospedeiras. Com o aumento da incidência e da severidade, tende a causar, em condições ideais ao seu desenvolvimento, perdas de até 100% se medidas de controle não forem adotadas. A contaminação dos solos brasileiros por S. sclerotiorum chegou a essa situação devido ao aumento do potencial de inóculo desse fungo, em forma de estrutura de resistência, os escleródios. Além disso, esse patógeno é capaz de se adaptar a condições ambientes adversas. Sua ocorrência e severidade têm sido maior em cultivos de inverno, sob irrigação, ou em safras quando ocorrem clima ameno e períodos chuvosos, com aumento da umidade relativa e do solo. O uso de sementes portadoras do patógeno contribuiu com a introdução e disseminação da doença, auxiliado pelo movimento de máquinas e implementos de um solo contaminado a outro, sem a sua devida limpeza e desinfecção, dentre outros métodos de manejo não adotados ao longo do tempo por muitos agricultores. As cultivares de feijão não têm apresen-

tado resistência ao patógeno S. sclerotiorum, que, uma vez introduzido na área, é de difícil controle. Sua estrutura de resistência, o escleródio, pode sobreviver por muitos anos, sob condições adversas, além de ser privilegiado com ampla gama de hospedeiros, incluindo-se algumas plantas daninhas e ser transmitido por sementes.

DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA

O patógeno S. sclerotiorum é fungo polífago, pode causar doença em mais de 200 gêneros de plantas, abrangendo 408 espécies, desde culturas de alta expressão econômica a pouca expressão, além de algumas plantas daninhas. O fungo S. sclerotiorum pode se desenvolver em toda parte aérea da planta e produzir inúmeros escleródios, externa e internamente nos tecidos. A formação de escleródios é favorecida em meio ácido. No processo de colheita do feijão, muitos desses escleródios caem ao solo, contaminando-o e permanecendo viáveis por muitos anos, até em condições adversas. Normalmente, quando a cultura do feijoeiro atinge a fase de fechamento e as condições climáticas são de baixa temperatura, alta umidade relativa e do solo e na presença de escleródios de S. sclerotiorum, pode ocorrer a formação de estruturas de reprodução, os apotécios e ascósporos. Os ascósporos são ejetados na sua maturidade e poderão atingir tecidos das plantas suscetíveis e dar início ao processo da doença. Ao atingir as pétalas das flores, o fungo encontrará nutrientes que favorecem o seu desenvolvimento, podendo progredir colonizando outras partes da planta e até causar sua morte. Os ascósporos podem também dar origem à doença em outro tecido, além das pétalas.

Figura 1 - Escleródios de Sclerotinia sclerotiorum em feijão: A) Diferentes formas e tamanhos; B) Sementes e escleródios; C) Sementes infectadas e D) Desenvolvimento do fungo e escleródio na semente

34 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br

Outra forma de início da doença se dá pela formação de micélio branco de aspecto cotonoso, a partir do escleródio presente no solo ou em restos culturais ou introduzidos através de contaminação concomitante com as sementes. Ao atingir o tecido da planta começa a infecção e colonização. O fungo S. sclerotiorum pode também ser introduzido em uma área, a curtas e longas distâncias, pela veiculação dos escleródios em contaminação concomitante às sementes e em forma de micélio dormente nas sementes. A água de chuva e de irrigação também pode disseminar o patógeno. Ascósporos de S. sclerotiorum vindos de plantas ou culturas vizinhas também, ao atingir o tecido da planta, dão início a infecção e colonização. Os ascósporos podem ser disseminados pelo vento a longas distâncias.

SINTOMAS

O fungo S. sclerotiorum pode causar sintomas em toda parte aérea do feijoeiro. As condições ideais são alta umidade relativa e no solo e temperatura entre 20ºC e 25ºC, sendo que pode ocorrer desde 5ºC a 30ºC. No início, no ponto de infecção aparecem pequenas lesões com aspecto encharcado, evoluindo-se ao desenvolvimento de micélio branco, que lembra algodão, sobre o tecido do feijoeiro. Essas lesões progridem, atingem extensas áreas, onde continua a formação de micélio branco, e após formam-se as estruturas de resistência, os escleródios, interna e externamente nas hastes e nas vagens. O meio ácido torna-se propício ao desenvolvimento dos escleródios. Quando o tecido afetado por S. sclerotiorum torna-se mais velho ou seco apresenta coloração palha-claro, que se destaca no campo.

Figura 2 - Mofo branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, em feijoeiro. A) Cultura em estádio propício ao ataque do fungo; B) Escleródios de S. sclerotiorum no solo e C) Germinação dos escleródios e formação de estruturas reprodutivas, apotécios e ascósporos


Figura 3 - Sintomas de mofo branco em feijoeiro, causado pelo fungo Sclerotinia Figura 4 - Formação de escleródios de Sclerotinia sclerotiorum em feijoeiro: A e B) sclerotiorum: A) Desenvolvimento de micélio branco, cotonoso, em folhas e ramos; Desenvolvimento interno e externo em vagem; C e D) Coloração palha-claro nos B) Lesão de aspecto encharcado; C) Formação de escleródios e D) Morte das plantas ramos e nas vagens

MANEJO INTEGRADO

O controle da doença é complexo, pois além de não haver cultivares de feijoeiro com bons níveis de resistência genética disponíveis, o fungo S. sclerotiorum apresenta duas formas de ataque às plantas. Por via aérea, pelos ascósporos produzidos em apotécios, que são formados nos escleródios, e através do solo pelos escleródios, que germinam e começam o processo do seu ciclo de vida. As partes afetadas pelo fungo, que caem nos tecidos do feijoeiro ou ao solo, e o micélio atingindo a planta também podem dar início à infecção e sua colonização. Para o controle do mofo branco deve ser realizado o manejo integrado, pois apenas poucas medidas não conduzem ao combate almejado. Na maioria das situações, incluem-se fungicidas. No manejo integrado, devem ser adotadas todas as medidas de controle possíveis.

MÉTODO GENÉTICO

É o controle ideal, eficiente, econômico e de fácil adoção, porém como não se encontram cultivares de feijoeiro com resistência genética ideal à Sclerotinia sclerotiorum, é preciso dar preferência a cultivares de porte ereto. A cultivar de porte ereto, semeada com maior espaçamento, facilita a aeração na cultura, proporcionando ambiente desfavorável ao desenvolvimento do patógeno.

MÉTODO CULTURAL

Divulgação

Compreende várias técnicas. É importante que o solo contaminado com S. sclerotiorum seja preparado de forma a eliminar o patógeno,

através de aração profunda para enterrar os restos culturais contaminados e os escleródios e assim ocorrer sua degradação. É fundamental usar sempre sementes certificadas isentas de S. sclerotiorum, evitando-se sua introdução e/ou disseminação na área. Existem também produtos para o tratamento de sementes. A rotação de culturas, principalmente com gramíneas e adubos verdes, é ideal para reduzir o potencial de inóculo no solo, aumentando-se a população da microfauna e microflora, parasitas benéficos, antagônicos e competidores com o patógeno, além de melhorar as estruturas físicas, químicas e biológicas e proporcionar maior aeração no solo. O plantio direto na palha, como de braquiárias, tem proporcionado bons resultados na redução da incidência de mofo branco pela barreira física que evita a entrada de luz, necessária para a formação dos apotécios e na disseminação dos ascósporos. A escolha da época de plantio para evitar a ocorrência do mofo branco no estádio mais vulnerável da cultura é importante técnica para se evitar prejuízos causados por essa doença. A redução da densidade de plantio pode reduzir a umidade, através da maior ventilação no interior da cultura, o que desfavorece o desenvolvimento da doença. Na época propícia à ocorrência do mofo branco, reduzir a irrigação e melhorar a drenagem, mantendo-se baixa a umidade do solo e do ambiente da cultura. É importante a nutrição da planta, pois planta bem nutrida mantém o maior vigor e a resistência natural, porém, deve-se evitar o ex-

cesso de nitrogênio, que pode deixar o feijoeiro mais vulnerável ao ataque de S. sclerotiorum. Adotar o procedimento de limpar, lavar e desinfetar ferramentas, botas e utensílios, tratores e implementos utilizados em áreas contaminadas com S. sclerotiorum com produtos químicos desinfetantes a cada operação.

MÉTODO BIOLÓGICO

Os escleródios de S. sclerotiorum podem ser parasitados por fungos como Trichoderma spp., Coniothyrium minitans, Sporidesmium sclerotivorum, Aspergillus spp. etc, sendo mais empregado Trichoderma spp., atualmente. Alguns isolados de Trichoderma sp. podem também promover melhor crescimento da planta. Bacillus subtilis também têm mostrado eficácia no controle da doença.

MÉTODO QUÍMICO

A aplicação de fungicida deve ocorrer preferencialmente de forma preventiva. É importante atingir o alvo, escleródios e apotécios no solo, toda parte aérea das plantas, com cobertura adequada e realizar repetição conforme a necessidade indicada pelo monitoramento, seguindo-se as recomendações do fabricante. A época a partir do florescimento, quando do fechamento da cultura, é a fase mais propícia ao início do desenvolvimento do mofo branco. Portanto, nessa fase deve-se redobrar a atenção na cultura, às condições climáticas, para não perder o momento de se iniciar a C aplicação de fungicida. Margarida Fumiko Ito, Instituto Agronômico - IAC

Figura 5 - Ataque de Sclerotinia sclerotiorum ao feijoeiro: A) Formação de micélio a partir de escleródios, ataque via solo; B) Desenvolvimento provavelmente a partir de ascósporos, ataque via aérea

Margarida destaca a importância de medidas preventivas contra o mofo branco Okabayashi, R.S.

Okabayashi, R.S.

