Adriano Macedo [Org.]
Aluísio Azevedo . Alfredo Camarate . João do Rio . Lima Barreto . Alcântara Machado . Ferreira Gullar . Antonio Barreto . Heródoto Barbeiro . Luiz Vilela . João Paulo Vaz . Ivan Angelo . Vivina de Assis Viana . Clarice Lispector
Retratos da Cidade
Aluísio Azevedo . Alfredo Camarate . João do Rio . Lima Barreto . Alcântara Machado . Ferreira Gullar . Antonio Barreto . Heródoto Barbeiro . Luiz Vilela . João Paulo Vaz . Ivan Angelo . Vivina de Assis Viana . Clarice Lispector
Retratos da Cidade
Adriano Macedo [Org.]
Aluísio Azevedo . Alfredo Camarate . João do Rio . Lima Barreto . Alcântara Machado . Ferreira Gullar . Antonio Barreto . Heródoto Barbeiro . Luiz Vilela . João Paulo Vaz . Ivan Angelo . Vivina de Assis Viana . Clarice Lispector
Retratos da Cidade
Coyright de “Prefácio” © 2014 by Roberto DaMatta Copyright de “Ferro-velho” © Boitempo Editorial, 2007 Copyright de “A bela e a fera ou A ferida grande demais”, Felicidade Clandestina © Herdeiros de Clarice Lispector, 2014 Copyright © 2014 os autores Copyright © 2014 Autêntica Editora Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da Editora.
edição geral
Sonia Junqueira (T&S – Texto e Sistema Ltda.) revisão
Eduardo Soares Lúcia Assumpção projeto gráfico
Christiane Costa diagramação
Christiane Morais Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Retratos da cidade / Adriano Macedo, (org.). -- Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2014. Bibliografia. Vários autores. ISBN 978-85-8217-335-0
1. Literatura brasileira I. Macedo, Adriano.
14-00260
CDD-869.9
Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura brasileira 869.9
Belo Horizonte Rua Aimorés, 981, 8º andar . Funcionários 30140-071 . Belo Horizonte . MG Tel: (55 31) 3214 5700 Televendas: 0800 283 13 22 www.autenticaeditora.com.br
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7
Prefácio
13
O Cortiço
Aluísio Azevedo
33
Por montes e vales
Alfredo Camarate
39
A Era do Automóvel
João do Rio
47
O moleque
Lima Barreto
63
Gaetaninho
67
E durma-se com um barulho desses
Ferreira Gullar
71
Milagre de papel
Antonio Barreto
77
Ferro-velho
Heródoto Barbeiro
83
Rodoviária
Luiz Vilela
89
Château d’Orly
João Paulo Vaz
99
O pirata das colinas
Ivan Angelo
103
Café na esquina, lembra?
Vivina de Assis Viana
107
A bela e a fera ou A ferida grande demais
Clarice Lispector
Roberto DaMatta
Alcântara Machado
7
Prefácio
N
os tempos antigos que eu ainda alcancei — quando os animais falavam menos que hoje, havia um fosso entre o certo e o errado e Deus ainda estava vivo — as cidades se distinguiam do campo (ou do “interior”) de modo absoluto. Nelas — e o seu paradigma no Brasil era o Rio de Janeiro, chamada de Cidade Maravilhosa — havia não apenas a paisagem, mas todo um equipamento mecânico e, sobretudo, comportamental que os caipiras das aldeias desconheciam. Por isso, todos os que as tomaram como objeto de reflexão sociológica ou literária, como é o caso desta antologia, foram unânimes em vê-las como máquinas de anonimato, de impessoalidade, de individualismo, de opressão, revolta e solidão. No campo, com seu caipirismo e imobilidade nada acontecia; as cidades, porém, eram abundantes em novidades; nelas, o futuro estava presente. Desde Edgar Allan Poe e Conan Doyle até O. Henry e Maupassant, sem esquecer o grande Balzac e o excepcional
8 . Roberto DaMatta
Machado de Assis, o tecido urbano oscila entre ser maior ou menor do que suas aranhas. Muitas vezes seus habitantes são engolidos pelo gigantismo avassalador e desumano dessa teia que envolve casas, edifícios, favelas, avenidas cheias de luzes, praças tão ou mais bem cuidadas do que nossas salas de visita, comércio abundante e variado, e acima de tudo, uma dinâmica especial. O “movimento”, como falamos no Brasil. Esse dinamismo causador de encontros, acidentes e milagres que corresponderia ao trabalho de suas aranhas. Essas aranhas que tecem sem cessar, mas seguindo uma lógica característica. Um estilo, no qual chama atenção uma aparente e necessária indiferença. Essa ausência de compaixão que os sociólogos viram como parte e parcela de uma comunidade humana espacial e revolucionária porque ela seria enorme, ela não permitiria um conhecimento concreto e acabado, ela não seria viável sem instituições típicas e singulares — transporte urbano, filas, rapidez, polícia e muita coisa artificial: da água à comida vendida em pacotes nas suas esquinas, sem esquecer a luz. Pois as cidades jamais dormem, como canta aquele “New York, New York” de Frank Sinatra. Acordadas e sempre se autotecendo, a malha citadina promove espaços e temporalidades especiais e produz seu próprio plano, estilo ou realidade. Certas coisas, conforme falamos, só poderiam ocorrer conosco em São Paulo ou Roma; ou no Cairo ou Chicago; ou no Rio de Janeiro e Manaus. Do mesmo modo e pela mesma lógica, contamos aos mais jovens ou aos mais chegados: eu só fiz aquilo porque estava em Paris; aqui em Vira Lata nem pensar... Diferentemente das aldeias e das “cidades pequenas”, conforme falamos no Brasil, as “grandes cidades” não controlam ninguém e não conhecem seus habitantes. A menos que eles sejam construtores de teias, como ocorre com as celebridades.