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

35


COLUNA ANPII

FBN em foco Grandes eventos, no Brasil e no exterior, vão servir para debater a importância da Fixação Biológica de Nitrogênio

A

Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), como um dos mais importantes fenômenos biológicos para a vida na terra e um dos insumos mais eficazes para a produção agrícola, sempre despertou a atenção de grandes cientistas ao redor do mundo. Anualmente grandes eventos, seja na área puramente biológica ou na de agronegócios, são realizados para discutir novos caminhos para ampliar a eficácia no uso de inoculantes na agricultura mundial. Neste ano haverá várias reuniões, todas de grande importância para desenvolver esta técnica que traz rendimentos para o agricultor e para o ambiente. Em junho ocorrem dois eventos em Londrina, um de âmbito latino-americano e outro nacional. O primeiro, denominado XXVII Reunião Latino-Americana de Rizobiologia (Relar), reunirá especialistas que trarão novas informações sobre FBN, tanto na área de microbiologia como de agricultura, para uma profícua troca de experiências que enriquecerá os participantes e deverá abrir novos caminhos para o reforço da tecnologia. Logo em seguida, ao término deste evento, ocorrerá no mesmo local a XVIII Reunião da Rede de Laboratórios para a Recomendação, Padronização e Difusão de Tecnologia de Inoculantes Microbianos de Interesse Agrícola (Relare). Este evento reúne pesquisadores, empresas de produção de inoculantes e o setor de fiscalização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Neste ano haverá também uma mesa-redonda com representantes de agricultores, de fundações e outros ligados mais diretamente ao setor agrícola. Nesta mesa-redonda haverá um amplo painel para discussões das novas tecnologias de aplicação de inoculantes, como aplicação no sulco de plantio, pré-inoculação, inoculação no tratamento industrial e outras. Sem dúvida a troca

de experiências entre os que utilizam o inoculante no campo, os pesquisadores e os produtores de inoculante trará grande contribuição ao setor. Em agosto haverá a 12a Reunião Europeia de Fixação do Nitrogênio, que será realizada em Budapeste, Hungria. O Brasil desponta como um dos países que mais usam e melhor sabem usar a Fixação Biológica do Nitrogênio em benefício de sua agricultura. Reconhecido em todo o mundo por sua agricultura moderna e dinâmica, onde os níveis de produtividade nas principais culturas não param de crescer, o país agora também é identificado como o maior usuário do processo de Fixação Bioló-

Reconhecido em todo o mundo por sua agricultura moderna e dinâmica, onde os níveis de produtividade nas principais culturas não param de crescer, o país agora também é identificado como o maior usuário do processo de Fixação Biológica do Nitrogênio, inclusive em não leguminosas

gica do Nitrogênio, inclusive em não leguminosas. Como atividade satélite deste evento haverá o 15° Simpósio de Fixação Biológica em Não Leguminosas, discutindo os aspectos relacionados com a inoculação em gramíneas e outros cultivos de importância econômica. Alguns dos mais renomados pesquisadores da área participarão tanto da Conferência como do Simpósio. Na Relar e na Relare a ANPII estará presente, sendo que para a Relare a associação patrocinou o evento, como vem fazendo há alguns anos, e deu forte contribuição financeira para a Relar. O presidente da ANPII fará palestra, indicando os novos rumos da FBN, sob o ponto de vista empresarial, e o consultor da entidade fará palestra na reunião Latino-Americana e coordenará a mesa-redonda sobre uso de inoculantes na Relare. Nas reuniões internacionais, em Budapeste, em reconhecimento ao papel do Brasil neste campo de atuação, diversos pesquisadores brasileiros foram convidados a participar e a ANPII também recebeu um convite para mostrar, através de uma palestra, a situação atual do uso deste insumo biológico no Brasil. Assim, a ANPII terá uma presença de destaque em todos estes eventos, o que trará novos conhecimentos para todas as empresas associadas. Finalmente, para encerrar um ano de grandes eventos em uso de produtos biológicos, em dezembro será realizado no Chile o 3o Workshop Latino-Americano de PGPR, em que serão apresentados trabalhos sobre bactérias promotoras de crescimento, também com a presença de grandes especialistas mundiais no tema. Desta forma, fica muito clara a importância da FBN para a agricultura mundial, uma vez que muitos cientistas e entidades ligadas à agricultura se mobilizarão em torno destes eventos de grande relevância. E a ANPII terá C participação ativa em todos eles.

Solon C. de Araujo, Consultor da ANPII

36 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br


COLUNA AGRONEGÓCIOS

O

Mão de obra: cara e rara

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima em 56% a população economicamente ativa (PEA) no Brasil, e a taxa de desemprego em 9,5%, ou seja, de cada 100 pessoas que procuram emprego, mais de nove continuavam desempregadas. Esse índice não considera o subgrupo da PEA, que desistiu de procurar uma ocupação, o que elevaria o desemprego próximo a 20%. Em 2014, o Ministério do Trabalho e Emprego estimava em 22% o número de trabalhadores com emprego, porém, sem carteira assinada. Portanto, de uma população de 205 milhões, a PEA seria de 115 milhões, dos quais 23 milhões estariam desempregados e um número similar não teria carteira assinada. Mesmo assim, faltam trabalhadores em todas as regiões rurais e, quando existem, a mão de obra é cara. Por quê? Em primeiro lugar, porque o desemprego e o subemprego mencionados são fenômenos especialmente urbanos. E, uma vez na cidade, ninguém quer fazer o caminho de volta para o campo – mesmo desempregado ou passando necessidade. Mas, por quê?

O PASSADO DISTANTE

Na década de 1960 houve uma intensa migração rumo aos centros urbanos, sendo, provavelmente, o principal fator de redução de mão de obra no campo, à época. Tentando estancar o processo, e para atender demandas de justiça social no campo, foi exarada a Lei 4.504/64 (Estatuto da Terra). A Lei exigiu que os imóveis rurais cumprissem uma função social, fixou níveis mínimos de produtividade e impôs respeito ao meio ambiente e às relações de trabalho, sob pena de desapropriação para a reforma agrária. A lei facilitou o acesso à terra e obrigou os proprietários a aumentarem a área plantada e obterem maior rendimento – o que exigiu mais mão de obra. Os polos industriais, especialmente o automobilístico, atraíram hordas de habitantes de regiões agrícolas para as metrópoles, acirrando o êxodo rural. Finalmente, porém não menos importante, aplicar, no campo, a legislação trabalhista feita para a cidade, sem as devidas adaptações a um contexto totalmente diferente, desestimulou o emprego e favoreceu a automação.

O PASSADO RECENTE

Na primeira década do novo século, a economia mundial cresceu como nunca antes.

Particularmente, a China capitaneou uma explosão do crescimento global, resultando em forte aumento da cotação de commodities, das quais o Brasil é um grande exportador. Mesmo que o Brasil tenha crescido menos que a média mundial e menos que a média dos emergentes (ou da América Latina), as divisas das exportações alavancaram o crescimento da economia brasileira, reduzindo o desemprego a quase zero, com remuneração cada vez maior. O mercado aquecido da última década promoveu um forte movimento de inclusão social, em um lapso de tempo muito curto. No Brasil, o mercado pagou salários cada vez mais altos, permitindo reajustes do salário mínimo que acompanharam a produtividade da economia. Mas não foi apenas o forte crescimento do mundo entre 2002 e 2009 que reduziu as taxas de desemprego e aumentou a renda do brasileiro, há outros fatores. O primeiro é demográfico. No Brasil, as famílias mais pobres tinham mais filhos, sendo a pobreza dividida por muitas pessoas. Sobrava pouco dinheiro para alimentação, transporte, moradia e, principalmente, para garantir uma educação de qualidade, que permitisse melhores oportunidades. Em 1980, as famílias pobres tinham 4,5 filhos a mais que as ricas, colocando mão de obra despreparada no mercado, aceitando qualquer emprego e qualquer remuneração. Em 2005, a diferença caiu para apenas 1,6 filho. Estimo que, em 2016, essa diferença seja imperceptível. O fenômeno foi fortemente influenciado pela massificação do acesso à informação, especialmente pela televisão. As novelas, os filmes e os seriados mostram que as famílias ricas têm menos filhos - as famílias pobres emularam esse comportamento, adotando o planejamento familiar como instrumento de ascensão social. Em 2010, os mais pobres detinham 10% e os mais ricos 40% da renda nacional. Se a taxa de natalidade em 2010 mantivesse aquela vigente em 1980, os mais pobres teriam apenas 4,1% e os mais ricos 62% da renda nacional. O número de pobres teria aumentado 28% no período, atingindo 42% da população nacional. Portanto, a mudança na taxa de nascimentos no Brasil reduziu fortemente a oferta de mão de obra, aumentando os salários médios e a renda per capita do trabalhador brasileiro, reduzindo a pobreza e incluindo os menos aquinhoados. A ação dos governos foi margi-

nal no processo, ao contrário do que muitos afirmam. Por exemplo, entre 2003 e 2011, o PIB/capita do Brasil aumentou 142%, dos quais a Bolsa Família representou menos de 4%, enquanto o restante foi devido a ganhos de mercado e demográficos. O segundo fator a ser destacado é o aumento da esperança de vida do brasileiro, sem a adequação das regras e, assim, cada vez mais trabalhadores se aposentam. O terceiro fator é a ampliação do programa Bolsa Família o qual, na opinião quase unânime dos atores do agronegócio – incluindo os sindicatos de trabalhadores - desestimula a busca por outra remuneração. O quarto fator – quiçá o mais relevante - é sociológico e, assim como a redução do número de filhos das famílias pobres, foi fortemente afetado pela comunicação de massa. A televisão mostra as facilidades da vida na cidade, o emprego com horário fixo, a remuneração mais alta, a menor penosidade do trabalho, o acesso a água, luz, telefone, alimentação fora do lar, lazer, transporte, saúde e a formação educacional. No campo, tudo isso é de mais difícil acesso. As cidades vêm exercendo atração irresistível para os jovens da área rural. Primeiro foram as moças, que preferiam empregos na cidade, a permanecer na área rural. Na esteira – e até por falta de parceiras – os rapazes tomaram o mesmo rumo, agravando um problema que já era sério, e criando um novo: os antigos proprietários envelhecem e os filhos querem distância da propriedade rural!

QUEM PERDE?

Os maiores prejudicados não são os grandes proprietários rurais, que dispõem de capital para promover a automação e mecanização em larga escala, e podem bancar altos salários e outros benefícios, para atrair empregados. Quem mais sofre são os pequenos e médios produtores, por não disporem desse diferencial. A falta de mão de obra não deve induzir reduções na produção ou na produtividade agrícola. Porém, duas consequências são antecipáveis. A primeira é o aumento do custo de produção, que será gradualmente repassado ao consumidor. A segunda será a concentração cada vez maior da terra, pelo conjunto de restrições aos quais estão submetidos os pequenos proprietários rurais, para os quais a escassez de mão de obra é C apenas mais um fator adverso. Decio Luiz Gazzoni

O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja

www.revistacultivar.com.br • Maio 2016

37


COLUNA MERCADO AGRÍCOLA

Colheita fechada e mercado aquecido favorecem produtores A safra de grãos de verão do Brasil está fechada. Arroz, milho e soja foram colhidos e apresentaram bom volume de produção, mas abaixo do potencial estimado no momento do plantio. A soja, que arrancou com potencial de colheita de mais de 105 milhões de toneladas, mas enfrentou clima irregular com atraso das chuvas e no plantio, fechará a colheita em pouco mais de 98 milhões de toneladas. No caso do milho o problema maior veio da forte queda na área plantada. A produção real não irá muito além de 23 milhões de toneladas, muito distante das quase 30 milhões de toneladas colhidas no ano passado. Com isso, o milho teve os melhores meses da história de suas cotações nestes primeiros quatro meses de 2016. Há grande necessidade de uma boa safrinha para atender a demanda interna, mas como o clima já causou estragos também na segunda safra, as perdas já estão entre dois milhões de toneladas e quatro milhões de toneladas, com quadro de pouca oferta à frente. Já o arroz, que no ano passado teve produção próxima a 12 milhões de toneladas, nesta safra não deverá alcançar 11 milhões de toneladas, por conta do clima, redução de área e grandes perdas na safra gaúcha devido ao excesso de chuvas no período da colheita. Já o feijão enfrenta forte demanda decorrente do empobrecimento dos brasileiros que voltaram a consumir arroz com o feijão. Junto a isso a safra menor que a demanda tem deixado as cotações em patamares bastante atrativos para os produtores, cenário que não deverá mudar no restante do ano. O quadro geral dos grãos é de safra um pouco menor que as projeções e cotações mais atrativas e melhores que os produtores esperavam. MILHO

Milho segue com recorde de preços

com pouco mais de 98 milhões de toneladas, podendo atingir 98,5 milhões de toneladas, bem acima das 94,4 milhões de toneladas colhidas no ano passado. Ainda assim ficará bem atrás do potencial que tinha quando lançou as sementes ao solo, com previsão de mais de 105 milhões de toneladas. Os negócios têm sido positivos, com cotações atrativas. Chicago tem mostrado números em alta e fôlego para novos avanços à frente. Depois de muitos meses as negociações ficaram acima dos dez dólares em Chicago e assim os produtores podem começar a fazer bons fechamentos futuros frente aos insumos. No mês de maio há boas oportunidades para o fechamento dos pacotes de insumos. O câmbio continuará flutuando forte, mas o produtor terá de olhar para a relação de troca de soja para pagar os insumos e esta é a moeda mais certa para estas novas negociações.

Os produtores da safra de verão seguem negociando dentro dos melhores momentos da história do cereal. Com cotações firmes e níveis recordes, o setor tem lucrado e já dá sinais de aumento da área plantada nesta próxima safra em detrimento das lavouras de soja. Em geral, no Sul e Sudeste o milho tem registrado maior lucratividade que a soja e os produtores necessitam fazer rotação de cultivo e assim aproveitar os indicativos em alta. Desta forma, o quadro segue de otimismo e potencial favorável para as próximas semanas. Em maio começam as colheitas no oeste do Paraná e pontos do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os negócios com a safrinha já andaram fortes e estão na faixa dos 60% negociados, sendo que no Mato Grosso mais de 65% já foram negociados. As sobras tendem a ser bastante disputadas. O Governo retirou a taxa de importação do FEIJÃO milho no Mercosul para até um milhão de toneladas. Safra chega e some nos pratos dos brasileiros Nos níveis atuais esse produto chegará nos portos na O mercado do feijão segue com indicativos firmes faixa de R$ 42,00 a saca, o que pode resultar em fator e novamente o ano será de demanda forte, com tudo de pressão de baixa entre maio e junho. que for colhido sendo consumido, o que manterá os preços firmes. O que se nota é que a safra chega e SOJA Colheita fechada em mais de 98 milhões de ton. rapidamente some nos pratos dos brasileiros. Com O Brasil colheu a melhor safra da história da soja, o ano de aperto na economia, os consumidores estão

levando mais arroz e feijão para casa e consumindo mais alimentos nas residências e menos em restaurantes. Nos primeiros meses do ano, o feijão tem mantido médias acima dos R$ 200,00 a saca para o carioca e níveis próximos dos R$ 140,00 para o feijão preto. Em maio e junho ocorre a colheita do feijão preto na Argentina, que deverá entrar no mercado brasileiro para suprir parte da demanda nacional. O quadro da oferta seguirá de aperto porque os produtores dos estados centrais apostaram mais no milho safrinha que no feijão. Pouco produto estará disponível nos próximos meses, o que manterá os indicativos firmes. ARROZ

Clima prejudicou no final A safra brasileira do arroz foi prejudicada na reta final, principalmente no Rio Grande do Sul que sofreu com chuvas em excesso e inundações. Quase 50% da área foi atingida, com perdas entre 5% e 10% nestas áreas, além da qualidade que também foi afetada. Assim, a safra gaúcha de arroz, que no ano passado tinha sido de 8,6 milhões de toneladas, agora não deverá chegar a 7,5 milhões de toneladas. O ano será de oferta apertada. A demanda deverá seguir forte, pela alta no consumo de alimentos básicos como arroz com feijão.

CURTAS E BOAS TRIGO - Os produtores devem reduzir a área de trigo em 2016, porque sofreram com o clima no ano passado, onde foram registradas muitas perdas com o excesso de chuvas. O milho passou a ocupar muitas áreas do norte do Paraná. Com plantio atrasado e o cereal sofrendo com a seca, muitos produtores deixaram o trigo de lado. O Paraná terá queda na área, como também pode ocorrer em Santa Catarina. Já no Rio Grande do Sul o plantio deverá ser mantido. Com ano de La Niña, a projeção é de menos chuvas e condições melhores para uma boa safra de trigo, que tende a ter boas cotações e reverter os prejuízos do ano passado, onde 1,5 milhão de toneladas de trigo de baixa qualidade foi destinado para o setor de ração e não aos moinhos. Neste ano haverá mais procura que oferta do cereal e o País terá de importar volume superior a 7 milhões de toneladas, fazendo com que o produto chegue mais caro ao mercado brasileiro, já que as cotações internacionais estão em forte alta e ultrapassaram os cinco dólares por bushel em Chicago. Desta forma o produto importado não chegará ao Brasil abaixo de R$ 1,1 mil por tonelada, favorecendo a nova safra que será plantada nos próximos dois meses. O consumo previsto é de mais de 11 milhões de toneladas e a produção não deve ultrapassar cinco milhões de toneladas. ÁFRICA - O clima foi duro com os africanos neste ano, com grandes perdas e forte apelo para importações. A África do Sul deverá importar mais de seis milhões de toneladas de milho e já realiza negócios no mercado brasileiro. CHINA - As compras de soja seguem fortes, mantendo indicativos de novo recorde

histórico. O País comprou 6,1 milhões de toneladas em março e os próximos meses indicam números ainda maiores, podendo chegar à marca de 86 milhões de toneladas importadas frente às 83 milhões de toneladas que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima (mas tem corrigido mensalmente). UCRÂNIA - O plantio da safra avança no País e o clima aos poucos tem se normalizado, mas novamente a forte seca neste início de temporada já tem comprometido boa parte do trigo e do milho. Ainda há todo o ciclo pela frente e os produtores temem que o fenômeno La Niña venha a encurtar as chuvas. ARGENTINA - Os produtores argentinos perderam muita soja, milho e arroz nesta temporada devido às chuvas em excesso durante a colheita em abril e desta forma estima-se que mais de cinco milhões de toneladas de grãos tenham sido ceifados pelo clima, sendo que os mais pessimistas apontam dez milhões de toneladas. A soja não deve superar 57 milhões de toneladas, sendo que a expectativa era de 60 milhões de toneladas. O milho não chega a 24 milhões de toneladas, frente às 27 milhões de toneladas previstas. As perdas no arroz variam de 100 mil toneladas a 200 mil toneladas. EUA - Os produtores americanos estão plantando, mas o setor teme que o ano não seja tão bom quanto foi nos últimos quatro, com boa umidade e safra cheia. Agora cresce o temor com o La Niña, que em outros tempos causou grandes perdas na safra local, com chuvas irregulares e temperaturas muito altas entre julho e agosto. Se seguir o histórico, haverá um ano agitado no mercado C internacional, com boas oportunidades para os produtores brasileiros.