Prefácio . 9
Mas a fama é relativa no enorme palco urbano. Um malandro é um ator principal na favela e um marginal no jornal diário, o qual tenta dar conta do seu cotidiano impossível de ser pautado. Impossível desde a velha Roma, conhecer todo mundo e ir a todas as festas neste tipo de comunidade. E a ausência de saber quem é quem produz em cidade, talvez mais do que na cidade, esses casos que o leitor pode desfrutar, graças ao generoso talento deste conjunto de autores reunidos por Adriano Macedo neste livro. Nele, a teia e as aranhas surgem ora em conflito ora em harmonia, ora — ainda — em descobertas mútuas ou confirmações brutais e odiosas. Dir-se-ia que os autores do final do século passado — e eu estou pensando nos textos de Aluísio Azevedo, Alfredo Camarate, João do Rio, Lima Barreto e Alcântara Machado — acentuam e trabalham precisamente uma surpresa negativa para com o tecido urbano que começa a ser impregnado de um individualismo igualitário incipiente, o qual produz iniciativa e libera ambições numa movimentação que uma sociedade brasileira recém-saída da escravidão e ainda muito bem marcada pela hierarquia aristocrática, olha e vive — como corre até hoje — de modo negativo. Nelas há a visão caridosa do escritor a condenar o português ambicioso que — empreendedor — enriquece às custas de ex-escravos a ele ligados por laços pessoais e clientelísticos, do mesmo modo que existe a nostalgia um tanto autocondescendente do moleque negro e pobre que, entretanto, vai fantasiado de Diabo ao Carnaval e ama o cinema; como há a morte do pobre paulistinha sem eira nem beira. É notável o papel da casa e da família em todos os contos, dos antigos aos contemporâneos. Muda-se de espaço, pois a casa pobre ou o cortiço não são mais os palcos de encontro e de drama. Há agora o bairro paulista pobre e o viaduto
10 . Roberto DaMatta
transformado em vivenda (nos contos de Alcântara Machado e Antônio Barreto), mas persiste a referência a um grupo, aos vizinhos e à família — sobretudo à mãe — como um centro ordenador indispensável da vida social. Ausente desta teia urbana nacional está o aventureiro isolado, o indivíduo anônimo que vagueia pelo mundo ou nele está absolutamente isolado, como ocorre na literatura de um Poe, Doyle, Maupassant ou Charles Dickens. Foram-se as casas pobres, mas surgem os apartamentos e os condomínios onde todos se sentem mais ou menos em família e mais ou menos como indivíduos. Um conto trabalha uma zona liminar absoluta — a rodoviária lida por Luiz Vilela —, na qual a forma permite vislumbrar o desalinho de vidas e temas que são ordenados por uma recorrente marca de refrigerante! Afora isso, temos uma visão da malha urbana como determinante de suas aranhas. O conto de Heródoto Barbeiro surpreende pelo uso do anonimato pelos meninos que abusam do ferro-velho para comer livremente doces citadinos; do mesmo modo que a desorientação marca a história de Vivina de Assis Viana e a estrutura de classe delimita as vidas do Château d’Orly do João Paulo Vaz numa narrativa que coloca a olho nu a nossa dificuldade de viver sem precisar saber com quem se está falando. Ou de se imaginar vigiado por olhos estranhos e maldosos que, no entanto, faziam outra coisa, como revela Ivan Angelo numa história deliciosa. Salta aos olhos o texto de Clarice Lispector que fecha esse ciclo de vivências urbanas inauguradas com o clássico de Aluísio Azevedo. Nela há o encontro não marcado da bela dondoca com o mendigo abjeto, ambos religados pela lâmina subjacente de uma robusta consciência de culpa que hoje faz parte de nossas vivências urbanas. A nota de quinhentos compra (ou esconde e cura?) a repugnante ferida do mendigo do mesmo modo que as luzes da cidade têm comprado as nossas ilusões
Prefácio . 11
de que a vida com desconhecidos seria melhor e traria mais felicidade do que a antiga vida nas aldeias. Que o leitor aproveite e goze dessas fantasias que revelam tão nitidamente a nossa reação à vida moderna com seus individualismos, suas ambições desmesuradas e seus encontros milagrosos. Para um observador formado em Antropologia Social, dá gosto ler esta coleção, em que os autores se complementam e não tentam superar uns aos outros, como é comum nas chamadas “ciências sociais”. Aqui a teoria está na teia, nas aranhas e, sobretudo, em quem as reinventou. Roberto DaMatta Antropólogo Jardim Ubá, 12 de outubro de 2013
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