Vlamir Brandalizze brandalizze@uol.com.br • Twitter@brandalizzecons • brandalizzeconsulting.com.br

38 Maio 2016 • www.revistacultivar.com.br


www.revistacultivar.com.br • Soja • Maio 2016 •

03

Projeto em evolução Clube Phytus

Iniciativa De Primeira, Sem Dúvida orienta produtores de soja e de trigo sobre o momento correto de realizar aplicações de fungicidas baseado em orientações técnicas qualificadas, monitoramento das lavouras, condições climáticas e emprego de tecnologia. Programa já abrange os estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal

O

projeto De Primeira, Sem Dúvida, da Bayer, começou na safra 2014/2015, consistindo na estruturação de áreas com a cultura da soja e naturalmente infectadas por patógenos. Foram realizadas captações de imagens para acompanhamento da evolução da cultura, das doenças e aplicações de Fox® e Sphere ®Max, bem como recomendações customizadas por região e de autonomia dos pesquisadores participantes. Nesta safra 2015/2016, o projeto evoluiu. Foram utilizadas duas áreas para monitoramento de trigo (municípios de Passo Fundo e Itaara, ambos no Rio Grande do Sul) em 2015 e a abrangência na cultura da soja aumentou para dez áreas (Figura 1). Profissionais renomados, das dez áreas (Figura 1), foram responsáveis

pela determinação do momento de aplicação e gerenciamento dos locais, os quais, mais uma vez, foram transmitidos 24 horas por dia através do site www.deprimeirasemduvida. com.br.

OBJETIVOS DA INICIATIVA

• Apontar, com o apoio dos pesquisadores e de todo o seu conhecimento, o melhor momento de aplicação de fungicidas, levando em conta a época de plantio, a variedade e as condições de desenvolvimento da planta e das doenças • Disponibilizar imagens em tempo real através do uso de câmeras, posts e vídeos dos pesquisadores, informações que apoiem o produtor na tomada de decisão do melhor momento de aplicação de fungicidas • Analisar os experimentos considerando variáveis medidas em tempo real

• A partir da primeira aplicação, indicar os melhores momentos para as subsequentes ligadas ao programa da Bayer. Sendo assim, todas as áreas possuem duas parcelas – Manejo Correto e Manejo Atrasado (atraso de sete dias) • Justificar o manejo utilizado e o panorama sobre o progresso da ferrugem e outras doenças através de relatos dos pesquisadores Outra inovação da Bayer e da iniciativa De Primeira, Sem Dúvida neste ano, foram os Alertas (que mensuram através de um algoritmo a chance de ocorrência das principais doenças da soja por localidade; basta os produtores efetuarem o cadastro, que recebem alertas por e-mail com previsões baseadas em diversas variáveis). Ademais, foi oferecido um blog para acompanhamento das principais notícias do agronegócio. Por fim, o produtor também pode contar com as webséries


04 • Maio 2016 • Soja • www.revistacultivar.com.br No website De Primeira, Sem Dúvida produtor pode ter acesso a diversas orientações e informações

DOENÇAS FÚNGICAS NA CULTURA DA SOJA

A ferrugem asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é a principal doença na cultura da soja. Os sintomas aparecem em qualquer estádio da planta, sendo os primeiros sinais minúsculos pontos escuros. As urédias se abrem no poro e expelem os esporos hialinos. O tecido da folha ao redor da urédia adquire coloração castanho-clara a castanho-avermelhada. As condições de desenvolvimento da doença dependem de água livre na superfície. Temperaturas entre 18°C e 26,5°C favorecem a ferrugem asiática. Quanto mais cedo ocorrer a desfolha, menor será o tamanho dos grãos. Enquanto a ferrugem americana causa pouco impacto sobre o rendimento, a ferrugem asiática é extremamente agressiva e causa grandes perdas.

CONTROLE

(exemplificando de maneira leve como e por que as doenças atacam as lavouras). Para a próxima safra de soja, a iniciativa deve contar com mais uma área.

Problemas com resistência dificultam o controle. Ainda assim, o controle químico, adotado de modo racional e criterioso, ainda é a ferramenta mais viável. Os fungicidas dos grupos triazóis e estrobilurinas são eficientes contra a doença. É importante evitar semear na época mais favorável a doenças. Selecionar cultivares mais precoces, evitar a semeadura em safrinha e fazer o monitoramento periódico da lavoura.

ANTRACNOSE

A antracnose (Colletotrichum de-

matium) causa a morte de plântulas, necrose dos pecíolos e manchas nas folhas, hastes e vagens. A doença pode levar à queda total das vagens ou deterioração das sementes quando há atraso na colheita. Vagens infectadas nos estádios R3-R4 adquirem coloração castanho-escura a negra. Outro sintoma é observado nas vagens em granação, onde as lesões começam por estrias de anasarca e evoluem para manchas negras. Em alta umidade, as partes infectadas ficam cobertas por pontuações negras. Trata-se da principal doença que afeta a fase inicial de formação das vagens. É um dos principais problemas do Cerrado, devido à elevada precipitação e às altas temperaturas. Em anos chuvosos pode causar perda total da produção. O uso de sementes infectadas também contribui para a ocorrência da doença. A antracnose apresenta índices elevados de infecção em lavouras que sofreram atraso de colheita. Para controlar a doença é recomendado o uso de semente sadia, fazer rotação de culturas e utilizar espaçamento entre as linhas de 50cm a 55cm. É essencial realizar o manejo adequado do solo, principalmente com relação à adubação potássica. Outra medida reside no tratamento da semente com fungicidas adequados.

MANCHA-ALVO

Os sintomas da mancha-alvo (Corynespora cassiicola) caracterizam-se por uma pontuação escura no centro da folha, semelhante a um alvo. Começa

Figura 1 - Áreas e pesquisadores do projeto De Primeira, Sem Dúvida

• Itaara/RS (Dr. Ricardo Balardin – Instituto Phytus) • Passo Fundo/RS (PhD Carlos Alberto Forcelini e Dra. Carolina Deuner – UPF) • Ponta Grossa/PR (Me. Carlos André Schipanski) • Cafelândia/PR (Me. Tiago Madalosso – Copacol) • Paulínia/SP (Dra. Silvania Furlan – Instituto Biológico/SP) • Uberlândia/MG (Dr. Fernando Juliatti – UFU) • Chapadão do Sul/MS (Me. Edson Pereira Borges – Fundação Chapadão) • Rio Verde/GO (Me. Luis Henrique Carregal – URV) • Planaltina/DF (Me. Nédio Tormen – Instituto Phytus) • Campo Novo dos Parecis/MT (Eng. Agr. Valtemir José Carlin – Agrodinâmica)


www.revistacultivar.com.br • Soja • Maio 2016 •

05 Fotos Clube Phytus

com pontuações pardas e halo amarelado e evolui para grandes manchas circulares na cor castanho. Pode atingir até 2cm de diâmetro. Cultivares suscetíveis tendem a sofrer severa desfolha com mancha na haste e vagens. O fungo também infecta raízes, produzindo esporulação.

CONDIÇÕES DE DESENVOLVIMENTO

• É encontrado em praticamente todas as regiões de cultivo de soja do Brasil • Infecta um grande número de plantas nativas e cultivadas • Sobrevive em restos de cultura e semente infectada • Altas temperaturas e umidade são favoráveis à infecção na folha • A podridão de raízes aumenta com a expansão das áreas em semeadura

direta

CONTROLE

Recomenda-se o uso de cultivares resistentes. O tratamento adequado de sementes também propicia bons resultados. É indicado, ainda, realizar rotação/ sucessão de culturas com milho e espécies de gramíneas, além da aplicação de fungicidas devidamente registrados para o controle da doença.

OÍDIO

O oídio (Microsphaera difusa) é um parasita obrigatório que se desenvolve em toda a parte aérea da planta. Apresenta uma fina cobertura esbranquiçada, sendo constituído de micélio e esporos pulverulentos. A coloração branca do fungo muda para castanho-acinzentada

com o passar do tempo. Em condições de infecção severa, causa seca e queda prematura das folhas. Ocorre em qualquer estádio de desenvolvimento da planta, sendo mais comum no início da floração. Baixa umidade e temperaturas amenas (entre 18°C e 24°C) são favoráveis ao desenvolvimento do fungo. Este desenvolvimento é inibido em temperaturas acima de 30°C.

CONTROLE

O método mais eficiente para o controle do oídio reside no uso de cultivares resistentes. Fungicidas foliares do grupo dos triazóis e/ou dos benzimidazóis podem ser aplicados no combate a esta doença. Para controle em estádios inicias é indicado, preferencialmente, o enxofre (2kg i.a/ha).

Sintomas característicos de mancha-alvo (esquerda) e de oídio cuja coloração branca do fungo muda para castanho-acinzentada com o tempo


06 • Maio 2016 • Soja • www.revistacultivar.com.br

Aplicação certeira Bayer CropSciences

O manejo fitossanitário de doenças em soja apresenta desafios diversos a cada safra, atrelados a variáveis como clima, materiais genéticos mais exigentes e riscos de redução da sensibilidade de fungos a fungicidas. É o caso da ferrugem asiática, pesadelo dos sojicultores que chegou mais cedo na safra 2015/16. Neste contexto, contar com o suporte de um programa que permita o acompanhamento constante das áreas de cultivo, possibilite monitorar condições climáticas, crescimento da cultura e evolução das patogêneses, mensurar riscos e orientar o momento ideal para as pulverizações é fundamental para aumentar o rendimento e garantir a sustentabilidade das lavouras

A

cada safra, os agricultores se deparam com desafios a serem vencidos com relação ao manejo fitossanitário de doenças. Nesse contexto, nas últimas duas safras, a ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi Sidow & Sidow) demonstrou ser agressiva e rápida no Sul do Brasil, bem como em diversas regiões. Favorecida pelo clima, a doença chegou mais cedo na safra 2015/16, demandando atenção

antecipada por parte dos produtores e assistência técnica, sendo que nas últimas duas safras foi essa doença que determinou a primeira aplicação de fungicida nas lavouras de soja. Simultaneamente, há grande preocupação com o uso racional de fungicidas, sendo recomendadas a aplicação preventiva e a rotação de grupos químicos com o objetivo de evitar redução de sensibilidade do fungo a fungicidas. Dentre os fatores que contribuíram

para a alta intensidade da doença nas duas últimas safras, destacam-se: I) boa precipitação durante o inverno no Centro-Oeste; II) correntes de vento que trouxeram o inóculo de outras regiões; III) inverno ameno no Sul do Brasil (ocorrência de soja guaxa/voluntária no campo); IV) baixa ocorrência do oídio (competidor da P. phachyrhizi por sítios de infecção), e V) boa precipitação durante o ciclo da cultura da soja, sem


www.revistacultivar.com.br • Soja • Maio 2016 •

07

correto e atrasado.

Clima; solo e cultivar; biogenética e controle químico

ESTRATÉGIAS DE MANEJO

no IAF, verifica-se reflexo direto no rendimento. Esses materiais têm pouco tempo para se recuperar de erros no manejo de doenças e, devido ao ciclo ser muito curto, a desfolha precoce causada pela ferrugem asiática pode reduzir o rendimento em mais de 8%, de acordo com dados dos ensaios da Universidade de Passo Fundo (UPF), comparando-se a aplicação de fungicida nos momentos Dirceu Gassen

veranicos importantes na região Sul (dificuldade de fazer aplicação de fungicida preventivamente). As associações desses fatores culminaram com a dificuldade de controle, principalmente em algumas regiões do Rio Grande do Sul e do Paraná. O controle de doenças de plantas mais eficiente, duradouro e econômico é obtido pelo somatório de medidas de controle disponíveis, e nunca de uma prática isolada. Torna-se importante para o estabelecimento de medidas racionais de controle, o conhecimento do clima (El Niño, La Niña e neutro), do hospedeiro (hábito de crescimento e Índice de Área Foliar) e do patógeno (estratégias de manejo como resistência genética e controle químico), ou seja, o conhecimento do triângulo das doenças. Para cultivares de soja, verifica-se que os materiais mais antigos eram caracterizados, de maneira geral, com ciclos mais longos (aproximadamente 150 dias), porte mais alto de plantas e maior Índice de Área Foliar (IAF), apesar disso eram menos produtivos. Por outro lado, as cultivares mais modernas possuem ciclo (aproximadamente de 90 dias a 130 dias), porte e IAF menores e maior rendimento. Portanto, o risco por área em materiais precoces é maior, por isso, através de qualquer interferência

No que se refere às estratégias para o controle da ferrugem asiática, destacam-se resistência genética e controle químico. Com relação à primeira, já foram descritos cinco genes de resistência à ferrugem asiática, Rpp1 (Cheng & Chan, 1968); Rpp2 (Hidayat & Somaatmadja, 1977); Rpp3 (Singh & Thapliyal, 1977); Rpp4 (Hartwig, 1985); e Rpp5 (Garcia et al, 2008), sendo que o gene Rpp1 confere resposta imune da soja ao patógeno, os genes Rpp2 e Rpp5 limitam o crescimento e a esporulação do fungo por meio de reação de hipersensibilidade (reddish-brown) (Bonde et al, 2006). Apesar da existência de fontes de resistência, já existem relatos de variabilidade genética desse fungo em soja, sendo relatadas nove raças fisiológicas de P. pachyrhizi (Hartman et al, 1999; Tschurtschenthaler et al, 2012). Portanto, a utilização de cultivares de soja com genes únicos de resistência vertical pode levar à rápida seleção de biótipos que quebrem a resistência dessas cultivares, não sendo adequado, portanto, utilizá-las de maneira isolada e, sim, em associação à outra estratégia, como, por exemplo, o controle químico. Em experimentos realizados na Universidade de Passo Fundo (UPF) verificou-se que, quando se utiliza a resistência genética associada ao controle químico, é possível

Medição de folha de soja para Índice de Área Foliar (IAF)


08 • Maio 2016 • Soja • www.revistacultivar.com.br nando mecanismos de ação; III) utilizar fungicidas multissítios (protetores) em associação com sistêmicos; IV) aplicar a dosagem correta (de acordo com a bula); V) respeitar intervalos de aplicação, e VI) utilizar tecnologia de aplicação que permita deposição satisfatória em todos os terços da planta. Quando se utilizam fungicidas para o controle de doenças na parte aérea da soja, critérios para a aplicação de fungicidas devem ser adotados. A recomendação de controle químico evoluiu muito ao longo dos anos, sendo que a partir da década de 1950, toda aplicação era realizada com base em calendário fixo. Desta forma, aplicava-se fungicida independentemente de sua necessidade, aumentando o custo de produção e os problemas ambientais. Aplicações com base na idade da planta passaram a ser recomendadas a partir de década de 80, sendo que na mesma época, passou-se a observar, além da idade da planta, o histórico da área. Entre as décadas de 1980 e 1990, a fenologia da cultura (aplicação de fungicidas em R1-início do florescimento), a análise da doença a campo - incidência e severidade (Reis et al, 2001) -, assim como a condição climática da região, tornaram-se importantes parâmetros para a recomendação. Felizmente, com

Bayer CropSciences

atrasar a doença no tempo, reduzir a taxa de progresso da doença e utilizar intervalos de até 21 dias, o que não seria possível com uma cultivar suscetível. Assim sendo, o produtor que utilizar essas duas estratégias consegue obter maior janela de aplicação do fungicida na soja, sendo essa situação muito importante, principalmente em anos de ocorrências de El Niño e La Niña (dependendo da região), no qual se tem dificuldade em realizar essa operação. O controle químico sem dúvida é a estratégia mais utilizada pelos produtores e, por isso, existe uma grande preocupação com a redução de sensibilidade de fungo a fungicidas. Já existem comprovações da redução de sensibilidade para os grupos químicos triazol e estrobilurina (Reis et al, 2015, Moura et al, 2016). Este fato se deve em grande parte pelo uso de fungicidas com o mesmo mecanismo de ação, aplicações com alta pressão da doença (erradicativas) e subdoses dos fungicidas, seja consciente, pela redução da dose no tanque, seja pelo erro de tecnologia de aplicação. Isso resultou na redução de eficiência de alguns fungicidas, uma vez que algumas estratégias podem ser adotadas com o objetivo de minimizar essa situação, tais como: I) aplicar fungicidas preventivamente; II) aplicar no mínimo a mistura de dois grupos químicos, alter-

Área da iniciativa De Primeira, Sem Dúvida, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul

o avanço das moléculas dos fungicidas, também houve grande progresso nas recomendações. A partir de 2006, a recomendação baseava-se em modo de ação (aplicação preventiva), pois o fungicida pode atuar de diferentes maneiras no controle do fungo, seja impedindo a germinação e/ ou produção de esporos, seja causando o colapso de tecidos mesmo quando este se encontra no interior da planta. O fungicida é aplicado com a função de proteger os tecidos vegetais antes do contato do patógeno com o hospedeiro, de forma preventiva, ou seja, quando ainda não há interação entre patógeno e hospedeiro e, consequentemente, sintomas da doença. O fungicida também pode atuar sobre o patógeno já instalado nos tecidos vegetais, ou seja, de forma curativa, quando os sintomas e sinais ainda não são visíveis, ou, ainda, de forma erradicativa, quando já se visualizam sintomas e sinais. Nas duas últimas situações, há redução de eficiência e residual do produto, assim como contribuição para redução de sensibilidade de fungos a fungicidas, realidade vivenciada nos dias atuais para a ferrugem asiática. Atualmente busca-se maior precisão na recomendação de controle químico, pesquisando-se principalmente acerca do índice de área foliar, uma vez que a superfície de área foliar sadia e funcional


determina a interceptação da radiação solar e a troca de gases e de energias entre a planta e o ambiente. Assim, para entender a lógica do potencial de produção da lavoura é necessário medir o índice de área foliar e compreender a importância da fotossíntese líquida na produção de grãos (Gassen et al, 2015). Tal fato deve-se principalmente à importância do perfeito posicionamento do fungicida, explorando ao máximo seu potencial sem agredir desnecessariamente o ambiente (Reis & Wordel-Filho, 2004). Os fungicidas devem ser utilizados seguindo os critérios que minimizem o risco de redução de sensibilidade de fungos a fungicidas, pois no Brasil já existe redução da sensibilidade de triazóis desde a safra 2005/06 e das estrobilurinas isoladas e misturas de estrobilurina + triazol a P. pachyrhizi desde a safra 2010/11 (Reis et al, 2015; Moura et al, 2016). Sendo assim, a adoção de critérios como o índice de área foliar ou modo de ação (aplicação preventiva) associado à alternância de grupos químicos, contribui para a longevidade das moléculas de fungicidas e a sustentabilidade do controle de ferrugem asiática. Caso isso seja associado à resistência genética, permitirá manter a eficiência dos fungicidas em médio prazo e gerar maior segurança na atividade agrícola.

PROJETO DE PRIMEIRA, SEM DÚVIDA (PASSO FUNDO/RS)

Na safra 2013/14, no Rio Grande do Sul, houve períodos com condição climática adversa, tanto para a aplicação de fungicida, quanto para a evolução da ferrugem asiática. Além disso, os produtores começaram as aplicações muito próximas do estádio reprodutivo, elaborando, em média, três delas de fungicidas durante o ciclo da cultura, sendo que de maneira geral foram duas de misturas de triazol + estrobilurina e uma de carboxamida + estrobilurina. Já na safra 2014/15, devido à alta intensidade de doença no final da safra anterior e por ser um ano de El Niño, os produtores anteciparam as aplicações de fungicidas para os estádios V4-V6, o que aumentou o número de aplicações em relação à safra anterior, resultando em quatro aplicações, sendo que, de maneira geral, foram três de triazol + estrobilurina e uma de carbo-

09

Dirceu Gassen

www.revistacultivar.com.br • Soja • Maio 2016 •

Folha de soja com alta severidade de ferrugem asiática

xamida + estrobilurina. A safra 2015/16 teve comportamento semelhante à safra anterior, porém, os produtores utilizaram em média duas aplicações de triazol + estrobilurina e duas aplicações de carboxamida + estrobilurina, ambas associadas aos multissítios (protetores). Apesar da alta intensidade da doença no estado gaúcho, os produtores que iniciaram as aplicações de fungicidas mais cedo, usaram uma boa tecnologia de aplicação e respeitaram o período residual dos fungicidas, conseguiram ótimo controle das doenças. O objetivo desse projeto foi demonstrar para os produtores os benefícios da aplicação preventiva de fungicidas, orientando os mesmos a anteciparem as aplicações, devido ser um ano de El Niño. As decisões técnicas do projeto em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, foram realizadas pelos pesquisadores Carlos Alberto Forcelini e Carolina Cardoso Deuner, professores do curso de graduação e pós-graduação em Agronomia da Universidade de Passo Fundo. O plantio de soja no Rio Grande do Sul ocorreu mais tarde em relação à safra passada 2014/15. Isso se deu devido à influência do fenômeno El Niño, que causa chuvas acima da média histórica para a região Sul do Brasil. O plantio da soja do projeto De Primeira, Sem Dúvida, da Bayer, no município gaúcho de Passo Fundo ocorreu no dia 23/11/2015, com

emergência em 29/11/2015, sendo que nesse período houve precipitação de 70mm na área. Apesar do excesso de chuva, a população de plantas estabelecida foi adequada para a cultivar. Em anos mais chuvosos, como foi o caso da safra 2015/16, destaca-se a importância do uso de tratamento de sementes, com o objetivo de permitir que as plantas se desenvolvam em condições de estresse pelo excesso de chuva. Pensando em doenças de parte aérea, a ferrugem asiática foi a doença que predominou, sendo detectada em 27/7/2015 em soja voluntária e 3/12/2015 em soja de área comercial. Isso indica que a doença já estava presente na região e por isso recomendou-se que o produtor antecipasse a aplicação de fungicida na parte aérea, conforme indicação do projeto. No mês de dezembro, a soja se desenvolveu bem. Apesar do excesso de chuva, houve precipitação de 347mm na região, sendo que esse valor foi 200% acima da média histórica da região, característica típica em anos de El Niño. Essa situação favoreceu a ocorrência da doença, além de aumentar a sua intensidade nas lavouras. Os produtores tiveram dificuldade de fazer as aplicações de fungicidas devido ao excesso de chuva, e esse atraso com certeza reduziu a eficiência de controle da doença, seja utilizando triazol + estrobilurina ou carboxamida + estrobilurina. Naquele mês foram cadastrados


Bayer CropSciences

10 • Maio 2016 • Soja • www.revistacultivar.com.br

Captação de energia solar por parte de planta de soja

no site do consórcio antiferrugem mais de 62 focos de ferrugem asiática no Rio Grande do Sul, sendo metade destes em área comercial. A doença não foi detectada em dezembro na área do projeto, porém, dentro da área experimental da UPF, já existiam focos da doença. Ela foi detectada na área do projeto no dia 12/1/16, portanto, a primeira aplicação de fungicida no momento correto foi preventiva (antes do contato do patógeno com o hospedeiro). Em janeiro ocorreu precipitação de 190mm, porém, houve veranico de 15 dias (11 a 25 de janeiro). Com base em experiência de anos anteriores, os produtores que fizeram a aplicação de fungicida, mesmo em condições climáticas desfavoráveis, conseguiram controlar a doença após o retorno das chuvas, diferentemente daqueles que não fizeram essa aplicação. Portanto, foi recomendado ao produtor que, mesmo em condições de clima mais seco, mantivesse a programação de aplicação de fungicidas,

preferindo horários em que a planta estivesse mais hidratada com o objetivo de reduzir problemas com fitotoxicidade. No mês de fevereiro, a doença evoluiu rapidamente na região, estavam programadas quatro aplicações de fungicida na área do projeto, sendo que foi necessário elaborar mais uma com intervalo de 14 dias, para não comprometer o rendimento. Essa mesma situação foi verificada em área comercial, sendo que os produtores, de maneira geral, fizeram uma aplicação a mais do que o programado em função da alta pressão da doença. Na área do projeto, a severidade de doença chegou a 90% na testemunha sem fungicida, 50% no momento correto e 65% no momento atrasado. Com relação ao rendimento, verificou-se que o da soja foi 66,8sc/ha, quando procedeu-se a aplicação de fungicidas no momento correto, e de 58,1sc/ha, quando os fungicidas foram aplicados no momento atrasado, contabilizando diferença de 8,7 sacos/ha a mais para o manejo correto, enquanto que

a testemunha sem aplicação de fungicidas produziu apenas 38,5sc/ha. Observando-se o rendimento da soja em todas as áreas do projeto, foi possível afirmar que na safra 2015/16, houve incremento de 4,55sc/ha para os tratamentos que utilizaram aplicações de fungicida de maneira correta de acordo com pesquisadores e fitopatologistas (preventiva). Já a área de manejo atrasado da doença apresentou uma média 7% menor, evidenciando por mais um ano que os danos causados por doenças na cultura da soja reduzem a rentabilidade do produtor. O projeto De Primeira, Sem Dúvida comprovou mais uma vez que as estratégias de manejo anteriormente explanadas são de suma importância para o sucesso e C a sustentabilidade do negócio.

Carolina Cardoso Deuner, Universidade de Passo Fundo Mattheus Winck, Bayer

Encarte Técnico: Soja • Circula encartado na revista Cultivar Grandes Culturas • nº 204 • Maio 16 • Capa - Bayer CropScience Reimpressões podem ser solicitadas através do telefone: (53) 3028.2075

www.revistacultivar.com.br


www.revistacultivar.com.br • Encarte Técnico • Maio 2016 •

03

Ameaça inicial DuPont Pioneer

Bastante sensível ao ataque de pragas iniciais, a cultura do milho necessita de muito cuidado e proteção para que possa expressar todo o seu potencial produtivo. Por isso, ao realizar o manejo de insetos como percevejos e lagartas-do-cartucho, observar algumas fases é fundamental. É o caso de conhecer o histórico e identificar corretamente as pragas, realizar a dessecação antecipada e o monitoramento para uso de inseticidas, lançar mão de tecnologia Bt e tratamento de sementes, além do monitoramento criterioso após a implementação da lavoura


04 • Maio 2016 • Encarte Técnico • www.revistacultivar.com.br Gráfico 1 - Calendário de pragas e doenças da cultura do milho

Fonte: Departamento técnico da DuPont Pioneer

de verão como de safrinha. Os casos mais complicados ocorrem em áreas que não foram monitoradas ou, então, foram mal dessecadas. Outro grande problema são as áreas vizinhas: áreas de trigo, no caso de lavouras de verão; e áreas de soja, em caso de lavouras de milho safrinha. Quando o produtor descuida do controle de percevejos no trigo ou na soja, a tendência é de que migrem para a área de milho causando danos muito fortes. Na figura 1 é possível observar o percevejo barriga-verde (Dichelops spp.). Com a adoção do sistema de plantio direto e o cultivo da safrinha, algumas espécies foram favorecidas, principalmente as que possuem habilidade de mudar seu hábito alimentar, como

HISTÓRICO E IDENTIFICAÇÃO DAS PRAGAS

Conforme é possível observar no Gráfico 1, as principais pragas que atacam o milho nas fases iniciais são corós, larva-arame, percevejos, lagarta-rosca, lagarta-do-trigo, larva-de-diabrótica e lagarta-do-cartucho. Todas essas pragas podem causar perdas de produtividade. Entretanto, percevejos e a lagarta-do-cartucho merecem atenção especial.

é o caso do percevejo barriga-verde (Dichelops spp.) (Panizzi, 1999, 2000). Estes percevejos frequentemente são encontrados em plantas hospedeiras durante a entressafra (trapoeraba, indigofera, crotalária, capim-braquiária, joá-bravo, maria-pretinha, caetê, azevém e soja voluntária) ou podem entrar em estado de hibernação sob folhas e restos culturais, no final do outono e início do inverno (período em que há redução de temperatura e fotoperíodo). No início da primavera, com o aumento da temperatura, o percevejo sai do período de hibernação e procura uma fonte de alimento para recuperar seu peso corporal gasto durante este período, coincidindo com o período de emergência do milho, o

Fotos DuPont Pioneer

S

ão vários os fatores que podem causar diminuição de produtividade na cultura do milho. Destacam-se pragas, doenças e competição de plantas daninhas. Nas fases iniciais, o milho é muito sensível aos danos das pragas, que podem causar intensa desfolha e até mesmo perda de estande na lavoura, resultando em redução significativa de produtividade. Uma boa estratégia de manejo para o controle das pragas do milho passa por quatro fases: histórico e identificação das pragas; dessecação antecipada e monitoramento para uso de inseticidas; escolha da tecnologia Bt e tratamento de sementes; monitoramento da lavoura implementada.

PERCEVEJO

Desde a década de 1970, o percevejo era considerado praga secundária do milho, entretanto, ano após ano, vem ganhando cada vez mais importância e atualmente já pode ser considerado praga-chave em quase todas as regiões produtoras de milho, tanto

Figura 1 - Presença do percevejo barriga- verde em folha de milho


www.revistacultivar.com.br • Encarte Técnico • Maio 2016 •

05

Figuras 2, 3 e 4 - Danos leves (à esquerda), danos médios (centro) e danos severos (à direita) em lavoura de milho

que o torna uma excelente fonte de alimento. Portanto, o período de vida do percevejo é influenciado por temperatura, fotoperíodo e alimentação. Seu período ninfal pode variar de 26 dias a 33 dias e a longevidade dos adultos de 31 dias a 43 dias. Os danos causados nas plantas de milho são decorrentes da forma pela qual o inseto se alimenta. Para sugar os açúcares e a seiva da plântula de milho o percevejo insere seu estilete no colo da plântula, causando pequenas perfurações. Quanto mais o milho se desenvolve, maior a lesão, formando áreas necrosadas transversalmente na folha, que pode dobrar-se na região danificada (Rodrigo, 2011). Durante sua alimentação o percevejo pode liberar, através da saliva, enzimas que têm efeito tóxico à planta, podendo interferir na formação da espiga. Os danos podem ser classificados em leves, moderados e severos (Figuras 2, 3 e 4). Os danos leves praticamente não causam problema para a planta. Já os médios provocam diminuição do tamanho da espiga e os severos fazem com que a planta, muitas vezes, nem produza espiga. Os prejuízos podem variar de 25% até a perda total da produção (Gallo et al, 2002). Isto se comprova em ensaio conduzido pela Agronomia da Dupont Pioneer, onde foi avaliado o potencial de perda pelo nível de dano (Figura 5 e Gráfico 2). Plantas com nível de dano severo têm dificuldade de se desenvolver e muitas vezes ocorre sua morte precoce. Além do percevejo barriga-verde (Dichelops spp.), outras espécies de percevejos têm sido observadas a campo, provocando danos em milho. É o caso de percevejo-marrom (Euschistus heros), percevejo-verde (Nezara viri-

dula) e Edessa meditabunda.

LAGARTA-DO-CARTUCHO

Há vários anos a lagarta-do-cartucho é considerada a principal praga da cultura do milho, podendo atacar as plantas desde as fases mais iniciais até a fase da espiga. Nas fases iniciais, os danos podem ocorrer com a intensa desfolha, podendo gerar plantas dominadas e com espigas menores. Outro problema nessa fase , conforme é possível observar na Figura 6, reside no fato de que geralmente em anos secos e quentes, a lagarta-do-cartucho pode apresentar o hábito da lagarta-rosca, provocando a chamada planta de “coração morto”, podendo causar uma acentuada redução de estande de plantas. Na safra passada muitos produtores tiveram dificuldade de identificar a praga devido a este dano ser muito semelhante ao de lagarta-rosca. Mas ao serem tocadas as duas

lagartas se enrolam de forma diferente. A lagarta-do-cartucho permanece com as patas para baixo e a rosca as envolve no centro. Já nas fases mais adiantadas (Figura 7), a lagarta-do-cartucho pode furar a espiga, causando danos diretos (grãos avariados), bem como abrir a espiga para a entrada de fungos que irão colonizá-la, podendo gerar podridões de grãos e brotamentos.

LAGARTA-DO-TRIGO

A lagarta-do-trigo é mais comumente encontrada no Sul do Brasil, principalmente em áreas com cobertura de inverno com gramíneas (aveia, azevém). Seu controle é relativamente mais fácil, mas devido à alta população da praga e à sua capacidade de sobreviver se alimentando de palha seca, pode ocasionar perdas de plântulas de milho no momento inicial da cultura. Plantas resistentes de difícil

Planta dominada (dano leve) Planta perdida (dano severo)

Planta normal

Figura 5 - Danos causados por percevejos em espiga de milho


06 • Maio 2016 • Encarte Técnico • www.revistacultivar.com.br Gráfico 2 - Danos causados por percevejos

Fonte: José Carlos Madaloz - Agrônomo de campo da DuPont Pioneer

Fotos DuPont Pioneer

Lagarta-do-cartucho atacando na base

Planta com sintoma do Coração Morto

Lagarta-do-cartucho

controle, como o azevém, podem servir de hospedeiro. Segundo Gassen (1996), em duas noites, uma lagarta do trigo desenvolvida consome uma plântula de milho com duas folhas. Seu dano na planta é um pouco diferente das demais, a praga começa se alimentando nas bordas das folhas em direção à nervura central.

LAGARTA-ROSCA

A denominação lagarta-rosca se deve ao hábito que o inseto tem de se enrolar quando tocado. Tem uma ocorrência maior em solos úmidos, em baixadas ou áreas irrigadas. Seu hábito alimentar é noturno e secciona a planta logo acima do nível do solo, depois podendo transportá-la para a galeria. Normalmente a praga se aloja sob o solo (1cm-2cm), o que dificulta seu controle com inseticidas aplicados na parte aérea.

CORÓS

Figura 6 - Danos causados pela lagarta-do-cartucho nas fases iniciais do milho

Dentre as pragas de solo, há em destaque os dois gêneros de corós, Phyllophaga cuyabana e Liogenys fuscus. Essas pragas são polífagas, portanto, se alimentam de varias espécies, e causam dois tipos de danos para a cultura do milho. O primeiro dano é direto, pois os corós podem se


www.revistacultivar.com.br • Encarte Técnico • Maio 2016 •

07

alimentar de sementes das plantas, diminuindo, assim, o estande da cultura. O segundo é indireto, as larvas de terceiro instar se alimentam das raízes das plantas até o estágio fenológico V4, causando lesões e abrindo porta para que doenças vasculares possam entrar. Além disso, a absorção de água e nutrientes fica comprometida, gerando plantas menores e pouco produtivas. Por serem pragas subterrâneas, o uso de tratamento de semente é o principal método de controle.

DESSECAÇÃO ANTECIPADA E MONITORAMENTO PARA USO DE INSETICIDAS

Depois de conhecer a área, saber quais são as pragas e quando atacam, é chegada a hora de elaborar as estratégias de manejo para o controle efetivo. Toda a estratégia de controle passa por uma atividade básica, em que o monitoramento e o nível de ação são muito importantes. Conforme o Gráfico 3, é preciso pensar na cultura do milho, seja ela verão ou safrinha, desde a cultura antecessora e não apenas do plantio à colheita. Atuando assim, o controle das pragas ocorre em várias fases, diminuindo sistematicamente a sua população em diversas etapas. O resultado disso é a diminuição da pressão de seleção

Figura 7 - Prejuízos causados em espigas de milho pela lagarta-do-cartucho

sobre qualquer método de controle. Para o milho verão, a dessecação antecipada é fundamental para um bom estabelecimento da cultura. Basicamente, o monitoramento deve ser feito sempre em duas etapas: entre 20 dias e 30 dias antes do plantio. Deve-se procurar por lagartas e percevejos, e sempre que forem encontrados vivos, recomenda-se o uso de inseticida. Após a dessecação em pré-plantio, a orientação é para que o

monitoramento seja feito novamente, e encontrando pragas ou plantas daninhas remanescentes, aconselha-se refazer a dessecação usando também inseticidas. Um cuidado especial que deve ser adotado é a rotação, tanto do modo de ação do inseticida, quanto do herbicida. No caso do herbicida, recomenda-se o uso de produtos de contato, já para o caso dos inseticidas cabe uma avaliação do tipo e instar da praga. Para lagartas de instares

Gráfico 3 - Manejo Integrado de Pragas na Cultura do Milho

Fonte: Departamento Técnico da DuPont Pioneer


08 • Maio 2016 • Encarte Técnico • www.revistacultivar.com.br Gráfico 4 - Efeito da aplicação de inseticidas via Tratamento de Sementes Industrial em híbridos de milho BT e não-BT sobre a incidência de plantas rasgadas, aos 9 dias após a emergência (V3). Safra 2014/2015, campo demonstrativo e experimental de Arapoti (PR), Fundação ABC

Pont Pioneer no Paraná, onde foram avaliados os tratamentos de sementes nos diferentes níveis de ataque de percevejo (leve, moderado e severo). Percebe-se claramente que, com o uso de Poncho ®, obteve-se uma forte redução dos danos leves e moderados causados pelo percevejo. Essa prática torna-se fundamental, já que essa praga pode causar danos de produtividade de 15% quando o dano for leve, 32% quando o dano for moderado e de até 90% quando o dano for severo.

MONITORAMENTO DA LAVOURA IMPLEMENTADA

maiores, não é recomendado o uso de inseticidas reguladores de crescimento (fisiológicos). Já no milho safrinha, nem sempre o produtor opta pela dessecação antecipada da soja. Entretanto, o monitoramento em pré-colheita da soja é importante, não só para a lagarta-do-cartucho, mas principalmente para os percevejos. Ao encontrar um percevejo vivo por metro é aconselhado que o controle seja realizado, já que esta prática entrega ao milho uma população inicial menor de percevejos.

ESCOLHA DA TECNOLOGIA BT E TRATAMENTO DE SEMENTES

A DuPont Pioneer oferece aos produtores a tecnologia Leptra ® de proteção contra insetos, a melhor opção para auxiliar no controle das sete principais lagartas que atacam a cultura do milho. Essa tecnologia é mais uma ferramenta que, associada às boas práticas de manejo (dessecação antecipada, tratamento de sementes, adoção de área de refúgio estruturado efetivo, controle de plantas daninhas e voluntárias, monitoramento de pragas e pulverizações complementares e rotação de culturas), auxiliará no controle das populações deste inseto. Na safrinha 2016, a DuPont Pioneer passou a oferecer aos agricultores o Tratamento de Sementes Industrial (TSI) com o inseticida Dermacor ®, associado aos inseticidas do grupo dos neonicotinoides (Poncho ® ou Cruiser ®). A associação destes tratamentos auxilia os produtores na proteção das plantas

nos estádios iniciais da cultura, no manejo da resistência de lagartas à tecnologia Bt, amplia o espectro do controle das pragas, além de trazer maior segurança na aplicação com maior precisão na dose e cobertura das sementes. Conforme se observa no Gráfico 4, o uso do Dermacor® proporciona mais segurança para o estabelecimento inicial da lavoura. Trabalhos realizados pela Fundação ABC mostram que a incidência de plantas cortadas por lagarta-do-cartucho foi estatisticamente inferior quando comparada com a testemunha. Olhando a população final no Gráfico 5, é possível perceber que neste estudo o uso de Dermacor® acresceu em quase 20% o número final de plantas na lavoura. A população final de plantas é o componente mais importante do rendimento e é uma característica específica de cada híbrido. Em relação às plantas raspadas por insetos mastigadores, o uso do TSI (Dermacor ® + Poncho ®) é uma excelente opção, pois o residual do produto fornece proteção à planta, conforme a pressão da praga, até o estádio V2/V3. Além da proteção, nesse momento de suscetibilidade, o TSI promove o manejo da resistência, uma vez que trabalha com mais um modo de ação, além das proteínas Bt. Outro benefício do uso do TSI se dá em relação ao controle de percevejos, pois os neonicotinoides são peças fundamentais para o controle dessa praga. O Gráfico 6 mostra um resumo de trabalhos realizados pelo departamento de agronomia da Du-

Depois que a cultura está implementada, o monitoramento da lavoura, principalmente nos estádios iniciais da cultura, é fundamental. Para isso, para cada tecnologia ou praga, diferentes níveis de danos determinam as ações a serem seguidas.

CUIDADOS PARA PROLONGAR A DURABILIDADE DA TECNOLOGIA LEPTRA®

A utilização da tecnologia Leptra® requer a adoção de boas práticas agrícolas para manter a suscetibilidade das pragas-alvo, prolongando a eficácia e a durabilidade da tecnologia. Como boas práticas gerais, recomenda-se o Manejo da Resistência de Insetos (MRI), que tem como foco principal o uso de refúgio estruturado efetivo e o emprego de inseticidas químicos para o controle adicional de pragas quando necessário.

BOAS PRÁTICAS DE MANEJO: MIP E MRI

Com o objetivo de divulgar estratégias adequadas para a correta utilização e manutenção de plantas geneticamente modificadas resistentes a insetos, a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem) desenvolveu o que atualmente é conhecido como Boas Práticas de Manejo, que incorporam recomendações de práticas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e Manejo de Resistência de Insetos (MRI). O MIP é o sistema de manejo de pragas que associa o ambiente e a dinâmica populacional da espécie, utilizando todas as técnicas e os métodos apropriados, mantendo a população da praga em níveis abaixo daqueles


www.revistacultivar.com.br • Encarte Técnico • Maio 2016 • que ocasionam dano econômico. O MRI foca na redução da pressão de seleção causada pelo uso contínuo de agentes inseticidas (biotecnologias ou inseticidas sintéticos/biológicos), buscando a redução do risco de seleção de indivíduos resistentes e, consequentemente, a evolução de populações resistentes a esses agentes. Isto torna-se um desafio maior nas tecnologias Bt devido à expressão contínua de proteínas em todo o ciclo da cultura. A estratégia mais efetiva no combate à resistência é implantar diversas práticas simultaneamente para retardar sua ocorrência e, para maior efetividade, estas devem ser implantadas antes do seu desenvolvimento. Para tanto, recomenda-se a implantação de programas de MRI como componente de um programa mais amplo de MIP, cobrindo três componentes básicos: monitoramento do complexo de pragas no campo e mudanças na densidade populacional, foco em níveis de dano econômico e integração de múltiplas estratégias de controle. No Brasil, seis estratégias de manejo foram identificadas pela Abrasem, para que o manejo integrado seja realizado com sucesso em tecnologias Bt.

DESSECAÇÃO ANTECIPADA

As culturas antecessoras, assim como as plantas daninhas e voluntárias presentes no ambiente, funcionam como hospedeiras para as prin-

09

Ações específicas de acordo com a tecnologia, praga e níveis de dano Percevejos • Aplicar inseticidas recomendados para o controle quando o nível de dano for atingido (na média um percevejo vivo a cada dez plantas). Lagartas • Área de Refúgio Estruturado Efetivo: aplicar no máximo duas vezes até o estádio fenológico V6 quando, na média das amostragens, 20% das plantas apresentarem nível 3 da Escala Davis. • Híbridos Leptra®: sempre que, na média, 4% das plantas estiverem ao nível 3 da Escala Davis, contate o representante comercial dos produtos marca Pioneer® ou o distribuidor da sua região e verifique a necessidade de aplicação de inseticidas. • Híbridos não Leptra®: aplicar sempre que, na média, 10% das plantas estiverem ao nível 3 da Escala Davis. cipais pragas que atacam a cultura na fase inicial, podendo influenciar a espécie predominante e a pressão inicial das pragas. Em casos de alta pressão de praga, principalmente na presença de lagartas remanescentes da palhada, recomenda-se aplicação de inseticidas no pré-plantio.

TRATAMENTO DE SEMENTES

Considerando o Manejo de Resistência de Insetos, o uso de tratamento de sementes auxilia no estabelecimento de plantas nas áreas de refúgio e serve como diferente modo de ação em áreas Bt na fase inicial de desenvolvimento da lavoura.

Gráfico 5 - Efeito da aplicação de inseticidas via Tratamento de Sementes Industrial em híbridos de milho BT e não-BT sobre a população final de plantas no momento da colheita. Safra 2014/2015, campo demonstrativo e experimental de Tibagi (PR), Fundação ABC

REFÚGIO ESTRUTURADO E EFETIVO

A função da área de refúgio no manejo de resistência de insetos às culturas com a tecnologia Bt é produzir uma abundância de insetos suscetíveis, que irão cruzar com os raros insetos resistentes provenientes das áreas plantadas com tecnologia Bt, reduzindo, assim, a possibilidade de desenvolvimento de populações resistentes. Quanto maior o número de aplicações de inseticidas em áreas de refúgio, menor sua efetividade como ferramenta de MRI. Entretanto, devido à alta pressão de pragas em áreas tropicais, entende-se que a implementação de áreas de refúgio sem nenhuma intervenção na população de pragas não é uma prática viável. Assim, o foco da proposta de refúgio é reduzir ao máximo o número de aplicações de inseticidas, focando apenas no controle de pragas na fase inicial da cultura, janela mais importante para seu estabelecimento.

MANEJO DE PLANTAS DANINHAS E RESISTENTES

Algumas plantas daninhas podem ser importantes hospedeiras para insetos-praga das culturas subsequentes, permitindo que uma quantidade significativa de insetos sobreviva nas áreas de cultivo no período de entressafra. Certas práticas podem contribuir para o controle eficaz das


10 • Maio 2016 • Encarte Técnico • www.revistacultivar.com.br Gráfico 6 - % de controle de percevejo com uso de Poncho®. Avaliação realizada em 280 plantas por tratamento de semente, 20 dias após plantio; Scala Fundação ABC 0-3; Trabalho realizado pela Pesquisa Agronômica (PR). (Robson de Paula, Jasé Madaloz)

ervas daninhas, assim como para a prevenção da resistência aos herbicidas, tais como: 1) Não deixar áreas em pousio: empregar as práticas integradas de manejo de plantas daninhas durante o ano, focando o manejo do banco de sementes (rotação de culturas e coberturas); 2) Começar a cultura no limpo: aplicar um controle efetivo antecipadamente no pré-plantio e, se necessário, usar um pré-emergente em áreas de elevada pressão de plantas daninhas; 3) Utilizar a dose e o momento corretos de aplicação dos produtos no sistema de manejo, observando-se as melhores condições de aplicação; 4) Empregar o manejo pós-colheita: associação de herbicidas com diferentes mecanismos de ação. O manejo inadequado de plantas daninhas e voluntárias pode trazer sérias consequências.

MONITORAMENTO DE PRAGAS E TOMADA DE DECISÃO

O monitoramento de pragas na lavoura é fundamental na tomada de decisão. Essa prática determina a situação das pragas na cultura através da avaliação adequada de incidência e pressão de pragas, danos e prejuí-

zos que podem estar ocorrendo e da definição do momento da aplicação de inseticida. O monitoramento de pragas deve ser realizado de forma que todo o campo seja avaliado, para que a tomada de decisão seja apropriada. Assim, o monitoramento constitui-se como a base de todo e qualquer programa de Manejo Integrado de Pragas, devendo ser uma prática rotineira realizada durante todo o ciclo da cultura. Sempre que for necessário realizar mais de uma aplicação de inseticida, deve-se alternar os modos de ação de maneira a evitar a seleção de insetos resistentes.

ROTAÇÃO DE CULTURAS

Rotação de culturas trata-se da prática de alternar o plantio de diferentes espécies da cultura na mesma área agrícola. Como ferramenta de MIP e MRI, a escolha das espécies para a rotação de culturas deve focar em culturas diferentes, que não expressem a(s) mesma(s) proteínas Bt, ou culturas que não sejam hospedeiras das pragas de maior importância na área, para a quebra da janela de exposição e redução na pressão de população. O estabelecimento de uma janela livre de hospedeiros ajuda a reduzir a densidade de pragas e a

seleção de existência. Benefícios associados à rotação de culturas incluem: 1. Controle de doenças 2. Controle de pragas 3. Controle de plantas daninhas 4. Reciclagem de nutrientes 5. Aumento da produtividade do sistema A DuPont Pioneer tem o compromisso de entregar aos produtores novas tecnologias que melhorem o controle das pragas, assim como levar informações úteis para prolongar a sua durabilidade. O Manejo Integrado de Pragas permite, através da adoção de diferentes práticas, atacar o problema de forma sistemática, diminuindo as possibilidades de falha de controle que geram perdas de produtividade. A adoção efetiva destas medidas por parte dos produtores resulta em um esforço conjunto na direção do aumento da C rentabilidade.

Fabrício Passini José Carlos Madaloz DuPont Pioneer Híbridos marca Pioneer® com tecnologia Leptra ® de proteção contra insetos - disponível também em versão tolerante ao herbicida glifosato.

Agrisure® e Agrisure Viptera® são marcas registradas utilizadas sob licença da Syngenta Group Company. A tecnologia Agrisure® incorporada nessas sementes é comercializada sob licença da Syngenta Crop Protection AG. Tecnologia de proteção contra insetos Herculex® desenvolvida pela Dow AgroSciences e Pioneer Hi-Bred. ® Herculex e o logo HX são marcas registradas da Dow AgroSciences LLC. LibertyLink® e o logotipo são marcas registradas da Bayer. ® YieldGard é marca registrada utilizada sob licença da Monsanto Company. Poncho® é marca registrada da Bayer S.A. Cruiser® é marca registrada da Syngenta Proteção de Cultivos Ltda. As marcas com ®, ™ ou SM são marcas e marcas de serviço da DuPont, Pioneer ou de seus respectivos titulares. © 2016 PHII

Encarte Técnico • Circula encartado na revista Cultivar Grandes Culturas • nº 204 • Maio 2016 • Capa - Pioneer Reimpressões podem ser solicitadas através do telefone: (53) 3028.2075

www.revistacultivar.com.br


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Cultivar 204 by Grupo Cultivar - Issuu